terça-feira, 18 de julho de 2006

Ela vestiria seu vestido tão azul

Juliana Amaral


No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul, que caindo solto sobre seu corpo pequeno desenharia os seios pontudos e as carnes ainda redondas. Traria nos olhos castanhos, grandes e assustados, o peso das encarnações todas, molhados de uma saudade antecipada. Dentro do peito agora azul haveria o coração vermelho que sabe, sempre soube, dos monstros atrás das portas e dos fantasmas sob os tapetes. No coração grande tantas prateleiras ocupadas, bagagem pesada a dela, carrega no peito seu o amor de outras tantas carnaturas, as palavras, os filhos, os homens, os sons e os ventos todos, as águas sem fim.

Sabia que chegaria o dia anunciado, a partida premeditada desde o primeiro dia, nada prenderia aqueles olhos, aquelas mãos, nem o enredo das suas palavras, nem seu corpo habilidoso e fácil, nem seus olhos tristes, nem o riso solto. Talvez a voz pudesse, vento que sai da garganta em busca do porto seguro dos ouvidos continentes, e que suspendendo o mundo longe do chão carrega seu umbigo feminino pra dentro da casa dos homens e lá fica, como uma lembrança boa, como um desejo sujo. Mas a sua voz que ele pouco quis ouvir, teia de aranha safada, rebenta diante do corpo masculino e duro deste homem que agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina.

Na sua mala que fica o fardo da mulher que tem o coração e os olhos maiores do que as pernas, a alma despudorada que quer a pequena delícia das possibilidades, e as mãos infantis que não sabem desenhar mas que adivinham o contorno do mundo. Nos bolsos do homem todos os espaços vazios, os caminhos abertos, o tempo que o convida e o espera, generoso, para ser reconstruído e mudado em movimento e cor, as linhas fugidias desembaraçadas de quem não tem nada a perder, e a solidão espreitando como um velho no canto da sala, que um dia sem mais nem menos aparece pra jantar e senta na cabeceira da mesa, depois toma a cama, o banheiro e o quintal. E guardado no altar dos dias deles vividos um por um, a vontade compartilhada e secreta, os nomes, os lugares e as alegrias que só eles conhecerão, a memória do corpo intransferível, a urgência que jamais poderá ser roubada.

No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul e ela estaria pronta, sanguínea e delicada, com seu amor tecido em doação numa mão e seu silêncio na outra, os dentes aparecendo tímidos atrás do sorriso atrapalhado, molhado do choro que cai bonito dos olhos, e sem espanto, ela entregaria a flor sobrevivente e desmanchada nascida do tormento doce do seu coração vulcânico.


Ele agora partiria simples e reto

Ele agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina. Seu corpo firme rasgaria o ar no seu caminhar assertivo e atravessaria a porta, a rua e o mundo inteiro como um punhal atravessa a pele no golpe desferido, liso, úmido e fácil, porque sabe que não é a força mas sim o jeito que penetra a faca até o fim, não é o quanto a mão aperta a empunhadura mas o tanto que o braço empurra o peso do corpo pra dentro da carne, num movimento que nasce na cintura e encerra do outro lado no vazio que começa onde termina a pele das costas.

Os olhos de menino e o gesto inquieto deles nascido anunciariam a partida. No gesto, as mãos fazedoras das linhas aonde mora o infinito, mãos que redesenhavam o corpo dedicado da mulher pequena e delimitavam seus contornos, reconstruindo de novo sua pele no ar, e definiam a largura e a altura, moldavam a cintura, as ancas, a nuca, os seios, as pernas, a boca, o sexo, que se tornavam então subita, deseperada e urgentemente seus. O mesmo gesto que dava forma ao vazio das palavras inexistentes era a voz sem corpo da sua alma sem pouso. A alma sem pouso do homem assim partiria porque era da sua natureza, porque não havia casa, ele presumia, que lhe fosse continente, e sobretudo porque o tempo o empurrava incansavelmente, o chamava, e esperava.

E haveria a mulher com seu vestido tão azul, linda como uma tarde vermelha, com os olhos tão grandes e tão doídos, tão feminina, tão insuportavelmente feminil. E teria vontade de ter de novo aquele corpo, morder as carnes macias, e ouvir a voz e afogar a cara nos cabelos, e ficar ali dentro no quente das suas coxas, no silêncio dos seus braços, no fervor das suas preces.

Ele agora partiria simples e reto como uma lâmina e atravessaria a porta e a rua como uma flecha, seus bolsos iriam vazios e seu coração iria fingindo um desprendimento que sua alma queria tanto acreditar, e o medo estaria atrás da sua orelha direita todo o tempo, mas o pânico da eternidade vestido de coragem cavalheiresca seria ainda maior do lado esquerdo, e a roda giraria então para frente, a menos que ele percebesse que bastava uma única palavra para acalmar o cavalo selvagem em seu peito de menino, uma única palavra apenas para libertar o choro de tantas infâncias.

Ele não ouviria a palavra, ele não diria nada. Seu corpo-monolito partiria com medo e coragem, não sem antes recolher embaraçado a flor ofertada, e apesar da dúvida monstruosa que inesperadamente se apossaria do seu coração masculino, ele seguiria seco e branco, levando consigo a beleza e a alegria das coisas sem importância, a certeza dos dias deles vividos um por um, e emaranhado nos seus braços livres levaria os ventos suspendidos e a água transbordada com que comporia em movimento e cor o novo sentido do mundo.

(janeiro de 2005)


Juliana Amaral é cantora, escritora e gestora de políticas públicas, pelo que sei até o momento. Nome que se guarda, quando se conhece.

2 comentários:

  1. Lindo, como tudo o que a Ju escreve.

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  2. Hamilton Hafif19/7/06 15:43

    Juliana é um ser de outra esfera.Possui múltiplos talentos.Além de cantar magistralmente, ainda escreve. E como escreve!

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