quinta-feira, 19 de abril de 2007

Mandavy kyvy kyvy'i

Xeramõi João da Silva Verá Miri


Então, meus netinhos...

Estas são as palavras transmitidas a nós por Nhanderu Papá, nosso Primeiro Pai. Nhanderu Papá, ao gerar o mundo, já previa tudo o que ia acontecer conosco. E isto vocês não esqueceram. Sinto uma forte emoção em minha alma divina. Eu já tenho muita idade. Por isto vou explicar e quero que vocês me escutem.

Este canto que cantamos ilumina nossos primeiros passos na vida. O significado desses cantos vocês não sabem ainda, meus netinhos. Nhanderu Papá, quando chegou à Terra, desejou que o canto ilumine a nossa vida. Nosso Pai criou a Terra e nela vocês podem brincar e cantar. É o que Ele deseja. Muitas coisas já foram esquecidas. Mas é assim, meus netinhos, o que vocês transmitem me faz lembrar muito. Por isso eu vou falar agora.

Deus ensinou as crianças a brincar. Nossos avôs e avós, com sua sabedoria, ensinaram a brincadeira a todos os seus filhos.Todas as crianças, de todas as idades e tamanhos, brincavam em nossa Terra Sagrada. Brincavam inspirados pela sabedoria divina. Cresciam inspiradas na sabedoria divina. Cresciam bonitas, fortalecidas e iluminadas pela Verdade e alcançavam o Ser Sagrado.

Hoje vivemos uma vida diferente do passado. Vou ensinar para vocês os cantos que todos cantavam antigamente quando brincavam. Todas as aldeias vão agora ouvir estes cantos. Todos vão saber como era o nosso canto. Vão se perguntar: isto era a verdade ou não era? Todos vão saber que esta é a nossa verdade. Vou transmitir para todos vocês para todas as aldeias, nossos parentes no centro da Terra, no Paraguai, todos os que vivem na Terra vão escutar. É para isto que estamos registrando esses cantos. Nossos parentes que estão além do oceano também vão escutar. Ao ouvir estes cantos, cada um se lembrará de nossas tradições e ensinará seus filhos a brincar novamente.

Deus ensinou a fazer as brincadeiras infantis. E as crianças se colocavam uma ao lado da outra, sentadas, para receber os ensinamentos. Andando de um lado para o outro, em frente às crianças, um velho sábio ensinava as crianças a cantar e a brincar. Ele cantava assim:

Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i


Mandavy é um bichinho, um besourinho que costuma fazer um buraquinho na parede , próximo ao chão. As meninas cantavam e dançavam em volta do lugar onde os bichinhos ficam. Em seguida, as meninas sopravam dentro do buraquinho até o bichinho sair. Pegavam o bichinho e deixavam que ele mordesse o bico do seio. E assim elas se fortaleciam. Depois, o bichinho era deixado novamente em sua casa. Isto era feito para que elas tivessem muito leite quando os seus filhos nascessem. Elas faziam isto com muito respeito e acreditando nas palavras ensinadas por Nhanderu. Elas então ficavam alegres e cantavam assim para reverenciar Nhanderu:

Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori

Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori

Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua


Assim nossos avós ensinavam a cantar. Para que se dizia 'Ero Takua'? Para nossas meninas se lebrarem de Nhanderu quando crescerem e se lembrarem de tocar o bastão takuapu na Casa da Reza.

Estas coisas vocês não sabem mais, meus netinhos. Antigamente nossos avós praticavam estes cantos e alcançavam a Terra Sem Mal impulsionados pelo vento sagrado. Hoje nós estamos aqui procurando lembrar. Isto eu sinto em meu coração. Eu vivo sentindo isto em meu coração. Vocês cantam e se lembram de Nhanderu e da trajetória de Nhamandu, nosso Deus Sol. Quando Ele chega, toda nossa Nação se levanta.

Assim nós recebemos a divindade, meus netinhos.


Xeramõi João da Silva Verá Miri, 92 anos, é cacique e pajé Guarani Mbya, da Aldeia Sapukai, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Depoimento gravado em idioma Guarani no esplendoroso álbum Ñande Arandu Pyguá – Memória viva Guarani, que se pode conhecer aqui. A tradução é de Marcos dos Santos Tupã

Um comentário:

Augusto Diniz disse...

Fernando, ano passado ou retrasado eu assisti esses cânticos guaranis. Foi de cortar os pulsos. Me senti um idiota português, daqueles que chegavam por aqui movidos pela cobiça. Porquê fizemos isso?