quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Simpatia é quase amor
Em meio à vastidão incomensurável da cultura brasileira, a um oceano de ritmos, danças, lendas e provérbios, a uma hiléia de receitas, parlendas, brinquedos e rezas, sempre me chamou a atenção algo que, se não é exclusivo da nossa gente, certamente por aqui encontrou terra fertilíssima para se espalhar como uma das mais expressivas e ricas traduções do nosso espírito: as simpatias. Desaguadouro de crenças, superstições (pois como diria Jorge Amado, o brasileiro não é propriamente religioso, é supersticioso), magias, literatura oral, liturgias e conhecimentos curandeirísticos provenientes das diversíssimas culturas que neste torrão se encontraram, misturaram e completaram, as simpatias são um imenso baú do tesouro popular, de onde se pode tirar, sempre que se precisar, uma soluçãozinha porreta prêt-a-porter para toda a infinidade de males e agruras que possam atormentar a alma e o corpo do cidadão brasileiro. Não há quem não conheça pelo menos uma (de beber água no copo ao contrário, pra passar o soluço, a colocar o Santo Antônio de cabeça pra baixo pra arrumar casamento, passando por enfiar a foto do time adversário no congelador, na véspera da final do campeonato).
A origem do termo parece obscura, mas acredito que remeta a um antigo emprego da palavra “simpatia”, de uso corrente entre os saberes científico-esotéricos de tempos remotos, passado depois para a fisiatria e a medicina, significando uma espécie de correspondência ou afinidade que se julgava existir entre as qualidades de certas substâncias, elementos ou corpos
(‘sýn ’, no grego, dá idéia de “junto”, como em “sincronia”, “sinergia”, “sinfonia” etc; ‘páthos ', do que se experimenta, que se sente, como em cardiopatia, apatia, ou por intermédio do latim ‘patio ’, “paixão”, “padecimento”). As simpatias podem ter nascido, portanto, segundo esta teoria que acabo de criar, da idéia disseminada em várias culturas de que elementos, substâncias ou corpos aparentados por certas afinidades, ou que partilhem uma comum natureza, possam exercer influência uns sobre os outros ou, até, serem manipulados uns pelos outros.
Teorias à parte, porém, como tudo o que é baseado na tradição oral, esse cabedal de conhecimento popular corre risco de se perder em meio à barafunda impessoal da sociedade global dominada pela indústria de comunicação de massas e pela tecnologia. Por isso, apesar de confiar e gostar mais da transmissão na base do boca-a-boca, de mãe para filha, foi com grande entusiasmo que adquiri por módicos R$ 2,99, em recente viagem pelo interior do Estado de São Paulo, o segundo número da revista Rezas, benzeduras e simpatias (Cajamar:Editora Três, 2003), oportuníssima publicação que visa contribuir para a preservação e divulgação de um sem número de simpatias conhecidas pelos quatro cantos do país.
Com apresentação didática, farta ilustração e introduções explicativas/aconselhadoras indispensáveis sobre a gravidade dos problemas enfrentados e suas conseqüências sobre a vida prática, bem como a correspondente utilidade do remédio prescrito, a revista tornou-se para mim um vade mecum praticamente obrigatório. Sabedor, pois, de algumas necessidades recentes e remotas de amigos - e algumas minhas também, por que não? - reuni uma pequenina antologia de fórmulas garantidamente infalíveis, que apresento para proveito geral.
“Para a criança não urinar mais na cama
Tem criança que continua urinando na cama até depois de crescida. Os pais não devem maltratá-la por esse motivo, mas sim ajudá-la a não mais fazer isso.
Para resolver o problema da criança que suja toda noite um lençol – às vezes não há tantos lençóis e nem tempo para lavá-los – existe uma simpatia extraordinária, muito usada no interior do nosso país.
Assim que a criança acordar, após uma noite em que tenha molhado a cama, deverá sair imediatamente à rua, em jejum, trazendo uma moringa com um pouco d’água sobre a cabeça. Ao encontrar a primeira pessoa, deverá dizer a ela:
- Valei-me meu São João! Dai uma esmola para um mijão!
***
Para afinar o nariz
Muita gente não gosta do próprio nariz. Isso acontece, sobretudo, quando o nariz é grosso, pois as mulheres, principalmente, preferem ter um nariz afilado, para compor-lhes melhor o rosto feminino.
Para afinar o nariz, existe uma simpatia bem interessante. Primeiro é preciso ter um lampião de querosene, daqueles bem anigos, de mecha. Acende-se o lampião e na manga de vidro passa-se os dedos indicador e polegar até que esquentem bem (sem deixá-los queimar, claro). Em seguida, passa-se no nariz os dois dedos, comprimido-o levemente, em movimentos para cima e para baixo. A cada movimento deve-se repetir:
Afina
Afina
Afina
Depois de fazer isso algumas vezes, passa-se no nariz um algodão com óleo de oliva e queima-se o algodão.
***
Para tirar a barriga
Para os barrigudos que não conseguem fazer regime alimentar e emagrecer existe a chance de pelo menos tirar a barriga. Também para aqueles que, mesmo não sendo gordos, possuem barriga, a chance é a mesma. Se fizerem a simpatia que aqui indicamos, conseguirão sem falta atingir a elegância desejada.
Para fazer esta simpatia, é preciso apenas e tão simplesmente uma parede. A parede de seu próprio quarto.
A simpatia se faz em três sextas-feiras seguidas. Em cada uma dessas sextas-feiras, levante-se da cama, sem acordar ninguém da casa, vá até a parede do quarto, encoste a barriga na parede e diga três vezes:
- Parede, me dê a sua barriga que eu te dou a minha.
Depois de fazer isso em três sextas-feiras seguidas, adeus barriga!
***
Para descobrir os segredos do cônjuge
Os maridos e as esposas querem saber sempre os segredos um do outro. Principalmente quando esses segredos se relacionam ao amor. Para saber o que está escondido no coração do cônjuge, deve-se agir assim:
Pega-se um chinelo do próprio uso e coloca-se por baixo do travesseiro, dizendo:
Chinelo, eu prometo
não te arrastar no chão
nem mais uma vez
se contares os segredos
da minha paixão
Numa notie de sexta-feira, por volta da meia-noite, deve-se encostar o ouvido no travesseiro por baixo do qual está o chinelo, e dizer em pensamento:
Chinelo, o dia é certo
Chinelo, é sexta-feira
Chinelo, a hora é certa
a hora é meia-noite
Chinelo, conte todos
os segredos que eu quero
Em seguida, firma-se o pensamento para ouvir todos os segredos.
E.T. - Depois de usar o chinelo para esse fim, não mais se deve usá-lo no pé.
***
Para eliminar os calos
Calos incomodam muito. Mais ainda quando o sapato é novo e não está amaciado. Chegou-se até a inventar a expressão: “você está pisando no meu calo”, quando nos dirigimos a alguém que nos aborrece e chateia.
Muita gente tenta extirpar os calos utilizando-se de lâminas de barbear, facas ou tesouras. Não se deve fazer isso, pois é muito perigoso e pode acarretar uma séria infecção. Melhor é ir ao pedicuro, ou então, como fazem os cearenses de Juazeiro, utilizar-se de uma inofensiva e prática simpatia:
Pegue um pedaço de toucinho, numa noite de sexta-feira, e passe sobre o calo que o está incomodando. Após isso, jogue o toucinho num formigueiro. Repita isso durante três sextas-feiras, ao final das quais o calo terá caído naturalmente.
***
Para acabar com os gases intestinais
Os gases intestinais são razões de humilhações e maus momentos para as pessoas que dele sofrem. Por esse motivo muitas deixam até de freqüentar festas e reuniões, temerosas de que os gases as ataquem nessas horas.
Muitas são as providências de ordem medicinal que podem minorar esse mal, pois os gases intestinais são apenas sintomas de doenças do aparelho digestivo. Mas para ter tranqüilidade, quem sofre com esses problema pode fazer a simpatia do Chá de Telha.
O Chá de Telha, como diz o próprio nome, é feito com cacos de telhas comuns, destas que cobrem as casas. Parte-se uma telha e pega-se seis pedaços. Coloca-se tudo numa panela e ferve-se por 15 minutos. Está pronto o Chá de Telha, uma simpatia comprovada contra os inoportunos gases intestinais.
[Nota desta página: a elucidativa publicação não esclarece, neste ponto, se é necessário tomar o Chá de Telha, muito menos se deve-se fazê-lo numa sexta-feira.]
***
Para afastar os chatos com raspas de veado
Nossa felicidade doméstica tem muito a ver com as pessoas que freqüentam nossa casa. Entre os vários freqüentadores que costumamos receber estão os “chatos”. São aqueles que só contam vantagem o tempo todo: quando oferecemos jantar, por exemplo, começam a contar de outros mais ricos, dos quais gostaram mais, e coisas semelhantes. Esses chatos estragam a nossa alegria e não dão a mínima importância ao fato de estarem nos incomodando.
Para afastá-los devemos ir a uma casa de artigos de Umbanda e adquirir “Raspas de Veado”. Tendo em mão as raspas de veado, devemos aguardar a primeira visita do chato ou dos chatos (muitas vezes eles agem em casal). Daí sopramos pelas costas deles o pó das raspas de veado. Não há erro: nunca mais eles voltarão à sua casa.
***
Para curar disenteria
A disenteria debilita bastante o organismo, ficando até perigosa quando atinge uma criança. A medicina popular recomenda que a pessoa coma chuchu cozido, porque esse legume tem o dom de “segurar”. Nas cidades grandes há gente que toma Coca-Cola como remédio para esse tipo de mal, cujas origens podem ser múltiplas.
No interior do Nordeste, sem prejuízo da medicina convencional ou popular aplicada, as pessoas valem-se de simpatias, algumas delas até mesmo engraçadas, como essa que transcrevemos abaixo:
Faz-se um colar de sementes de cabaça e coloca-se no pescoço da pessoa doente, fazendo-a recitar:
- Aru aru aroeira. Cabacinha, cabação, cabaceira. Quem me dera este colar me curar da caganeira. Um, dois, três. Viva o preto e o português. Da caganeira não sou mais freguês.
Aos poucos e segundo a demanda dos leitores, vou compartilhando mais soluções asseguradamente à prova de falhas.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
O perigo mora além
A época do Carnaval é – e sempre foi – propícia para reacender na meia dúzia de sempre os ânimos detratores das coisas do Brasil. Parece que essa gente pega carona na licenciosidade diáfana do período e, despida de maiores pudores, põe-se a destilar às claras seu ódio noutrora disfarçado pelo que é mais próprio do nosso povo. Antes, o mais comum era o “é por isso que esse país não vai pra frente”, de um lado, “ópio do povo” de outro. Hoje, está mais para “por que é que para ser brasileiro eu preciso gostar de Carnaval, torcer pela Seleção Brasileira?”, e por aí vai. O fato, é que isso não é de hoje e sempre teve um papel muito específico na construção simbólica do discurso e da prática da elite que se nutre do sangue do povo, como já escrevi outro dia: a rejeição dos padrões da cultura que aqui se formou, da forma de ser, falar, comer, dançar, rezar que se forjou a partir do encontro das tradições e saberes que vieram a dar nestas bandas sempre foi necessária para estabelecer uma divisão nítida entre o “nós” e o “eles”; para garantir privilégios, para manter a estrutura hierárquica e engessada do nosso ser social, para aplacar consciências até.
É claro que essas falas quando assim desavergonhadas de maiores pudores nos acentuam a urgência por que clamam as ruas deste país. Os mais inflamados, como meus manos Edu Goldenberg, Arthur Favela Tirone e Bruno Ribeiro, estão sempre a postos para descarregar suas poderosas baterias em defesa dos nossos brios, com as quais faço sempre coro. Mas eu que sou mais da turma de mestre Luiz Antônio Simas e não sou de acender nem cotoco de vela roubado pra defunto que não se dê ao respeito, acho mesmo que Luís da Câmara Cascudo, Villa-Lobos, Mário de Andrade, Darcy Ribeiro e alguns outros tantos brasileiros fundamentais já deram conta dessa gente. Nossa missão hoje, guardadas as devidíssimas, não é mais dura nem menos inglória, mas talvez mais sutil. Hoje há gente muito, mas muito mais perigosa a ser combatida.
São muito mais perigosos os que alardeiam seu amor pelo Carnaval, mas não fazem mais do que se apropriar do espaço da festa para promover seus interesses, vaidades e idiossincrasias rastaqüeras; as empresas que montam camarotes milionários cheios de “celebridades”, regados a bebida e comida que o povo não sonha experimentar, mas são incapazes de desembolsar cinco mil reais para financiar uma festa de rua, gratuita, para população brincar e ouvir a melhor música brasileira. São terrivelmente mais nocivos aqueles que defendem a presença da “música brasileira” nas rádios e televisões, mas não fazem senão entupir a população com suas porcarias enlatadas da pior qualidade, mantendo o esquema viciado de produção e divulgação da mesmice auto-replicante. Os que enaltecem as qualidades da “comida de boteco”, mas nada mais fazem que reproduzir bisonhos simulacros onde a cultura genuína das ruas e esquinas só entra após a devida e impiedosa pasteurização, livrando-a, juntamente com gorduras e carboidratos, do que tem de criativa e libertadora, informal e democrática. Os que se esgoelam “torcendo” pelo “Brasil-sil-sil-sil-sil”, mas ajudam a alimentar o esquema imoral do monopólio da informação e do entretenimento de massa, a enaltecer o “profissionalismo” que subjuga os interesses de uma nação sofrida e carente de alegria ao interesse desmedido de meia dúzia de modernos maganos e seus tumbeiros virtuais. Os que fazem do “nacionalismo” uma moda como todas as outras, a reproduzir os mesmíssimos padrões de alienação, submissão e opressão, perda de individualidade e liberdade.
Está na hora de metermos em seus devidos lugares aqueles que usurpam o nome do Brasil, a cultura de seu povo. Porque só é efetivamente nacional o que reafirma não só a singularidade do modo brasileiro de falar, dançar, cantar, comer, trabalhar, rezar, mas o direito desta singularidade se preservar, como condição da nossa existência livre enquanto povo e como indivíduos. Só serão populares de fato as práticas que permitam uma forma de existência despida das predeterminações formalizadas, onde só há espaço para a aceitação passiva, para a interação pré-ordenada; que manifestem o poder dos indivíduos de criar e recriar constantemente suas formas de existência, seus espaços de mediação e interação, sua maneira de ser e estar no mundo, junto com seus semelhantes. Só será popular o que reafirma a especificidade de uma cultura segundo a teia de ligações históricas que a torna tributária de determinadas tradições. Não serão nem nacionais nem populares, no sentido libertário e emancipador que queremos ressaltar, as práticas que reiterem as lógicas utilitaristas regidas pelos princípios da eficiência e da acumulação. Não à eficiência! Sim ao encantamento, à sutileza, à possibilidade! Não à acumulação! Sim ao compartilhamento do conhecimento e da experiência que libertam e emancipam o ser humano.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Carnaval
Augusto Frederico Schmidt
Foi só o que me ficou deste Carnaval:
A amargura enorme da morte do chefe do cordão "Mulher é triste o meu fim"
Ele era a alma carnavalesca da Estação do Encantado,
Empenhara-se completamente
Para que o seu cordão fosse o mais bonito na segunda-feira.
No trabalho, antes dos dias da folia chegarem, cerrava os olhos e via
A multidão pasma da Avenida aplaudindo com entusiasmo o seu cordão...
Ninguém terá amado jamais como ele amou as cores do "Mulher é triste o meu fim".
Era capaz de matar até em defesa do seu adorado cordão.
A chuva descia impiedosamente. O cordão vinha para a passeata na Avenida,
E foi quando o trem entrava na Estação Pedro II que ele, pingente, caiu sob as rodas e
Mas eram grandes as despesas já feitas
E o cordão teve de ir sem ele...
Só ele não foi.
Ficou rígido estendido num mármore de necrotério.
Era a alma carnavalesca do Encantado: orai por ele!
Foi só o que me ficou deste Carnaval:
A amargura enorme da morte do chefe do cordão "Mulher é triste o meu fim"
Ele era a alma carnavalesca da Estação do Encantado,
Empenhara-se completamente
Para que o seu cordão fosse o mais bonito na segunda-feira.
No trabalho, antes dos dias da folia chegarem, cerrava os olhos e via
A multidão pasma da Avenida aplaudindo com entusiasmo o seu cordão...
Ninguém terá amado jamais como ele amou as cores do "Mulher é triste o meu fim".
Era capaz de matar até em defesa do seu adorado cordão.
A chuva descia impiedosamente. O cordão vinha para a passeata na Avenida,
E foi quando o trem entrava na Estação Pedro II que ele, pingente, caiu sob as rodas e
[morreu diante dos companheiros atônitos.
Mas eram grandes as despesas já feitas
E o cordão teve de ir sem ele...
Só ele não foi.
Ficou rígido estendido num mármore de necrotério.
Era a alma carnavalesca do Encantado: orai por ele!
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Quando o confete surgiu formaram um trust para valorizar o preço
Jota Efegê
Antes havia o entrudo. Era brutal, grosseiro. O Paiz, numa resenha de quarta-feira de cinzas, referente aos festejos carnavalescos de 1885, contra ele se manifestava a 18 de fevereiro condenando-o com veemência. Escrevia, então: “O entrudo, com sua brutal expansão, perturbou ainda a ordem dos folguedos, estragando as roupas mais vistosas e cuidadas e provocando desordens e rixas.” E prosseguia mostrando a violência daquilo a que chamavam divertimento: “Os amadores mais apaixonados não se contentavam com limões de qualquer diâmetro, era aos baldes d’água que brincavam”. Gracejo estúpido, selvagem, pois, como concluía o jornal, “algumas ruas ficaram completamente alagadas com o aguaceiro caído sobre os que por ela tiveram a infelicidade de passar”.
Assim, quando as autoridades atendendo aos reclamos de toda a imprensa e da maioria da população proibiram terminantemente o absurdo recreativo, os aplausos vieram de todos os lados. Surgia também aos poucos, anos depois, um acessório gracioso para animar os festejos de Momo na metrópole carioca: o confetti, grafado com dois tês, na fidelidade que se prestava à sua procedência parisiense. Isto em junho de 1892, quando foi realizado o Carnaval (transferido da época própria devido à febre amarela), e o aparecimento dos papeizinhos multicores foi saudado efusivamente. Logo, os comerciantes, que jamais dormiram no ponto, viram na novidade um meio de aumentar o faturamento. Formaram um trust, ou sindicato, como se dizia quando a pletora de americanismos ainda não vingara em nosso linguajar, para explorar a venda do novo produto carnavalesco.
(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro, Funarte, 1982, pp 86-88. Publicado originalmente em O Jornal, edição de 22 de janeiro de 1967)
Assim, quando as autoridades atendendo aos reclamos de toda a imprensa e da maioria da população proibiram terminantemente o absurdo recreativo, os aplausos vieram de todos os lados. Surgia também aos poucos, anos depois, um acessório gracioso para animar os festejos de Momo na metrópole carioca: o confetti, grafado com dois tês, na fidelidade que se prestava à sua procedência parisiense. Isto em junho de 1892, quando foi realizado o Carnaval (transferido da época própria devido à febre amarela), e o aparecimento dos papeizinhos multicores foi saudado efusivamente. Logo, os comerciantes, que jamais dormiram no ponto, viram na novidade um meio de aumentar o faturamento. Formaram um trust, ou sindicato, como se dizia quando a pletora de americanismos ainda não vingara em nosso linguajar, para explorar a venda do novo produto carnavalesco.
Monopólio ou sindicato ou trust
Chegado ao Brasil como art nouveau, como o chique da festa carnavalesca e classificado pela imprensa como “inocente brincadeira, muito agradável e elegante”, os comerciantes que o importaram atraíram vultosa freguesia. Alguns o vendiam a 2$000 (dois mil réis) o quilo. Outros cobravam mais e justificavam que seus confetti eram “parisienses genuínos, de variadas cores políticas, sem areia nem salicilato, nem papéis de jornais”. Justificavam com esse esclarecimento o seu preço de 3$000 e ao mesmo tempo deixavam claro que alguns concorrentes adicionavam corpos estranhos ao produto possivelmente não legítimo, não genuíno de Paris. Tudo no ambiente competitivo do meio, caracterizando aquele tempo a hoje tão propalada ‘livre iniciativa’ e quando nem se sonhava com as malsinadas Cofapes, Cecépes, Sunabes e quejandas administrando operações mercantis.
Não satisfeitos com a crescente procura que o artigo tinha, os comerciantes tentavam mais ganho. Surgiu, portanto, no aludido O Paiz, de 21 de junho do citado ano, ao lado de uma notícia de que “diversos grupos pretendem fazer batalhas de confetti, como em Paris e Nice, hoje à tarde, entre as ruas do Ouvidor e Teatro”, nova denúncia. Tinha o título “Não dormem”, e dizia: “Acha-se em vias de formação uma companhia com o capital de 1.000 contos para explorar os confetti no próximo Carnaval. Mil contos!” Isto, porém, não era tudo. O mais grave aparecia em outro suelto, sempre no mesmo matutino e em igual data: “Consta ter sido formado, ontem, um sindicato para comprar todos os confetti parisiense existentes no Rio de Janeiro para aumentar o preço. Se tal acontecer, façam greve os compradores. Olho vivo.” Tinha-se, desse modo, o Carnaval através do gracioso confete propiciando o monopólio, o sindicato ou o agora chamado trust.
Chegado ao Brasil como art nouveau, como o chique da festa carnavalesca e classificado pela imprensa como “inocente brincadeira, muito agradável e elegante”, os comerciantes que o importaram atraíram vultosa freguesia. Alguns o vendiam a 2$000 (dois mil réis) o quilo. Outros cobravam mais e justificavam que seus confetti eram “parisienses genuínos, de variadas cores políticas, sem areia nem salicilato, nem papéis de jornais”. Justificavam com esse esclarecimento o seu preço de 3$000 e ao mesmo tempo deixavam claro que alguns concorrentes adicionavam corpos estranhos ao produto possivelmente não legítimo, não genuíno de Paris. Tudo no ambiente competitivo do meio, caracterizando aquele tempo a hoje tão propalada ‘livre iniciativa’ e quando nem se sonhava com as malsinadas Cofapes, Cecépes, Sunabes e quejandas administrando operações mercantis.
Não satisfeitos com a crescente procura que o artigo tinha, os comerciantes tentavam mais ganho. Surgiu, portanto, no aludido O Paiz, de 21 de junho do citado ano, ao lado de uma notícia de que “diversos grupos pretendem fazer batalhas de confetti, como em Paris e Nice, hoje à tarde, entre as ruas do Ouvidor e Teatro”, nova denúncia. Tinha o título “Não dormem”, e dizia: “Acha-se em vias de formação uma companhia com o capital de 1.000 contos para explorar os confetti no próximo Carnaval. Mil contos!” Isto, porém, não era tudo. O mais grave aparecia em outro suelto, sempre no mesmo matutino e em igual data: “Consta ter sido formado, ontem, um sindicato para comprar todos os confetti parisiense existentes no Rio de Janeiro para aumentar o preço. Se tal acontecer, façam greve os compradores. Olho vivo.” Tinha-se, desse modo, o Carnaval através do gracioso confete propiciando o monopólio, o sindicato ou o agora chamado trust.
Restrição, minguante, sumiço
De grande procura em 1892, quando se assinalou seu aparecimento no Rio ao mesmo tempo que nas cidades européias, o confete, já com a grafia abrasileirada, chega aos nossos dias mas sem o domínio de outrora. Agora ele vem rareando e já não acontece – como nos fala Eneida em sua História do Carnaval carioca - “a rua do Ouvidor e adjacências ficaram, em alguns pontos, como verdadeiras alcatifas de confete de 30 e mais centímetros de espessura”. Os arremessos que antes se faziam fartos, as mãos transbordantes, são agora parcos e caem sobre os alvejados como chuvinha miúda, quase permitindo que se identifique as cores e a quantidade numa conta exatae capaz de não ultrapassar duas ou três dezenas.
De origem discutida, uns dão a Itália como sua procedência e ligam-no ao termo confetto, ao mesmo tempo que consignam a sua invenção a Ettore Fenderls, falecido em novembro último na cidade de Vittorio Venetto, na Itália, com 104 anos. Outros a contestam e apontam o comerciante francês Le Malin Cassin como o criador da novidade. Há mais a afirmativa de Morales de los Rios reivindicando para a Espanha a procedência e dando-lhe o nome simples e intuitivo de papelillos ao mesmo tempo que surge o abrasileiramento papelinhos ou papeizinhos para uso correntio. O certo é que o confete surgiu no Brasil como parisien, servindo de arma graciosa para batalhas e provocando a gula de comerciantes ávidos de um faturamento abundante. Objetivo que conseguiram unindo-se em um sindicato, ou falando modernamente, formando um trust.
De grande procura em 1892, quando se assinalou seu aparecimento no Rio ao mesmo tempo que nas cidades européias, o confete, já com a grafia abrasileirada, chega aos nossos dias mas sem o domínio de outrora. Agora ele vem rareando e já não acontece – como nos fala Eneida em sua História do Carnaval carioca - “a rua do Ouvidor e adjacências ficaram, em alguns pontos, como verdadeiras alcatifas de confete de 30 e mais centímetros de espessura”. Os arremessos que antes se faziam fartos, as mãos transbordantes, são agora parcos e caem sobre os alvejados como chuvinha miúda, quase permitindo que se identifique as cores e a quantidade numa conta exatae capaz de não ultrapassar duas ou três dezenas.
De origem discutida, uns dão a Itália como sua procedência e ligam-no ao termo confetto, ao mesmo tempo que consignam a sua invenção a Ettore Fenderls, falecido em novembro último na cidade de Vittorio Venetto, na Itália, com 104 anos. Outros a contestam e apontam o comerciante francês Le Malin Cassin como o criador da novidade. Há mais a afirmativa de Morales de los Rios reivindicando para a Espanha a procedência e dando-lhe o nome simples e intuitivo de papelillos ao mesmo tempo que surge o abrasileiramento papelinhos ou papeizinhos para uso correntio. O certo é que o confete surgiu no Brasil como parisien, servindo de arma graciosa para batalhas e provocando a gula de comerciantes ávidos de um faturamento abundante. Objetivo que conseguiram unindo-se em um sindicato, ou falando modernamente, formando um trust.
(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro, Funarte, 1982, pp 86-88. Publicado originalmente em O Jornal, edição de 22 de janeiro de 1967)
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
São Paulo 454 anos: duas perdas, uma semente
O aniversário da cidade de São Paulo, passado no último dia 25 de janeiro, foi marcado pela perda de duas grandes figuras da vida da cidade e do Brasil. Como os jornalões, às de costume, silenciaram reiterando sua ignorância crassa das coisas do Brasil, cumprimos aqui humildemente a função de cronista.
***
Morreu, aos 92 anos, na pequena cela que ocupava havia dezoito anos no Mosteiro de São Bento em São Paulo, Dom Cândido Padim, bispo emérito da diocese de Bauru, uma das grandes figuras da Igreja Católica e da resistência política no Brasil do século XX. Sua cultura extraordinária de advogado, teólogo, doutor em filosofia, educador, profundo conhecedor das ciências sociais e da história da América Latina, aliada ao seu caráter e coragem inquebrantáveis fizeram com que se excetuasse a regra de que beneditinos não são elevados ao episcopado. Com participações destacadas nos encontros de Puebla e Medelín, que marcaram a guinada da Igreja latino-americana para o engajamento social, foi um dos grandes responsáveis pelo papel ativo da Igreja brasileira na resistência à ditadura militar, ao lado de Tomás Balduíno, Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns, Adriano Hipólito e Benedito Ulhôa Vieira. Valendo-se de sua condição de prelado, usou o púlpito da Sé de Bauru para as mais veementes e diretas denúncias contra as arbitrariedades do regime, tendo testemunhado em inúmeros inquéritos em favor de intelectuais e ativistas políticos perseguidos e processados. Sua obra mais conhecida, A doutrina de segurança nacional e a missão da Igreja, de 1973, foi a mais direta contestação teórica da lenga-lenga ideológica preconizada pelo funesto General Golbery, tascando-lhe abertamente, no auge da repressão, a pecha de autoritária e fascista. Seu engajamento incansável e insubmissão aos controles castradores da Cúria Romana valeram-lhe finalmente um veto papal à sua participação no encontro episcopal de Santo Domingo.
Do privilégio que tive de conviver consigo, no ambiente do mosteiro paulistano da virada dos anos 80 para 90, tão diferente dos dias que correm, comecei a aprender a preciosa lição que viria finalmente a entender anos depois, com Mãe Stella de Oxóssi: de que qualquer que seja a matriz da sabedoria que fazemos por acumular, ela tem de ser colocada incondicionalmente a serviço do ser humano.
***
Foi-se também no dia 24, aos 91, o grande violonista Antônio Rago, talvez a última das figuras legendárias do velho bairro paulistano do Bixiga. Foi na música popular da chamada época de ouro, por intermédio de seus maiores influenciadores, Américo "Canhoto" Jacomino e Armandinho, que o "Mago do violão" inscreveu seu nome entre os grandes, como acompanhante "oficial" dos maiores nomes da era do rádio e como autor de mais de 400 composições gravadas, incluindo parcerias com Adoniran Barbosa. Foi no rádio, aliás, e depois na televisão, que
consagrou-se definitivamente como diretor musical, produtor e apresentador. Tendo acompanhado Francisco Alves na célebre apresentação do Largo da Concórdia, em São Paulo, em cujo regresso ao Rio o Rei da Voz sofreria o acidente fatal que o vitimou, sempre alardeou ter em vão tentado convencê-lo a não partir, permanecendo para mais um espetáculo dali a dois dias. Gabava-se também de ter sido o introdutor do violão elétrico na música brasileira.
Nos últimos anos, radicou-se em cidades do interior de São Paulo, para encerrar sua carreira em Santos, onde até há pouco apresentava seu programa semanal na Rádio Cacique, lecionava violão e fazia gravações solo.
***
Nem tudo são cinzas neste pré-carnaval paulistano. Quem ficou, viu, em pleno feriado, a plúmbea metrópole de manguinhas de fora, reunindo gente, muita gente fantasiada, embalada por sambas, frevos e marchinhas. Viu milhares de pessoas pararem a Vila Madalena, nos Blocos do Ó, dos Filhos de Mamããis , do Kolombolo e no grito de carnaval da Pérola Negra. Viu o Cordão Bibi-tantã e o ajuntamento de diversidades na incansável Rua General Osório.
Quando passei o primeiro dos meus vinte carnavais no Rio de Janeiro, o glorioso e então septuagenário Cordão da Bola Preta reunia de cinco a sete mil pessoas. Hoje são quatrocentas mil. Havia a Banda de Ipanema, muito mais pra embrião das paradas multi-coloridas de hoje do que pra Carnaval, uma dúzia de bandas e blocos guerreiros de bairro e uns bate-bolas espalhados pelo subúrbio. Hoje são mais de quatrocentos blocos. Então, senhores, mesmo que estejamos tão longe do Rio de Janeiro, em tantos sentidos, há esperança.
O paulistano redescobre seu gosto pelo Carnaval de rua. Uma hora, nem prefeitura, nem c.e.t. (assim, bem minúscula – que o verdadeiro e único Senhor dos Caminhos cuide deles!) e nem a ignorância crassa dos "formadores" (pausa para risos urológicos) de opinião vão conseguir segurar.
***
Morreu, aos 92 anos, na pequena cela que ocupava havia dezoito anos no Mosteiro de São Bento em São Paulo, Dom Cândido Padim, bispo emérito da diocese de Bauru, uma das grandes figuras da Igreja Católica e da resistência política no Brasil do século XX. Sua cultura extraordinária de advogado, teólogo, doutor em filosofia, educador, profundo conhecedor das ciências sociais e da história da América Latina, aliada ao seu caráter e coragem inquebrantáveis fizeram com que se excetuasse a regra de que beneditinos não são elevados ao episcopado. Com participações destacadas nos encontros de Puebla e Medelín, que marcaram a guinada da Igreja latino-americana para o engajamento social, foi um dos grandes responsáveis pelo papel ativo da Igreja brasileira na resistência à ditadura militar, ao lado de Tomás Balduíno, Pedro Casaldáliga, Paulo Evaristo Arns, Adriano Hipólito e Benedito Ulhôa Vieira. Valendo-se de sua condição de prelado, usou o púlpito da Sé de Bauru para as mais veementes e diretas denúncias contra as arbitrariedades do regime, tendo testemunhado em inúmeros inquéritos em favor de intelectuais e ativistas políticos perseguidos e processados. Sua obra mais conhecida, A doutrina de segurança nacional e a missão da Igreja, de 1973, foi a mais direta contestação teórica da lenga-lenga ideológica preconizada pelo funesto General Golbery, tascando-lhe abertamente, no auge da repressão, a pecha de autoritária e fascista. Seu engajamento incansável e insubmissão aos controles castradores da Cúria Romana valeram-lhe finalmente um veto papal à sua participação no encontro episcopal de Santo Domingo.
Do privilégio que tive de conviver consigo, no ambiente do mosteiro paulistano da virada dos anos 80 para 90, tão diferente dos dias que correm, comecei a aprender a preciosa lição que viria finalmente a entender anos depois, com Mãe Stella de Oxóssi: de que qualquer que seja a matriz da sabedoria que fazemos por acumular, ela tem de ser colocada incondicionalmente a serviço do ser humano.
***
Foi-se também no dia 24, aos 91, o grande violonista Antônio Rago, talvez a última das figuras legendárias do velho bairro paulistano do Bixiga. Foi na música popular da chamada época de ouro, por intermédio de seus maiores influenciadores, Américo "Canhoto" Jacomino e Armandinho, que o "Mago do violão" inscreveu seu nome entre os grandes, como acompanhante "oficial" dos maiores nomes da era do rádio e como autor de mais de 400 composições gravadas, incluindo parcerias com Adoniran Barbosa. Foi no rádio, aliás, e depois na televisão, que
consagrou-se definitivamente como diretor musical, produtor e apresentador. Tendo acompanhado Francisco Alves na célebre apresentação do Largo da Concórdia, em São Paulo, em cujo regresso ao Rio o Rei da Voz sofreria o acidente fatal que o vitimou, sempre alardeou ter em vão tentado convencê-lo a não partir, permanecendo para mais um espetáculo dali a dois dias. Gabava-se também de ter sido o introdutor do violão elétrico na música brasileira.Nos últimos anos, radicou-se em cidades do interior de São Paulo, para encerrar sua carreira em Santos, onde até há pouco apresentava seu programa semanal na Rádio Cacique, lecionava violão e fazia gravações solo.
***
Nem tudo são cinzas neste pré-carnaval paulistano. Quem ficou, viu, em pleno feriado, a plúmbea metrópole de manguinhas de fora, reunindo gente, muita gente fantasiada, embalada por sambas, frevos e marchinhas. Viu milhares de pessoas pararem a Vila Madalena, nos Blocos do Ó, dos Filhos de Mamããis , do Kolombolo e no grito de carnaval da Pérola Negra. Viu o Cordão Bibi-tantã e o ajuntamento de diversidades na incansável Rua General Osório.
Quando passei o primeiro dos meus vinte carnavais no Rio de Janeiro, o glorioso e então septuagenário Cordão da Bola Preta reunia de cinco a sete mil pessoas. Hoje são quatrocentas mil. Havia a Banda de Ipanema, muito mais pra embrião das paradas multi-coloridas de hoje do que pra Carnaval, uma dúzia de bandas e blocos guerreiros de bairro e uns bate-bolas espalhados pelo subúrbio. Hoje são mais de quatrocentos blocos. Então, senhores, mesmo que estejamos tão longe do Rio de Janeiro, em tantos sentidos, há esperança.
O paulistano redescobre seu gosto pelo Carnaval de rua. Uma hora, nem prefeitura, nem c.e.t. (assim, bem minúscula – que o verdadeiro e único Senhor dos Caminhos cuide deles!) e nem a ignorância crassa dos "formadores" (pausa para risos urológicos) de opinião vão conseguir segurar.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Um jardim
"Uma rosa é uma rosa é uma rosa", teve ocasião de esclarecer-nos oportunamente a grande Gertrude Stein, com a perspicácia única e ululante dos poetas. Sem muitos riscos lógicos, só os inevitáveis, creio-me seja permitido afirmar, pois então, que um jardim é um jardim é um jardim.
Voltei a querer um jardim, sabem? Um jardim honesto, eis o desejo, mais que idéia, que me vem assaltando. Sem intenções, sem obrigações – porque a casa, mais que a vida, é minha: apenas um bom e velho – sobretudo! – jardim. Onde se possa minimamente dispor flores e pedras e reticências. E um banco. Não é possível, ou se é, não tem a menor graça, um jardim sem um banco.
Os há muito, hoje em dia, jardins. Mas raramente guardam a simplicidade existente dos velhos jardins; que não se davam a utilidades, e menos ainda a bazófias.
Que haja, pois, um jardim com um banco com um eu no banco no jardim. Que o jardim exista para ser disponível ao jardineiro e aos olhos passantes. Menos aos olhos concretos do que aos possíveis... Simplesmente, assim.
Um jardim.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Navio desengano
(Wilson Moreira e Paulo George)
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
O meu mar que era infinito
é um lago tão pequeno
Teu amor que era bonito
é um oceano de veneno
Minha rota é meu punhal
Aos pouco vou naufragando
É que eu vou carregando
A dor do mundo e todo mal
É que eu vou carregando
A dor do mundo e todo mal
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Correndo do que vivi sonhando
Um dia fui bem no fundo das águas
As mágoas estão no mundo
todas vão se misturando
Quem sabe se de repente
você vem nessa enchente
E depois da tempestade me navega amando
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
O meu mar que era infinito
é um lago tão pequeno
Teu amor que era bonito
é um oceano de veneno
Minha rota é meu punhal
Aos pouco vou naufragando
É que eu vou carregando
A dor do mundo e todo mal
É que eu vou carregando
A dor do mundo e todo mal
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Navegando eu vou levando meu navio desengano
Passa ano, entra ano, meu amor se acabando
Correndo do que vivi sonhando
Um dia fui bem no fundo das águas
As mágoas estão no mundo
todas vão se misturando
Quem sabe se de repente
você vem nessa enchente
E depois da tempestade me navega amando
quarta-feira, 11 de julho de 2007
90 anos da Greve de 1917
Augusto Buonicore*
“Em São Paulo só não ganha dinheiro
quem não trabalha, só é pobre quem é vadio”
(Correio Paulistano - junho/1917)
Um operário morreu, e agora?
A situação era tensa. Um grupo de operários chegou à porta do cotonifício Crespi e conclamou os trabalhadores a aderirem ao movimento grevista, que havia se iniciado há dias. A polícia, decidida a não permitir piquetes, interveio violentamente. O saldo do conflito: um morto. A vítima chamava-se José Martinez, era sapateiro e tinha apenas 21 anos. Depois deste dia São Paulo não seria mais a mesma.
Numa fria manhã de julho, dia 11, uma multidão de cerca de 10 mil pessoas caminhou lentamente pelas principais ruas da cidade. A cidade de São Paulo estava parada numa última homenagem ao operário assassinado. As bandeiras vermelhas e negras tremulavam entre choros e sentimentos de vingança. A São Paulo proletária estava nas ruas, nunca se tinha visto aquilo antes.
O cortejo fúnebre seguiu lento pelo aterro do Carmo, hoje continuação da avenida Rangel Pestana, tentando se dirigir ao palácio do Governo, mas foi impedida pela policia. Seguiu então pela rua Floriano Peixoto até a praça XV de Novembro. De repente, a multidão parou e só se ouviu um grito: “Libertem Nalepinsk! Libertem Nalepinsk!”.
Nalepinsk, outro sapateiro, preso por ter denunciado o assassinato de Martinez. Uma comissão se deslocou até a Secretaria da Justiça para exigir sua libertação. O delegado-geral, acuado, prometeu soltá-lo logo após o cortejo. Uma vitória, a primeira. A multidão avançou, chegou a Praça da Sé. Agora era a vez dos discursos. O cortejo seguiu então até o cemitério do Araçá, sua última parada.
Ali, diante do túmulo de Martinez, os oradores se revezavam. Eram homens e mulheres do povo. Na voz traziam a indignação e a revolta. “Soldados, não deveis perseguir os vossos irmãos de miséria. A fome reina em nossos lares, e os nossos filhos nos pedem pão. Os perniciosos patrões contam, para sufocar as nossas reclamações, com as armas de que vos armaram (...) Soldados! Recusai-vos ao papel de carrascos”. A multidão chorava. Nem mesmo os soldados, escalados para vigiar o movimento, se contiveram e enxugavam os olhos com as mangas de suas fardas. Um operário morreu, e agora?
Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas
Ser operário naqueles dias não era nada fácil, nunca foi. Trabalhava-se em media 14 horas diárias, sem férias, sem descanso semanal remunerado e sem nenhum tipo de assistência. Para eles apenas o trabalho. “Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas”, afirmava a imprensa burguesa. Mas, produzir para quem? Perguntavam os operários.
Por todo este trabalho, recebiam parcos salários que não eram o suficiente para o sustento de suas famílias, o que levava mulheres e crianças a se empregarem nas fábricas, submetendo-se as mesmas condições de trabalho dos homens e recebendo menores salários. Os serviços eram insalubres, as jornadas de trabalho longas, sem horário para as refeições que eram feitas ao lado das máquinas. Afinal, São Paulo não podia parar. “Oh! Pobre dos proletários!”, dizia uma canção anarquista.
Em 1912, 67% dos trabalhadores têxteis eram mulheres. Em 1918, mais de 50% do operariado fabril era constituído de menores, como podemos constatar neste trecho de artigo publicado em um jornal da época: “Assistimos a entrada de cerca de 60 menores, às 7 horas da noite (...) Essas crianças saem às 6 horas da manhã.
Trabalham, pois, 11 horas a fio em serviço noturno, apenas com um descanso de 20 minutos (...) O pior é que elas se queixam de serem espancadas pelo mestre de fiação (...) Alguns apresentam mesmo ferimentos produzidos por uma manivela. Trata-se de crianças de 12, 13 e 14 anos”.
O custo de vida aumentava dia-a-dia. Em 1916, os gêneros alimentícios subiram mais de 60%, sem que houvesse qualquer reajuste salarial. Começava a faltar alimentos e toda nossa produção era vendida para a Europa, que estava em guerra. A fome batia as portas das famílias dos trabalhadores. É neste contexto que teve inicio a onda da greve que abalou o país.
Em julho de 1917, o que parecia mais uma simples greve, como outras tantas que já haviam ocorrido desde o começo do século, acabou por desembocar no maior movimento de contestação operária já visto na historia do Brasil até então.
E os operários disseram não!
Uma comissão de operários do Cotonifício Crespi se dirigiu à direção da empresa exigindo um aumento salarial de 20%, baseado na elevação do custo de vida. O dono da empresa não aceitou o pedido. Os operários o ameaçaram com uma greve. A resposta patronal foi fechar a fábrica. A greve então se ampliou estendendo-se a outras categorias.
No dia 8 de julho ocorreu o primeiro incidente na porta da fabrica. Um choque entre operários e policias deixou inúmeros feridos; os ânimos se acirraram. Na manhã do dia seguinte, novo incidente, agora na porta da Companhia Antártica. Trabalhadores enfurecidos tomaram um caminhão da companhia e destruíram as garrafas por ele transportadas. Seguiram, então, em passeata pelo Brás até a fábrica de tecelagem Mariângela. Ali ocorreu um novo e mais grave confronto com a polícia. Martinez caiu mortalmente ferido. Um operário morreu, e agora?
Saindo do enterro do jovem sapateiro a multidão dirigiu-se à Praça da Sé para um grande comício de protesto. Ali exigiu-se a reabertura das ligas operárias, proibidas de funcionar no dia anterior, a libertação dos grevistas presos e a punição dos assassinos de Martinez.
O Comitê de Defesa Proletária, formado no dia anterior, assumiu a direção do movimento e apresentou sua pauta de reivindicações: aumento de 35% dos salários, proibição do trabalho de menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno para menores de 14 anos e mulheres, jornada de trabalho de 8 horas, respeito ao direito de associação, congelamento de preços dos alimentos e redução dos aluguéis.
Nos bairros operários explodiu o descontentamento. Milhares de populares saquearam lojas e armazéns. O numero de grevistas cresceu dia-a-dia. De 10 mil, o número de grevistas subiu para 20 mil - mais de quarenta mil trabalhadores entrariam em greve durante o movimento. Eram sapateiros, eletricitários, trabalhadores das companhias de gás, mecânicos e a quase a totalidade dos trabalhadores de pequenas oficinas, que compunham o grosso da classe operaria do período.
Aumentou a greve, aumentou a repressão e a resposta dos operários foi imediata: ergueram-se barricadas. Os grevistas tomaram os bondes da cidade. Alguns foram destruídos pela fúria popular. “Uma multidão de garotos, afirmou o jornal O Estado de São Paulo, se entregou à todos os excessos, escolhendo para alvo de suas loucuras os carros elétricos (...) E o que é mais deplorável, é que um bando de mocinhas, infelizes operárias de fabricas, imitou os gestos da garotada, tomando conta de três elétricos no Largo da Sé”. Os grevistas tentaram ocupar a 5ª delegacia do Brás e não conseguiram. O posto policial passou a ser defendido pelas tropas de infantaria e a cavalaria.
No largo da Estação Norte, os policiais tentaram invadir um Café, onde se reuniam alguns líderes grevistas, mas foram recebidos à bala. No tiroteio que se seguiu, vários caíram feridos. Novamente, ergueram-se barricadas com sacos de mantimentos e veículos tombados. As ruas do Brás e da Mooca transformaram-se, instantaneamente, num labirinto de barricadas, que ninguém ousava percorrer. No dia 13 de Julho os jornais publicaram uma nota da Delegacia Geral: “pedimos ao povo pacifico que se recolha às suas casas para não ser recolhido no meio dos desordeiros (...), pois a policia (...) vai manter a ordem, para isso empregando os meios mais energéticos”.
Frente aos constantes casos de insubordinação da Força Pública e da guarda cívica, que se recusavam a reprimir os grevistas, foram solicitadas tropas do interior. Navios de guerra aportaram na cidade de Santos. Marinheiros foram destacados para reprimir populares que saqueavam os armazéns do porto. “A policia não permitirá reuniões nas praças e ruas públicas, dissolverá pela força os que pretendiam ir contra a esta resolução”, afirmava um novo comunicado governamental. Tropas de Infantaria e a Cavalaria percorriam as ruas dispersando aglomerações.
Na sexta-feira, faltava pão, gás, transporte e um grupo de operários tentou parar um dos poucos bondes que ainda teimava em circular, escoltado por policiais fortemente armados. Novo tiroteio, outra vítima fatal: uma menina de 12 anos. Os tiroteios se sucediam. Outro morto, o pedreiro Nicola Salermo. O que era uma simples greve por aumento salarial e melhoria de condições de trabalho estava se transformando numa verdadeira insurreição operária.
Diante do impasse nas negociações entre operários e patrões, uma comissão de jornalistas de diversas publicações da capital paulista foi formada para mediar o conflito. O resultado dessas negociações foi uma proposta de aumento geral de salários em 20%, respeito ao direito de associação, não dispensa dos grevistas. O governo, por sua vez, se comprometeu a libertar os presos e a reconhecer o direito de reunião e eu “o poder publico intercederá (...) para que sejam estudadas e votadas medidas que protejam os trabalhadores menores de 18 anos e as mulheres no trabalho noturno”. Propostas que foram aceitas prontamente pelo Comitê de Defesa Proletária.
O Comitê decidiu, então, comunicar a proposta em três grandes comícios no Largo da Concórdia, na Lapa e no Ipiranga. Neles foi aceita a contra-proposta patronal e decidida à volta ao trabalho, sob a condição de se retornar à greve caso os patrões descumprissem o acordo. “Com a volta de alguns milhares de operários ao trabalho, a cidade retomou ontem o aspecto que tinha antes de se iniciar o movimento grevista”, noticiou aliviado O Estado de São Paulo. Mas, a calma era apenas aparente. Depois destes dias, São Paulo não seria mais a mesma. A paisagem urbana havia mudado com a entrada em cena de um novo personagem – o proletariado.
A situação era tensa. Um grupo de operários chegou à porta do cotonifício Crespi e conclamou os trabalhadores a aderirem ao movimento grevista, que havia se iniciado há dias. A polícia, decidida a não permitir piquetes, interveio violentamente. O saldo do conflito: um morto. A vítima chamava-se José Martinez, era sapateiro e tinha apenas 21 anos. Depois deste dia São Paulo não seria mais a mesma.
Numa fria manhã de julho, dia 11, uma multidão de cerca de 10 mil pessoas caminhou lentamente pelas principais ruas da cidade. A cidade de São Paulo estava parada numa última homenagem ao operário assassinado. As bandeiras vermelhas e negras tremulavam entre choros e sentimentos de vingança. A São Paulo proletária estava nas ruas, nunca se tinha visto aquilo antes.
O cortejo fúnebre seguiu lento pelo aterro do Carmo, hoje continuação da avenida Rangel Pestana, tentando se dirigir ao palácio do Governo, mas foi impedida pela policia. Seguiu então pela rua Floriano Peixoto até a praça XV de Novembro. De repente, a multidão parou e só se ouviu um grito: “Libertem Nalepinsk! Libertem Nalepinsk!”.
Nalepinsk, outro sapateiro, preso por ter denunciado o assassinato de Martinez. Uma comissão se deslocou até a Secretaria da Justiça para exigir sua libertação. O delegado-geral, acuado, prometeu soltá-lo logo após o cortejo. Uma vitória, a primeira. A multidão avançou, chegou a Praça da Sé. Agora era a vez dos discursos. O cortejo seguiu então até o cemitério do Araçá, sua última parada.
Ali, diante do túmulo de Martinez, os oradores se revezavam. Eram homens e mulheres do povo. Na voz traziam a indignação e a revolta. “Soldados, não deveis perseguir os vossos irmãos de miséria. A fome reina em nossos lares, e os nossos filhos nos pedem pão. Os perniciosos patrões contam, para sufocar as nossas reclamações, com as armas de que vos armaram (...) Soldados! Recusai-vos ao papel de carrascos”. A multidão chorava. Nem mesmo os soldados, escalados para vigiar o movimento, se contiveram e enxugavam os olhos com as mangas de suas fardas. Um operário morreu, e agora?
Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas
Ser operário naqueles dias não era nada fácil, nunca foi. Trabalhava-se em media 14 horas diárias, sem férias, sem descanso semanal remunerado e sem nenhum tipo de assistência. Para eles apenas o trabalho. “Produzir, produzir, deve ser o lema dos paulistas”, afirmava a imprensa burguesa. Mas, produzir para quem? Perguntavam os operários.
Por todo este trabalho, recebiam parcos salários que não eram o suficiente para o sustento de suas famílias, o que levava mulheres e crianças a se empregarem nas fábricas, submetendo-se as mesmas condições de trabalho dos homens e recebendo menores salários. Os serviços eram insalubres, as jornadas de trabalho longas, sem horário para as refeições que eram feitas ao lado das máquinas. Afinal, São Paulo não podia parar. “Oh! Pobre dos proletários!”, dizia uma canção anarquista.
Em 1912, 67% dos trabalhadores têxteis eram mulheres. Em 1918, mais de 50% do operariado fabril era constituído de menores, como podemos constatar neste trecho de artigo publicado em um jornal da época: “Assistimos a entrada de cerca de 60 menores, às 7 horas da noite (...) Essas crianças saem às 6 horas da manhã.
Trabalham, pois, 11 horas a fio em serviço noturno, apenas com um descanso de 20 minutos (...) O pior é que elas se queixam de serem espancadas pelo mestre de fiação (...) Alguns apresentam mesmo ferimentos produzidos por uma manivela. Trata-se de crianças de 12, 13 e 14 anos”.
O custo de vida aumentava dia-a-dia. Em 1916, os gêneros alimentícios subiram mais de 60%, sem que houvesse qualquer reajuste salarial. Começava a faltar alimentos e toda nossa produção era vendida para a Europa, que estava em guerra. A fome batia as portas das famílias dos trabalhadores. É neste contexto que teve inicio a onda da greve que abalou o país.
Em julho de 1917, o que parecia mais uma simples greve, como outras tantas que já haviam ocorrido desde o começo do século, acabou por desembocar no maior movimento de contestação operária já visto na historia do Brasil até então.
E os operários disseram não!
Uma comissão de operários do Cotonifício Crespi se dirigiu à direção da empresa exigindo um aumento salarial de 20%, baseado na elevação do custo de vida. O dono da empresa não aceitou o pedido. Os operários o ameaçaram com uma greve. A resposta patronal foi fechar a fábrica. A greve então se ampliou estendendo-se a outras categorias.
No dia 8 de julho ocorreu o primeiro incidente na porta da fabrica. Um choque entre operários e policias deixou inúmeros feridos; os ânimos se acirraram. Na manhã do dia seguinte, novo incidente, agora na porta da Companhia Antártica. Trabalhadores enfurecidos tomaram um caminhão da companhia e destruíram as garrafas por ele transportadas. Seguiram, então, em passeata pelo Brás até a fábrica de tecelagem Mariângela. Ali ocorreu um novo e mais grave confronto com a polícia. Martinez caiu mortalmente ferido. Um operário morreu, e agora?
Saindo do enterro do jovem sapateiro a multidão dirigiu-se à Praça da Sé para um grande comício de protesto. Ali exigiu-se a reabertura das ligas operárias, proibidas de funcionar no dia anterior, a libertação dos grevistas presos e a punição dos assassinos de Martinez.
O Comitê de Defesa Proletária, formado no dia anterior, assumiu a direção do movimento e apresentou sua pauta de reivindicações: aumento de 35% dos salários, proibição do trabalho de menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno para menores de 14 anos e mulheres, jornada de trabalho de 8 horas, respeito ao direito de associação, congelamento de preços dos alimentos e redução dos aluguéis.
Nos bairros operários explodiu o descontentamento. Milhares de populares saquearam lojas e armazéns. O numero de grevistas cresceu dia-a-dia. De 10 mil, o número de grevistas subiu para 20 mil - mais de quarenta mil trabalhadores entrariam em greve durante o movimento. Eram sapateiros, eletricitários, trabalhadores das companhias de gás, mecânicos e a quase a totalidade dos trabalhadores de pequenas oficinas, que compunham o grosso da classe operaria do período.
Aumentou a greve, aumentou a repressão e a resposta dos operários foi imediata: ergueram-se barricadas. Os grevistas tomaram os bondes da cidade. Alguns foram destruídos pela fúria popular. “Uma multidão de garotos, afirmou o jornal O Estado de São Paulo, se entregou à todos os excessos, escolhendo para alvo de suas loucuras os carros elétricos (...) E o que é mais deplorável, é que um bando de mocinhas, infelizes operárias de fabricas, imitou os gestos da garotada, tomando conta de três elétricos no Largo da Sé”. Os grevistas tentaram ocupar a 5ª delegacia do Brás e não conseguiram. O posto policial passou a ser defendido pelas tropas de infantaria e a cavalaria.
No largo da Estação Norte, os policiais tentaram invadir um Café, onde se reuniam alguns líderes grevistas, mas foram recebidos à bala. No tiroteio que se seguiu, vários caíram feridos. Novamente, ergueram-se barricadas com sacos de mantimentos e veículos tombados. As ruas do Brás e da Mooca transformaram-se, instantaneamente, num labirinto de barricadas, que ninguém ousava percorrer. No dia 13 de Julho os jornais publicaram uma nota da Delegacia Geral: “pedimos ao povo pacifico que se recolha às suas casas para não ser recolhido no meio dos desordeiros (...), pois a policia (...) vai manter a ordem, para isso empregando os meios mais energéticos”.
Frente aos constantes casos de insubordinação da Força Pública e da guarda cívica, que se recusavam a reprimir os grevistas, foram solicitadas tropas do interior. Navios de guerra aportaram na cidade de Santos. Marinheiros foram destacados para reprimir populares que saqueavam os armazéns do porto. “A policia não permitirá reuniões nas praças e ruas públicas, dissolverá pela força os que pretendiam ir contra a esta resolução”, afirmava um novo comunicado governamental. Tropas de Infantaria e a Cavalaria percorriam as ruas dispersando aglomerações.
Na sexta-feira, faltava pão, gás, transporte e um grupo de operários tentou parar um dos poucos bondes que ainda teimava em circular, escoltado por policiais fortemente armados. Novo tiroteio, outra vítima fatal: uma menina de 12 anos. Os tiroteios se sucediam. Outro morto, o pedreiro Nicola Salermo. O que era uma simples greve por aumento salarial e melhoria de condições de trabalho estava se transformando numa verdadeira insurreição operária.
Diante do impasse nas negociações entre operários e patrões, uma comissão de jornalistas de diversas publicações da capital paulista foi formada para mediar o conflito. O resultado dessas negociações foi uma proposta de aumento geral de salários em 20%, respeito ao direito de associação, não dispensa dos grevistas. O governo, por sua vez, se comprometeu a libertar os presos e a reconhecer o direito de reunião e eu “o poder publico intercederá (...) para que sejam estudadas e votadas medidas que protejam os trabalhadores menores de 18 anos e as mulheres no trabalho noturno”. Propostas que foram aceitas prontamente pelo Comitê de Defesa Proletária.
O Comitê decidiu, então, comunicar a proposta em três grandes comícios no Largo da Concórdia, na Lapa e no Ipiranga. Neles foi aceita a contra-proposta patronal e decidida à volta ao trabalho, sob a condição de se retornar à greve caso os patrões descumprissem o acordo. “Com a volta de alguns milhares de operários ao trabalho, a cidade retomou ontem o aspecto que tinha antes de se iniciar o movimento grevista”, noticiou aliviado O Estado de São Paulo. Mas, a calma era apenas aparente. Depois destes dias, São Paulo não seria mais a mesma. A paisagem urbana havia mudado com a entrada em cena de um novo personagem – o proletariado.
As lições da greve (ou um novo ator a procura de um novo roteiro)
Embora os acontecimentos de julho de 1917 tenham representado uma das mais belas páginas da luta do proletariado brasileiro, apresentou também as suas limitações. Pouco a pouco todas as conquistas da greve foram sendo retiradas. As perseguições e prisões dos principais líderes não só continuaram como aumentaram. As promessas da burguesia, pouco a pouco, transformaram-se em pó. Por que isso ocorreu?
Primeiro: porque, apesar de combativos, os operários constituíam-se em minoria da população e se encontravam dispersos em pequenas oficinas, existindo assim, uma fragilidade nas suas organizações de classe. Segundo, esta fragilidade deu lugar a proliferação de idéias anarquistas, típicas dos pequenos artesãos. O anarquismo era a força hegemônica no setor combativo do movimento sindical brasileiro. Eles recusavam-se a organizar os operários de forma mais centralizada, negavam a necessidade do proletariado se organizar enquanto partido, único maneira de travar a luta política contar a burguesia e o seu Estado.
Esta concepção da luta operária os prendia, fundamentalmente, aos marcos da luta estritamente econômico-corporativa. Questões chaves, como ampliação da democracia (eleições livres, voto secreto, direito de voto aos analfabetos, mulheres e estrangeiros residentes no país, legalização dos partidos de esquerda), reforma agrária - ou mesmo a luta contra o imperialismo -, passavam ao largo das reivindicações anarquistas. Num país dependente, composto por uma população majoritariamente camponesa, dirigido por uma oligarquia agrária, que excluía grande parte da população da efetiva participação política, estas seriam bandeiras que poderiam trazer aliados aos operários em luta. Esta seria a única maneira destes se constituírem como força política e social autônoma na sociedade de classes brasileira e disputar, efetivamente, a hegemonia da sociedade com as classes proprietárias. Estas eram condições indispensáveis para consolidação e ampliação das conquistas dos trabalhadores.
Se por um lado, a greve de 1917 representou o ápice do anarquismo no movimento operário brasileiro, por outro, mostrou todas as suas limitações, que em pouco tempo acabariam por reduzir e mesmo eliminar sua influência. A revolução russa de outubro de 1917 mostrou um outro caminho: o da organização do proletariado enquanto partido político independente. Mostrou a necessidade da revolução socialista e da construção de um Estado Proletário. Coisas incompreensíveis para os anarquistas. A conseqüência necessária da greve geral de 1917 – e de outros embates que se seguiram naqueles anos no Brasil e no mundo - foi a fundação do Partido Comunista do Brasil, ocorrido em março de 1922. Este foi o marco da crise geral do anarquismo no país e início de uma nova fase na história da luta dos trabalhadores brasileiros rumo a sua libertação.
Primeiro: porque, apesar de combativos, os operários constituíam-se em minoria da população e se encontravam dispersos em pequenas oficinas, existindo assim, uma fragilidade nas suas organizações de classe. Segundo, esta fragilidade deu lugar a proliferação de idéias anarquistas, típicas dos pequenos artesãos. O anarquismo era a força hegemônica no setor combativo do movimento sindical brasileiro. Eles recusavam-se a organizar os operários de forma mais centralizada, negavam a necessidade do proletariado se organizar enquanto partido, único maneira de travar a luta política contar a burguesia e o seu Estado.
Esta concepção da luta operária os prendia, fundamentalmente, aos marcos da luta estritamente econômico-corporativa. Questões chaves, como ampliação da democracia (eleições livres, voto secreto, direito de voto aos analfabetos, mulheres e estrangeiros residentes no país, legalização dos partidos de esquerda), reforma agrária - ou mesmo a luta contra o imperialismo -, passavam ao largo das reivindicações anarquistas. Num país dependente, composto por uma população majoritariamente camponesa, dirigido por uma oligarquia agrária, que excluía grande parte da população da efetiva participação política, estas seriam bandeiras que poderiam trazer aliados aos operários em luta. Esta seria a única maneira destes se constituírem como força política e social autônoma na sociedade de classes brasileira e disputar, efetivamente, a hegemonia da sociedade com as classes proprietárias. Estas eram condições indispensáveis para consolidação e ampliação das conquistas dos trabalhadores.
Se por um lado, a greve de 1917 representou o ápice do anarquismo no movimento operário brasileiro, por outro, mostrou todas as suas limitações, que em pouco tempo acabariam por reduzir e mesmo eliminar sua influência. A revolução russa de outubro de 1917 mostrou um outro caminho: o da organização do proletariado enquanto partido político independente. Mostrou a necessidade da revolução socialista e da construção de um Estado Proletário. Coisas incompreensíveis para os anarquistas. A conseqüência necessária da greve geral de 1917 – e de outros embates que se seguiram naqueles anos no Brasil e no mundo - foi a fundação do Partido Comunista do Brasil, ocorrido em março de 1922. Este foi o marco da crise geral do anarquismo no país e início de uma nova fase na história da luta dos trabalhadores brasileiros rumo a sua libertação.
Bibliografia
- Bandeira, M., Melo, C e Andrade, A. T., - O ano vermelho, Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira,1967 (existe uma edição atual da editora Expressão Popular)
- Beiguelman, Paula – Os companheiros de São Paulo: Ontem e hoje, São Paulo: Ed. Cortez, 2002
- Khoury, Yara Aun – As greves em São Paulo, São Paulo, Ed. Cortez/Autores Associados, 1981
*Augusto Buonicore, historiador, é mestre em ciência política pela UNICAMP e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil - PCdoB.
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Portas d'água
“Essa cidade eu não posso esquecer
Essa chegada de amor por alguém...”
(Chegada, canção de José Maria Villar)
Ah, as cidades... Já disse noutro lugar, as cidades nascem, vivem e morrem, têm personalidade, sexo e temperamento bem humanos. Há exceções, é claro, mas as cidades em sua grande maioria são mulheres.
Se chegar a uma cidade ou dela partir são em si mesmos atos de uma dimensão dramática única, nada se compara a chegar ou partir de barco, pela água. Dir-me-eis que os trens têm a sua melancolia própria, do que não ousarei discordar. Mas nestes, tal como nos automóveis e ônibus, perde-se a sensação de ver a cidade, surgindo ou se afastando, como um todo, um conjunto, esse tão revelador do ser próprio e único de cada cidade. O que se poderia em tese ter a partir dos aviões, mas é certo que a sua rapidez, as tensões próprias dos pousos e decolagens, sem falar nas insuportáveis burocracias aeroportuárias, acabam por ferir de morte qualquer ânimo contemplativo.
De barco, não! A aproximação é lenta, a distância que decresce inversamente ao vulto dá bem o termo do conjunto que se vai particularizando, vai se definindo, até que a cidade nos ofereça o seu porto, a sua porta, como moça ao abrir-se à entrega. E quando se parte? Mesmo que não queiramos, ainda que não haja motivos pra se despedir, é o ondular das marés que nos transforma inteirinhos num grande braço em aceno...
Tímido que sou, apavoram-me as abordagens diretas. A conversa não desenrola, gagueja, tropeça. Sempre tive horror à desmedida objetividade. Sou de navegar pela margem, de ir assuntando um assunto assim qualquer, de medir o tamanho da encrenca - marujo que conhece o tempo não é colhido por tempestade! Não sou de forçar barra, gosto de entrar convidado. Foram tantas as cidades...
Parati, jóia de bisavó guardada entre tantos brinquedos modernos, é o traço civil que nos salta aos olhos depois de infinitudes mar afora (mesmo que por horas...); visão mesma de trezentos anos passados a nos aprisionar num mítico desesquecimento do que somos e do que fazemos.
Rio de Janeiro e Niterói, gêmeas univitelinas separadas pela bacia das nossas esperanças, revoltas e necessidades, brutalmente religadas pela arrogância de ousados artifícios. Por trabalho ou por amor, por gosto ou por dinheiro, a quem não singrou a baía de águas e mágoas abissais a nos bafejar ventos salinos, ávidos e inquietos, jamais será facultada a chave dos segredos dessas velhas damas de belezas cansadas.
Belém - ah, Belém... - visagem imponente que se alevanta da Selva como boiúna desperta, fustigados os nossos assossegos; as torres do Mercado de Ferro são as balizas da minha saudade. E as cidadezinhas todas amazônicas, porto-só, moças da vida vivendo da oferta fugaz de seus impudicos meandros: Porto de Moz, Sousel, Gurupá, Óbidos, Alenquer, Vitória do Xingu...
Nenhuma, talvez, como Salvador, da baía do maior azul, a nos espiar com seu pescoço mulato, assim, espichado... Só dali se compreende verdadeiramente o significado: Cidade Alta! Meio milênio d'olhos se nutriram daquela altaneira visão, abacaxis e abios para as feiras, fumo para os escambos – os mais sórdidos! - braços e esperanças para as revoltas, saveiros a conduzir o sangue nutritivo e inflamável bombeado do coração da metrópole aos confins recôncavos de engenhos e lavouras.
Ai das cidades – e das mulheres – aonde não se pode chegar navegando!
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Do outro jeito era melhor
Outro dia o grande camarada Bruno Ribeiro nos contava como consegue nos dias que correm resistir à tentação de aderir às mudernidades tecnológicas que nos querem fazer descer goela abaixo, a despeito da pouca ou nenhuma necessidade pessoal que tenhamos delas. Este, aliás, é o único e verdadeiro problema. Todas essas máquinas têm suas inegáveis utilidades, propiciam soluções. Só que apenas quem tem determinado problema precisa de determinada solução. Mas não. Essas novidades são postas ao dispor dessa coisa informe e assustadora hodiernamente chamada “mercado” - porque também outrora “mercado” representou um lugar onde se ia buscar satisfação para necessidades específicas – de modo a induzir desejos de consumo a partir da elaboração ideológica de pseudo-necessidades. O papel da propaganda ideológica é, como em geral alhures, o de nos fazer acreditar que o contigente é o necessário, que o aparente é o real.
Desse modo, não existem modos bons ou maus de se fazer algo, por si próprios. Existem aqueles que nos servem para a solução de uma necessidade específica e tendem, assim, a nos facilitar a vida. E os que, por não atenderem a uma demanda real, só fazem nos trazer problemas novos que sem eles não teríamos e ensejar mais necessidades de segunda e terceira geração. O Bruno não tem celular e não sente falta dele, porque pode ser localizado com facilidade na maior parte do dia (e na menor, deseja mesmo não sê-lo). Eu trabalho num buraco abaixo da superfície de onde não posso sair durante oito horas por dia, nem telefonar para outro celular ou para outro município, sendo que a maior parte dos meus negócios depende desses contatos. Além disso, vou a muitos lugares num mesmo dia e tenho duas filhas pequenas. E assim por diante.
Há no entanto, para mim, inegavelmente coisas que eram melhores do jeito antigo.
O correio eletrônico certamente resgatou minha vocação missivista, quase sepultada pela acachapante preguiça que domina minha existência. Mas eu não tenho mais as mensagens que mandei ano passado, com rarísssimas exceções. Já as cartas de quinze, vinte anos atrás estão lá, amarelinhas no fundo da gaveta, guardando o traço jovial de alguém há muito perdido de vista; às vezes uma lágrima pingada sobre o papel... Às vezes até o cheiro de quem escreveu. Cheiros, lágrimas e traços que sobreviveram ao tempo e mesmo sobreviverão - quem sabe? - aos correspondentes.
Os processos eletrônicos têm, em geral, inúmeras vantagens sobre os mecânicos – a máquina de escrever, por exemplo, perde de humilhante goleada do computador, no quesito eficiência. Os automóveis eletrônicos são mais seguros, mais precisos e, em geral, mais eficientes. No entanto, abro o capô de qualquer carrinho popular e o que tenho à vista é uma caixa preta velada, inexpugnável como um sarcófago de m distante faraó perdido no tempo... futuro! Não tenho a mais remota idéia de como possa funcionar uma injeção eletrônica. Os componentes eletrônicos, aliás, têm como fundamental característica não se darem à compreensão pelo senso comum. É por isso que mecânico de carro não aprende mais a consertar nada: aprende a trocar. Nem o mecânico domina o funcionamento daquela máquina; no lugar disso, aprende apenas o processo de montagem, pra poder trocar - último grau da alienação! Antigamente, se meu chevette engasgava, eu mesmo desmontava o carburador e desentupia. E a máquina de escrever, nem quebrar quebrava...
Na quitanda, na feira, o legume era a granel, podia escolher. A carne era no açougue, se pedia pra cortar o bife grosso ou fino, com ou sem gordura; a rabada pela junta,como gosta meu mano Eduardo, o corte da peça desse jeito ou do outro. Hoje quase não há mais açougue no meu bairro. Mesmo na feira, os legumes são cada vez mais empacotados em bedejinhas plásticas. Não se pode escolher, há que se levar o lote, meio bom, meio ruim. Não adianta conhecer quiabo, não adianta ser freguês de anos. A carne também é embalada, tudo do mesmo jeito, mais prático, mais rápido. Mais igual. Mais sem graça.
Aliás, não tem açougue, nem quitanda, nem loja de sapato, e as padarias têm rareado. Butiquim ainda tem, mas são todos iguaizinhos, com jeito de lanchonete e visual clara e pobremente inspirado nos maquidônaldis da vida. A classe média, como tão bem percebeu meu bom e saudoso amigo Armando, prefere os lugares fechados, cujo protótipo por excelência são os xópins. A rua, que deveria numa sociedade cada vez mais urbana ser o lugar do encontro, do intercâmbio, do diverso, cada vez mais passa a se identificar como um espaço hostil, do desconhecido, do completamente outro, habitado pelos não-nós. E é claro que, como decorrência do abandono da rua pelo povo, ela passa a ser muito mais facilmente dominável pelo elemento anti-social. Para mim trata-se de uma percepção antiga: os lugares públicos não são abandonados pelas pessoas porque são perigosos, antes tornam-se perigosos porque são abandonados.
A alienação não conhece limites. Nada mais está ao alcance do nosso arbítrio, da nossa escolha, nada mais parece depender da nossa sagacidade, da experiência ou da habilidade. Não nos é dado interferir, pois todos os espaços de interação estão ou banidos, ou pré-informados, de modo a conterem-se estritamente nos limites pré-determinados, formais. Tudo vem pronto, embalado. Prêt-a-porter.Nem o pedinte pede mais esmola, não conta sua história, não tem chance de nos convencer pela comoção ou pela empatia. Escreve papeizinhos iguais, com as mesmas lenga-lengas assépticas xerocopiadas, que sai distribuindo nos pontos de ônibus, ou pelos carros, nos cruzamentos, calado, sem olhar pra ninguém. “Minhafamíliaépobretenhoseteirmãoscomfomemelhorpedirqueroubaraceito
qualquerajudavaletransportevalerefeiçãodeuslhepague”.
Somente a culpa e a indiferença seguem movendo as mós que terminarão de nos triturar.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
O Anjo Guerreiro da Noite

“É um trabalho de teatro. A vida é um palco e a gente se diverte”
(Armando Colacciopo)
Há três dias, por um presente divino, encontrei-o no Ó do Borogodó. Lá ia ele todas as noites, vender seus famosos bichinhos. Do mesmo jeito que no Bar do Cidão, no Bom Motivo, Filial, Sem saída e tantos outros. Como, em tempos passados, no Xodó da Paulista, no Bar Brasil, Vou Vivendo, Clube do Choro, Bar da Virada, todos passados para as páginas viradas da História. Sempre que me encontrava, rigorosamente sempre, mandava uma do repertório do Orlando Silva, nossa paixão comum, do qual era grande conhecedor. Nessa noite não foi diferente:
Esta será a última canção
Que cantarei ao me despedir
Depois verás então
Em breve eu partir...(1)
Que cantarei ao me despedir
Depois verás então
Em breve eu partir...(1)
Jamais poderia desconfiar do sentido profético dessas palavras. O telefone tocou ontem à noite e a voz da minha amada amiga Roberta Valente já denunciava a tristeza. Nosso querido Armando Colacciopo, o Armando dos bichinhos, sentiu-se mal ao final da mdrugada de ontem. De repente, como só fazem jus os escolhidos, o anjo das nossas madrugadas solitárias bateu asas pra tocar sua flautinha na morada dos Ancestrais.
Foram mais de vinte anos de convivência nas noites perdidas de São Paulo. E posso testemunhar, sem medo, que salvou minha vida em muitas oportunidades. Quantas e quantas vezes, sozinho pelos bares, enchendo a cara por falta de coragem de voltar pra casa, na certeza de que todas as almas conhecidas teriam viajado sem me comunicar, aparecia ele com seu abraço tímido, sua paz infinita estampada no rosto às vezes cansado; sentava, jogava cinco minutos de conversa fora e, cumprida sua angélica missão de me resgatar do naufrágio, seguia na sua empreitada de todas as madrugadas durante mais de trinta anos.
Se a nossa missão, enfim, é resistir, Armando talvez tenha sido o maior. Militante político convicto e incansável, teve seus problemas com a repressão da ditadura militar e buscou salvaguarda entre os hippies da década de 70. Com eles aprendeu que se pode viver de artesanato. Mesmo formado em engenharia naval pela Politécnica da USP, recusou-se durante toda a sua vida a adotar os padrões de vida burguesa que tanto repugnavam aos seus ideais de igualdade e justiça. Nunca teve patrão, sempre fez o que bem quis. “Foi assim desde criança”, lembrou alguém, hoje, ao lado do caixão. Sempre vendendo os bichinhos feitos pela inseparável companheira Vera Bertazonni, andando de ônibus ou de bicicleta, nunca pedindo nada pra ninguém, viveu sua vida, criou os filhos, provou-nos ser possível.
Começou pelos bares dos jardins, depois acompanhou a migração do movimento noturno para Pinheiros e a Vila, mas enquanto o último reduto do lado de lá respirou – o Xodó -, não deixava de dar sua passadinha, “pra depois descer”, como ele sempre dizia. Conheci-o no Bom Motivo, onde dividimos a mêsa em muito fim de noite, jornadas encerradas, em companhia de amigos como Roberto Lapiccirella e Waltinho do violão. Há anos planejava fazer com ele uma entrevista, pra registrar suas histórias. No nosso derradeiro encontro de terça, ainda falei: “A gente se conhece há 20 anos e você nunca foi lá em casa.” Peguei seu telefone e a promessa de levar D. Vera pra conhecer a Rosa. Não deu tempo de nada. Liguei para sua casa, pela primeira vez em vinte anos, pra saber o horário do enterro.
A Vila Madalena veste luto, assim como esta página. Pelas esquinas escuto violões, flautas e cavaquinhos em funeral. Soube que muitos bares ontem baixaram suas portas em homenagem ao seu anjo-guerreiro. Resta a mim, de novo, e sempre, chorar. Como choro escrevendo estas linhas, lembrando estas e tantas outras histórias. Porque a minha solidão cada dia tem menos remédio. Porque o preço da sobrevivência é ter que ver os nossos melhores tombando. Mas a nossa resistência se nutrirá de seu sangue e de seu sopro. E se fortalecerá para que não tenha sido em vão a sua luta.
Vou beber pelas madrugadas a saudade do amigo. Tuli tuli tulá... Chorar em companhia da Cobrinha Azul, do Zé Celso, do Pingüim, do Inconsciente Coletivo, do Marciano Erótico, do Libertadores (o porquinho verde que batizei em 99), tantos e tantos personagens que povoaram minha trajetória boêmia nesses anos todos, hoje órfãos.
“É um trabalho de teatro. A vida é um palco e a gente se diverte, mas hoje eu tenho lidado mais com o povo. Antigamente era mais a classe média, que agora freqüenta lugares fechados. Não tenho mais acesso a eles. Meu público é estudante, ator de teatro, jornalista...”(2)
Fechadas as cortinas, meu velho, você que foi o maior, fique com o aplauso do povo. Do teu povo.
(1) A última canção, fox-canção de Guilherme Augusto Pereira, gravada por Orlando Silva em 1937
(2) Fonte: Guia da Vila
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Nós e nós
Deu na coluna Toda Mídia, de Nelson Sá, na Folha de S. Paulo, edição de 26 de junho passado:
“Ontem na Globo, sobre episódio no Rio de Janeiro:
- Grupo espancou e roubou empregada. Os jovens são de classe média alta... Jovens moradores de condomínios de luxo da Barra... Jovens... Os jovens são o centro desta questão perturbadora.
Dias antes na Globo, sobre episódio em São Paulo:
- Quadrilha aterrorizou moradores do Morumbi. Assalto a casa de luxo... Vários bandidos.
No mesmo jornal, mesma edição, caderno Cotidiano, a entrevista do pai de um dos agressores. Os trechos em itálico são as falas do sujeito. Intercaladamente, arrisco uma espécie de “tradução”.
"Não é justo prender cinco jovens que estudam, que trabalham, que têm pai e mãe, e juntar com bandidos que a gente não sabe de onde vieram. Imagina o sofrimento desses garotos. "
Tradução: sabem, sim senhor, de onde vieram, mas não têm coragem de dizer com todas as letras “que vieram dessas favelas aí”. É melhor que a “gente de bem” ignore esses lugares escuros, esses “outros lugares” como um nada informe e desconhecido, bem longe e apartado do nosso mundo fechado de pessoas de caráter.
"Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham, presos. É desnecessário, vai marginalizar lá dentro. Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses?"
Tradução: os nossos crimes, então, são “erros, “coisas feias”, mas nada justifica prender, coitados. Já os crimes “de uns caras desses” são monstruosidades hediondas que merecem o encarceramento de menores, a pena de morte, a prisão perpétua. Caráter é ma coisa com a qual se nasce, que vem de estirpe. Sabemos bem quem é da laia que comete crimes e os de boa cepa que podem "errar", nunca poderíamos confundir as coisas.
"Folha - Mas o sr. acha que eles poderiam estar embriagados ou drogados?
Bruno - Mas é lógico. Uma pessoa normal vai fazer uma agressão dessa? Lógico que não. Lógico que estavam embriagados, lógico que podiam estar drogados. "
Tradução: meus filhinhos, é claro, são incapazes de uma brutalidade. Nós não somos como “eles”, nós estudamos, trabalhamos, temos caráter. Mas a droga, esse demônio que mora no lado desconhecido e que se apossa de seus corações e suas mentes, os transforma em “outros”, esses sim capazes de inomináveis barabaridades. Os outros. Nós, nunca.
"Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los. Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso."
Aí (e já chega!) a tradução tem que ser um pouco mais longa.
O verdadeiro apartheid cultural sobre o qual se assenta ideologicamente a elite brasileira smpre careceu da rejeição aos padrões populares de sociabilidade para manter sua psiquê social intacta e livre das culpas de outro modo insuportáveis. Historicamente, portanto, assume relevância seu desejo recorrente em se distinguir do “povo”, e assim faz questão de pautar seu modo de vida pelos modelos importados, bem livres da contaminação das formas de vida engendradas pelos “outros”.
O substrato dessa distinção é uma epistemologia capenga, reducionista, que nega as formas tradicionais e milenares de sabedoria em prol de um padrão do discurso dito “racional”, reduzido à operacionalidade lógica que lida fundamentalmente com a distinção de “mesmo” e “outro”: “A” e “não A”. Por outro lado, uma certa moral baseada em um tipo de psicologia maniqueísta e repressora da vontade que opera correspondentemente com a distinção de “desejável” e “não desejável”. Obviamente que esta divisão leva a impasses todas as vezes que as categorias não corresponderem, ou seja que o desejo recair sobre o que pertence à outra banda, ao “outro lado”, o lado obscuro que teoricamente deveria estar completamente apartado de “nós”; toda vez que a esfera daquelas coisas que objetiva e claramente apresentam-se ao entendimento definidas como erradas, abjetas, contrárias à moral, ruins, nefastas etc. transponham a fronteira do “não desejável” para dentro do limite dos “nossos” bastiões de fortaleza e virtude.
Então, a pseudo-razão reducionista, utilitarista da classe dominante remete a uma necessidade de diferenciar suas crenças, convicções, conceitos, desejos etc. daquilo que se nos apresenta como “o horror”. Em último plano, de estabelecer que “aquilo” faz parte de uma esfera, de uma realidade, de uma natureza, de uma substância diferente da nossa. O horror tem que se definir como a negação de nós mesmos, em todos os sentidos. Nosso intelecto que opera por dualidades excludentes não nos permite, pois, em nenhuma dimensão compartilhar pontos de contato com aquele comportamento que repelimos de maneira absoluta. O horror tem que ser, em todos os sentidos, o outro.
O raciocínio da classe dirigente predadora que se apropria do país e se nutre do sangue e do suor da imensa massa dos trabalhadores que constroem esta nação sempre fez questão absoluta de frisar essa distinção: nós e os outros. Sempre se colocou acima e em apartado do “povo”, sempre rejeitou seus modos de falar de vestir, dançar cultuar suas divindades. Esse discurso que assume tons sombrios e bizarros numa situação extrema como a em questão, não é na essência diferente daquele contra o qual não cansamos de nos bater e denunciar: a rejeição das formas singulares e dos padrões culturais do povo brasileiro. Então, se no caso específico a distinção é entre “nós, os de bem” e “eles, os bandidos”, ela só é possível e legitimável ideológicamente porque a sociedade brasileira se construiu lastreada na divisão essencial entre “nós, os letrados, instruídos, de bom gosto (e brancos, católicos etc.)” e os “outros, atrasados, ignorantes, cafonas (e pretos, mestiços, animistas etc.)”. Nesta esteira, todos os males da nação, obviamente, estão relegados “à banda de lá”. É lá que reside a pobreza, a doença, a ignorância, a maldade, o atraso, a indolência.
Portanto, mais grave do que a agressão e a violência em si mesmas, o discurso do pai que procura aplacar a cisão que o episódio evidencia nos fundamentos ideológicos dos nosssos padrões de sociabilidade denuncia gravemente que a sociedade brasileira precisa urgentemente empreender a superação da exclusão econômica, cultural, política, social e ideológica entre “uns” e “outros”. Somente uma razão dialética e dialógica, que não opere exclusivamente pelos padrões lógicos elementares do entendimento, por dualidades excludentes, pode dar conta de um tal conflito que põe em xeque suas próprias estruturas, sua integridade, sua capacidade de enfrentamento das questões mais profundas que se lhe apresentam. Somente uma razão política que se desapegue da crença absoluta nos mecanismos formais de decisão, gestão e administração dos conflitos, e empreenda a mais difícil tarefa na história da nação brasileira, no sentido de promover verdadeiramente o entendimento e a integração.
É claro que essa superação dissolve "perigosamente" as fronteiras entre “A” e “não A”, entre o “eu” e o “resto” (ou “não-eu”), entre o “certo” e o “errado” (ou “não certo”). Proscrita a separação essencial, abre-se a possibilidade de que eu compartilhe pontos substanciais com o horror que me repugna. Em última conseqüência leva à aceitação que o “outro” também faz parte de mim e eu dele, ou, dito de outra forma, aquilo que tanto me repugna, em certa medida faz parte de mim mesmo. Esta consciência de que “o mal” não está fora de nós, mas que deve ter as raízes investigadas nas nossas próprias práticas, convicções, sentimentos e desejos, talvez seja a única saída para os impasses essenciais de nosso tempo. Sem entender o horror, apenas apartando-o definitivamente de nós mesmos, resta-nos (e é mais fácil!) a condenação pura, simples e absoluta. O reconhecimento de que ele é parte da nossa natureza é o único caminho – ainda que tão doloroso - para o entendimento e a superação.
domingo, 24 de junho de 2007
Trama
Quem foi que disse
que o tempo consome a paixão?
Formosura de dama que até
Ulisses seduz...
Serei-a!
Mão secreta alteia a trama
Nada entreluz da costura
E já o nome gestara:
Iara!
Que a vida insuspeita arquiteta
À espreita e disfarçada
sob a teia de lundus marajoaras
que o tempo consome a paixão?
Formosura de dama que até
Ulisses seduz...
Serei-a!
Mão secreta alteia a trama
Nada entreluz da costura
E já o nome gestara:
Iara!
Que a vida insuspeita arquiteta
À espreita e disfarçada
sob a teia de lundus marajoaras
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Outras paradas
Domingo passado, enquanto uma banda da cidade parava a fortiori em função do já tradicional desfile junino desta Capital (sobre o qual não comentarei por razões que também aqui não cabe escarafunchar), euzinho, que não sou lagoa pra esfriar bunda de pato, derrotava ampolas “mofadas” bem longe, mas bem longe mesmo dali, em companhia de figuras legendárias desta Cidade verdadeira, que não se rende e se recusa ao travestimento que vivem a lhe querer impingir.
Longe do “carnaval”, da pantomima, do furdunço, o que a gente encontra é a velha camaradagem, rapaziada bebendo na padaria (hábito dos mais paulistas), porque o dono do butiquim também é filho de Deus e a vida não é mole, não. Se não há mesa, não tem problema, porque o pessoal ao lado tá com duas, por que não ceder a que sobra? Apertam-se os copos, “leva aqui, Manoel”, as vazias vão pra o engradado. De cara, uma São Francisco pra garantir a generosidade dos propósitos, a garganta estava mesmo pegando um pouco. Petisco não, porque as senhoras nos aguardam para os respectivos repastos dominicais.
E tome prosa, comandante Deco à minha frente. Ali é só sorriso, é papo da melhor qualidade, é história que não dá vontade de largar. Ao meu lado, a cadeira vazia esperava “Seu” Juracy, que ficou pra trás de conversê com o jornaleiro. Pudera.
“Seu” Juracy foi durante quase três décadas dono da melhor banca de jornal da Avenida Paulista, da qual fui cliente - por só ali encontrar diariamente os jornais dos quatro cantos do Brasil – muito antes de desconfiar que seu filho era o maior amigo-irmão-de-infância da mulher que mudaria minha vida. Conhecido por não se intimidar com as ameças contra os jornaleiros que insistissem em vender ostensivamente jornais da chamada imprensa alternativa, entre os quais o Pasquim e os antológicos Opinião e Movimento (“quanto mais ameaçavam, mais eu pendurava bem na frente, pra todo mundo ver”), protagonizou inacreditáveis histórias. Como nas noites em que tinha quee dormir na calçada, disfarçado de mendigo, barba comprida, esperando a turma que andava explodindo as bancas (lembram?), na companhia fiel do “maior 38 de que se teve notícia na História”, segundo Deco. A confiança no parceiro tem razão de ser: sargento da Marinha de Guerra Brasileira por vinte anos, com 78 primaveras nas costas se gaba: “Ainda hoje, com a vista meio cansada, se eu errar aquele poste ali [a uns 30 metros da mesa onde bebíamos], meto uma bala na cabeça!”
Oposto ao meu corner, o grande carioca Jayme Leão, uma das maiores feras da ilustração brasileira, cartunista e capista consagrado, traço inconfundível que a gente vive a esbarrar de repente em uma página virada em publicações tão diversas como uma Caros Amigos, uma Playboy, uma Você S.A.; ou em capas de dezenas e dezenas de livros que fizeram parte da vida literária da minha geração, como as coleções Vagalume e Para gostar de ler (lembram?), editadas pela Ática. Como cartunista fez parte da geração de craques surgidas a partir dos já citados jornais Opinião e Movimento, ao lado de nomes como Angeli, Laerte, Loredano, os irmãos Caruso, Liberati, Zero, tendo mais tarde colaborado regularmente por alguns anos na Folha de S. Paulo. Empedernido ativista político, teve de exilar-se no Chile onde pôde ver de perto o governo socialista de Allende. Stefânia, Capitão Léo, Deco, os de minha geração que cresceram próximos a ele garantem: foi o exemplo formador de consciência crítica e resistência militante.Histórias mil, cervejas muitas, bem do outro lado do Tietê. Resistência de verdade, História de verdade, numa Cidade de verdade. Mas há quem prefira a Avenida Paulista. Parada.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Mulher e cidade Marília
Aroldo e Moraes Moreira
A cidade é assim
A mulher e a cidade
Representam pra mim
Amor e liberdade
A cidade é uma moça
Também não tem idade
É o espírito a força
Da mocidade
Meu amor também é
Toda minha verdade
Meu caminho de fé
De felicidade
A cidade e o mundo
A mulher e a cidade
Meu coração vai fundo
(saque a profundidade...)
Se ando vagabundo
Pelas ruas de noite a vagar
Seguindo tuas ruas em acordes
Para te acordar
E vou buscar no violão
Uma canção que seja aquela
Que abrirá tua janela
E também teu coração
A cidade é assim
A mulher e a cidade
Representam pra mim
Amor e liberdade
A cidade é uma moça
Também não tem idade
É o espírito a força
Da mocidade
Meu amor também é
Toda minha verdade
Meu caminho de fé
De felicidade
A cidade e o mundo
A mulher e a cidade
Meu coração vai fundo
(saque a profundidade...)
Se ando vagabundo
Pelas ruas de noite a vagar
Seguindo tuas ruas em acordes
Para te acordar
E vou buscar no violão
Uma canção que seja aquela
Que abrirá tua janela
E também teu coração
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Anhangüera é resistência
A Internet, sem dúvida nenhuma, vem há tempos revolucionando os processos de comunicação, com as vantagens, desvantagens, problemas e limitações inerentes a qualquer quebra radical de paradigmas. Já me aventurei por essa seara, pra quem se interessar pelo tema, nos primórdios desta revista. Mas a reflexão que me move, hoje, é menos filosófica e mais prática.
Graças ao talento robusto e disposição empedernida de alguns gigantes da minha geração como meu irmão Edu Goldenberg e, mais recentemente, mestre Luiz Antonio Simas e o incansável guerreiro Bruno Ribeiro, os blogues ocuparam um espaço de resistência que pouco a pouco vai urdindo uma teia que, se não dá ainda sinais de que vá mudar o mundo, nos confere um conforto, uma força, uma sensação - quase asbsolutamente ausente em outros metiês - de que a semente de um mundo diferente ainda não foi completamente sufocada. E independentemente dos diversos graus de dedicação, disposição e mesmo, eu diria, de iniciação, pouco a pouco outras vozes vão se juntando, armando seu caixotinho virtual neste gigantesco speaker's corner sem fronteiras propiciado pelos ares ainda libertários da rede mundial de computadores. Poderia citar algumas delas, mas como aou versado em discurso de casamento e velório, “vou me furtar, para não correr o risco de cometer alguma injustiça”...
Hoje, especialmente, faço este breve intróito para recomendar vivamente a leitura de um estreante, que independentemente de ser um grande companheiro no samba, nas noites e na vida, tem vivência, memória, verve e animus narrandi - as quatro qualidades suficientes e necessárias - de um grande contador de histórias: Arthur Favela Tirone, figura habitual nesta e noutras plagas virtuais já citadas. No seu Anhangüera vêm sendo pintadas a doçura e a vileza desta Cidade que se agigantou, com suas cores tão naturais quanto algo desbotadas de poluição e antigüidade, com sua gente verdadeira, sua malandragem meio-bruta, meio-caipira, bem longe dos estereótipos e paradigmas importados que os seus usurpadores teimam em querer enfiar-lhe goela abaixo. Porque essa é a nossa verdade mestiça de guaianás acaboclados e negros oprimidos! Ali estão presentes o butiquim vagabundo, o futebol de várzea, as rodas de samba, a barafunda destas ruas de inigualável sotaque!
E vamos em frente, que as trincheiras estão cavadas e nós temos soldados destemidos e munição pesada, ainda que o inimigo seja mais numeroso e tão desleal. Porque a resistência também está plantada nesta Terra da Garoa. Tem nome de diabo velho e mora na Barra Funda!
Graças ao talento robusto e disposição empedernida de alguns gigantes da minha geração como meu irmão Edu Goldenberg e, mais recentemente, mestre Luiz Antonio Simas e o incansável guerreiro Bruno Ribeiro, os blogues ocuparam um espaço de resistência que pouco a pouco vai urdindo uma teia que, se não dá ainda sinais de que vá mudar o mundo, nos confere um conforto, uma força, uma sensação - quase asbsolutamente ausente em outros metiês - de que a semente de um mundo diferente ainda não foi completamente sufocada. E independentemente dos diversos graus de dedicação, disposição e mesmo, eu diria, de iniciação, pouco a pouco outras vozes vão se juntando, armando seu caixotinho virtual neste gigantesco speaker's corner sem fronteiras propiciado pelos ares ainda libertários da rede mundial de computadores. Poderia citar algumas delas, mas como aou versado em discurso de casamento e velório, “vou me furtar, para não correr o risco de cometer alguma injustiça”...
Hoje, especialmente, faço este breve intróito para recomendar vivamente a leitura de um estreante, que independentemente de ser um grande companheiro no samba, nas noites e na vida, tem vivência, memória, verve e animus narrandi - as quatro qualidades suficientes e necessárias - de um grande contador de histórias: Arthur Favela Tirone, figura habitual nesta e noutras plagas virtuais já citadas. No seu Anhangüera vêm sendo pintadas a doçura e a vileza desta Cidade que se agigantou, com suas cores tão naturais quanto algo desbotadas de poluição e antigüidade, com sua gente verdadeira, sua malandragem meio-bruta, meio-caipira, bem longe dos estereótipos e paradigmas importados que os seus usurpadores teimam em querer enfiar-lhe goela abaixo. Porque essa é a nossa verdade mestiça de guaianás acaboclados e negros oprimidos! Ali estão presentes o butiquim vagabundo, o futebol de várzea, as rodas de samba, a barafunda destas ruas de inigualável sotaque!
E vamos em frente, que as trincheiras estão cavadas e nós temos soldados destemidos e munição pesada, ainda que o inimigo seja mais numeroso e tão desleal. Porque a resistência também está plantada nesta Terra da Garoa. Tem nome de diabo velho e mora na Barra Funda!
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Hélio Bagunça
O samba de São Paulo está de luto. Morreu nesta madrugada, aos setenta e um anos, um dos grandes baluartes paulistanos, Hélio Romão de Paula, o legendário Hélio Bagunça.
“Seu” Hélio participou em 1953, ao lado do grande Inocêncio Tobias, do reagrupamento do antigo Grupo Carnavalesco Barra Funda que acabou dando origem ao Cordão Carnavalesco Mocidade Camisa Verde-e-Branco, da qual foi o primeiro diretor de harmonia. Compositor, ritmista, balilarino do samba, era quase um prefeito do bairro da Barra Funda, berço do samba na Terra da Garoa, onde participou da formação do antológico salão São Paulo Chic. Fundou também, em 1973, a G.R.E.S. Tom Maior e foi Cidadão Samba da Cidade de São Paulo na década de 90.
Figura presente em muitas rodas de samba da cidade, deixa uma grande lacuna entre os que nos acostumamos a ouví-lo cantar samba e contar suas histórias. Topar com ele pelos sambas e butiquins da Barra Funda era comum, sempre pronto pra tomar uma cerveja, levar um papo malandro, como nas rodas do antigo Espaço CUCA, onde tivemos a honra de ser por tantas vezes agraciados com a sua presença, exercendo essa função maioral de passar adiante o conhecimento, a sabedoria e o axé.
Brilhará sempre na constelação das estrelas mais cintilantes do samba da Paulicéia, ao lado de Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Geraldo Filme, Pato n'Água, Zeca da Casa Verde, Talismã e outros que já moram no Orun, e dos que afortunadamente ainda se encontram entre nós como “Seu” Carlão do Peruche, Toniquinho Batuqueiro, “Seu” Mário Luiz, Oswaldinho da Cuíca e outros mais. A todos, nosso respeito e veneração.
Salve Hélio Bagunça! Salve o Camisa Verde-e-Branco! Salve o samba brasileiro!
“Seu” Hélio participou em 1953, ao lado do grande Inocêncio Tobias, do reagrupamento do antigo Grupo Carnavalesco Barra Funda que acabou dando origem ao Cordão Carnavalesco Mocidade Camisa Verde-e-Branco, da qual foi o primeiro diretor de harmonia. Compositor, ritmista, balilarino do samba, era quase um prefeito do bairro da Barra Funda, berço do samba na Terra da Garoa, onde participou da formação do antológico salão São Paulo Chic. Fundou também, em 1973, a G.R.E.S. Tom Maior e foi Cidadão Samba da Cidade de São Paulo na década de 90.Figura presente em muitas rodas de samba da cidade, deixa uma grande lacuna entre os que nos acostumamos a ouví-lo cantar samba e contar suas histórias. Topar com ele pelos sambas e butiquins da Barra Funda era comum, sempre pronto pra tomar uma cerveja, levar um papo malandro, como nas rodas do antigo Espaço CUCA, onde tivemos a honra de ser por tantas vezes agraciados com a sua presença, exercendo essa função maioral de passar adiante o conhecimento, a sabedoria e o axé.
Brilhará sempre na constelação das estrelas mais cintilantes do samba da Paulicéia, ao lado de Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Geraldo Filme, Pato n'Água, Zeca da Casa Verde, Talismã e outros que já moram no Orun, e dos que afortunadamente ainda se encontram entre nós como “Seu” Carlão do Peruche, Toniquinho Batuqueiro, “Seu” Mário Luiz, Oswaldinho da Cuíca e outros mais. A todos, nosso respeito e veneração.
Salve Hélio Bagunça! Salve o Camisa Verde-e-Branco! Salve o samba brasileiro!
terça-feira, 29 de maio de 2007
Mosaico II
Pululam por todos os lados críticas, denúncias, desconfianças com relação à organização dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, desde gente da mais alta e indubitável respeitabilidade como mestre Luiz Antônio Simas, até da escumalha estulta e incompetente que campeia nas redações dos “super jornalões s/a”, que nada mais fazem do que reproduzir o padrão de imbecilização do pouco que resta de vida inteligente na Nação. A borduna está cantando à solta. Não tenho vontade de falar do assunto, sinceramente, e com tanta coisa mais escandalosa correndo por aí, não me tenho dado ao trabalho de analisar detidamente a enxurrada de insinuações, premonições ou mesmo fatos. Mas por dever de consciência, obrigo-me a duas pontuais observações.
Em primeiro lugar, por mais plausíveis ou mesmo verificáveis que sejam os problemas apontados a torto e a direito, de procedências as mais diversas, compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz.
Em segundo, na minha última visita ao Rio de Janeiro, causou-me profunda estranheza como gente de boa cepa possa aderir irrefletidamente ao sentimento constantemente repisado pelos detratores do Brasil de que nada de que é nosso possa prestar. Criticar, denunciar, chamar às contas, discordar, esbravejar, faz parte do direito-dever inalienável de todo cidadão. Agora, torcer para que TUDO DÊ ERRADO, é algo que simplesmente não consigo compreender. A não ser vindo daqueles que sistematicamente se comprazem em reforçar a idéia de que o brasileiro é, por natureza, incompetente, indolente, incapaz de se ombrear com os maravilhosos realizadores do “primeiro mundo”.
***
O Papa Bento XVI têm-se especializado na nobre arte de dizer, em segundos, bobagens que o episcopado, o clero, a diplomacia, os políticos, teólogos, historiadores têm de levar meses pra tentar consertar. Entre uma montanha de pataquadas que disse por aqui e para as quais ninguém deu a menor pelota, soltou a pérola de que a catequese dos povos pré-colombianos não foi uma violência. Claro: saroba no defecador alheio é cosquinha. Tratou-se apenas, nas suas pontifícias palavras, de conduzir a ancestral sabedoria desses povos à plenitude da verdade no conhecimento do evangelho. Depois, ele mesmo tentou limpar a meleca, mas a sagacidade popular está cansada de saber que em dispensações papais, quanto mais se mexe, maior é o característico odor exalado.
Mas isso serviu pra me lembrar a história que me contou Iya Sandra Epega de Xangô. Perguntado a uma freirinha missionária entre os índios amazônicos, ao que parece irmã do nunca assaz exaltado Marechal Cândido Rondon (entre cujos compatriotas, nunca é demais lembrar, foi recentemente apontado como “o maior” o ultra-fanho chofer de carros Ayrton Senna), como pretenderia ensinar a sua religião aos índios, respondeu:
- Eles já têm a religião deles, não preciso ensinar a minha. Venho aqui unicamente para viver o que nela aprendi: servir ao semelhante no que estiver ao meu alcance.
***
O mais recente mar de lama que se abate sobre a República, cujo primeiro e mais visível alvo foi o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, tem servido para tirar de pauta uma operação maquinada a partir do Palácio do Planalto e que já estava em pleno andamento antes da navalha, com o objetivo de legitimar perante a opinião pública a idéia de que o abastecimento nacional de energia elétrica é prioridade de tal monta a mitigar as preocupações com os impactos ambientais decorrentes da instalação de usinas hidrelétricas. Os alvos, sabidamente, são o complexo do Rio Madeira e Belo Monte, no Xingu. O Presidente da República havia muito não abria a caixa de ferramentas de suas bufonarias, como fez há algumas semanas, para ameçar a nação com o espectro nuclear, caso não sejam felxibilizadas as exigências para a concessão das licenças ambientais. Uma espécie de versão pós-moderna dos escrúpulos de consciência mandados às favas. De sua parte, a Ministra Marina Silva andava tentando convencer a si mesma e à Nação de que os avanços conquistados na gestão de diversos problemas ambientais (aparentemente efetivos) podem e devem justificar sua permanência num ministério onde é constantemente desautorizada e considerada presença incômoda.
Água na fervura por enquanto, atentem porque o tema voltará à baila quando a poeira baixar.
***
A baba-ovíssima vertente futebolística da grande imprensa paulistana este final de semana tratou de supervalorizar o episódio da substituição do atacante Edmundo, estrela maior do escrete palestrino, só porque saiu de campo no clássico contra o São Paulo sem cumprimentar o técnico Caio Júnior, que ficou que nem um bocó de bracinho esticado, esperando o aperto-de-mão que não veio. Reação, aliás, absolutamente normal de um jogador que tem sanha de bola. Mas os arautos do futebolzinho comportado e higiênico insistem em que, mesmo puto, o jogador tenha que demonstrar publicamente, para exemplo e instrução das novas gerações, simpatia, cordialidade e “espírito esportivo”. Às putas que os pariram! Por sua vez, o janotíssimo treinador perdeu excelente oportunidade de ficar de boquinha fechada, tendo em vista que sua importância histórica para o Palmeiras e sua projeção no futebol brasileiro não chegam aos calcanhares do endiabrado atacante. Atenção, pois, os atestadamente honrados e bem-intencionados (dou fé!) dirigentes atuais do futebol esmeraldino: Caio Júnior é sério e, mesmo sem demonstar até agora ser um grande gênio, tem-se apresentado apto a cumprir a tarefa que lhe está sendo confiada. Ajudêmo-lo, pois, a ter a dimensão mais nítida das proporções em sede da realidade do futebol atual, e estaremos ajudando a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.
Em primeiro lugar, por mais plausíveis ou mesmo verificáveis que sejam os problemas apontados a torto e a direito, de procedências as mais diversas, compete-me declarar publicamente minha absoluta e irrestrita confiança na honestidade pessoal, honradez e compromisso cívico do Ministro Orlando Silva Júnior. Na história da República podem-se contar, possivelmente nos dedos de uma só mão, os ministros de estado oriundos dos estratos populares que exerceram o cargo estritamente como cumprimento de um dever para com a Nação, sem nenhuma nesga de ambição pessoal, como um simples funcionário devotado à sua missão. E este é o caso do Ministro Orlando, afirmo com toda a convicção de que sou capaz.
Em segundo, na minha última visita ao Rio de Janeiro, causou-me profunda estranheza como gente de boa cepa possa aderir irrefletidamente ao sentimento constantemente repisado pelos detratores do Brasil de que nada de que é nosso possa prestar. Criticar, denunciar, chamar às contas, discordar, esbravejar, faz parte do direito-dever inalienável de todo cidadão. Agora, torcer para que TUDO DÊ ERRADO, é algo que simplesmente não consigo compreender. A não ser vindo daqueles que sistematicamente se comprazem em reforçar a idéia de que o brasileiro é, por natureza, incompetente, indolente, incapaz de se ombrear com os maravilhosos realizadores do “primeiro mundo”.
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O Papa Bento XVI têm-se especializado na nobre arte de dizer, em segundos, bobagens que o episcopado, o clero, a diplomacia, os políticos, teólogos, historiadores têm de levar meses pra tentar consertar. Entre uma montanha de pataquadas que disse por aqui e para as quais ninguém deu a menor pelota, soltou a pérola de que a catequese dos povos pré-colombianos não foi uma violência. Claro: saroba no defecador alheio é cosquinha. Tratou-se apenas, nas suas pontifícias palavras, de conduzir a ancestral sabedoria desses povos à plenitude da verdade no conhecimento do evangelho. Depois, ele mesmo tentou limpar a meleca, mas a sagacidade popular está cansada de saber que em dispensações papais, quanto mais se mexe, maior é o característico odor exalado.
Mas isso serviu pra me lembrar a história que me contou Iya Sandra Epega de Xangô. Perguntado a uma freirinha missionária entre os índios amazônicos, ao que parece irmã do nunca assaz exaltado Marechal Cândido Rondon (entre cujos compatriotas, nunca é demais lembrar, foi recentemente apontado como “o maior” o ultra-fanho chofer de carros Ayrton Senna), como pretenderia ensinar a sua religião aos índios, respondeu:
- Eles já têm a religião deles, não preciso ensinar a minha. Venho aqui unicamente para viver o que nela aprendi: servir ao semelhante no que estiver ao meu alcance.
***
O mais recente mar de lama que se abate sobre a República, cujo primeiro e mais visível alvo foi o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, tem servido para tirar de pauta uma operação maquinada a partir do Palácio do Planalto e que já estava em pleno andamento antes da navalha, com o objetivo de legitimar perante a opinião pública a idéia de que o abastecimento nacional de energia elétrica é prioridade de tal monta a mitigar as preocupações com os impactos ambientais decorrentes da instalação de usinas hidrelétricas. Os alvos, sabidamente, são o complexo do Rio Madeira e Belo Monte, no Xingu. O Presidente da República havia muito não abria a caixa de ferramentas de suas bufonarias, como fez há algumas semanas, para ameçar a nação com o espectro nuclear, caso não sejam felxibilizadas as exigências para a concessão das licenças ambientais. Uma espécie de versão pós-moderna dos escrúpulos de consciência mandados às favas. De sua parte, a Ministra Marina Silva andava tentando convencer a si mesma e à Nação de que os avanços conquistados na gestão de diversos problemas ambientais (aparentemente efetivos) podem e devem justificar sua permanência num ministério onde é constantemente desautorizada e considerada presença incômoda.
Água na fervura por enquanto, atentem porque o tema voltará à baila quando a poeira baixar.
***
A baba-ovíssima vertente futebolística da grande imprensa paulistana este final de semana tratou de supervalorizar o episódio da substituição do atacante Edmundo, estrela maior do escrete palestrino, só porque saiu de campo no clássico contra o São Paulo sem cumprimentar o técnico Caio Júnior, que ficou que nem um bocó de bracinho esticado, esperando o aperto-de-mão que não veio. Reação, aliás, absolutamente normal de um jogador que tem sanha de bola. Mas os arautos do futebolzinho comportado e higiênico insistem em que, mesmo puto, o jogador tenha que demonstrar publicamente, para exemplo e instrução das novas gerações, simpatia, cordialidade e “espírito esportivo”. Às putas que os pariram! Por sua vez, o janotíssimo treinador perdeu excelente oportunidade de ficar de boquinha fechada, tendo em vista que sua importância histórica para o Palmeiras e sua projeção no futebol brasileiro não chegam aos calcanhares do endiabrado atacante. Atenção, pois, os atestadamente honrados e bem-intencionados (dou fé!) dirigentes atuais do futebol esmeraldino: Caio Júnior é sério e, mesmo sem demonstar até agora ser um grande gênio, tem-se apresentado apto a cumprir a tarefa que lhe está sendo confiada. Ajudêmo-lo, pois, a ter a dimensão mais nítida das proporções em sede da realidade do futebol atual, e estaremos ajudando a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
A existência possível (cont.)
(Parte III)
Dominação e formalização
Pudemos até o presente momento estabelecer as limitações do pensamento conservador no tocante à superação dos elementos negativos de uma determinada forma de organização da vida social que não sejam decorrentes exclusivamente de problemas de gestão adequada dos modelos, mas que sejam geradas pela própria estrutura dessas formas organizativas, como a questão do empobrecimento progressivo do proletariado nas formas primeiras do capitalismo industrial ou a da perda da liberdade individual nos países de experiência socialista. Advogamos a necessidade da crítica dialética que questione radicalmente, sem pruridos intelectuais, o próprio estatuto, legitimidade e limitações dessas estruturas sociais.
Cabe perguntar, nesta hora, por quê, ante a evidência do estado de degeneração social que se observa na esmagadora maior parte das sociedades humanas modernas, é tão difícil ao senso comum de nosso tempo, primeiro, aceitar que essas mazelas possam derivar das próprias estruturas da organização social; e, em, conseqüência, admitir a necessidade de uma negação radical das mesmas. Em outras palavras, por que o pensamento conservador é hegemônico.
Há que se ter em mente, o fato lógico anteriormente apontado de que um ideal que foi revolucionário se passa a conservador tão logo a revolução preconizada se consume. Isso sempre se dará quando não se tratar de uma procura incessante por formas mais elevadas de existência (função do pensamento crítico), mas tão somente uma negação específca de determinadas estruturas particularmente contrárias aos interesses/exigências dos agentes revolucionários (trate-se da burguesia pré-industrial do século XVIII ou o Partido Bolchevique) que, ipso facto, passam a hegemônicos. Principia, a partir de então, como Marx tão bem caracteriza na Ideologia Alemã, o desenrolar de um processo fortemente ideológico de transformação do que era interesse particular de um determinado grupo em interesse geral, sem o quê, por óbvio, a hegemonia das novas formas organizativas não conseguiria se impor ante a uma maioria que permanecesse indefinidamente preterida, excluída, alijada, tendendo ao saudosismo das antigas formas abolidas.
Ora, no princípio da era capitalista, a filosofia política tratou de cumprir esse papel retratando um mundo antigo (ainda que hipotético ou mítico) de selvagerias e guerras e fome e doenças contrastado com o reino da liberdade e da segurança sob o contrato social. Um esforço muitíssimo bem engendrado para dar o nome de liberdade à submissão voluntária à ordem do estado, que passa por autores tão apartados em idéias e posturas como Hobbes, Rousseau, Kant ou Hegel. Paulatinamente foram se incorporando ao discurso oficial da ordem estatal-capitalista da modernidade as idéias de ordem, previsibilidade, padronização em oposição à barbárie desordenada de um mítico estado natural. Não é de outro modo que opera a ciência iluminista, procurando leis para descrever os fenômenos, prever os eventos futuros, com o intuito de dominá-los. Tanto na ordem jurídica como nas ciências naturais, a previsibilidade, o comportamento esperado, o estabelecimento de respostas-padrão, do sistema e dos indivíduos, são fortemente estimulados. Quanto mais passíveis de serem ordenados pelo sujeito cognoscente, que exerce o poder tanto sobre a natureza quanto sobre as forças sociais, mais garantida é a dominação.
Falar em dominação é falar em segurança. Falar em segurança é falar em dominação. É necessário que se domine a rebeldia, a imprevisão, a insubordinação para que eu tenha uma ordem jurídica e econômica estáveis. Não posso produzir se não estiver dominada a sanha expropriatória do soberano, a mutabilidade das leis de tributação e comércio. Não exercerei verdadeiro domínio sobre minha propriedade acumulada, se não puder estar seguro contra os salteadores e esbulhadores. Segurança e dominação. Dominação e segurança, presididas por um caráter francamente utilitarista (voltado para finalidades, para a eficiência). Não posso estar seguro sobre os resultados do meu experimento– e portanto, não poderei prever o comportamento dos fenômenos similares no futuro – se não for garantido que segui todos os procedimentos de antemão estabelecidos pela ortopraxia acadêmico-científica.
Porque simplesmente não é possível para que a produção de bens no âmbito do mercado se dê de maneira eficiente as regras do jogo poderem ser alteradas a todo momento, ao bel prazer de quem quer que seja (nem mesmo serão regras...). Nem é possível obter-se um adequado controle (padronização) sobre os comportamentos sociais se não houver regras postas de antemão que prevejam hipóteses abstratas e as correspondentes conseqüências: se não pagou a dívida, será executado; se cometeu um delito, irá para a cadeia. É desejável que sempre mais se possa ter um pequeno grau de variabilidade entre uma ação social-econômica e sua conseqüência. A dominação, seja no âmbito dos fenômenos naturais, seja no controle social, enseja, claramente, a padronização e formalização dos procedimentos tendentes a buscar as respostas do objeto a ser conhecido/dominado. Sujeito dominante e objeto dominado devidamente apartados, mediados por uma interface formalizada que garanta um grau mínimo de variabilidade, independentemente dos conteúdos materiais. A legitimação, no direito ou na ciência, vem da correção procedimental (formal): as regras de conduta são pré-definidas e só a sua fiel observância legitima tanto a ação social (princípio da anterioridade da norma jurídica ao fato) como o procedimento científico (método). Regras que possam ser constantemente rediscutidas não são regras!
Positividade e totalitarismo
Ora, o transcorrer do século XX mudou bastante a cara da ordem capitalista mundial. Contrariamente às análises econômicas do último Marx, as contradições do capitalismo industrial liberal não puseram termo a essa forma organizativa da sociedade do ponto de vista estrutural, baseada na apropriação privada da riqueza. Ao contrário, o capitalismo mostrou uma notável habilidade em absorver suas próprias contradições, digerí-las em seu pantagruélico ventre e vomitá-las em forma de positividades devidamente “amansadas”. A face mais evidente dessa capacidade diz respeito ao próprio proletariado, alçado de encarnação da negatividade essencial a denunciar a crueldade de um sistema de acumulação da riqueza, no âmbito do capitalismo industrial do século XIX, a “exemplo” de como as “correções necessárias” podem permitir que os benefícios do sistema se estendam também à classe detentora da força de trabalho: o estado providente de bem-estar. O grande agente da revolução anti-capitalista é “amansado” a partir da distributividade falaciosa dos benefícios da rede de proteção social.
Na sanha de tudo submeter, de universalizar a dominação e de neutralizar todas as resistências, o sistema estende seus tentáculos para muito além da organização econômica, política e na produção do conhecimento. Porque dominação pede, exige e se apraz com cada vez mais dominação. É de sua essência mais intrínseca, por lógica, que seu aperfeiçoamento implique na sua universalização: quanto menos resistência, mais eficiente; quanto mais universal, mais efetiva. A lógica da padronização, então, aliada à da acumulação de riqueza, coloniza todas as esferas da vida humana, traga todas as formas de existência, todas as manifestações do espírito e do engenho humano e mostra como pode tudo conformar a si própria. Qualquer resquício de espontaneidade (leia-se: de respostas não previsíveis), gratuidade (ações não voltadas para fins), formas de sociabilidade estabelecidas sobre um outro padrão que não o dos interesses formalmente mediados (vale dizer, mediados pelas formas privilegiadas de equivalência universal: o dinheiro e o “sujeito de direitos”) ou da conformação às regras procedimentais previamente estabelecidas, o sistema tratará de tragar para dentro do buraco negro. Ante qualquer forma alternativa de existência, o sistema sempre faz a sua oferta: dinheiro, equivalência, planificação, massificação. Por que fazer um carnaval de esmolambados sambando pelo simples prazer da diversão e da arte (espontâneo, gratuito), se é possível um mega-espetáculo que será vendido para os quatro cantos do mundo e possibilitará (?) a seus realizadores galgar posições na única escala possível na sociedade formalizada? A ideologia tende a se generalizar, a hegemonia é cada vez mais avassaladora: não há alternativa fora dessa lógica; a saída, portanto é conformar-se a ela e tentar obter sucesso na empreitada particular da acumulação de riqueza e de direitos.
A conseqüência dessa planificação no nível da consciência produz um discurso que tão bem nós conhecemos e pudemos experimentar em nosso próprio quintal. A depauperação do terceiro mundo não é mais um produto obrigatório da organização estrutural do capitalismo mundial; pelo contrário, é atribuída à falta de capitalismo, de “civilização”, de “modernidade”. Tragam o estado de direito, tragam a estabilidade democrática, tragam a racionalização produtiva em larga escala, tragam a tecnologia e tereis uma sociedade emancipada! Abram os mercados, privatizem as empresas, estimulem a concorrência: injetem capitalismo! O não funcionamento crônico das nações marginais não são fruto do processo espoliatório a que elas foram submetidas, nem da inadaptabilidade das instituições formalizadas frente a realidades histórico-culturais arqui-complexas; antes, defluem de sua incapacidade cultural de fazer valer o bom funcionamento dessas formas institucionais, mormente o capitalismo de mercado e a democracia liberal.
A disseminação indiscriminada da lógica do dinheiro e da dominação tende, pois, a neutralizar todas as negatividades, tudo o que apontaria para uma saída fora do sistema. Ele “cobre” qualquer proposta! O que se pode, assim, oferecer como uma outra existência possível? O pensamento único que tudo traga impede a transcendência não só do pensamento crítico, mas também dos desejos, sonhos, aspirações. Vale dizer: por que sonhar com uma distante sociedade justa se eu posso sonhar com a minha menos distante roupa de grife? Não preciso mudar o mundo para tê-la; pelo contrário, devo mais e mais me conformar às suas regras, para que obtenha o maior grau de eficiência dentro da proposta do sistema (acumular riqueza). Quando o desejo e o sonho também estão conformados a um grau adequado de previsibilidade (só posso desejar o que me é oferecido para tanto; jamais posso ser construtor do meu próprio sonho, do meu próprio desejo), devidamente formalizados pelas regras do mercado, negar os fundamentos do sistema é, aos seus olhos, também negar os sonhos e objetos de desejo que ele oferece. E se nada mais há além de suas fronteiras, seremos inevitavelmente acusados de negar a própria faculdade de desejar.
Dominação e formalização
Pudemos até o presente momento estabelecer as limitações do pensamento conservador no tocante à superação dos elementos negativos de uma determinada forma de organização da vida social que não sejam decorrentes exclusivamente de problemas de gestão adequada dos modelos, mas que sejam geradas pela própria estrutura dessas formas organizativas, como a questão do empobrecimento progressivo do proletariado nas formas primeiras do capitalismo industrial ou a da perda da liberdade individual nos países de experiência socialista. Advogamos a necessidade da crítica dialética que questione radicalmente, sem pruridos intelectuais, o próprio estatuto, legitimidade e limitações dessas estruturas sociais.
Cabe perguntar, nesta hora, por quê, ante a evidência do estado de degeneração social que se observa na esmagadora maior parte das sociedades humanas modernas, é tão difícil ao senso comum de nosso tempo, primeiro, aceitar que essas mazelas possam derivar das próprias estruturas da organização social; e, em, conseqüência, admitir a necessidade de uma negação radical das mesmas. Em outras palavras, por que o pensamento conservador é hegemônico.
Há que se ter em mente, o fato lógico anteriormente apontado de que um ideal que foi revolucionário se passa a conservador tão logo a revolução preconizada se consume. Isso sempre se dará quando não se tratar de uma procura incessante por formas mais elevadas de existência (função do pensamento crítico), mas tão somente uma negação específca de determinadas estruturas particularmente contrárias aos interesses/exigências dos agentes revolucionários (trate-se da burguesia pré-industrial do século XVIII ou o Partido Bolchevique) que, ipso facto, passam a hegemônicos. Principia, a partir de então, como Marx tão bem caracteriza na Ideologia Alemã, o desenrolar de um processo fortemente ideológico de transformação do que era interesse particular de um determinado grupo em interesse geral, sem o quê, por óbvio, a hegemonia das novas formas organizativas não conseguiria se impor ante a uma maioria que permanecesse indefinidamente preterida, excluída, alijada, tendendo ao saudosismo das antigas formas abolidas.
Ora, no princípio da era capitalista, a filosofia política tratou de cumprir esse papel retratando um mundo antigo (ainda que hipotético ou mítico) de selvagerias e guerras e fome e doenças contrastado com o reino da liberdade e da segurança sob o contrato social. Um esforço muitíssimo bem engendrado para dar o nome de liberdade à submissão voluntária à ordem do estado, que passa por autores tão apartados em idéias e posturas como Hobbes, Rousseau, Kant ou Hegel. Paulatinamente foram se incorporando ao discurso oficial da ordem estatal-capitalista da modernidade as idéias de ordem, previsibilidade, padronização em oposição à barbárie desordenada de um mítico estado natural. Não é de outro modo que opera a ciência iluminista, procurando leis para descrever os fenômenos, prever os eventos futuros, com o intuito de dominá-los. Tanto na ordem jurídica como nas ciências naturais, a previsibilidade, o comportamento esperado, o estabelecimento de respostas-padrão, do sistema e dos indivíduos, são fortemente estimulados. Quanto mais passíveis de serem ordenados pelo sujeito cognoscente, que exerce o poder tanto sobre a natureza quanto sobre as forças sociais, mais garantida é a dominação.
Falar em dominação é falar em segurança. Falar em segurança é falar em dominação. É necessário que se domine a rebeldia, a imprevisão, a insubordinação para que eu tenha uma ordem jurídica e econômica estáveis. Não posso produzir se não estiver dominada a sanha expropriatória do soberano, a mutabilidade das leis de tributação e comércio. Não exercerei verdadeiro domínio sobre minha propriedade acumulada, se não puder estar seguro contra os salteadores e esbulhadores. Segurança e dominação. Dominação e segurança, presididas por um caráter francamente utilitarista (voltado para finalidades, para a eficiência). Não posso estar seguro sobre os resultados do meu experimento– e portanto, não poderei prever o comportamento dos fenômenos similares no futuro – se não for garantido que segui todos os procedimentos de antemão estabelecidos pela ortopraxia acadêmico-científica.
Porque simplesmente não é possível para que a produção de bens no âmbito do mercado se dê de maneira eficiente as regras do jogo poderem ser alteradas a todo momento, ao bel prazer de quem quer que seja (nem mesmo serão regras...). Nem é possível obter-se um adequado controle (padronização) sobre os comportamentos sociais se não houver regras postas de antemão que prevejam hipóteses abstratas e as correspondentes conseqüências: se não pagou a dívida, será executado; se cometeu um delito, irá para a cadeia. É desejável que sempre mais se possa ter um pequeno grau de variabilidade entre uma ação social-econômica e sua conseqüência. A dominação, seja no âmbito dos fenômenos naturais, seja no controle social, enseja, claramente, a padronização e formalização dos procedimentos tendentes a buscar as respostas do objeto a ser conhecido/dominado. Sujeito dominante e objeto dominado devidamente apartados, mediados por uma interface formalizada que garanta um grau mínimo de variabilidade, independentemente dos conteúdos materiais. A legitimação, no direito ou na ciência, vem da correção procedimental (formal): as regras de conduta são pré-definidas e só a sua fiel observância legitima tanto a ação social (princípio da anterioridade da norma jurídica ao fato) como o procedimento científico (método). Regras que possam ser constantemente rediscutidas não são regras!
Positividade e totalitarismo
Ora, o transcorrer do século XX mudou bastante a cara da ordem capitalista mundial. Contrariamente às análises econômicas do último Marx, as contradições do capitalismo industrial liberal não puseram termo a essa forma organizativa da sociedade do ponto de vista estrutural, baseada na apropriação privada da riqueza. Ao contrário, o capitalismo mostrou uma notável habilidade em absorver suas próprias contradições, digerí-las em seu pantagruélico ventre e vomitá-las em forma de positividades devidamente “amansadas”. A face mais evidente dessa capacidade diz respeito ao próprio proletariado, alçado de encarnação da negatividade essencial a denunciar a crueldade de um sistema de acumulação da riqueza, no âmbito do capitalismo industrial do século XIX, a “exemplo” de como as “correções necessárias” podem permitir que os benefícios do sistema se estendam também à classe detentora da força de trabalho: o estado providente de bem-estar. O grande agente da revolução anti-capitalista é “amansado” a partir da distributividade falaciosa dos benefícios da rede de proteção social.
Na sanha de tudo submeter, de universalizar a dominação e de neutralizar todas as resistências, o sistema estende seus tentáculos para muito além da organização econômica, política e na produção do conhecimento. Porque dominação pede, exige e se apraz com cada vez mais dominação. É de sua essência mais intrínseca, por lógica, que seu aperfeiçoamento implique na sua universalização: quanto menos resistência, mais eficiente; quanto mais universal, mais efetiva. A lógica da padronização, então, aliada à da acumulação de riqueza, coloniza todas as esferas da vida humana, traga todas as formas de existência, todas as manifestações do espírito e do engenho humano e mostra como pode tudo conformar a si própria. Qualquer resquício de espontaneidade (leia-se: de respostas não previsíveis), gratuidade (ações não voltadas para fins), formas de sociabilidade estabelecidas sobre um outro padrão que não o dos interesses formalmente mediados (vale dizer, mediados pelas formas privilegiadas de equivalência universal: o dinheiro e o “sujeito de direitos”) ou da conformação às regras procedimentais previamente estabelecidas, o sistema tratará de tragar para dentro do buraco negro. Ante qualquer forma alternativa de existência, o sistema sempre faz a sua oferta: dinheiro, equivalência, planificação, massificação. Por que fazer um carnaval de esmolambados sambando pelo simples prazer da diversão e da arte (espontâneo, gratuito), se é possível um mega-espetáculo que será vendido para os quatro cantos do mundo e possibilitará (?) a seus realizadores galgar posições na única escala possível na sociedade formalizada? A ideologia tende a se generalizar, a hegemonia é cada vez mais avassaladora: não há alternativa fora dessa lógica; a saída, portanto é conformar-se a ela e tentar obter sucesso na empreitada particular da acumulação de riqueza e de direitos.
A conseqüência dessa planificação no nível da consciência produz um discurso que tão bem nós conhecemos e pudemos experimentar em nosso próprio quintal. A depauperação do terceiro mundo não é mais um produto obrigatório da organização estrutural do capitalismo mundial; pelo contrário, é atribuída à falta de capitalismo, de “civilização”, de “modernidade”. Tragam o estado de direito, tragam a estabilidade democrática, tragam a racionalização produtiva em larga escala, tragam a tecnologia e tereis uma sociedade emancipada! Abram os mercados, privatizem as empresas, estimulem a concorrência: injetem capitalismo! O não funcionamento crônico das nações marginais não são fruto do processo espoliatório a que elas foram submetidas, nem da inadaptabilidade das instituições formalizadas frente a realidades histórico-culturais arqui-complexas; antes, defluem de sua incapacidade cultural de fazer valer o bom funcionamento dessas formas institucionais, mormente o capitalismo de mercado e a democracia liberal.
A disseminação indiscriminada da lógica do dinheiro e da dominação tende, pois, a neutralizar todas as negatividades, tudo o que apontaria para uma saída fora do sistema. Ele “cobre” qualquer proposta! O que se pode, assim, oferecer como uma outra existência possível? O pensamento único que tudo traga impede a transcendência não só do pensamento crítico, mas também dos desejos, sonhos, aspirações. Vale dizer: por que sonhar com uma distante sociedade justa se eu posso sonhar com a minha menos distante roupa de grife? Não preciso mudar o mundo para tê-la; pelo contrário, devo mais e mais me conformar às suas regras, para que obtenha o maior grau de eficiência dentro da proposta do sistema (acumular riqueza). Quando o desejo e o sonho também estão conformados a um grau adequado de previsibilidade (só posso desejar o que me é oferecido para tanto; jamais posso ser construtor do meu próprio sonho, do meu próprio desejo), devidamente formalizados pelas regras do mercado, negar os fundamentos do sistema é, aos seus olhos, também negar os sonhos e objetos de desejo que ele oferece. E se nada mais há além de suas fronteiras, seremos inevitavelmente acusados de negar a própria faculdade de desejar.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Eternidade I
E esse tudo em mim se fará outro
condensado o que já não pode mais ser sem
Inconcebida a ausência de si próprio.
Caminhos devenientes ao infinito
à sombra do adeus que a si mesma devora
Esguicham saudades das frestas entre átimos
Incompreensão necessária da distância irreal,
Absurdo em essência recendente de entrega
incondicional das aspirações de algum ser
Jorra pra fora esse teu grito de pertença
Acende ao mundo a negação do teu fim!
Clama por Aquela que te faz existir
na completa confusão das telas sob os olhares,
entregue o espírito à certeza de restar:
Pari-me, ó Mãe das minhas negações
Em ti – só em ti... – reconheço o que resiste
sobre os derretimentos dos meus nadas
Pódio reluzente da minha pobre deidade,
custódia da salvação que em mim opero
Clareia o entorno onde não estou
tragado p’ras entranhas de tua presença
a encampar minha pequenez observante
Embriagada.
Devota.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Sob as bençãos do Gigante Negro
Não costumo fazer deste espaço, senão quando a excepcionalidade das circunstâncias o exigem, um lugar de trombetização pública das minhas peripécias pelos caminhos menos virtuais da existência. Em tempos de panóptico, sou mais da turma do owo. E tanto a malandragem como as lições das artes bélicas sempre me ensinaram que em trincheira não se coloca outdoor.
Quero apenas registrar, pois, à guiza de homenagem e agradecimento o que foi a presença desta verdadeira entidade do samba brasileiro entre nós nesta última sexta-feira, primeira função desta nova temporada que pretende reviver belos encontros de samba vividos pelos Inimigos do Batente na Barra Funda, berço da resistência popular na cidade de São Paulo. Todos os que lá estivemos - entre os quais gente que o conhece há décadas, como meus amigos Nézio Simões e Gilda - fomos unânimes em reconhecer: nunca "seu" Wilson Moreira contou tanta história! Tamanhamente esteve à vontade, de tal forma parecia integrado a nós, ao lugar, ao público, que no dia seguinte nossa sensação é a de ele que tivesse, de repente, chegado à casa dos filhos, e com a família toda reunida, netaiada correndo no meio da gente, começasse a nos transmitir um legado. As histórias que ali se ouviu certamente um dia completarão o mosaico dessa página maiúscula da História do samba escrita pelo Gigante de Realengo.
Tudo o que se disser a respeito de Wilson Moreira sempre será pouco. Como descrever a presença de um homem que reúne a plenitude de aspectos por vezes tão difíceis de conciliar como a força e a doçura, a grandeza e a humildade, a genialidade e o despojamento, a altivez e a simplicidade? O que dizer de sua beleza negra, da mansidão que vem de profunda sabedoria da vida, de sua paternal majestade, de sua generosidade sem limites? Não há palavras.
Só nos resta, pois, dizer obrigado. Pelo reconhecimento e pela benção ao nosso trabalho modesto, mas esforçado, levando a diante, com tantos outros companheiros, a bandeira do samba brasileiro. Pelo privilégio de nos fazer depositários de tantas histórias, de tantas lições de vida, de sabedoria e de samba. Mas sobretudo pela alegria de podermos desfrutar, por algumas horas que fosse, da sua presença que é força, é vida, é inspiração.
E um começo desses só faz aumentar a responsabilidade em relação à continuidade dessa idéia. A partir de junho, toda última sexta-feira do mês Anhangüera dá samba! Com as bençãos do padrinho Wilson Moreira!
Axé, Alicate!
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Como se fora um coração postiço
Rubem Braga
Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um Dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”
Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:
-... a hora em que os bares fecham e todas as vitudes se negam....
Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos, borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Os olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém jamais nunca contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.
Seis horas. O coração fora do peito bae docemente. Sete horas – o coração bate... Oito horas – que sol claro, que barulho na rua! - o coração bate...
Nove horas – morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: "Filho de pais alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: "o Dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:
- Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...
Os anjinhos todos do limbo perguntaram:
- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?
O anjinho respondeu:
- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.
Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:
- E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. E quando eu nasci, o Dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente, são assim como o Dr. Mereje.
Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, Dr. Mereje!
in O conde e o passarinho, Rio de Janeiro: Record, 1982, pp 9-12
Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um Dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”
Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:
-... a hora em que os bares fecham e todas as vitudes se negam....
Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos, borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Os olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém jamais nunca contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.
Seis horas. O coração fora do peito bae docemente. Sete horas – o coração bate... Oito horas – que sol claro, que barulho na rua! - o coração bate...
Nove horas – morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: "Filho de pais alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: "o Dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:
- Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...
Os anjinhos todos do limbo perguntaram:
- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?
O anjinho respondeu:
- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.
Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:
- E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. E quando eu nasci, o Dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente, são assim como o Dr. Mereje.
Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, Dr. Mereje!
in O conde e o passarinho, Rio de Janeiro: Record, 1982, pp 9-12
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Leonor
Itamar Assumpção
Devagar com esse andor, Leonor
Casamento é muito caro
Eu sou compositor, cantor
Também sou autor
Falo mais de flor do que dor, Leonor
Mas não sou Roberto Carlos
Não tenho carro de boi, Leonor
Nem outro tipo de carro
Meu cachê é um horror, Leonor
Não sobra nem pro cigarro
(não tenho nem gravador!)
Não tenho nem gravador, Leonor
Meu São Benedito é de barro
Meu menu é feijão com arroz,
Que divido com mais dois, Leonor
Quando não falta trabalho
Viver somente de amor, Leonor
É tão lindo quanto precário
Tem que morar de favor, Leonor
Lá no bairro do Calvário
(o que eu tinha de valor...)
O que eu tinha de valor, Leonor
Dois gatos, três agasalhos
Cachecol de lã
Gibis do Tarzan
Gibis de terror, cobertor
Quatro jogos de baralho
Um macacão furta-cor, Leonor
Uma colcha de retalhos
O que não tá no penhor, Leonor
Foi pra casa do Carvalho
(devagar com esse andor!)
Devagar com esse andor, Leonor
Casamento é muito caro
Eu sou compositor, cantor
Também sou autor
Falo mais de flor do que dor, Leonor
Mas não sou Roberto Carlos
Não tenho carro de boi, Leonor
Nem outro tipo de carro
Meu cachê é um horror, Leonor
Não sobra nem pro cigarro
(não tenho nem gravador!)
Não tenho nem gravador, Leonor
Meu São Benedito é de barro
Meu menu é feijão com arroz,
Que divido com mais dois, Leonor
Quando não falta trabalho
Viver somente de amor, Leonor
É tão lindo quanto precário
Tem que morar de favor, Leonor
Lá no bairro do Calvário
(o que eu tinha de valor...)
O que eu tinha de valor, Leonor
Dois gatos, três agasalhos
Cachecol de lã
Gibis do Tarzan
Gibis de terror, cobertor
Quatro jogos de baralho
Um macacão furta-cor, Leonor
Uma colcha de retalhos
O que não tá no penhor, Leonor
Foi pra casa do Carvalho
(devagar com esse andor!)
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