terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pierrô


Ele nasceu italiano, lá pelos mil e quinhentos, entre os tantos personagens da Commedia del'Arte, título genérico pelo qual ficaram conhecidas inúmeras pantomimas burlescas e itinerantes, de enredos variados sobre uma gama de personagens arquetípicos mais ou menos constantes, caricatamente representativos da tessitura social renascentista. Freqüentemente descrito como o servo correto, leal e um tanto ingênuo, em oposição à rebeldia malandra e um tanto calhorda dos também servos arlequim e colombina, não era contado entre os personagens principais, nem ao menos entre os mais interessantes ou complexos. Destituído da malícia e picardia de seus pares, sem as aberrações morais caricatas dos velhacos pantaleão, capitão, doutor, briguela entre outros, petrolino ia aparecendo aqui e ali no exercício de seu papel coadjuvante.

O italiano petrolino apresenta-se como o francês pierrot possivelmente a partir do Don Juan de Molière, mas só tomará os contornos solitário e melancólico no florescer do romântico século XIX, quando o ator franco-boêmio Jean-Gaspar Debureau reelabora e incorpora definitivamente o personagem (como fará Chaplin com seu Carlitos, quase um século depois), inclusive fixando as características físicas e morais que povoam nosso imaginário até os dias que correm.

É claro que esse ingênuo sentimentalismo, aliado à condição de preterido, de perdedor potencial, bem como à sua aura um tanto ausente e avoada, seria um prato cheio para a atávica melancolia de nosso coração tupiniquim, que imediatamente incorpora o triste palhaço com a força e a representatividade que não possuia na origem. O grande Nelson Rodrigues, que talvez como ninguém mais tenha sabido dissecar o caráter do brasileiro de seu tempo, conhecedor maior de nossa alma de vira-latas, sintetizou com a maestria verbal que lhe era característica:

”[Sou] o sujeito mais romântico que alguém já viu. Desde garotinho sonho com o amor eterno. Na minha infância profunda, os casais não se separavam. Havia brigas, agressões de parte a parte, insultos pesadíssimos, mas o casal não se separava. A separação era uma tragédia. Em último caso, a mulher apelava para o adultério. Sou romântico como um pierrô suburbano”.

(in: RODRIGUES, Nelson. Entrevista concedida a VAN STEEN, Edla. Viver e escrever. Vol.3./ 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2008. apud Aeronauta)

Romântico, ingênuo, sentimental, avoado e trágico. Lembra alguém?


***

Sabemos que nada mesmo há no espírito brasileiro que não vá desaguar inapelavelmente no Carnaval! Olha lá o pierrô, acompanhado de colombina e arlequim, espalhando-se pelos bailes, préstitos e concursos de fantasias por toda a imensidão desse torrão tropical. Mas é claro que nos estamos dando a liberdade de inverter poeticamente os fatos. A transposição se processa possivelmente a partir do carnaval veneziano, onde as máscaras de baile são herdeiras diretas da tradição teatral que lança suas raízes até os tempos qinhentistas da Commedia del'Arte. Desde os salões brasileiros, onde a elite tupiniquim a partir do séc. XIX revela especial dedicação em macaquear os hábitos sociais da burguesia européia, é que as tradicionais figuras vão ganhar as ruas e o coração do povo. Ainda que entre o céu e a terra haja tanta coisa mais...

O fato é que se Debureau encarnou tão francesamente o personagem burlesco da renascença, nós cá também tivemos quem sintetizasse nosso definitivo, nosso emblemático pierrô. Atendia, na vida civil, por Zacharias do Rego Monteiro, irmão do conhecido radialista Gastão do Rego Monteiro, locutor celebrizado na Rádio Record e Rádio Clube do Brasil. No intuito de substituir o sisudo e tão pouco carnavalesco smoking, a fim de quebrar a formalidade dos bailes do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o carioquíssimo folião exibiu seu primeiro pierrô no carnaval de 1950. A novidade e o impacto da beleza dos costumes que desfilava rapidamente celebrizaram sua figura como identificada ao tradicionalíssimo clown saltimbanco. Dos bailes do Municipal, Zacharias passou, anos depois, a reinar soberano nos concursos de fantasias, ao lado dos não menos incensados Clovis Bornay e Evandro de Castro Lima. Ao contrário de seus pares, quis antecipar-se à decadência física, trajando seu último pierrô durante os dias de folia do ano da graça de 1965. Muito antes do ocaso dos famosos certames, entre os quais se destacaram o do próprio Teatro Municipal, os do Hotel Glória e do Clube Federal, já se houvera retirado oficialmente das passarelas.

Afastado dos desfiles, mas não do ti-ti-ti do raisoçáite carioca, até sua morte em 1986, o eterno pierrô manteve-se ativo, como uma espécie de “consultor” para assuntos de carnaval e relações públicas de uma famosa cadeia de joalherias. Virava e mexia, aparecia um pitaco seu nas páginas do Cruzeiro, ou da Manchete, sucedâneos sessentistas das atuais (?) caras e vejas (a minúscula é proposital: pioraram as revistas ou piorou o país?). Sua última declaração pública conhecida: “Apesar de carnavalesco, sou tristonho e sonhador por natureza”. Pudera haver outro assim tão... pierrô?



Nota: Ora direis que esta página não se costuma dedicar a personagens das colunas sociais. É fato. A homenagem singela que aqui prestamos ao famoso carnavalesco justificar-se-ia tão só pelo meu pessoal fascínio (talvez atávico) pela figura do pierrô, que encarna tão poeticamente a antítese necessária da alegria desmesurada que cada vez mais se procura fingir nos dias de Momo. O Carnaval pertence por definição aos tristes e aos melancólicos, aos oprimidos e impotentes, e não é senão o grito máximo de sua miserável condição. Aqueloutros – os “alegres” - simplesmente não entenderam nada. De mais a mais, Zacharias foi uma figura emblemática da história do Carnaval da minha mui amada cidade de São Sebastião, que empresta nome a este canto, ainda que não seja da faceta da festa que mais nos seduza, que nos empolgue. Os desfiles de fantasia e os bailes elegantes são peças que compõem o mosaico complexo e fascinante do Carnaval, juntamente com as escolas de samba, grandes sociedades, ranchos etc., independentemente do papel que ocupem na sua grandeza, dignidade e potencial libertário.

Mas a verdadeira e mais poderosa razão desta lembrança é que Zacharias era filho de João Batista do Rego Monteiro; este, por sua vez, filho de Jesuíno Rodolfo do Rego Monteiro e Maria Inácia Fernandes de Oliveira, que vêm a ser bisavós de minha avó materna, meu tataravós, portanto. Daí, que o que o imortal pierrô seja meu primo em sétimo grau. Feliz o homem que conhece o nome de seu pai, de seu avô e de seu bisavô; para saber que nome dar a seus filhos, netos e bisnetos.

2 comentários:

  1. Os seus tataravós, Jesuíno Rodolfo e Maria Inácia do Rêgo Monteiro são meus bisavós. Zacharias era primo irmão de meu pai e eu o conheci muito bem. Era uma figura...

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  2. Maria Adélia, por favor, se puder, entre em contato comigo no email szegeri@gmail.com

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