quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mosaico


Quarenta dias após a entrada em vigor da lei “Cara-limpa, bunda-suja”, de autoria do nosso iluminado burgomestre, cujo lema de “governo” (risos incontinentes) está na boca do povão (“silêncio pouco, meu chilique primeiro”), a imagem da cidade é a esperada. Os quitandeiros, açougueiros de bairro, barbeiros, donos de butiquins e mercadinhos tiveram que dar seu jeito e sumir com as placas alusivas a suas atividades comerciais, ofensivas aos olhos sensíveis do povo paulistano, sabidamente cultor da beleza e do equilíbrio estético – vide cartões postais da cidade como a Av. Paulista, o Minhocão do Tio Salim, a Av. do Estado pós-canalização do Tamanduateí e as obras-primas da arquitetura nas quais a nossa classe média faz questão de se empoleirar. Alguns até, demonstrando perfeita sintonia com a clareza de propósitos da legislação municipal, jogaram lonas pretas sobre seus estandartes publicitários, fazendo do ruim pior. Outros, de melhor gosto, como a padaria pertinho de casa, retiraram os toldos, placas e luminosos, deixando à mostra a beleza da fachada característica dos sobradões lapeanos do começo do século passado. Só que quem viu, viu. Dois dias depois, órfãos de uma certa exuberância visual, cobriram os frontais, de alto a baixo, de um mosaico de lajotinhas brancas e cor-de-abóbora da mais ordinária procedência. Enquanto isso, na sala de justiça, os postos de gasolina, bancos, grandes supermercados etc. continuam reafirmando por quarteirões inteiros, mais do que suas logomarcas, sua condição senhorial sobre esta terra de (quase) ninguém.

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Os jornais estamparam esta semana as cores sombrias e degradantes de mais uma chacina na cidade de São Paulo, aqui pertinho, no Jaraguá, lugar de muitos quintais amigos há tempos. Sete jovens, o mais velho com 22 ou 23 anos, assassinados em praça pública, com requintes de perversidade e violência. Até aí, a gente vai sentindo mais uma punhalada dessa seqüência aparentemente interminável que sabemos nos há de matar, só restando esperar a hora em que vá parar de doer. A pérola da vez coube ao delegado responsável pela circunscrição onde ocorreu o crime. A “otoridade” (sem risos) disse, sem pudor, sem tentar disfarçar, como em outros tempos, que se trata de “briga de vagabundos”. Questionado sobre o fato de nenhuma das vítimas ter passagens policiais, ou sequer ser apontada por testemunhas ou informantes policiais como envolvida em atividades criminosas, o gênio da raça retruca ao repórter: “Você também não tem passagem pela polícia; não é por isso que não pode matar ninguém”, ou coisa que o valha, porque eu acabei de comer e não estou com vontade de abrir o jornal pra conferir. Como se a essa “pessoa” fosse dado emitir alguma opinião pessoal sobre o caráter do que deveria ser, numa civilização, tratado como tragédia. Como se a suposta condição de qualquer das vítimas tivesse um mínimo de relevância sobre a dimensão social e, sobretudo, jurídica do ocorrido e sobre seu conseqüente dever como agente público. Agora, só não sei é como explicar a um amigo suíço que o governador (risos amarelos) José Banana-de-Pijama Serra faz ouvidos de mercador e não toma absolutamente nenhuma providência em relação ao seu subordinado - pra não dizer preposto -, mais ocupado, certamente, em entronizar no posto máximo da emissora de televisão paulista a expressão privilegiada do chapa-branquismo tucano travestida de jornalista. Aquele a quem a querida Railídia, numa noite perdida de um buteco que ainda finge que existe, impediu que eu e Marcão Gramegna, bêbados como porcos, ministrássemos algumas lições de “convivência democrática” que meu avô austríaco me repassara, aprendidas de um velho lutador de circo.

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A visita do Papa Bento XVI ao Brasil certamente nos possibilitaria reflexões de variadíssimas ordens, a grande maioria das quais incompatíveis com o caráter deste espaço. Só umazinha me permito compartilhar aqui: a desnudação impudica da indigência intelectual/cultural da grande imprensa brasileira. Porque se a completa falta de preparo e de compromisso com qualquer coisa que não seja o óbvio ululante (estou hoje sentindo prazer especial em abusar das expressões condenadas pelos manuais de redação, esses monumentos à cristalização das arbitrariedades irrefletidas, nome completo da burrice) nos é atirada à cara todos os dias, quando se está diante de qualquer fato cuja complexidade supere minimamente as análises futebolísticas ou as metáforas do magistrado supremo da nação, a disparidade chega às raias do intolerável. Veja-se o exemplo da nossa gloriosa Folha de S. Paulo a pobre menina rica dessa disnastia oriunda da pior combinação entre o servilismo, o favorecimento oficial e a padronização ideológica que campeou nos meios jornalísticos durante todo o século XX, representada por um time cuja braçadeira está atualmente nas mangas de um Clóvis Rossi da vida, aquele que domina com maestria inigualável a arte de não dizer absolutamente nada hoje e o inverso (veja-se que inverso não é contrário...) daqui algum tempo. Incompetente para tecer qualquer análise minimamente relevante do fenômeno reportado, perde-se pateticamente em carnavalizações de frases esparsas aqui e ali, venham elas do próprio pontífice, do presidente da República ou do monsenhor responsável pelo engraxamento dos sapatos escarlates de Sua Santidade; chegando, em sua sanha de explicar o que não precisa ou não deve ser explicado, onde nenhum homem jamais esteve. É de se guardar o quadrinho explicativo da edição de hoje sobre os trajes papais. Só faltaram, mesmo, os comentários do costureiro larápio, pra saber se o alemão está in ou out.

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A melancólica eliminação do time do Flamengo da Copa Libertadores dá a dimensão simbólica que faltava a algo que por si só sempre foi de uma evidência acaciana: a completa insignificância do campeonato estadual do Rio de Janeiro. Que de resto, diga-se de passagem, não difere substancialmente da banalidade dos outros vinte e sete que se espremem país afora nos primeiros meses do ano, como consolo para a enorme massa de times alijados das três divisões do campeonato nacional. Só não vê quem não quer, e acho bem bom, até, não querer. A comemoração de domingo é justíssima, válida, legítima e todas as outras adjetivações que estou com preguiça de procurar, jamais discutirei, bem como o aborrecimento dos vencidos. Acho, inclusive, invejável como os queridos amigos do Rio se relançam a paixões que julgava eu fossilizadas, mas se prova estarem até recentemente apenas em estado cataléptico. E é só a isso que se presta o derreado torneio, é o que procuro aqui firmar, um campeonato de três times, com a melhor das boas vontades. Aos botafoguenses restando, pois, segundo a interpretação otimista ou pessimista que leva a reputar-se o mesmo copo meio cheio ou meio vazio, comemorar o vice-campeonato, ou lamentar a penúltima colocação.

5 comentários:

  1. Fernandão, o tal do prefeito deve ser palmeirense como você. Mandou a gente tirar do nosso muro da marginal a verdade mais absoluta da face da Terra: Corinthians, 1º Campeão Mundial.

    De resto, tá ficando muito feio esse negócio de que quem é pequeno, tira o luminoso. Quem é grande, pode deixar. E a pergunta que eu deixo é: o que farão os donos daquelas casas de diversão masculina na rua Augusta?

    Além disso, melhor descrição sobre Clóvis Rossi não há. Fala muito sobre nada e ainda se desmente.

    E o tal do papa me rendeu, apenas, duas horas para chegar ao trabalho hoje. Tô meio nervoso com ele...

    Abraços!

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  2. Craudião: Quem obrigou vocês a tirarem aquela inscrição que teve status de verdade, reconheça-se, por algum tempo não foi o prefeito. Foi a FIFA! Saudações alvi-verdes!

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  3. zé sergio14/5/07 16:12

    Parabéns pela vitória do Parmêra. E aguardo seu pronunciamento sobre o maiúsculo resultado obtido pelo Glorioso no Beira-Rio. Sze, cá entre nós, o Botafogo vai sobrar neste certame balipodal.

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  4. Augusto Diniz16/5/07 17:21

    Tá com a caneta afiada. O campeonato paulista foi patético este ano. Cidade-limpa foi esquema do prefeito pra ganhar a grande mídia, a maior beneficiária da história. Ela tá recebendo a verba que cobria parte da pobreza da cidade. O problema dos colunistas (e estendo isso a muitos blogueiros) do País é que a maioria não sai de frente do computador. Enxerga o mundo de forma virtual. Aí fala daquilo que mexe com a sua existência curta. Você lê uma, duas, três vezes e larga. Daí, você descobre que no botequim da esquina tem gente com idéias melhores.

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