sexta-feira, 16 de março de 2007

Homens de Canivete

Fernando Sabino


Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são e os que não são de canivete.

Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão, mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as unhas.

É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente necessário.

Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a ser, como o pai, um homem de canivete.

Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:

- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?

Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados, embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria. Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida em Borboleta Amarela, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas reclamava do outro a posse de um canivete.

Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja, logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.

Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete. Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha. Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade, um simples canivete.

(in As melhores crônicas de Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record, 1986 - pp. 165-7)

2 comentários:

  1. Grande Fernando, assim como matam milhares de figuras folclóricas da nossa cultura com estrangeirices, mataram o homem do canivete depois que eles passaram a ter aquelas quinquilharias dos modelos suíços.

    Abraços!

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  2. Szegeri, o Manguinha, goleiro do Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, time do Fernando SAbino, jogava com um canivete preso na meia nos anos sessenta!

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