quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dia de São Pixinguinha de Ogum

Se vivo fosse, o compositor Alfredo da Rocha Vianna Filho, o famoso Pixinguinha - apelido surgido, segundo ele, da contração de “Pizindim”, ou “menino bom” como era chamado por sua avó africana Edwiges, com “bexiguinha”, como teria sido alcunhado após contrair bexiga ou varíola - estaria completando hoje, 23 de abril de 2009, 112 anos de idade. Em homenagem a um dos maiores gênios da música brasileira em todos os tempos e um dos pilares do que modernamente entendemos como a nossa música popular nacional, a data em que também se comemora a popularíssima festa de São Jorge (sincretizado no Rio de Janeiro com o orixá Ogum do culto iorubá), foi proclamada pela Lei nº 10.000/2000 como o Dia Nacional do Choro, gênero em que o mestre mais se destacou.

Pixinguinha foi genial em todos os aspectos da música em que atuou. Como compositor, conhecem-se mais de 2000 músicas de sua autoria, entre as quais clássicos imortais da música brasileira como “Carinhoso” (com João de Barro) e “Rosa”. Como arranjador, não só foi o pioneiro das formas orquestrais para os registros fonográficos a partir da década de 30, como lançou e fixou as concepções básicas que dominaram a noção de acompanhamento na música popular até o advento da bossa-nova. Como instrumentista, é considerado um dos três maiores flautistas brasileiros da primeira metade do século passado, ao lado de seu companheiro Benedito Lacerda e do prodigioso Patápio Silva, morto precocemente. Em meados dos anos 40, troca a flauta pelo sax tenor, supostamente devido a dificuldades com a embocadura do antigo instrumento, provocadas pelo abuso do álcool. Porém, a mudança registra também a influência da sonoridade das jazz bands estadunidenses (cujos registros começavam a nos chegar pelos discos e pelo cinema) sobre as concepções musicais do mestre que melhor conheceu e interpretou a tradição da música criada pelas baixas classes médias mestiças da cidade do Rio de Janeiro.

Como figura humana, era conhecida sua humildade e imensa generosidade com todos os que o circundavam. É proverbial neste sentido a história-quase-lenda de que certa vez teria sido abordado por assaltantes, ao voltar para casa altas horas da madrugada. Ao identificar-se, os ladrões teriam desistido do roubo e pedido desculpas ao mestre, tentando justificar seu comportamento em face da fome, da falta de emprego etc. Compadecido da situação, Pixinguinha os teria levado para sua casa, onde juntos comeram, beberam e dormiram, saindo os meliantes só no dia seguinte, agradecidos.

Em 17 de fevereiro de 1973, o coração do mestre parou enquanto participava do batizado de um afilhado. Como registrou o poeta Paulo César Pinheiro no primoroso samba Som de Prata em parceria com o compositor Moacyr Luz:

Só quem morre dentro de uma igreja
Vira orixá, louvado seja,
Senhor, meu Santo Pixinguinha!



Dos barbeiros aos ases

A primeira metade do século XIX viu nascer as primeiras manifestações genuinamente urbanas de uma música instrumental, dissociada da dança e voltada basicamente para o entretenimento dos estratos mais baixos da população. Reunidos por ocasião das festividades associadas ao calendário religioso católico, normalmente no adro das igrejas podiam ouvir o que costumou-se designar a “música de barbeiros”, devido aos conjuntos formados por músicos amadores, basicamente negros (escravos urbanos ou libertos que muitas vezes aprendiam música nas bandas de escravos mantidas nas fazendas) e mulatos, que podiam dedicar-se a um dos únicos ofícios liberais de aprendizado não acadêmico.

Os barbeiros de então praticavam não só os serviços até hoje ligados à profissão, mas uma variada gama de procedimentos para-médicos, como pequenas cirurgias, sangrias e outras atrocidades de nossa vetusta ciência oitocentista. A razoável lucratividade advinda desses misteres permitia justamente a aquisição de instrumentos como o cavaquinho, o violão, a flauta e o oficleide, bem como certo tempo disponível para a prática musical. Os poucos relatos disponíveis parecem dar conta de que o som peculiar desses conjuntos, embora de repertório dedicado a uma certa música ligeira européia (polcas, valsas, mazurcas, schottiches), adviria de uma maneira própria de tocar, evocando um certo “ritmo das senzalas” (na expressão consagrada por Mariza Lira in “A glória do Outeiro na história da cidade”, Rio de Janeiro, Diário de Notícias de 04/08/57).

Essas primeiras manifestações foram ao longo do século XIX progressivamente sendo substituídas pelo advento das bandas militares, nos grandes centros e pelas retretas de coretos, nos lugarejos menores, até desaparecerem completamente pelos idos dos anos 1860. Nos anos seguintes, o progressivo aumento da complexidade social, advindo da falência do modelo escravagista e do desenvolvimento econômico impulsionado basicamente pelo café, vai fazer surgir na cidade do Rio de Janeiro uma baixa classe média algo difusa formada por pequenos funcionários públicos civis e militares e empregados de companhias particulares estrangeiras de comércio e serviços. À imitação empobrecida dos hábitos das elites abastadas e na ausência de consistentes e regulares diversões públicas (os cafés e teatros de revista, por exemplo, só se afirmariam nas primeiras décadas do século seguinte) essas classes populares cultivam o hábito das festas particulares em casa de família, animadas pelos conjuntos musicais a elas mais próximos e acessíveis, formados dos músicos pertencentes a essas mesmas camadas, fortemente marcadas pela mestiçagem.

Neste período, portanto, observa-se o surgimento de uma nova classe formada em grande parte por mulatos com ocupações regulares, morando em casas simples nos bairros populares próximos ao centro, como a Cidade Nova e o Estácio. Concomitantemente, os negros africanos e crioulos continuam, em sua grande maioria, mesmo após o banimento da escravatura, condenados a uma vida marginal, abrigados nos morros e subúrbios distantes, sem ocupação fixa ou relegados aos duros trabalhos braçais da estiva. Se neste ambiente o samba encontra as condições para se tornar a mais importante forma de expressão, o choro nasce naquele incipiente estrato social em que ocupações mais leves permitem aos seus componentes maior dedicação à música e um certo excedente econômico possibilita a aquisição de instrumentos e a promoção de encontros festivos.

Se a origem do termo é algo controvertida, o certo é que o gênero é definido musicalmente não por um elemento rítmico característico e singular, mas pela maneira algo lamuriosa de execução – segundo Tinhorão*, uma leitura tipicamente brasileira do romantismo da música européia – que já agora certamente incorpora a herança sensível daquele já citado “ritmo da senzala”, mais tarde tão perceptível nas composições e execuções de músicos como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Joaquim Callado.

Rapidamente popularizado e espalhando-se pelos redutos populares da cidade do Rio de Janeiro, o choro torna-se o referencial musical dessa baixa classe média, tomando conta dos quintais de subúrbio e das festas populares. Numa época ainda não marcada pela difusão musical maciça, a virtuosidade musical desses executantes amadores ou semi-amadores se mede pela fama espalhada boca a boca e nos ocasionais “embates” propiciados pelos encontros de músicos renomados. De 1870 a 1919 computam-se mais de 3000 composições conhecidas, de mais de 1400 compositores.


Renascendo das cinzas

É justamente o advento de uma nova era marcada pela popularização do rádio e do disco, a partir da década de 30 do século XX, onde a música popular atinge o status econômico de mercadoria destinada a circulação em massa, que vai gerar a decadência do choro e seu paulatino confinamento a bastiões isolados de resistência. Não obstante se acentuando progressivamente a influência da música estadunidense sobre arranjos e formas de execução, é certo que a origem e formação de muitos executantes populares no ambiente do choro vai acabar por imprimir uma feição indelével que jamais se apartará do seio da música popular brasileira. Porém, enquanto prática destinada ao suprimento das necessidades musicais e de divertimento das camadas populares, o choro entrará em declínio, substituído pela praticidade e economicidade do disco e do rádio.

Os dois maiores arranjadores na chamada “época de ouro” (1930 a 1945, com algumas variações segundo diferentes autores), Pixiguinha e Radamés Gnatalli, incorporaram muitos elementos tipicamente oriundos do choro nos acompanhamentos orquestrais que conceberam para as gravações dos grandes nomes da música popular. Quando o acompanhamento não era orquestral, entravam em cena os chamados regionais, com formação típica dos conjuntos de choro, do qual o mais famoso foi o de Benedito Lacerda, também oriundo dos mesmos ambientes.

Entre as décadas de 30 a 60, embora incorporado às feições da música brasileira, o choro experimenta um longo período de ostracismo, sobrevivendo sobretudo pelos quintais, com gravações e apresentações esporádicas, a despeito do surgimento de grandes compositores/executores do gênero como o cavaquinista Waldir Azevedo, o clarinetista Abel Ferreira, o flautista Altamiro Carrilho e o grande bandolinista Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolin, um dos mais geniais músicos brasileiros de todos os tempos. Igualmente, o gênero sobrevivia em outros lugares do Brasil como Belém do Pará, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e, sobretudo, em São Paulo, onde se desenvolveu e ganhou contornos muito particulares.

Foi de Jacob do Bandolim a semente para o ressurgimento do gênero, com a fundação do conjunto Época de Ouro, reunindo os maiores músicos da época como o violonista Dino e o pandeirista Jorginho. Parcialmente desativado depois da morte de Jacob, em 69, o Época ressurgiu em 1973 quando do espetáculo Sarau, ao lado de Paulinho da Viola. O enorme sucesso da temporada impulsionou as gravações de discos de choro (Camerata Carioca, Isaías e seus Chorões, Naquele Tempo, Regional do Evandro, entre muitos outros) e a fundação de novos grupos como o Galo Preto, Os Carioquinhas (76) e o Nó em Pingo d’Água (79). Ficou famosa na década de 70 a roda de choro do bar Sovaco de Cobra, na Penha, reduto suburbano tradicional do choro carioca, que atraía grandes contingentes de público de variadas regiões da cidade.

Ao longo das décadas seguintes, novos e importantes grupos e músicos foram surgindo, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em finais dos anos 90, o gênero ganha novos e importantes impulsos, com o aparecimento na Internet de uma publicação especializada, a Agenda do Samba & Choro, proporcionando a circulação de informações antes restritas aos quintais e botequins, colaborando decisivamente para a formação de um público fiel que passa a freqüentar assiduamente os circuitos alternativos da música instrumental popular. Surge igualmente um grupo de músicos liderado pelo violonista Maurício Carrilho e pela cavaquinista Luciana Rabello preocupados com a preservação da memória musical do gênero e na formação de novas gerações de chorões (os frutos desse trabalho fazem-se sentir na fundação de um selo especializado em choro, a Acari Records, em trabalhos de pesquisa e recuperação e na organização de oficinas para jovens músicos). Organiza-se o Clube do Choro de Brasília e, em torno deste, a escola de choro Rafael Rabelo, proporcionando uma enorme valorização do gênero na Capital Federal.



Rumo ao futuro

Muitas outras iniciativas poderiam ser citadas, mas estas bastam para a constatação de que o gênero vive um momento de grande efervescência, com rodas de choro em várias cidades brasileiras, clubes de choro, espetáculos e lançamento de discos. Muito ainda falta, entretanto, para se romper a barreira imposta pelo oligopólio da produção e distribuição do produto genuinamente nacional e de boa qualidade na música popular, controladas pelas cinco ou seis gigantes multinacionais do segmento.

A par disso, surge uma outra questão paradoxal. A partir do interesse despertado pelo choro em músicos das mais variadas formações e tradições, o gênero tendeu a sofrer uma enorme sofisticação harmônica e conceitual, com imbricadas relações com a música erudita e a música instrumental estrangeira. Ainda que amadores e profissionais ainda convivam em rodas tão renitentes como distantes, como as promovidas pelo luthier Manoel Andrade e pela loja Contemporânea, em São Paulo, ou no Bar do Gilson, de Belém do Pará; ainda que o espírito das velhas rodas suburbanas de músicos amadores sobreviva na Adega Tudo do Mar, no bairro carioca de Marechal Hermes, no Bar do Gilson, de Belém do Pará, e em quintais e botequins espalhados pelo Brasil, a tendência que se observa em larga escala é de que o choro cada vez mais requeira não somente o virtuosismo espontâneo das antigas gerações, mas o aprofundamento e a sofisticação da formação do executante, com tendências conseqüentes à profissionalização, para não dizer à elitização.

Novos grupos como o carioca Tira a Poeira executam o repertório tradicional do choro, incorporando elementos rítmicos e harmônicos bastante apartados da linhagem musical que classicamente caracterizou o estilo, resultando numa sonoridade bastante diferenciada das execuções mais conhecidas. Mas se o gênero caracterizou-se justamente pela forma de execução, perdidas uma vez tais referências, o que exatamente determinará a sua sobrevivência ou o seu desaparecimento?


* Tinhorão, José Ramos – História social da música popular basileira, São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 197

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Republicação, com mínimas adaptações, da versão original publicada no Portal Vermelho, em 23 de abril de 2004.

domingo, 19 de abril de 2009




Monólogo do índio

Thiago de Mello


Perdido de mim, não sei ser mais o que fui e nunca poderei deixar de ser.

De mim me perco e me esqueço do que sou na precisão que já tenho de imitar
os brancos no que eles são: uma apenas tentativa inútil que me dissolve na
dor que não me devolve o poder de me encontrar.

Já deslembrado da glória radiosa de conviver, já perdido o parentesco com a
água, o fogo e as estrelas, já sem crença, já sem chão, oco e opaco me
converto em depósito dos restos impuros do ser alheio.

Resíduo de mim, a brasa do que já fui me reclama, como a luz que me conhece
de uma estrela agonizante dentro do ser que perdi.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Carta


Amiga,

Chove uma chuva miúda. Saí para ver, contrariado, mas não é que me pareceu leve e fresca, de destampar os velhos frascos das emoções suaves, das lembranças calmas?

Senti ímpetos de telefonar, como há muito não havia. Conteve-me o temor do que achasses despropositado, ou até ridículo. Imaginei-te na fila do supermercado, descarregando o carrinho, sabe-se lá, e um maluco do outro lado, desajeitado de sempre, torturado pelos instantes em que uma resposta naturalmente tardasse... Depois de tantos anos!

Ainda que perdidos nos mundos descaminhos, trilhados com a sinceridade possível e uma objetividade não-sei-onde arranjada...

Ainda que perdida a dimensão da grandeza toda que fora....

Ainda que grandeza nenhuma importasse, se tudo se construiu na simplicidade imensa dos momentos que outrora fundaram tantas possibilidades. Nos momentos em que foram perfeitamente normais e aceitáveis as incredulidades todas, as imprevidências, as grandes e consentidas boutades... E o cansaço. O merecido cansaço.

(São os mesmos momentos que agora me sufocam! Porque no frigir de todos os ovos, na massaroca do bolo geral, tudo se perde na grande falta de sentido, que acaba por nos absolver a todos. De tanto realizar o percurso, o espírito regrado se aquieta numa conformidade fabricada e conveniente. Mas não nos momentos! Essas crateras por onde fumegam os humores menos domados, e por vezes explodem as querências de alguma vida ainda, magma cálido a se petrificar num oceano gelado de mediocridades e presunções.)

Ainda, amiga, que tu estejas achando tudo isso tão estranho...

Saiba que esta tua presença distante, paralela, tem o condão de salvar a minha vida da ameaça das pequenas ruínas (das grandes, lamentavelmente, parecemos a salvo...) que tanto sempre temi. A tua lembrança, suave e fresca, como o vento que esta chuva carrega.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

À procura de Paula




Dois grandes jornais de São Paulo estamparam, há algum tempo, o desespero de um jovem suíço à procura de seu amor brasileiro. Da chamada em letras garrafais, num anúncio de meia página, emprestei o título para esta crônica, logo após do quê raiava despudorada a dupla verve de seu desconsolo: vira-a apenas duas vezes e perdera o número de telefone que ela lhe deixara.

Não vos direi que a fugacidade do momento amoroso seja inversamente proporcional à paixão desencadeada. Soaria demasiado velhaco e já estou em idade em que o estoque de reputação não está para desperdícios. Mas afirmarei sim, ó leitora atenta para os deslizes sentimentais do velho cronista, que a brevidade aguça a impressão deixada na alma pelo objeto do nosso desejo: se a marca foi intensa, sua recordação sempre suscitará um frêmito lamurioso que só faz derramar mais e mais deleites sobre a imagem do amado, corrigindo-lhe pouco a pouco as imperfeições do traço, acentuando-lhe a musicalidade da voz, acetinando a lembrança do toque.

Se, ao contrário, o primeiro impacto foi pífio, o contato efêmero obstará ao tempo seu labor paciente de educador do gosto, da paciência e da tolerância. E como numa antiga fotografia de uma tia-avó que só vimos uma vez, quando criança, a imagem irá se desfazendo, devagar, em meio a uma nostalgia vaga, despejando no coração gotinhas diárias de indiferença, até que se torne candidata a encher o saco de lixo da próxima arrumação das gavetas.

Mas não fosse nada disso, meus caros, a perda do número do telefone é quem dá o inapelável toque à nossa história. Diferente do samba famoso, onde a meia e o sapato ocupam resignadamente o lugar do retrato perdido, o papelzinho desaparecido encheu-lhe o peito de uma obstinação e de uma esperança.

E essa obstinação é que o fez trabalhar durante quatro anos, numa Suíça gelada e distante, a cada dia, em metódica aglutinação dos tostões, em busca da pequena fortuna necessária para apregoar aos quatro ventos a sua paixão. A cada dia se levantava e trabalhava movido pela certeza de que não podia fazer outra coisa, senão ficaria louco. Atormentava-o especialmente, muito mais do que a possibilidade de que estivesse casada ou mesmo morta, a imagem da moça julgando-se desprezada, ante o seu silêncio. Logo ela, a encarnação de todos os seus sonhos. A necessidade de dizer-lhe, dizer ao mundo que fora vítima indefesa do capricho do acaso, impelia-o acima de tudo.

Não sei se Paula apareceu, ou se aparecerá algum dia. O peito desanuviado pelo grito liberto certamente suportará melhor a angústia de sua ausência. E para sempre lhe restará a esperança de que sua amada ouça, no sussurro da última brisa, ou na voz do derradeiro arauto, que Ele a espera.

(março de 1999)

Publicado originalmente em 03 de dezembro de 2004

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Tempos que vão


"Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber" [...]

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Modernização


O buteco onde bebia
todo dia
Foi vendido
Pr'uma farmácia.

Continua pedindo
todo dia
Sua dose
Encostado ao balcão.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O estrangeiro


Tornado andarilho, esperava reencontrar a Cidade que não via pela janela do carro, enquadrada, conforme uma voz que lhe soava, assim, meio pop. Pois sempre não lhe parecera fascinante a vida que brotava por entre as fachadas desta judiada? A Velha Senhora, recém-desnudada, até parecia querer colaborar. Curiosamente, não era de tantos pudores, como seria de se esperar; um certo constrangimento, que a sua beleza não era senão daquelas que, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais.

Descendo a antiga rua de sua mocidade, pensava no velho Einstein – e só agora, verdadeiramente, o compreendia: o surpreendente não é que conheçamos o mundo, mas que nos seja dado conhecê-lo! Se um dia lhe tivera sido dado conhecer a Cidade onde nasceu e viveu, no sentido plenamente confessional, certamente mais não mais o era.... Onde, meu Deus, a velha galeria? Procurou, em vão, afastar o que julgou uma obsessão de seus cabelos recém-grisalhos. Mas não era possível; dessa vez não se tratava da especulação fastidiosa de hábito. O alheamento realmente o assaltava, como despojamento, como espoliação de suas próprias lembranças. “Não pode ser aqui, devo-me estar confundindo...” O desvelamento que súbito o fazia estrangeiro na rua onde crescera sequer chegava a soar violento, posto que insidioso. E, nisso, acima de tudo, por demais cruel: tudo estava lá, mas não estava! Exílio que se faz no tempo, o que realmente o estarrecia era a constatação da impossibilidade do retorno.

Não só os lugares não estavam mais: assim também as pessoas. Não algumas, determinadas: as pessoas. Não havia propósito com que pudesse atinar. A Cidade não crescera, mudara-se sem deixar endereço, como aquelas tantas inundadas de pretensão e descaso. Mas o que aqui se poderia represar, senão o ressentimento? Vagou a procura de nenhures. Um estranho silêncio, uma calma perturbadora. Onde estariam os que ali não estavam? Preparando o levante? O que se tramava à espreita, de uma forma tão descaradamente dissimulada? Onde teria estado, enquanto eles vieram e tudo levaram? Mas se caminhara por todos esses anos e não se poupara, a vigiar, até, quando diabos foi que tudo se acabou?

E acima de todas as dores, a única verdadeiramente indizível: a de nunca poder saber, de verdade, se não teria sido ele quem acabara.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Declaração de amor politicamente incorreta

Aldir Blanc


O sujeito olha pra espuma da cerveja mas não vê nada. Não está no buteco, nem em nenhum outro lugar. É uma voz, girando no espaço-tempo, em busca não do que foi perdido, mas dos melhores momentos de sua vida:

- Eu estava sentado na sala, no mesmo lugar de sempre, com o velho copo, tomando a bebida que prefiro há anos e anos, quando ela entra, serena, como se estivesse flutuando. Nós nos conhecemos tanto que eu percebo que a quietude é excessiva, que o sorriso paira no rosto como uma sombra, que a intensidade dos olhos é dolorosa e não tem nada que ver com receitas, presentes, gracinhas dos netos. Meu primeiro pensamento demonstra que eu não presto, nunca prestei: ela conheceu algum palhaço que... Mas os gestos angustiados, os gestos de náufrago, provocam uma sensação estranha em mim, como se escutasse a sirene dos bombeiros chegando cada vez mais perto da casa onde moro. Tentando esconder o nervosismo, finjo uma rispidez que não sinto:

- Qualé, viu passarinho verde?

E ela, quanta calma, murmura com suavidade infinita: não é nada. Fui ao médico. Fiz uma ultra-sonografia e ele pediu outros exames... Minha poltrona cai num alçapão e ela já não está na minha frente, de cabelos curtos, ela está de botas, no apartamento de um amigo meu, pedi a chave emprestada, e os cabelos são uma cascata castanho-ouro. Meio bêbado e complemente apaixonado, tento escapar do fascínio com frases de detetive particular americano: não confie em pilantra metido a intelectual. Ele engana que lê Joyce mas acaba dando com o Ulisses na tua testa. Ela ri. Invento uma senha pra afastar vagabundo. É só um cara encostar com muito lero-lero, você olha duro e avisa: isso aqui tá cheio de Pirata Malaio. Sinal de que ela deve cortar o lance rapidinho ou o pau vai comer. Um dia, cheio de conhaque e de amor pra dar, o nariz sangra em pleno ato sexual. Ela se assusta. Metido a machão, pinto uma tira vermelha com sangue, de face a face, passando pelo nariz e canto marra: sou descendente de apaches. Tantos encontros inesquecíveis: no Ebony, no Lamas, todo o roteiro de bares e motéis percorrido. Versões de Tenderly, de I'll Never Be the Same, de Moonlight Serenade, versos, cartas, minha cara, os sapatos também pisam nos meus, e a cueca, no vasculhante do banheiro, seca sobre a calcinha, como um símbolo, em feitio safado de oração, nem por isso menos profunda. Com o tempo, há mortes compartilhadas, horas de dor, mas, acima de tudo, riso, riso, riso, apesar dos dentes e cabelos caindo em mim, da barriga despontando, ela cada vez mais bonita, os dois de óculos para miopia e astigmatismo quase ao mesmo tempo, se olhando e rindo como Tico e Teco, palpitações, taquicardias, acessos de tosse, varizes, pressão alta, mas, nas horas difíceis, ela encosta a cabeça e só dorme nesse peito aqui, ó, nem lexotan faz o mesmo efeito. Eu sou o macho da relação, certo?, tudo bem?, é por isso que estou prendendo o choro, eu preciso ser forte e dizer aquelas frases: isso é pura rotina, não significa nada, vapt-vupt. Adulto da boca pra fora. Porque a tal da voz interior parece a de um rapazola espinhento que perpetra sonetos melosos, que se masturba por ela, que ainda sonha com situações como a da valsa: e tu não flertaste ninguém, olhavas só para mim... Por aí. Lamartine, meu velho, eu babo. E enquanto John Waine da Zona Norte escande as sílabas, eu mesmo cansei de pedir esses exames, ro-ti-na, o pierrô apaixonado acaba chorando e, como nas histórias de folhetim, fala em cisco no olho, puxa o lenço, engasga e então, convulsamente chora. Chora porque não há a menor chance da vida ter graça se ela sofrer, não é possível, Musa não sofre, ela é a linda suburbana da seresta, com lábios que são tâmaras maduras da flora do coração, ela pisa nos astros, distraída, pra ficar só no Orestes Barbosa, ou não vai caber tudo na edição de domingo do jornal. Ro-ti-na, Porque fora da rotina que construímos, meu amor, eu não durmo, não como, não abro a porta, não atendo o telefone, não ouço música, não consigo ler, não quero assunto, a bebida atravessa, o Vasco é um pé no saco, o mar é um deserto, o Rio parece Assunção do Paraguai e, pra ser sincero - espero que não me neguem o direito a esse singelo depoimento - não sei nem fazer cocô.

[para Stefânia, meu amor]

segunda-feira, 16 de março de 2009

Descamisados


Símbolo máximo da paixão clubística, muito mais que o hino ou a bandeira, ela encarna, metonímea perfeita, a entidade mítica e gigantesca do time de futebol: vestir a camisa; honrar a camisa; o jogador sentiu o peso da camisa; faltou camisa para aquele time. Manto sagrado, encerra em si, além das cores e distintivo de uma nação, a galeria de conquistas, recentes e remotas, nas formas de bravos escudos de guerra ou de constelação de estrelas fulgurantes.

Veja-se o apego quase infantil do torcedor à camisa de seu clube. Uns preferem os últimos modelos, perfilando uniformizados em redor de seus heróis, ou desafiando, terras afora, o infortúnio dos que não foram chamados a fazer parte da casta escolhida. Outros, os panos surrados, sudários purificados no sangue de muitas batalhas vividas, relíquias dos espíritos dos antigos guerreiros.

Não estranhe, amigo leitor. Sei que a linguagem está meio fora de moda. É que as expressões que hoje recheiam as colunas, artigos e reportagens de nossas sessões esportivas são bem diferentes: em vez de camisa, é mais fácil deparar “lay-out”; no lugar de espírito, “marketing”; para guerreiros, preferem “profissionais”; e vamos por aí.

Na era do futebol-negócio, a paixão e a reverência às tradições parecem ter de sucumbir à lógica do capital. Daí o descaso que vimos assistindo nos últimos anos dos times de futebol no Brasil com seus uniformes, muito especialmente após a admissão da estampa das marcas publicitárias nas camisas. Certa vez puseram um amarelo-gasolina na sagrada camisa verde do Palmeiras, que depois ficou verde-clara, ganhou listras, voltou para o verde-escuro, perdeu as listras... A do Corinthians, recentemente recebeu tintas vermelhas e amarelas, sem contar o remendo com que tiveram de se apresentar em plena final de brasileiro, em virtude de uma troca de patrocínio em cima da hora ( já falam, até, em dois patrocinadores na camisa ). Já a saga de derrotas do São Paulo no último Brasileirão foi, por muitos torcedores, atribuída a uma maldição verde salpicada na tradicionalíssima camisa tricolor.

O que falar dos calções, então? Uma ridícula determinação - ao que parece, da FIFA - tornou os últimos campeonatos verdadeiros desfiles de aberrações estilísticas. O Corinthians todo de branco, parecia o Santos. O Santos, de calção preto, parecia o Corinthians, tanto que lhe meteram listras, quadriculados e até estrelas!

Daí que desse insosso e tumultuado Rio - São Paulo 99, sobrou-me a gostosa sensação de ver de volta, intactas, as belíssimas camisas de Vasco, Fluminense e Botafogo, pelo menos. Mesmo sabido que nunca por qualquer consciência cultural, mas por absoluta falta de opção. O certo é que a aquela Estrela, livre das más companhias, desfilando garbosa sua solidão reconquistada, fez-me lembrar e sonhar com um tempo em que profissionais eram, simplesmente, Manés.


(março de 1999)


Originalmente publicado em 30 de março de 2005

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sport bretão


Escreve-me uma gentil senhora, para que eu discorra sobre a reforma ortográfica e a (não tão nova) onda de anglicismos que salpicaria de “bizarrices desnecessárias” a pureza de nossa última flor do Lácio. Incrementando a relação de damas que venho decepcionando ao longo da existência, sobre o primeiro tema, apenas uma palavra: ignorarei. Quanto ao outro, além de não vislumbrar nenhuma remota utilidade nos meus palpites, calarei em modesta homenagem à esplendorosa Sorriso-Maracanã, cultora inigualável do idioma de Shakespeare . De mais a mais, a coisa já chegou ao nível do esculacho. Dispensa comentários um sujeito que ouvi outro dia dizer, referindo-se à recente separação, “estar planejando um apigreide na sua vida sentimental”; ou o treinador de uma tradicional agremiação futebolística (ultimamente um tanto em baixa), justificando a duvidosa escalação de Fulano na zaga por “terem sido deletadas as outras opções disponíveis”...

Opiniões a parte, já que a semana rescende mesmo a futebol, eis aí um terreno onde o jargão britânico sempre soou não só natural, como até charmoso, evocador daquele tempo em que violão não era ligado na tomada e fábrica de suspensório dava lucro, como diria o saudoso Moraes Sarmento, a quem ando devendo uma homenagem. Minha paixão pelo futebol é em grande parte imputável ao meu velho e queridíssimo vô Dante, que dizia que o Palmeiras conseguira um bom scorer (com o esse chiado e o erre arranhado do Engenho de Dentro) fora de casa; corner (olha os erres aí de novo!), em vez de escanteio; que chamava goleiro de keaper e volante de center-half (soava “alf”, sem o aspirado e com a de “árvore”, na deliciosa pronúncia então vigente da Estação de São Cristóvão para cima). Isso tudo, claro, num jogo narrado pelo speaker!

Talvez seja mesmo o football (que no Rio se diz “futibol” e em São Paulo “futEbol”) a retina cansada do nossos olhos sentimentais, onde tudo é projetado ao inverso. As alhures esquisitas expressões da língua do cantor-jardineiro Elton John (que não é Shakespeare, diga-se) não provocam nos gramados o estranhamento e a irritação que assomam à rebeliana leitora. Ao contrário, soam naturais, familiares, como um dominus vobiscum em fim de missa, um pas de deux em pleno Quebra Nozes!

Paradoxalmente, portanto, na era do marketing e do delivery, quase ninguém mais diz nem “beque” (aportuguesamento que só perde em autoridade ao insuperável “serve-serve”, aquele restaurante sem garçom onde os candidatos a comensais enfrentam mais filas que em venda de ingressos para o setor 1 da Sapucaí...). “Beque” impunha respeito, era malvado; “zagueiro” parece posto da Cavalaria...

Só restou mesmo o insuperável “GOL”, devidamente grafado, a despeito de toda privatização. Até porque nem mesmo o mais tinhorano dos rebelos conseguiria explodir num grito de “TEEEEEEEEEEEEEEEEEENTO” do Palmeiras...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Curtas do dérbi


* Um jogo que, na prática, não valia nada. Palmeiras ganhando não seria mais líder do que é. Corinthians ganhando continuaria em segundo, pelo número de vitórias. O empate também não alterou nenhuma posição na tabela, visto que o São Paulo está três pontos atrás. E, afinal de contas, classificam quatro. Prova absoluta e cabal que a tal “prática” não vale nada no futebol. Valem a honra, a coragem, o sofrimento, o heroísmo, o drama, a tragédia, a superação, os simbolismos universalmente transcendentais.

* Parabéns às diretorias desses dois colossos do futebol brasileiro. Organização, senso de oportunidade, promoção, tudo na medida certa para alavancar a nossa combalida paixão nacional. Sobrou, em tudo o que eu disse aí em cima, o que faltou no futebolzinho mixo que os times jogaram em 90% do tempo da peleja. E é isso que importa! Viva a rivalidade! Abaixo as babaquices não-me-toques, abaixo a selvageria imbecilizante.

* Quem, definitivamente, não se conforma com as proporções que o clássico tomou é o São Paulo Futebol Clube (sem negrito, pelos próximos 70 anos). Não importa quantos títulos ganhem, a incontestável hegemonia, o crescimento numérico da torcida; não importa o poder econômico, a arrogância, as picuinhas: eles jamais saberão o que á o sabor de um Palmeiras x Corinthians, Corinthians x Palmeiras. Não sabem o que é uma rivalidade como esta, limitam-se a espiar de fora... E babar.

* Agora, pensando somente no quanto de futebol que se joga hoje no Brasil, digam lá, sem pensar, o que é mais deprimente: um time que toma um gol aos 47 minutos do segundo tempo de um jogador indiscutivelmente sem o menor resquício de condição física para a prática de qualquer esporte profissional, ou outro que precisa se valer do sacrifício (beirando a irresponsabilidade...) do mesmo jogador para fazer, de bola parada, o que todos os demais não fizeram em 92 minutos de jogo rolando?

* Ronaldo provou mais uma vez que é, definitivamente, um grande jogador de futebol. Aliás, é só o que ele é - e já é muitíssimo, num país de tantos monstros das quatro linhas. Justamente por essa grandeza de craque, não precisa que façam dele o que não é, nem maior que coisa alguma. Não é maior, por exemplo, que o grande Corinthians que ora paga o seu salário, nem que o imenso Palmeiras, que sobrevalorizou muitíssimo a dimensão de seu tento epilogal. Nem muito menos que Palmeiras x Corinthians, Corinthians x Palmeiras, um dos maiores clássicos do futebol mundial. Não foi Ronaldo que fez a grandeza do clássico, mas o clássico que proporcionou a grandeza do momento que o jogador pôde protagonizar. Mas isso, carísssimos, a minúscula rede globo e seus lacaios não vão entender (ou admitir) jamais.

* Como palmeirense, torço muito para que os efeitos ditos secundários da bem sucedida estréia precoce do Fenômeno protraiam-se o mais possível. A cortina de fumaça tende a fazer com que torcida, imprensa e diretoria aliviem a pressão sobre a comissão técnica pela bolinha que o time vem jogando. Bem como sobre atletas que, nitidamente, não têm condição de envergar a poderosa camisa alvi-negra.

* Questão matemática: enquanto o time do Palmeiras precisar de três zagueiros, dois volantes, e dois alas para tentar fazer (mal) o que uma dupla decente de beques deveria dar conta, sobrarão apenas três jogadores para armar, lançar e atacar. Será que isso explica alguma coisa?

quarta-feira, 4 de março de 2009

À guisa de satisfação


Esta página, a despeito de sua fatual insignificância, completou no último dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, cinco anos completos no ar. Alternando fases de alguma produção e considerável ostracismo, a verdade é que, aos trancos e barrancos, vai agregando conteúdo. Para quê, exatamente, não sei. Sei é que são poucos os diários cibernéticos, ditos blogues, a manterem-se ativos por um tão grande interstício. A publicação é mais antiga, por exemplo, que as infinitamente mais interessantes e produtivamente insuperáveis páginas de meus queridos Eduardo Goldenberg e Bruno Ribeiro. Durou bem mais que o blogue da madrinha Christiane Assis Pacheco, de quem herdamos a idéia, não o talento. Só perde em longevidade - e em todos quesitos imagináveis, diga-se - para o Pentimento, do incansável Marcelo Moutinho; mas que é escritor, muito diferentemente do autor destas mal traçadas.

Tudo isso para dizer aos nossos três leitores (já foram quatro, acreditem...) que, deixando de lado alguns pudores, e à falta de muita disposição de acrescer novas desimportâncias às tantas aqui juntadas, passaremos a republicar, vez por outra, como discretamente já vimos fazendo, alguns textos antigos. O principal motivo é a aparente saída do ar do antigo provedor weblogger, que abrigou os primeiros dois anos da revista. Muitos dos textos já se encontravam transportados, mas diversos aguardam paciência, tempo e disposição para o “restauro” (por algum motivo, os arquivos gravados como “espelhos” das páginas do antigo blogue eliminam todas as formatações e acentuação – auxílios técnicos são bem vindos...). Esse esforço, portanto, obriga-me a uma revisão do quanto publicado, bem como à necessária e já demasiadamente adiada tarefa de transportar os textos para cá, o que vai continuar sendo feito aos poucos. Os muito datados e demais que perderam, por qualquer motivo, o reduzidíssimo interesse que pudessem originalmente despertar, restarão para sempre sepultos na vastidão infinita do esquecimento.

Às versões republicadas acrescento um liame que não direciona diretamente para a o endereço original, mas para o conjunto das publicações daquele mês. Tudo para que vocês possam não ler outra vez toda a coleção de babozeiras aqui reunida.

Juntando em um só endereço os encaminhamentos que os portais de pesquisa apresentavam para as duas versões do Só dói, o departamento comercial entendeu possível incrementar os acessos chamados aleatórios e, com isso, sobrevalorizar a negociação de nosso espaço publicitário para todas as empresas nacionais e multinacionais interessadas, a exemplo do que recentemente aprendemos com a diretoria do Sport Club Corinthians Paulista.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Feliz ano (de) novo

Hoje começa o ano. Navegante de rio, apavora-me o mar aberto, total. Nenhuma margem, nenhuma praia. Só o mar pela frente, a completa indiferenciação.

Nada mais se pode adiar. Tomaram-nos o grande curinga, a panacéia para todas as coisas que não se queria ou podia encarar: “depois do carnaval a gente vê”, “depois do carnaval a gente senta”... De repente, não mais que de repente (embora a gente já soubesse...), sobra-nos na mão esse infalível mico-preto do dia-a-dia. Todo o turbilhão de aborrecimentos, sobretudo os mais banais – esses insuperáveis - , parece precipitar-se sem licença, como se até agora só estivessem pacientemente esperando o seu fatal anti-jubileu: todo o perdão desaparece, toda condenação é inapelável, todas as dívidas são exigíveis.

Hoje acordei na hora, o despertador nem chegou a tocar. Sem perceber, eis-me de sapato, pasta e blusão (nem estava frio) olhando no espelho pateticamente, como a tentar saber afinal o que aconteceu. Onde foi parar meu vestido de chita? Mas se há alguns instantes Ela me puxava pela mão no meio do largo... Cadê a baiana que agora mesmo ajudei a vestir? Vejo que sumiu de vez a tinta preta atrás das orelhas... A bandeirinha da Vila ainda tremula naquela janela e eu cheguei adiantado quinze minutos no serviço.

O Carnaval na sua euforia esfuziante carrega uma inegável dimensão de morte, de imolação, atualizada nos rituais de libação. O delírio do folião encerra um abandono, uma entrega da própria vida à sua causa-crença. A sofreguidão dessa vivência é a negação de nossa não-vida de filas, reuniões, contas para pagar, telefonemas a dar, imêious a responder.

Vamos, pois, adiante, singrando marços e abris, oh Braga, nessa inescapável certeza do que não somos, rumo a uma visãozinha de margem que não negará a trajetória. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar. Que nos valha o Senhor dos Navegantes até qualquer praia possível.


Nota: Publicado originalmente em 1º de março de 2004

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Um dia de rei

Daniel Santos e Noca da Portela


Eu fiquei emocionado
Em ver minha escola
Com meu samba desfilar
Já vinha clareando o dia
Minha escola em euforia
Fazia a platéia vibrar
Não sei se chorava ou sorria
Era tanta alegria
Que a batida do meu coração
Se igualava ao compasso da harmonia
No mundo da fantasia
Eu fui rei por um dia

E findou o carnaval
Tudo voltou ao normal
Terminou o meu reinado
Mas o meu nome
Ficou marcado
Pelo povo aclamado
E agradeço ao meu samba...

[para Bruno Ribeiro]

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cinzas

Então da poesia fez-se a vida
explodida nas possibilidades reinventadas
E a Incerteza imperou no fluido
Tríduo em que tudo brota
de outra razão

E então do dado fez-se o nada
no Interstício todo prenhe de volúpias
de vir

O horror deste dia não mora no silêncio:
o coração ainda banzeia de melodias rodopiadas;
os confetes despedaçam-se aos poucos da alma
E mesmo guardada a fantasia exalará auspícios

A tristeza não cinzenta de saudade:
a Colombina ainda esparge seu perfumoso delírio
E nunca houve um tão Pierrô
Engolido pela lágrima única e própria

As náuseas quartas habitam a realidade
furiosa de certezas.
Vomitam-se reticências sobre as cinzas
de um possível que morre
Mesmo.


Nota: publicado originalmente em 11 de fevereiro de 2005

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Até quarta-feira


E enfim é chegada a hora, uma vez mais, de arrastarmos pelas ruas nossas solidões, do esforço - a cada ano maior - em disfarçar a lágrima sob a máscara. Os joelhos, mais cansados, de novo terão de suportar meu corpo, mais gordo e mais pesado, de um fardo de dores e tristezas e medos. As sapatilhas ainda mais rotas, de tanta lama de tanta estrada, sofrerão novamente para me conduzir por uma jornada errante à procura do que a gente toda julga evidente, mas, em verdade, a cada dia mais se esgueira pelas vielas estreitas e becos recônditos.

Porque o Carnaval, senhores, não é isso que está aí jazendo sob os olhos. Por mais que nos regozijemos, por tanto que nos tenhamos para isso empenhado, não é possível nos deixarmos enganar tão facilmente! Assim eles querem, assim eles agem. Querem nos fazer crer que vencemos, que se renderam; que as ruas tomadas de gente e de música são a coroa da nossa vitória. Mas posso eu acreditar num Carnaval que não seja negação? Que se tenha sob tantas formas oficializado, vá lá! Transformou-se, aqui e ali, em coisas outras que guardam, indiscutivelmente, parte da beleza e força de sua origem popular, a despeito de não serem mais o Grande Carnaval! Este, ao contrário, continua tendo o poder imenso e perfeitamente ordenado (de uma ordem outra, por certo) de transformar e subverter. E por isso não se deixa colher em qualquer esquina repleta de barulho e animação. Refugia-se nos pequenos gestos de gentileza, na cumplicidade dançante, nos sorrisos envelhecidos.

Envelhecidos, sim, porque não posso crer num Carnaval que seja jovem! Já o foi, quando a juventude, recolhida à sua devida condição observante, não era mais que um grande ímpeto reprimido de vozes e humores. Mas não pode mais sê-lo, quando tudo quer se ditar pelas diretrizes da vitalidade, da disposição, da boa saúde. Pois não é o Carnaval o filho dileto da pulsão de morte? Poderia um tamanho caudal, a movimentar tantas comportas, senão pela força do represamento?

Ouço a entrevista de uma cantora que anda na moda: “Vou para o Rio, desfilar na Portela e no Cordão da Bola Preta”. Temo pelo Carnaval toda vez que se põe a reafirmar os padrões que, a fórceps, nos governam. Quando se rende desmedidamente às exigências da oficialidade ou do padrão “civilizado”. Rezo pelo Carnaval, quando percebo que toda nossa admiração pelos pioneiros que plantaram as sementes dessa árvore frondosa não foi capaz de nos transmitir sua coragem de enfrentar a repressão, seu destemor de desafiar a ordem constituída. Choro pelo Carnaval que não prescinde do carro de som, da autorização da prefeitura e do cordão de isolamento.

E chorarei e rezarei e temerei ainda mais e de novo - e sempre -, mas só a partir da quarta-feira. Que agora não são mais horas, não há mais tempo para depravações. Havemos de nos perder na multidão, a cantar um samba do Elton e do Hermínio:

Vou buscar aquilo que foi meu
E que no mundo se perdeu
Qual folhas que o vento soprou no ar...
Ter a mesma paz de antigamente
Sair cantando por cantar
Qualquer canção sob qualquer luar


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Está inteiramente desvirtuada a coreografia dos mestres-salas

Jota Efegê





O mestre-sala, antes denominado baliza, era uma das figuras de destaque nos ranchos. E continua sendo. As embaixadas, os grupos de sambistas precedidos de suas baianas no reboleio cadenciado ao ritmo de um conjunto de percussão que, evoluindo, vieram a se designar escolas e, hoje, faustosamente, são a principal atração do Carnaval carioca (salvo melhor análise, talvez a única), não o incluíam em seus cortejos.

A Deixa Falar, tida e havida como primeira escola de samba, só incorporou o personagem do mestre-sala (que foi o Benedecto Trindade) quando tentou se tornar em rancho e fez um único e decepcionante desfile.

Numa reportagem publicada n'O Globo, em 21 de maio de 1973, quando da morte de Maçu (Marcelino José Claudino), que havia acontecido a oito do mesmo mês, no depoimento exato, preciso do Cartola, do Carlos Cachaça e outros iniciadores da Escola de Samba Estação Primeira, do Morro da Mangueira, foi afirmado ter sido ele, o velho Maçu, quem introduziu o mestre-sala nas escolas de samba e quem também primeiro o figurou. Aprendeu com o famoso Hilário Jovio Ferrreira (Lalau de Ouro), Getúli Marinho (Amor), Maria Adamastor, Theodoro (Massada) e outros, todos peritos na coreografia com que esbanjando elegância em filigranas e arabescos conduzem a porta-estandarte carregando seu pequeno e delicado estandarte.

Personagem que nos ranchos sempre se apresentava elegantemente trajada como figura destacada, ou principal, do enredo, calçando sapatos de salto alto, cabeleira empoada e, na mão, um lenço alvo, seguro displicentemente, ou, se preferia, um delicado leque com que abanava graciosamente a porta-bandeira, seu porte, sua linha de fidalguia, sugeria uma figura buscada em qualquer corte, lembrava uma figura palaciana. A sua dança, a evolução coreográfica feitas ao ritmos das bonitas e pomposas marchas que davam cadência ao desfile dos ranchos (Ameno Resedá, Flor do Abacate, Lírio do Amor, Recreio das Flores e seus coirmãos) era sóbria, de finura sempre observada.

Os mestres-salas de agora, os que seguindo a trilha do mangueirense Maçu, o pioneiro, estão ao lado das porta-bandeiras e são vistos em todas as escolas de samba, ainda capricham no vestuário, ainda ostentam vistosas perucas, calçam sapatos delicados, mantém com a melhor observância o personagem que o sempre lembrado Hilário Jovino Ferreira trouxe como figura de destaque dos graciosos ranchos de sua terra, a Bahia, e lançou-os no Carnaval de Sebastianópolis integrando-se em vários deles: A Jardineira, Filha da Jardineira (lembrar “Ó, Jardineira, por que estás tão triste?”...), Ameno Resedá, Reino das Magnólias, Riso Leal, e mais alguns.

Fugiram, porém, da elegante e discreta coreografia que os antigos mestres-salas dos ranchos, os seguidores do estilo do professor Hilário, exibiram ufanosamente nos desfiles da avenida Rio Branco conduzindo suas bonitas porta-estandartes. Nenhum deles, da antiga estirpe (Getúlio Marinho, Theodoro, João Paiva, Olympio, Piraquê, Bull-Dog, João Borodó e Camarão, citados no caso), iam além de desenhos coreográficos. Eram, apenas, passos semelhantes aos de um balé, discretos, mas que na leveza da sua execução provocavam aplausos, arrancavam palmas.

As evoluções acrobáticas de agora, a coreografia desenvolta, espetacular, compromete a elegância do mestre-sala, não é condicionante com o seu vestir. Embora seja aceita nos concursos, nas competições nas quais as escolas de samba disputam prêmios e eles, os mestres-salas, em muitos desses certames são a atração, são o realce, tal coreografia que executam com predominância de lances acrobáticos distanciou-se, e muito, do que mestre Hilário ensinou a seus alunos.

(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro: Funarte, 1982, pp 270-272. Publicado originalmente em O Globo, edição de 02 de fevereiro de 1979)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Marcha do Ó

Ildo Silva e Fernando Szegeri


Toda essa gente espalhada na Cidade
Ouve o chamado dedilhado no bordão
Desperta do torpor da sobriedade
por um canto de verdade a ecoar no coração
Se ajunta numa imensa fantasia
tecida de melodias, costurada num refrão:

Eu quero mesmo me perder nesse meu canto
onde a dor pra longe espanto
e jamais me sinto só
Se quer receita para ter felicidade
E afogar toda saudade
Não tem nada como o Ó

E então de terno chegam arlequins
Pierrôs de calça jeans
Colombinas de além-mar
Em braços no papel de serpentinas
Desastradas bailarinas
Se desmancham a sambar
Boêmios conduzindo o estandarte
Se entregam à sua arte
De beber e conversar

Choro rasgado rompe o peito dessa gente
Inimigos do batente rebatendo todo mal
Ouço um pau d'água cochichando meio atônito
Em tom afromacarrônico em louvor ao Carnaval

Se quer receita para ter felicidade
E afogar toda saudade
Como o Ó não tem igual

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pierrô


Ele nasceu italiano, lá pelos mil e quinhentos, entre os tantos personagens da Commedia del'Arte, título genérico pelo qual ficaram conhecidas inúmeras pantomimas burlescas e itinerantes, de enredos variados sobre uma gama de personagens arquetípicos mais ou menos constantes, caricatamente representativos da tessitura social renascentista. Freqüentemente descrito como o servo correto, leal e um tanto ingênuo, em oposição à rebeldia malandra e um tanto calhorda dos também servos arlequim e colombina, não era contado entre os personagens principais, nem ao menos entre os mais interessantes ou complexos. Destituído da malícia e picardia de seus pares, sem as aberrações morais caricatas dos velhacos pantaleão, capitão, doutor, briguela entre outros, petrolino ia aparecendo aqui e ali no exercício de seu papel coadjuvante.

O italiano petrolino apresenta-se como o francês pierrot possivelmente a partir do Don Juan de Molière, mas só tomará os contornos solitário e melancólico no florescer do romântico século XIX, quando o ator franco-boêmio Jean-Gaspar Debureau reelabora e incorpora definitivamente o personagem (como fará Chaplin com seu Carlitos, quase um século depois), inclusive fixando as características físicas e morais que povoam nosso imaginário até os dias que correm.

É claro que esse ingênuo sentimentalismo, aliado à condição de preterido, de perdedor potencial, bem como à sua aura um tanto ausente e avoada, seria um prato cheio para a atávica melancolia de nosso coração tupiniquim, que imediatamente incorpora o triste palhaço com a força e a representatividade que não possuia na origem. O grande Nelson Rodrigues, que talvez como ninguém mais tenha sabido dissecar o caráter do brasileiro de seu tempo, conhecedor maior de nossa alma de vira-latas, sintetizou com a maestria verbal que lhe era característica:

”[Sou] o sujeito mais romântico que alguém já viu. Desde garotinho sonho com o amor eterno. Na minha infância profunda, os casais não se separavam. Havia brigas, agressões de parte a parte, insultos pesadíssimos, mas o casal não se separava. A separação era uma tragédia. Em último caso, a mulher apelava para o adultério. Sou romântico como um pierrô suburbano”.

(in: RODRIGUES, Nelson. Entrevista concedida a VAN STEEN, Edla. Viver e escrever. Vol.3./ 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2008. apud Aeronauta)

Romântico, ingênuo, sentimental, avoado e trágico. Lembra alguém?


***

Sabemos que nada mesmo há no espírito brasileiro que não vá desaguar inapelavelmente no Carnaval! Olha lá o pierrô, acompanhado de colombina e arlequim, espalhando-se pelos bailes, préstitos e concursos de fantasias por toda a imensidão desse torrão tropical. Mas é claro que nos estamos dando a liberdade de inverter poeticamente os fatos. A transposição se processa possivelmente a partir do carnaval veneziano, onde as máscaras de baile são herdeiras diretas da tradição teatral que lança suas raízes até os tempos qinhentistas da Commedia del'Arte. Desde os salões brasileiros, onde a elite tupiniquim a partir do séc. XIX revela especial dedicação em macaquear os hábitos sociais da burguesia européia, é que as tradicionais figuras vão ganhar as ruas e o coração do povo. Ainda que entre o céu e a terra haja tanta coisa mais...

O fato é que se Debureau encarnou tão francesamente o personagem burlesco da renascença, nós cá também tivemos quem sintetizasse nosso definitivo, nosso emblemático pierrô. Atendia, na vida civil, por Zacharias do Rego Monteiro, irmão do conhecido radialista Gastão do Rego Monteiro, locutor celebrizado na Rádio Record e Rádio Clube do Brasil. No intuito de substituir o sisudo e tão pouco carnavalesco smoking, a fim de quebrar a formalidade dos bailes do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o carioquíssimo folião exibiu seu primeiro pierrô no carnaval de 1950. A novidade e o impacto da beleza dos costumes que desfilava rapidamente celebrizaram sua figura como identificada ao tradicionalíssimo clown saltimbanco. Dos bailes do Municipal, Zacharias passou, anos depois, a reinar soberano nos concursos de fantasias, ao lado dos não menos incensados Clovis Bornay e Evandro de Castro Lima. Ao contrário de seus pares, quis antecipar-se à decadência física, trajando seu último pierrô durante os dias de folia do ano da graça de 1965. Muito antes do ocaso dos famosos certames, entre os quais se destacaram o do próprio Teatro Municipal, os do Hotel Glória e do Clube Federal, já se houvera retirado oficialmente das passarelas.

Afastado dos desfiles, mas não do ti-ti-ti do raisoçáite carioca, até sua morte em 1986, o eterno pierrô manteve-se ativo, como uma espécie de “consultor” para assuntos de carnaval e relações públicas de uma famosa cadeia de joalherias. Virava e mexia, aparecia um pitaco seu nas páginas do Cruzeiro, ou da Manchete, sucedâneos sessentistas das atuais (?) caras e vejas (a minúscula é proposital: pioraram as revistas ou piorou o país?). Sua última declaração pública conhecida: “Apesar de carnavalesco, sou tristonho e sonhador por natureza”. Pudera haver outro assim tão... pierrô?



Nota: Ora direis que esta página não se costuma dedicar a personagens das colunas sociais. É fato. A homenagem singela que aqui prestamos ao famoso carnavalesco justificar-se-ia tão só pelo meu pessoal fascínio (talvez atávico) pela figura do pierrô, que encarna tão poeticamente a antítese necessária da alegria desmesurada que cada vez mais se procura fingir nos dias de Momo. O Carnaval pertence por definição aos tristes e aos melancólicos, aos oprimidos e impotentes, e não é senão o grito máximo de sua miserável condição. Aqueloutros – os “alegres” - simplesmente não entenderam nada. De mais a mais, Zacharias foi uma figura emblemática da história do Carnaval da minha mui amada cidade de São Sebastião, que empresta nome a este canto, ainda que não seja da faceta da festa que mais nos seduza, que nos empolgue. Os desfiles de fantasia e os bailes elegantes são peças que compõem o mosaico complexo e fascinante do Carnaval, juntamente com as escolas de samba, grandes sociedades, ranchos etc., independentemente do papel que ocupem na sua grandeza, dignidade e potencial libertário.

Mas a verdadeira e mais poderosa razão desta lembrança é que Zacharias era filho de João Batista do Rego Monteiro; este, por sua vez, filho de Jesuíno Rodolfo do Rego Monteiro e Maria Inácia Fernandes de Oliveira, que vêm a ser bisavós de minha avó materna, meus tataravós, portanto. Daí, que o que o imortal pierrô seja meu primo em sétimo grau. Feliz o homem que conhece o nome de seu pai, de seu avô e de seu bisavô; para saber que nome dar a seus filhos, netos e bisnetos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Carnaval (II)



Então será assim um tão Carnaval
De repente liberto daqueles
uns quatro dias
Liberto mesmo dos dias todos
E das todas vidas - e lidas
E culpas
Num Carnaval que haverá

Só no espaço
Só no encontro

E seremos uns só travestidos
Das fantasias que a marra tanta
Teimamos
Que a tanta incúria
Deixamos

Sós no espaço
Sós no esconso

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sentinela


Uma tarde abafada de 31 de dezembro, à beira de um lacunoso mar de pequenos pesqueiros coloridos, só se pode aplacar satisfatoriamente à base de muita conversa fiada e alguma cerveja. De repente alguém emerge da modorra e a mudeza se quebra por uma voz invisível, naufragada em franjas de uma grande rede branca:

- Quem será que ganhou a São Silvestre?

O riso, muito mais que a Filosofia, é a verdadeira medida do espanto! Um riso assim tão geral quanto frouxo, a denunciar a falta de perspectiva daquela dúvida tão deslocada no tempo-espaço. Eu mesmo, escolado na faina de tourear canoas dissidentes, achei graça da desimportância da informação esperada.

Mas não era assim, na verdade, na São Paulo de antigamente. A corrida que ficou famosa pelo nome do santo que se celebra na última féria de dezembro era um acontecimento, uma festa, pra um povo de uma cidade tão despojada de motivos para celebrar. Na falta das ondas para se pular, de batuques para Iemanjá, como se podia divertir, no fim de ano, a gente operária dos bairros centrais de uma cidade garoenta que já então se acinzentava? Concentrar-se ao longo do trajeto, interessar-se pelos concorrentes, torcer até, era uma maneira do paulistano arrumar assunto para integrar os bebentes e motivo para não ficar em casa. Para as “famílias”, o remédio para não ficar fora do assunto do dia seguinte era acompanhar as transmissões preto-e-brancas, cheias de chuviscos (não estou com paciência para explicar para a geração teveacabo o que eram os chuviscos...), da indefectível TV Gazeta, vejam vocês...

Depois passaram a corrida para a tarde - porque afinal as coisas tem que ir para seus devidos lugares, e o canal de televisão que põe dinheiro para a prova não morrer (que não é mais a TV Gazeta, vocês já devem imaginar...) tem seus interesses em faustões e xuxas, não se pode deter por uns ítalo-nordestinos bebuns e desocupados – e acabou-se o sentido e a graça da história.

Mas não era da São Silvestre que eu queria falar. A enrolação do intróito foi só para recomendar, uma vez mais e vivíssimamente, a leitura do indispensável blogue Anhangüera (com trema, por coerência), em que meu irmão Arthur Favela Tirone desfila um sem número de histórias comoventes de uma cidade – particularizada num pedaço tão eloqüente, a sua velha Barra Funda – que insiste em resistir e respirar, a despeito de toda lava que por sobre ela vomitam incessantemente os vulcões da mercantilização, do individualismo, da banalidade. Como esta recente, justamente sobre a corrida famosa, que li nos primeiros dias deste ano, tamanhamente vexado da minha dessintonizada irreverência de dias antes. Uma narrativa regada a melancolia e sensibilidade, fruto de uma atenção cuidadosa com as coisas importantes e verdadeiras da vida.

E para falar dele, do homem que não precisa de areia, nem de mar: sua praia é o México! A este sentinela do espírito mais recôndito – mas pulsante! - desta digna e aviltada cidade, neste dia, meu melhor brinde. Bem como ao homem com quem passou inacreditáveis nove meses abraçado, e que nasceu com nome de anjo.


[para Mimi e Denise]

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Simplesmente Denise


“Denise era o nome de uma ótima cantora que eu gostava muito de ouvir nos finais da década de 80 em bares saudosos como o Clube do Choro e o Bar da Virada, muitas vezes em companhia do não menos saudoso Jorge Costa, um dos melhores e menos lembrados compositores do samba de São Paulo (embora fosse, de origem, alagoano e tivesse sido criado na Mangueira). Bela voz, com aquela bossa e versatilidade bem “noite”, que lhe permitiam transitar sem sustos de um samba-canção bem “alaíde” até um sacolejo mais “alcione”, passando por “ademildes” e “beths”.
Ano passado descubro uma outra Denise, assinalando presença marcante numa das faixas do primeiro CD dos rapazes do Quinteto em Branco e Preto, dedicada aos sambas da Velha Guarda do Camisa Verde-e-Branco. Soube também, na época que ela comandava a função num local onde se reuniam vários dos integrantes da ala mais nobre da escola da Barra Funda (sobre o qual vou escrever para vocês na próxima semana). Mas minha maior e melhor surpresa foi descobrir, noutro dia, que as duas Denises são, na verdade... a mesma! E pela canja que ouvi na oportunidade, sem falar na própria gravação citada, parece que está mesmo em plena forma.”


Escrevi este texto em junho de 2001, quando editava a seção paulistana das notícias da Agenda do Samba & Choro. Na ocasião, ninguém menos que mestre Nei Lopes tascou lá na Agenda o seguinte comentário: “Denise é uma das maiores cantoras de samba do momento. E já está mais do que na hora de ela gravar um disco só dela. Alô, gravadoras descompromissadas com o pop e com o jabá!!!!!”. Passados, pois, oito anos, o primeiro disco dessa estupenda intérprete finalmente foi gravado e só está esperando a mixagem para sair. A grande Denise Camargo confidenciou semana passada à minha querida Railídia, outra grande intérprete do samba de São Paulo, que a única coisa com que ainda sonhava era poder ver seu tão esperado trabalho finalmente na rua. Talvez uma estranha premonição. Na madrugada de sexta-feira para sábado, depois de se apresentar numa roda de samba na quadra do Camisa Verde-e-Branco, na festa de escolha dos novos Cidadãos Samba da cidade, Denise sofreu um enfarte fulminante. Morreu, na flor de seus 59 anos, como todo sambista aspira: “numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”.

Convivi com ela em dois períodos distintos das nossas vidas. Na época citada no trecho acima, do final dos anos 80 até meados de 1994, quando a morte de Jorge Costa, o fechamento de alguns importantes redutos do samba e outras cositas que não merecem vir à baila, começaram a afastar-me do ambiente das rodas e escolas. A mocidade era risonha e franca, e nós bebíamos, cantávamos, falávamos de samba e da vida, como convém a bons companheiros de noite. Anos depois, reaproximado das coisas e da gente do samba, reencontramo-nos por ocasião da apresentação a que a notícia se referia. Só então comecei a conhecer pra valer a grandeza desse ser humano excepcional e sua importância na história das escolas de samba da cidade de São Paulo. Vi poucas pessoas tão unanimemente queridas; sobretudo num ambiente onde a competição, a rivalidade e - por que não dizer? – as vaidades muitas vezes sobrepõe-se ao valor pessoal de um artista. Tive a honra de tornar-me seu amigo, conhecer sua belíssima família, sua casa. Nunca mais deixamos de nos encontrar, numa roda aqui, num evento ali, sem os mesmos descompromissos notívagos do passado, mas aprofundando um respeito e um bem-querer mútuos que me orgulham como poucas coisas nesta vida.

Denise foi uma intérprete excepcional, uma amiga querida, um baluarte do samba paulistano. Comandou históricas reuniões de sambistas, como no Em cima da hora, no Bairro do Limão, e o “angu da Denise”, no tradicional “Cantinho do Peruche”. Integrava a Velha Guarda de sua gloriosa Unidos do Peruche, escola das mais queridas e respeitadas nesse chão de Piratininga. As traiçoeiras águas de janeiro e fevereiro, que são misteriosamente pródigas em carregar sambistas para a grande batucada que nunca termina, já tinham-nos levado este ano o grande Xangô da Mangueira, Casemiro da Cuíca, Dona Edith e a queridíssima Doca. Agora, foi-se a nossa amada Denise. Choram Portela, Estação Primeira, Peruche. Chora o Camisa Verde-e-Branco, Mocidade Alegre, Unidos de Vila Maria, Rosas de Ouro. Caudalosos prantos correram pelas ruas da cidade, neste sábado, para desaguar na quadra histórica, ali na Ponte do Limão. Os inúmeros bambas que ali estiveram puderam reverenciar a memória de Denise num grande pagode-homenagem, como ela sempre quis que fosse. Quase podíamos ouvir no meio da noite quente sua voz inconfundível a nos consolar, no samba de Ideval e Zelão que ela consagrou pelos quatro cantos da cidade:

A lua vem surgindo
sereno do céu vem caindo:
É madrugada!
Eu já afinei a minha viola
peguei paletó vou me embora
pra batucada!
É lá que eu esqueço a saudade
e sonho com a felicidade
que eu desejei
E canto no meio da moçada
Esqueço aquela malvada
que eu tanto amei
Não sei por quê
Não sei por quê
Felicidade dura pouco para mim
Não sei por quê
Tristeza so no samba é que tem fim...


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ser boi

Maurício Pereira


ir pra Minas e ser boi lá
ir pra Minas e ser boi lá
ir pra Minas e ser boi lá

mascar, pastar, sorrir, pensar

olhar de rabo de olho
(se é que boi tem isso)
os carros voando na BR
tentar perceber o motor

essas pessoas que têm alma
eu me pergunto por quê
elas vêm e vão para Brasília
em tamanha velocidade

ser a encarnação do boi
esperar a minha hora chegar
sem pressa e sem pressão
divagar bem devagarinho

fixar o olhar no horizonte
encarar demoradamente
se perder da noção da hora
ralar o chifre no mourão da cerca

sorrir e ser boi
sorrir e ser boi em Minas
sorrir e estar em Minas
(sorrir e pisar em Minas)

e enxergar além da cerca
sonhar pra além da colina
daquela gente toda na BR
além do limite de velocidade

sorrir ao respirar
curtir a gramática
viver a dialética
o bafo quente do pasto

mugir graúdo à sombra desta velha
e majestosa mangueira carregadinha
(fazer mil versos como esse anterior)
pastar, sorrir, pensar, olhar

um coração de boi
sem prece, sem perdão
sangrar no arame farpado
chifrando algo ou alguém

concluir o mundo e senti-lo
concluir o mundo a senti-lo
me excluir do mundo, tranquilo
minhocar sobre as razões das gentes

te olhar e babar
em você, em mim ou no capim
calar e compreender
te olhar e pastar

mugir pro céu e agradecer
querer reverenciar
este momento singelo
de comer quieto com o anu nas costas

sorrir e balançar
sorrir e balançar a cabeça
desatinar que nessa mesma hora
toda aquela gente estoura

os limites da velocidade
a estrada deserta atrás da cerca
aquilo que parece ser
o motor das pessoas

ir pra Minas e ser boi lá
ir pra Minas e ser boi lá
ir pra Minas e ser boi lá

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pequena cartilha para uma história do samba



Parte II – Da escola ao banquinho



As escolas de samba vão levar para o grande público a música que então se fazia nos redutos pobres dos morros e subúrbios. Com suas orquestras (à semelhança dos ranchos, mas sem os caros instrumentos de sopro) de atabaques, surdos, cuícas, tamborins e pandeiros, as escolas vieram mostrar para as classes de elite a riqueza musical escondida nos redutos do samba, numa cadência menos “batida” que a do partido alto tradicional (propícia para a execução "em roda"), mais cantável, mais marchável (própria para o desfile, o cortejo). A partir dos últimos anos da década de 20, em pouco tempo o desfile das escolas de samba ganhou o “status” de principal e mais importante acontecimento do carnaval. A pioneira foi a Deixa Falar, da região do Estácio, conhecida como berço das escolas de samba. Depois seguiram-se Estação Primeira, do Morro da Mangueira e Vai Como Pode, de Oswaldo Cruz, que depois mudou seu nome para Portela. Os compositores ligados às mais importantes escolas como Cartola (Mangueira), Paulo da Portela (Vai Como Pode) e Ismael Silva (Deixa Falar) asumiram grande evidência. Ante o poder avassalador daquela música que vinha dos morros, a cultura oficial não poderia ficar como mera espectadora. Logo tratou-se de organizar os desfiles, tornar oficiais os concursos. Surgiram as colunas especializadas na imprensa, os grandes jornais chegaram a patrocinar e organizar desfiles. E o poder estatal, apercebendo-se da grande força criativa e mobilizadora desencadeada pelas escolas de samba nos dias de carnaval tratou logo de dar o seu jeito: se não podemos proibir, se não dá pra impedir, vamos organizar, disciplinar, normatizar. Assim é que a prefeitura do então Distrito Federal definia os dias de desfiles, locais, os temas permitidos nos enredos, a censura às letras dos sambas etc. Ao final da década de 30, dez anos após seu surgimento, as escolas de samba já estavam definitivamente incorporadas à cultura oficial da cidade do Rio de Janeiro. E vemos, então, um segundo momento onde os elementos genuínos da cultura do samba sofrem influências externas ao seu meio, de forma a abrandar-lhe o ímpeto criativo, a mobilização das energias que proporcionava.

Não só o Estado, mas a indústria do entretenimento, então nos primórdios, soube reconhecer essa qualidade musical e as possibilidades que se abriam ante o grande desenvolvimento de um importante meio de difusão musical no início dos anos 30: o rádio. É assim que pela primeira vez, em 1929 chega ao disco, com mais de uma década de atraso, o som da percussão do autêntico samba, na gravação de “Na Pavuna”, de Almirante e Homero Dornelas, na voz do primeiro. E a partir daí, pelo disco e pelo rádio, a sonoridade da batucada do samba incorporou-se ao gosto musical do povo carioca, inicialmente, e de todo o Brasil, em seguida, principalmente a partir do surgimento da Rádio Nacional, cobrindo todo o território brasileiro, a partir de 1936. Os cantores de sucesso iam colher junto aos morros as produções de seus compositores para serem levadas ao disco. O ritmo dos batuques parecia mesmo traduzir a alma da sociedade carioca e brasileira, formada no encontro das raças e das culturas. E o samba falava não mais dos amores impossíveis das canções líricas que se gravavam até então. Falava da falta de trabalho, do pão caro, dos encontros e desencontros amorosos da vida da gente de verdade, do carnaval, da malandragem e da boemia. Em pouco tempo tornou-se a expressão mais autêntica da voz do povo brasileiro. As maiores figuras desse período serão Wilson Batista e Noel Rosa, e um pouco mais adiante Geraldo Pereira e Ataulfo Alves.

A força do samba difundiu-se de tal forma que a ditadura do Estado Novo tratou, a partir do final da década de 30, de desestimular e censurar os sambas que falavam da malandragem e da vida boêmia, incentivando um samba mais “enquadrado” na temática, de exaltação das grandes qualidades da pátria brasileira. É assim que a década de 40 inicia-se com o auge dos chamados sambas-exaltação, dos quais o mais famoso é “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. Na passagem dos 40 para os 50, o samba iria parar no cinema, ficar conhecido no mundo inteiro como ritmo nacional brasileiro por excelência, na figura estilizada da “baiana” Carmem Miranda, com bananas e abacaxis na cabeça. Mas os rádios e os toca-discos quase não mais o tocavam, à exceção da época de carnaval, dominados pela onda da música americana das “big bands” e das trilhas sonoras de Hollywood. Nos anos cinqüenta, a voz dos morros pareceria estar calada, assistindo primeiramente ao domínio dos chamados sambas-canção, gênero estilizado que privilegiava a orquestração em vez da batucada, as letras românticas e os cantores de vozeirão, em vez dos sambistas de divisão leve e ágil e os temas quotidianos. Posteriormente, surge a bossa nova, impondo ao samba uma esquematização e simplificação rítmica*, uma incrementação harmônica pelo uso de acordes dissonantes, em parte por influência do jazz americano, e uma completa mudança temática. Não há mais lugar para a dureza, para a mulher que nos abandonou e pôs fogo na casa, para a exaltação da vida vadia. Agora, só barquinhos passeando ao pôr-do-sol, banquinhos e violões, tardes olhando o Cristo Redentor da janela...





Parte III - Resistência



Mas o samba é resistência, e como erva forte viceja por entre as frestas do cimento com que tentam lhe sufocar. E é na década de 60, quando a classe média experimenta um forte retrocesso nos espaços públicos de manifestação artística, com o teatro e a música popular sofrendo forte censura a partir do golpe de estado de 64, que o mundo do samba passa a ser revisitado pela cultura oficial. Artistas, intelectuais, jornalistas etc. começam a encontrar nas escolas de samba um espaço de expressão cultural genuína, forte, criativa, que fala da vida verdadeira do povo, seus sofrimentos e alegrias. O samba volta à agenda cultural brasileira, com o surgimento de redutos como o restaurante Zicartola, e o sucesso de espetáculos como o Opinião, com a presença de Zé Ketti, figura emblemática do período. Essa reaproximação vai gerar bons frutos como a revelação para o grande público, em rádio, disco e televisão, de sambistas do porte de Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Candeia, Elton Medeiros, Martinho da Vila, o paulista Germano Mathias, além da redescoberta de Cartola e Ismael Silva, por exemplo. Por outro lado, o ambiente das escolas vai sofrer uma influência decisiva dos padrões estéticos das classes dominantes. Os elementos visuais, alegorias e fantasias, tornam-se os mais importantes nos desfiles. Os sambas cadenciados, de letras longas e instrutivas, próprios para o desfile no qual se procurava contar uma história, vão sendo substituídos pelos refrões fáceis, de andamento mais acelerado, para empolgar e serem cantados e dançados também nos salões, pela gente desacostumada da difícil arte de dançar os passos do samba. E assim, por conseqüência, o passista da escola, o compositor e a pastora vão perdendo espaço para figurinistas, carnavalescos e destaques.


Esse processo vai gerar uma forte contradição a partir da década de 70. De um lado, o samba ganha grande notoriedade nos meios de comunicação, através de uma vertente que posteriormente vai ser conhecida como “sambão jóia”, cujas figuras expressivas são Luiz Ayrão, Antônio Carlos e Jocaffi, Originais do Samba. Ao mesmo tempo, importantíssimos compositores e intérpretes ligados à melhor tradição do samba surgem ou se firmam: Nei Lopes, Wilson Moreira, Beth Carvalho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Alcione.


Alguns compositores ligados às origens das escolas começam a perceber que estas não mais se configuram em espaços onde o sambista pode expressar a sua arte, representativa da sua visão de mundo, sua cultura e seus valores. Desfaz-se o que era espaço para afirmação da identidade da cultura popular, da singularidade e expressividade de cada componente, governado pelas “regras da arte”, onde é maior quem tem mais talento, quem dança, canta, compõe ou costura melhor; quem é líder pela sua postura e papel dentro da vida da comunidade. O espaço das escolas passa a ser norteado pela mesmo lógica do dinheiro e do poder que rege todas as relações dentro da sociedade capitalista. Em 1975 o grande Antônio Candeia Filho afasta-se da Portela, endereçando ao seu presidente uma carta com críticas, análises e sugestões, que assim começava:


“Escola de samba é Povo em sua

manifestação mais autêntica! Quando se submete

a influências externas, a escola de samba deixa de

representar a cultura de nosso povo.”


(apud Vargens, op. cit. – p. 67)



No mesmo ano, junto com compositores importantes como Wilson Moreira, Candeia funda a Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, um marco na história da resistência do samba enquanto expressão cultural consciente e engajada. Ao grupo original rapidamente juntam-se grandes figuras do samba, como Nei Lopes, Martinho da Vila, Paulinho da Viola entre inúmeros outros. A Quilombo procurou sempre diferenciar-se das escolas de samba “mercantilizadas” (“Super-escolas-de-samba S/A”, como mais tarde diria um conhecido samba-enredo de Aloísio Machado e Beto sem Braço, campeão do carnaval de 1982 pelo Império Serrano), desde a forma de escolha dos enredos e sambas, até a cadência e os locais de desfile, nunca aceitando sujeitar-se aos concursos oficiais. Mas mais que isso, em seu terreiro recuperou-se a prática das danças afro-brasileiras como o jongo, a capoeira e o caxambu, cultivou-se outra vez o samba de terreiro como expressão fundamental da riqueza musical do samba, organizou-se a prática da assistência social à comunidade.


Fruto indireto da portentosa árvore da Quilombo foi o surgimento, na virada dos anos 70 para 80, do movimento originado a partir da quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. À sombra de uma portentosa tamarineira, compositores talentosos como Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Luiz Carlos da Vila e Arlindo Cruz revigoraram a tradição um tanto abandonada do partido alto, introduziram novos instrumentos como o banjo e o repique de mão, conseguindo transpor para o disco e os meios de comunicação o espírito dos tradicionais pagodes de fundo de quintal. Na esteira desses pioneiros, um sem número de grupos de samba surgiu, muitas vezes sem a necessária competência musical, incentivados pela grande indústria fonográfica (aliás, a prática é comum: surgido um gênero de sucesso, por mérito ou por imposição fabricada, explora-se aquela fórmula musical à exaustão, na repetição de uma lógica capitalista rasteira que, buscando diminuir custos pela massificação da produção em série, trata a cultura de um povo como produção de salsichas), levando a uma overdose que colocou o samba em relativo ostracismo por quase uma década, pondo fim à chamada primeira geração do pagode, da qual sobreviveram afortunadamente os talentos incontestes. Nesta lacuna, surgiu e começou a proliferar uma forma deturpada de executar o samba, com letras “românticas” de baixa qualidade, melodias fáceis, descaracterização completa dos elementos rítmicos e formação instrumental do samba tradicional, a que se deu, de maneira completamente imprópria, o nome de “pagode”.


Mais um teste para o samba. Agora massacrado pela massificação da mesmice e da pobreza musical, quando não da quase “pornografia sonora”, o samba autêntico e de qualidade, que nunca morreu ou fraquejou, pegou o atalho que na segunda metade da década passada possibilitou o barateamento dos custos de produção fonográfica e o surgimento de meios de comunicação alternativos como a Internet, e voltou a se afirmar e ocupar os espaços que são seus por direito. É assim que atualmente assistimos a um belíssimo momento, com os mestres veteranos produzindo como novatos e os novos talentos buscando seus espaços na trilha das lições certeiras da tradição. As rodas de samba proliferam por todo o Brasil, muitos discos são gravados, mais e mais programas de rádio e televisão dão espaço ao verdadeiro e bom samba. Muito ainda há que ser feito, é claro, no sentido de democratizar-se os meios de distribuição de discos e de difusão pelos veículos de massa, ainda dominados pela lógica estrita dos lucros dos grandes conglomerados capitalistas.


Importa, em conclusão, não esquecermos que o samba é um dos traços mais autênticos e genuínos da cultura brasileira. Forma de expressão musical essencialmente negra em suas matrizes, símbolo da contribuição africana na formação da nação brasileira, e que ao mesmo tempo traduz como nenhuma outra os traços mestiços desse povo que se forma do encontro de três raças. O samba espelha de maneira maravilhosa a incorporação dos principais legados culturais da africanidade para a identidade brasileira, num exemplo portentoso de afirmação e síntese dialética na construção dos traços marcantes da face nacional. O samba, assim, é mais que um gênero musical, uma dança ou uma festa. Representa verdadeiramente uma cultura, um modo de ser, de se comportar, ver o mundo, interpretá-lo e reexprimí-lo.


A cultura do samba engendra uma forma particularmente brasileira de construção social. Nela prima a singularidade do indivíduo e de sua expressão criativa, enquanto na sociedade capitalista o indivíduo é uma parte desqualifiacada de uma massa informe. O sambista é sujeito da história, quando constrói seu espaço de sociabilidade, de integração e de expressão singulares a partir da prática do canto, da dança, da poesia, da crítica. O indivíduo na sociedade capitalista está sujeito às regras preestabelecidas que normatizam os espaços de integração e socialização, sobre as quais ele não pode influir. O que pode parecer mera teoria, transforma-se em vivência: quem participa de um samba verdadeiro pode experimentar, na prática, uma forma de socialização que rejeita e reinventa as regras da sociedade capitalista; pode experimentar uma das mais belas formas de funcionamento de uma estrutura social sem classes, sem o predomínio da lógica abstrata e embrutecedora do dinheiro e do poder.


Por isso a história do samba, como a de outras manifestações autênticas da cultura dos povos, é uma tensão dialética constante entre a afirmação da identidade popular e a reação das super-estruturas do capitalismo. Ora pela repressão, ora pela apropriação; seja pela imposição de elementos estranhos externos, seja pela condenação ao esquecimento, seja pela cooptação. Acredito, verdadeiramente, que sempre que um surdo bater a marcação, um tamborim fizer o contraponto, um cavaco der um tom e o pandeiro rufar suas platinelas, a chama da resistência ali estará acesa.





Bibliografia básica:


Moura, Roberto – Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, RJ, Funarte 1983


Lopes, Nei – Sambeabá – O Samba que não se aprende na escola – RJ, Casa da Palavra/Folha Seca, 2003-11-18


Tinhorão, José Ramos – História Social da Música Popular Brasileira – São Paulo, Ed. 34, 1998


- Música Popular: um tema em debate – São Paulo, Ed.34, 1997


Vargens, João Batista M. - Candeia – Luz da Inspiração, Rio de Janeiro, Funarte, 1987


Cabral, Sérgio – As Escolas de Samba do Rio de Janeiro, RJ, Lumiar, 1996


Para uma bibliografia mais completa, clique aqui.





* Nota necessária: antes que me crucifiquem, como se pode ler na introdução geral à primeira parte deste texto, trata-se de uma abordagem superficial e dirigida a iniciantes leigos. As simplificações e generalizações, assim, são inevitáveis. Então, em primeiro lugar, não era intenção discutir a bossa nova. Em segundo, não cabia nos estreitos limites do texto em questão tratar, por exemplo, a discussão de uma questão rítmica de natureza mais técnica, mais sutil, qual seja a radicalização da síncopa que predominou no padrão estético que a bossa nova foi construindo. Muito menos se essa padronização constitui-se verdadeiramente em simplificação ou não, conceito que tenho, mas deixo aqui apenas sugerido. Exclui-se desta generalização, outrossim, por óbvio, a polirritmia genialmente pessoal de João Gilberto.



Dia do Samba

Escrevi a pedidos, por ocasião da celebração do Dia do Samba no ano de 2003, um pequeno e despretensioso texto para servir de uma breve abordagem do que eu julgava os aspectos fundamentais do desenvolvimento histórico do samba urbano (notadamente carioca) no século XX. O texto foi usado para uma espécie de cartilha distribuída para alguns setores do movimento popular na cidade de São Paulo, patrocinada pelo mandato do então deputado Nivaldo Santana, nosso companheiro de muitas jornadas. Acredito que tenha cumprido (o texto) sua tarefa com a dignidade possível. Presta-se a não mais que um guia de referência rápida, como tantos outros que brotam por aí (a respeito de qualquer coisa, diga-se). Tem, portanto, todos os defeitos, superficialidades e simplificações que me fazem nutrir pouco apreço por empreitadas do gênero. Como único mérito, acredito, uma razoável depuração de erros grosseiros e confusões conceituais que comumente se firmam no leitor que se debruça desordenadamente pela bibliografia disponível, de confiabilidade bastante variável, fruto de duas décadas e meia de leituras, vivências, histórias ouvidas, comparações e reflexões. Por essa única virtude defensável, creio ser de algum proveito sua disponibilização pública neste espaço. O julgamento sobre o acerto desta disposição, a partir daqui, não mais me compete.



Pequena cartilha para uma história do samba


Introdução


A palavra “samba” é de origem controvertida. Nei Lopes - um dos mais importantes estudiosos da herança cultural africana no Brasil e autor de muitos sambas que a gente vive cantando por aí - assinala que a raiz remota seria a palavra “semba”, que em vários idiomas da grande família lingüística banto (presente nas regiões da atual Angola, Congo e Moçambique) da a idéia de “separação”. Desta palavra teria surgido o termo “disemba”, que no idioma quimbundo (outro da família banto) significa “umbigada”. Essa umbigada é uma espécie de passo de dança em que dois dançarinos se “cumprimentam” tocando-se nos umbigos, ou apenas insinuando esse gesto; passo que é extremamente característico de em um sem número de manifestações dançantes de origem afriacana que até hoje se praticam no Brasil, como o jongo (RJ e SP), o coco (região Nordeste), o lundu (regiões Norte e Nordeste), o congo (ES e MG), o tambor de crioula (MA) entre outros.

Na segunda metade do século XIX, era corrente para designar diversas expressões de dança derivadas dos batuques africanos trazidos para o Brasil pelos negros escravizados, bem como as reuniões ou ajuntamentos festivos onde essas danças e batuques se praticavam. Esses “sambas” eram freqüentados por negros, escravos, livres e libertos, mulatos e brancos pertencentes às camadas socialmente mais desfavorecidas, o que proporcionou uma progressiva mistura dos ritmos africanos originários com outras espécies de música correntes entre os brancos e mulatos pobres, de origem ou influência européia, como as modinhas.

Até hoje são múltiplas as acepções do vocábulo “samba”, sendo que a mais corrente designa o ritmo nacional por excelência, de compasso binário (2/4), não desaparecendo, entretanto, as que se reportam à dança, à festa e à celebração. Ainda sobrevivem entre nós expressões como: “vamos a um samba em tal lugar”, ou “vai ter um pagode lá em casa”.



Parte I – Das origens à escola


O samba como gênero musical próprio começa a ser gestado na passagem do século XIX para o século XX, nos bairros de marcada predominância negra na cidade do Rio de Janeiro, a chamada “Pequena África”, que inicialmente compreendia basicamente a Zona Portuária e algumas ruas da Zona Central. Isso porque o trabalho da estiva é o que em maior grau pôde abrigar a população negra chegada à Capital da República vinda da zona rural, após a abolição da escravatura. Nestas regiões rapidamente começou a se destacar o núcleo dos negros chegados da cidade de Salvador e de seus entornos, visto que os negros baianos possuíam um grau mais perceptível de organização e consciência cultural. Na Bahia a religião afro-brasileira já se encontrava na época bem mais estruturada e são muitos os episódios relatados de revoltas escravas na capital baiana durante o século XIX.

Assim, chegando no Rio de Janeiro, as casas das chamadas tias baianas – dentre as quais a mais famosa foi Tia Ciata, nascida Hilária Batista de Almeida, em Santo Amaro da Purificação - foram se tornando uma espécie de referência cultural, religiosa e de organização social, onde se praticava o culto afro, onde se faziam as festas, organizavam-se as irmandades religiosas e as manifestações carnavalescas etc. Mais do que nunca, esses eventos eram freqüentados não só pelos negros, mas por uma ampla variedade de setores das classes populares, como baixos funcionários públicos ou militares e gente de ofícios autônomos como barbeiros e artesãos.Entre estes era grande o número de músicos, pois que suas ocupações permitiam que se dedicassem ao estudo musical, ainda que muitas vezes superficial, o que não acontecia, por exemplo, com quem estivesse submetido às duríssimas jornadas de trabalho da estiva. Esta mistura de músicos instrumentais de formação e influência da música profana de origem européia com o elemento africano de acentuada predominância rítmica e percussiva, já tinha originado expressões como o lundu e o choro.

No começo do século XX, ao lado desses, começa a firmar-se também o samba. Então, nas festas das casas das tias baianas, enquanto na sala se praticava o choro, no quintal ou terreiro, na parte traseira, cantava-se e dançava-se os ritmos africanos como o jongo e o caxambu, jogava-se o jogo da pernada (ou batucada, ou samba-duro) e cantava-se o samba. Inicialmente, tratava-se basicamente do samba de partido-alto, modalidade mais tradicional do samba, cantado em forma de desafio por dois ou mais cantores, com uma parte coral em forma de refrão e outra solada, normalmente cantada de improviso.

Os sambas foram, a partir das casas das tias baianas, ganhando o gosto da população e espalhando-se pelos demais redutos de população pobre que iam-se desenvolvendo conforme as zonas centrais da cidade passassem a não mais comportar as grandes massas populares desprovidas de trabalho fixo, nas quais os negros e mestiços formavam a ampla maioria. Assim é que o samba como gênero musical propriamente urbano e original ganha os morros próximos à Zona Central, entre os quais, primeiramente os morros da Favela e de São Carlos e, depois, Mangueira e Salgueiro, para daí espalhar-se pelos subúrbios. Mas se esses sambas de partido-alto, ainda ritmicamente muito próximos aos batuques africanos dos terreiros e macumbas ganhavam a cidade, o samba que pela primeira vez em 1917 chegou ao disco ostentando esse nome, seria um samba menos percussivo e mais próximo do que os ouvidos de então conheciam como “maxixe”, gênero musical especificamente destinado à dança de salões de baile, caracterizado pela coreografia sensual de volteios e rebolados. Tal como o choro e o lundu, o maxixe também era um dos filhos dessa grande família surgida da mistura da música européia com os ritmos africanos. Como explicar essa diferença?

Os nomes mais importantes dessa época na história que estamos contando são os de Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Enquanto o último era um ritmista de mão cheia, os outros dois eram mestres nos instrumentos que executavam, respectivamente a flauta e o violão. Nesse tempo, não havia a intenção de se compor melodias e letras específicas que fossem entituladas sambas, pois o rádio ainda não existia e o disco engatinhava. Os sambas, como dissemos, surgiam nas festas, com refrões criados na hora ou herdados das tradições musicais há muito cultivadas pelos negros e estrofes improvisadas. Assim o maxixe “Pelo Telefone”, oficialmente o primeiro samba gravado em disco, de autoria de Donga e Mauro de Almeida, nada mais é do que um ajuntamento de vários refrões populares e temas recorrentes nas rodas de partido-alto.

A mudança rítmica do batuque para o maxixe justificava-se porque as classes da elite que tinham acesso aos discos e aparelhos reprodutores estavam mais familiarizadas com esse gênero, enquanto a percussão típica do samba, então presente nas rodas de partido-alto, ainda poderiam soar um tanto “bárbaras” para uma casta social ainda fortemente marcada pelo preconceito e pela cultura branca de matriz européia. Trata-se da primeira apropriação e alteração dos elementos tradicionais e históricos da cultura do samba em nome de objetivos estranhos ao meio sócio-cultural em que ela se desenvolveu. O chamado samba amaxixado imperou, nas casas de dança, cabarés e nos salões das famílias abastadas até o final da década de 20 e teve como grande mestre o pianista J.B. Silva, o popularíssimo Sinhô. Entre os inúmeros sambas de sucesso gravados por grandes nomes do disco como Mário Reis e Francisco Alves, o clássico “Jura” está entre os mais conhecidos, tendo há pouco merecido uma regravação de Zeca Pagodinho para servir de tema a uma novela de televisão. Nessa gravação pode-se ter uma boa idéia do tipo de samba que predominou até 1930, pois buscou-se ser fiel ao espírito original da composição.

Mas a despeito do reinado do maxixe, o samba ritmado seguiu vivo em todas as comunidades populares de grande presença negra, tendo se fixado ao longo da segunda metade da década de 20 em redutos como a região do Estácio de Sá (entre os morros de São Carlos e Favela), os morros de Mangueira e Salgueiro e o subúrbio de Oswaldo Cruz. Nesta época, a principal manifestação organizada durante o carnaval ainda eram os ranchos, que tiveram origem humilde, negra também, derivados dos desfiles de pastoris que se celebravam na época do Natal. Mas já nos anos 20, os desfiles de rancho, influenciados por formas carnavalescas européias que primavam pelas fantasias elaboradas e a utilização de carros alegóricos, tinham-se transformado em grandes e elaboradas organizações, com movimentação de consideráveis somas de dinheiro para a organização dos desfiles, não acessíveis, portanto, às classes sociais excluídas. Assim, as camadas populares absorveram dos ranchos a maneira de desfilar em forma de procissão, a utilização de fantasias e as figuras do baliza e da porta-estandarte; das grandes sociedades carnavalescas, absorveram os carros alegóricos; e utilizando a música então mais corrente e popular – o samba – criaram a mais original e importante das manifestações populares do carnaval brasileiro: as escolas de samba.

[continua]