quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sentinela


Uma tarde abafada de 31 de dezembro, à beira de um lacunoso mar de pequenos pesqueiros coloridos, só se pode aplacar satisfatoriamente à base de muita conversa fiada e alguma cerveja. De repente alguém emerge da modorra e a mudeza se quebra por uma voz invisível, naufragada em franjas de uma grande rede branca:

- Quem será que ganhou a São Silvestre?

O riso, muito mais que a Filosofia, é a verdadeira medida do espanto! Um riso assim tão geral quanto frouxo, a denunciar a falta de perspectiva daquela dúvida tão deslocada no tempo-espaço. Eu mesmo, escolado na faina de tourear canoas dissidentes, achei graça da desimportância da informação esperada.

Mas não era assim, na verdade, na São Paulo de antigamente. A corrida que ficou famosa pelo nome do santo que se celebra na última féria de dezembro era um acontecimento, uma festa, pra um povo de uma cidade tão despojada de motivos para celebrar. Na falta das ondas para se pular, de batuques para Iemanjá, como se podia divertir, no fim de ano, a gente operária dos bairros centrais de uma cidade garoenta que já então se acinzentava? Concentrar-se ao longo do trajeto, interessar-se pelos concorrentes, torcer até, era uma maneira do paulistano arrumar assunto para integrar os bebentes e motivo para não ficar em casa. Para as “famílias”, o remédio para não ficar fora do assunto do dia seguinte era acompanhar as transmissões preto-e-brancas, cheias de chuviscos (não estou com paciência para explicar para a geração teveacabo o que eram os chuviscos...), da indefectível TV Gazeta, vejam vocês...

Depois passaram a corrida para a tarde - porque afinal as coisas tem que ir para seus devidos lugares, e o canal de televisão que põe dinheiro para a prova não morrer (que não é mais a TV Gazeta, vocês já devem imaginar...) tem seus interesses em faustões e xuxas, não se pode deter por uns ítalo-nordestinos bebuns e desocupados – e acabou-se o sentido e a graça da história.

Mas não era da São Silvestre que eu queria falar. A enrolação do intróito foi só para recomendar, uma vez mais e vivíssimamente, a leitura do indispensável blogue Anhangüera (com trema, por coerência), em que meu irmão Arthur Favela Tirone desfila um sem número de histórias comoventes de uma cidade – particularizada num pedaço tão eloqüente, a sua velha Barra Funda – que insiste em resistir e respirar, a despeito de toda lava que por sobre ela vomitam incessantemente os vulcões da mercantilização, do individualismo, da banalidade. Como esta recente, justamente sobre a corrida famosa, que li nos primeiros dias deste ano, tamanhamente vexado da minha dessintonizada irreverência de dias antes. Uma narrativa regada a melancolia e sensibilidade, fruto de uma atenção cuidadosa com as coisas importantes e verdadeiras da vida.

E para falar dele, do homem que não precisa de areia, nem de mar: sua praia é o México! A este sentinela do espírito mais recôndito – mas pulsante! - desta digna e aviltada cidade, neste dia, meu melhor brinde. Bem como ao homem com quem passou inacreditáveis nove meses abraçado, e que nasceu com nome de anjo.


[para Mimi e Denise]

2 comentários:

  1. muito obrigada pela dedicatória e pelo carinho que voce (voces) tem comigo e com o Mimi e sem falar é claro o prazer que eu sinto de ver meus filhos com tão bons amigos.
    Adoramos voce (voces).
    Beijos Denize

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  2. Há poucos dias pude conhecer a bela família Tirone, gente fina, que merece todo o meu carinho. Quanto ao blogue do Favela, o Anhnagüera, você disse tudo, é comovente.

    Beijo, Szegeri.

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