quarta-feira, 23 de abril de 2008

Do nosso jeitinho


É sabido – e tenho tantas vezes insistido aqui – que a meia-dúzia que sempre se arvorou em dona do Brasil nunca suportou o povo brasileiro. Não gostam da comida que gostamos, desprezam nosso modo de viver, nossa música, nossa sabedoria, menoscabam nosso jeito de rezar e curar os males do corpo e da alma. É claro que as coisas do povo que nunca toleraram vez por outra entram na moda por um motivo qualquer e aí é um tal de dar-se um jeito de tudo ficar mais “higiênico”, mais branco, menos mestiço – foi assim com o carnaval, a religião, está sendo com o futebol, os butiquins etc. - , mas isso é assunto pra outras conversas. Depreciam de tal modo as culturas nossas tributárias, que mesmo entre os negros que desprezam, julgam os nossos os piores, “bantos primitivos”; nossos índios estão no paleolítico enquanto os d’alhures construíram admiráveis civilizações; os portugueses são a nação mais atrasada da Europa, periferia do sistema, patrimonialistas medievais etc. Usam para nos medir uma medida extrínseca que nada tem a ver conosco e segundo a qual sempre seremos uma versão imperfeita do seu “ideal” importado: nossa democracia é atrasada, falta capitalismo, erudição, instituições deficientes...

Um dos traços mais singulares do povo brasileiro passou, por escamoteamentos ideológicos repisados até a exaustão, de exemplo da nossa brejeirice pacífica e algo gaiata, resistente e original, a uma espécie de pústula moral a ser banida dos projetos civilizatórios da modernidade (branca e capitalista, lógico): o famoso “jeitinho” brasileiro. Porque este sempre foi para nós uma capacidade de, apesar das adversidades, malgrado as impossibilidades decretadas pela conjuntura opressiva, contruir o entendimento, superar o aparentemente insuperável. Na base do “conversando é que a gente se entende”, nos orgulhávamos de uma habilidade de improviso lastreada no pouco apreço às soluções formais pre-determinadas, acreditando que a razoabilidade se constrói numa interação mediada pela atitude de entender e se fazer entendido. Mas os nossos senhores, que naturalmente usam e cuidam de sua condição, não conseguem conviver com essa fluidez embebida de encontro e possibilidade; aferrados às suas certezas, encastelados em sua condição de ditadores das regras auto-perpetuadoras, empedernidos pela lógica da eficiência a serviço da acumulação, trataram de fazer do “jeitinho” um traço de decrepitude de caráter típico dos povos atrasados, que dessa forma jamais poderiam aspirar ao mundo maravilhoso da modernidade e suas benesses.

Escrevia dias atrás sobre a falência da comunicação pela palavra falada. Num mundo que tem horror ao diálogo interpessoal – assim sempre me soou o modo europeu de vida, basta ver dois desconhecidos brasileiros se encontrando em outro país (normalmente se abraçam e comemoram o encontro, como se velhos amigos fossem) e o mesmo se dando com dois alemães... – é necessário ter regras precisas e claras para normatizar todas as situações, de modo que o mínimo espaço haja para a possibilidade de discussão. E mesmo essa, deve-se dar pelas vias institucionais, dentro dos limites formais previstos. Se um vizinho dinamarquês avançar seu muro meio metro sobre o terreno ao lado, ele responderá por isso nas barras dos tribunais, nos estritos termos da legislação. No Brasil, sempre houve a possibilidade, a menos a princípio, de se discutir a solução tomando um café no butiquim da esquina, com boa possibilidade de se deixar pra lá, contanto que o outro possa ficar com as mangas que pendem daquela frondosa mangueira sobre o seu quintal alheio... Ao menos enquanto viveu a palavra.

É por isso, meus caros, que nos desesperam as atendentes de telemárquetim que sempre responderão com seus 15 modelos de frases prêt a porter não importa se Rui Barbosa ou Leonel Brizola estejam a argumentar do outro lado da linha. É por isso que temos tanta dificuldade de aceitar os campeonatos por pontos corridos, onde o melhor vai sagrar-se campeão em 99% dos casos. O gosto pelo improviso, pelo imponderável mora em nosso espírito, faz parte da nossa natureza. A busca pelo desenvolvimento econômico e humano, por uma sociedade mais igualitária com acesso indistinto às utilidades que a modernidade logrou poduzir não pode tomar como padrão único um mundo pré-fabricado, engessado, previsível, sem espaço para a originalidade, para a criação e o improviso, fundamentos da singularidade individual e cultural. Singularidade é “jeito”, habilidade é “jeito”, solução é “jeito”. Quero meu jeitinho de volta!

E é por isso, contrariamente, que no butiquim se desconta cheque, se compra fiado (mesmo e sobretudo com a presença da plaquinha indefectível: “fiado só amanhã”), se deixa recado, se pede o prato assim ou assado, ao gosto do freguês , se decide sobre os destinos da humanidade... Tudo pode, desde que se converse! É por isso que no butiquim todos são irmãos de pratos e copos, mesmo que NUNCA se tenham visto antes. É por isso que no butiquim – e só no butiquim – ainda há jeito. Isto é, nos de verdade, os que ainda sobraram, “redutos últimos da palavra”, como quis o Poeta.

12 comentários:

  1. Perla Lima23/4/08 22:48

    Ouça daqui do Pará as minhas palmas. Texto perfeito!
    Abraço,
    Perla Lima

    ResponderExcluir
  2. Que maravilha, querido! Já passei adiante teu texto. Você é mesmo o mais correto dentre nós. Beijo!

    ResponderExcluir
  3. PS: - Correto no bom sentido, é claro.

    ResponderExcluir
  4. Fernandão,

    Adorei (sem viadagem, é claro) esse texto. Voltei aos tempos estudantis, em que discutíamos muito essas coisas.

    ResponderExcluir
  5. Fernando José Szegeri: texto portentoso, querido, à altura de sua capacidade intelectual que vejo daqui de baixo, da minha amada Tijuca, eis que me faltam tijolos para ser tão grande. Acabo de espalhar o texto. As pessoas TÊM que ler isso.

    ResponderExcluir
  6. Querido, anteontem mesmo comentava em um buteco que apesar do avanço das tecnologias de comunicação, cada vez se conversa menos! É um texto acachapante. Até sábado!

    ResponderExcluir
  7. Obrigado, queridos.

    Perla: ouço, pode apostar. Posto que embora eu siga exilado dos meus desvelos de rios e purus, meu coração segue de bubuia nas ondas que vibram na freqüência única da Hiléia.

    Brunão: obrigado, tendo certeza que "no bom sentido" quer dizer exatamente "no mau sentido".

    Edu, querido: pra citar o poeta preferido do Velho, "exagerado, eu sou mesmo exagerado..."

    Marcão: volte à ativa, querido. Nós continuamos, acredite você, levando adiante as mesmas tertúlias apaixonadas, sonhadoras, revolucionárias.

    Maurão, meu ídolo: exatamente! É o império absoluto da forma, do meio e a morte do conteúdo. É a abstração alienante da sociedade industrial levada às últimas conseqüências. O velho Marcuse ficaria besta...

    ResponderExcluir
  8. adriane pitta rivero rodrigues25/4/08 08:04

    Nossa Fe, falou e disse! Fico muda e deixo suas palavras no ar. Que ele consiga fazer ressoar isso tudo que é o que a gente quer dizer também. Oro pela multiplicação...

    ResponderExcluir
  9. Lá não tem preconceito. Nos nossos botequims da vida, dividimos com os companheiros de balcão os sofrimentos e alegrias da vida, do jeito que somos, do jeito que o povo é, sem frescurada.

    ResponderExcluir
  10. excelente texto, amigo. pra nós, que labutamos no mundo do Direito, ele tem algo mais. pq, encastelados em suas formas, os pseudooperadores do Direito se sufocam naquele motne de papel...

    ResponderExcluir
  11. Fê Golden29/4/08 04:38

    Alguém na ABL seria capaz de escrever um texto tão brilhante?

    ResponderExcluir