quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Planos de janeiro

Este ano, sabe, eu quero botar termo às ilusões irreais, fabricadas – ainda que belas – e me libertar, me abrir para as ilusões verdadeiras, que me conduzam pelos caminhos da beleza, da criação e da união. Do outro.

Este ano eu quero botar o bloco na rua, brincar, botar pra gemer. Até porque, pra falar a verdade, mesmo morrendo de medo, mesmo caindo do galho, porra, nunca ninguém pôde dizer que eu tenha fugido da briga quando o pau quebrou!

Neste ano eu quero sair de casa numa sexta-feira, de camisa branca, nova. Ir ao bar e beber e ouvir cantar o velho sambista amigo meu. E quero sair pra tomar a saideira. E eu não quero voltar, perdido de amor, de pé numa esquina barulhenta, entre os ônibus que começarão a vir e as putas que acabarão de ir.

Eu quero apenas não voltar. Quero só ir, e ir, e ir cada vez mais.

No carnaval deste ano, eu quero me vestir de sereia, com um rabo bem verde e cílios amarelos enormes. E uma peruca ruiva, de preferência, com um diadema de estrasses bem ordinários. Eu vou me divertir, na certa eu vou sambar, mas desta vez a ilusão não vai me pegar. Vou só ficar bebendo com os amigos nos butiquins mais mais vagabundos e fazendo declarações de amor politicamente incorretas.

Na Terça-feira Gorda vou me fantasiar de pierrô. Por dentro. Apaixonado assim pela colombina mais bonita do baile...

Este ano eu quero conhecer uma praia nova, bem bonita, onde a gente só possa chegar de barco, pra poder levar a minha filha. Onde tenha uma casa sem eletricidade bem no meio do mato, pra poder conversar com os amigos e com os grilos e com o riacho que passar atrás. Pra poder brigar com a namorada e pra gente saber que a beleza da vida implica na sua imperfeição.

Este ano, no São João, eu vou brincar a quadrilha a valer. E vai ter um casamento caipira, onde eu vou ser a noiva.

Quero mudar pra uma casa nova, este ano. Vermelha, de preferência, com um quintal bonito onde eu possa fazer uma festa de casamento. A mais bonita. Pra todos os meus amigos – e os filhos deles – encherem a casa e a cara até não se poder mais.

Este ano vou cuidar da saúde, fazer dieta e beber menos. E acordar mais cedo todo dia pra nadar.

Olha, eu vou tirar férias este ano e passear muito. Quem sabe eu vá a Minas, ver de novo aquelas igrejas e casas e montanhas velhas. Quem sabe até não vejo por lá alguma festa bonita, dessas que não tem mais, com a pretoria toda castigando tambores velhíssimos como as montanhas e as igrejas? Vou, sim, eu vou a Minas este ano... Assistir à missa e acompanhar a procissão – tomara que não chova!

Até o Natal deste ano – tenho certeza – não vai ser chato que nem o natal desses últimos anos todos. Vamos fazer uma festa bem bonita, armar a árvore e o presépio. E vamos comer e comer e comer e beber até não sobrar nada. Vou convencer meu primo a se vestir de Papai Noel, só pra minha filha sorrir aquele sorriso que é o sopro mais puro de tudo o que existe.

Do jeito que este ano vai ser incrível, eu viro até personagem de livro - de tão bacana que este ano vai ser!

É... Pra esse ano ser perfeito eu vou dar um pulo no meu Rio de Janeiro. Não, não vou ao Rio de Janeiro nesse dia, não. Vou três dias antes, claro, é bem melhor, com certeza. Então eu vou ligar pro meu Amigo, pro meu Xará e convidá-lo pra gente beber. E a gente vai ficando assim, bebendo uma bebedeira bem vagabunda... E eu não vou deixar ele ir embora, não! A gente vai ficar bebendo... Bebendo...

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