quinta-feira, 28 de junho de 2007
Nós e nós
Deu na coluna Toda Mídia, de Nelson Sá, na Folha de S. Paulo, edição de 26 de junho passado:
“Ontem na Globo, sobre episódio no Rio de Janeiro:
- Grupo espancou e roubou empregada. Os jovens são de classe média alta... Jovens moradores de condomínios de luxo da Barra... Jovens... Os jovens são o centro desta questão perturbadora.
Dias antes na Globo, sobre episódio em São Paulo:
- Quadrilha aterrorizou moradores do Morumbi. Assalto a casa de luxo... Vários bandidos.
No mesmo jornal, mesma edição, caderno Cotidiano, a entrevista do pai de um dos agressores. Os trechos em itálico são as falas do sujeito. Intercaladamente, arrisco uma espécie de “tradução”.
"Não é justo prender cinco jovens que estudam, que trabalham, que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos. "
Tradução: sabem, sim senhor, de onde vieram, mas não têm coragem de dizer com todas as letras “que vieram dessas favelas aí”. É melhor que a “gente de bem” ignore esses lugares escuros, esses “outros lugares” como um nada informe e desconhecido, bem longe e apartado do nosso mundo fechado de pessoas de caráter.
"Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham, presos. É desnecessário, vai marginalizar lá dentro. Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses?"
Tradução: os nossos crimes, então, são “erros, “coisas feias”, mas nada justifica prender, coitados. Já os crimes “de uns caras desses” são monstruosidades hediondas que merecem o encarceramento de menores, a pena de morte, a prisão perpétua. Caráter é ma coisa com a qual se nasce, que vem de estirpe. Sabemos bem quem é da laia que comete crimes e os de boa cepa que podem "errar", nunca poderíamos confundir as coisas.
"Folha - Mas o sr. acha que eles poderiam estar embriagados ou drogados?
Bruno - Mas é lógico. Uma pessoa normal vai fazer uma agressão dessa? Lógico que não. Lógico que estavam embriagados, lógico que podiam estar drogados. "
Tradução: meus filhinhos, é claro, são incapazes de uma brutalidade. Nós não somos como “eles”, nós estudamos, trabalhamos, temos caráter. Mas a droga, esse demônio que mora no lado desconhecido e que se apossa de seus corações e suas mentes, os transforma em “outros”, esses sim capazes de inomináveis barabaridades. Os outros. Nós, nunca.
"Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los. Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso."
Aí (e já chega!) a tradução tem que ser um pouco mais longa.
O verdadeiro apartheid cultural sobre o qual se assenta ideologicamente a elite brasileira smpre careceu da rejeição aos padrões populares de sociabilidade para manter sua psiquê social intacta e livre das culpas de outro modo insuportáveis. Historicamente, portanto, assume relevância seu desejo recorrente em se distinguir do “povo”, e assim faz questão de pautar seu modo de vida pelos modelos importados, bem livres da contaminação das formas de vida engendradas pelos “outros”.
O substrato dessa distinção é uma epistemologia capenga, reducionista, que nega as formas tradicionais e milenares de sabedoria em prol de um padrão do discurso dito “racional”, reduzido à operacionalidade lógica que lida fundamentalmente com a distinção de “mesmo” e “outro”: “A” e “não A”. Por outro lado, uma certa moral baseada em um tipo de psicologia maniqueísta e repressora da vontade que opera correspondentemente com a distinção de “desejável” e “não desejável”. Obviamente que esta divisão leva a impasses todas as vezes que as categorias não corresponderem, ou seja que o desejo recair sobre o que pertence à outra banda, ao “outro lado”, o lado obscuro que teoricamente deveria estar completamente apartado de “nós”; toda vez que a esfera daquelas coisas que objetiva e claramente apresentam-se ao entendimento definidas como erradas, abjetas, contrárias à moral, ruins, nefastas etc. transponham a fronteira do “não desejável” para dentro do limite dos “nossos” bastiões de fortaleza e virtude.
Então, a pseudo-razão reducionista, utilitarista da classe dominante remete a uma necessidade de diferenciar suas crenças, convicções, conceitos, desejos etc. daquilo que se nos apresenta como “o horror”. Em último plano, de estabelecer que “aquilo” faz parte de uma esfera, de uma realidade, de uma natureza, de uma substância diferente da nossa. O horror tem que se definir como a negação de nós mesmos, em todos os sentidos. Nosso intelecto que opera por dualidades excludentes não nos permite, pois, em nenhuma dimensão compartilhar pontos de contato com aquele comportamento que repelimos de maneira absoluta. O horror tem que ser, em todos os sentidos, o outro.
O raciocínio da classe dirigente predadora que se apropria do país e se nutre do sangue e do suor da imensa massa dos trabalhadores que constroem esta nação sempre fez questão absoluta de frisar essa distinção: nós e os outros. Sempre se colocou acima e em apartado do “povo”, sempre rejeitou seus modos de falar de vestir, dançar cultuar suas divindades. Esse discurso que assume tons sombrios e bizarros numa situação extrema como a em questão, não é na essência diferente daquele contra o qual não cansamos de nos bater e denunciar: a rejeição das formas singulares e dos padrões culturais do povo brasileiro. Então, se no caso específico a distinção é entre “nós, os de bem” e “eles, os bandidos”, ela só é possível e legitimável ideológicamente porque a sociedade brasileira se construiu lastreada na divisão essencial entre “nós, os letrados, instruídos, de bom gosto (e brancos, católicos etc.)” e os “outros, atrasados, ignorantes, cafonas (e pretos, mestiços, animistas etc.)”. Nesta esteira, todos os males da nação, obviamente, estão relegados “à banda de lá”. É lá que reside a pobreza, a doença, a ignorância, a maldade, o atraso, a indolência.
Portanto, mais grave do que a agressão e a violência em si mesmas, o discurso do pai que procura aplacar a cisão que o episódio evidencia nos fundamentos ideológicos dos nosssos padrões de sociabilidade denuncia gravemente que a sociedade brasileira precisa urgentemente empreender a superação da exclusão econômica, cultural, política, social e ideológica entre “uns” e “outros”. Somente uma razão dialética e dialógica, que não opere exclusivamente pelos padrões lógicos elementares do entendimento, por dualidades excludentes, pode dar conta de um tal conflito que põe em xeque suas próprias estruturas, sua integridade, sua capacidade de enfrentamento das questões mais profundas que se lhe apresentam. Somente uma razão política que se desapegue da crença absoluta nos mecanismos formais de decisão, gestão e administração dos conflitos, e empreenda a mais difícil tarefa na história da nação brasileira, no sentido de promover verdadeiramente o entendimento e a integração.
É claro que essa superação dissolve "perigosamente" as fronteiras entre “A” e “não A”, entre o “eu” e o “resto” (ou “não-eu”), entre o “certo” e o “errado” (ou “não certo”). Proscrita a separação essencial, abre-se a possibilidade de que eu compartilhe pontos substanciais com o horror que me repugna. Em última conseqüência leva à aceitação que o “outro” também faz parte de mim e eu dele, ou, dito de outra forma, aquilo que tanto me repugna, em certa medida faz parte de mim mesmo. Esta consciência de que “o mal” não está fora de nós, mas que deve ter as raízes investigadas nas nossas próprias práticas, convicções, sentimentos e desejos, talvez seja a única saída para os impasses essenciais de nosso tempo. Sem entender o horror, apenas apartando-o definitivamente de nós mesmos, resta-nos (e é mais fácil!) a condenação pura, simples e absoluta. O reconhecimento de que ele é parte da nossa natureza é o único caminho – ainda que tão doloroso - para o entendimento e a superação.
domingo, 24 de junho de 2007
Trama
Quem foi que disse
que o tempo consome a paixão?
Formosura de dama que até
Ulisses seduz...
Serei-a!
Mão secreta alteia a trama
Nada entreluz da costura
E já o nome gestara:
Iara!
Que a vida insuspeita arquiteta
À espreita e disfarçada
sob a teia de lundus marajoaras
que o tempo consome a paixão?
Formosura de dama que até
Ulisses seduz...
Serei-a!
Mão secreta alteia a trama
Nada entreluz da costura
E já o nome gestara:
Iara!
Que a vida insuspeita arquiteta
À espreita e disfarçada
sob a teia de lundus marajoaras
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Outras paradas
Domingo passado, enquanto uma banda da cidade parava a fortiori em função do já tradicional desfile junino desta Capital (sobre o qual não comentarei por razões que também aqui não cabe escarafunchar), euzinho, que não sou lagoa pra esfriar bunda de pato, derrotava ampolas “mofadas” bem longe, mas bem longe mesmo dali, em companhia de figuras legendárias desta Cidade verdadeira, que não se rende e se recusa ao travestimento que vivem a lhe querer impingir.
Longe do “carnaval”, da pantomima, do furdunço, o que a gente encontra é a velha camaradagem, rapaziada bebendo na padaria (hábito dos mais paulistas), porque o dono do butiquim também é filho de Deus e a vida não é mole, não. Se não há mesa, não tem problema, porque o pessoal ao lado tá com duas, por que não ceder a que sobra? Apertam-se os copos, “leva aqui, Manoel”, as vazias vão pra o engradado. De cara, uma São Francisco pra garantir a generosidade dos propósitos, a garganta estava mesmo pegando um pouco. Petisco não, porque as senhoras nos aguardam para os respectivos repastos dominicais.
E tome prosa, comandante Deco à minha frente. Ali é só sorriso, é papo da melhor qualidade, é história que não dá vontade de largar. Ao meu lado, a cadeira vazia esperava “Seu” Juracy, que ficou pra trás de conversê com o jornaleiro. Pudera.
“Seu” Juracy foi durante quase três décadas dono da melhor banca de jornal da Avenida Paulista, da qual fui cliente - por só ali encontrar diariamente os jornais dos quatro cantos do Brasil – muito antes de desconfiar que seu filho era o maior amigo-irmão-de-infância da mulher que mudaria minha vida. Conhecido por não se intimidar com as ameças contra os jornaleiros que insistissem em vender ostensivamente jornais da chamada imprensa alternativa, entre os quais o Pasquim e os antológicos Opinião e Movimento (“quanto mais ameaçavam, mais eu pendurava bem na frente, pra todo mundo ver”), protagonizou inacreditáveis histórias. Como nas noites em que tinha quee dormir na calçada, disfarçado de mendigo, barba comprida, esperando a turma que andava explodindo as bancas (lembram?), na companhia fiel do “maior 38 de que se teve notícia na História”, segundo Deco. A confiança no parceiro tem razão de ser: sargento da Marinha de Guerra Brasileira por vinte anos, com 78 primaveras nas costas se gaba: “Ainda hoje, com a vista meio cansada, se eu errar aquele poste ali [a uns 30 metros da mesa onde bebíamos], meto uma bala na cabeça!”
Oposto ao meu corner, o grande carioca Jayme Leão, uma das maiores feras da ilustração brasileira, cartunista e capista consagrado, traço inconfundível que a gente vive a esbarrar de repente em uma página virada em publicações tão diversas como uma Caros Amigos, uma Playboy, uma Você S.A.; ou em capas de dezenas e dezenas de livros que fizeram parte da vida literária da minha geração, como as coleções Vagalume e Para gostar de ler (lembram?), editadas pela Ática. Como cartunista fez parte da geração de craques surgidas a partir dos já citados jornais Opinião e Movimento, ao lado de nomes como Angeli, Laerte, Loredano, os irmãos Caruso, Liberati, Zero, tendo mais tarde colaborado regularmente por alguns anos na Folha de S. Paulo. Empedernido ativista político, teve de exilar-se no Chile onde pôde ver de perto o governo socialista de Allende. Stefânia, Capitão Léo, Deco, os de minha geração que cresceram próximos a ele garantem: foi o exemplo formador de consciência crítica e resistência militante.Histórias mil, cervejas muitas, bem do outro lado do Tietê. Resistência de verdade, História de verdade, numa Cidade de verdade. Mas há quem prefira a Avenida Paulista. Parada.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Mulher e cidade Marília
Aroldo e Moraes Moreira
A cidade é assim
A mulher e a cidade
Representam pra mim
Amor e liberdade
A cidade é uma moça
Também não tem idade
É o espírito a força
Da mocidade
Meu amor também é
Toda minha verdade
Meu caminho de fé
De felicidade
A cidade e o mundo
A mulher e a cidade
Meu coração vai fundo
(saque a profundidade...)
Se ando vagabundo
Pelas ruas de noite a vagar
Seguindo tuas ruas em acordes
Para te acordar
E vou buscar no violão
Uma canção que seja aquela
Que abrirá tua janela
E também teu coração
A cidade é assim
A mulher e a cidade
Representam pra mim
Amor e liberdade
A cidade é uma moça
Também não tem idade
É o espírito a força
Da mocidade
Meu amor também é
Toda minha verdade
Meu caminho de fé
De felicidade
A cidade e o mundo
A mulher e a cidade
Meu coração vai fundo
(saque a profundidade...)
Se ando vagabundo
Pelas ruas de noite a vagar
Seguindo tuas ruas em acordes
Para te acordar
E vou buscar no violão
Uma canção que seja aquela
Que abrirá tua janela
E também teu coração
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Anhangüera é resistência
A Internet, sem dúvida nenhuma, vem há tempos revolucionando os processos de comunicação, com as vantagens, desvantagens, problemas e limitações inerentes a qualquer quebra radical de paradigmas. Já me aventurei por essa seara, pra quem se interessar pelo tema, nos primórdios desta revista. Mas a reflexão que me move, hoje, é menos filosófica e mais prática.
Graças ao talento robusto e disposição empedernida de alguns gigantes da minha geração como meu irmão Edu Goldenberg e, mais recentemente, mestre Luiz Antonio Simas e o incansável guerreiro Bruno Ribeiro, os blogues ocuparam um espaço de resistência que pouco a pouco vai urdindo uma teia que, se não dá ainda sinais de que vá mudar o mundo, nos confere um conforto, uma força, uma sensação - quase asbsolutamente ausente em outros metiês - de que a semente de um mundo diferente ainda não foi completamente sufocada. E independentemente dos diversos graus de dedicação, disposição e mesmo, eu diria, de iniciação, pouco a pouco outras vozes vão se juntando, armando seu caixotinho virtual neste gigantesco speaker's corner sem fronteiras propiciado pelos ares ainda libertários da rede mundial de computadores. Poderia citar algumas delas, mas como aou versado em discurso de casamento e velório, “vou me furtar, para não correr o risco de cometer alguma injustiça”...
Hoje, especialmente, faço este breve intróito para recomendar vivamente a leitura de um estreante, que independentemente de ser um grande companheiro no samba, nas noites e na vida, tem vivência, memória, verve e animus narrandi - as quatro qualidades suficientes e necessárias - de um grande contador de histórias: Arthur Favela Tirone, figura habitual nesta e noutras plagas virtuais já citadas. No seu Anhangüera vêm sendo pintadas a doçura e a vileza desta Cidade que se agigantou, com suas cores tão naturais quanto algo desbotadas de poluição e antigüidade, com sua gente verdadeira, sua malandragem meio-bruta, meio-caipira, bem longe dos estereótipos e paradigmas importados que os seus usurpadores teimam em querer enfiar-lhe goela abaixo. Porque essa é a nossa verdade mestiça de guaianás acaboclados e negros oprimidos! Ali estão presentes o butiquim vagabundo, o futebol de várzea, as rodas de samba, a barafunda destas ruas de inigualável sotaque!
E vamos em frente, que as trincheiras estão cavadas e nós temos soldados destemidos e munição pesada, ainda que o inimigo seja mais numeroso e tão desleal. Porque a resistência também está plantada nesta Terra da Garoa. Tem nome de diabo velho e mora na Barra Funda!
Graças ao talento robusto e disposição empedernida de alguns gigantes da minha geração como meu irmão Edu Goldenberg e, mais recentemente, mestre Luiz Antonio Simas e o incansável guerreiro Bruno Ribeiro, os blogues ocuparam um espaço de resistência que pouco a pouco vai urdindo uma teia que, se não dá ainda sinais de que vá mudar o mundo, nos confere um conforto, uma força, uma sensação - quase asbsolutamente ausente em outros metiês - de que a semente de um mundo diferente ainda não foi completamente sufocada. E independentemente dos diversos graus de dedicação, disposição e mesmo, eu diria, de iniciação, pouco a pouco outras vozes vão se juntando, armando seu caixotinho virtual neste gigantesco speaker's corner sem fronteiras propiciado pelos ares ainda libertários da rede mundial de computadores. Poderia citar algumas delas, mas como aou versado em discurso de casamento e velório, “vou me furtar, para não correr o risco de cometer alguma injustiça”...
Hoje, especialmente, faço este breve intróito para recomendar vivamente a leitura de um estreante, que independentemente de ser um grande companheiro no samba, nas noites e na vida, tem vivência, memória, verve e animus narrandi - as quatro qualidades suficientes e necessárias - de um grande contador de histórias: Arthur Favela Tirone, figura habitual nesta e noutras plagas virtuais já citadas. No seu Anhangüera vêm sendo pintadas a doçura e a vileza desta Cidade que se agigantou, com suas cores tão naturais quanto algo desbotadas de poluição e antigüidade, com sua gente verdadeira, sua malandragem meio-bruta, meio-caipira, bem longe dos estereótipos e paradigmas importados que os seus usurpadores teimam em querer enfiar-lhe goela abaixo. Porque essa é a nossa verdade mestiça de guaianás acaboclados e negros oprimidos! Ali estão presentes o butiquim vagabundo, o futebol de várzea, as rodas de samba, a barafunda destas ruas de inigualável sotaque!
E vamos em frente, que as trincheiras estão cavadas e nós temos soldados destemidos e munição pesada, ainda que o inimigo seja mais numeroso e tão desleal. Porque a resistência também está plantada nesta Terra da Garoa. Tem nome de diabo velho e mora na Barra Funda!
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Hélio Bagunça
O samba de São Paulo está de luto. Morreu nesta madrugada, aos setenta e um anos, um dos grandes baluartes paulistanos, Hélio Romão de Paula, o legendário Hélio Bagunça.
“Seu” Hélio participou em 1953, ao lado do grande Inocêncio Tobias, do reagrupamento do antigo Grupo Carnavalesco Barra Funda que acabou dando origem ao Cordão Carnavalesco Mocidade Camisa Verde-e-Branco, da qual foi o primeiro diretor de harmonia. Compositor, ritmista, balilarino do samba, era quase um prefeito do bairro da Barra Funda, berço do samba na Terra da Garoa, onde participou da formação do antológico salão São Paulo Chic. Fundou também, em 1973, a G.R.E.S. Tom Maior e foi Cidadão Samba da Cidade de São Paulo na década de 90.
Figura presente em muitas rodas de samba da cidade, deixa uma grande lacuna entre os que nos acostumamos a ouví-lo cantar samba e contar suas histórias. Topar com ele pelos sambas e butiquins da Barra Funda era comum, sempre pronto pra tomar uma cerveja, levar um papo malandro, como nas rodas do antigo Espaço CUCA, onde tivemos a honra de ser por tantas vezes agraciados com a sua presença, exercendo essa função maioral de passar adiante o conhecimento, a sabedoria e o axé.
Brilhará sempre na constelação das estrelas mais cintilantes do samba da Paulicéia, ao lado de Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Geraldo Filme, Pato n'Água, Zeca da Casa Verde, Talismã e outros que já moram no Orun, e dos que afortunadamente ainda se encontram entre nós como “Seu” Carlão do Peruche, Toniquinho Batuqueiro, “Seu” Mário Luiz, Oswaldinho da Cuíca e outros mais. A todos, nosso respeito e veneração.
Salve Hélio Bagunça! Salve o Camisa Verde-e-Branco! Salve o samba brasileiro!
“Seu” Hélio participou em 1953, ao lado do grande Inocêncio Tobias, do reagrupamento do antigo Grupo Carnavalesco Barra Funda que acabou dando origem ao Cordão Carnavalesco Mocidade Camisa Verde-e-Branco, da qual foi o primeiro diretor de harmonia. Compositor, ritmista, balilarino do samba, era quase um prefeito do bairro da Barra Funda, berço do samba na Terra da Garoa, onde participou da formação do antológico salão São Paulo Chic. Fundou também, em 1973, a G.R.E.S. Tom Maior e foi Cidadão Samba da Cidade de São Paulo na década de 90.Figura presente em muitas rodas de samba da cidade, deixa uma grande lacuna entre os que nos acostumamos a ouví-lo cantar samba e contar suas histórias. Topar com ele pelos sambas e butiquins da Barra Funda era comum, sempre pronto pra tomar uma cerveja, levar um papo malandro, como nas rodas do antigo Espaço CUCA, onde tivemos a honra de ser por tantas vezes agraciados com a sua presença, exercendo essa função maioral de passar adiante o conhecimento, a sabedoria e o axé.
Brilhará sempre na constelação das estrelas mais cintilantes do samba da Paulicéia, ao lado de Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Geraldo Filme, Pato n'Água, Zeca da Casa Verde, Talismã e outros que já moram no Orun, e dos que afortunadamente ainda se encontram entre nós como “Seu” Carlão do Peruche, Toniquinho Batuqueiro, “Seu” Mário Luiz, Oswaldinho da Cuíca e outros mais. A todos, nosso respeito e veneração.
Salve Hélio Bagunça! Salve o Camisa Verde-e-Branco! Salve o samba brasileiro!
terça-feira, 29 de maio de 2007
Mosaico II
Pululam por todos os lados críticas, denúncias, desconfianças com relação à organização dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, desde gente da mais alta e indubitável respeitabilidade como mestre Luiz Antônio Simas, até da escumalha estulta e incompetente que campeia nas redações dos “super jornalões s/a”, que nada mais fazem do que reproduzir o padrão de imbecilização do pouco que resta de vida inteligente na Nação. A borduna está cantando à solta. Não tenho vontade de falar do assunto, sinceramente, e com tanta coisa mais escandalosa correndo por aí, não me tenho dado ao trabalho de analisar detidamente a enxurrada de insinuações, premonições ou mesmo fatos. Mas por dever de consciência, obrigo-me a duas pontuais observações.
Em primeiro lugar, por mais plausíveis ou mesmo verificáveis que sejam os problemas apontados a torto e a direito, de procedências as mais diversas, compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz.
Em segundo, na minha última visita ao Rio de Janeiro, causou-me profunda estranheza como gente de boa cepa possa aderir irrefletidamente ao sentimento constantemente repisado pelos detratores do Brasil de que nada de que é nosso possa prestar. Criticar, denunciar, chamar às contas, discordar, esbravejar, faz parte do direito-dever inalienável de todo cidadão. Agora, torcer para que TUDO DÊ ERRADO, é algo que simplesmente não consigo compreender. A não ser vindo daqueles que sistematicamente se comprazem em reforçar a idéia de que o brasileiro é, por natureza, incompetente, indolente, incapaz de se ombrear com os maravilhosos realizadores do “primeiro mundo”.
***
O Papa Bento XVI têm-se especializado na nobre arte de dizer, em segundos, bobagens que o episcopado, o clero, a diplomacia, os políticos, teólogos, historiadores têm de levar meses pra tentar consertar. Entre uma montanha de pataquadas que disse por aqui e para as quais ninguém deu a menor pelota, soltou a pérola de que a catequese dos povos pré-colombianos não foi uma violência. Claro: saroba no defecador alheio é cosquinha. Tratou-se apenas, nas suas pontifícias palavras, de conduzir a ancestral sabedoria desses povos à plenitude da verdade no conhecimento do evangelho. Depois, ele mesmo tentou limpar a meleca, mas a sagacidade popular está cansada de saber que em dispensações papais, quanto mais se mexe, maior é o característico odor exalado.
Mas isso serviu pra me lembrar a história que me contou Iya Sandra Epega de Xangô. Perguntado a uma freirinha missionária entre os índios amazônicos, ao que parece irmã do nunca assaz exaltado Marechal Cândido Rondon (entre cujos compatriotas, nunca é demais lembrar, foi recentemente apontado como “o maior” o ultra-fanho chofer de carros Ayrton Senna), como pretenderia ensinar a sua religião aos índios, respondeu:
- Eles já têm a religião deles, não preciso ensinar a minha. Venho aqui unicamente para viver o que nela aprendi: servir ao semelhante no que estiver ao meu alcance.
***
O mais recente mar de lama que se abate sobre a República, cujo primeiro e mais visível alvo foi o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, tem servido para tirar de pauta uma operação maquinada a partir do Palácio do Planalto e que já estava em pleno andamento antes da navalha, com o objetivo de legitimar perante a opinião pública a idéia de que o abastecimento nacional de energia elétrica é prioridade de tal monta a mitigar as preocupações com os impactos ambientais decorrentes da instalação de usinas hidrelétricas. Os alvos, sabidamente, são o complexo do Rio Madeira e Belo Monte, no Xingu. O Presidente da República havia muito não abria a caixa de ferramentas de suas bufonarias, como fez há algumas semanas, para ameçar a nação com o espectro nuclear, caso não sejam felxibilizadas as exigências para a concessão das licenças ambientais. Uma espécie de versão pós-moderna dos escrúpulos de consciência mandados às favas. De sua parte, a Ministra Marina Silva andava tentando convencer a si mesma e à Nação de que os avanços conquistados na gestão de diversos problemas ambientais (aparentemente efetivos) podem e devem justificar sua permanência num ministério onde é constantemente desautorizada e considerada presença incômoda.
Água na fervura por enquanto, atentem porque o tema voltará à baila quando a poeira baixar.
***
A baba-ovíssima vertente futebolística da grande imprensa paulistana este final de semana tratou de supervalorizar o episódio da substituição do atacante Edmundo, estrela maior do escrete palestrino, só porque saiu de campo no clássico contra o São Paulo sem cumprimentar o técnico Caio Júnior, que ficou que nem um bocó de bracinho esticado, esperando o aperto-de-mão que não veio. Reação, aliás, absolutamente normal de um jogador que tem sanha de bola. Mas os arautos do futebolzinho comportado e higiênico insistem em que, mesmo puto, o jogador tenha que demonstrar publicamente, para exemplo e instrução das novas gerações, simpatia, cordialidade e “espírito esportivo”. Às putas que os pariram! Por sua vez, o janotíssimo treinador perdeu excelente oportunidade de ficar de boquinha fechada, tendo em vista que sua importância histórica para o Palmeiras e sua projeção no futebol brasileiro não chegam aos calcanhares do endiabrado atacante. Atenção, pois, os atestadamente honrados e bem-intencionados (dou fé!) dirigentes atuais do futebol esmeraldino: Caio Júnior é sério e, mesmo sem demonstar até agora ser um grande gênio, tem-se apresentado apto a cumprir a tarefa que lhe está sendo confiada. Ajudêmo-lo, pois, a ter a dimensão mais nítida das proporções em sede da realidade do futebol atual, e estaremos ajudando a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.
Em primeiro lugar, por mais plausíveis ou mesmo verificáveis que sejam os problemas apontados a torto e a direito, de procedências as mais diversas, compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz.
Em segundo, na minha última visita ao Rio de Janeiro, causou-me profunda estranheza como gente de boa cepa possa aderir irrefletidamente ao sentimento constantemente repisado pelos detratores do Brasil de que nada de que é nosso possa prestar. Criticar, denunciar, chamar às contas, discordar, esbravejar, faz parte do direito-dever inalienável de todo cidadão. Agora, torcer para que TUDO DÊ ERRADO, é algo que simplesmente não consigo compreender. A não ser vindo daqueles que sistematicamente se comprazem em reforçar a idéia de que o brasileiro é, por natureza, incompetente, indolente, incapaz de se ombrear com os maravilhosos realizadores do “primeiro mundo”.
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O Papa Bento XVI têm-se especializado na nobre arte de dizer, em segundos, bobagens que o episcopado, o clero, a diplomacia, os políticos, teólogos, historiadores têm de levar meses pra tentar consertar. Entre uma montanha de pataquadas que disse por aqui e para as quais ninguém deu a menor pelota, soltou a pérola de que a catequese dos povos pré-colombianos não foi uma violência. Claro: saroba no defecador alheio é cosquinha. Tratou-se apenas, nas suas pontifícias palavras, de conduzir a ancestral sabedoria desses povos à plenitude da verdade no conhecimento do evangelho. Depois, ele mesmo tentou limpar a meleca, mas a sagacidade popular está cansada de saber que em dispensações papais, quanto mais se mexe, maior é o característico odor exalado.
Mas isso serviu pra me lembrar a história que me contou Iya Sandra Epega de Xangô. Perguntado a uma freirinha missionária entre os índios amazônicos, ao que parece irmã do nunca assaz exaltado Marechal Cândido Rondon (entre cujos compatriotas, nunca é demais lembrar, foi recentemente apontado como “o maior” o ultra-fanho chofer de carros Ayrton Senna), como pretenderia ensinar a sua religião aos índios, respondeu:
- Eles já têm a religião deles, não preciso ensinar a minha. Venho aqui unicamente para viver o que nela aprendi: servir ao semelhante no que estiver ao meu alcance.
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O mais recente mar de lama que se abate sobre a República, cujo primeiro e mais visível alvo foi o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, tem servido para tirar de pauta uma operação maquinada a partir do Palácio do Planalto e que já estava em pleno andamento antes da navalha, com o objetivo de legitimar perante a opinião pública a idéia de que o abastecimento nacional de energia elétrica é prioridade de tal monta a mitigar as preocupações com os impactos ambientais decorrentes da instalação de usinas hidrelétricas. Os alvos, sabidamente, são o complexo do Rio Madeira e Belo Monte, no Xingu. O Presidente da República havia muito não abria a caixa de ferramentas de suas bufonarias, como fez há algumas semanas, para ameçar a nação com o espectro nuclear, caso não sejam felxibilizadas as exigências para a concessão das licenças ambientais. Uma espécie de versão pós-moderna dos escrúpulos de consciência mandados às favas. De sua parte, a Ministra Marina Silva andava tentando convencer a si mesma e à Nação de que os avanços conquistados na gestão de diversos problemas ambientais (aparentemente efetivos) podem e devem justificar sua permanência num ministério onde é constantemente desautorizada e considerada presença incômoda.
Água na fervura por enquanto, atentem porque o tema voltará à baila quando a poeira baixar.
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A baba-ovíssima vertente futebolística da grande imprensa paulistana este final de semana tratou de supervalorizar o episódio da substituição do atacante Edmundo, estrela maior do escrete palestrino, só porque saiu de campo no clássico contra o São Paulo sem cumprimentar o técnico Caio Júnior, que ficou que nem um bocó de bracinho esticado, esperando o aperto-de-mão que não veio. Reação, aliás, absolutamente normal de um jogador que tem sanha de bola. Mas os arautos do futebolzinho comportado e higiênico insistem em que, mesmo puto, o jogador tenha que demonstrar publicamente, para exemplo e instrução das novas gerações, simpatia, cordialidade e “espírito esportivo”. Às putas que os pariram! Por sua vez, o janotíssimo treinador perdeu excelente oportunidade de ficar de boquinha fechada, tendo em vista que sua importância histórica para o Palmeiras e sua projeção no futebol brasileiro não chegam aos calcanhares do endiabrado atacante. Atenção, pois, os atestadamente honrados e bem-intencionados (dou fé!) dirigentes atuais do futebol esmeraldino: Caio Júnior é sério e, mesmo sem demonstar até agora ser um grande gênio, tem-se apresentado apto a cumprir a tarefa que lhe está sendo confiada. Ajudêmo-lo, pois, a ter a dimensão mais nítida das proporções em sede da realidade do futebol atual, e estaremos ajudando a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
A existência possível (cont.)
(Parte III)
Dominação e formalização
Pudemos até o presente momento estabelecer as limitações do pensamento conservador no tocante à superação dos elementos negativos de uma determinada forma de organização da vida social que não sejam decorrentes exclusivamente de problemas de gestão adequada dos modelos, mas que sejam geradas pela própria estrutura dessas formas organizativas, como a questão do empobrecimento progressivo do proletariado nas formas primeiras do capitalismo industrial ou a da perda da liberdade individual nos países de experiência socialista. Advogamos a necessidade da crítica dialética que questione radicalmente, sem pruridos intelectuais, o próprio estatuto, legitimidade e limitações dessas estruturas sociais.
Cabe perguntar, nesta hora, por quê, ante a evidência do estado de degeneração social que se observa na esmagadora maior parte das sociedades humanas modernas, é tão difícil ao senso comum de nosso tempo, primeiro, aceitar que essas mazelas possam derivar das próprias estruturas da organização social; e, em, conseqüência, admitir a necessidade de uma negação radical das mesmas. Em outras palavras, por que o pensamento conservador é hegemônico.
Há que se ter em mente, o fato lógico anteriormente apontado de que um ideal que foi revolucionário se passa a conservador tão logo a revolução preconizada se consume. Isso sempre se dará quando não se tratar de uma procura incessante por formas mais elevadas de existência (função do pensamento crítico), mas tão somente uma negação específca de determinadas estruturas particularmente contrárias aos interesses/exigências dos agentes revolucionários (trate-se da burguesia pré-industrial do século XVIII ou o Partido Bolchevique) que, ipso facto, passam a hegemônicos. Principia, a partir de então, como Marx tão bem caracteriza na Ideologia Alemã, o desenrolar de um processo fortemente ideológico de transformação do que era interesse particular de um determinado grupo em interesse geral, sem o quê, por óbvio, a hegemonia das novas formas organizativas não conseguiria se impor ante a uma maioria que permanecesse indefinidamente preterida, excluída, alijada, tendendo ao saudosismo das antigas formas abolidas.
Ora, no princípio da era capitalista, a filosofia política tratou de cumprir esse papel retratando um mundo antigo (ainda que hipotético ou mítico) de selvagerias e guerras e fome e doenças contrastado com o reino da liberdade e da segurança sob o contrato social. Um esforço muitíssimo bem engendrado para dar o nome de liberdade à submissão voluntária à ordem do estado, que passa por autores tão apartados em idéias e posturas como Hobbes, Rousseau, Kant ou Hegel. Paulatinamente foram se incorporando ao discurso oficial da ordem estatal-capitalista da modernidade as idéias de ordem, previsibilidade, padronização em oposição à barbárie desordenada de um mítico estado natural. Não é de outro modo que opera a ciência iluminista, procurando leis para descrever os fenômenos, prever os eventos futuros, com o intuito de dominá-los. Tanto na ordem jurídica como nas ciências naturais, a previsibilidade, o comportamento esperado, o estabelecimento de respostas-padrão, do sistema e dos indivíduos, são fortemente estimulados. Quanto mais passíveis de serem ordenados pelo sujeito cognoscente, que exerce o poder tanto sobre a natureza quanto sobre as forças sociais, mais garantida é a dominação.
Falar em dominação é falar em segurança. Falar em segurança é falar em dominação. É necessário que se domine a rebeldia, a imprevisão, a insubordinação para que eu tenha uma ordem jurídica e econômica estáveis. Não posso produzir se não estiver dominada a sanha expropriatória do soberano, a mutabilidade das leis de tributação e comércio. Não exercerei verdadeiro domínio sobre minha propriedade acumulada, se não puder estar seguro contra os salteadores e esbulhadores. Segurança e dominação. Dominação e segurança, presididas por um caráter francamente utilitarista (voltado para finalidades, para a eficiência). Não posso estar seguro sobre os resultados do meu experimento– e portanto, não poderei prever o comportamento dos fenômenos similares no futuro – se não for garantido que segui todos os procedimentos de antemão estabelecidos pela ortopraxia acadêmico-científica.
Porque simplesmente não é possível para que a produção de bens no âmbito do mercado se dê de maneira eficiente as regras do jogo poderem ser alteradas a todo momento, ao bel prazer de quem quer que seja (nem mesmo serão regras...). Nem é possível obter-se um adequado controle (padronização) sobre os comportamentos sociais se não houver regras postas de antemão que prevejam hipóteses abstratas e as correspondentes conseqüências: se não pagou a dívida, será executado; se cometeu um delito, irá para a cadeia. É desejável que sempre mais se possa ter um pequeno grau de variabilidade entre uma ação social-econômica e sua conseqüência. A dominação, seja no âmbito dos fenômenos naturais, seja no controle social, enseja, claramente, a padronização e formalização dos procedimentos tendentes a buscar as respostas do objeto a ser conhecido/dominado. Sujeito dominante e objeto dominado devidamente apartados, mediados por uma interface formalizada que garanta um grau mínimo de variabilidade, independentemente dos conteúdos materiais. A legitimação, no direito ou na ciência, vem da correção procedimental (formal): as regras de conduta são pré-definidas e só a sua fiel observância legitima tanto a ação social (princípio da anterioridade da norma jurídica ao fato) como o procedimento científico (método). Regras que possam ser constantemente rediscutidas não são regras!
Positividade e totalitarismo
Ora, o transcorrer do século XX mudou bastante a cara da ordem capitalista mundial. Contrariamente às análises econômicas do último Marx, as contradições do capitalismo industrial liberal não puseram termo a essa forma organizativa da sociedade do ponto de vista estrutural, baseada na apropriação privada da riqueza. Ao contrário, o capitalismo mostrou uma notável habilidade em absorver suas próprias contradições, digerí-las em seu pantagruélico ventre e vomitá-las em forma de positividades devidamente “amansadas”. A face mais evidente dessa capacidade diz respeito ao próprio proletariado, alçado de encarnação da negatividade essencial a denunciar a crueldade de um sistema de acumulação da riqueza, no âmbito do capitalismo industrial do século XIX, a “exemplo” de como as “correções necessárias” podem permitir que os benefícios do sistema se estendam também à classe detentora da força de trabalho: o estado providente de bem-estar. O grande agente da revolução anti-capitalista é “amansado” a partir da distributividade falaciosa dos benefícios da rede de proteção social.
Na sanha de tudo submeter, de universalizar a dominação e de neutralizar todas as resistências, o sistema estende seus tentáculos para muito além da organização econômica, política e na produção do conhecimento. Porque dominação pede, exige e se apraz com cada vez mais dominação. É de sua essência mais intrínseca, por lógica, que seu aperfeiçoamento implique na sua universalização: quanto menos resistência, mais eficiente; quanto mais universal, mais efetiva. A lógica da padronização, então, aliada à da acumulação de riqueza, coloniza todas as esferas da vida humana, traga todas as formas de existência, todas as manifestações do espírito e do engenho humano e mostra como pode tudo conformar a si própria. Qualquer resquício de espontaneidade (leia-se: de respostas não previsíveis), gratuidade (ações não voltadas para fins), formas de sociabilidade estabelecidas sobre um outro padrão que não o dos interesses formalmente mediados (vale dizer, mediados pelas formas privilegiadas de equivalência universal: o dinheiro e o “sujeito de direitos”) ou da conformação às regras procedimentais previamente estabelecidas, o sistema tratará de tragar para dentro do buraco negro. Ante qualquer forma alternativa de existência, o sistema sempre faz a sua oferta: dinheiro, equivalência, planificação, massificação. Por que fazer um carnaval de esmolambados sambando pelo simples prazer da diversão e da arte (espontâneo, gratuito), se é possível um mega-espetáculo que será vendido para os quatro cantos do mundo e possibilitará (?) a seus realizadores galgar posições na única escala possível na sociedade formalizada? A ideologia tende a se generalizar, a hegemonia é cada vez mais avassaladora: não há alternativa fora dessa lógica; a saída, portanto é conformar-se a ela e tentar obter sucesso na empreitada particular da acumulação de riqueza e de direitos.
A conseqüência dessa planificação no nível da consciência produz um discurso que tão bem nós conhecemos e pudemos experimentar em nosso próprio quintal. A depauperação do terceiro mundo não é mais um produto obrigatório da organização estrutural do capitalismo mundial; pelo contrário, é atribuída à falta de capitalismo, de “civilização”, de “modernidade”. Tragam o estado de direito, tragam a estabilidade democrática, tragam a racionalização produtiva em larga escala, tragam a tecnologia e tereis uma sociedade emancipada! Abram os mercados, privatizem as empresas, estimulem a concorrência: injetem capitalismo! O não funcionamento crônico das nações marginais não são fruto do processo espoliatório a que elas foram submetidas, nem da inadaptabilidade das instituições formalizadas frente a realidades histórico-culturais arqui-complexas; antes, defluem de sua incapacidade cultural de fazer valer o bom funcionamento dessas formas institucionais, mormente o capitalismo de mercado e a democracia liberal.
A disseminação indiscriminada da lógica do dinheiro e da dominação tende, pois, a neutralizar todas as negatividades, tudo o que apontaria para uma saída fora do sistema. Ele “cobre” qualquer proposta! O que se pode, assim, oferecer como uma outra existência possível? O pensamento único que tudo traga impede a transcendência não só do pensamento crítico, mas também dos desejos, sonhos, aspirações. Vale dizer: por que sonhar com uma distante sociedade justa se eu posso sonhar com a minha menos distante roupa de grife? Não preciso mudar o mundo para tê-la; pelo contrário, devo mais e mais me conformar às suas regras, para que obtenha o maior grau de eficiência dentro da proposta do sistema (acumular riqueza). Quando o desejo e o sonho também estão conformados a um grau adequado de previsibilidade (só posso desejar o que me é oferecido para tanto; jamais posso ser construtor do meu próprio sonho, do meu próprio desejo), devidamente formalizados pelas regras do mercado, negar os fundamentos do sistema é, aos seus olhos, também negar os sonhos e objetos de desejo que ele oferece. E se nada mais há além de suas fronteiras, seremos inevitavelmente acusados de negar a própria faculdade de desejar.
Dominação e formalização
Pudemos até o presente momento estabelecer as limitações do pensamento conservador no tocante à superação dos elementos negativos de uma determinada forma de organização da vida social que não sejam decorrentes exclusivamente de problemas de gestão adequada dos modelos, mas que sejam geradas pela própria estrutura dessas formas organizativas, como a questão do empobrecimento progressivo do proletariado nas formas primeiras do capitalismo industrial ou a da perda da liberdade individual nos países de experiência socialista. Advogamos a necessidade da crítica dialética que questione radicalmente, sem pruridos intelectuais, o próprio estatuto, legitimidade e limitações dessas estruturas sociais.
Cabe perguntar, nesta hora, por quê, ante a evidência do estado de degeneração social que se observa na esmagadora maior parte das sociedades humanas modernas, é tão difícil ao senso comum de nosso tempo, primeiro, aceitar que essas mazelas possam derivar das próprias estruturas da organização social; e, em, conseqüência, admitir a necessidade de uma negação radical das mesmas. Em outras palavras, por que o pensamento conservador é hegemônico.
Há que se ter em mente, o fato lógico anteriormente apontado de que um ideal que foi revolucionário se passa a conservador tão logo a revolução preconizada se consume. Isso sempre se dará quando não se tratar de uma procura incessante por formas mais elevadas de existência (função do pensamento crítico), mas tão somente uma negação específca de determinadas estruturas particularmente contrárias aos interesses/exigências dos agentes revolucionários (trate-se da burguesia pré-industrial do século XVIII ou o Partido Bolchevique) que, ipso facto, passam a hegemônicos. Principia, a partir de então, como Marx tão bem caracteriza na Ideologia Alemã, o desenrolar de um processo fortemente ideológico de transformação do que era interesse particular de um determinado grupo em interesse geral, sem o quê, por óbvio, a hegemonia das novas formas organizativas não conseguiria se impor ante a uma maioria que permanecesse indefinidamente preterida, excluída, alijada, tendendo ao saudosismo das antigas formas abolidas.
Ora, no princípio da era capitalista, a filosofia política tratou de cumprir esse papel retratando um mundo antigo (ainda que hipotético ou mítico) de selvagerias e guerras e fome e doenças contrastado com o reino da liberdade e da segurança sob o contrato social. Um esforço muitíssimo bem engendrado para dar o nome de liberdade à submissão voluntária à ordem do estado, que passa por autores tão apartados em idéias e posturas como Hobbes, Rousseau, Kant ou Hegel. Paulatinamente foram se incorporando ao discurso oficial da ordem estatal-capitalista da modernidade as idéias de ordem, previsibilidade, padronização em oposição à barbárie desordenada de um mítico estado natural. Não é de outro modo que opera a ciência iluminista, procurando leis para descrever os fenômenos, prever os eventos futuros, com o intuito de dominá-los. Tanto na ordem jurídica como nas ciências naturais, a previsibilidade, o comportamento esperado, o estabelecimento de respostas-padrão, do sistema e dos indivíduos, são fortemente estimulados. Quanto mais passíveis de serem ordenados pelo sujeito cognoscente, que exerce o poder tanto sobre a natureza quanto sobre as forças sociais, mais garantida é a dominação.
Falar em dominação é falar em segurança. Falar em segurança é falar em dominação. É necessário que se domine a rebeldia, a imprevisão, a insubordinação para que eu tenha uma ordem jurídica e econômica estáveis. Não posso produzir se não estiver dominada a sanha expropriatória do soberano, a mutabilidade das leis de tributação e comércio. Não exercerei verdadeiro domínio sobre minha propriedade acumulada, se não puder estar seguro contra os salteadores e esbulhadores. Segurança e dominação. Dominação e segurança, presididas por um caráter francamente utilitarista (voltado para finalidades, para a eficiência). Não posso estar seguro sobre os resultados do meu experimento– e portanto, não poderei prever o comportamento dos fenômenos similares no futuro – se não for garantido que segui todos os procedimentos de antemão estabelecidos pela ortopraxia acadêmico-científica.
Porque simplesmente não é possível para que a produção de bens no âmbito do mercado se dê de maneira eficiente as regras do jogo poderem ser alteradas a todo momento, ao bel prazer de quem quer que seja (nem mesmo serão regras...). Nem é possível obter-se um adequado controle (padronização) sobre os comportamentos sociais se não houver regras postas de antemão que prevejam hipóteses abstratas e as correspondentes conseqüências: se não pagou a dívida, será executado; se cometeu um delito, irá para a cadeia. É desejável que sempre mais se possa ter um pequeno grau de variabilidade entre uma ação social-econômica e sua conseqüência. A dominação, seja no âmbito dos fenômenos naturais, seja no controle social, enseja, claramente, a padronização e formalização dos procedimentos tendentes a buscar as respostas do objeto a ser conhecido/dominado. Sujeito dominante e objeto dominado devidamente apartados, mediados por uma interface formalizada que garanta um grau mínimo de variabilidade, independentemente dos conteúdos materiais. A legitimação, no direito ou na ciência, vem da correção procedimental (formal): as regras de conduta são pré-definidas e só a sua fiel observância legitima tanto a ação social (princípio da anterioridade da norma jurídica ao fato) como o procedimento científico (método). Regras que possam ser constantemente rediscutidas não são regras!
Positividade e totalitarismo
Ora, o transcorrer do século XX mudou bastante a cara da ordem capitalista mundial. Contrariamente às análises econômicas do último Marx, as contradições do capitalismo industrial liberal não puseram termo a essa forma organizativa da sociedade do ponto de vista estrutural, baseada na apropriação privada da riqueza. Ao contrário, o capitalismo mostrou uma notável habilidade em absorver suas próprias contradições, digerí-las em seu pantagruélico ventre e vomitá-las em forma de positividades devidamente “amansadas”. A face mais evidente dessa capacidade diz respeito ao próprio proletariado, alçado de encarnação da negatividade essencial a denunciar a crueldade de um sistema de acumulação da riqueza, no âmbito do capitalismo industrial do século XIX, a “exemplo” de como as “correções necessárias” podem permitir que os benefícios do sistema se estendam também à classe detentora da força de trabalho: o estado providente de bem-estar. O grande agente da revolução anti-capitalista é “amansado” a partir da distributividade falaciosa dos benefícios da rede de proteção social.
Na sanha de tudo submeter, de universalizar a dominação e de neutralizar todas as resistências, o sistema estende seus tentáculos para muito além da organização econômica, política e na produção do conhecimento. Porque dominação pede, exige e se apraz com cada vez mais dominação. É de sua essência mais intrínseca, por lógica, que seu aperfeiçoamento implique na sua universalização: quanto menos resistência, mais eficiente; quanto mais universal, mais efetiva. A lógica da padronização, então, aliada à da acumulação de riqueza, coloniza todas as esferas da vida humana, traga todas as formas de existência, todas as manifestações do espírito e do engenho humano e mostra como pode tudo conformar a si própria. Qualquer resquício de espontaneidade (leia-se: de respostas não previsíveis), gratuidade (ações não voltadas para fins), formas de sociabilidade estabelecidas sobre um outro padrão que não o dos interesses formalmente mediados (vale dizer, mediados pelas formas privilegiadas de equivalência universal: o dinheiro e o “sujeito de direitos”) ou da conformação às regras procedimentais previamente estabelecidas, o sistema tratará de tragar para dentro do buraco negro. Ante qualquer forma alternativa de existência, o sistema sempre faz a sua oferta: dinheiro, equivalência, planificação, massificação. Por que fazer um carnaval de esmolambados sambando pelo simples prazer da diversão e da arte (espontâneo, gratuito), se é possível um mega-espetáculo que será vendido para os quatro cantos do mundo e possibilitará (?) a seus realizadores galgar posições na única escala possível na sociedade formalizada? A ideologia tende a se generalizar, a hegemonia é cada vez mais avassaladora: não há alternativa fora dessa lógica; a saída, portanto é conformar-se a ela e tentar obter sucesso na empreitada particular da acumulação de riqueza e de direitos.
A conseqüência dessa planificação no nível da consciência produz um discurso que tão bem nós conhecemos e pudemos experimentar em nosso próprio quintal. A depauperação do terceiro mundo não é mais um produto obrigatório da organização estrutural do capitalismo mundial; pelo contrário, é atribuída à falta de capitalismo, de “civilização”, de “modernidade”. Tragam o estado de direito, tragam a estabilidade democrática, tragam a racionalização produtiva em larga escala, tragam a tecnologia e tereis uma sociedade emancipada! Abram os mercados, privatizem as empresas, estimulem a concorrência: injetem capitalismo! O não funcionamento crônico das nações marginais não são fruto do processo espoliatório a que elas foram submetidas, nem da inadaptabilidade das instituições formalizadas frente a realidades histórico-culturais arqui-complexas; antes, defluem de sua incapacidade cultural de fazer valer o bom funcionamento dessas formas institucionais, mormente o capitalismo de mercado e a democracia liberal.
A disseminação indiscriminada da lógica do dinheiro e da dominação tende, pois, a neutralizar todas as negatividades, tudo o que apontaria para uma saída fora do sistema. Ele “cobre” qualquer proposta! O que se pode, assim, oferecer como uma outra existência possível? O pensamento único que tudo traga impede a transcendência não só do pensamento crítico, mas também dos desejos, sonhos, aspirações. Vale dizer: por que sonhar com uma distante sociedade justa se eu posso sonhar com a minha menos distante roupa de grife? Não preciso mudar o mundo para tê-la; pelo contrário, devo mais e mais me conformar às suas regras, para que obtenha o maior grau de eficiência dentro da proposta do sistema (acumular riqueza). Quando o desejo e o sonho também estão conformados a um grau adequado de previsibilidade (só posso desejar o que me é oferecido para tanto; jamais posso ser construtor do meu próprio sonho, do meu próprio desejo), devidamente formalizados pelas regras do mercado, negar os fundamentos do sistema é, aos seus olhos, também negar os sonhos e objetos de desejo que ele oferece. E se nada mais há além de suas fronteiras, seremos inevitavelmente acusados de negar a própria faculdade de desejar.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Eternidade I
E esse tudo em mim se fará outro
condensado o que já não pode mais ser sem
Inconcebida a ausência de si próprio.
Caminhos devenientes ao infinito
à sombra do adeus que a si mesma devora
Esguicham saudades das frestas entre átimos
Incompreensão necessária da distância irreal,
Absurdo em essência recendente de entrega
incondicional das aspirações de algum ser
Jorra pra fora esse teu grito de pertença
Acende ao mundo a negação do teu fim!
Clama por Aquela que te faz existir
na completa confusão das telas sob os olhares,
entregue o espírito à certeza de restar:
Pari-me, ó Mãe das minhas negações
Em ti – só em ti... – reconheço o que resiste
sobre os derretimentos dos meus nadas
Pódio reluzente da minha pobre deidade,
custódia da salvação que em mim opero
Clareia o entorno onde não estou
tragado p’ras entranhas de tua presença
a encampar minha pequenez observante
Embriagada.
Devota.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Sob as bençãos do Gigante Negro
Não costumo fazer deste espaço, senão quando a excepcionalidade das circunstâncias o exigem, um lugar de trombetização pública das minhas peripécias pelos caminhos menos virtuais da existência. Em tempos de panóptico, sou mais da turma do owo. E tanto a malandragem como as lições das artes bélicas sempre me ensinaram que em trincheira não se coloca outdoor.
Quero apenas registrar, pois, à guiza de homenagem e agradecimento o que foi a presença desta verdadeira entidade do samba brasileiro entre nós nesta última sexta-feira, primeira função desta nova temporada que pretende reviver belos encontros de samba vividos pelos Inimigos do Batente na Barra Funda, berço da resistência popular na cidade de São Paulo. Todos os que lá estivemos - entre os quais gente que o conhece há décadas, como meus amigos Nézio Simões e Gilda - fomos unânimes em reconhecer: nunca "seu" Wilson Moreira contou tanta história! Tamanhamente esteve à vontade, de tal forma parecia integrado a nós, ao lugar, ao público, que no dia seguinte nossa sensação é a de ele que tivesse, de repente, chegado à casa dos filhos, e com a família toda reunida, netaiada correndo no meio da gente, começasse a nos transmitir um legado. As histórias que ali se ouviu certamente um dia completarão o mosaico dessa página maiúscula da História do samba escrita pelo Gigante de Realengo.
Tudo o que se disser a respeito de Wilson Moreira sempre será pouco. Como descrever a presença de um homem que reúne a plenitude de aspectos por vezes tão difíceis de conciliar como a força e a doçura, a grandeza e a humildade, a genialidade e o despojamento, a altivez e a simplicidade? O que dizer de sua beleza negra, da mansidão que vem de profunda sabedoria da vida, de sua paternal majestade, de sua generosidade sem limites? Não há palavras.
Só nos resta, pois, dizer obrigado. Pelo reconhecimento e pela benção ao nosso trabalho modesto, mas esforçado, levando a diante, com tantos outros companheiros, a bandeira do samba brasileiro. Pelo privilégio de nos fazer depositários de tantas histórias, de tantas lições de vida, de sabedoria e de samba. Mas sobretudo pela alegria de podermos desfrutar, por algumas horas que fosse, da sua presença que é força, é vida, é inspiração.
E um começo desses só faz aumentar a responsabilidade em relação à continuidade dessa idéia. A partir de junho, toda última sexta-feira do mês Anhangüera dá samba! Com as bençãos do padrinho Wilson Moreira!
Axé, Alicate!
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Como se fora um coração postiço
Rubem Braga
Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um Dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”
Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:
-... a hora em que os bares fecham e todas as vitudes se negam....
Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos, borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Os olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém jamais nunca contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.
Seis horas. O coração fora do peito bae docemente. Sete horas – o coração bate... Oito horas – que sol claro, que barulho na rua! - o coração bate...
Nove horas – morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: "Filho de pais alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: "o Dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:
- Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...
Os anjinhos todos do limbo perguntaram:
- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?
O anjinho respondeu:
- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.
Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:
- E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. E quando eu nasci, o Dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente, são assim como o Dr. Mereje.
Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, Dr. Mereje!
in O conde e o passarinho, Rio de Janeiro: Record, 1982, pp 9-12
Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um Dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”
Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:
-... a hora em que os bares fecham e todas as vitudes se negam....
Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos, borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Os olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém jamais nunca contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.
Seis horas. O coração fora do peito bae docemente. Sete horas – o coração bate... Oito horas – que sol claro, que barulho na rua! - o coração bate...
Nove horas – morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: "Filho de pais alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: "o Dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:
- Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...
Os anjinhos todos do limbo perguntaram:
- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?
O anjinho respondeu:
- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.
Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:
- E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. E quando eu nasci, o Dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente, são assim como o Dr. Mereje.
Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, Dr. Mereje!
in O conde e o passarinho, Rio de Janeiro: Record, 1982, pp 9-12
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Leonor
Itamar Assumpção
Devagar com esse andor, Leonor
Casamento é muito caro
Eu sou compositor, cantor
Também sou autor
Falo mais de flor do que dor, Leonor
Mas não sou Roberto Carlos
Não tenho carro de boi, Leonor
Nem outro tipo de carro
Meu cachê é um horror, Leonor
Não sobra nem pro cigarro
(não tenho nem gravador!)
Não tenho nem gravador, Leonor
Meu São Benedito é de barro
Meu menu é feijão com arroz,
Que divido com mais dois, Leonor
Quando não falta trabalho
Viver somente de amor, Leonor
É tão lindo quanto precário
Tem que morar de favor, Leonor
Lá no bairro do Calvário
(o que eu tinha de valor...)
O que eu tinha de valor, Leonor
Dois gatos, três agasalhos
Cachecol de lã
Gibis do Tarzan
Gibis de terror, cobertor
Quatro jogos de baralho
Um macacão furta-cor, Leonor
Uma colcha de retalhos
O que não tá no penhor, Leonor
Foi pra casa do Carvalho
(devagar com esse andor!)
Devagar com esse andor, Leonor
Casamento é muito caro
Eu sou compositor, cantor
Também sou autor
Falo mais de flor do que dor, Leonor
Mas não sou Roberto Carlos
Não tenho carro de boi, Leonor
Nem outro tipo de carro
Meu cachê é um horror, Leonor
Não sobra nem pro cigarro
(não tenho nem gravador!)
Não tenho nem gravador, Leonor
Meu São Benedito é de barro
Meu menu é feijão com arroz,
Que divido com mais dois, Leonor
Quando não falta trabalho
Viver somente de amor, Leonor
É tão lindo quanto precário
Tem que morar de favor, Leonor
Lá no bairro do Calvário
(o que eu tinha de valor...)
O que eu tinha de valor, Leonor
Dois gatos, três agasalhos
Cachecol de lã
Gibis do Tarzan
Gibis de terror, cobertor
Quatro jogos de baralho
Um macacão furta-cor, Leonor
Uma colcha de retalhos
O que não tá no penhor, Leonor
Foi pra casa do Carvalho
(devagar com esse andor!)
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Mosaico
Quarenta dias após a entrada em vigor da lei “Cara-limpa, bunda-suja”, de autoria do nosso iluminado burgomestre, cujo lema de “governo” (risos incontinentes) está na boca do povão (“silêncio pouco, meu chilique primeiro”), a imagem da cidade é a esperada. Os quitandeiros, açougueiros de bairro, barbeiros, donos de butiquins e mercadinhos tiveram que dar seu jeito e sumir com as placas alusivas a suas atividades comerciais, ofensivas aos olhos sensíveis do povo paulistano, sabidamente cultor da beleza e do equilíbrio estético – vide cartões postais da cidade como a Av. Paulista, o Minhocão do Tio Salim, a Av. do Estado pós-canalização do Tamanduateí e as obras-primas da arquitetura nas quais a nossa classe média faz questão de se empoleirar. Alguns até, demonstrando perfeita sintonia com a clareza de propósitos da legislação municipal, jogaram lonas pretas sobre seus estandartes publicitários, fazendo do ruim pior. Outros, de melhor gosto, como a padaria pertinho de casa, retiraram os toldos, placas e luminosos, deixando à mostra a beleza da fachada característica dos sobradões lapeanos do começo do século passado. Só que quem viu, viu. Dois dias depois, órfãos de uma certa exuberância visual, cobriram os frontais, de alto a baixo, de um mosaico de lajotinhas brancas e cor-de-abóbora da mais ordinária procedência. Enquanto isso, na sala de justiça, os postos de gasolina, bancos, grandes supermercados etc. continuam reafirmando por quarteirões inteiros, mais do que suas logomarcas, sua condição senhorial sobre esta terra de (quase) ninguém.
***
Os jornais estamparam esta semana as cores sombrias e degradantes de mais uma chacina na cidade de São Paulo, aqui pertinho, no Jaraguá, lugar de muitos quintais amigos há tempos. Sete jovens, o mais velho com 22 ou 23 anos, assassinados em praça pública, com requintes de perversidade e violência. Até aí, a gente vai sentindo mais uma punhalada dessa seqüência aparentemente interminável que sabemos nos há de matar, só restando esperar a hora em que vá parar de doer. A pérola da vez coube ao delegado responsável pela circunscrição onde ocorreu o crime. A “otoridade” (sem risos) disse, sem pudor, sem tentar disfarçar, como em outros tempos, que se trata de “briga de vagabundos”. Questionado sobre o fato de nenhuma das vítimas ter passagens policiais, ou sequer ser apontada por testemunhas ou informantes policiais como envolvida em atividades criminosas, o gênio da raça retruca ao repórter: “Você também não tem passagem pela polícia; não é por isso que não pode matar ninguém”, ou coisa que o valha, porque eu acabei de comer e não estou com vontade de abrir o jornal pra conferir. Como se a essa “pessoa” fosse dado emitir alguma opinião pessoal sobre o caráter do que deveria ser, numa civilização, tratado como tragédia. Como se a suposta condição de qualquer das vítimas tivesse um mínimo de relevância sobre a dimensão social e, sobretudo, jurídica do ocorrido e sobre seu conseqüente dever como agente público. Agora, só não sei é como explicar a um amigo suíço que o governador (risos amarelos) José Banana-de-Pijama Serra faz ouvidos de mercador e não toma absolutamente nenhuma providência em relação ao seu subordinado - pra não dizer preposto -, mais ocupado, certamente, em entronizar no posto máximo da emissora de televisão paulista a expressão privilegiada do chapa-branquismo tucano travestida de jornalista. Aquele a quem a querida Railídia, numa noite perdida de um buteco que ainda finge que existe, impediu que eu e Marcão Gramegna, bêbados como porcos, ministrássemos algumas lições de “convivência democrática” que meu avô austríaco me repassara, aprendidas de um velho lutador de circo.
***
A visita do Papa Bento XVI ao Brasil certamente nos possibilitaria reflexões de variadíssimas ordens, a grande maioria das quais incompatíveis com o caráter deste espaço. Só umazinha me permito compartilhar aqui: a desnudação impudica da indigência intelectual/cultural da grande imprensa brasileira. Porque se a completa falta de preparo e de compromisso com qualquer coisa que não seja o óbvio ululante (estou hoje sentindo prazer especial em abusar das expressões condenadas pelos manuais de redação, esses monumentos à cristalização das arbitrariedades irrefletidas, nome completo da burrice) nos é atirada à cara todos os dias, quando se está diante de qualquer fato cuja complexidade supere minimamente as análises futebolísticas ou as metáforas do magistrado supremo da nação, a disparidade chega às raias do intolerável. Veja-se o exemplo da nossa gloriosa Folha de S. Paulo a pobre menina rica dessa disnastia oriunda da pior combinação entre o servilismo, o favorecimento oficial e a padronização ideológica que campeou nos meios jornalísticos durante todo o século XX, representada por um time cuja braçadeira está atualmente nas mangas de um Clóvis Rossi da vida, aquele que domina com maestria inigualável a arte de não dizer absolutamente nada hoje e o inverso (veja-se que inverso não é contrário...) daqui algum tempo. Incompetente para tecer qualquer análise minimamente relevante do fenômeno reportado, perde-se pateticamente em carnavalizações de frases esparsas aqui e ali, venham elas do próprio pontífice, do presidente da República ou do monsenhor responsável pelo engraxamento dos sapatos escarlates de Sua Santidade; chegando, em sua sanha de explicar o que não precisa ou não deve ser explicado, onde nenhum homem jamais esteve. É de se guardar o quadrinho explicativo da edição de hoje sobre os trajes papais. Só faltaram, mesmo, os comentários do costureiro larápio, pra saber se o alemão está in ou out.
***
A melancólica eliminação do time do Flamengo da Copa Libertadores dá a dimensão simbólica que faltava a algo que por si só sempre foi de uma evidência acaciana: a completa insignificância do campeonato estadual do Rio de Janeiro. Que de resto, diga-se de passagem, não difere substancialmente da banalidade dos outros vinte e sete que se espremem país afora nos primeiros meses do ano, como consolo para a enorme massa de times alijados das três divisões do campeonato nacional. Só não vê quem não quer, e acho bem bom, até, não querer. A comemoração de domingo é justíssima, válida, legítima e todas as outras adjetivações que estou com preguiça de procurar, jamais discutirei, bem como o aborrecimento dos vencidos. Acho, inclusive, invejável como os queridos amigos do Rio se relançam a paixões que julgava eu fossilizadas, mas se prova estarem até recentemente apenas em estado cataléptico. E é só a isso que se presta o derreado torneio, é o que procuro aqui firmar, um campeonato de três times, com a melhor das boas vontades. Aos botafoguenses restando, pois, segundo a interpretação otimista ou pessimista que leva a reputar-se o mesmo copo meio cheio ou meio vazio, comemorar o vice-campeonato, ou lamentar a penúltima colocação.
sexta-feira, 4 de maio de 2007
No elo Noël
Eu ia deixar passar. Sabia que fariam melhor que eu. Mas o texto do meu amigo Luiz Antonio Simas inspirou-me a um pitaco rápido pelos setenta anos completos que o nosso querido Poeta da Vila foi morar no Orun.
Noel foi um homem de seu lugar e de seu tempo. Não é preciso dizer do quanto ele incorporou do espírito coletivo da cidade do Rio de Janeiro e como soube, como pouquíssimos mais, transformar tudo em arte. Arte que cumpre a tarefa fundamental de ritualmente colocar em relevo e possibilitar a celebração do que, de outro modo, ficaria perdido no turbilhão quotidiano que tudo traga. Mas foi fundamentalmente um homem de seu tempo, um tempo de transformação dos traços remanescentes da organização colonial da sociedade brasileira rumo à tão propalada "modernização". Entendendo e dominando a incipiente linguagem de massa então representada pelo disco e pelo rádio, sua personalidade despida dos preconceitos típicos da elite e dos estratos médios brasileiros, dada à comunicação e ao encontro, pôde ir ao encontro das fontes mais populares de nossa cultura musical. Com sensibilidade para perceber seu papel de “ponte” e a generosidade - que tanto outros não tiveram – para não simplesmente se apropriar do que colhia, foi figura fundamental para a consolidação de uma forma de samba que seria predominante nos meios de comunicação a partir de então. Percebendo que a forma dominante do samba então feito nos morros e demais redutos de compositores - compostos primordialmente para a roda, só com refrão, para que os versos fossem tirados na hora de improviso – não se adequava a um produto destinado à comercialização, demandando a fixação de sua forma definitiva, especializou-se em escrever as chamadas segundas partes para tantos sambas de compositores ditos “do morro”, como Ismael, Cartola, Canuto, entre outros. Assim, possibilitava que o samba brotado dessas fontes chegassem aos ouvidos do grande público, preservada a identidade de seus compositores e superada a diluição da identidade criadora que sempre caracterizou as formas tradicionais da criação popular.
Que Noël esteja conosco, em nossos sambas, em nossos bares, neste final de semana e sempre, e nos possa ajudar a entender que a nossa missão não é mais do que isso: sintonizados com o nosso tempo, fazermos a ponte entre o que nos foi legado e o que a nós sobreviverá. Porque tudo estará perdido no dia em que um elo da cadeia se romper completamente. Que nos ajude, enfim, a entender, de uma vez por todas, a despeito de todos os hermanos vianas que teimam em nos confundir, que a originalidade da forma brasileira de estar e agir no mundo não está em outro lugar senão nessa privilegiada capacidade de promover dialeticamente o encontro e a comunicação (em seu mais forte sentido), a integração e a preservação, a criação e a continuidade. E que tudo mais não passa dos frutos abençoados desse ventre generoso.
E com a vossa licença, vou ali tomar uma gelada na Visconde de Abaeté, camisa aberta, ventre livre, chinelo nos pés, por entre as notas das calçadas musicais, assobiando “Vila Isabel veste luto...”
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Fernando para Otto*
Rio, 4 de Agosto de 1957.
Otto,
Confesso que sua carta me deixou meio irritado. Como você, talvez eu também esteja deprimido, e, por motivos óbvios – depressão esta cuja existência não lhe pode ocorrer, absorvido que você anda sempre com a sua própria. E os assuntos que você aborda são delicados – mais delicados que sua maneira de abordá-los. Em todo caso, vou tentar responder.
Me desculpe, mas não posso concordar com você em que deus seja apenas “Justiça Punitiva” e que “todo o sentimento de compaixão, de compassividade, de compreensão” seja “puramente demoníaco”. Evidente que eu sei o que você quer dizer, e é verdade que o Deus bonzinho, o Deus camarada, não existe. E eu não estou apelando para Ele, conforme você quis dizer. Nossa concepção da Justiça Divina difere muito, e creio neste ponto que estou mais próximo dos Evangelhos que você.
Para mim, Deus não funciona apenas no sentido negativo, “você vá para o diabo” - “você pode entrar”, porque “você fez o diabo” - e “você não fez nada”. Aí não pode escapar mais da parábola do publicano e do fariseuu – ainda que não façamos dela uma desculpa: não podemos escapar.
Quero dizer o seguinte: para mim, Deus não se limita a mandar para o diabo os que transgrediram a lei e a deixar entrar os que a respeitaram. Há algo mais: há a prática do bem, há o exercício deliberado da virtude – exercício voluntário, macerado e cheio de sacrifícios (e de aparentes contradições, que desencadeiam a contradição alheia). Assim: o critério de julgamento não será apenas negativo, condenando os que praticaram o mal e salvando os que não praticaram. Será afirmativo, pedindo algo mais: a prática do bem – que inclui, por exemplo, não julgar para não ser julgado; e isso é compaixão, compassividade, compreensão. Deus pode não tê-las, no sentido humano da palavra, mas exige que você tenha, por exemplo, para com meus problemas. (O que você, se tem, nunca demonstrou.) E isso exige amor – aqui chegamos na maior das vurtudes, que é a caridade. A que faltou ao fariseu para com o publicano e por isso esse saiu justificado, aquele não. O fariseu não era virtuoso? Não cumpria rigorosamente os mandamentos? E o publicano não era um bandalho que nem tinha coragem de entrar na igreja? Sem esse critério afirmativo que informa o julgamento de Deus, como você explica isso? E o Evangelho de hoje, oitavo domingo depois de Pentecostes? Eu também não explico, mas a minha intransigência para comigo eu não estendo aos outros, privando-os de compassividade, compaixão, compreensão. Quem sou eu para dizer como Deus deve admitir ou expulsar aqueles que vão bater à Sua porta?
E veja a incoerência: preocupado demais em saber como o diabo procede e com suas artimanhas, se esquece que não basta escapar dele para entrar no céu. Você, dentro de sua vida arrumadinha aí em Bruxelas, junto de sua mulher e seus filhos, cercado de conforto espiritual de uma vida realizada e defendida do demônio, passa a ver a presença dele nos outros, como um meirinho anunciando a chegada do Grande Inquisidor. Mas só porque um crítico escreve contra o seu livro, imediatamente você o ofende, insulta, despeja sobre ele os mais indecentes xingamentos. (Neste particular eu não poderia estar com você, porque o Wilson Martins escreveu um excelente artigo sobre o meu livro... Sou suspeito, e eu não li o que ele escreveu sobre o seu.) Na minha opinião, a sua reação é muito pouco canônica, para quem se dispõe a anunciar a presença do demônio na vida dos outros.
Sejamos mais objetivos (coisa que você não foi): a que, exatamente, você se refere? Fala que lhe escreveram dizendo que eu “assento planos de estabelecer-me em bases novas, renunciando a todo o meu passado, corando quem sabe as amarras com o FS de até aqui” etc. E pergunta: “Será possível, fora do chamado caminho cristão, inventar um homem novo, tão novinho em folha?”
Para princípio de conversa, quem é esse missivista? Se eu tiver de “assentar planos” de alguma coisa, como ele diz, pode ficar tranqüilo que serei o primeiro a lhe comunicar. Se bem que não sei a que vem essa alusão. Ao meu desquite? Quanto a isso, não há nada que você não saiba, isto é, que a despeito de todo o me esforço para evitá-lo, tive de me conformar e ele está em vias de solução amigável, na medida do possível, dentro da cordata e bem sucedida solução. Tudo mais sobre esse assunto, não creio que você seja a pessoa mais indicada para julgá-lo, só agora se preocupando. E depois de um silência seu de dois anos, na espera em fiquei de uma palavra sua, sobre o que você diretamente já sabia que era o meu problema. O quê, agora? Aminha nova relação? Também não entendo bem a sua competência para me falar na “justiça punitiva de Deus” quanto a este assunto. Na próxima carta seja mais explícito. Não sei se nesse pretenso “estabelecimento de novas bases, etc.” parar a minha vida a que você se refere, e que de resto não existe, você está se referindo a isso. Se estiver, é estranhável também, não tendo você nunca demonstrado interesse pela gravidade que o problema representa para mim, como fizeram o Hélio, o Marco Aurélio Mattos, o Castejon Branco e outros amigos. E o problema é o mesmo cuja existência você já sabe, não havendo perspectiva de mudança.
Mais o quê? Meus filhos? Mas se você próprio reconhece que nunca se ineressou por eles senão à distância, genericamente, “na repercussão que tudo isso pode ter na vida deles”, “as crianças são muito sensíveis”, etc. (e nem ao menos se lembra que é padrinho de um deles), não tendo nunca manifestado um interesse mais direto em relação a eles.
Resta o cartório: quanto a este, é verdade que me demiti. Mas esse ponto você também já tinha conhecimento, pois há muitos anos eu lhe dizia que tinha a intenção de deixá-lo assim que tivesse ocasião – e a ocasião chegou. Como você vê, não “assentei plano” nenhum que você não soubesse. Resumindo: o desquite já era de seu conhecimento, minha nova relação passou a ser. A situação de meus filhos também. Porque de súbito, aí de Bruxelas, você se põe a me ameaçar com o demônio de maneira tão furibunda? Minha vida continua a mesma. Não é verdade que eu “ando sumido” (tenho ido ao Pelicano toda santa noite) nem que “não queira ver ninguém”, ou que esteja entregue à “renovação de minha vida”. Você anda mal informado. Não há renovação nenhuma, senão aquela em que sempre me empenhei, e que por fraqueza tenho colhido tão poucos resultados. Fraqueza que você não leva em conta nos que confiam na Misericórdia Divina, mas que Deus talvez leve – na minha suspeita opinião, pelo menos.
Mudando de assunto, fiquei satisfeito de saber que vocês estão devidamente instalados – e que você já comprou cigarros. Aqui corriam notícias, via Ibrahim Sued, de que você estava desgostoso em Bruxelas. Cheguei a pensar em escrever uma peça chamada “OTTO DESGOSTOSO EM BRUXELAS”. Por falar nisso, estou escrevendo uma peça divertissement. (En passant: sua máquina está precisando de uma fita nova. E quando fechar o envelope, cuidado para não colar o papel, de si já meio ordinário, e azul, como a cor da fita.)
Nosso tempo é evidente que acabou. Mas quando você voltar encontrará tudo no mesmo, ou tudo mudado – como no fundo é a triste realidade dos que voltam. Você voltará.
Afinal, ficou amigão do nosso bonzo Juarez Távora? Crises e mais crises – mas de política, mesmo, aqui não há novidade: tudo na mesma. Hoje é dia 4 de agosto, passei por acaso na Rua Toneleros, rezei uma Ave-Maria pelo major Vaz, que morreu mesmo, você lembra? E continua morto. Fui convidado para dirigir a Revista da Semana, não aceitei, indiquei o Ferreira Gullar para secretário, não agüentou o puxado uma semana, saiu. O Diário Carioca em nova fase, Rosário Fusco de crítico. Livro do Dalton Trevisan aqui comigo para entrega definitiva à editora, contos definitivos. Melhorou pra burro, selecionou, cortou, ajeitou. Não me lembro o que te falei sobre o teu “Boca do Inferno”, mas escreva romance. Encontrei Padre Agnaldo no Mosteiro de São Bento (todos lá perguntam muito por você, leram seu livro, Dom Basílio especialmente, Dom Marcos, Dom Justino, comentários apaixonados). Disse (P. Agnaldo) que seu pai ficou arrasado com o Boca, “logo o meu filho, um educador! Que concepção de infância!” Mas ele acabou gostando.
Vou escrever mais a você, serei mais noticioso. E pare com esse negóciod e demônio, que diabo! Depois de “La Part du Diable” do Denis de Rougemon, você não leu mais livro nenhum: “Tudo é o DEMÔNIO...” Não vem com essa! Tudo é Deus, seu capeta. O resto é que é o demônio – que não é nada, ou seja: é o NADA.
Otto, pelo amor de Deus, pense mais em Deus e menos no demônio. Saber que ele existe é tão pouco, melhor que não soubesse. Além das palavras rituais do batismo, sugiro o Sermão da Montanha.
E voltado ao assunto inicial, já tendo passado a minha irritação: não se preocupe, que não se mudou nada de fundamental em mim. Continuo o mesmo, tentando acabar com meus problemas, antes que eles acabem comigo. Você não me ajuda em nada, me ameaçando com a danação eterna. Ajudaria mais tentando entender minhas aflições e não projetando nelas as suas próprias. Afinal de contas, D. Marcos entende mais de demônio do que você, e não me falou nele nenhuma vez. Falou em Deus, que é palavra boa de se ouvir. Mas não um Deus que manda os outros para o diabo, que diz “misericórdia divina uma ova!” Outro Deus, aquele verdadeiro, que não abandona aqueles que não O abandonam. Eu não O abandono.
O livro das “Nove histórias em grupo de três” do Autran é realmente Dourado, ou seja, como se esperava muito bom, tem duas ou três histórias de primeira ordem. Falar nisso, chegou a ver o artigo do Tristão sobre meu livro? Cita você e o Hélio Pellegrini. Tenho estado com ele (Pellegrini), mas não no tom Juiz x Réu que você preconiza. Gostaria que seu tom fosse outro: “Me dê notícias suas. Como vai Elianinha? Já ficou mocinha? Não diga! É ótimo que você dê tanta assistência a ela, se mostre sempre participante, compreensivo, converse sempre com ela... E o desquite? É, realmente essas coisas são chatas, mas com a ajuda de Deus tudo há de terminar bem, você fez o que pôde, não fez? Ou quem sabe se pode fazer ainda alguma coisa? Em que eu posso te ajudar? Enfim, você não é nenhum louco, não está precisando de mim ocmo psiquiatra, deve ter lá suas razões, você sabe o que faz... E sua vida, sua literatura, sua solidão? Seu livro foi bem sucedido, agora é preciso partir para outro. Vai com calma, que a coisa vem. Enquanto isso você vai ganhando a vida com suas crônicas e tudo isso e claro como água, e é límpido como o céu, porque imundo é o que sai do homem não o que nele entra...” Assim é que eu gostaria que você falasse, Otto. Assim é que eu quero que seja a sua próxima carta. Estou cansado da linguagem de belzebu que você assume. Prefiro conversar com minha mãe aqui hospedada comigo e que está me chamando agora. Ela nunca me falou no demônio, mas vive me dando a benção desde menino, vive me falando em Deus.
Fecha a porta do inferno, e me escreva dando notícias de Helena-André-Bruno e de tudo, que responderei com celestial pontualidade.
Abraços a eles, a você, do seu amigo
Fernando
12/8/57 – Esta carta estava escrita há uma semana. Não mandei por falta de envelope. Vai agora, senão teria que escrever outra – que escreverei quando receber resposta sua. É toma lá, dá cá. E nada de novo aconteceu nesta semana. Senão esta coisa estranha e paradoxal: sua carta, afinal, me fez um grande bem... Depois explico. Outro abraço do
F.
*Carta de Fernando Sabino para Otto Lara Resende in Cartas na mesa, Rio de Janeiro: Record, 2002, pp. 187 e ss.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Otto por Nelson*
“Muita gente não entende o nome da minha peça. Sujeitos me perguntam, numa amarga perplexidade: '- Por que Otto Lara Resende?' Entendo o espanto, entendo o escândalo. Normalmente só os defuntos, e, ainda assim, só os defuntos monumentais é que entram na ficção. Mas o Otto está aí, escandalosamente vivo e contemporâneo. Nós podemos apalpá-lo, farejá-lo, e, até, pedir-lhe dinheiro emprestado.
Amigos e parentes perguntam ao próprio: 'Você brigou com o Nelson?' Assim é o mundo. Importente de sentimento, o ser humano precisa ver o desamor por toda parte. Ninguém admite que o nome de minha peça é uma homenagem, apenas uma homenagem, uma cândida, límpida, inequívoca homenagem. Sou amigo do Otto. Gosto dele e abro-lhe as portas da ficção. E todo mundo sabe, desde Bulhão Pato, que a ficção é altamente promocional. Entrar numa ópera, num romance, num drama, ou numa simples burleta de Freyre Júnior, mesmo de carregador de bandeja, já vale a pena. Seu nome está nos anúncios, nos cartazes e na fachada do teatro.
Mas a simples amizade não é toda a explicação do título. Tudo, na personalidade do Otto, é um convite à ficção. Ele pertence menos à vida real e muito mais ao romance, à poesia, ao puro e irresponsável folclore. É ume scândal vê-lo no Procuradoria do Estado, a redigir pareceres sobre esgotos e padarias. O justo seria encontrá-lo impresso, em alguma página de Flaubert, ou mesmo de Eça ou, ainda, de Dickens.
Outra coisa que empurra o Otto para a ficção: a angústia. Não se pode imaginar sujeito mais sofrido. As suas depressões são, hoje, famosas, consagradas e, digo mais, invejadas. Explico: 'invejadas' porqe o herói, o santo, o gênio ou o profeta do nosso tempo há de ser neurótico. O sujeito se angustia porque se opõe a um mundo que fracassou. Por vezes o Otto aparece, na Procuradoria, macerado, como um Werther.
Outro elemento folclórico do amigo: a asma. Alguém dirá que a asma não passa de um problema respiratório. Assim pensa também a medicina oficial, com sua miopia crassa e ignara. Mas no caso do Otto, é diferente. Ele sofre de uma asma ética. Quando os brônquios do meu amigo começam a chiar, sabemos que o mundo vai mal. Se cai uma bomba em Hiroshima; ou se há um bloqueio; ou se a China invade a Índia; ou se o vizinho espanca o caçula – lá começa a asma do Otto. É curioso. Diante da iniqüidade, outros saem por aí derrubando bastilhas, decapitando Marias Antonietas, varrendo impérios. O Otto não, o Otto reage com a dispnéia. Mas uma coisa vos digo: no dia em que o homem amar o próximo como a si mesmo, Otto ficará eternamente bom da asma.
É ponto pacífico que muitos dividam de sua existência física. E quando ele se diz Otto Lara Resende, e como tal se apresenta, o sujeito fica entre duas hipóteses – ou da impostura, ou da piada. O seu mito está montado. Outro dia, ele apareceu na TV. As senhoras tomaram um susto. Era como se,d e repente, lá aparecesse a cobra-grande ou qualquer outra figura do folclore fluvial – de sapato, paletó e gravata.
Eu sei, por fim, que não faltará quem denuncie este depoimento como uma 'gozação'. E daí? Só os imbecis não resistem ao ridículo, só os imbecis não sobrevivem à piada. O verdadeiro amigo tem uma ferocidade jocunda e salubérrima. Eu sou esse amigo que não pode ver o Otto sem querer metê-lo numa anedota. Ele próprio faz auto-piadas. Quando soube que ia ser título da minha peça, cochichou para mim, com o olho rútilo: Eu pago o gás néon! Eu pago o gás néon! E assim ele selou a sua radiante simplicidade, com o título da minha peça – Otto Lara Resende.”
*excerto de entrevista de Nelson Rodrigues a Carlos Alberto Barreto, publicada originalmente em O Cruzeiro, edição de 22/12/1962. Apud Arquivinho nº 3 – Otto Lara Resende: Retratos escritos, Ed. Bem-te-vi, 2006
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Vida e Poesia
Vinícius de Moraes
Hoje eu acordei possuído da maior ternura por Otto Lara Resende. Otto tem sido para mim, ao longo de vinte anos de convívio, um amigo exemplar; daqueles que a pessoa não sabe bem o que fez para merecer. Mais habituado a dar do que receber, Otto usualmente se omite na relação, recorrendo à facilidade verbal e ao gênio que tem para a frase cunhada como uma espécie de cortina de palavras protetora de seu amor, que pratica à socapa, com malícia e disfarce bem mineiros.
Mas que é um grande amoroso, disto não haja dúvida. E daí o segredo da imantação que exerce sobre seus amigos, que acabam todos escravizados à sua escravidão. Eu dificilmente posso passar mais de dois dias sem lhe telefonar. Quando estou no estrangeiro, é das ausências que mais pesam. Quantas vezes já não disse, a perambular trist e sozinho pelos lugares mais esdrúxulos, o que não daria para ouvir, súbito, a meu lado, o seus passo curto apressado e suas palavras bem escandidas; ou o refrão que em geral canta, com afetação gutural, quando me vê e que passa a persegui-lo horas a fio.
Professor de ciências naturais
É o Vinícius de Moraes
Há amigos a quem querer bem se vai tornando, à medida, um sacrifício, de tal modo eles “bagunçam o nosso coreto”, como se diz por aí. Amigos que impõem a própria desarmonia, violentam a nossa intimidade, nos agridem quando bebem e estão sempre a nos pedir prestações de contas. São os tais que a gente gostaria de fazer “virar fada” quando se entra numa boate, porque o mínimo que pode acontecer é se brigar com a emsa ao lado. Eles têm o dom de provocar o assunto mais explosico para o nosso convidado, ou assumem o direito de achar que as moças que estão conosco adoram ouvir palavrões ou ser manuseadas. E quando já chatearam ao máximo, partem ofendidos, sem pagar a conta, depois de nos fazer ver que estamos ficando “muito importantes” ou “não somos mais o mesmo”.
Outros, pelo contrário, como o Otto, parecem estar sempre esticando uma mãozinha disfarçada para nos ajudar a carregar a nossa cruz. São seres de bons fluidos, que, quando a gente encontra, o dia melhora. Eles têm o dom da palavra certa no momento certo, e mesmo que tomem o maior dos pileques jamais se tornarão motivo de desarmonia. São seres respeitadores ao máximo da liberdade alheia, da “verdade” alheia e da mulher alheia. E não é outra a razão pela qual Otto Lara Resende tem tantos “deslumbrados”, dos quais o mais conhecido é sem dúvida seu maior “promotor”, o teatrólogo Nelson Rodrigues.
Eu, às vezes, conhecendo-lhes os horários, sigo-o em pensamento pela cidade – de casa para a Procuradoria, da Procuradoria para o jornal, do jornal para casa onde entra tarde e cansado. Como numa panorâmica tirada do alto, vejo-o atravessar a Avenida Rio Branco, acompanhado de um ou outro amigo jornalista, a discutir editoriais em função do momento político: um homem sempre “por dentro” de todos os assuntos, graças à confiança de que desfruta entre os poderosos e da qual nunca tira proveito próprio. Lá vai ele em seu passinho ligeiro, uma figura meio gauche na qual os ternos não assentam bem , as calças perdem rapidamente o vinco e as pontas do colarinho viram. Usa o olhar baixo, preso ao bico dos sapatos e não gosta de demorá-lo demasiado sobre o do seu interlocutor: mas não, como em seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, por tristeza, orgulho e alheamento do que na vida é porosidade e comunicação – e que conferem à poesia do grande itabirano a sua singular dignidade; antes por medo de pôr-se a gritar de repente que já não agüenta mais de tanto amar os outros e não sabe como dar o seu amor, que transforma em serviços prestados: um empreguinho aqui, uma intervenção junto a um banco ali; um pronunciamento bem escrito para um líder de letras canhestras; uma visita oportuna a um casal amigo em vias de rompimento; uma paciência inesgotável para as confissões e explicações de temperamento dos que andam perdidos nos labirintos da personalidade. Otto chega ao auge – o que para mim é motivo da maior admiração e iveja – de levar, mesmo sem ineresse, ao futebol no Maracanã, em pleno verão carioca, seus filhos André e Bruno: feito para mim só comparável à travessia do Kon-Tiki.
Ótimo marido, ótimo filho, ótimo pai, ótimo amigo, ótimo profissional, ótimo tudo – que mais dizer dessa no entanto misteriosíssima figura chamada Otto Lara Resende, ou melhor, o agente 001? Em fase de “cigarra”, como agora, nunca ninguém, poderá dizer tê-lo ouvido cantar em sebe alheia.mas ninguém tampouco poderá jamais saber o que está realmente planejando. Influindo no problema da sucessão presidencial? Bem possível. Nos destinos da ONU? Quase certo. O que vai fazer, por exemplo, quando, em meio à conversa mais animada, ausenta-se subitamente e volta meia hora depois, de cara esperta? O que fabrica no banheiro, onde passa a maior parte do seu dia?
Estará ele em vias de descobrir o filtro da eterna amizade?
(in Vinícius de Moraes - Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1988, pp. )
Hoje eu acordei possuído da maior ternura por Otto Lara Resende. Otto tem sido para mim, ao longo de vinte anos de convívio, um amigo exemplar; daqueles que a pessoa não sabe bem o que fez para merecer. Mais habituado a dar do que receber, Otto usualmente se omite na relação, recorrendo à facilidade verbal e ao gênio que tem para a frase cunhada como uma espécie de cortina de palavras protetora de seu amor, que pratica à socapa, com malícia e disfarce bem mineiros.
Mas que é um grande amoroso, disto não haja dúvida. E daí o segredo da imantação que exerce sobre seus amigos, que acabam todos escravizados à sua escravidão. Eu dificilmente posso passar mais de dois dias sem lhe telefonar. Quando estou no estrangeiro, é das ausências que mais pesam. Quantas vezes já não disse, a perambular trist e sozinho pelos lugares mais esdrúxulos, o que não daria para ouvir, súbito, a meu lado, o seus passo curto apressado e suas palavras bem escandidas; ou o refrão que em geral canta, com afetação gutural, quando me vê e que passa a persegui-lo horas a fio.
Professor de ciências naturais
É o Vinícius de Moraes
Há amigos a quem querer bem se vai tornando, à medida, um sacrifício, de tal modo eles “bagunçam o nosso coreto”, como se diz por aí. Amigos que impõem a própria desarmonia, violentam a nossa intimidade, nos agridem quando bebem e estão sempre a nos pedir prestações de contas. São os tais que a gente gostaria de fazer “virar fada” quando se entra numa boate, porque o mínimo que pode acontecer é se brigar com a emsa ao lado. Eles têm o dom de provocar o assunto mais explosico para o nosso convidado, ou assumem o direito de achar que as moças que estão conosco adoram ouvir palavrões ou ser manuseadas. E quando já chatearam ao máximo, partem ofendidos, sem pagar a conta, depois de nos fazer ver que estamos ficando “muito importantes” ou “não somos mais o mesmo”.
Outros, pelo contrário, como o Otto, parecem estar sempre esticando uma mãozinha disfarçada para nos ajudar a carregar a nossa cruz. São seres de bons fluidos, que, quando a gente encontra, o dia melhora. Eles têm o dom da palavra certa no momento certo, e mesmo que tomem o maior dos pileques jamais se tornarão motivo de desarmonia. São seres respeitadores ao máximo da liberdade alheia, da “verdade” alheia e da mulher alheia. E não é outra a razão pela qual Otto Lara Resende tem tantos “deslumbrados”, dos quais o mais conhecido é sem dúvida seu maior “promotor”, o teatrólogo Nelson Rodrigues.
Eu, às vezes, conhecendo-lhes os horários, sigo-o em pensamento pela cidade – de casa para a Procuradoria, da Procuradoria para o jornal, do jornal para casa onde entra tarde e cansado. Como numa panorâmica tirada do alto, vejo-o atravessar a Avenida Rio Branco, acompanhado de um ou outro amigo jornalista, a discutir editoriais em função do momento político: um homem sempre “por dentro” de todos os assuntos, graças à confiança de que desfruta entre os poderosos e da qual nunca tira proveito próprio. Lá vai ele em seu passinho ligeiro, uma figura meio gauche na qual os ternos não assentam bem , as calças perdem rapidamente o vinco e as pontas do colarinho viram. Usa o olhar baixo, preso ao bico dos sapatos e não gosta de demorá-lo demasiado sobre o do seu interlocutor: mas não, como em seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, por tristeza, orgulho e alheamento do que na vida é porosidade e comunicação – e que conferem à poesia do grande itabirano a sua singular dignidade; antes por medo de pôr-se a gritar de repente que já não agüenta mais de tanto amar os outros e não sabe como dar o seu amor, que transforma em serviços prestados: um empreguinho aqui, uma intervenção junto a um banco ali; um pronunciamento bem escrito para um líder de letras canhestras; uma visita oportuna a um casal amigo em vias de rompimento; uma paciência inesgotável para as confissões e explicações de temperamento dos que andam perdidos nos labirintos da personalidade. Otto chega ao auge – o que para mim é motivo da maior admiração e iveja – de levar, mesmo sem ineresse, ao futebol no Maracanã, em pleno verão carioca, seus filhos André e Bruno: feito para mim só comparável à travessia do Kon-Tiki.
Ótimo marido, ótimo filho, ótimo pai, ótimo amigo, ótimo profissional, ótimo tudo – que mais dizer dessa no entanto misteriosíssima figura chamada Otto Lara Resende, ou melhor, o agente 001? Em fase de “cigarra”, como agora, nunca ninguém, poderá dizer tê-lo ouvido cantar em sebe alheia.mas ninguém tampouco poderá jamais saber o que está realmente planejando. Influindo no problema da sucessão presidencial? Bem possível. Nos destinos da ONU? Quase certo. O que vai fazer, por exemplo, quando, em meio à conversa mais animada, ausenta-se subitamente e volta meia hora depois, de cara esperta? O que fabrica no banheiro, onde passa a maior parte do seu dia?
Estará ele em vias de descobrir o filtro da eterna amizade?
(in Vinícius de Moraes - Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1988, pp. )
terça-feira, 24 de abril de 2007
Semana Otto Lara Resende
No próximo dia 1º de maio, completam-se oitenta e cinco anos do nascimento desse gigante brasileiro chamado Otto Lara Resende. Esta página dedica-se modestamente, desde sua sabida pequenez, de hoje até a próxima terça-feira, a celebrar sua memória, sua obra, sua significação e seu legado. Palavras melhores e mais autorizadas que as minhas ocuparão a coluna nos próximos dias. De toda sorte, achei não ser de todo má a idéia de um breve intróito, a despeito da ingratidão da tarefa: escrever sobre quem, talvez acima de qualquer outro, tenha cultivado, mais que um zelo, um verdadeiro pudor no trato da palavra escrita.
Não penso ser o caso, exatamente, de uma apresentação. O escritor é uma reminiscência ainda bem presente nos meios leitores, embora tenda a esvanecer-se para as gerações posteriores à minha, que não desfrutaram o privilégio de conviver com a sua presença de jornalista, viva, atuante. Porque se o personagem Otto Lara Resende foi, já nas minhas primeiras leituras, absolutamente presente, íntimo, corriqueiro até, o encontro com seu texto veio bem mais tarde, através de sua coluna diária naquele gracioso ano e meio, talvez, de sua passagem pela Folha de S. Paulo. Parece-me, en passant, que o único acerto, com “A” maiúsculo, do jornal nestes vinte e sete anos que o venho lendo resignadamente, de má-vontade. Mas não era assim naquele 1991, 1992. Como em nenhuma ocasião mais, eu ansiava pelo diário a cada manhã, acordava mais cedo no domingo; despistava, como criança, lendo as outras colunas, só para aumentar a expectativa; até não ter mais jeito e me botar a sorver as suas palavras que soavam francas, precisas e tamanhamente inspiradas, como jamais pude supor possível numa coluna de jornal.
Coisa, hoje, difícil de explicar; difícil mesmo de acreditar – até para mim! Para mim que aprendi a ler e, sobretudo, aprendi o prazer da leitura através de autores e textos escritos exatamente para jornal: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, o Drummond cronista, o quarteto absoluto dos primeiros números da impagável coleção “Para gostar de ler”; depois Antônio Maria, Manuel Bandeira, Vinícius, João do Rio, Lima Barreto, e todos mais que eu fosse descobrindo dominadores dessa arte magistral de cerzir retalhos de poesia no pano roto da vida cotidiana estampada nos jornais. Mas desses todos não pude, com poucas exceções, saborear o texto vivo, quente, pulsante, que é o encantamento mais próprio da crônica. Otto Lara mesmo tenha talvez dado a melhor definição do fenômeno, ao comparar o texto de jornal a uma estação ferroviária, após a passagem do trem: sem nenhum interesse mais. É certo, contudo, que muitíssima literatura sobrevive nas crônicas de um Braga ou de um Barreto, setenta, noventa anos após terem sido escritas, de maneira que não se possa efetivamente falar em desinteresse: antes, talvez, a melancolia de quem olha uma estrela sabendo-a não mais ali há tantos milhares de anos...
Pode soar exagerado, mas havia um poder oculto naquelas pouquíssimas linhas diárias, capazes de criar uma dependência que desenvolvi à semelhança do que já confessou a mana Mariana Blanc em relação aos bons tempos de Luís Fernando Veríssimo no Globo. Descontada, pois, a habitual boutade do mestre, a atualidade, o “frescor” dos textos diariamente desovados, podem ter jogado a seu favor para explicar a fascinação que exerciam sobre todo um contingente de leitores (e sobretudo leitoras!) já um tanto desacostumados da presença de grandes cronistas, naquele início dos 90, nos periódicos mais destacados. Mas outra explicação ainda, certo mais ousada, me parece arriscável. A pena do grande escritor pode ter, de certa forma, pressentido o caráter quase testamentário daquela última ocupação. E revestida da extraordinária força brotada de um irreproduzível amálgama de sabedoria, competência e urgência finais, aquela derradeira fase possa, conscientemente ou não, ter encenado o epílogo possível à altura do seu espírito e de sua presença incomparáveis.
Tanto mais haveria para se dizer. Mas há quem melhor o faça: com vocês, Otto Lara Resende.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Mandavy kyvy kyvy'i
Xeramõi João da Silva Verá Miri
Então, meus netinhos...
Estas são as palavras transmitidas a nós por Nhanderu Papá, nosso Primeiro Pai. Nhanderu Papá, ao gerar o mundo, já previa tudo o que ia acontecer conosco. E isto vocês não esqueceram. Sinto uma forte emoção em minha alma divina. Eu já tenho muita idade. Por isto vou explicar e quero que vocês me escutem.
Este canto que cantamos ilumina nossos primeiros passos na vida. O significado desses cantos vocês não sabem ainda, meus netinhos. Nhanderu Papá, quando chegou à Terra, desejou que o canto ilumine a nossa vida. Nosso Pai criou a Terra e nela vocês podem brincar e cantar. É o que Ele deseja. Muitas coisas já foram esquecidas. Mas é assim, meus netinhos, o que vocês transmitem me faz lembrar muito. Por isso eu vou falar agora.
Deus ensinou as crianças a brincar. Nossos avôs e avós, com sua sabedoria, ensinaram a brincadeira a todos os seus filhos.Todas as crianças, de todas as idades e tamanhos, brincavam em nossa Terra Sagrada. Brincavam inspirados pela sabedoria divina. Cresciam inspiradas na sabedoria divina. Cresciam bonitas, fortalecidas e iluminadas pela Verdade e alcançavam o Ser Sagrado.
Hoje vivemos uma vida diferente do passado. Vou ensinar para vocês os cantos que todos cantavam antigamente quando brincavam. Todas as aldeias vão agora ouvir estes cantos. Todos vão saber como era o nosso canto. Vão se perguntar: isto era a verdade ou não era? Todos vão saber que esta é a nossa verdade. Vou transmitir para todos vocês para todas as aldeias, nossos parentes no centro da Terra, no Paraguai, todos os que vivem na Terra vão escutar. É para isto que estamos registrando esses cantos. Nossos parentes que estão além do oceano também vão escutar. Ao ouvir estes cantos, cada um se lembrará de nossas tradições e ensinará seus filhos a brincar novamente.
Deus ensinou a fazer as brincadeiras infantis. E as crianças se colocavam uma ao lado da outra, sentadas, para receber os ensinamentos. Andando de um lado para o outro, em frente às crianças, um velho sábio ensinava as crianças a cantar e a brincar. Ele cantava assim:
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy é um bichinho, um besourinho que costuma fazer um buraquinho na parede , próximo ao chão. As meninas cantavam e dançavam em volta do lugar onde os bichinhos ficam. Em seguida, as meninas sopravam dentro do buraquinho até o bichinho sair. Pegavam o bichinho e deixavam que ele mordesse o bico do seio. E assim elas se fortaleciam. Depois, o bichinho era deixado novamente em sua casa. Isto era feito para que elas tivessem muito leite quando os seus filhos nascessem. Elas faziam isto com muito respeito e acreditando nas palavras ensinadas por Nhanderu. Elas então ficavam alegres e cantavam assim para reverenciar Nhanderu:
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua
Assim nossos avós ensinavam a cantar. Para que se dizia 'Ero Takua'? Para nossas meninas se lebrarem de Nhanderu quando crescerem e se lembrarem de tocar o bastão takuapu na Casa da Reza.
Estas coisas vocês não sabem mais, meus netinhos. Antigamente nossos avós praticavam estes cantos e alcançavam a Terra Sem Mal impulsionados pelo vento sagrado. Hoje nós estamos aqui procurando lembrar. Isto eu sinto em meu coração. Eu vivo sentindo isto em meu coração. Vocês cantam e se lembram de Nhanderu e da trajetória de Nhamandu, nosso Deus Sol. Quando Ele chega, toda nossa Nação se levanta.
Assim nós recebemos a divindade, meus netinhos.
Xeramõi João da Silva Verá Miri, 92 anos, é cacique e pajé Guarani Mbya, da Aldeia Sapukai, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Depoimento gravado em idioma Guarani no esplendoroso álbum Ñande Arandu Pyguá – Memória viva Guarani, que se pode conhecer aqui. A tradução é de Marcos dos Santos Tupã
Então, meus netinhos...
Estas são as palavras transmitidas a nós por Nhanderu Papá, nosso Primeiro Pai. Nhanderu Papá, ao gerar o mundo, já previa tudo o que ia acontecer conosco. E isto vocês não esqueceram. Sinto uma forte emoção em minha alma divina. Eu já tenho muita idade. Por isto vou explicar e quero que vocês me escutem.
Este canto que cantamos ilumina nossos primeiros passos na vida. O significado desses cantos vocês não sabem ainda, meus netinhos. Nhanderu Papá, quando chegou à Terra, desejou que o canto ilumine a nossa vida. Nosso Pai criou a Terra e nela vocês podem brincar e cantar. É o que Ele deseja. Muitas coisas já foram esquecidas. Mas é assim, meus netinhos, o que vocês transmitem me faz lembrar muito. Por isso eu vou falar agora.
Deus ensinou as crianças a brincar. Nossos avôs e avós, com sua sabedoria, ensinaram a brincadeira a todos os seus filhos.Todas as crianças, de todas as idades e tamanhos, brincavam em nossa Terra Sagrada. Brincavam inspirados pela sabedoria divina. Cresciam inspiradas na sabedoria divina. Cresciam bonitas, fortalecidas e iluminadas pela Verdade e alcançavam o Ser Sagrado.
Hoje vivemos uma vida diferente do passado. Vou ensinar para vocês os cantos que todos cantavam antigamente quando brincavam. Todas as aldeias vão agora ouvir estes cantos. Todos vão saber como era o nosso canto. Vão se perguntar: isto era a verdade ou não era? Todos vão saber que esta é a nossa verdade. Vou transmitir para todos vocês para todas as aldeias, nossos parentes no centro da Terra, no Paraguai, todos os que vivem na Terra vão escutar. É para isto que estamos registrando esses cantos. Nossos parentes que estão além do oceano também vão escutar. Ao ouvir estes cantos, cada um se lembrará de nossas tradições e ensinará seus filhos a brincar novamente.
Deus ensinou a fazer as brincadeiras infantis. E as crianças se colocavam uma ao lado da outra, sentadas, para receber os ensinamentos. Andando de um lado para o outro, em frente às crianças, um velho sábio ensinava as crianças a cantar e a brincar. Ele cantava assim:
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy é um bichinho, um besourinho que costuma fazer um buraquinho na parede , próximo ao chão. As meninas cantavam e dançavam em volta do lugar onde os bichinhos ficam. Em seguida, as meninas sopravam dentro do buraquinho até o bichinho sair. Pegavam o bichinho e deixavam que ele mordesse o bico do seio. E assim elas se fortaleciam. Depois, o bichinho era deixado novamente em sua casa. Isto era feito para que elas tivessem muito leite quando os seus filhos nascessem. Elas faziam isto com muito respeito e acreditando nas palavras ensinadas por Nhanderu. Elas então ficavam alegres e cantavam assim para reverenciar Nhanderu:
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua
Assim nossos avós ensinavam a cantar. Para que se dizia 'Ero Takua'? Para nossas meninas se lebrarem de Nhanderu quando crescerem e se lembrarem de tocar o bastão takuapu na Casa da Reza.
Estas coisas vocês não sabem mais, meus netinhos. Antigamente nossos avós praticavam estes cantos e alcançavam a Terra Sem Mal impulsionados pelo vento sagrado. Hoje nós estamos aqui procurando lembrar. Isto eu sinto em meu coração. Eu vivo sentindo isto em meu coração. Vocês cantam e se lembram de Nhanderu e da trajetória de Nhamandu, nosso Deus Sol. Quando Ele chega, toda nossa Nação se levanta.
Assim nós recebemos a divindade, meus netinhos.
Xeramõi João da Silva Verá Miri, 92 anos, é cacique e pajé Guarani Mbya, da Aldeia Sapukai, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Depoimento gravado em idioma Guarani no esplendoroso álbum Ñande Arandu Pyguá – Memória viva Guarani, que se pode conhecer aqui. A tradução é de Marcos dos Santos Tupã
segunda-feira, 16 de abril de 2007
A existência possível (cont.)
(PARTE II)
A sobrevivência da negatividade
Todo estabelecimento de uma forma verdadeira, de um modelo ideal a ser perseguido admite logicamente a possibilidade de uma determinada forma da existência vir a suprimir todas as negatividades da existência dada, visto que a forma dada nada mais é do que a forma ideal, descontadas as mazelas decorrentes da má condução circunstancial no presente da existência. Mesmo na seara do pensamento crítico, toda vez que um determinado estado de coisas é tido como o estágio final de um processo histórico, esta súbita ressurgência de um estado de coisas positivo (quer dizer: não negável) assume papel imobilizador do processo histórico de emancipação humana.
Assim como a classe burguesa foi a classe revolucionária da superação do antigo regime e passa a, apartir da consumação da revolução, engendrar instrumentos de conservação da nova ordem instaurada, da mesma forma o pensamento político de Hegel que foi instrumento crítico fundamental para a consolidação filosófica da revolução liberal, trasforma-se incontinenti em instrumento conservador do estado de coisas “legitimado” a partir da implementação da nova ordem sócio-econômica burguesa. O estágio final da evolução política do espírito absoluto prussiano engendrara uma ordem em que puderam se encontrar a perfeição da liberdade e igualdade formais, pela subsunção dos indivíduos livres à racionalidade do estado de direito. A condição miserável da classe proletária fica relegada a mera circunstância transitória até que se perfaça na prática a justiça idealmente representada pelo estado de direito e pelo livre mercado. Para superar a estagnação crítica do pensamento hegeliano (quando da identificação histórica do estado prussiano com a consumação da realidade engendrada pela razão) Marx teve que engendrar todo um esforço filosófico para a reintrodução de um elemento negador da ordem burguesa estabelecida: o proletariado e sua situação de eterno perdedor no jogo do capitalismo. Precisou, portanto, demonstrar que o funcionamento das estruturas da sociedade capitalista não levariam, por seu aprimoramento, à superação da condição historicamente desfavorável do proletariado, mas, muito ao contrário, tenderia a agravá-la; e que, conseqüentemente, a negação dessa condição só seria possível pela negação da estrutura ela mesma.
A parir de então, o pensamento crítico pôde voltar-se à negação dos fundamentos do modo capitalista de produção e organização social. E não tardou a deparar-se com novos desafios, quando as revoluções nacionais começam a abolir as formas de apropriação privada da riqueza, mas variadas mazelas da vida social não desaparecem concomitantemente. Da mesma forma, então, a matriz de um pensamento que tornou possível a formulação filosófica da abolição do modo capitalista de produção passa a ter função conservadora, anti-crítica, quando vem considerar que as negatividades sobreviventes nas várias experiências do chamado socialismo real foram decorrentes de desvios pontuais na “correta” aplicação do modelo formulado! Quando esse pensamento, portanto, perde a capacidade de compreender que a substituição da estrutura capitalista pelo socialismo de estado engendra ela mesma novas negatividades específicas, novas mazelas estruturais (entre as quais pode se destacar a falta de liberdade, a dificuldade na preservação e expressão da singularidade subjetiva etc.), estanca novamente na sua tarefa de construir uma outra existência possível.
Dito assim, por outro modo, sempre que o pensamento abandona o criticismo que busca a negação de uma forma dada da existência pelo cotejamento com uma outra existência racionalmente possível e adota um modelo, um parâmetro específico, um ideal qualquer que seja está renunciando inapelavelmente a ser um instrumento transformador da realidade dada, rumo a uma outra forma possível. Quais os parâmetros, pois, para a razão identificar as negatividades nas formas presentes da existência? O parâmetro é sempre o da outra existência possível! Há alguma liberdade na forma presente da existência social, mas há uma outra liberdade racionalmente dimensionável? Há bons ganhos numa determinada forma social instaurada, mas é possível conceber racionalmente uma outra forma onde as mazelas presentes não estejam intrinsecamente atreladas à estrutura desta forma presente?
Não seríamos tolos em negar que no âmbito estrito de uma dada forma social são possíveis graus diferenciados de liberdades, igualdades, possibilidades etc. e que o atingimento desses máximos possíveis nos limites estruturais definíveis de uma forma dada da existência depende do padrão de eficiência do gerenciamento dos mecanismos próprios inerentes ao modelo, vale dizer, que a correção de desvios, a adequação gerencial propiciará ganhos na comparação entre esse máximo possível diagnosticado e a situação circunstanciadamente considerada. Este não é o problema. A eficiência gerencial não é má em si mesma, pelo contrário. Só não podemos, em nome deste processo menor que representa a otimização das condições presentes em vista a um máximo que se inscreve no limite daquela estrutura abrirmos mão do processo maior e mais ambicioso de ampliação destes próprios limites! Ou seja, nem sempre é preciso derrubar toda uma estrutura para se obter um ganho na supressão das mazelas da vida, mas há que se ter em mente que este ganho geralmente não ultrapassa o caráter quantitativo. Os ganhos qualitativos implicam na negação de toda uma trama de estruturas que opera no sentido da construção daquele limite referido, ou acacianamente, o limite estrutural.
Dado este ponto de vista, nenhuma estrutura do mundo presente, nenhuma forma de organização, nenhum modelo, nenhum valor político ou ideologia é imune ao pensamento crítico, pois esse não se limita à comparação das formas presentes da existência aos limites reconhecido justamente a partir da aceitação apriorística da excelência dessas estruturas, valores, modelos etc. Ele vai além, denunciando extrinsecamente ao âmbito estreito das formas aceitas os limites que essas mesmas formas impingem à possibilidade de outra existência! Para o pensamento crítico, só a realização máxima da existência humana em seu universo infinito de possibilidades é parâmetro para a crítica racional. Por isso a dialética não cessa nunca, a negação permanece para sempre, enquanto não encontrarmos os termos derradeiros do desenvolvimento de todas as nossas capacidades. A negatividade permeará as formas dadas da existência sempre que à razão crítica for possível conceber uma forma superior, com limites mais dilargados para o exercício das potencialidades humanas.
Sempre que permanecer possível uma existência mais plena em liberdade, igualdade, justiça, conhecimento e todas as formas de realização humana, o pensamento crítico será o instrumento de superação das negatividades da existência presente. E como não nos é dado conhecer os limites dessa progressão, não nos é dado eleger de antemão o modelo ideal da existência humana possível. Compare-se, por exemplo, no conjunto de todo o conhecimento humano coletivo acumulado hoje e há 150 anos, quando muitos acreditavam ter a humanidade chegado ao ápice do domínio tecnológico e científico!!! Da mesmíssima forma como o pensamento hegeliano pôde enxergar no estado prussiano o ápice da realização da liberdade política e social...
A sobrevivência da negatividade
Todo estabelecimento de uma forma verdadeira, de um modelo ideal a ser perseguido admite logicamente a possibilidade de uma determinada forma da existência vir a suprimir todas as negatividades da existência dada, visto que a forma dada nada mais é do que a forma ideal, descontadas as mazelas decorrentes da má condução circunstancial no presente da existência. Mesmo na seara do pensamento crítico, toda vez que um determinado estado de coisas é tido como o estágio final de um processo histórico, esta súbita ressurgência de um estado de coisas positivo (quer dizer: não negável) assume papel imobilizador do processo histórico de emancipação humana.
Assim como a classe burguesa foi a classe revolucionária da superação do antigo regime e passa a, apartir da consumação da revolução, engendrar instrumentos de conservação da nova ordem instaurada, da mesma forma o pensamento político de Hegel que foi instrumento crítico fundamental para a consolidação filosófica da revolução liberal, trasforma-se incontinenti em instrumento conservador do estado de coisas “legitimado” a partir da implementação da nova ordem sócio-econômica burguesa. O estágio final da evolução política do espírito absoluto prussiano engendrara uma ordem em que puderam se encontrar a perfeição da liberdade e igualdade formais, pela subsunção dos indivíduos livres à racionalidade do estado de direito. A condição miserável da classe proletária fica relegada a mera circunstância transitória até que se perfaça na prática a justiça idealmente representada pelo estado de direito e pelo livre mercado. Para superar a estagnação crítica do pensamento hegeliano (quando da identificação histórica do estado prussiano com a consumação da realidade engendrada pela razão) Marx teve que engendrar todo um esforço filosófico para a reintrodução de um elemento negador da ordem burguesa estabelecida: o proletariado e sua situação de eterno perdedor no jogo do capitalismo. Precisou, portanto, demonstrar que o funcionamento das estruturas da sociedade capitalista não levariam, por seu aprimoramento, à superação da condição historicamente desfavorável do proletariado, mas, muito ao contrário, tenderia a agravá-la; e que, conseqüentemente, a negação dessa condição só seria possível pela negação da estrutura ela mesma.
A parir de então, o pensamento crítico pôde voltar-se à negação dos fundamentos do modo capitalista de produção e organização social. E não tardou a deparar-se com novos desafios, quando as revoluções nacionais começam a abolir as formas de apropriação privada da riqueza, mas variadas mazelas da vida social não desaparecem concomitantemente. Da mesma forma, então, a matriz de um pensamento que tornou possível a formulação filosófica da abolição do modo capitalista de produção passa a ter função conservadora, anti-crítica, quando vem considerar que as negatividades sobreviventes nas várias experiências do chamado socialismo real foram decorrentes de desvios pontuais na “correta” aplicação do modelo formulado! Quando esse pensamento, portanto, perde a capacidade de compreender que a substituição da estrutura capitalista pelo socialismo de estado engendra ela mesma novas negatividades específicas, novas mazelas estruturais (entre as quais pode se destacar a falta de liberdade, a dificuldade na preservação e expressão da singularidade subjetiva etc.), estanca novamente na sua tarefa de construir uma outra existência possível.
Dito assim, por outro modo, sempre que o pensamento abandona o criticismo que busca a negação de uma forma dada da existência pelo cotejamento com uma outra existência racionalmente possível e adota um modelo, um parâmetro específico, um ideal qualquer que seja está renunciando inapelavelmente a ser um instrumento transformador da realidade dada, rumo a uma outra forma possível. Quais os parâmetros, pois, para a razão identificar as negatividades nas formas presentes da existência? O parâmetro é sempre o da outra existência possível! Há alguma liberdade na forma presente da existência social, mas há uma outra liberdade racionalmente dimensionável? Há bons ganhos numa determinada forma social instaurada, mas é possível conceber racionalmente uma outra forma onde as mazelas presentes não estejam intrinsecamente atreladas à estrutura desta forma presente?
Não seríamos tolos em negar que no âmbito estrito de uma dada forma social são possíveis graus diferenciados de liberdades, igualdades, possibilidades etc. e que o atingimento desses máximos possíveis nos limites estruturais definíveis de uma forma dada da existência depende do padrão de eficiência do gerenciamento dos mecanismos próprios inerentes ao modelo, vale dizer, que a correção de desvios, a adequação gerencial propiciará ganhos na comparação entre esse máximo possível diagnosticado e a situação circunstanciadamente considerada. Este não é o problema. A eficiência gerencial não é má em si mesma, pelo contrário. Só não podemos, em nome deste processo menor que representa a otimização das condições presentes em vista a um máximo que se inscreve no limite daquela estrutura abrirmos mão do processo maior e mais ambicioso de ampliação destes próprios limites! Ou seja, nem sempre é preciso derrubar toda uma estrutura para se obter um ganho na supressão das mazelas da vida, mas há que se ter em mente que este ganho geralmente não ultrapassa o caráter quantitativo. Os ganhos qualitativos implicam na negação de toda uma trama de estruturas que opera no sentido da construção daquele limite referido, ou acacianamente, o limite estrutural.
Dado este ponto de vista, nenhuma estrutura do mundo presente, nenhuma forma de organização, nenhum modelo, nenhum valor político ou ideologia é imune ao pensamento crítico, pois esse não se limita à comparação das formas presentes da existência aos limites reconhecido justamente a partir da aceitação apriorística da excelência dessas estruturas, valores, modelos etc. Ele vai além, denunciando extrinsecamente ao âmbito estreito das formas aceitas os limites que essas mesmas formas impingem à possibilidade de outra existência! Para o pensamento crítico, só a realização máxima da existência humana em seu universo infinito de possibilidades é parâmetro para a crítica racional. Por isso a dialética não cessa nunca, a negação permanece para sempre, enquanto não encontrarmos os termos derradeiros do desenvolvimento de todas as nossas capacidades. A negatividade permeará as formas dadas da existência sempre que à razão crítica for possível conceber uma forma superior, com limites mais dilargados para o exercício das potencialidades humanas.
Sempre que permanecer possível uma existência mais plena em liberdade, igualdade, justiça, conhecimento e todas as formas de realização humana, o pensamento crítico será o instrumento de superação das negatividades da existência presente. E como não nos é dado conhecer os limites dessa progressão, não nos é dado eleger de antemão o modelo ideal da existência humana possível. Compare-se, por exemplo, no conjunto de todo o conhecimento humano coletivo acumulado hoje e há 150 anos, quando muitos acreditavam ter a humanidade chegado ao ápice do domínio tecnológico e científico!!! Da mesmíssima forma como o pensamento hegeliano pôde enxergar no estado prussiano o ápice da realização da liberdade política e social...
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Salvo das Águas
Paixão amazônica de Martin Strel, segundo Szegeri
Em meio a um turbilhão de decretos municipais infames, delírios de generais desprezíveis (risos diarréicos: ninguém mais tem medo de vocês, por mais que vociferem seus impropérios boçais), vitórias desclassificantes, manifestos em prol de meliantes rabinos, da morte mais uma vez ignorada de um grande baluarte do samba (salve Tio Hélio!), fui, qual um moisés tupiniquim à mercê do seu próprio fracasso, miraculosamente salvo das águas por um herói mítico vindo de uma terra fria e distante para resgatar minha esperança e minha fé.
Ele é esloveno, se chama Martin Strel. Já havia nadado interirinho o Danúbio de Vovó, o Mississipi de tanto sangue negro derramado, o Yangtzé chinês. Muitos pensaram que só estaria atrás de um novo recorde, do nome no tal livro, essas coisas desimportantíssimas que a modernidade vai criando para disfarçar o nada que campeia e nos traga. Mas não sabiam de nada. Não sabiam que ele precisava levar a termo a sua missão para me resgatar a mim, Fernando José Szegeri. Para cumprir o destino a que me faltaram a coragem ou a força. Fazendo a nado a travessia do Solimões-Amazonas, da nascente à foz e ainda além, Martin Strel, em sua própria Semana Santa, salvou minha alma da danação eterna.
Por que estranhas e misteriosas razões o seu destino estivesse tão absolutamente atrelado ao meu, como um cristo particular, não saberia dizer; e esses mistérios são mesmo insondáveis. Mas sei que ele se dispôs a fazer em meu lugar a travessia necessária a que sorrateiramente, ao longo da fugacidade dos anos, fui opondo as falsas urgências, as duvidosas prioridades. E para que a obra salvífica fosse completa, foi necessário que me dissesse, olhando nos olhos da alma (embora não desconfie disso): “Vou fazer por você! E não quero barco. Vou fazer porque tem que ser feito. Você sabe o que acontecerá se não for feito. E pra que nenhuma dúvida mais paire, vou fazer a nado. Sozinho”.
“Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado
com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões
e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista,
às vezes parecia assustador”.
Os ribeirinhos acompanharam a sua paixão com o encanto e a desconfiança dos amazônidas. Aquele jeito de dizer calando, os olhos caboclos perdidos nas imensidões de florestas e almas e encantarias. Eles o esperaram a cada estação de sua via crucis, acenando, acolhendo, admirando, desconfiando. Porque aparece mesmo por ali cada assombração... É de se desconfiar. Por mais que se esteja acostumado.
Martin Strel, acostumado aos grandes rios, começou nadando noventa quilômetros por dia, certo de sua força e sua determinação. Mas o Grande Rio não é de aceitar imposições. Na Amazônia, tudo tem seu ritmo próprio, ditado pelos humores dos ventos, pelo sono dos rios, pela disposição da Floresta. E como se seu propósito não fosse completo, moisés invertido, todas as pragas lhe foram enviadas. Para que pudesse nadar com os botos, o sol fê-lo de púrpura encarniçada. "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também". O canto da Iara lhe confundiu a mente e o seu chamado o fez nadar para o lado contrário, remanso da vida que engana e confunde. Singrou águas infestadas de piranhas e piratas. Teve dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu 12 quilos. As dores que castigavam seu corpo não o deixavam dormir. Perdeu-se, passou a noite sozinho na margem, foi devorado pelos mosquitos.
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens,
homem de dores, e experimentado nos sofrimenos;
e, como um de quem os homens escondiam o rosto,
era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
e as nossas dores levou sobre si;
e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões
e moído por causa das nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.
(Isaías, 53, 3-5)
Porque ele esteve onde eu não soube estar. Mesmo com a certeza de que ali era meu lugar, que minha era a jornada. Todos os medos ele tomou sobre si. Sozinho na margem no meio da noite infinda, perdido, desidratado, temendo as visagens e os animais, devorado pelos insetos, ele era eu. E comigo, todo os meus fantasmas. E nele eu tive compaixão de mim mesmo. Cirineu, quis lhe mover os braços, aliviar-lhe o peso das águas. Tive ímpetos de enxugar-lhe o rosto e tratar as feridas; abaixar e com carinho em seus ouvidos contar até dez, a única coisa que saberia dizer em esloveno, língua de meu avô.
"A 'linha de chegada' foi atingida anteontem.
Ontem, ele cumpriu uma 'prorrogação' até a capital do Pará...
'Meu médico falava comigo
e me ajudava a tentar pensar em outras coisas.
Só queria terminar tudo isso' ”
E não se contentou em chegar à foz do Rio Mar. Era preciso que fosse a Belém. Era preciso que fosse resgatado na amurada onde passei tantas tarde cozendo meu banzo em fogo de tacho, pra tirar o veneno. Adiando meu destino. Em Belém onde eu precisava estar, porque esta terra eu não mais quero e aqueloutra não me quer, ele me pôde novamente olhar nos olhos, exangue, para dizer: “Está vendo? Foi feito! Podia ser feito”. E mesmo humilhado, exilado – porque a salvação é um exílio e uma humilhação – pude enfim nele ser rebatizado. Era necessário que findasse sua jornada em Belém, como um cristo ás avessas. Salvo das águas como um moisés.
Nesta pureza reconquistada, triste, cabisbaixa, sigo de braçadas exaustas num turbilhão sem sentido, com o fio da esperança religado. Olhado com desconfiança; confuso. Confiante que minhas últimas palavras, lavadas nessa lânguida expiação, possam um dia ser içadas das águas com uma compaixão, senão merecida, conquistada. Só querendo terminar tudo isso.
“Pai, eles não sabem o que fazem...” Em esloveno. Como Vovô.
*Fonte dos destaques em itálico, entre aspas: Folha de S. Paulo, edições de 07 e 09 de abril de 2007 – transcrição integral nos comentários a este texto
Em meio a um turbilhão de decretos municipais infames, delírios de generais desprezíveis (risos diarréicos: ninguém mais tem medo de vocês, por mais que vociferem seus impropérios boçais), vitórias desclassificantes, manifestos em prol de meliantes rabinos, da morte mais uma vez ignorada de um grande baluarte do samba (salve Tio Hélio!), fui, qual um moisés tupiniquim à mercê do seu próprio fracasso, miraculosamente salvo das águas por um herói mítico vindo de uma terra fria e distante para resgatar minha esperança e minha fé.
Ele é esloveno, se chama Martin Strel. Já havia nadado interirinho o Danúbio de Vovó, o Mississipi de tanto sangue negro derramado, o Yangtzé chinês. Muitos pensaram que só estaria atrás de um novo recorde, do nome no tal livro, essas coisas desimportantíssimas que a modernidade vai criando para disfarçar o nada que campeia e nos traga. Mas não sabiam de nada. Não sabiam que ele precisava levar a termo a sua missão para me resgatar a mim, Fernando José Szegeri. Para cumprir o destino a que me faltaram a coragem ou a força. Fazendo a nado a travessia do Solimões-Amazonas, da nascente à foz e ainda além, Martin Strel, em sua própria Semana Santa, salvou minha alma da danação eterna.
Por que estranhas e misteriosas razões o seu destino estivesse tão absolutamente atrelado ao meu, como um cristo particular, não saberia dizer; e esses mistérios são mesmo insondáveis. Mas sei que ele se dispôs a fazer em meu lugar a travessia necessária a que sorrateiramente, ao longo da fugacidade dos anos, fui opondo as falsas urgências, as duvidosas prioridades. E para que a obra salvífica fosse completa, foi necessário que me dissesse, olhando nos olhos da alma (embora não desconfie disso): “Vou fazer por você! E não quero barco. Vou fazer porque tem que ser feito. Você sabe o que acontecerá se não for feito. E pra que nenhuma dúvida mais paire, vou fazer a nado. Sozinho”.
“Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado
com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões
e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista,
às vezes parecia assustador”.
Os ribeirinhos acompanharam a sua paixão com o encanto e a desconfiança dos amazônidas. Aquele jeito de dizer calando, os olhos caboclos perdidos nas imensidões de florestas e almas e encantarias. Eles o esperaram a cada estação de sua via crucis, acenando, acolhendo, admirando, desconfiando. Porque aparece mesmo por ali cada assombração... É de se desconfiar. Por mais que se esteja acostumado.
Martin Strel, acostumado aos grandes rios, começou nadando noventa quilômetros por dia, certo de sua força e sua determinação. Mas o Grande Rio não é de aceitar imposições. Na Amazônia, tudo tem seu ritmo próprio, ditado pelos humores dos ventos, pelo sono dos rios, pela disposição da Floresta. E como se seu propósito não fosse completo, moisés invertido, todas as pragas lhe foram enviadas. Para que pudesse nadar com os botos, o sol fê-lo de púrpura encarniçada. "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também". O canto da Iara lhe confundiu a mente e o seu chamado o fez nadar para o lado contrário, remanso da vida que engana e confunde. Singrou águas infestadas de piranhas e piratas. Teve dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu 12 quilos. As dores que castigavam seu corpo não o deixavam dormir. Perdeu-se, passou a noite sozinho na margem, foi devorado pelos mosquitos.
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens,
homem de dores, e experimentado nos sofrimenos;
e, como um de quem os homens escondiam o rosto,
era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
e as nossas dores levou sobre si;
e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões
e moído por causa das nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.
(Isaías, 53, 3-5)
Porque ele esteve onde eu não soube estar. Mesmo com a certeza de que ali era meu lugar, que minha era a jornada. Todos os medos ele tomou sobre si. Sozinho na margem no meio da noite infinda, perdido, desidratado, temendo as visagens e os animais, devorado pelos insetos, ele era eu. E comigo, todo os meus fantasmas. E nele eu tive compaixão de mim mesmo. Cirineu, quis lhe mover os braços, aliviar-lhe o peso das águas. Tive ímpetos de enxugar-lhe o rosto e tratar as feridas; abaixar e com carinho em seus ouvidos contar até dez, a única coisa que saberia dizer em esloveno, língua de meu avô.
"A 'linha de chegada' foi atingida anteontem.
Ontem, ele cumpriu uma 'prorrogação' até a capital do Pará...
'Meu médico falava comigo
e me ajudava a tentar pensar em outras coisas.
Só queria terminar tudo isso' ”
E não se contentou em chegar à foz do Rio Mar. Era preciso que fosse a Belém. Era preciso que fosse resgatado na amurada onde passei tantas tarde cozendo meu banzo em fogo de tacho, pra tirar o veneno. Adiando meu destino. Em Belém onde eu precisava estar, porque esta terra eu não mais quero e aqueloutra não me quer, ele me pôde novamente olhar nos olhos, exangue, para dizer: “Está vendo? Foi feito! Podia ser feito”. E mesmo humilhado, exilado – porque a salvação é um exílio e uma humilhação – pude enfim nele ser rebatizado. Era necessário que findasse sua jornada em Belém, como um cristo ás avessas. Salvo das águas como um moisés.
Nesta pureza reconquistada, triste, cabisbaixa, sigo de braçadas exaustas num turbilhão sem sentido, com o fio da esperança religado. Olhado com desconfiança; confuso. Confiante que minhas últimas palavras, lavadas nessa lânguida expiação, possam um dia ser içadas das águas com uma compaixão, senão merecida, conquistada. Só querendo terminar tudo isso.
“Pai, eles não sabem o que fazem...” Em esloveno. Como Vovô.
*Fonte dos destaques em itálico, entre aspas: Folha de S. Paulo, edições de 07 e 09 de abril de 2007 – transcrição integral nos comentários a este texto
35 anos da Guerrilha do Araguaia
Lembram-se hoje os 35 anos da deflagração da luta armada na região do Araguaia, episódio heróico, exemplo de bravura, desprendimento e inconformismo, reprimido sangrentamente como poucos na história brasileira. A história da Guerrilha e seus heróis pode ser conhecida nesta página especial do Portal Veremelho.Que as lições desta página imemorial do passado recente do Brasil nos sirvam de estímulo e alerta para as lutas que não fazem cessar. Para que tenhamos consciência de nossa responsabilidade, dos desafios que ela nos impõe e dos riscos que necessariamente temos por ela de correr.
Mesmo que o último guerrilheiro na selva hoje caia
Bratará eternamente do chão do Araguaia
A esperança de um povo traçar seu destino
Vivam os Heróis do Povo Brasileiro!
Viva a Revolução!
Viva o Brasil!
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