quinta-feira, 12 de abril de 2007

Salvo das Águas

Paixão amazônica de Martin Strel, segundo Szegeri


Em meio a um turbilhão de decretos municipais infames, delírios de generais desprezíveis (risos diarréicos: ninguém mais tem medo de vocês, por mais que vociferem seus impropérios boçais), vitórias desclassificantes, manifestos em prol de meliantes rabinos, da morte mais uma vez ignorada de um grande baluarte do samba (salve Tio Hélio!), fui, qual um moisés tupiniquim à mercê do seu próprio fracasso, miraculosamente salvo das águas por um herói mítico vindo de uma terra fria e distante para resgatar minha esperança e minha fé.

Ele é esloveno, se chama Martin Strel. Já havia nadado interirinho o Danúbio de Vovó, o Mississipi de tanto sangue negro derramado, o Yangtzé chinês. Muitos pensaram que só estaria atrás de um novo recorde, do nome no tal livro, essas coisas desimportantíssimas que a modernidade vai criando para disfarçar o nada que campeia e nos traga. Mas não sabiam de nada. Não sabiam que ele precisava levar a termo a sua missão para me resgatar a mim, Fernando José Szegeri. Para cumprir o destino a que me faltaram a coragem ou a força. Fazendo a nado a travessia do Solimões-Amazonas, da nascente à foz e ainda além, Martin Strel, em sua própria Semana Santa, salvou minha alma da danação eterna.

Por que estranhas e misteriosas razões o seu destino estivesse tão absolutamente atrelado ao meu, como um cristo particular, não saberia dizer; e esses mistérios são mesmo insondáveis. Mas sei que ele se dispôs a fazer em meu lugar a travessia necessária a que sorrateiramente, ao longo da fugacidade dos anos, fui opondo as falsas urgências, as duvidosas prioridades. E para que a obra salvífica fosse completa, foi necessário que me dissesse, olhando nos olhos da alma (embora não desconfie disso): “Vou fazer por você! E não quero barco. Vou fazer porque tem que ser feito. Você sabe o que acontecerá se não for feito. E pra que nenhuma dúvida mais paire, vou fazer a nado. Sozinho”.


“Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado
com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões
e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista,
às vezes parecia assustador”.


Os ribeirinhos acompanharam a sua paixão com o encanto e a desconfiança dos amazônidas. Aquele jeito de dizer calando, os olhos caboclos perdidos nas imensidões de florestas e almas e encantarias. Eles o esperaram a cada estação de sua via crucis, acenando, acolhendo, admirando, desconfiando. Porque aparece mesmo por ali cada assombração... É de se desconfiar. Por mais que se esteja acostumado.

Martin Strel, acostumado aos grandes rios, começou nadando noventa quilômetros por dia, certo de sua força e sua determinação. Mas o Grande Rio não é de aceitar imposições. Na Amazônia, tudo tem seu ritmo próprio, ditado pelos humores dos ventos, pelo sono dos rios, pela disposição da Floresta. E como se seu propósito não fosse completo, moisés invertido, todas as pragas lhe foram enviadas. Para que pudesse nadar com os botos, o sol fê-lo de púrpura encarniçada. "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também". O canto da Iara lhe confundiu a mente e o seu chamado o fez nadar para o lado contrário, remanso da vida que engana e confunde. Singrou águas infestadas de piranhas e piratas. Teve dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu 12 quilos. As dores que castigavam seu corpo não o deixavam dormir. Perdeu-se, passou a noite sozinho na margem, foi devorado pelos mosquitos.


Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens,
homem de dores, e experimentado nos sofrimenos;
e, como um de quem os homens escondiam o rosto,
era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,

e as nossas dores levou sobre si;
e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões

e moído por causa das nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.
(Isaías, 53, 3-5)


Porque ele esteve onde eu não soube estar. Mesmo com a certeza de que ali era meu lugar, que minha era a jornada. Todos os medos ele tomou sobre si. Sozinho na margem no meio da noite infinda, perdido, desidratado, temendo as visagens e os animais, devorado pelos insetos, ele era eu. E comigo, todo os meus fantasmas. E nele eu tive compaixão de mim mesmo. Cirineu, quis lhe mover os braços, aliviar-lhe o peso das águas. Tive ímpetos de enxugar-lhe o rosto e tratar as feridas; abaixar e com carinho em seus ouvidos contar até dez, a única coisa que saberia dizer em esloveno, língua de meu avô.


"A 'linha de chegada' foi atingida anteontem.
Ontem, ele cumpriu uma 'prorrogação' até a capital do Pará...
'Meu médico falava comigo
e me ajudava a tentar pensar em outras coisas.
Só queria terminar tudo isso' ”


E não se contentou em chegar à foz do Rio Mar. Era preciso que fosse a Belém. Era preciso que fosse resgatado na amurada onde passei tantas tarde cozendo meu banzo em fogo de tacho, pra tirar o veneno. Adiando meu destino. Em Belém onde eu precisava estar, porque esta terra eu não mais quero e aqueloutra não me quer, ele me pôde novamente olhar nos olhos, exangue, para dizer: “Está vendo? Foi feito! Podia ser feito”. E mesmo humilhado, exilado – porque a salvação é um exílio e uma humilhação – pude enfim nele ser rebatizado. Era necessário que findasse sua jornada em Belém, como um cristo ás avessas. Salvo das águas como um moisés.
Nesta pureza reconquistada, triste, cabisbaixa, sigo de braçadas exaustas num turbilhão sem sentido, com o fio da esperança religado. Olhado com desconfiança; confuso. Confiante que minhas últimas palavras, lavadas nessa lânguida expiação, possam um dia ser içadas das águas com uma compaixão, senão merecida, conquistada. Só querendo terminar tudo isso.

“Pai, eles não sabem o que fazem...” Em esloveno. Como Vovô.


*Fonte dos destaques em itálico, entre aspas: Folha de S. Paulo, edições de 07 e 09 de abril de 2007 – transcrição integral nos comentários a este texto


6 comentários:

  1. Esgotado, homem-peixe nada à noite e faz terapia

    Esloveno se esforça para superar dores e encerrar hoje travessia do Amazonas

    Conversas com médico na água ajudaram nadador a diminuir confusão mental e a se dedicar a braçadas noturnas no sprint final


    MARIANA LAJOLO
    DA REPORTAGEM LOCAL

    A dores que castigam seu corpo não o deixam dormir. A maré dá trégua apenas duas vezes por dia. Exausto e ansioso para terminar sua jornada, Martin Strel decidiu usar as adversidades a seu favor para chegar hoje à foz do rio Amazonas.
    O esloveno de 52 anos cumpre parte de suas braçadas diárias à noite para antecipar a chegada a Belém. À partir das 20h, as condições do rio ficam mais favoráveis. É quando ele se joga na água.
    Com medo de atrair grandes predadores ou outros perigos, seus companheiros de equipe desistiram de usar holofotes. Strel nada com um bastão de neon vermelho amarrado à roupa para ser localizado. A luz da lua serve como ponto de referência para os apoiadores.
    No escuro, o estafe teve problemas para acompanhar o nadador em alguns momentos. Faróis de barcos em sentido contrário os cegavam e faziam o esloveno sumir na água escura. Tiveram de fazer contato via rádio com as embarcações, em um português macarrônico, para pedir que a intensidade das luzes fosse diminuída.
    Até Strel foi vítima da falta de visibilidade, mas fora d'água. Ao fim do primeiro dia das braçadas noturnas, cansado, escorregou em uma tábua e sofreu uma série de escoriações.
    Nessa toada -se joga no rio também pela manhã, quando a maré arrefece-, o nadador tem cumprido aproximadamente 50 km por dia. No início, conseguia avançar cerca de 100 km.
    A travessia de 5.430 km, iniciada em 1º de fevereiro, deve ter fim entre as 11h e as 14h de hoje, em Belém (PA). Pelo planejamento inicial, a aventura duraria 70 dias.
    Strel já nadou 3.000 km no rio Danúbio, o segundo maior da Europa, em 2000. Dois anos depois, percorreu 3.797 km no Mississipi (EUA). E, em 2004, atravessou 4.000 km no Yangtzé, na China.
    O esforço exacerbado, no entanto, tem causado estragos. Além de não conseguir dormir graças a cãibras e dores que castigam seus músculos, Strel, que perdeu 12,5 quilos e sofre com perda de líquidos, apresenta confusão mental. Ele já foi retirado da água várias vezes dizendo frases desconexas.
    O atleta também não fez uma hidratação eficiente e nem se alimentou bem durante alguns dias, preocupando sua equipe.
    Segundo seus acompanhantes, ele nunca chegou a um nível tão alto de esgotamento físico em suas expedições.
    A saúde do atleta é monitorada via satélite pelo departamento de medicina da Universidade do Arizona (EUA).
    A solução encontrada para amenizar o problema foi submeter o esloveno a sessões de psicoterapia. O tratamento é administrado de forma inusitada, enquanto ele cumpre parte do percurso nadando de costas.
    Desde o início da semana o médico do projeto acompanha suas braçadas do barco de apoio e conversa com o nadador na língua de seu país.
    "Ele está mais lúcido nos últimos dias. As conversas têm surtido efeito. Por causa das dores, também está fazendo meditação para tentar pegar no sono", disse Matthew Mohlke, um dos membros do time.
    A nova preocupação do grupo agora é um possível encontro com a pororoca. Apesar de especialistas terem dito que nenhuma onda deve se formar na região até amanhã, a equipe pode mudar a rota.
    Strel deve atravessar um canal lateral mais longo para se deslocar até Belém e pôr fim, de forma mais tranqüila, à sua jornada no Amazonas

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  2. Homem-peixe encerra desafio


    Nadador sai da água direto para o hospital em Belém após atravessar o rio Amazonas em 66 dias

    Primeiro a cumprir tal percurso, esloveno se torna celebridade e coleciona história de apuros e dores que irão virar documentário



    MARIANA LAJOLO
    DA REPORTAGEM LOCAL

    Dezenas de pessoas esperavam a mais nova celebridade na Estação das Docas, em Belém. Mas o ilustre convidado nem pôde participar da festa.
    Com a pressão sangüínea a níveis próximos de um ataque cardíaco, Martin Strel foi retirado da água pelos médicos e seguiu direto para o hospital.
    O fim dramático, em meio a um clima festivo, resume a jornada cumprida pelo atleta esloveno nos últimos 67 dias.
    A nado, ele atravessou 5.430 km pelo rio Amazonas em 66 dias e tornou-se o primeiro homem a percorrer tamanha distância. A "linha de chegada" foi atingida anteontem. Ontem, ele cumpriu uma "prorrogação" até a capital do Pará.
    A medida em que dava suas braçadas, além de colecionar dores, Strel viu seu feito, que deve ir para o "livro dos recordes", ganhar notoriedade. E se tornou celebridade local.
    A cada nova cidade, era recebido com festa. Prefeitos foram à beira do rio para cumprimentá-lo, acompanhados por dançarinas e suas roupas típicas.
    Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista, às vezes parecia assustador.
    Strel, 52, já estava habituado a grandes travessias. Em 2000, nadou 3.000 km no Danúbio, o segundo maior rio da Europa. Dois anos depois, cumpriu 3.797 km no Mississipi (EUA). Em 2004, percorreu 4.000 km no Yangtzé, na China. Seu novo feito irá virar documentário.
    Mas o desafio de cruzar o Amazonas lhe exigiu esforço jamais experimentado. Até a primeira metade do percurso, nadava cerca de 90 km por dia. Seu maior problema era o sol e as queimaduras de segundo grau que castigavam seu rosto.
    O rio também escondia surpresas. Strel nadou por uma região infestada de piranhas e teve de aceitar escolta policial para se proteger dos piratas.
    Quando decidiu dar braçadas à noite, evitou usar holofotes para não atrair predadores. Lançou mão de um bastão de neon amarrado à roupa.
    "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também", afirmou o esloveno.
    Os apuros também não foram poucos. Certa vez, saiu para nadar apenas com um pequeno barco de apoio. Os dois se perderam e passaram boa parte da noite na margem do rio, sozinhos, no escuro, sendo devorados por insetos.
    E não foram só as picadas que castigaram seu corpo.
    "Chegou um momento em que eu não conseguia sair da água sem ajuda", afirmou.
    Strel sofreu com dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu cerca de 12 quilos. Também apresentou confusão mental e passou por sessões de psicoterapia.
    "Meu médico falava comigo e me ajudava a tentar pensar em outras coisas. Só queria terminar tudo isso", disse o nadador.

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  3. texto definitivo. tem como fazer chegar ao camarada?

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  4. Genial Fê... Genial!

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  5. zé sergio13/4/07 17:05

    ducaralho!

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