segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Samba-Roque


Inaugurando a série Nem tudo está perdido


A propósito do novo disco da cantora Roberta Sá, Quando o canto é reza, em parceria com o estupendo Trio Madeira Brasil, escreve Roberto Nascimento, no Estado de São Paulo deste sábado, 21 de agosto: "O disco [...] dá aos sambas de roda de Roque Ferreira um verniz aprumado. A releitura é feita com harmonias flutuantes e percussão sutil, se valendo do virtuosismo dos ases Zé Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim e Marcello Gonçalves para modernizar o som de Roque.” O próprio jornalista consigna o pouco gosto do compositor no resultado, citando entrevista sua ao mesmo diário, em 02 de agosto passado (o liame fico devendo, porque faz parte da área restrita para assinantes do jornal):

"O disco está bem feito. Eu achei legal. Ela canta bonito, é muito afinada. A Roberta e o Trio Madeira Brasil fizeram a leitura deles sobre o meu trabalho. Mas, se fosse eu a gravar, seria diferente. O disco é light, e o samba-de-roda não é light. É um samba que tem grande quantidade de percussão, o que no disco da Roberta não tem. Isso não tira o mérito. Eu fico muito grato pela homenagem. O trio é maravilhoso.
...
O disco perdeu em baianidade, ficou mais MPB. Eu sou comprometido com a realidade musical do Recôncavo. As melodias são bonitas, as harmonias são simples. Eles sofisticaram as harmonias. É bonito, mas, se eu mostrar pro pessoal do Recôncavo, eles não vão acreditar".

Não ouvi o disco ainda. Os músicos do Trio Madeira são responsáveis por um trabalho que se inclui indubitavelmente entre o que de melhor se produz na música instrumental popular brasileira nos últimos anos. Não canso de dizer, que Ronaldo é o meu bandolinista brasileiro preferido, pós-Jacob. Já Roberta Sá se instala naquela vasta gama de cantoras surgindas na década que finda: afinadas, técnicas, bonitas, bem-produzidas, queridinhas-dos-jornalistas etc.. Mas que não consigo perceber o que têm a dizer.

O que importa discutir aqui não é a qualidade do disco, que pode dividir opiniões, como de resto qualquer outro assunto. Já disse que não ouvi, e mesmo se o tivesse, minha opinião a respeito valeria pouco. O que vale registrar, como grande elogio que se pode tecer à sinceridade do grande compositor brasileiro Roque Ferrreira - cuja obra o coloca no nono círculo dos grandes cantadores das coisas brasileiras das últimas 4 décadas – , é justamente o mérito de quebrar a univocidade de preceitos tão em voga atualmente, segundo os quais “não se omite opinião sobre trabalho de colegas”, todas as releituras são igualmente "válidas", a modernização (normalmente equivalente a "sofisticação") faz bem à música popular etc. Depoimento sincero, honesto, educado, que repisa uma verdade simples, mas tão difícil de enunciar nos tempos que vão: a tal “sofisticação” (ou modernização) não tem valor em si mesma. Há coisas sofisticadas e ruins, assim como outras pouco sofisticadas e excelentes. O mesmo para as modernas.

É claro que os próprios conceitos de “sofisticação” e "modernização" são problemáticos. O que é, exatamente, ser sofisticado? Quem é mais sofisticado, Pixinguinha ou Guinga? Candeia ou Moacyr Luz? Paulinho da Viola é mais ou menos moderno que Dorival Caymmi? João Gilberto ou Jacob do Bandolim? Mas sabemos claramente sobre o que se refere o bom baiano. A “suavização” de alguns elementos mais marcantes de manifestações musicais da tradição brasileira não é novidade, vem de muito longe, e encerra um processo importantíssimo da consolidação de algumas formas da música popular destinada aos meios de consumo (“disco” e “rádio”, emblematicamente). E produziu ótimos e péssimos resultados: a bossa-nova e o baião de Luiz Gonzaga são exemplos tão diferentes (em todos os sentidos) quanto inegáveis daqueles primeiros. Em outros casos, pode escamotear uma série de problemas que também não são novos, mormente uma tentativa de enquadramento da estética nacional em padrões mais “universalmente” aceitos (leia-se: padrões ditados pela dominação econômico-cultural, que não é propriamente oriental, nem africana, nem indígena, nem politeísta etc. etc., se é que me entendem).

Então, retomando, a tal “modernização” (ou "sofisticação") não se pode reputar boa ou ruim em si mesma. O que é extreme de dúvidas é que, como em qualquer processo de “adapatação” artificial (leia-se, por processos não-espontâneos de interação e transformação históricas, antes por intervenções conscientes e voltadas a objetivos determinados, ainda que puramente estéticos), se perde em determinados quesitos, para se ganhar em outros. Em termos de música brasileira, o resultado final, sua importância para a história das formas musicais, para consolidação da expressividade tipicamente nacional etc., dependerá de um sem número de fatores, entre os quais destaca-se, de um lado, um respeito pelo que representa a tradição e, de outro, uma percepção do que possa ser mais assimilável pela posteridade que se gesta, a partir das condições históricas presentes. Em outras palavras, a velha concepção africana dos elos da corrente.  “Eu sou comprometido com a realidade musical do Recôncavo.” Falou, mestre! Nem todo mundo é. Tem gente comprometida com um monte de coisas - e aqui falo dos comprometimentos autênticos, não daqueles comprometidos unicamente com suas contas bancárias ou com a servilidade aos ditames do sistema. E é bom que assim seja.

Parabéns ao nosso bom Roque, pelo exercício dessa virtude simples e rara de dizer, com sinceridade, o que não precisaria ser dito. Quanto aos frutos que a “releitura” renderá para a posteridade estética da música brasileira – da GRANDE música brasileira, diga-se -, com a palavra o futuro. Embora tenha eu, cá, por certo, os meus palpites.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Obrigatório


Tempos atrás minha amiga-comadre-irmã-parceira Railídia Carvalho, jornalista e cantora paraense, comunista e palmeirense como eu, escreveu um belíssimo texto que foi publicado no ultra-lido Buteco do Edu, do meu também irmão-cumpadre Eduardo Goldenberg, advogado, flamenguista e brizolista.

Depois de algum tempo sem passar por outro belíssimo blogue, o Partido Alto, deparei hoje o comentário a esse mesmo texto, tecido pelo imenso compositor paulistano Douglas Germano, um dos maiores talentos que encontrei na minha estrada pela música brasileira.

Obrigatório.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Paramédico


Adorava se vestir de branco. Mulato alinhado, meia-idade, sempre que a ocasião pedia um aprumo no visual, metia logo a fatiota completa, impecável, reluzente de sabão omo, do pisante à camisa de gola engomada. E a sexta-feira, então, essa era sagrada, que há de se respeitar certas coisas, que que há? Por essas coincidências da vida, morava numa travessinha daquela avenida conhecida por concentrar hospitais, clínicas, laboratórios de análises, toda a parafernalha médica. Já viram?

Entrava no táxi, o chofer:

- Troca de plantão, doutor?

No começo, tratava logo de ir esclarecendo, justificando o gosto, sexta-feira e coisa e tal. Com o tempo, foi cansando de muita explicação.

- Nessa época de inverno aumenta muito o movimento, né doutor?

Meneava a cabeça, sorria, conformado. Se estivesse de muito bom humor, ou quando botava pra dentro aquela caracu com ovo logo no café da manhã, arriscava até o seu sarrinho.

- Minha mulher tem uma dor no joelho que não sara, doutor.

- Bolsa de gelo, três vezes por dia.

- Tou que não me agüento da gastrite...

- Omeprazol 10 pela manhã.

Dia desses, de poucos amigos, atrasado nos seus quarenta minutos tradicionais, sem caracu pra amaciar, o chofer:

- Pra onde, doutor?

- Metrô.

- E essa gripe do porco, hein doutor?

- Pra você ver...

- Eu acho que a culpa de tudo é dessa pouca-vergonha, doutor.

-  ...

-  Hoje em dia o mundo tá cheio de abominação, valha-me Deus! Homem com homem, mulher com mulher, entra cachorro, cabra, agora até porco!

-  Olha, eu não... 

-Diga, doutor, o que que eu faço agora, que não tenho nada a ver com a porcaria toda? Máscara, vacina, como é que eu defendo as minhas crianças, doutor? 

- Não sou médico...

-  Médico, enfermeiro, tudo a mesma porcaria também. Até estagiário eu canso de pegar. Não é possível que ninguém vá me ajudar? 

- É que hoje é sexta...

- Sei, sei, a semana já era, né? Fim de semaninha só na vida boa... Meio-dia de sexta e já tá com a vida ganha! Que mamata, hein?

 - Olha aqui, meu chapa...


- Mercenário, como todos. É nessas que vai embora o dinheiro do povo.


********


Confusão total no Distrito, três flagrantes pra lavrar, todo mundo se acotovelando na ante-sala da “otoridade”, chofer, passageiro, polícia, testemunha, o cara que bateu atrás. Vem o escrivão:

- Que é que há por aqui?


-  Tava na avenida, o cara do táxi meteu o pé no breque...

-  Meti o pé, não, esse ignorante é que quis meter a mão na minha cara....

-  Eu vi tudo, o doutor aí enfiou a taboca na orelha do motora...

-  Enfiou, não, tentou...

- Onde já se viu um médico...


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Cinco horas depois. A calma de volta ao plantão.

- Ôoooo, Denilson... Vai buscar o tal médico que enfiou o pé no peito da testemunha.





segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A morte e a morte de Stella do Patrocínio

Ney Mesquita (*11/12/1966 +09/08/2004)


Não foi por falta de aviso. Ney Mesquita, o meu irmão preto, passou os quase dezoito anos em que eu o conhecia me dizendo que ia morrer cedo. Não sei se era intuição, vontade, ou uma espécie de sina a ser cumprida. E não é que no último dia 09, às 21h00, seu coração imenso e judiado desencumbiu-se do ônus desse fatídico auto-vaticínio?

Neyzinho foi um grande artista em todos os sentidos. Não só pela grandeza da expressão visível de sua arte, de seu talento, que podia ser percebida facilmente por quem o ouvisse cantar ou representar. Mas sobretudo pela capacidade constante de antenar-se com as angústias, dores, alegrias, celebrações e contradições de sua geração, de sua cidade, do seu povo negro. Foi, durante toda a sua carreira, e principalmente durante a sua vida, um canal permanente através do qual as nossas necessidades de expressão puderam-se canalizar, seja em formas sensíveis, seja como mais angústias, alegrias e contradições. Uma grande caixa de ressonância do talento, da beleza, da loucura de uma existência essencial e circunstancialmente inscrita num meio tão inóspito.

Cantor, sambista, ator, professor de música, artesão, pesquisador da cultura popular. Um grande baú de sambas-enredo – muitos agora definitivamente esquecidos - dos carnavais paulistanos de sempre. Conhecedor de jongos e pontos, congos e reisados. De voz e sobretudo afinação privilegiadas, formado nos guetos de samba da paulicéia (alô Pérola Negra!) e pós-graduado na universidade da noite, era no palco que fazia transbordar a exuberância de seu talento performático.

Dizia-se parente do libertário José do Patrocínio, o que nunca me foi dado verificar. Sei é que recentemente, encarnava a Stella do Patrocínio, poetiza negra que viveu grande parte de sua vida interna na colônia psiquiátrica Juliano Moreira. Ninguém mais poderia fazer de tal forma reviver a alma universal, errática, contundente e profundamente poética de Stella. Ninguém mais poderá cantar os seus versos (lindamente musicados por Lincoln Antônio) como ele. Ninguém.

Ney Mesquita não se eximiu em nenhum momento de encarar a sua árdua missão de artista e de negro. Como poucos sofreu na pele as injustiças profundas da condenação histórica a que parece eternamente submetido o povo negro em nosso país de tantas desigualdades e preconceitos. E mais uma vez transformou tudo em arte e beleza, muito embora as cicatrizes nunca tenham deixado de determinar os caminhos e descaminhos de sua vida e sua arte inquietas. Um negro verdadeiro, elo da corrente que comunica a trajetória de seus ancestrais à gestação das gerações vindouras. Ninguém me contou. Eu vi as legiões de eguns passeando pelo Teatro São Pedro, quando ele pisou seus pés negros descalços naquele palco de recitais de câmara e árias verdianas.

Por tudo isso, o meu irmão preto Ney Mesquita foi uma pessoa tão fascinante quanto perturbadora. Tão querida quanto querente. Tão indispensável quanto difícil. E vai fazer, meus senhores e minhas senhoras... uma PUTA falta.

Poucas pessoas tiveram na vida tanto carinho para comigo. Foram tantos os incentivos, os cuidados, as puxadas de orelha. Felizmente, nunca deixamos de nos dizer que nos amávamos. E hoje não consigo deixar de ouvir aquela sua voz, quando se enchia de toda pompa e circunstância pra me anunciar uma grande verdade recentemente descoberta: “sabe, Fernando...”. Ou aquela sua gargalhada de saci, pé descalço, fazendo macaquice, judiando do gato da Iara. Vai fazer falta demais nos nossos tantos fundos de quintal, a começar pelo de casa. E não serão mais tão vagabundas as minhas bebedeiras pela cidade.

Mas eu hoje posso cantar – em grande parte graças a ele. E cantarei à sua presença eterna nas nossas rodas e nos nossos corações. Até o dia em que hei de pegá-lo de novo, num redemoinho qualquer, aos pés de um taquaral como os que havia atrás da casa da minha infância, que acabou de morrer um pouco mais. E aí vou roubar sua carapuça, pra ele não poder mais me abandonar.


[Publicado originalmente em 16/08/2004]

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Salvação

Do condenado
cigarro
Derradeiro

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dibrinho

Resolvi fazer um blogue novo, durante a Copa. Resolvi hoje. Maiores (ou não) explicações, por lá.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O baticum, segundo o computador da USP

Nei Lopes


Volta e meia aparece alguém decretando a morte do samba, ou achando que ele é alguma coisa difusa e antiga que existiu musicalmente em tempos idos. Isso já motivou letras e letras, tentando mostrar o contrário. Em uma delas, por exemplo, nosso Nelson Sargento diz que o nosso gênero-mãe "agoniza, mas não morre", numa afirmação da qual pedimos licença para discordar, pois o samba, desde o Pelo Telefone, nunca esteve agonizante. Muito pelo contrário!

Semana passada, mesmo, estivemos lá no Espaço Anhanguera, na Barra Funda, no terceiro aniversário da roda de samba dos Inimigos do Batente, turma que lê Bourdieu e sabe que nas trocas simbólicas do samba tem muito mais negociação do que conflito. Pois a festa "botou pelo ladrão", com pelo menos mil pessoas cantando e dançando até quase de manhã ao som do batuque ancestral.

Fora dali, outras provas eloquentes da vitalidade e da diversidade do nosso ritmo poderiam ser claramente vistas ou ouvidas, por exemplo: na contemporaneidade do Clube do Balanço, com seu samba-rock; no Quinteto em Branco e Preto, que trafega entre a modernidade elegante e a tradição engajada, nos palcos e no disco, já há quase 15 anos; no trabalho espiritualizado e reverente da cantora Fabiana Cozza? E isso, falando só da Pauliceia.

Pois é. Desde 1917. E, assim, historiando, lembremos de Tempos Idos, obra na qual o grande Cartola se orgulhava de o samba ter saído do morro e chegado aos salões, indo exibir-se "pra Duquesa de Kent no Itamarati", como de fato aconteceu nos anos 50. Essa trajetória, anotada pelo genial compositor, simbolizaria a ascensão social do gênero e da cultura que o gerou. Coroada em 2001 com a outorga da Ordem do Mérito Cultural a quatro das escolas de samba cariocas pelo Ministério da Cultura, em solenidade palaciana de Brasília, essa ascensão culminaria logo depois com o tombamento do samba como patrimônio imaterial da humanidade.

Medalhas e brasões todos sabemos quanto custam. Da mesma forma que sabemos que o tombamento de um bem cultural tanto pode protegê-lo contra dilapidações quanto propiciar o engessamento de possibilidades desse bem, seja ele tangível ou imaterial. Além disso, a cultura brasileira, quando fala de samba, está quase sempre se referindo às escolas, numa generalização ingênua.

Sabemos que é difícil, para quem não é do ramo, perceber a diferença que hoje existe entre samba e escola de samba, e o grande fosso que se cavou entre essas duas instituições. As escolas nasceram bem depois do samba, com a intenção de desestigmatizá-lo e legitimar sua aceitação pela sociedade dominante. Mas elas hoje, embora deslumbrantes, cada vez mais se distanciam do universo que as criou.

Se o leitor ainda não compreendeu a diferença, compare, por exemplo, certos aguerridos conjuntos de "velhas guardas" com as agremiações que lhes emprestam os nomes. E, de quebra, evoque um grande sambista, principalmente falecido, e veja se seu nome é sequer lembrado nas "quadras" de hoje, cheias de gente "famosa".

E é em meio a essa reflexão que nos chega a notícia de que um programa de computador desenvolvido por pesquisadores da USP e da Universidade de São Carlos, visando a acabar com as "atuais, e subjetivas, definições de gêneros musicais", está promovendo uma reclassificação. Por meio de espécies de partituras digitais, tomando como base a percussão e abolindo as categorias tradicionais, estabeleceram-se padrões que serviram para reclassificar 400 músicas, geralmente agrupadas nas categorias rock, reggae, bossa nova e blues. E, aí, a máquina, reconheceu como "100% bossa nova" o grande samba O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco & Aldir Blanc, conforme matéria publicada pelo jornal O Globo.

Confundir samba-enredo com bossa nova não é culpa da máquina, claro, e sim de quem, ao alimentá-la, não teve a sensibilidade de entender que o gênero é o samba, e que a bossa nova é apenas um belo estilo interpretativo nascido dele ou, quando muito, um subgênero.

[publicado originalmente no Portal Estado]

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Belo Monte

Em resposta ao artigo do camarada deputado Eron Bezerra, publicado no Portal Vermelho.

Lamento que uma figura com a importância e o conhecimento de causa do deputado Eron Bezerra perca a oportunidade de um debate efetivamente aprofundado, para aderir ao discurso simplista e superficial, para não dizer eleitoreiro. Qualquer um que conheça minimamente a Amazônia sabe que o problema não se resume num embate entre preservacionistas histéricos e desenvolvimentistas sem coração. Assim como também não resolve a questão a opção retórica pela “sustentabilidade”, como se fosse uma palavra mágica, como uma panacéia, como se sempre houvesse uma equação possível para equilibrar intervenção e preservação.

Aliás, preservação não se entenda como simples proteção à flora e fauna nativas. A Amazônia (para não dizer “as Amazônias”, em vista da extraordinária multiplicidade de características das suas diversas micro-regiões) se caracteriza por um complexo e intrincado jogo de relações entre a natureza e a ocupação humana, essa entendida como atividade econômica, sim, mas também como cultura. A complexidade das relações e a delicadeza dos múltiplos aspectos envolvidos requer extremo cuidado na avaliação dos impactos das intervenções de grande porte, normalmente planejadas de fora para dentro, a partir dos grandes centros de tomadas de decisões que pouquíssimo compreendem a dinâmica dos problemas da região. Não é por outro motivo que o prestigiado jornalista Lúcio Flávio Pinto defende a tese de que o Brasil “oficial”, voltado para os interesses dos grandes centros econômico-politicos do sul-sudeste, sempre manteve com a Amazônia uma relação de metrópole para colônia, esta última vista como uma fonte de recursos a serem explorados, como um deserto a ser desbravado e/ou ocupado, como um povo a ser assistido e integrado à cultura oficial, e nunca um território com particularidades naturais, geográficas, históricas, humanas, culturais a ser respeitado; nunca como uma face diferenciada do Brasil, com a qual se poderia estabelecer um intercâmbio de vivências, conhecimentos, saberes, expressões.

O amazônida sente a Floresta, os grandes rios como entidades míticas a serem respeitadas, não só por sua importância material no suprimento à subsistência humana e na manutenção do equilíbrio entre as forças da natureza. O Xingu é um gigante, um deus imponente e majestoso, que não se afronta impunemente. Não posso deixar de lembrar a eminente historiadora, Profa. Denise Bernuzzi de Sant'Anna: “Compreender e ver as coisas como elas são não é tratá-las como coisas em si, indivisíveis, sem mistério nem profundidade. (...) Dizer igualmente que o sentido se localiza nas relações ainda não é suficiente, porque é preciso saber que as coisas e os seres possuem forças, apelos, latências cujas singularidades a compreensão humana não consegue esgotar.”

Todos sabemos as conseqüências desastrosas dos mega-projetos impostos à região amazônica goela-abaixo, como o Projeto Jari, a hidrelétrica de Tucuruí, Serra Pelada, a Transamazônica, o pólo alumineiro Alunorte-Albrás etc. etc. etc. Quem conhece a realidade das vilas e cidades transpostas por força dos alagamentos das barragens, sabe o que é um cenário de desenraizamento do homem de seu entorno, sabe o que é a geração dos “filhos dos estupros”, sabe o que são o alcoolismo e o suicídio nessas levas de desterrados. A região da cidade de Altamira já sofreu o suficiente por conta da abertura da Transamazônica. Todos sabemos que não é só o alagamento (no caso, o alagamento da área da barragem e o ressecamento de grande parte do leito atual do Xingu, na região da Volta Grande): é a violência, física e simbólica (a jornalista Railídia Carvalho, comunista e altamirense, relata o sentimento da população olhando para as grandes linhas de transmissão da eletricidade produzida em Tucuruí em direção aos mega-consumidores, que cruzavam os céus da cidade enquanto a população passava as noites às escuras, por força do racionamento de energia), são as doenças, é a invasão cultural, é o colpaso da estrutura de serviços públicos, é o desemprego no pós-obra, a poluição, a destruição das formas tradicionais de sociabilidade etc. etc. etc.

Nós, comunistas, temos o dever histórico de não sucumbir às lógicas do senso comum, mas altear a voz da razão dialética como crítica impiedosa de todas as conjunturas que ensejem a opressão do homem. Está na hora do Partido abrir-se ao debate sério, embasado, com as vozes que conhecem a profundidade do drama amazônico. Vamos ouvir Lúcio Flávio Pinto, vamos ouvir D. Erwin Krautler, vamos ouvir os técnicos respeitados em geração de energia, como Célio Bermann, que tecem duras críticas à relação “custo sócio-ambiental / benefício econômico” da energia gerada por Belo Monte. Não que sejam os donos da verdade, mas, ao menos, vozes respeitáveis a que devemos dar crédito.

Cito afirmação recente do citado prof. Célio Bermann, na Folha de S. Paulo (reproduzida aqui): “A insistência do governo de levar adiante o projeto de Belo Monte mostra que a lógica técnica e econômica cedeu o lugar à obsessão. Com graves consequências que não se restringem às populações indígenas e comunidades ribeirinhas do rio Xingu. Elas serão também sentidas nos bolsos de todos nós, consumidores de eletricidade. […] A energia a ser produzida pela usina não será utilizada para aliviar a pobreza e incorporar uma parcela da população que sempre esteve excluída das benesses do consumo. Ela será destinada a satisfazer a demanda de grandes grupos mínero-metalúrgicos na perpetuação do modelo que se apropria dos recursos naturais e das águas dos rios da região para produzir bens de baixo valor agregado e de alto conteúdo energético para exportação. A isso chamam de desenvolvimento. E a que custos?

O mesmo professor, numa entrevista de 2008, asseverava: “Hoje, 30% da energia hidroelétrica no Brasil é usada pelas indústrias que consomem muita energia, as chamadas eletrointensivas, e que produzem alumínio, aço, celulose, ferroligas, etc. São indústrias cuja previsão de expansão para os próximos 20 anos está estabelecida. Grande parte dessa expansão de energia elétrica é para assegurar esse tipo de produção - que coloca o Brasil numa posição dentro do processo de globalização como mero produtor de bens primários, de baixo valor agregado, baixo valor no mercado internacional e o alto consumo de energia elétrica. São indústrias que os países industriais não querem mais. Países como o Brasil se transformam em reféns desse processo, em que a produção é determinada internacionalmente, mas que a responsabilidade é brasileira. É do Brasil a responsabilidade de manter esta produção. Mas é também dos países que hoje se beneficiam desse processo, países que encontram outros, como o Brasil, em que a demanda de produtos é assegurada ainda que esta produção gere conflitos sociais e problemas ambientais.

Será esse o modelo econômico que os comunistas defendemos??? É esse o nacionalismo que provoca as reações inflamadas do nobre deputado, contra um cineasta estrangeiro??? Não parece estar bem mais próximo do projeto de nação traçado e executado pelo governo FHC, que pleiteia voltar a ditar os rumos da política nacional através da candidatura Serra???

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A luta por direitos do povo guarani em São Paulo

 
Na zona oeste da cidade, as aldeias Guarani Tekoá Pyaú e Tekoá Ytú enfrentam problemas como a inserção de grandes projetos na região, carências no atendimento à saúde e educação

Beatriz Catarina Maestri  e  Vanessa Ramos *


Nhanderu (Deus) está triste. Ele quis deixar seu corpo e seu espírito aqui na terra. Mas os juruá (não-indígenas) não estão colaborando com sua obra e estão destruindo tudo. A terra vai ficando pobre, mal cuidada e vai se revoltando. Aí vemos coisas ruins acontecendo como terremotos, enchentes e deslizamentos. As palavras em tom de lamento, ditas por Alísio, liderança Guarani Mbyá, em São Paulo, refletem o sentimento das comunidades indígenas que vivem nas periferias da grande metrópole.

A terra para os Guarani é fonte de vida e sobrevivência e, segundo o subsídio Semana dos Povos Indígenas - 2009, do Conselho Indigenista Missionário, (CIMI) "não é só a base do sustento, mas também o lugar onde jazem os ancestrais, onde se reproduzem a cultura, a identidade e a organização social". Na zona oeste de São Paulo as aldeias Guarani, Tekoá Pyaú e Tekoá Ytú, localizadas perto do Pico do Jaraguá, enfrentam problemas como a inserção de grandes projetos na região, carências no atendimento à saúde e educação. A Tekoá Pyaú está entre as menores aldeias do Brasil que esperam pela demarcação de sua terra de apenas 2,7 hectares, onde vivem mais de 80 famílias. Considerando o aumento da população, esta área exígua será insuficiente para abrigar um número maior de famílias.

Para o Xeramoi (pajé) José Fernandes, da aldeia Tekoá Pyaú "o processo de demarcação da aldeia está indo bem mal, porque os juruá (não-índios) são muitos e não sabem como realizar", afirma. A preocupação maior das lideranças locais advém da morosidade dos órgãos públicos que deveriam agir conforme a Constituição Federal que assegura os direitos dos povos originários.

Porém, os processos são lentos e quase nunca se estabelece um diálogo preciso com as comunidades envolvidas, mesmo sabendo que a não consulta prévia aos povos, fere a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante este direito aos povos indígenas, quando estes forem afetados. Neste sentido, cabe ao poder público atender as comunidades indígenas no Brasil, expostas à violência por conta da negação de suas terras e interferência de grandes projetos. 


Megaprojetos

Um grande sofrimento destas comunidades no Jaraguá teve início em 1998, ainda no governo Mário Covas (1995- 2001), quando a empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) iniciou a construção do Rodoanel Mário Covas, cortando parte de aldeias e interferindo em outras. Ainda assim, as propagandas do governo de São Paulo insistem que "O Rodoanel não é apenas a maior obra viária do Brasil. É também a que mais emprega".

As lideranças afirmam que, na época, não foram consultadas sobre este projeto e suas interferências. A empresa propõe atualmente negociações junto à comunidade, através da compra de terras como medida compensatória. A comunidade tem dialogado, mas se posiciona na exigência da demarcação da terra no Jaraguá.

Estes fatos remontam à inserção de projetos pelo Brasil. Vale lembrar as críticas em relação à construção da usina hidrelétrica Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. Como obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), custará milhões de dólares e afetará toda a população. Dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu e presidente do CIMI, denuncia que a obra terá conseqüências irreversíveis e imprevisíveis, inundando bairros inteiros, afetando 30 mil famílias e causando a destruição de terras indígenas.


Saúde

Para as lideranças do Jaraguá, em sintonia com outros povos que vivem na cidade de São Paulo, este é um assunto preocupante. Em maio de 2009, enquanto lideranças indígenas, incluindo as das aldeias Guarani de São Paulo, no 6º Acampamento Terra Livre, em Brasília, elaboravam uma nova proposta de texto para o novo Estatuto dos Povos Indígenas abrangendo, também, a questão da saúde, outras lideranças deste povo, em conjunto com representantes de 36 aldeias do estado de São Paulo, ocupavam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) na cidade de São Paulo, reivindicando, entre outras coisas, a demissão do coordenador regional Raze Razek, avaliado por essas comunidades como péssimo gestor na ação efetiva do atendimento médico e sanitário.

Em dezembro de 2009, no Encontro de Articulação das lideranças indígenas de São Paulo, representantes de diversas etnias reuniram-se na aldeia Tekoá Pyaú para retomar os compromissos assumidos após a ocupação, como reclamar do descaso de remédios e de atendimento, tendo presente as necessidades emergenciais que vivem as comunidades. Novamente, se constatou que não ocorreram muitos avanços por parte do poder público no atendimento diferenciado aos povos que vivem na área urbana, considerando suas reais necessidades e reivindicações.


Educação

Uma dificuldade está na preservação da educação tradicional que sempre foi transmitida oralmente, desde seus antepassados, às crianças e jovens e que é "omitida" ou descaracterizada nas escolas públicas. Na aldeia Tekoá Pyaú, um projeto interessante, desde 2001, é o Centro de Educação e Cultura Indígena que nasceu a partir "da necessidade de se fazer frente à influência crescente da cultura não indígena, nas aldeias Guarani existentes na cidade de São Paulo". É um espaço onde as crianças da aldeia contam com ensino bilíngüe.

Na aldeia Tekoá Ytú há também uma escola onde se fala e ensina a língua Guarani, mas, para Davi Martim, professor Guarani, muitos avanços na educação escolar das crianças ainda são necessários. Para ele, faltam recursos pedagógicos para atuar dentro da escola e a educação na aldeia deve ser pensada de forma diferenciada, levando em conta a especificidade cultural de seu povo. Assim, "não há como aplicar, na escola da aldeia, o modelo não indígena que existe nas escolas públicas do estado e do município de São Paulo", enfatiza.

Em São Paulo, uma conquista que pode ser observada nesta área é o Programa Pindorama da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que, em parceria com a Pastoral Indigenista e comunidades indígenas, oferece bolsas de graduação aos indígenas de várias etnias. Davi, por exemplo, é estudante de Ciências Sociais. A universidade torna-se um espaço possível para a atuação desses estudantes, conferindo-lhes a oportunidade de participar na construção de novas formas de pensar.


Descaso do poder público

Grande parte da sociedade reforça a idéia de que a cidade e a periferia, não são espaços para indígenas viverem. Para as lideranças da aldeia no Jaraguá, esse tipo de afirmação é discriminatória. "Os povos indígenas que vivem na área urbana não deixam de ser indígenas por isso", apontam. 
Para eles, é preciso que a sociedade repense seus conceitos e preconceitos, as concepções pejorativas e discriminatórias a que, por séculos, foi levada a pensar. Além do preconceito, o que se evidencia é o descaso dos órgãos públicos na efetivação dos direitos dos povos indígenas, agindo com lentidão e sem reposta às necessidades de demarcação de terras, educação, saúde, moradia e reconhecimento destes povos que vivem na cidade de São Paulo. Mais que urgente, deve-se perceber que os antigos moradores de nossa terra estão esquecidos e reduzidos por interesses econômicos e políticos corruptos. 

[ *originalmente publicado em  Brasil de Fato, 07/04/2010]

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

La Negra vive!

Railídia Carvalho*


Não lembro quando comecei a ouvir os discos da cantora argentina Mercedes Sosa. Sei que estava em Belém e recordo que o impacto foi tremendo como ainda é hoje quando a ouço: canto sem artifícios, emocionado, intenso, cheio de atmosferas. Foi um encanto pra mim que sempre sonhei com a felicidade plena. E creio nesta felicidade até hoje. Agora também sei que ela chega aos poucos e nem sempre se manifesta completamente.

Ouvir o canto e a fala da Mercedes Sosa sempre foi um momento, inédito, de felicidade completa. Canción con todos (Armando Tejada Gómez Y César Isella) em que todas as mãos e vozes estão juntos, unidos pela América; Duerme Negrito (recolhida por Atahualpa Yupanqui) que foi durante muito tempo uma canção que muito me acompanhou e sempre volto a ela:

"Duerme, duerme, Negrito
que tu mamá está en el campo, Negrito...
Trabajando, trabajando duramente
Trabajando si, trabajando y no le pagan...”

Ouvimos tanto falar da integração da América, mas Mercedes entregou sua vida à construção dessa nação unificada, dos irmãos americanos, da nossa américa querida, amada. Há pouco tempo, a convite da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, cantei para muitos americanos e brasileiros Canción con Todos. Cantei com amor, sentimento, senso de justiça e integração. Essa foi a escola da Mercedes, artista esplêndida, humanista e consciente de que nesta vida a solidariedade e a generosidade são imprescindíveis.

Mercedes sonhou, viveu e pagou por este mundo defendido por ela. Quanto estamos dispostos a pagar? “La Negra” partiu neste domingo. Ficamos nós, sonhando e removendo pedras do caminho.


Railídia Carvalho é cantora e jornalista

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O jardim

Desceria agora para a rua e para a noite
E em sua penumbra voltaria adrede
Ao completo desconhecimento que tudo precedeu.

Mas há um jardim a esperar por mim.

Ouço o murmúrio de uma deslembrança
Acenando um convite
Nem sóbrio, nem ardente.
Mas o jardim clama pobremente por que eu fique.
E volte.

Pegaria o último trem
Para o destino incerto que sempre houve
A me consolar.
Mas as flores humildes do jardim
Amarraram aos meus pés mil grilhões
De verdade
E de vergonha

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Espelho

Aníbal Beça*


Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto>
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras



*Aníbal Beça, poeta e compositor amazonense,
foi morar no Orun nesta terça, 25 de agosto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os bares morrem numa quarta-feira

Paulo Mendes Campos


Um amigo de Kafka conta que este arquitetava o seguinte: um homem desejando criar uma reunião em que as pessoas aparecessem sem ser convidadas. As pessoas poderiam se ver ou conversar sem se conhecerem. Cada uma faria o que lhe aprouvesse sem chatear o próximo. Ninguém se oporia à entrada ou à saída de ninguém. Não havendo propriamente convidados, não se criariam obrigações especiais para com o anfitrião. E o espinho da solidão doeria mais ou menos.

É possível que Kafka não haja escrito esta alegoria por ter percebido que a mesmo já existia corporificada sob a fora de cafés, restaurantes e bares. Mas o episódio pode levar-nos a considerar com súbita estranheza o mil vezes conhecido: os bares já eram kafkianos quando surgiram no mundo. Ou este, o mundo, é que foi o primeiro bar, quando se encontraram num jardim duas criaturas desconhecidas, e a mulher, buscando comunicação, ofereceu ao homem uma fruta. Foi o primeiro ponto de encontro. E não durou muito.

Pois os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem. Morrem numa quarta-feira, como diria Mário de Andrade. O obituário dessas casas fica registrado no livro de memórias. Recordá-los, os bares mortos, é contar a história de uma cidade. Melhor, é fazer o levantamento das cidades que passaram por dentro de uma única cidade. Mesmo num lugar como Paris, que apesar dos pesares procura preservar a imagem histórica, os cafés de Leon-Paul Fargue não foram os cafés de Alphonse Daudet, e este não respirou a atmosfera dos cafés de Stendhal.

O curioso é que os bares do presente, por seus serviços e por sua freqüência, podem merecer até o nosso entusiasmo, mas não recebem jamais o nosso amor. O bom freguês só ama o bar que se foi. Só na lembrança os bares perdem suas arestas e se sublimam.

João do Rio tinha sete anos e se batia contra um enorme sorvete na Confeitaria Paschoal, quando ouvia a Baronesa de Mamanguape exclamar encantada: “Oh! Senhor Olavo Bilac!”

Esta cena não se passou conosco, mas é como se tivesse sido. Seu conteúdo emocional repetiu-se na existência de todas as pessoas que freqüentaram bares e confeitarias. E repetiu-se para o próprio João do Rio, que num livro de 1912 já escreve sobre a decadência das casas de chope; ou simplesmente chopes, como eram chamadas.

Conta como esses chopes surgiram e morreram, partindo a invenção da Rua da Assembléia, nas mesas de mármore do Jacó, onde estetas, imitando Montmartre. Inauguraram o prazer de discutir literatura e falar mal do próximo. Por esse tempo, uma mulher com voz de barítono, chamada Ivone, montou um cabaré satânico na Rua do Lavradio, com tudo o que havia de mais rive gauche, inclusive recitativos macabros de Baudelaire. Era o Chat Noir que perdeu fôlego por falta de verba.

Outros chopes apareceram nas ruas da Assembléia e Carioca, esmerando-se o proprietário na invenção promocional; seus chamarizes são inventariados nessa ordem cronológica de João do Rio: tenores gringos de colarinho sujo e luva na mão, acompanhados ao piano; grandes orquestrar tocando trechos de óperas e valsas perturbadoras; depois, árias italianas servidas com sanduíches de caviar, um chope chegou a apresentar uma harpista capenga, mas formosa. Foi aí que um empresário genial estreou um cantor de modinhas. Foi de endoidar. “A modinha absorveu o público. Antes para ouvir uma modinha tinha a gente que arriscar a pele em baiúcas equívocas e acompanhar serestas ainda mais equívocas. No chope tomava logo um fartão sem se comprometer. E era de ver os mulatos de beiço grosso berrando tristemente: Eu canto em minha viola ternuras de amor , mas de muito amor... E os pretos barítonos, os Bruants de nanquim, maxixando cateretês apopléticos”.

Na Rua da Assembléia, à meia-noite, Catulo da Paixão Cearense erguia um triste copo de cerveja para soluçar dorme que velo, sedutora imagem.

Tudo isso é narrado já no comecinho do século já em afinação de nostalgia; pois os chopes tinham morrido no início da segunda década. Uns poucos anos antes, só na Rua da Carioca, eram uns dez; na Rua do Lavradio, ficavam de um lado e de outro; alastraram-se pela Riachuelo, pela Cidade Nova, Catumbi, Estácio, Praça Onze. Num relampejar brilharam e sumiram as estrelas daquelas noites, esquecidas pela cidade, “a mais infiel das amantes”.

Mas o chope deu um jeito e conseguiu sobreviver; só mudou de cara e personalidade. Quando cheguei ao Rio, era chope o que se tomava em muitos bares famosos, hoje mortos: Túnel da Lapa, 49, Nacional, Brahma... Aí se misturavam pequenos empregados do comércio, a gente de boa roupa e até os derradeiros malandros. No antigo Vermelhinho, as mesas eram ocupadas por escritores, jornalistas, pintores, gente do palco e estudantes da Escola de Belas-Artes. Suas figuras mais constantes eram Santa Rosa, como cigarro pendurado na boca, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Lúcio Rangel. João Cabral de Melo Neto costumava chegar, conversar um pouco e, já alegando dor de cabeça, dar um pulo à Farmácia Normal. Os artistas pretos – Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Solano Trindade, Abdias Nascimento – sentiam-se em casa nas cadeiras de palhinha do Vermelhinho, assim como os estrangeiros trazidos pela guerra. Carlos Drummond de Andrade, deixando o Ministério da Educação, só passava de fininho pela Rua Araújo Porto Alegre.

Depois, uma parte da turma atravessou a rua, pegou o elevador e se instalou no ajardinado terraço da ABI, passando a tomar uísque de fato escocês, porém milimetricamente dosado pelo garçom Stuckert – o Estuca.

O que não se dava nas mercearias enxertadas de uisquerias . Nessas - Pardellas, Lidador, Grande Ponto, Casa Carvalho, Vilariño - o uísque era generoso, apesar de amplamente discutível sua autenticidade. Grande animador desses bares foi o médico pernambucano Eustáquio Duarte, criador do gabarito fosfórico: pleiteou e conseguiu que a dose chegasse à altura de uma caixa de fósforos colocada em pé ao lado do copo.

Eustáquio (Totó Borum para os íntimos) intitulava-se o proletário e era autor de elaborada classificação psicofísica das mulheres ( a pebologia); essa teoria era o enlevo de todos os freqüentadores notadamente do poeta Vinícius. Era ainda o médico (mas atribuía a paternidade a um tal de Fernando C. Pessoa, gerente de hotel na Bahia) autor de sonetos pornográficos da mais pura linguagem bocagiana.

Andou por esses bares ilustres – falo apenas dos que melhor conheci no centro da cidade – toda uma geração de vários sotaques. Eneida (que, antes do Baile dos Pierrots, criou no Vermelhinho um forró carnavalesco de portas cerradas) era vista a todo momento com seus balangandãs tilitantes, entrando no Instituto Nacional do Livro ou dele saindo. Rosário Fusco era onipresente, deixando à porta de todos os bares um táxi à espera. Hoje esse dom da ubiqüidade pertence ao corretor Luís Antônio Pontual.

Zé Lins do Rego era detectado à distância por sua gargalhada. Com ar de menino levado e lavado, Lamartine Babo já entrava trauteando uma canção amena. Ari Barroso, pelo contrário, turbilhonava para dentro do bar com gestos e gritos homéricos: parecia que a guerra fora declarada ou que um ônibus passara por cima dele; mas não era nada.

Por ali, entre Presidente Wilson e Almirante Barroso, circulou o Rio artístico, do fim da guerra à guerra fria, mas a verdade histórica manda dizer que a falta de transporte no fim da tarde foi também um determinante desse comportamento boêmio.

Em dezembro de 1949 foi inaugurado o Juca's Bar, na Rua Senador Dantas: era o alívio do ar refrigerado que chegava. Lá se instalaram rapidamente assessores do Presidente Juscelino, os irmãos Condé com o Jornal de Letras, os irmãos Chaves, que atraíam os nordestinos itinerantes. Olívio Montenegro era contumaz e Gilberto Freyre costumava dar as caras.

Era uma mistura sensacional, estimulante. Ali todos os setores tinham suas embaixadas. Dou uns poucos exemplos: Rubem Braga representava a prosa, Vinícius de Moraes o verso; Stanislaw Ponte Preta o humorismo; Carlos Leão representava a arquitetura renovadora, passando a noite a desenhar mulheres nuas em bom papel que um bom mineiro comprava na papelaria ao lado; o Coronel Amílcar Dutra de Menezes representava o Estado Novo em geral e o DIP em particular, mas soube tornar-se amigo dos velhos inimigos; Antiógenes Chaves falava em nome das classes empresariais; Zé Lins em nome do Flamengo; o Comandante João Milton Prates representava com elegância a Presidência da República; às vezes aparecia Agildo Barata ou outro representante histórico; Luís Jardim, chupitando o seu uísque com o relógio em cima da mesa era o próprio secretário da UDN; a jornalista Jane Braga vinha em nome do Texas; Di Cavalcanti era o ponto alto das artes visuais, embora só admitisse, como tema de conversa, literatura e mulheres bonitas; estas, por sua, vez, estavam muito bem representadas na pessoa de Tônia Carrrero, enquanto Araci de Almeida era o Samba em pessoa.

Mas algumas brechas iam se abrindo no trânsito compacto do crepúsculo e os boêmios começaram a deixar a cidade mais cedo e a criar alma nova na Zona Sul. Em bares que iam igualmente brilhando, apagando-se e morrendo. Ou pelo menos morriam para eles. É o caso do Alcazar e do Maxim's, em Copacabana; do Jangadeiro e do Zeppelin, em Ipanema; do Clipper, no Leblon. No Alcazar (em cima morava o poeta Augusto Frederico Schmidt) ia o pessoal que não perdia o cinema das dez e muito menos o chope da meia-noite às duas da manhã; o Maxim's, com Sílvio Caldas e Araci de Almeida à frente, absorveu todos os musicais do Vilariño; no Jangadeiro aparecia Lúcio Cardoso; ao Zeppelin afluía aos domingos uma boa torrente das reuniões da casa de Aníbal Machado; no Clipper imperavam Antônio Maria (fragorosamente) e Dorival Caymmi (de mansinho).

Mas esses bares morreram ou mudaram de personalidade como do uísque para a água, o que é mais antipático que a morte. Como morreram muitos outros que eu conheci no breve espaço de um entardecer que durou vinte anos. O bar do Hotel Central, por exemplo, na Praia do Flamengo, que servia rosbife de tira-gosto e era um encanto; a Brasileira, na Cinelândia, que era mais uma confeitaria, mas onde encontrei uma tarde o vigoroso romancista católico Georges Bernanos fazendo um escarcéu de mil diabos porque não podia escrever com o escarcéu que os garçons faziam; o Segunda Frente, em Copacabana, que morreu logo depois que os sócios (um deles era o pintor Raimundo Nogueira) e seus amigos beberam a última gota do estoque antes de entrar dinheiro na caixa.

São muitos outros, mas a História dos Bares do Rio, que deveria ser escrita, precisaria ser contratada por um editor.

Por fim, ultimamente, morreu o famosíssimo Lamas, no Catete. Foi devidamente chorado na imprensa e continuará sendo lacrimejado em centenas de bares em que se espalham hoje os remanescentes dos antigos antros de perdição. Pois agora, quando desaparece também o Bon Marché (Avenida Copacabana, esquina de Siqueira Campos), os boêmios do Rio, tangidos pela demolição imobiliária, vivem pelos descaminhos da diáspora. Agüentou 73 anos de existência. Aquela esquina estava predestinada a libações: em 1892, ao ser inaugurada ali defronte a estação dos bondes houve um auto lunch, com brindes de champagne ao Marechal Floriano Peixoto... à Guarda Nacional... à Armada... ao Exército...à Intendência Municipal... e à diretoria da Companhia do Jardim Botânico. Não, houve mais um, o de honra, erguido pelo Presidente do Senado ao Marechal Floriano Peixoto e ao engrandecimento da República.

No Bon Marché Pixinguinha animou bailes de carnaval. Por ali passaram generais, almirantes, escritores, desembargadores, artistas, jogadores de futebol, milionários, políticos, delegados, sambistas e o sempiterno Gasolina, que aliás não passou e nunca fez nada e não saberá aonde ir quando for removido o último tijolo do prédio.

Viveram no Bon Marché algumas gerações de bêbados ilustres, de gente que bebia e se entendia e que continuará se entendendo. Pois uma lei rege a harmonia das esferas humanas: Cristo nos convidou a amar o próximo como a nós mesmos; mas a verdade é que só os bêbados aturam os bêbados; e só os sóbrios aturam os sóbrios.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Dois homens


Quem são esses dois homens?
O que são estes quatro olhos que tantas vezes deparei?
O que são essas faces translúcidas de uma verdade que não tem como nem por quê?
Homens dignos. Homens fortes.
Homens-meninos, dilacerados.
Não se vêem
Lágrimas
Rios inundam seus corações apreensivos. Esperançosos...
Eles não entendem.
Eles não agüentam.
Mas resistem.
Em meio ao alarido das vozes e das desimportâncias
Há um silêncio emoldurado por sorrisos esmaecidos
Há um grito de socorro a lhes rebentar no peito

Dois homens tão diferentes
Dois machos
Postados frente a frente
Dois corações outrora apaziguados
Pela Beleza
E sua força avassaladora
De tudo juntar e construir
e pôr a diante
Por sua delicadeza absoluta e dominante
Dois alazões araganos
Arfando ventas de
Deslumbramento. E mansidão

A Beleza está ferida.
As feras então domadas
Estão que não se agüentam
Na sua impotência de meninos atônitos
Dir-se-ia que se bateriam
Suspenso o braço intermediador
Enfraquecido o poder catalizador
a mantê-los lado a lado
Repeitantes.
Mas eles não entendem
E os seus olhos bradam súplicas
De razões:
- Não a Beleza, não ela...

Porque se fizeram cativos dessa imensidão
Porque se despiram da incômoda armadura
Embalados por seus braços
Ninados em seu colo
São homens feridos. Alquebrados.
Sequer podem lutar...
Os anos pesam em suas faces
As barbas maldisfarçam mil rugas
De milhão de gerações
E tormentos

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dia de São Pixinguinha de Ogum

Se vivo fosse, o compositor Alfredo da Rocha Vianna Filho, o famoso Pixinguinha - apelido surgido, segundo ele, da contração de “Pizindim”, ou “menino bom” como era chamado por sua avó africana Edwiges, com “bexiguinha”, como teria sido alcunhado após contrair bexiga ou varíola - estaria completando hoje, 23 de abril de 2009, 112 anos de idade. Em homenagem a um dos maiores gênios da música brasileira em todos os tempos e um dos pilares do que modernamente entendemos como a nossa música popular nacional, a data em que também se comemora a popularíssima festa de São Jorge (sincretizado no Rio de Janeiro com o orixá Ogum do culto iorubá), foi proclamada pela Lei nº 10.000/2000 como o Dia Nacional do Choro, gênero em que o mestre mais se destacou.

Pixinguinha foi genial em todos os aspectos da música em que atuou. Como compositor, conhecem-se mais de 2000 músicas de sua autoria, entre as quais clássicos imortais da música brasileira como “Carinhoso” (com João de Barro) e “Rosa”. Como arranjador, não só foi o pioneiro das formas orquestrais para os registros fonográficos a partir da década de 30, como lançou e fixou as concepções básicas que dominaram a noção de acompanhamento na música popular até o advento da bossa-nova. Como instrumentista, é considerado um dos três maiores flautistas brasileiros da primeira metade do século passado, ao lado de seu companheiro Benedito Lacerda e do prodigioso Patápio Silva, morto precocemente. Em meados dos anos 40, troca a flauta pelo sax tenor, supostamente devido a dificuldades com a embocadura do antigo instrumento, provocadas pelo abuso do álcool. Porém, a mudança registra também a influência da sonoridade das jazz bands estadunidenses (cujos registros começavam a nos chegar pelos discos e pelo cinema) sobre as concepções musicais do mestre que melhor conheceu e interpretou a tradição da música criada pelas baixas classes médias mestiças da cidade do Rio de Janeiro.

Como figura humana, era conhecida sua humildade e imensa generosidade com todos os que o circundavam. É proverbial neste sentido a história-quase-lenda de que certa vez teria sido abordado por assaltantes, ao voltar para casa altas horas da madrugada. Ao identificar-se, os ladrões teriam desistido do roubo e pedido desculpas ao mestre, tentando justificar seu comportamento em face da fome, da falta de emprego etc. Compadecido da situação, Pixinguinha os teria levado para sua casa, onde juntos comeram, beberam e dormiram, saindo os meliantes só no dia seguinte, agradecidos.

Em 17 de fevereiro de 1973, o coração do mestre parou enquanto participava do batizado de um afilhado. Como registrou o poeta Paulo César Pinheiro no primoroso samba Som de Prata em parceria com o compositor Moacyr Luz:

Só quem morre dentro de uma igreja
Vira orixá, louvado seja,
Senhor, meu Santo Pixinguinha!



Dos barbeiros aos ases

A primeira metade do século XIX viu nascer as primeiras manifestações genuinamente urbanas de uma música instrumental, dissociada da dança e voltada basicamente para o entretenimento dos estratos mais baixos da população. Reunidos por ocasião das festividades associadas ao calendário religioso católico, normalmente no adro das igrejas podiam ouvir o que costumou-se designar a “música de barbeiros”, devido aos conjuntos formados por músicos amadores, basicamente negros (escravos urbanos ou libertos que muitas vezes aprendiam música nas bandas de escravos mantidas nas fazendas) e mulatos, que podiam dedicar-se a um dos únicos ofícios liberais de aprendizado não acadêmico.

Os barbeiros de então praticavam não só os serviços até hoje ligados à profissão, mas uma variada gama de procedimentos para-médicos, como pequenas cirurgias, sangrias e outras atrocidades de nossa vetusta ciência oitocentista. A razoável lucratividade advinda desses misteres permitia justamente a aquisição de instrumentos como o cavaquinho, o violão, a flauta e o oficleide, bem como certo tempo disponível para a prática musical. Os poucos relatos disponíveis parecem dar conta de que o som peculiar desses conjuntos, embora de repertório dedicado a uma certa música ligeira européia (polcas, valsas, mazurcas, schottiches), adviria de uma maneira própria de tocar, evocando um certo “ritmo das senzalas” (na expressão consagrada por Mariza Lira in “A glória do Outeiro na história da cidade”, Rio de Janeiro, Diário de Notícias de 04/08/57).

Essas primeiras manifestações foram ao longo do século XIX progressivamente sendo substituídas pelo advento das bandas militares, nos grandes centros e pelas retretas de coretos, nos lugarejos menores, até desaparecerem completamente pelos idos dos anos 1860. Nos anos seguintes, o progressivo aumento da complexidade social, advindo da falência do modelo escravagista e do desenvolvimento econômico impulsionado basicamente pelo café, vai fazer surgir na cidade do Rio de Janeiro uma baixa classe média algo difusa formada por pequenos funcionários públicos civis e militares e empregados de companhias particulares estrangeiras de comércio e serviços. À imitação empobrecida dos hábitos das elites abastadas e na ausência de consistentes e regulares diversões públicas (os cafés e teatros de revista, por exemplo, só se afirmariam nas primeiras décadas do século seguinte) essas classes populares cultivam o hábito das festas particulares em casa de família, animadas pelos conjuntos musicais a elas mais próximos e acessíveis, formados dos músicos pertencentes a essas mesmas camadas, fortemente marcadas pela mestiçagem.

Neste período, portanto, observa-se o surgimento de uma nova classe formada em grande parte por mulatos com ocupações regulares, morando em casas simples nos bairros populares próximos ao centro, como a Cidade Nova e o Estácio. Concomitantemente, os negros africanos e crioulos continuam, em sua grande maioria, mesmo após o banimento da escravatura, condenados a uma vida marginal, abrigados nos morros e subúrbios distantes, sem ocupação fixa ou relegados aos duros trabalhos braçais da estiva. Se neste ambiente o samba encontra as condições para se tornar a mais importante forma de expressão, o choro nasce naquele incipiente estrato social em que ocupações mais leves permitem aos seus componentes maior dedicação à música e um certo excedente econômico possibilita a aquisição de instrumentos e a promoção de encontros festivos.

Se a origem do termo é algo controvertida, o certo é que o gênero é definido musicalmente não por um elemento rítmico característico e singular, mas pela maneira algo lamuriosa de execução – segundo Tinhorão*, uma leitura tipicamente brasileira do romantismo da música européia – que já agora certamente incorpora a herança sensível daquele já citado “ritmo da senzala”, mais tarde tão perceptível nas composições e execuções de músicos como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Joaquim Callado.

Rapidamente popularizado e espalhando-se pelos redutos populares da cidade do Rio de Janeiro, o choro torna-se o referencial musical dessa baixa classe média, tomando conta dos quintais de subúrbio e das festas populares. Numa época ainda não marcada pela difusão musical maciça, a virtuosidade musical desses executantes amadores ou semi-amadores se mede pela fama espalhada boca a boca e nos ocasionais “embates” propiciados pelos encontros de músicos renomados. De 1870 a 1919 computam-se mais de 3000 composições conhecidas, de mais de 1400 compositores.


Renascendo das cinzas

É justamente o advento de uma nova era marcada pela popularização do rádio e do disco, a partir da década de 30 do século XX, onde a música popular atinge o status econômico de mercadoria destinada a circulação em massa, que vai gerar a decadência do choro e seu paulatino confinamento a bastiões isolados de resistência. Não obstante se acentuando progressivamente a influência da música estadunidense sobre arranjos e formas de execução, é certo que a origem e formação de muitos executantes populares no ambiente do choro vai acabar por imprimir uma feição indelével que jamais se apartará do seio da música popular brasileira. Porém, enquanto prática destinada ao suprimento das necessidades musicais e de divertimento das camadas populares, o choro entrará em declínio, substituído pela praticidade e economicidade do disco e do rádio.

Os dois maiores arranjadores na chamada “época de ouro” (1930 a 1945, com algumas variações segundo diferentes autores), Pixiguinha e Radamés Gnatalli, incorporaram muitos elementos tipicamente oriundos do choro nos acompanhamentos orquestrais que conceberam para as gravações dos grandes nomes da música popular. Quando o acompanhamento não era orquestral, entravam em cena os chamados regionais, com formação típica dos conjuntos de choro, do qual o mais famoso foi o de Benedito Lacerda, também oriundo dos mesmos ambientes.

Entre as décadas de 30 a 60, embora incorporado às feições da música brasileira, o choro experimenta um longo período de ostracismo, sobrevivendo sobretudo pelos quintais, com gravações e apresentações esporádicas, a despeito do surgimento de grandes compositores/executores do gênero como o cavaquinista Waldir Azevedo, o clarinetista Abel Ferreira, o flautista Altamiro Carrilho e o grande bandolinista Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolin, um dos mais geniais músicos brasileiros de todos os tempos. Igualmente, o gênero sobrevivia em outros lugares do Brasil como Belém do Pará, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e, sobretudo, em São Paulo, onde se desenvolveu e ganhou contornos muito particulares.

Foi de Jacob do Bandolim a semente para o ressurgimento do gênero, com a fundação do conjunto Época de Ouro, reunindo os maiores músicos da época como o violonista Dino e o pandeirista Jorginho. Parcialmente desativado depois da morte de Jacob, em 69, o Época ressurgiu em 1973 quando do espetáculo Sarau, ao lado de Paulinho da Viola. O enorme sucesso da temporada impulsionou as gravações de discos de choro (Camerata Carioca, Isaías e seus Chorões, Naquele Tempo, Regional do Evandro, entre muitos outros) e a fundação de novos grupos como o Galo Preto, Os Carioquinhas (76) e o Nó em Pingo d’Água (79). Ficou famosa na década de 70 a roda de choro do bar Sovaco de Cobra, na Penha, reduto suburbano tradicional do choro carioca, que atraía grandes contingentes de público de variadas regiões da cidade.

Ao longo das décadas seguintes, novos e importantes grupos e músicos foram surgindo, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em finais dos anos 90, o gênero ganha novos e importantes impulsos, com o aparecimento na Internet de uma publicação especializada, a Agenda do Samba & Choro, proporcionando a circulação de informações antes restritas aos quintais e botequins, colaborando decisivamente para a formação de um público fiel que passa a freqüentar assiduamente os circuitos alternativos da música instrumental popular. Surge igualmente um grupo de músicos liderado pelo violonista Maurício Carrilho e pela cavaquinista Luciana Rabello preocupados com a preservação da memória musical do gênero e na formação de novas gerações de chorões (os frutos desse trabalho fazem-se sentir na fundação de um selo especializado em choro, a Acari Records, em trabalhos de pesquisa e recuperação e na organização de oficinas para jovens músicos). Organiza-se o Clube do Choro de Brasília e, em torno deste, a escola de choro Rafael Rabelo, proporcionando uma enorme valorização do gênero na Capital Federal.



Rumo ao futuro

Muitas outras iniciativas poderiam ser citadas, mas estas bastam para a constatação de que o gênero vive um momento de grande efervescência, com rodas de choro em várias cidades brasileiras, clubes de choro, espetáculos e lançamento de discos. Muito ainda falta, entretanto, para se romper a barreira imposta pelo oligopólio da produção e distribuição do produto genuinamente nacional e de boa qualidade na música popular, controladas pelas cinco ou seis gigantes multinacionais do segmento.

A par disso, surge uma outra questão paradoxal. A partir do interesse despertado pelo choro em músicos das mais variadas formações e tradições, o gênero tendeu a sofrer uma enorme sofisticação harmônica e conceitual, com imbricadas relações com a música erudita e a música instrumental estrangeira. Ainda que amadores e profissionais ainda convivam em rodas tão renitentes como distantes, como as promovidas pelo luthier Manoel Andrade e pela loja Contemporânea, em São Paulo, ou no Bar do Gilson, de Belém do Pará; ainda que o espírito das velhas rodas suburbanas de músicos amadores sobreviva na Adega Tudo do Mar, no bairro carioca de Marechal Hermes, no Bar do Gilson, de Belém do Pará, e em quintais e botequins espalhados pelo Brasil, a tendência que se observa em larga escala é de que o choro cada vez mais requeira não somente o virtuosismo espontâneo das antigas gerações, mas o aprofundamento e a sofisticação da formação do executante, com tendências conseqüentes à profissionalização, para não dizer à elitização.

Novos grupos como o carioca Tira a Poeira executam o repertório tradicional do choro, incorporando elementos rítmicos e harmônicos bastante apartados da linhagem musical que classicamente caracterizou o estilo, resultando numa sonoridade bastante diferenciada das execuções mais conhecidas. Mas se o gênero caracterizou-se justamente pela forma de execução, perdidas uma vez tais referências, o que exatamente determinará a sua sobrevivência ou o seu desaparecimento?


* Tinhorão, José Ramos – História social da música popular basileira, São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 197

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Republicação, com mínimas adaptações, da versão original publicada no Portal Vermelho, em 23 de abril de 2004.

domingo, 19 de abril de 2009




Monólogo do índio

Thiago de Mello


Perdido de mim, não sei ser mais o que fui e nunca poderei deixar de ser.

De mim me perco e me esqueço do que sou na precisão que já tenho de imitar
os brancos no que eles são: uma apenas tentativa inútil que me dissolve na
dor que não me devolve o poder de me encontrar.

Já deslembrado da glória radiosa de conviver, já perdido o parentesco com a
água, o fogo e as estrelas, já sem crença, já sem chão, oco e opaco me
converto em depósito dos restos impuros do ser alheio.

Resíduo de mim, a brasa do que já fui me reclama, como a luz que me conhece
de uma estrela agonizante dentro do ser que perdi.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Carta


Amiga,

Chove uma chuva miúda. Saí para ver, contrariado, mas não é que me pareceu leve e fresca, de destampar os velhos frascos das emoções suaves, das lembranças calmas?

Senti ímpetos de telefonar, como há muito não havia. Conteve-me o temor do que achasses despropositado, ou até ridículo. Imaginei-te na fila do supermercado, descarregando o carrinho, sabe-se lá, e um maluco do outro lado, desajeitado de sempre, torturado pelos instantes em que uma resposta naturalmente tardasse... Depois de tantos anos!

Ainda que perdidos nos mundos descaminhos, trilhados com a sinceridade possível e uma objetividade não-sei-onde arranjada...

Ainda que perdida a dimensão da grandeza toda que fora....

Ainda que grandeza nenhuma importasse, se tudo se construiu na simplicidade imensa dos momentos que outrora fundaram tantas possibilidades. Nos momentos em que foram perfeitamente normais e aceitáveis as incredulidades todas, as imprevidências, as grandes e consentidas boutades... E o cansaço. O merecido cansaço.

(São os mesmos momentos que agora me sufocam! Porque no frigir de todos os ovos, na massaroca do bolo geral, tudo se perde na grande falta de sentido, que acaba por nos absolver a todos. De tanto realizar o percurso, o espírito regrado se aquieta numa conformidade fabricada e conveniente. Mas não nos momentos! Essas crateras por onde fumegam os humores menos domados, e por vezes explodem as querências de alguma vida ainda, magma cálido a se petrificar num oceano gelado de mediocridades e presunções.)

Ainda, amiga, que tu estejas achando tudo isso tão estranho...

Saiba que esta tua presença distante, paralela, tem o condão de salvar a minha vida da ameaça das pequenas ruínas (das grandes, lamentavelmente, parecemos a salvo...) que tanto sempre temi. A tua lembrança, suave e fresca, como o vento que esta chuva carrega.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

À procura de Paula




Dois grandes jornais de São Paulo estamparam, há algum tempo, o desespero de um jovem suíço à procura de seu amor brasileiro. Da chamada em letras garrafais, num anúncio de meia página, emprestei o título para esta crônica, logo após do quê raiava despudorada a dupla verve de seu desconsolo: vira-a apenas duas vezes e perdera o número de telefone que ela lhe deixara.

Não vos direi que a fugacidade do momento amoroso seja inversamente proporcional à paixão desencadeada. Soaria demasiado velhaco e já estou em idade em que o estoque de reputação não está para desperdícios. Mas afirmarei sim, ó leitora atenta para os deslizes sentimentais do velho cronista, que a brevidade aguça a impressão deixada na alma pelo objeto do nosso desejo: se a marca foi intensa, sua recordação sempre suscitará um frêmito lamurioso que só faz derramar mais e mais deleites sobre a imagem do amado, corrigindo-lhe pouco a pouco as imperfeições do traço, acentuando-lhe a musicalidade da voz, acetinando a lembrança do toque.

Se, ao contrário, o primeiro impacto foi pífio, o contato efêmero obstará ao tempo seu labor paciente de educador do gosto, da paciência e da tolerância. E como numa antiga fotografia de uma tia-avó que só vimos uma vez, quando criança, a imagem irá se desfazendo, devagar, em meio a uma nostalgia vaga, despejando no coração gotinhas diárias de indiferença, até que se torne candidata a encher o saco de lixo da próxima arrumação das gavetas.

Mas não fosse nada disso, meus caros, a perda do número do telefone é quem dá o inapelável toque à nossa história. Diferente do samba famoso, onde a meia e o sapato ocupam resignadamente o lugar do retrato perdido, o papelzinho desaparecido encheu-lhe o peito de uma obstinação e de uma esperança.

E essa obstinação é que o fez trabalhar durante quatro anos, numa Suíça gelada e distante, a cada dia, em metódica aglutinação dos tostões, em busca da pequena fortuna necessária para apregoar aos quatro ventos a sua paixão. A cada dia se levantava e trabalhava movido pela certeza de que não podia fazer outra coisa, senão ficaria louco. Atormentava-o especialmente, muito mais do que a possibilidade de que estivesse casada ou mesmo morta, a imagem da moça julgando-se desprezada, ante o seu silêncio. Logo ela, a encarnação de todos os seus sonhos. A necessidade de dizer-lhe, dizer ao mundo que fora vítima indefesa do capricho do acaso, impelia-o acima de tudo.

Não sei se Paula apareceu, ou se aparecerá algum dia. O peito desanuviado pelo grito liberto certamente suportará melhor a angústia de sua ausência. E para sempre lhe restará a esperança de que sua amada ouça, no sussurro da última brisa, ou na voz do derradeiro arauto, que Ele a espera.

(março de 1999)

Publicado originalmente em 03 de dezembro de 2004

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Tempos que vão


"Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber" [...]

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Modernização


O buteco onde bebia
todo dia
Foi vendido
Pr'uma farmácia.

Continua pedindo
todo dia
Sua dose
Encostado ao balcão.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O estrangeiro


Tornado andarilho, esperava reencontrar a Cidade que não via pela janela do carro, enquadrada, conforme uma voz que lhe soava, assim, meio pop. Pois sempre não lhe parecera fascinante a vida que brotava por entre as fachadas desta judiada? A Velha Senhora, recém-desnudada, até parecia querer colaborar. Curiosamente, não era de tantos pudores, como seria de se esperar; um certo constrangimento, que a sua beleza não era senão daquelas que, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais.

Descendo a antiga rua de sua mocidade, pensava no velho Einstein – e só agora, verdadeiramente, o compreendia: o surpreendente não é que conheçamos o mundo, mas que nos seja dado conhecê-lo! Se um dia lhe tivera sido dado conhecer a Cidade onde nasceu e viveu, no sentido plenamente confessional, certamente mais não mais o era.... Onde, meu Deus, a velha galeria? Procurou, em vão, afastar o que julgou uma obsessão de seus cabelos recém-grisalhos. Mas não era possível; dessa vez não se tratava da especulação fastidiosa de hábito. O alheamento realmente o assaltava, como despojamento, como espoliação de suas próprias lembranças. “Não pode ser aqui, devo-me estar confundindo...” O desvelamento que súbito o fazia estrangeiro na rua onde crescera sequer chegava a soar violento, posto que insidioso. E, nisso, acima de tudo, por demais cruel: tudo estava lá, mas não estava! Exílio que se faz no tempo, o que realmente o estarrecia era a constatação da impossibilidade do retorno.

Não só os lugares não estavam mais: assim também as pessoas. Não algumas, determinadas: as pessoas. Não havia propósito com que pudesse atinar. A Cidade não crescera, mudara-se sem deixar endereço, como aquelas tantas inundadas de pretensão e descaso. Mas o que aqui se poderia represar, senão o ressentimento? Vagou a procura de nenhures. Um estranho silêncio, uma calma perturbadora. Onde estariam os que ali não estavam? Preparando o levante? O que se tramava à espreita, de uma forma tão descaradamente dissimulada? Onde teria estado, enquanto eles vieram e tudo levaram? Mas se caminhara por todos esses anos e não se poupara, a vigiar, até, quando diabos foi que tudo se acabou?

E acima de todas as dores, a única verdadeiramente indizível: a de nunca poder saber, de verdade, se não teria sido ele quem acabara.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Declaração de amor politicamente incorreta

Aldir Blanc


O sujeito olha pra espuma da cerveja mas não vê nada. Não está no buteco, nem em nenhum outro lugar. É uma voz, girando no espaço-tempo, em busca não do que foi perdido, mas dos melhores momentos de sua vida:

- Eu estava sentado na sala, no mesmo lugar de sempre, com o velho copo, tomando a bebida que prefiro há anos e anos, quando ela entra, serena, como se estivesse flutuando. Nós nos conhecemos tanto que eu percebo que a quietude é excessiva, que o sorriso paira no rosto como uma sombra, que a intensidade dos olhos é dolorosa e não tem nada que ver com receitas, presentes, gracinhas dos netos. Meu primeiro pensamento demonstra que eu não presto, nunca prestei: ela conheceu algum palhaço que... Mas os gestos angustiados, os gestos de náufrago, provocam uma sensação estranha em mim, como se escutasse a sirene dos bombeiros chegando cada vez mais perto da casa onde moro. Tentando esconder o nervosismo, finjo uma rispidez que não sinto:

- Qualé, viu passarinho verde?

E ela, quanta calma, murmura com suavidade infinita: não é nada. Fui ao médico. Fiz uma ultra-sonografia e ele pediu outros exames... Minha poltrona cai num alçapão e ela já não está na minha frente, de cabelos curtos, ela está de botas, no apartamento de um amigo meu, pedi a chave emprestada, e os cabelos são uma cascata castanho-ouro. Meio bêbado e complemente apaixonado, tento escapar do fascínio com frases de detetive particular americano: não confie em pilantra metido a intelectual. Ele engana que lê Joyce mas acaba dando com o Ulisses na tua testa. Ela ri. Invento uma senha pra afastar vagabundo. É só um cara encostar com muito lero-lero, você olha duro e avisa: isso aqui tá cheio de Pirata Malaio. Sinal de que ela deve cortar o lance rapidinho ou o pau vai comer. Um dia, cheio de conhaque e de amor pra dar, o nariz sangra em pleno ato sexual. Ela se assusta. Metido a machão, pinto uma tira vermelha com sangue, de face a face, passando pelo nariz e canto marra: sou descendente de apaches. Tantos encontros inesquecíveis: no Ebony, no Lamas, todo o roteiro de bares e motéis percorrido. Versões de Tenderly, de I'll Never Be the Same, de Moonlight Serenade, versos, cartas, minha cara, os sapatos também pisam nos meus, e a cueca, no vasculhante do banheiro, seca sobre a calcinha, como um símbolo, em feitio safado de oração, nem por isso menos profunda. Com o tempo, há mortes compartilhadas, horas de dor, mas, acima de tudo, riso, riso, riso, apesar dos dentes e cabelos caindo em mim, da barriga despontando, ela cada vez mais bonita, os dois de óculos para miopia e astigmatismo quase ao mesmo tempo, se olhando e rindo como Tico e Teco, palpitações, taquicardias, acessos de tosse, varizes, pressão alta, mas, nas horas difíceis, ela encosta a cabeça e só dorme nesse peito aqui, ó, nem lexotan faz o mesmo efeito. Eu sou o macho da relação, certo?, tudo bem?, é por isso que estou prendendo o choro, eu preciso ser forte e dizer aquelas frases: isso é pura rotina, não significa nada, vapt-vupt. Adulto da boca pra fora. Porque a tal da voz interior parece a de um rapazola espinhento que perpetra sonetos melosos, que se masturba por ela, que ainda sonha com situações como a da valsa: e tu não flertaste ninguém, olhavas só para mim... Por aí. Lamartine, meu velho, eu babo. E enquanto John Waine da Zona Norte escande as sílabas, eu mesmo cansei de pedir esses exames, ro-ti-na, o pierrô apaixonado acaba chorando e, como nas histórias de folhetim, fala em cisco no olho, puxa o lenço, engasga e então, convulsamente chora. Chora porque não há a menor chance da vida ter graça se ela sofrer, não é possível, Musa não sofre, ela é a linda suburbana da seresta, com lábios que são tâmaras maduras da flora do coração, ela pisa nos astros, distraída, pra ficar só no Orestes Barbosa, ou não vai caber tudo na edição de domingo do jornal. Ro-ti-na, Porque fora da rotina que construímos, meu amor, eu não durmo, não como, não abro a porta, não atendo o telefone, não ouço música, não consigo ler, não quero assunto, a bebida atravessa, o Vasco é um pé no saco, o mar é um deserto, o Rio parece Assunção do Paraguai e, pra ser sincero - espero que não me neguem o direito a esse singelo depoimento - não sei nem fazer cocô.

[para Stefânia, meu amor]

segunda-feira, 16 de março de 2009

Descamisados


Símbolo máximo da paixão clubística, muito mais que o hino ou a bandeira, ela encarna, metonímea perfeita, a entidade mítica e gigantesca do time de futebol: vestir a camisa; honrar a camisa; o jogador sentiu o peso da camisa; faltou camisa para aquele time. Manto sagrado, encerra em si, além das cores e distintivo de uma nação, a galeria de conquistas, recentes e remotas, nas formas de bravos escudos de guerra ou de constelação de estrelas fulgurantes.

Veja-se o apego quase infantil do torcedor à camisa de seu clube. Uns preferem os últimos modelos, perfilando uniformizados em redor de seus heróis, ou desafiando, terras afora, o infortúnio dos que não foram chamados a fazer parte da casta escolhida. Outros, os panos surrados, sudários purificados no sangue de muitas batalhas vividas, relíquias dos espíritos dos antigos guerreiros.

Não estranhe, amigo leitor. Sei que a linguagem está meio fora de moda. É que as expressões que hoje recheiam as colunas, artigos e reportagens de nossas sessões esportivas são bem diferentes: em vez de camisa, é mais fácil deparar “lay-out”; no lugar de espírito, “marketing”; para guerreiros, preferem “profissionais”; e vamos por aí.

Na era do futebol-negócio, a paixão e a reverência às tradições parecem ter de sucumbir à lógica do capital. Daí o descaso que vimos assistindo nos últimos anos dos times de futebol no Brasil com seus uniformes, muito especialmente após a admissão da estampa das marcas publicitárias nas camisas. Certa vez puseram um amarelo-gasolina na sagrada camisa verde do Palmeiras, que depois ficou verde-clara, ganhou listras, voltou para o verde-escuro, perdeu as listras... A do Corinthians, recentemente recebeu tintas vermelhas e amarelas, sem contar o remendo com que tiveram de se apresentar em plena final de brasileiro, em virtude de uma troca de patrocínio em cima da hora ( já falam, até, em dois patrocinadores na camisa ). Já a saga de derrotas do São Paulo no último Brasileirão foi, por muitos torcedores, atribuída a uma maldição verde salpicada na tradicionalíssima camisa tricolor.

O que falar dos calções, então? Uma ridícula determinação - ao que parece, da FIFA - tornou os últimos campeonatos verdadeiros desfiles de aberrações estilísticas. O Corinthians todo de branco, parecia o Santos. O Santos, de calção preto, parecia o Corinthians, tanto que lhe meteram listras, quadriculados e até estrelas!

Daí que desse insosso e tumultuado Rio - São Paulo 99, sobrou-me a gostosa sensação de ver de volta, intactas, as belíssimas camisas de Vasco, Fluminense e Botafogo, pelo menos. Mesmo sabido que nunca por qualquer consciência cultural, mas por absoluta falta de opção. O certo é que a aquela Estrela, livre das más companhias, desfilando garbosa sua solidão reconquistada, fez-me lembrar e sonhar com um tempo em que profissionais eram, simplesmente, Manés.


(março de 1999)


Originalmente publicado em 30 de março de 2005

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sport bretão


Escreve-me uma gentil senhora, para que eu discorra sobre a reforma ortográfica e a (não tão nova) onda de anglicismos que salpicaria de “bizarrices desnecessárias” a pureza de nossa última flor do Lácio. Incrementando a relação de damas que venho decepcionando ao longo da existência, sobre o primeiro tema, apenas uma palavra: ignorarei. Quanto ao outro, além de não vislumbrar nenhuma remota utilidade nos meus palpites, calarei em modesta homenagem à esplendorosa Sorriso-Maracanã, cultora inigualável do idioma de Shakespeare . De mais a mais, a coisa já chegou ao nível do esculacho. Dispensa comentários um sujeito que ouvi outro dia dizer, referindo-se à recente separação, “estar planejando um apigreide na sua vida sentimental”; ou o treinador de uma tradicional agremiação futebolística (ultimamente um tanto em baixa), justificando a duvidosa escalação de Fulano na zaga por “terem sido deletadas as outras opções disponíveis”...

Opiniões a parte, já que a semana rescende mesmo a futebol, eis aí um terreno onde o jargão britânico sempre soou não só natural, como até charmoso, evocador daquele tempo em que violão não era ligado na tomada e fábrica de suspensório dava lucro, como diria o saudoso Moraes Sarmento, a quem ando devendo uma homenagem. Minha paixão pelo futebol é em grande parte imputável ao meu velho e queridíssimo vô Dante, que dizia que o Palmeiras conseguira um bom scorer (com o esse chiado e o erre arranhado do Engenho de Dentro) fora de casa; corner (olha os erres aí de novo!), em vez de escanteio; que chamava goleiro de keaper e volante de center-half (soava “alf”, sem o aspirado e com a de “árvore”, na deliciosa pronúncia então vigente da Estação de São Cristóvão para cima). Isso tudo, claro, num jogo narrado pelo speaker!

Talvez seja mesmo o football (que no Rio se diz “futibol” e em São Paulo “futEbol”) a retina cansada do nossos olhos sentimentais, onde tudo é projetado ao inverso. As alhures esquisitas expressões da língua do cantor-jardineiro Elton John (que não é Shakespeare, diga-se) não provocam nos gramados o estranhamento e a irritação que assomam à rebeliana leitora. Ao contrário, soam naturais, familiares, como um dominus vobiscum em fim de missa, um pas de deux em pleno Quebra Nozes!

Paradoxalmente, portanto, na era do marketing e do delivery, quase ninguém mais diz nem “beque” (aportuguesamento que só perde em autoridade ao insuperável “serve-serve”, aquele restaurante sem garçom onde os candidatos a comensais enfrentam mais filas que em venda de ingressos para o setor 1 da Sapucaí...). “Beque” impunha respeito, era malvado; “zagueiro” parece posto da Cavalaria...

Só restou mesmo o insuperável “GOL”, devidamente grafado, a despeito de toda privatização. Até porque nem mesmo o mais tinhorano dos rebelos conseguiria explodir num grito de “TEEEEEEEEEEEEEEEEEENTO” do Palmeiras...