quinta-feira, 15 de março de 2012
Pergunta ao poeta
- Qual seu meio preferido de distração?
- Olhar. Há muita gente que tem apenas olhos para ver. A capacidade de se ter, 'olhos de olhar' a vida, recolhendo dela tudo o que nos pode oferecer é mais empolgante.... e o mais barato de todos os divertimentos. (J. G. de Araújo Jorge)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
"Não tive tempo para ter medo"
Há
exatos 100 anos nascia um grande herói do povo
brasileiro: Carlos Marighella. Em homenagem à sua memória e a seus
ideais de justiça, paz, dignidade e liberdade, republico aqui (o fiz pela primeira vez em 04 de novembro de 2004, aniversário de 35 anos de seu covarde assassinato pelo aparelho repressivo chefiado pelo nefasto delegado fleury - a minúscula é adrede) dois poemas e um trecho de seu famoso
Chamanento
ao Povo Brasileiro,
que, se chocam pela atualidade, avivam-nos a consciência da tarefa
de lutarmos pela Nação que queremos.
Viva Marighella!
Viva o Brasil!
O Urubu
Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.
Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.
Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça
Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Chamamento ao Povo Brasileiro
“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.
Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.
2
O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.
Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.
Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...” (dezembro/1968)
O Urubu
Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.
Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.
Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça
Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Chamamento ao Povo Brasileiro
“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.
Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.
2
O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.
Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.
Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...” (dezembro/1968)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Toniquinho Batuqueiro

"Mandei preparar o terreiro
que já vem chegando o dia
Vou encourar meu pandeiro
preparar pra folia
Quando começar o pagode
Pego o pandeiro
caio na orgia"
(Ditado Antigo)
Hoje é dia de bater tambor. Ontem, 23 de novembro, partiu para a morada dos ancestrais o legendário compositor paulista Toniquinho Batuqueiro.
- Tinha samba no Largo da Sé?
- Nossa Senhora... *
Passou por diversas escolas de samba, como Unidos de Vila Maria e Império do Cambuci, mas afirmava que seu coração pertencia à Unidos do Peruche, que ajudou a fundar junto com o não menos grande Carlão do Peruche. Foi lá, no “Cantinho” feito célebre pela queridíssima Denise - outra grande guerreira que também já está batucando na Aruanda - que o vi pela última vez, há alguns meses, bastante debilitado, mas altivo, grandioso, imponente e elegante como sempre. Ritmista legendário, cantador de belíssimo timbre, viu, conheceu de dentro, participou de literalmente tudo o que aconteceu no samba de São Paulo em cinco décadas. Mas era essa altivez, essa imponência sem soberba, o que mais chamava a atenção no velho mestre. Um homem bonito, eu diria, no alto de seus 80 anos, mesmo alquebrado pela velhice, pela doença e pela cegueira. Talvez mais que qualquer outro que tenha conhecido, via no imenso Toniquinho a encarnação da grandeza do negro, artífice, sábio e guerreiro. Arrastado sob vara aos porões imundos onde cruzou o oceano para nos civilizar, continua até hoje agrilhoado às correntes pesadíssimas de um cativeiro que ainda não se aboliu, “livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”; a despeito, ou ainda talvez, em função disso, continua a construir espetacularmente sua obra libertadora, educando-nos, pela beleza, pela sabedoria e pela luta, para a compreensão de “que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais.”
- Como é que te descobriram lá no meio de São Paulo?
- Não descobrem ninguém, não, meu filho. Você é que tem que se descobrir. Tem que sair na hora: abriu a roda, você vai e faz. Sem ofender ninguém, você faz seu nome.
Bato daqui meus tambores em honra do mestre-fundador, que foi se ajuntar aos que o precederam. Faz parte, agora mais ainda, da galeria maravilhosa que reverenciamos em cada roda, em cada pagode, em cada batucada: aqueles que nos legaram o samba – suas melodias, versos, ensinamentos, posturas, valores -, a voz mais pujante do coração brasileiro.
Bato daqui meus tambores em honra do mestre-fundador, que foi se ajuntar aos que o precederam. Faz parte, agora mais ainda, da galeria maravilhosa que reverenciamos em cada roda, em cada pagode, em cada batucada: aqueles que nos legaram o samba – suas melodias, versos, ensinamentos, posturas, valores -, a voz mais pujante do coração brasileiro.
Republico em sua homenagem, a seguir, um texto de cinco anos atrás. Mo jubá!
* trecho do excelente documentário que pode ser conferido na íntegra aqui, sobre o qual não ainda não consegui encontrar os créditos, mas que vale demais a pena compartilhar. Assim que os tiver, serão inseridos aqui.
Noite
Olho
para o céu de noite aberta e sem lua. Afasto-me da varanda onde a
luz da arandela teimava em me contrair as pupilas ansiosas das
estrelas todas. Desde menino, a mesma angústia. Mas não será,
mesmo, pela toda vida esse o desassossego? Um querer, assim, que
nunca não se farta?
O
Velho tanto nos prevenira, mas quem somos nós a dar ouvidos a esses
tantos avisos e cuidados? Quem houvera de ter paciência para aqueles
sentidos ocultos, para aquelas tramas todas urdidas a despeito e
contra as evidências? Tudo sabíamos, tudo podíamos, nossos corpos
e olhos e mentes, era só sair por aí devorando a vida, os saberes,
os mistérios. Quais segredos nos freariam a sanha toda? Tola...
Quanto sofrimento não seria poupado se tivéssemos, pelo menos,
aprendido a olhar.
As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.
Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.
Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.
Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.
O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.
Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.
As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.
Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.
Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.
Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.
O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.
Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
45 anos sem Sérgio Milliet
Em tempos em que sinto
a cada dia morrer mais – e violentamente – a cidade em que nasci
e moro desde sempre, impende invocar a memória do pintor, poeta,
crítico, que nas palavras de outro grande baluarte destas tristes
plagas, o escritor João Antônio, foi “uma exceção dentro do
mundo cultural paulistano. Foi uma vocação e realização boêmia,
numa cidade onde qualquer manifestação boêmia ou mal comportada é
oficial e acintosamente proibida, foi o protótipo do intelectual e
do artista anti-sofisticado num capital brasileira onde o formalismo
é quase uma regra-de-ouro.” Como se vê, a coisa vem de
longe...
Não deixe de ler aqui
o fac-símile do artigo completo, publicado no Jornal do Brasil de 21 de novembro de1966. São Paulo e o Brasil precisam desesperadamente.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Carta aberta a Orlando Silva
Augusto César Petta
Maria Clotilde Lemos Petta
Querido Orlando,
Neste momento, em que você, nossa família e nosso Partido são atingidos por uma das mais sórdidas campanhas difamatórias tramadas pelo PIG (Partido Imprensa Golpista), queremos expressar nossos sentimentos.
Nós, que já acompanhávamos com muita admiração o dia-a-dia da sua vida, ficamos ainda mais orgulhosos da postura destemida e ética com que você enfrentou esse verdadeiro massacre.
É muito cruel, para nós que lutamos contra a ditadura militar, na defesa da liberdade e contra o arbítrio, vermos pessoas como você, que dedicam a vida para defender os oprimidos, serem submetidas à tortura moral, na tentativa de assassinato da sua reputação e na inviabilização do seu trabalho político.
É muito covarde a forma como as elites dominantes, que detêm todos os mais poderosos meios de comunicação para defender seus interesses escusos, manipulam as informações e divulgam, sem nenhum escrúpulo, mentiras caluniosas, atingindo pessoas e famílias honradas.
Para nós, como sindicalistas, que dedicamos grande parte de nossas vidas à luta contra as injustiças que atingem os professores e os trabalhadores em geral, é muito revoltante vermos a grande injustiça que está sendo feita a um homem que realiza um trabalho reconhecidamente competente e que contribui para que o Brasil se desenvolva de forma soberana, fraterna e justa.
Dona Vanda, sua mãe, descreve fatos que enaltecem sua linda trajetória de vida. Você é um brasileiro que, como tantos outros, começou a trabalhar ainda na infância. Vendia doce na praia para ajudar no sustento da casa. Sua mãe conta com orgulho que você sempre foi muito estudioso e que muitas vezes – como não tinha dinheiro suficiente para o transporte para chegar à escola – levantava de madrugada, ainda na escuridão, e, aconselhado por ela, contava as estrelas para que o trajeto a pé ficasse mais bonito. Ela diz que teve grande alegria quando você, conseguindo superar todas estas dificuldades, ingressou no curso de Direito da Universidade Católica da Bahia e, posteriormente, foi o primeiro e único estudante negro eleito Presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mais recentemente, ela também ficou muito feliz quando soube que você adquiriu, aos 39 anos de idade, seu primeiro e único imóvel – um terreno rural para construir sua casa. A forma como a mídia divulgou esta aquisição ultrapassou o limite do ridículo!
Acompanhamos o sofrimento de Dona Vanda, mulher simples e admirável, ao ver o filho ser insistentemente caluniado pela mídia golpista. Por ironia do destino, ela recebe, exatamente no dia do seu aniversário, a notícia de que seu filho não é mais Ministro do Esporte!
Entretanto, o que pode parecer ser uma derrota é só o final de uma batalha, que não é a primeira e nem será a última de uma guerra sem tréguas. Temos a certeza de que você, com sua força e determinação, sai desta batalha como um líder maior . A vida se encarregará de desmascarar os caluniadores e esclarecer a verdade aos homens e mulheres de bem que hoje – por desconhecimento, ingenuidade ou falta de consciência política – são induzidos a acreditar nessas calúnias. O tempo se encarregará de restabelecer a verdade.
Temos a convicção de que, com sua competência e brilhantismo, tendo como base um Partido unido, coeso e mais amadurecido com essa experiência, você ocupará outros espaços na luta, continuando a exercer o papel importante que lhe cabe neste momento da história de nosso País.
No fim desta batalha, queremos que saiba que estamos ainda mais orgulhosos de ter você como companheiro da Tininha, nossa filha, e pai da Maria, nossa neta.
Hoje, os que tramaram contra você, nossa família e nosso Partido certamente estão comemorando! Mas não podemos nos esquecer de uma frase de Che Guevara: “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera”.
Um grande abraço!
Tide e Augusto
A publicação desta carta é a reafirmação pública incondicional do que já escrevera neste espaço em 29 de maio de 2007, sobre Orlando Silva, meu amigo pessoal e grande correligionário: "compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz."
Maria Clotilde Lemos Petta
Querido Orlando,
Neste momento, em que você, nossa família e nosso Partido são atingidos por uma das mais sórdidas campanhas difamatórias tramadas pelo PIG (Partido Imprensa Golpista), queremos expressar nossos sentimentos.
Nós, que já acompanhávamos com muita admiração o dia-a-dia da sua vida, ficamos ainda mais orgulhosos da postura destemida e ética com que você enfrentou esse verdadeiro massacre.
É muito cruel, para nós que lutamos contra a ditadura militar, na defesa da liberdade e contra o arbítrio, vermos pessoas como você, que dedicam a vida para defender os oprimidos, serem submetidas à tortura moral, na tentativa de assassinato da sua reputação e na inviabilização do seu trabalho político.
É muito covarde a forma como as elites dominantes, que detêm todos os mais poderosos meios de comunicação para defender seus interesses escusos, manipulam as informações e divulgam, sem nenhum escrúpulo, mentiras caluniosas, atingindo pessoas e famílias honradas.
Para nós, como sindicalistas, que dedicamos grande parte de nossas vidas à luta contra as injustiças que atingem os professores e os trabalhadores em geral, é muito revoltante vermos a grande injustiça que está sendo feita a um homem que realiza um trabalho reconhecidamente competente e que contribui para que o Brasil se desenvolva de forma soberana, fraterna e justa.
Dona Vanda, sua mãe, descreve fatos que enaltecem sua linda trajetória de vida. Você é um brasileiro que, como tantos outros, começou a trabalhar ainda na infância. Vendia doce na praia para ajudar no sustento da casa. Sua mãe conta com orgulho que você sempre foi muito estudioso e que muitas vezes – como não tinha dinheiro suficiente para o transporte para chegar à escola – levantava de madrugada, ainda na escuridão, e, aconselhado por ela, contava as estrelas para que o trajeto a pé ficasse mais bonito. Ela diz que teve grande alegria quando você, conseguindo superar todas estas dificuldades, ingressou no curso de Direito da Universidade Católica da Bahia e, posteriormente, foi o primeiro e único estudante negro eleito Presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mais recentemente, ela também ficou muito feliz quando soube que você adquiriu, aos 39 anos de idade, seu primeiro e único imóvel – um terreno rural para construir sua casa. A forma como a mídia divulgou esta aquisição ultrapassou o limite do ridículo!
Acompanhamos o sofrimento de Dona Vanda, mulher simples e admirável, ao ver o filho ser insistentemente caluniado pela mídia golpista. Por ironia do destino, ela recebe, exatamente no dia do seu aniversário, a notícia de que seu filho não é mais Ministro do Esporte!
Entretanto, o que pode parecer ser uma derrota é só o final de uma batalha, que não é a primeira e nem será a última de uma guerra sem tréguas. Temos a certeza de que você, com sua força e determinação, sai desta batalha como um líder maior . A vida se encarregará de desmascarar os caluniadores e esclarecer a verdade aos homens e mulheres de bem que hoje – por desconhecimento, ingenuidade ou falta de consciência política – são induzidos a acreditar nessas calúnias. O tempo se encarregará de restabelecer a verdade.
Temos a convicção de que, com sua competência e brilhantismo, tendo como base um Partido unido, coeso e mais amadurecido com essa experiência, você ocupará outros espaços na luta, continuando a exercer o papel importante que lhe cabe neste momento da história de nosso País.
No fim desta batalha, queremos que saiba que estamos ainda mais orgulhosos de ter você como companheiro da Tininha, nossa filha, e pai da Maria, nossa neta.
Hoje, os que tramaram contra você, nossa família e nosso Partido certamente estão comemorando! Mas não podemos nos esquecer de uma frase de Che Guevara: “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera”.
Um grande abraço!
Tide e Augusto
A publicação desta carta é a reafirmação pública incondicional do que já escrevera neste espaço em 29 de maio de 2007, sobre Orlando Silva, meu amigo pessoal e grande correligionário: "compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz."
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Terra proibida
Flávio Gomes*
Ontem o governador de SP, Geraldo Alckmin, vetou o projeto de lei que liberava a volta das bandeiras aos estádios de futebol.
Em 1995, elas foram proibidas. Aconteceu uma briga monumental num jogo de juniores entre Palmeiras e São Paulo no Pacaembu e um rapaz foi morto a pauladas.
Não foi um mastro de bandeira que matou o rapaz. O estádio estava em obras e os irresponsáveis do governo de SP (que cuida da PM) e da Prefeitura (dona do Pacaembu) não se tocaram que aquilo era um arsenal gratuito à disposição de duas torcidas rivais e violentas. Em jogo sem cobrança de ingresso entre esses dois times, colocar suas organizadas dentro de um estádio cheio de entulho e material de construção deveria levar todas as autoridades à cadeia.
Mas o que foi feito? Proibiram as bandeiras. Faz 16 anos.
Quem tem hoje menos de 20 nunca frequentou um estádio em SP com bandeiras. Os estádios de SP são de uma tristeza atroz. Tudo é proibido. É proibido pintar o rosto. É proibido levar cornetas e rádios de pilha. Instrumentos de sopro, das velhas bandinhas, não entram. O prefeito acabou com as barraquinhas com sanduíches de pernil. Cerveja não pode, também.
Aliás, ontem eu fiz uma listinha de coisas que os sucessivos governos estadual e municipal andaram impondo em SP nos últimos tempos.
Não pode fumar em bar. Há uma perseguição às barracas de pastel nas feiras. Radares controlam nossas vidas: não fez a inspeção veicular? O radar te fotografa. Pegou um congestionamento e ficou preso no trânsito no horário do seu rodízio? O radar te fotografa. Às 11h a maioria dos botecos fecha suas cozinhas, porque à 1h reina o silêncio e o estado de sítio. Luminosos de néon desapareceram. Não pode usar celular dentro de banco. Não pode usar sacola plástica em supermercado. Não pode isso, não pode aquilo. Já não sei mais o que pode e o que não pode.
Mas fiquemos nos estádios e nas bandeiras.
Frequento estádios há 40 anos. Nos últimos 20, para arredondar, as torcidas uniformizadas viraram gangues. Marcam brigas pela internet, se pegam nas estações de metrô e nos terminais de ônibus. Nunca ninguém morreu atingido por um bambu ou por um cano de PVC dentro de um estádio. Mas as bandeiras se transformaram nas grandes vilãs. Proibimo-las, e a paz reinará no futebol.
Não há briga dentro de estádio. Quem já sentou a bunda numa arquibancada sabe disso. As brigas acontecem fora, e são anunciadas, agendadas com dia, hora e local. Mas as autoridades de segurança, incompetentes e preguiçosas, se abstêm de evitar que ocorram. Não prendem ninguém, morrem de medo. Proíbem as bandeiras, é mais fácil. Há 16 anos não temos mortes causadas por bandeiras, é capaz de dizer um desses. O governador Alckmin, talvez.
Meus filhos, que frequentam estádios, nunca viram bandeiras em SP. Quando assistem a jogos de outros Estados e países pela TV, acham tudo lindo. Ficaram felizes da vida quando eu disse que um projeto para liberar as bandeiras tinha passado na Assembleia. Perguntam todo dia quando vão poder levar bandeiras ao Canindé. Faltava só o governador sancionar a lei. E o cara veta o projeto por questões de segurança. Não tem a mais remota ideia do que está falando e fazendo, mas fala e faz. Tira a cor e a alegria dos estádios, e que se foda. Não discute a questão, não ouve ninguém, não tem o menor contato com a realidade. Incapaz de prover segurança à população, joga nas bandeiras a responsabilidade por sua incapacidade. Não há, repito, problema algum dentro de estádio de futebol. Faz tempo. Hoje as torcidas são separadas, há limite de ingressos para visitantes, as merdas todas acontecem bem longe e nada têm a ver com o futebol em si, com os jogos, com os eventos. De novo: são gangues conhecidas e identificadas, é só ir atrás, prender, processar, julgar.
Mas isso dá um trabalho… Então, proíbem as bandeiras.
Essa gente, como disse um amigo, está precisando de um banho de povo.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Defender a vida ou defender-se da vida?
Substratos ideológicos da questão da produção de saúde no município de São Paulo
Ana Lucia Marinho Marques
“O
prefeito fará uma visita à nossa unidade na próxima semana”.
Dita essa frase, inicia-se um movimento desesperado de ordenação e
organização dos espaços e lugares. Nada pode estar fora da posição
determinada. Cadeiras laranjas não podem conviver com as pretas. Nas
paredes, não pode haver nenhum cartaz, aviso, foto ou rabisco. E, a
fim de garantir o bom andamento da visita, nenhum usuário do serviço
que ameace esboçar qualquer tipo de questionamento ao senhor
prefeito deve ser convidado para a cerimônia.
Talvez
não tenha começado bem aí. Mas essas cenas recorrentes começaram
a me dar indicativos do que se estava (está) compreendendo por
espaços de produção de saúde: paraísos assépticos,
higienizados, limpos e organizados. A cena descrita não é mera
simulação. Foi reproduzida, ao longo desta gestão, muitas vezes,
em diversos serviços de saúde, sempre sob justificativas
diferenciadas.
Agora,
chegando ao extremo dessa compreensão, sob o pretexto de defesa da
saúde, crianças, jovens e adultos em situação de rua estão sendo
gentilmente convidados a se retirarem das ruas e encaminhados para que possam ser
alocados em espaços mais "apropriados". De preferência, para além de
onde nossa vista possa alcançar.
Em torno à figura do usuário de crack, o “crackeiro”, constrói-se um discurso médico-sanitário, que o “liberta” de um certo discurso exclusivamente moral, mas o aprisiona no lugar de doente, tornando-o inofensivo e esvaziando seu potencial de desterritorialização. Esse sujeito, assim, é reputado incapaz de realizar escolhas para a sua própria vida, precisando que um ser qualificado lhe diga o melhor caminho a tomar. E os profissionais de saúde, dotados de poderes socioculturalmente atribuídos, são incumbidos de desempenhar esse papel de estabelecer definições e certezas. E o melhor, nesse caso, é que seja confinado a espaços adequados de tratamento, a despeito do que possa ser a sua vontade, para que se tornem aptos a se reintegrarem à sociedade.
Melhor
para quem? Quem escutou esses sujeitos antes da proposição de tais
propostas e projetos de lei? Antes de serem doentes
(e não pretendo, de maneira nenhuma, negar a
dimensão do sofrimento corporal envolvido na experiência de
dependência de uma substância psicoativa), estamos falando de
cidadãos
a
quem, em sua maioria, foi negado o acesso aos bens e direitos sociais
básicos. O “drogado”, esse que mora na rua, que atrapalha o
trânsito, a segurança e a bela vista da cidade parece, também,
denunciar a falência de uma administração pública que ao invés
de encarar as condições sociais que produzem esse tipo de situação
e construir políticas públicas consistentes para enfrentá-las,
resolveu se defender. E esconder aquilo que não se quer ver.
Difícil
não associar: os diversos internamentos (dos leprosos, dos
tuberculosos, dos vagabundos, dos loucos, de todos os grupos em torno
dos quais, em dado momento, não havia tolerância possível),
possibilitados e legitimados em determinados contextos
sócio-históricos, estiveram, de certa forma, relacionados a
questões de trabalho e como forma de combate da miséria. Seria
desta vez diferente? Muda-se o ator social, e do que se está
falando, afinal?
Sob
a bandeira do cuidado, estão justificativas tão absurdas quanto bem
elaboradas. Algumas ditas, outras veladas. Passiveis de
interpretações as mais variadas. Cria-se uma sensibilidade social
em torno do tema que vai criando cenários possíveis e condições
necessárias para o desenrolar de um novo (ou o mesmo?) tipo de
confinamento. Sob o ideal asséptico de uma cidade livre dos males
que a assolam, subjuga-se a potência da vida de encontrar respostas.
Produção
de saúde é produção de vida. Vida que se dobra e desdobra, que
imagina e desenha linhas de fuga. E que cria e criará, sem dúvida,
lugares possíveis de existência e de resistência ao ideal da
construção de uma Cidade Limpa.
* terapeuta ocupacional, mestre pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Anti-blogue
Este blogue caminha
para completar oito anos no ar. Seria uma bela marca, fosse ele um
blogue de verdade; antes, se não se tivesse erigido num quase verdadeiro anti-blogue - o que em nenhum momento foi intenção, mas
eu gosto da expressão, que se não me engano é do Zé Sérgio Rocha.
Nos blogues de verdade,
como é prática absolutamente corriqueira em qualquer meio de
comunicação hoje em dia, a “audiência” é monitorada
sistematicamente. O prestígio dos “blogueiros” ( e "tuiteiros" e outros "eiros" que não se precisa relacionar), verdadeiros
arautos do mundo hiper-conectado, varia diretamente em função do
número de acessos registrado; conseqüentemene, os convites que
recebem etc. Lembro-me do caso – mas não me lembro exatamente onde
foi – de gente que, quando os acessos caíam, metia lá em alguma
parte, para inflar artificialmente os índices, uma expressão de
busca dessas campeãs do Google , normalmente relativa aos fetiches
sexuais mais bizarros (são engraçadíssimas, só não reproduzo
porque a coisa funciona mesmo e tarados por aqui bastam os de
sempre...).
Não vou mentir que
seja adrede, mas o fato dificilmente contestável é que esse espaço
parou de ser alimentado toda vez que a média de audiência
começou a inchar. Nada muito além, diga-se, de 70 ou 80 acessos
diários, o que é literalmente nada. É só que vai passando o
tempo, e a gente tem cada vez menos o que dizer para o mundo e cada
vez mais para a meia-dúzia da barra da saia. Não chega a ser uma
opção; é mais uma conseqüência do que se diz, do como se diz e
do sobre o que se fala, sobretudo. Este ofício não é propriamente
produto de vaidade: é um exercício doloroso de punção das
pequenas e grandes ulcerações que a vida vai colecionando pra nós,
e que seria muito mais prudente deixar repousar em seus recônditos.
Ora direis: por que
então não segue, então, sem publicar? Por que às vezes é triste
que isso tudo vá desaparecer para sempre qualquer dia desses, sem
vestígio, sem possibilidade. Os que engarrafaram eternamente suas
mensagens não tiveram, necessariamente, a esperança ou a fé no
resgate.
Assim, é com
indisfarçável satisfação que constato que em quase oito meses de
inatividade, a média de acessos só não foi a zero por causa
daqueles que aportam nesta praia por absoluto acaso a partir dos
mecanismos de busca. E que a expressão campeoníssima, disparado, é
“simpatia gases”, seguida por “greve 1917”. Aos peidorreiros
impedernidos e aos grevistas ultra-mortos – meus irmãos, meus
semelhantes! - minha gratidão sincera, meus respeitos. Meu brinde.
Em vossa honra e com vosso incentivo, sigo.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Torneirinhas
O que me anima a
continuar por aí dizendo minhas bobagens, escorado nos balcões da existência, é que mesmo os bons vez por outra deixam os pudores de lado e abrem
suas “torneirinhas de asneiras”, como o bom Visconde de Sabugosa
se referia às pérolas vindas da cabecinha cheia de macela da
Emília. Só assusta um tantinho, vez por outra, quando ameaçam levar as patacoadas a sério.
Vejam o que soltou o
nosso estimado Luiz Fernando Veríssimo, com seu invejável talento para manejar a pena (e não é boato da
Internet...), no Estadão
de hoje. Pois ele também tem direito. Não tem problema nenhum.
Desde que não se leve a sério.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Modernização (II)
4.475 casas demolidas
Em quatro anos
quatro
mil quatrocentos e setenta e cinco casas
demolidas
Os números impressionam
Não impressionam os escombros em vez das camas
O entulho onde antes os fogões e as geladeiras
A nudez ladrilhada despojada de paredes
Não nos diz respeito que se usurpem
as comidas os amores as vergonhas
A quem impressionaria a roseira jacente?
- a ninguém interessa que tenha visto envelhecer gerações
Por que importariam as velhas janelas abertas para dentro
Qualquer beleza?
- Deus... a imensidão! da beleza extirpada
Não impressiona
Talvez
por isso
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Patas-de-vaca
As patas-de-vaca da
cidade de São Paulo organizaram-se decididamente para proporcionar o
mais belo espetáculo urbano desse ressequido e poluidíssimo mês de
agosto. O apelido simpático da Bahuinia forficata
faz alusão ao formato de suas folhas, inconfundível para quem
aprecia um belo caldo de mocotó. De popularíssimo emprego no
tratamento e controle da diabete, as arvorezinhas que grassam pela
cidade inteira este ano resolveram exibir com máxima pujança e
exuberância (parece-lhes redundante?) as lindíssimas flores que vão
do mais inobjetável branco aos diversíssimos matizes róseos e
lilases, algumas mesclando inexplicavelmente mais de uma variedade.
Com algum exagero chegaria a dizer que estão valendo a visita a esta
costumeiramente triste cidade, até porque os ipês e azáleas (era
assim que meu avô dizia), afrontados com a inesperada ofensiva,
também se têm esforçado em não fazer feio, a despeito do
campeonato de 2011 já ter sido abocanhado pelas mimosas
bovinodáctilas.
Em tempo, a propósito da
última palavra, invenção modestamente bem sucedida deste despretencioso artífice, é imperioso consignar o quão estúpidas, além de
aborrecidas, são as reformas ortográficas. O “c” mudo, banido
há décadas da versão oficial da última flor do lácio que se vem
estabelecendo por estas plagas, não bastasse emprestar indiscutível
graça adicional à palavra, clarifica-lhe tamanhamente o sentido e,
principalmente, a remissão visual.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O cozinheiro
Pouca coisa mais
difícil de extirpar que um hábito. Não sou nenhum Edu Goldenberg,
mas não posso negar minhas tendências obsessivas.
Há anos almoço todos
os dias, religiosamente, no mesmo lugar. Um minúsculo restaurante
japonês, mais propriamente um “nipo-butiquim”, encravado no mais
improvável dos buracos. Não acharia jamais, não tivesse me servido
ocasionalmente de abrigo, num desses temporais paulistanos de
fevereiro ou março.
Dia após dia, calado
como um daruma, o pintado no gato, o cego no peixe
cru, fui sacando as histórias. Tem quarenta anos de existência o
lugar, vinte sob o comando da “Dona Maria”, como é mais
conhecida a japonesinha invocada que começou como empregada da
antiga dona, tão solícita quanto mau-humorada, típica dona de
butiquim, com nome de orixá: Iroko. Chegada num “colunismo
social”, por assim dizer, sabe e faz saber da vida de todo mundo
por ali. Fiquei sabendo que o dentista não paga pensão pra
ex-mulher; que o “doutor” enriqueceu fraudando concorrências
públicas; soube, inclusive, o valor do cachê da modelo, ex-miss. Da
minha vida - eu que não abro a boca - amigo meu veio me dizer coisa
que nem eu sabia.
Quando alguma coisa não dá certo, a culpa inapelavelmente é do cozinheiro. Mas não só. Espécie de alter-ego, se fala de política, conta em quem “o cozinheiro” vai votar. Se o assunto é futebol – palmeirense, a Dona Maria, mais inteirada nos bastidores da Sociedade que o Savério Orlandi, o Téo Bressan e o Fernando Borgonovi juntos – “o cozinheiro” é quem vê todos os jogos da rodada. Um dia contou que “o cozinheiro” tinha passado mal de noite. Era o marido, o cozinheiro.
Obra da meia hora
cotidianamente compartilhada, seguíamos todos ali, juntando solidões
e cultivando dependências. Craque no ofício abraçado e vocação
de matriarca, Dona Maria não esquece as preferências e as
restrições da dieta de cada cliente, recebido sempre com a saudação
de praxe e a pergunta que jamais falha:
-Irashaimase!
Hoje o que vai sero?
Espécie de gato
japonês, luta há mais de vinte anos contra a doença. Distribuindo
lições de garra, coragem e vontade de viver, de vez em quando os
olhinhos puxados não disfarçam a dor. Mancando pra lá e pra cá,
no trazer de comidas e no levar de louças, já vi responder a mais
de um desavisado:
- O que foi na perna,
Dona Maria?
- Câncero.
Em meados de novembro,
para desespero de umas duas dúzias de batedores de ponto, anunciou
que venderia o restaurante. Desdenhamos da ameaça, que muita gente
jurava recorrente. Fustigada daqui e dali, começou dizendo que não
agüentava mais, que estava cansada. Depois, passou a aleardear que
era por causa de briga com sua principal garçonete, dezoito anos de
casa, dezessete e meio de briga. Um belo dia, balcão vazio, sem que
eu perguntasse, confidenciou: “O cozinheiro está muito doente. Ele
cuidou de mim quando precisei. Agora preciso cuidar dele.” Mas
ninguém seguia acreditando no intento.
Voltando hoje das
férias, cheguei pra almoçar. Butiquim fechado, placa de “passa-se
o ponto”.
Morreu o cozinheiro, no
primeiro dia do ano.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Jean Morgan
Na hora da inscrição, surpreendeu-se de não ter dado conta do problema elementar, mas acabou achando graça. Família tradicional, vinda da Gávea para o Engenho Velho em longínquas primaveras, sobrenome composto, de muitos costados, o jeito era arrumar um pseudônimo. Essa coisa de cantar no rádio, afinal, não podia ser coisa de moça de família. Lascou, então, premida pela ocasião, uma mistura de nomes americanizados que acabara de ler numa revista de cinema; porque afinal essa era a nova moda naqueles anos 40 povoados da propaganda estético-ideológica do Tio Sam. Assim nasceu Jean Morgan. Sem grandes pretensões, diga-se de passagem.
E não é que a moça era afinada? E não é que tinha lá uma graça de flor da idade, levemente apimentada pela inusitada quase-travessura de meter-se a cantar, de repente, num concurso de calouros, sem o consentimento dos pais? Mas o que embasbacava todos, mesmo o conhecido apresentador ranzinza, era a elegância. Ah, a elegância...
E de etapa em etapa, assim como não quer nada, foi avançando. Quando voltava para casa de pretensos footings na Rua Uruguaiana, no cair da tarde, Mathilde encontrava a família em alvoroço. A irmã logo se apressava em pô-la a par de mais uma grande apresentação de Jean Morgan, a favorita da família! “Papai era o mais empolgado!” Mas o velho, claro, fazia que não era com ele. Em comum, o grande estranhamento com o fato da jovem, de hábito tão encantada pelas coisas da música e do rádio, quedar-se tão alheada do concurso que era “o assunto” de todas as rodas. Disfarçava, às vezes: “ouvi o rádio ligado na casa Sloper...”.
E, como era de se esperar, chegou a grande final. A família, dedicada na torcida, achou muitíssimo injusta a primeira colocação do insosso doublé de Bing Crosby, que não podia fugir da alcunha de sotaque yankee: Dick Farney. A indignação foi até capaz de arrancar de Seu Eugênio, o patriarca, o único comentário em semanas de certame: “Essa gente de rádio não vale mesmo nada! Com certeza, tudo já arranjado!”
Mathilde estava feliz, no bonde que a trazia da rádio, na Cidade, para a Tijuca. Tudo era festa, então! A cabeça levemente recostada na balaustrada, devaneou nas asas de seus auspícios juvenis. Jean Morgan estava feita, carreira engatilhada. Os convites não tardariam! A carreira no disco seguiria a trilha inevitável de sendas bem calçadas no bom gosto do repertório, na sensibilidade para o apetite da época, e na sólida formação que carregava do lar quatrocentão. Que agora lhe sorria para, senão o sucesso retumbante, o pleno reconhecimento de um público distinto e fiel!
E assim seria, durante muitos anos na atividade que lhe encheria o peito de suaves satisfações e de uma alegria perene. Mas o solavanco do bonde lhe podou, inapelavelmente, a verve! A Tijuca, enfim... Em casa, o remédio agora era contar. Ninguém, mesmo, achou muita graça na burleta; com o máximo da boa-vontade, uma admiração-pontinha-de-inveja da irmã. Os footings proibidos, a vigilância redobrada, que se dedicasse à tarefa elementar de se casar. Como tinha que ser.
Mas, quem viu, dá testemunho da propalada elegância. Ah, a elegância...
[para Maria, Isaac, Fernando, Cristiano e Eduardo, com funda saudade, em homenagem à flor mais perfumada - e elegante! - de todo o Engenho Velho]
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Butiquim que se preza
Butiquim que se preza,
ninguém sabe o endereço; só sabe chegar.
Butiquim que se preza
deve ter razão social e nome fantasia. Mas estes devem ser
solenemente ignorados pela clientela, que só se referirá ao
estabelecimento pelo genitivo: “bar do Zé”, “buteco do Juca” etc.
Butiquim que se preza
só tem um banheiro, unissex. Mas se tiver mais um, feminino, é
imperativo que seja trancado e que a chave fique em poder da mulher
do proprietário, responsável pela culinária da bodega.
Butiquim que se preza
tem limão e/ou gelo no mictório. Tolera-se a naftalina. Papel
higiênico também tem que ser solicitado ao portuga.
Na arquitetura do
butiquim que se preza, o balcão é de longe o elemento
preponderante. Todos os demais devem estar em função dele.
Butiquim que se preza
não serve batata frita, não tem quéti-chupe, nem maionese.
Butiquim que se preza
tem vitrine para exibir as iguarias produzidas pela cozinha local.
Nesta, deverão estar permanentemente expostos, ao menos: 1) algum
ovo de coloração diferente da natural; 2) uma sardinha e/ou
lingüiça preparadas minimamente com 24 horas de antecedência.
Cerveja, no butiquim
que se preza, é Brahma e/ou Antárctica. Só. Estúpidas.
Vá lá, Caracu.
Butiquim que se preza
não vende cerveja de lata, a não ser, em último caso, pra viagem. Deve haver meia-cerveja, para os bebedores solitários
ou apressados. De garrafa, desnecessário repisar.
Butiquim que se preza
tem seus solitários obrigatórios.
Butiquim que se preza
tem pinga da casa, purinha, de alambique, de preferência num
garrafão azul. Mesmo que abastecido, religiosamente, com a 51 mais
ordinária.
Butiquim que se preza não bate sol dentro em nenhuma hora do dia, nenhuma época do ano.
Butiquim que se preza
não usa nenhum utensílio descartável, salvo guardanapos.
Em butiquim que se
preza, palito é no paliteiro, sal é no saleiro. Parece absurdo?
O repertório de copos
do butiquim que se preza se resume ao indefectível americano, o
longo e alguma espécie de abaulado, para os tomadores de conhaque.
Todo butiquim que se
preza tem o seu tomador de conhaque.
Butiquim que se preza
deve ter um cardápio enxuto, necessário e suficiente: os malfadados
petiscos de vitrine, que mataram o guarda; tremoços, azeitonas e
amendoins. Uma conserva de procedência duvidosa pode eventualmente
ser bem vinda. Se servir almoço, prato do dia, mais duas ou três
opções no comercial. Mais nada.
Aliás, butiquim que se
preza não deve ter nenhum guarda num raio mínimo de 300 metros.
Butiquim que se preza
todo mundo sabe o nome de todo mundo. Mas ninguém sabe o sobrenome
de ninguém.
Butiquim que se preza
deve guardar, na freqüência, desproporção de gênero da ordem de
10 para 1. Dez homens pra cada mulher, bem entendido. Mesmo as
moscas, preferencialmente devem ser do sexo masculino.
Em butiquim que se
preza, tudo se discute. Nada se estabelece.
Butiquim que se preza ostenta obrigatoriamente um nicho ou altar em honra ao protetor do estabelecimento, prevalencendo estatisticamente São Jorge, Seu Zé e o Padre Cícero.
Butiquim que se preza deve tolerar as manifestações artísticas esporádicas de seus freqüentadores, sejam discretas batucadas de balcão, até ajuntamentos musicais de grandes proporções. Fazer o quê?
Butiquim que se preza deve tolerar as manifestações artísticas esporádicas de seus freqüentadores, sejam discretas batucadas de balcão, até ajuntamentos musicais de grandes proporções. Fazer o quê?
Butiquim que se preza
tem que ter um dono mal-humorado, tendente a grosso, de preferência
português ou espanhol. E se tiver garçom, que seja gentil, discreto
e fumante.
A visita à cozinha do
butiquim que se preza é vivamente desaconselhada.
Butiquim que se preza
deve vender, basicamente, além dos birinaites enebriantes e comidas
insalubres, gêneros de primeira necessidade como cigarros, fósforos
e fichas telefônicas. Não muito mais que isso, para evitar atrair a
freqüência demasiada de estranhos ao ambiente do bar.
Butiquim que se preza
deve ter televisão com bombril na antena, que será ligada única e
exclusivamente nos horários de jogos de futebol envolvendo as
agremiações locais ou o Escrete. E olhe lá.
A presença de crianças
num butiquim que se preza é apreciada, discretamente, à guiza de
formação das novas gerações, exclusivamente pelo tempo compatível com o grau de iniciação do
neófito.
Em butiquim que se
preza, ninguém é “afro-descendente”, “de opção sexual
diferenciada”, ou “portador de
necessidades especiais”. Preto é preto, crioulo, negão; viado é
viado, bicha, perobo. Cego é cego, surdo é surdo, aleijado
é aleijado. E os crioulos, viados e aleijados que o freqüentam não
se sentem, por isso, ofendidos.
Em butiquim que se
preza não se diz “veado”.
Butiquim que se preza
deve conter cartazes com ditos edificantes para a educação do povo,
tais como “a inveja é uma merda”, “fiado só para maiores de
80 acompanhado dos avós”, que devem figurar ao lado do pôster do time do coração do bodegueiro.
Em butiquim que se
preza, nada é proibido. Mas nem tudo é permitido.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Campanha: convença um amigo a cancelar a assinatura da Folha
Tenho quatro leitores. Seria até mais fácil telefonar. Mas esses quatro tem blogues e colunas e tuíteres e quejandos lidos por centenas e centenas de pessoas.
O Só dói lança aqui a campanha: convença um assinante da Folha de S. Paulo a cancelar sua assinatura. Vamos ajudar a falir o jornalzinho dos frias (a minúscula não é erro de digitação). Deixe também, como eu, de comprar na banca. É difícil às vezes, eu sei. Como parar de fumar, fazer regime etc. Trata-se apenas de abolir um mau hábito que se transformou em vício. Quando for 1º de abril, faça uma concessão à mentira e acesse a edição via Internet, se até lá eles não tiverem falido.
Estão acompanhando as investidas dos safados para denegrir o passado da presidente eleita? Afortunadamente, todas têm saído pela culatra. Confiram aqui.
O Só dói lança aqui a campanha: convença um assinante da Folha de S. Paulo a cancelar sua assinatura. Vamos ajudar a falir o jornalzinho dos frias (a minúscula não é erro de digitação). Deixe também, como eu, de comprar na banca. É difícil às vezes, eu sei. Como parar de fumar, fazer regime etc. Trata-se apenas de abolir um mau hábito que se transformou em vício. Quando for 1º de abril, faça uma concessão à mentira e acesse a edição via Internet, se até lá eles não tiverem falido.
Estão acompanhando as investidas dos safados para denegrir o passado da presidente eleita? Afortunadamente, todas têm saído pela culatra. Confiram aqui.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Lula, o Homem do Brasil
Eu que acreditei desde há muito tempo, que fiz as críticas todas que achei que deveria fazer, que me emocionei, que me orgulhei, queme decepcionei, que me emputeci, que apoiei quando muita gente quis pular do barco, mas que também quis romper quando os camaradas (acertadamente) decidiram permanecer, posso afirmar, com o orgulho de quem ama o Brasil acima de todas as coisas, e sem a soberba dos que crêem nunca errar: LULA é um dos maiores líderes populares da história, e um dos maiores brasileiros que este torrão pôde gerar. Tenho muito, MUITO ORGULHO DE MEU PRESIDENTE!
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Um brasileiro maiúsculo
Celso Antônio Bandeira de Mello é não somente o maior jurista brasileiro de todos os tempos - digo isso há mais de 15 anos - mas um dos maiores brasileiros do nosso tempo. Um homem cuja dignidade se ombreia à imensa estatura intelectual, a ponto de ser coerente com suas posturas e valores, acima mesmo de eventuais conceitos (esses, históricos, portanto cambiáveis).
Nesse memorável depoimento, Bandeira acrescenta mais um digníssimo capítulo a sua extensa biografia de grandes serviços prestados ao Brasil. Minha homenagem, meus respeitos, a este que tanto engrandece a advocacia, o magistério e a Pátria, de quem, afortunadamente, tive a honra de ser aluno.
Nesse memorável depoimento, Bandeira acrescenta mais um digníssimo capítulo a sua extensa biografia de grandes serviços prestados ao Brasil. Minha homenagem, meus respeitos, a este que tanto engrandece a advocacia, o magistério e a Pátria, de quem, afortunadamente, tive a honra de ser aluno.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Declaração de voto
Empresto dessa caneta mais competente e desse coração mais generoso, as palavras precisas, suficientes e necessárias, para declarar, sem titubear, meu voto no camarada Netinho de Paula para o Senado da República.
Netinho e a hipocrisia dos que nunca erram
Bruno Ribeiro*
É com certo desânimo que tenho recebido, de gente próxima a mim, comentários do tipo: “Você vai votar no Netinho para Senador? Aquele pagodeiro espancador de mulheres? Não acha uma contradição?”.
Netinho e a hipocrisia dos que nunca erram
Bruno Ribeiro*
É com certo desânimo que tenho recebido, de gente próxima a mim, comentários do tipo: “Você vai votar no Netinho para Senador? Aquele pagodeiro espancador de mulheres? Não acha uma contradição?”.
.
Queria dizer que não, não acho uma contradição. Netinho não é um “espancador de mulheres”. Ele cometeu uma agressão e pagou por isso. Ninguém está isento de errar na vida. Desconfio dos arautos da moralidade, dos que se dizem perfeitos e extremamente honestos ou justos. Tenho medo de quem nunca erra.
.
O leitor Sinval quer saber se vou votar em Netinho.
.
Por quê?, pergunta ele. Inicialmente, pensei em responder: “Porque sim”. Mas, como tenho visto muita gente indignada com a adesão que a candidatura do negão tem recebido, vou tentar justificar meu voto, sendo breve e direto:
.
1) Esse papo de que Netinho bateu na ex-mulher e que, por este motivo, não poderia se candidatar, é hipocrisia pura. Num momento de descontrole, no calor da discussão, ele cometeu uma agressão covarde, foi processado, pagou por isso, pediu perdão, foi perdoado e ganhou elogios até da Maria da Penha, a grande feminista brasileira. Muita gente que o critica tem o telhado de vidro. Ninguém está isento de cometer uma agressão e isso não faz de alguém, necessariamente, um criminoso.
.
2) Votarei em Netinho porque, num eventual governo Dilma, ele estará do nosso lado. Netinho é do PC do B, partido que está na base aliada do governodesde o primeiro mandato de Lula. Ter muitos aliados no Senado é fundamental. Os senadores criam e alteram leis no âmbito federal. Quanto menos aliados Dilma tiver no Senado, mais dificuldades ela terá para governar. Em São Paulo, só temos dois candidatos governistas ao Senado: Marta Suplicy e Netinho de Paula. É óbvia a razão pela qual votarei em ambos: se voto em Dilma, voto em quem está com ela. Do contrário, eu estaria atrapalhando o futuro governo.
.
3) Por fim, posso dizer que também acreditei, um dia, que Netinho pudesse ser um candidato fabricado, um aventureiro, um oportunista. Só que não fiquei no achômetro. Não dei muita atenção para boatos. Fui atrás de informações seguras, consultei fontes confiáveis e gente do partido, li entrevistas concedidas por ele, falei com o próprio candidato e, então, percebi que eu estava sendo preconceituoso. Eu não o conhecia fora do contexto midiático e fazia um julgamento apressado, baseado somente em impressões erradas adquiridas pela televisão. Essa "caixa de fazer doido" é mesmo coisa séria.
Queria dizer que não, não acho uma contradição. Netinho não é um “espancador de mulheres”. Ele cometeu uma agressão e pagou por isso. Ninguém está isento de errar na vida. Desconfio dos arautos da moralidade, dos que se dizem perfeitos e extremamente honestos ou justos. Tenho medo de quem nunca erra.
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O leitor Sinval quer saber se vou votar em Netinho.
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Por quê?, pergunta ele. Inicialmente, pensei em responder: “Porque sim”. Mas, como tenho visto muita gente indignada com a adesão que a candidatura do negão tem recebido, vou tentar justificar meu voto, sendo breve e direto:
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1) Esse papo de que Netinho bateu na ex-mulher e que, por este motivo, não poderia se candidatar, é hipocrisia pura. Num momento de descontrole, no calor da discussão, ele cometeu uma agressão covarde, foi processado, pagou por isso, pediu perdão, foi perdoado e ganhou elogios até da Maria da Penha, a grande feminista brasileira. Muita gente que o critica tem o telhado de vidro. Ninguém está isento de cometer uma agressão e isso não faz de alguém, necessariamente, um criminoso.
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2) Votarei em Netinho porque, num eventual governo Dilma, ele estará do nosso lado. Netinho é do PC do B, partido que está na base aliada do governodesde o primeiro mandato de Lula. Ter muitos aliados no Senado é fundamental. Os senadores criam e alteram leis no âmbito federal. Quanto menos aliados Dilma tiver no Senado, mais dificuldades ela terá para governar. Em São Paulo, só temos dois candidatos governistas ao Senado: Marta Suplicy e Netinho de Paula. É óbvia a razão pela qual votarei em ambos: se voto em Dilma, voto em quem está com ela. Do contrário, eu estaria atrapalhando o futuro governo.
.
3) Por fim, posso dizer que também acreditei, um dia, que Netinho pudesse ser um candidato fabricado, um aventureiro, um oportunista. Só que não fiquei no achômetro. Não dei muita atenção para boatos. Fui atrás de informações seguras, consultei fontes confiáveis e gente do partido, li entrevistas concedidas por ele, falei com o próprio candidato e, então, percebi que eu estava sendo preconceituoso. Eu não o conhecia fora do contexto midiático e fazia um julgamento apressado, baseado somente em impressões erradas adquiridas pela televisão. Essa "caixa de fazer doido" é mesmo coisa séria.
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Resumindo: o fato de Netinho ser um “pagodeiro” (como dizem alguns em tom de deboche) não o impede de ser um bom político e de exercer dignamente o seu mandato. Nem o fato de ser preto e da periferia. Esses são detalhes que não fazem dele um homem melhor ou pior, mas acrescentam qualidades simbólicas à sua eleição. Esses oito anos de governo Lula derrubaram muitos mitos. Um deles é o de que pessoas de origem humilde não são capazes de ocupar cargos de protagonismo na política nacional. Conversando com Netinho, percebi que ele está muito mais preparado do que certas raposas velhas que estão no Congresso há décadas.
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Para quem ainda acha que Netinho de Paula (650) não tem condições de ser senador, recomendo vivamente a entrevista abaixo. Nela, o candidato se mostra bem articulado e consciente ao falar sobre suas pretensões políticas, sobre comunismo e sobre o caso da agressão, entre outros temas que rondam as bocas.
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Para quem ainda acha que Netinho de Paula (650) não tem condições de ser senador, recomendo vivamente a entrevista abaixo. Nela, o candidato se mostra bem articulado e consciente ao falar sobre suas pretensões políticas, sobre comunismo e sobre o caso da agressão, entre outros temas que rondam as bocas.
[publicado originalmente no blogue A trincheira, mantido por meu fraterno e dileto amigo Bruno Ribeiro, homem honrado, jornalista maiúsculo.]
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Dois-dois
(Dadinho, Mateus e
Clóvis)
Dois-dois eu caio
Não me jogue no chão
Eu caio, eu caio
Não me jogue no chão
Eu sem Dois-dois não
posso vadiar!
Dois-dois eu caio
Não me jogue no chão
Eu caio, eu caio
Não me jogue no chão
Doces, frutas vou
comprar
Vou levar o meu
presente
Para ele me ajudar
Doce para a meninada
Pra São Cosme eu vou
cantar
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Nem tudo está perdido - II
Depois de quase 7 anos no ar, o Só dói entra definitivamente na era multimídia e publica hoje o seu primeiro vídeo.
Quem me acompanha a Itabirito? Viva o Brasil!
Agradecimento especial à querida Mariana Blanc. Ganhei a semana.
Quem me acompanha a Itabirito? Viva o Brasil!
Agradecimento especial à querida Mariana Blanc. Ganhei a semana.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT
Leonardo Boff
Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu,”capado e recapado, sangrado e ressangrado”.
Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os paises mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.
Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fôra construida com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam:”façamos nós a revolução antes que o povo a faça”.
E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de um outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado.
Escândalo dos escândalos para as mentes súcubas e alinhadas aos poderes mundiais: um operário, sobrevivente da grande tribulação, representante da cultura popular, um não educado academicamente na escola dos faraós, chegar ao poder central e devolver ao povo o sentimento de dignidade, de força histórica e de ser sujeito de uma democracia republicana, onde “a coisa pública”, o social, a vida lascada do povo ganhasse centralidade.
Na linha de Gandhi, Lula anunciou: “não vim para administrar, vim para cuidar; empresa eu administro, um povo vivo e sofrido eu cuido”. Linguagem inaudita e instauradora de um novo tempo na política brasileira. A “Fome Zero”, depois a “Bolsa Família”, o “Crédito consignado”, o “Luz para todos”, a “Minha Casa, minha Vida, a “Agricultura familiar, o “Prouni”, as “Escolas profissionais”, entre outras iniciativas sociais permitiram que a sociedade dos lascados conhecesse o que nunca as elites econômico-financeiras lhes permitiram: um salto de qualidade. Milhões passaram da miséria sofrida à pobreza digna e laboriosa e da pobreza para a classe média. Toda sociedade se mobilizou para melhor.
Mas essa derrota inflingida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um “não retorno definitivo” e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer
Houve três olhares sobre o Brasil. Primeiro, foi visto a partir da praia: os índios assistindo a invasão de suas terras. Segundo, foi visto a partir das caravelas: os portugueses “descobrindo/encobrindo” o Brasil. O terceiro, o Brasil ousou ver-se a si mesmo e aí começou a invenção de uma república mestiça étnica e culturalmente que hoje somos.
O Brasil enfrentou ainda quatro duras invasões: a colonização que dizimou os indígenas e introduziu a escravidão; a vinda dos povos novos, os emigrantes europeus que substituirem índios e escravos; a industrialização conservadora de substituição dos anos 30 do século passado mas que criou um vigoroso mercado interno e, por fim, a globalização econômico-financeira, inserindo-nos como sócios menores.
Face a esta história tortuosa, o Brasil se mostrou resiliente, quer dizer, enfrentou estas visões e intromissões, conseguindo dar a volta por cima e aprender de suas desgraças. Agora está colhendo os frutos.
Urge derrotar aquelas forças reacionárias que se escondem atrás do candidato da oposição. Não julgo a pessoa, coisa de Deus, mas o que representa como ator social. Ceslo Furtado, nosso melhor pensador em economia, morreu deixando uma advertência, título de seu livro A construção interrompida(1993):”Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta no devir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromer o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35).
Estas não podem prevalecer. Temos condições de completar a construção do Brasil, derrotando-as com Lula e as forças que realizarão o sonho de Celso Furtado e o nosso.
Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu,”capado e recapado, sangrado e ressangrado”.
Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os paises mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.
Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fôra construida com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam:”façamos nós a revolução antes que o povo a faça”.
E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de um outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado.
Escândalo dos escândalos para as mentes súcubas e alinhadas aos poderes mundiais: um operário, sobrevivente da grande tribulação, representante da cultura popular, um não educado academicamente na escola dos faraós, chegar ao poder central e devolver ao povo o sentimento de dignidade, de força histórica e de ser sujeito de uma democracia republicana, onde “a coisa pública”, o social, a vida lascada do povo ganhasse centralidade.
Na linha de Gandhi, Lula anunciou: “não vim para administrar, vim para cuidar; empresa eu administro, um povo vivo e sofrido eu cuido”. Linguagem inaudita e instauradora de um novo tempo na política brasileira. A “Fome Zero”, depois a “Bolsa Família”, o “Crédito consignado”, o “Luz para todos”, a “Minha Casa, minha Vida, a “Agricultura familiar, o “Prouni”, as “Escolas profissionais”, entre outras iniciativas sociais permitiram que a sociedade dos lascados conhecesse o que nunca as elites econômico-financeiras lhes permitiram: um salto de qualidade. Milhões passaram da miséria sofrida à pobreza digna e laboriosa e da pobreza para a classe média. Toda sociedade se mobilizou para melhor.
Mas essa derrota inflingida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um “não retorno definitivo” e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer
Houve três olhares sobre o Brasil. Primeiro, foi visto a partir da praia: os índios assistindo a invasão de suas terras. Segundo, foi visto a partir das caravelas: os portugueses “descobrindo/encobrindo” o Brasil. O terceiro, o Brasil ousou ver-se a si mesmo e aí começou a invenção de uma república mestiça étnica e culturalmente que hoje somos.
O Brasil enfrentou ainda quatro duras invasões: a colonização que dizimou os indígenas e introduziu a escravidão; a vinda dos povos novos, os emigrantes europeus que substituirem índios e escravos; a industrialização conservadora de substituição dos anos 30 do século passado mas que criou um vigoroso mercado interno e, por fim, a globalização econômico-financeira, inserindo-nos como sócios menores.
Face a esta história tortuosa, o Brasil se mostrou resiliente, quer dizer, enfrentou estas visões e intromissões, conseguindo dar a volta por cima e aprender de suas desgraças. Agora está colhendo os frutos.
Urge derrotar aquelas forças reacionárias que se escondem atrás do candidato da oposição. Não julgo a pessoa, coisa de Deus, mas o que representa como ator social. Ceslo Furtado, nosso melhor pensador em economia, morreu deixando uma advertência, título de seu livro A construção interrompida(1993):”Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta no devir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromer o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35).
Estas não podem prevalecer. Temos condições de completar a construção do Brasil, derrotando-as com Lula e as forças que realizarão o sonho de Celso Furtado e o nosso.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Saudades do Poeta
Armando Catunda*
Eu me pergunto: para se apreciar a boa poesia é necessário conhecer o perfil do poeta? É preciso saber se era gay ou hetero, se era drogado ou careta? Cada vez mais admiro os escritores que não se deixam fotografar, não dão entrevistas, não deixam que ninguém deles se aproxime. No entanto, paradoxalmente, adoro as histórias e entrevistas que nos aproximam dos artistas que admiramos e amamos.
Conheci bem o Jairzinho, ou Jasan Frei Madruga, como assinou vários poemas, ou Jair dos Santos Freitas, o poeta de Rota Rota. Aos quatorze anos, lia Sartre, Sade, Rimbaud, e tomava anfetaminas. Precoce não só no intelecto, mas também no amor e na tragédia, foi nesta idade que em um acidente de carro perdeu a namorada por quem era apaixonado. Jair amava o escândalo, como o amaram Buñuel, e os surrealistas. Amava o tabefe, a bordoada estralada. Muito mais que a violência que mata, a bofetada que denuncia, que desmoraliza o canalha.
Muita gente o temia. O que ele podia aprontar quando bêbado? Tudo. O que se imaginar e mais um pouco. E na cara da polícia, sempre que possível. Jair amava a gargalhada., as histórias cômicas. Chapliniano: os fracos, os porra-louca e os oprimidos em geral, tinham a sua simpatia. Para as autoridades era um pesadelo. Sem papas na língua, do discurso articulado e engajado, passava facilmente às ofensas pessoais, e muitas vêzes às bordoadas. Sempre foi de esquerda, militante e petista roxo. Era grande amigo de Telma de Souza, que quando prefeita o convidou para editar uma revista de cultura. Nasceu então, Artéria, feita com enorme cuidado gráfico pelo seu grande amigo Thomézinho e tendo como co-editor Luiz Antonio Cancello, psicólogo, músico, escritor e grande praça. Jair só trabalhava com os amigos.
Amava as mulheres e por elas muito foi amado. Casou-se formal e informalmente muitas vezes. Vestia-se com umas roupas que ninguém mais usaria. Suas bermudas enormes, caindo. (foi o precursor desta detestável moda) eram combinadas com paletós, chapéus e sandálias. Inexplicavelmente havia elegância nessa bizarria fashion. O que a garotada chama de Atitude. Foi o primeiro homem a usar brinco em Santos, chegando de Paris e tamancos holandeses. Era bonito e admirado pelas mulheres, mas como Elvis ou Chet Baker, passou de galã a um homem inchado e doente nos poucos anos de sua vida. Era Glauberiano, verborrágico, discursivo, apaixonado. Houvesse madrugada para caber tanta conversa, tanta bebida.
Suas lindas músicas hoje são conhecidas de bem poucos. Compunha em 90% das vezes tendo o músico João Paulo Maradei, como parceiro. Tocamos em festivais estudantis, e ele venceu um deles com a música Fênix.1 Podia ser seu apelido. Quantas vezes todos os amigos achavam que ele logo morreria. Chegou a ficar verde, inchado, macilento, mas se recuperava sempre. Bebeu e se drogou em quantidades industriais. Uma vez, nos anos 70, levei Perna, pianista e arranjador, depois de um show, para ouvir suas composições. Perna estava fazendo os arranjos dos lp's de Gal e de Bethânia, tocava na excelente banda de Gilberto Gil, e embora tivesse que acordar muito cedo para ir ao estúdio de gravação foi comigo para a Cidade Universitária, só para conhecer as músicas do Jair. Ele não tocou nenhuma. Disfarçou, puxou conversa, serviu muita bebida, fumou muita maconha, e para coroar, distribuiu alguns ácidos entre os presentes. Fugiu de todos os pedidos para tocar. Na mesma época, alguns professores de literatura da U.S.P marcaram uma reunião com ele para conhecer melhor o seu trabalho poético e possivelmente editá-lo. Ficaram plantados, esperando por ele, que não foi. Mandou o Lima, como dizem os músicos. O sucesso o interessava tanto quanto o dinheiro.
Filho de classe média alta foi se empobrecendo pela vida. Foi funcionário público, em seu único emprego remunerado, arranjado pela família, aonde se aposentou por doença e alcolismo. Em 74, realizou em Santos a Mostra Moeda Nacional, composta por fotografias, pinturas e poesias, junto com vários outros artistas. É desta época uma de suas obra -primas: O Duque dos Brasis. Saímos na porrada duas vezes (foi ele que começou).Aos dezoito anos, fomos presos juntos, após um porre homérico, onde conseguimos que o seu parceiro musical, e grande amigo, João Paulo fosse no Camburão de pijama, tendo acabado de sair da cama para nos aturar. Foi internado algumas vezes, em uma delas, me ligou pedindo para levar um som para ele. Fui de toca discos e quase demolimos o hospital Anglo-Americano ao som de Led Zeppelin. Depois me chamou para a janela, com uma banana nas mãos e esperou a vítima ideal, um executivo apressado, de terno e pasta, a caráter. Uma certeira bananada na cabeça e algumas palavras bem colocadas: vai trabalhar, viadinho? Foram suficientes para tirar o homem de negócios de seu mundo previsível, arrancar sua pose, e fazê-lo atirar-se em uma divertida guerra de frutas, de nossa parte, e pedras, da sua. "É preciso aproveitar minha condição de louco", me disse.
Sogras a quem presenteou com revólveres, fascistas de alta patente com quem trocou bordoadas, presidentes de Câmaras Municipais a quem falou o diabo, policiais, o próprio Secretário de Segurança Pública do Estado a quem agrediu, e por ele foi agredido, mendigos com quem trocou confidências, literatos e artistas a quem presenteou com belíssimos poemas escritos em guardanapos de papel, a lista de excentricidades e histórias saborosas e absurdas é rica e vária, mas acaba afastando as pessoas do que realmente importava ao Jair, e que dele ficou cristalizada: sua poesia. Belíssima, enxuta, que em minha cabeceira divide espaço com Gullar, Cabral, Murillo Mendes. Leio-os com o mesmo prazer. Agora que estranhamente não posso mais pegar o telefone e ligar para ele a qualquer momento para falarmos horas sobre tudo e principalmente poesia, sinto que é abominável que o vasto folclore sobre sua vida pessoal, se interponha entre sua obra e o público. O tempo, que não mais o devasta, agora joga a seu favor. Os causos param de se avolumar, sobra a poesia. Em Rota Rota, o poema que dá o título a seu único livro publicado, sua biografia. Em outro poema, a chave para conhecer sua única ambição: a busca do conhecimento. Uma madrugada em que conversando atravessamos de ponta a ponta as praias de Santos, ele me confessou que essa a fonte de sua angústia, sua ambição impossível. No dia de sua morte, relendo Rota Rota, encontro estes versos dedicados à suas filhas:
fora árvore
lhes legaria frutos
fora terra
lhes legaria árvores
fora deus lhes
legaria tudo o conhecimento.
Poucos artistas tiveram sua vida mais comentada e sua obra menos conhecida. A bur(ro)guesia que ele se deleitava em atormentar, nunca suspeitará do perfeito cavalheiro que se escondia nele, nem da mais refinada elegância de sua palavra esculpida no espaço. Mas paro por aqui, pois a saudade que sinto me faz ficar sentimental, e já escuto a gostosa gargalhada do poeta, me gozando. Enquanto escrevo estas mal traçadas, Jairzinho no céu, o Grande Bar Que Nunca Fecha, ri, bebe e cria, e de quebra, passa a mão na bunda de algum anjo.
[publicado originalmente no blogue de Luís Nassif]
* Armando Catunda é fotógrafo, santista e mantém o blogue Impressões Digitais
Eu me pergunto: para se apreciar a boa poesia é necessário conhecer o perfil do poeta? É preciso saber se era gay ou hetero, se era drogado ou careta? Cada vez mais admiro os escritores que não se deixam fotografar, não dão entrevistas, não deixam que ninguém deles se aproxime. No entanto, paradoxalmente, adoro as histórias e entrevistas que nos aproximam dos artistas que admiramos e amamos.
Conheci bem o Jairzinho, ou Jasan Frei Madruga, como assinou vários poemas, ou Jair dos Santos Freitas, o poeta de Rota Rota. Aos quatorze anos, lia Sartre, Sade, Rimbaud, e tomava anfetaminas. Precoce não só no intelecto, mas também no amor e na tragédia, foi nesta idade que em um acidente de carro perdeu a namorada por quem era apaixonado. Jair amava o escândalo, como o amaram Buñuel, e os surrealistas. Amava o tabefe, a bordoada estralada. Muito mais que a violência que mata, a bofetada que denuncia, que desmoraliza o canalha.
Muita gente o temia. O que ele podia aprontar quando bêbado? Tudo. O que se imaginar e mais um pouco. E na cara da polícia, sempre que possível. Jair amava a gargalhada., as histórias cômicas. Chapliniano: os fracos, os porra-louca e os oprimidos em geral, tinham a sua simpatia. Para as autoridades era um pesadelo. Sem papas na língua, do discurso articulado e engajado, passava facilmente às ofensas pessoais, e muitas vêzes às bordoadas. Sempre foi de esquerda, militante e petista roxo. Era grande amigo de Telma de Souza, que quando prefeita o convidou para editar uma revista de cultura. Nasceu então, Artéria, feita com enorme cuidado gráfico pelo seu grande amigo Thomézinho e tendo como co-editor Luiz Antonio Cancello, psicólogo, músico, escritor e grande praça. Jair só trabalhava com os amigos.
Amava as mulheres e por elas muito foi amado. Casou-se formal e informalmente muitas vezes. Vestia-se com umas roupas que ninguém mais usaria. Suas bermudas enormes, caindo. (foi o precursor desta detestável moda) eram combinadas com paletós, chapéus e sandálias. Inexplicavelmente havia elegância nessa bizarria fashion. O que a garotada chama de Atitude. Foi o primeiro homem a usar brinco em Santos, chegando de Paris e tamancos holandeses. Era bonito e admirado pelas mulheres, mas como Elvis ou Chet Baker, passou de galã a um homem inchado e doente nos poucos anos de sua vida. Era Glauberiano, verborrágico, discursivo, apaixonado. Houvesse madrugada para caber tanta conversa, tanta bebida.
Suas lindas músicas hoje são conhecidas de bem poucos. Compunha em 90% das vezes tendo o músico João Paulo Maradei, como parceiro. Tocamos em festivais estudantis, e ele venceu um deles com a música Fênix.1 Podia ser seu apelido. Quantas vezes todos os amigos achavam que ele logo morreria. Chegou a ficar verde, inchado, macilento, mas se recuperava sempre. Bebeu e se drogou em quantidades industriais. Uma vez, nos anos 70, levei Perna, pianista e arranjador, depois de um show, para ouvir suas composições. Perna estava fazendo os arranjos dos lp's de Gal e de Bethânia, tocava na excelente banda de Gilberto Gil, e embora tivesse que acordar muito cedo para ir ao estúdio de gravação foi comigo para a Cidade Universitária, só para conhecer as músicas do Jair. Ele não tocou nenhuma. Disfarçou, puxou conversa, serviu muita bebida, fumou muita maconha, e para coroar, distribuiu alguns ácidos entre os presentes. Fugiu de todos os pedidos para tocar. Na mesma época, alguns professores de literatura da U.S.P marcaram uma reunião com ele para conhecer melhor o seu trabalho poético e possivelmente editá-lo. Ficaram plantados, esperando por ele, que não foi. Mandou o Lima, como dizem os músicos. O sucesso o interessava tanto quanto o dinheiro.
Filho de classe média alta foi se empobrecendo pela vida. Foi funcionário público, em seu único emprego remunerado, arranjado pela família, aonde se aposentou por doença e alcolismo. Em 74, realizou em Santos a Mostra Moeda Nacional, composta por fotografias, pinturas e poesias, junto com vários outros artistas. É desta época uma de suas obra -primas: O Duque dos Brasis. Saímos na porrada duas vezes (foi ele que começou).Aos dezoito anos, fomos presos juntos, após um porre homérico, onde conseguimos que o seu parceiro musical, e grande amigo, João Paulo fosse no Camburão de pijama, tendo acabado de sair da cama para nos aturar. Foi internado algumas vezes, em uma delas, me ligou pedindo para levar um som para ele. Fui de toca discos e quase demolimos o hospital Anglo-Americano ao som de Led Zeppelin. Depois me chamou para a janela, com uma banana nas mãos e esperou a vítima ideal, um executivo apressado, de terno e pasta, a caráter. Uma certeira bananada na cabeça e algumas palavras bem colocadas: vai trabalhar, viadinho? Foram suficientes para tirar o homem de negócios de seu mundo previsível, arrancar sua pose, e fazê-lo atirar-se em uma divertida guerra de frutas, de nossa parte, e pedras, da sua. "É preciso aproveitar minha condição de louco", me disse.
Sogras a quem presenteou com revólveres, fascistas de alta patente com quem trocou bordoadas, presidentes de Câmaras Municipais a quem falou o diabo, policiais, o próprio Secretário de Segurança Pública do Estado a quem agrediu, e por ele foi agredido, mendigos com quem trocou confidências, literatos e artistas a quem presenteou com belíssimos poemas escritos em guardanapos de papel, a lista de excentricidades e histórias saborosas e absurdas é rica e vária, mas acaba afastando as pessoas do que realmente importava ao Jair, e que dele ficou cristalizada: sua poesia. Belíssima, enxuta, que em minha cabeceira divide espaço com Gullar, Cabral, Murillo Mendes. Leio-os com o mesmo prazer. Agora que estranhamente não posso mais pegar o telefone e ligar para ele a qualquer momento para falarmos horas sobre tudo e principalmente poesia, sinto que é abominável que o vasto folclore sobre sua vida pessoal, se interponha entre sua obra e o público. O tempo, que não mais o devasta, agora joga a seu favor. Os causos param de se avolumar, sobra a poesia. Em Rota Rota, o poema que dá o título a seu único livro publicado, sua biografia. Em outro poema, a chave para conhecer sua única ambição: a busca do conhecimento. Uma madrugada em que conversando atravessamos de ponta a ponta as praias de Santos, ele me confessou que essa a fonte de sua angústia, sua ambição impossível. No dia de sua morte, relendo Rota Rota, encontro estes versos dedicados à suas filhas:
fora árvore
lhes legaria frutos
fora terra
lhes legaria árvores
fora deus lhes
legaria tudo o conhecimento.
Poucos artistas tiveram sua vida mais comentada e sua obra menos conhecida. A bur(ro)guesia que ele se deleitava em atormentar, nunca suspeitará do perfeito cavalheiro que se escondia nele, nem da mais refinada elegância de sua palavra esculpida no espaço. Mas paro por aqui, pois a saudade que sinto me faz ficar sentimental, e já escuto a gostosa gargalhada do poeta, me gozando. Enquanto escrevo estas mal traçadas, Jairzinho no céu, o Grande Bar Que Nunca Fecha, ri, bebe e cria, e de quebra, passa a mão na bunda de algum anjo.
[publicado originalmente no blogue de Luís Nassif]
* Armando Catunda é fotógrafo, santista e mantém o blogue Impressões Digitais
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