quinta-feira, 2 de março de 2006

Túmulo do Brasil

Havia dezoito longos anos que não sabia de corpo presente o que era a cidade de São Paulo durante o carnaval. Não digo o carnaval em São Paulo, algo que, se existe na atualidade, nunca ninguém viu, assim como a quadratura do círculo, enterro de anão, cabeça de bacalhau e chester vivo, ciscando por aí.

É bom dizer que o impacto foi naturalmente maior depois de ter estado no Bola Preta no sábado. E não digo nem o Bola Preta, que acima de tudo, como ser carioca, é um estado de espírito, sobre o qual não me animo a discorrer agora com medo de agravar minha depressão pós-momesca. Falo do povo tomando o centro da Cidade que lhe pertence, horas e horas após o desfile, quando ainda não se podia andar duzentos metros em menos de quinze minutos. Falo do Cordão do Boitatá - a quem tanto já critiquei, mas não posso deixar de render homenagem - do Flor do Sereno, do Céu na Terra, das bandas, do Terreirão (mas principalmente do "terreirinho"), dos bate-bolas de Marechal, das escolas de samba da Sapucaí e as de Bonsucesso, do Cacique, do Bafo, do Clube do Samba, da Lapa, dos bailes populares, da Vila Isabel desfilando no Boulevard (não sei se houve este ano), do baile na sede do Bola Preta. Dos mais de quatrocentos blocos cadastrados pela prefeitura do antigo Distrito Federal.

Senhores, a cidade de São Paulo no carnaval é deprimente. O vazio das ruas é deprimente, assim como o é a satisfação dos que curtem a "tranqüilidade" da cidade, a fluidez do trânsito. São deprimentes os cinemas abarrotados tanto quanto o enfado dos burocratas de plantão, doidinhos pra vida voltar ao "normal" - o seu "normal" deprimente de resolver coisas e encaminhar expedientes e fechar negócios. É deprimente - não, não: é EXTREMAMENTE deprimente - um arremedo de matinê de clube, com fanques e axés insuportáveis, como é deprimente a apuração das escolas de samba, com os bate-bocas, ameaças e quebra-quebras tão repetitivos quanto mal ensaiados. É deprimente ver como o povo ainda gosta do carnaval, sim - eu disse O POVO - mas não tem a força pra fazê-lo por si só, dependente das migalhas que uns poucos e bravos resistentes teimam em oferecer (parabéns ao SESC!) e completamente à mercê dos que o privatizaram, dos que o confiscaram de seu legítimo detentor, para impor suas pseudo-fórmulas burras, artificiais, vendidas, que a nada se prestam.

O povo que lota os Sesc's e ainda deposita desejos numa fórmula tão desgastada como a das escolas de samba, artificialmente transformadas em algo a que não nasceram vocacionados os velhos e saudosos cordões. Palco de disputas que não poderiam ser mais dissociadas do espírito do carnaval - verbi gratia, as desavenças pseudo-futebolísticas (e perdoem se me repito) - , as atuais escolas de samba herdaram a forceps o formato das agremiações cariocas, com todos os vícios que a modernidade lhes impôs e sem um mínimo da pujança resistente dos primórdios, da identificação popular histórica, e até mesmo da organização que hoje se faz presente, com todas as magnânimas críticas que se lhe posssa tecer.

Ora direis haver os bailes do Ó do Borogodó. Mas aí não é São Paulo! É a negação de tudo o que acima se disse, assim como São Paulo é a negação desse Brasil que teima em se amar, singular, mestiço e tropical, sim senhor. E nesta negação da negação, dialética perfeita, é que se há de ressuscitar o Brasil a partir do que aqui jaz, sufocado pelas ervas daninhas, tão ferozes quanto mal-ajambradas, muito bem plantadas nesta triste sede do capitalismo tupiniquim.

3 comentários:

  1. Mano, não por outra razão o Bola Preta foi o melhor do Carnaval carioca. Lá estava a Libélula Verde Peluda & Obesa, meu irmão Szegeri que veio, na visão aguçada da Sorriso Maracanã, travestido de Iara pro Rio de Janeiro. Fica a lição, malandro. SP no Carnaval nunca mais. O Rio ressentiu-se de sua presença. Mas quando eu te liguei (o quê?, umas 30 vezes?) foi sempre pra te levar, ao menos, o som da cidade que te faz bem.

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  2. Anônimo4/3/06 12:51

    Fala, compadre. Antes de dizer que concordo em gênero, número e grau com vc, quero dizer que faço minhas as palavras do Edu: você de libélula verde-musgo foi a sensação do Bola! Mas está corretíssimo. 200 mil pessoas, todas ébrias, e não se registrar uma tapa, uma passada de mão em bunda alheia... só o Rio. Abraço. Fernando Borgonovi

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  3. Nando, nao sei se te consola, mas o carnaval de Borbona e' mais deprimente ainda... Buaaaa'!!! Beijos, Kika.
    Ps: so' hoje vi as coisas que vc escreveu sobre a vovo' e o vovo... lindo demais...

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