terça-feira, 4 de julho de 2006

Apito final

Apesar de ter prometido parar de brigar depois do texto que escrevi, em boa hora, antes da eliminação da seleção brasileira, na prática não foi o que se deu. Porque a ignorância da classezinha pseudo-elitista que olha para o futebol a cada quatro anos, o "patriotismo" dos grandes brasileiros que gastaram R$ 30 mil para assistir a Copa in loco e depois queimaram publicamente a bandeira do Brasil, e o corporativismo de alguns que sabem tão bem denunciar a falta de empenho de jogadores de futebol, mas tem uma atroz dificuldade em reconhecer a venalidade e a incompetência emblemáticas da grande maioria de seus colegas de classe, infelizmente me tocaram os brios e tive que mandar uma meia-dúzia para as putas que lhes pariram. Assim mesmo, no plural.

Então, fecho aqui a minha orelhada em tema tão difícil de haver consenso e objetividade. Teorias há muitas para explicar a derrota; ouvi umas duas ou três bem interessantes - como a do meu cumpadre Julio Vellozo, que se quiser pode ocupar esse humilde espaço para se manifestar - e um sem número das mesmas bobagens de costume, empunhadas pelos cretinos fundamentais que dominam redações e microfones pelo país afora. Mas o fato é que, para usar uma frase que inventei hoje de manhã, futebol é bola na rede. OS DOIS TIMES entram em campo e quem conseguir colocar a "esférica" entre os três paus maior número de vezes ganha a partida. Só que nós, brasileiros, temos uma dificuldade absurda e absoluta de admitirmos a possibilidade de que alguém jogue melhor, que seja mais eficiente e ganhe a partida. Sempre tem de haver "forças ocultas", racha no elenco, problemas de relacionamento, convulsões, crises, bolhas, armações políticas, resultados forjados, o escambau, para justificar o fato simples e óbvio que no esporte às vezes se ganha e às vezes se perde.

A minha visão sobre a Copa e a seleção dei a conhecer semana passada e só quero redizer a mesma coisa por um outro lado, depois que o cenário inverteu-se por razões notórias. Reafirmo: não faltou vontade à seleção brasileira. Individualmente, se pegarmos um por um, fica fácil de ver. Peço um exercício: leiam estes nomes pausadamente e quem viu o jogo (porque muita gente faz carnaval, paquera, enche a cara, mas o jogo mesmo não vê) lembre de suas feições individuais, correndo em campo: Dida, Cafu (jogou talvez pior partida de toda a sua vida, superado física e tecnicamente em campo; mas correu 90 minutos incansavelmente e foi digno, assim como na chegada no Brasil, dando a cara a bater com a tranqüilidade de quem deu o melhor de si, mesmo que esse melhor seja menos do que se esperasse), Lúcio, Juan; Emerson, Gilberto Silva, o grande Zé Roberto (o segundo melhor da seleção, calando, inclusive, a minha boca); Adriano, Kaká, Ronaldo. Não vai entender nunca nada do que se passou quem continuar achando que esses seres humanos (são humanos, sim, a despeito de ganharem um milhão de dólares por mês, coisa difícil de se entender, ou só a Xuxa e o Faustão é que são humanos?) entram em campo como se estivessem cumprindo uma formalidade burocrática, pagando uma conta de luz na fila do banco. Eles tremem, sim, sentem cagaço, sim, nervoso, ansiedade, gana, medo, alegria, saudade, o escambau. E jogam, dentro das limitações objetivas a que já me referi.

Então vocês perguntarão: mas o que aconteceu, afinal? Porque a despeito do que possa parecer não sou um débil mental completo e sei que jogamos muito mal no sábado, muito mais mal do que seria previsível ou aceitável. E sei também que o time não chegou a empolgar no restante da competição. Três fatores, em minha opinião: 1) A falta de carisma, já ventilada na semana passada, que em outras palavras pode também ser lida como a falta de lideranças capazes de superar o histórico e objetivo distanciamento entre o escrete e a nação brasileira. 2) A falta de fibra, de aguerrimento, de sangue nos olhos. Isso é muito diferente de falta de vontade. Mas não é do time, não. É do brasileiro, em geral, que talvez tenha que gastar toda a sua força de luta e dedicação pra ganhar a vida suada no dia-a-dia e não sobre muito para a política, a competição esportiva etc. Essa tão propalada falta de gana é proverbial e histórica na história político-social do Brasil e também na história de seu futebol, tirando as exceções confirmatórias de sempre. Não temos a garra argentina, a sanha uruguaia. E o que, talvez, tenha feito Pelé tão maior do que todos os outros, além de suas magistrais qualidades técnicas, tenha sido o que batizou um zagueiro adversário "seu olhar de fera acuada". 3) (decorrente do funesto somatório das duas primeiras) A falta de superação das individualidades em prol de um projeto coletivo, de um espírito de equipe, voltado obstinadamente para um único objetivo, qual seja a vitória. Uma coisa é vontade de vencer e consciência de que deve-se dar o melhor de si. Isso não faltou, repito pela enésima vez. Mas falta o que faça colocar essa vontade como projeto a ser coletivamente desenvolvido, para ser coletivamente colhido o louro do sucesso. De colocar essa vontade e esse desígnio coletivo acima de qualquer outra vontade, outro desígnio, outra vaidade ou qualquer idiossincrasia.

Repito o que desde o começo desta Copa não deixa de ser a razão primordial para eu estar metendo o bedelho nessa seara tão espinhosa: quem mais atrapalha o Brasil são os brasileiros. Melhor dizendo, meia-dúzia de "brasileiros" de meia-tijela que, EXATAMENTE COMO OS JOGADORES QUE TANTO CRITICAM, não são capazes de colocar a sua torcida por uma vitória coletiva, NACIONAL, acima de suas vaidades e de seus interesses particulares. Isso vale para os jornalistas que precisam sobreviver do tradicional "eu não avisei?"; isso vale pra essa malta de mequetrefes novos-ricos que vai à Alemanha não torcer pelo Brasil, mas vai para poder dizer pros amigos "da balada" que esteve lá "dando força" e testemunhando pessoalmente o hexa; vale para os vários maus brasileiros de plantão que apreciam tanto o estigma da derrota, para poderem justificar, por exemplo, por que não pagam impostos, por que metem a mão no dinheiro público, ou por que, simplesmente, tratam tão somente de cuidar de suas vidinhas e podem danar-se para o destino da coletividade; podem eleger seus candidatos safados para servir de despachantes de seus interesses particulares.. "Por quê, afinal, tenho que pagar imposto e me importar com o destino público, se esse povo não merece?" "Por que tenho que me preocupar com os pobres, se esses não tem caráter mesmo, como bem demonstram os ex-pobres que a elite permitiu ascendessem ao círculo dos eleitos, contanto que dessem suas pernas a quebrar e seu sangue a derramar nos gramados em honra da nação?" E por aí vai

Quero fazer uma declaração e pedir ajuda (dos meus advogados Edu Goldenberg e Marcão Gramegna, no caso): declaro para todos os fins e a quem interessar possa, que se alguém queimar uma bandeira do Brasil do meu lado por causa da derrota de sábado, da eliminação da Copa ou qualquer coisa que o valha, matarei essa pessoa com as minhas próprias mãos. E transcrevo, para ilustrar, ao fim e ao cabo, da Folha de S. Paulo de hoje : "Tão derrotados quanto a brasileira, a seleção argentina chegou anteontem a Buenos Aires. Mas houve festa para os que voltavam.[...] Com bumbos e faixas de agradecimento à campanha da equipe ('Deixaram tudo em campo. Bancamos vocês até a morte'), pediram a[o técnico] Pekelman que fique. [...] A recepção calorosa foi animada pela tônica da imprensa: 'Morremos de pé'." (destaque meu, sim senhores. Enquanto isso, os "patriotas" brasileiros que foram "receber" os jogadores no aeroporto de São Paulo, ofenderam e enxovalharam a honra do Capitão do Penta, esse lutador digno, esse símbolo do futebol brasileiro, o homem que mais defendeu o Brasil em copas. O homem que quando estava no degrau mais alto do mais alto pódio tratou de exaltar o bairro humilde, pobre e esquecido onde nasceu.

A vocês, hermanos, meus respeitos. Na bola e na vida. Um dia chegaremos lá.

8 comentários:

  1. zé sergio4/7/06 11:44

    Sze, já o meu apito final está como primeiro comentário do Buteco.

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  2. Fernandão,


    Compreendo suas críticas aos críticos da seleção brasileira, mas isso não elimina os defeitos que assistimos.

    Em primeiro lugar, não pode ter esse negócio de jogador "imexível", como bem disse o Zé Sérgio. Lembro-me de uma entrevista do João Saldanha, pouco antes da Copa de 90, em que ele dizia que na seleção deveriam jogar os onze que estivessem melhores no momento (ele era defensor do antigo bordão: "seleção é momento" ou "seleção é para selecionar os melhores"). Essa história de ter um time "a priori" ao invés de selecionar os melhores, dizia o Saldanha há mais de quinze anos atrás, não pode acabar bem nunca. Vai daí que, por exemplo, um cara que se apresentasse fora de forma não jogaria em equipe do Saldanha em hipótese nenhuma, nem que fosse o Pelé. Pelo menos não até entrar em forma de novo e mostrar que tem condições reais de jogo. O Felipão é outro que não hesita por no banco quem quer que seja, assim também o Luxemburgo e o técnico da Argentina.

    Em segundo lugar, o que mais gostei desse seu novo texto foi o destaque para a falta de projeto coletivo nesse time, e o maior culpado por isso aí é o Parreira, a quem chamo de medíocre, sei que sem sua concordância, exatamente porque não consegue fazer um time jogar como time. No fundo é isso.

    Não se vê, nos times treinados por ele, o toque de bola valorizado, como nos time do Telê (e de certa forma como jogou a Argentina nessa Copa, guardadas as devidas), não se vê a união do time, como nos times do Felipão, e por aí afora.

    É grave que essa não parece uma seleção que represente o futebol brasileiro, mas um time que contém onze jogadores que, por uma coincidência, nasceram no Brasil. E isso parece difícil de reverter.

    Em duas coisas, concordo com você. Se a imprensa se limitasse a cobrir um evento esportivo, sem reportagens escrotas sobre namoradas, sem glamorizar demais certos jogadores, sem transformar a concentração num "Big Brother", etc., a pressão emocional seria menor. Outra é que queimar bandeira do Brasil é de uma bábara escrotidão. Mas, de certa forma, alguns brasileiros (e não é só uma "elite" não, infelizmente) queimam simbolicamente essa bandeira todo santo dia.

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  3. Szegeri: concordo contigo em quase tudo, e sabes disso. Mas para efeito de registro, quero discordar no seguinte...

    Concordo com o valor do Cafu (limitado, diga-se), mas não para essa Copa do Mundo. Também me comovi com a lembrança da Vila Irene (é isso, né?) em 2002, mas ele está, meu caro, como nós, velho para o futebol. Corre? Corre. Mas não agüenta mais o tranco. Assim como o Roberto Carlos, que tomou mais bola nas costas que o Waldomiro, o corno do "Meu Lar é o Botequim".

    Ou seja, mano, a discordância é mínima, sendo fundamental - afinal é esse o foco desse seu (mais um, diga-se) brilhante texto - dizer que é lamentável demais a escória de jornalistas que foram à Alemanha.

    Já te falei, por exemplo, sobre o caderno de esportes d´O GLOBO. Tinha Artur Xexéo, um afetado, dando o preço das coisas na Alemanha. Tinha Cora Rónai (essa, então, dava vontade de chorar de raiva...) entrevistando jogadores com uma capivara de pelúcia na mão, confessando em TODAS as colunas que não entendia NADA de futebol... o que fazia lá, meu Deus????? Tinha João Ubaldo Ribeiro não dizendo coisa com coisa. Tinha o Calazans secando dia após dia. Assim como o Renato Maurício Prado.

    Na TV, mais nojeira.

    Nessa hora, meu velho, e só nessa hora, como dissemos quase ao mesmo tempo e sem que nos falássemos, dá uma puta inveja do brio, da gana e do orgulho dos argentinos.

    Beijo.

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  4. Hoje tem uma boa do Parreira no jornal. Disse o gênio: "se ninguém errar, o jogo termina empatado em zero a zero"

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  5. Edu, essas e outras discordâncias são absolutamente legítimas. Você pode achar o Cafu velho, o outro pode achar que o Robinho entrou tarde, o terceiro que deveria ter levado o Washington do Palmeiras, tudo bem. O que me emputece tremendamente é dizer que perdemos POR CAUSA do Cafu, do Roberto Carlos ou do Parreira. Que TERIA SIDO DIFERENTE se o Robinho tivesse entrado, ou se o técnico fosse o Luxemburgo. Passa amanhã. Pede-se em campo, dentro de 4 linhas, na bola, por uma conjunção de fatores. O "se" não faz parte do futebol. Disse a inúmeras pessoas que após o jogo França e Suiça eu chamaria os dois times, agradeceria e manda-los-ia de volta pra casa com o prêmio de participação. Talvez o pior jogo da Copa (certamente o pior de cerca de 40 que vi). O Zidane jogou uma partida 20 vezes pior que o Cafu na eliminação. Se a França fosse o Brasil, a imprensa o teria crucificado impiedosamente. Mas e aí? O cara se recuperou, o time melhorou e eles estão na semi-final. O desprezo que eu tenho por essa gente toda é que ignoram o elemento mais maravilhoso do futebol: o IMPONDERÁVEL. Se o time de vôlei do Brasil, campeão olímpico, jogar 1000 vezes com a seleção de El Salvador, vai ganhar as 1000, SEMPRE por 3 sets a 0. Só vai variar o placar dos sets. Mas se o Santos de Pelé jogasse com o Ibys 1000 vezes, É MUITÍSSIMO PROVÁVEL que ocorresse um empate ou uma vitória da brava equipe pernambucana. Essa á a diferença. Os sabichões jornalistas e esse povinho que vê futebol a cada 4 anos quer tratar a coisa como matemática, em que se vc soma dois com dois e dá cinco você errou.

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  6. Evidente que no futebol há o impoderável. O que se pede não é a certeza da vitória, já que isso é impossível.

    O que se pede é que a seleção brasileira jogue bem, e na minha opinião, como na opinião de milhares de porteiros, motoristas de taxi, garçons, cartorários, vizinhos, amigos e parentes, não jogou.

    Também não sei se jogaria bem com outro técnico, pode ser que sim, pode ser que não, mas o Parreira, para mim, fez um trabalho de merda e confirmou sua mediocridade mesmo. É só isso. Fui.

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  7. Marcão, enão disse que a seleção jogou bem contra a França e acho que ninguém acha isso. Antes desse jogo, a aprovação popular às atuações e ao técnico já foi por mim enfocada em comentário ao texto anterior, citando pesquisa Datafolha. Não se trata de escamotear os defeitos da campanha, do trabalho realizado. Os erros tem de ser identificados, para que se busque acertar na próxima. Apenas e tão somente acredito na parcela de responsabilidade de cada um numa derrota NACIONAL. São responsáveis os jogadores, a comissão, os dirigentes, os jornalistas irresponsáveis e incompetentes, os empresários futebolísticos inescrupulosos, os brasileiros passivos, alienados e acomodados em geral, os anti-torcedores, os detratores do Brasil e por aí vai. Cada um na sua justa e proporcional medida.

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  8. Nesse ponto, creio que você tem razão. A única coisa que gostaria é de ver o Brasil jogando bem. Perder, é claro, faz parte.

    Abraços

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