quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Samba na Vila Madalena

Chico Aguiar


Aos faraós da Vila, Pedrão Vieira
e Edu Rocha, parceria que fez história.



Quando a gente se vê às voltas com certas lembranças, é meio inevitável fazer o papel do chato passadista. Meio inevitável sentir saudades. Penso na Vila Madalena, ou na “Vila”, simplesmente. “A Vila”, imaginem, como se fosse a única... Mas quero tratá-la assim, nessa recordação, como quem fala de uma velha amiga.

Era uma vez um bar, na esquina de Girassol com Purpurina, dois nomes que evocam luz, alegria e brilho. Era o Bar Sete, para os íntimos, Sete de Setembro, de batismo. Quartel-general de um brioso time de futebol do mesmo nome, com direito a lousa na parede anunciando as datas das partidas. Costume antigo. Um dos sócios fundadores da agremiação e, ao que diziam, dirigente bem mais dedicado que quantos andam agora por aí, era o Zé Leiteiro, um português bem apessoado; um daqueles que fundaram, na verdade, a própria Vila. Na ocasião já pelos setenta, mas ainda bem disposto para quem tinha ganhado a vida tocando uma vaquinha de leite por aquelas ladeiras acima. O bar tinha estoque de jogos de dominó à disposição dos velhos; sempre tinha uns três ou quatro jogando. Acho que havia uma mesinha de sinuca, não me lembro bem – sei que o espaço era pequeno. Corria o já longínquo ano de 1983, mas mesmo para a época, o lugar parecia um túnel do tempo. O bairro era ainda tão sossegado que aos sábados, quando havia mais gente, chegava-se a colocar mesas no meio da Girassol!

Mas sossego demais também cansa, e quis o destino que a essa altura, os inquietos sambistas da Paulicéia elegessem o lugar como ponto de encontro. Como rolou? Teve alguma coisa a ver com futebol: o Buru, neto do Zé Leiteiro, jogava também e eu acho que foi nesse meio que acabou se enturmando com o pessoal do samba. Qualquer dia pergunto a ele. E aconteceu também que um lugar considerado uma espécie de “Clube do Samba”, o Botekão, tinha fechado havia pouco tempo, deixando sem teto algumas dezenas de boleiros e sambistas, estes últimos quase todos bambas do glorioso Grêmio Recreativo Mocidade Escola de Samba Camisa Verde e Branco. Isso acontece muito: os bares são entidades viventes, que nascem, crescem, cumprem sua sina e morrem um dia. Então esse pessoal foi abrigar sua batucada naquela esquina. Dos jogadores que freqüentavam a área me lembro do Dorval e do Mengálvio, integrantes da mais brilhante linha de ataque jamais vista no futebol brasileiro (e olha que eu sou são paulino): Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Ah, sim – e tinha o Muricy, um mocinho cabeludo e ainda ilustre desconhecido, que falava pelos cotovelos, atrapalhando quem queria ouvir o samba. Foi lá que vi também, já quase cego e pouco antes de morrer, o Roberto Ribeiro, do Império Serrano, cantor idolatrado pela raça sambista; o Boca Nervosa, “canário”, isto é, que puxava o samba nos desfiles do Camisa; o Reinaldo, depois promovido a “Príncipe do Pagode”, vejam só!

Com 30 e poucos, meio de saco cheio da vida dura e mal paga que me proporcionavam uns 9 anos de formado em medicina, eu havia descoberto o samba há pouco tempo. E descobrira também que havia poucas coisas na vida melhores que cantar um samba de Paulinho da Viola ou de D. Ivone Lara na companhia de um bom cavaquinho, de um violão 7 cordas, de um pandeiro. Mesmo para mim, que sempre gostara de cantar, era tudo uma maravilhosa novidade e, constatava-se logo, ótimo para esquecer aborrecimentos de toda ordem. Freqüentar os ambientes de samba, aquela “nigéria”, como dizia o também negro Dedé, era e é realmente muito agradável. Em pouco tempo as pessoas faziam você se sentir em casa; o único segredo era o novato saber chegar devagarinho, sem empurrar. As pessoas eram alegres de um jeito que eu não conhecia; isso sem falar das mulheres, às pencas, todas de bem com a vida. Estava na moda uma maquiagem com purpurina que as deixava ultra-charmosas. Só quem já rodou por essas paragens é que entende um verso de canção que diz assim: Um sorriso negro, um abraço negro, traaaaz felicidade...

Pois é. Entre os novos amigos, um dos mais chegados era um mulato gago, prata da casa, lá da Vila mesmo, onde morava nos fundos de um terreno, numa casinha muito humilde como já não há mais por lá: o Joca. Ele por sua vez amicíssimo do Nadão , um bambambam, compositor do Vai-Vai, e coisa e tal. Com eles vivi uma historinha curta, uma história de samba que vale a pena deixar registrada.

O ano terminava; o Buru, agora gerenciando o negócio, tanto que muita gente se lembra desse lugar como o Bar do Buru, resolveu aproveitar aquele movimento todo, organizando um bloco para o Carnaval: o “Bando Sete”, evidentemente. Seria para isso mister o competente samba, em tese, a ser escolhido por concurso. Só que um tal Digê, por sua vez compositor do Camisa, largou mais rápido que todo mundo: fez um negócio genial, curtinho, malicioso, que em dois tempos estava na boca do povo. Acontece que o Nadão tinha lá seus brios, e resolveu entrar na parada assim mesmo, junto com o Joca. Talvez por causa da rivalidade tradicional entre o Camisa e o Vai-Vai, talvez... E o curioso da história é que resolveram me convidar para a parceria; mais precisamente para escrever a letra. “Doutor” deve saber fazer essas coisas bem, imagino que tenha sido esse o raciocínio. Afinal, por mais apaixonado que fosse por samba, eu não deixava de ser um recém chegado.

Como bom doutor, fiz a lição de casa. Em uma ou duas semanas entreguei ao Joca uma folha de caderno com a primeira letra da minha vida, e última, até o momento. Passei a aguardar então, na verdade sem muita expectativa, o resultado final da parceria: a música que ele e Nadão acrescentariam à minha obra de estreante. Sábado seguiu sábado, Carnaval chegando, e nada, a não ser o tratamento efusivo de “parceiro”, com direito a tapinhas nas costas e convite para cerveja gelada no balcão. Eu estava no lucro, não tinha o que reclamar, deixava correr sem perguntar muito. Um dia, depois de me festejar um pouco mais que de costume, o Joca me mostrou afinal uma filipeta com uma letra já impressa, e cantou ao pé do ouvido, ali mesmo, a melodia, marcando o ritmo com a mão, coisa de sambista de verdade, eu já me sentindo o próprio... Só estranhei um pouco ao não reconhecer naquela primeira audição nenhum dos versos de minha lavra, nada! Peguei o papelzinho pra ler, virei, revirei, não tinha uma vírgula do meu texto; e não custei a perceber que esse de agora era, na verdade, infinitamente melhor. Mas pra minha surpresa, o Joca não comentou nada, e continuou a me tratar do mesmo jeito - parceiro daqui, parceiro dali, com a maior naturalidade... Um negócio realmente estranho, mas fiquei quieto; resolvi dar um tempo pra ver se entendia mais adiante. Hipótese mais provável: acharam minha letra um lixo, mas não dá pra desfeitear assim, sem mais nem menos, um “doutor”; a solução mais diplomática teria sido aquela. Brasileirices, pensei, antropólogo amador.

O impresso foi distribuído, os dois divulgaram pra valer. Embaixo do título vinha em negrito o nome dos compositores: Nadão, Joca e Chicão – assim mesmo, rimando. Eu achando aquela glória imerecida muito engraçada. De quebra, com meus 1 e setenta e poucos nunca tinha passado de Chico, e agora era promovido a Chicão, nome artístico escolhido por meus parceiros, sem consulta prévia. O Digê, que era e ainda é meu amigo, não chegou a me chamar às falas, mas ficou meio assim. Afinal, o samba dele já tinha sido praticamente escolhido informalmente – aquela coisa de “preferência popular”. E o pessoal vinha com essa, em cima da hora! Tem muita ciumeira nessas disputas, vocês sabem.

A “escolha” do samba acabou não ocorrendo, isto é, não houve júri, nem votação. Num sábado à tarde, na véspera do Carnaval, ao ritmo de bem uns 40 componentes da bateria da Pérola Negra, os dois sambas foram cantados (outra solução diplomática, pensei), no meio da Girassol. Imaginem – nem precisava chamar DSV, nada disso. Com minha filosófica colaboração, nosso trio manteve a farsa, e compartilhei dos aplausos devidos aos compositores, perfilado em lugar de honra, na frente da bateria. Pena que a maioria dos meus conhecidos não estava lá para assistir à cena! Nunca esquecerei meus 10 minutos de fama, como Chicão!

No dia do desfile, só deu o samba do Digê; era bom demais, embora o “nosso” fosse também uma obra-prima. Mas isso não afetou minha importância, que só aumentou quando, em anos seguintes, meu “parceiro” Nadão ganhou concursos oficiais – acho que o Vai-Vai chegou até a ser campeão com um samba dele. Meu parceiro!

Meses depois, já meio esquecido da história, enviada para o arquivo mental de situações mais ou menos misteriosas, vou à casa de uma colega, a Leda, que era bem amiga da mulher do Nadão , a falecida Edilamar. Fazia tempo que a gente não se via, e tínhamos alguns daqueles “assuntos atrasados”. Então a Leda me conta: “sabe que no mês passado eu fui à casa da Edilamar, e o Nadão estava lá com o Joca, desesperado? Passaram a tarde inteira procurando um tal papel que você tinha escrito, uma coisa assim...”

Então tinha sido isso! Nem passou pela cabeça deles que “doutor” faz cópia do que escreve. Ainda bem... Sábios desígnios da Providência - o samba só ganhou com isso!

Para provar que essa história não é mentira, eis a prova definitiva e irrefutável: um arquivo com a foto da filipeta que guardo até hoje para mostrar aos meus netos. Ficará à disposição dos leitores mais céticos.





O bar Sete? Tinha virado galeria de arte, agora nem sei mais. Só restou a esquina, de Girassol... com Purpurina.

Um comentário:

  1. Salve Chicão...

    Infelizmente a Vila mudou e mudou muito mesmo,na verdade seria bom nem ter mudado tanto assim.. O que a gente faz hoje em dia é não esquecer as histórias jamais de antigamente e não deixar a tradição chegar ao fim. Meu tio me levou no bar pela primeira vez quando tinha 4 anos, ele foi beber a dose de sempre dele e eu fiquei no guaraná....
    Como você disse, o bar chegou ao fim há um bom tempo, mas a oficina 7 de Setembro do Oscar Loko e Patola continua lá na Purpurina, o Buru também esta sempre por lá com a gente fazendo um churrasco, bebendo a gelada e ouvindo sempre um bom Samba.. Todas as sextas estamos na Purpurina fazendo um barulho e bebendo a nossa cerveja de cada dia e todo 7 de Setembro tem a festa do time na sede que é a oficina.
    Meu nome é Samuel, conhecido como Samuca, minha bisavó Antonieta (Lavadeira) chegou na Vila na década de 20 na Rua Rodésia e a casa continua lá até hoje firme e forte com a familia e com direito a pé de limão capeta pra fazer caipirinha na hora, sou neto do Dário (Risadinha), sou da familia do Zozo, Leonel, Perigo, Sérgio (Talha), Tio Preta, Panama....

    Um grande abraço e apareça quando puder em uma festa no dia 7 de setembro.

    Salve a Vila e o Samba.

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