quinta-feira, 10 de maio de 2007
Mosaico
Quarenta dias após a entrada em vigor da lei “Cara-limpa, bunda-suja”, de autoria do nosso iluminado burgomestre, cujo lema de “governo” (risos incontinentes) está na boca do povão (“silêncio pouco, meu chilique primeiro”), a imagem da cidade é a esperada. Os quitandeiros, açougueiros de bairro, barbeiros, donos de butiquins e mercadinhos tiveram que dar seu jeito e sumir com as placas alusivas a suas atividades comerciais, ofensivas aos olhos sensíveis do povo paulistano, sabidamente cultor da beleza e do equilíbrio estético – vide cartões postais da cidade como a Av. Paulista, o Minhocão do Tio Salim, a Av. do Estado pós-canalização do Tamanduateí e as obras-primas da arquitetura nas quais a nossa classe média faz questão de se empoleirar. Alguns até, demonstrando perfeita sintonia com a clareza de propósitos da legislação municipal, jogaram lonas pretas sobre seus estandartes publicitários, fazendo do ruim pior. Outros, de melhor gosto, como a padaria pertinho de casa, retiraram os toldos, placas e luminosos, deixando à mostra a beleza da fachada característica dos sobradões lapeanos do começo do século passado. Só que quem viu, viu. Dois dias depois, órfãos de uma certa exuberância visual, cobriram os frontais, de alto a baixo, de um mosaico de lajotinhas brancas e cor-de-abóbora da mais ordinária procedência. Enquanto isso, na sala de justiça, os postos de gasolina, bancos, grandes supermercados etc. continuam reafirmando por quarteirões inteiros, mais do que suas logomarcas, sua condição senhorial sobre esta terra de (quase) ninguém.
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Os jornais estamparam esta semana as cores sombrias e degradantes de mais uma chacina na cidade de São Paulo, aqui pertinho, no Jaraguá, lugar de muitos quintais amigos há tempos. Sete jovens, o mais velho com 22 ou 23 anos, assassinados em praça pública, com requintes de perversidade e violência. Até aí, a gente vai sentindo mais uma punhalada dessa seqüência aparentemente interminável que sabemos nos há de matar, só restando esperar a hora em que vá parar de doer. A pérola da vez coube ao delegado responsável pela circunscrição onde ocorreu o crime. A “otoridade” (sem risos) disse, sem pudor, sem tentar disfarçar, como em outros tempos, que se trata de “briga de vagabundos”. Questionado sobre o fato de nenhuma das vítimas ter passagens policiais, ou sequer ser apontada por testemunhas ou informantes policiais como envolvida em atividades criminosas, o gênio da raça retruca ao repórter: “Você também não tem passagem pela polícia; não é por isso que não pode matar ninguém”, ou coisa que o valha, porque eu acabei de comer e não estou com vontade de abrir o jornal pra conferir. Como se a essa “pessoa” fosse dado emitir alguma opinião pessoal sobre o caráter do que deveria ser, numa civilização, tratado como tragédia. Como se a suposta condição de qualquer das vítimas tivesse um mínimo de relevância sobre a dimensão social e, sobretudo, jurídica do ocorrido e sobre seu conseqüente dever como agente público. Agora, só não sei é como explicar a um amigo suíço que o governador (risos amarelos) José Banana-de-Pijama Serra faz ouvidos de mercador e não toma absolutamente nenhuma providência em relação ao seu subordinado - pra não dizer preposto -, mais ocupado, certamente, em entronizar no posto máximo da emissora de televisão paulista a expressão privilegiada do chapa-branquismo tucano travestida de jornalista. Aquele a quem a querida Railídia, numa noite perdida de um buteco que ainda finge que existe, impediu que eu e Marcão Gramegna, bêbados como porcos, ministrássemos algumas lições de “convivência democrática” que meu avô austríaco me repassara, aprendidas de um velho lutador de circo.
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A visita do Papa Bento XVI ao Brasil certamente nos possibilitaria reflexões de variadíssimas ordens, a grande maioria das quais incompatíveis com o caráter deste espaço. Só umazinha me permito compartilhar aqui: a desnudação impudica da indigência intelectual/cultural da grande imprensa brasileira. Porque se a completa falta de preparo e de compromisso com qualquer coisa que não seja o óbvio ululante (estou hoje sentindo prazer especial em abusar das expressões condenadas pelos manuais de redação, esses monumentos à cristalização das arbitrariedades irrefletidas, nome completo da burrice) nos é atirada à cara todos os dias, quando se está diante de qualquer fato cuja complexidade supere minimamente as análises futebolísticas ou as metáforas do magistrado supremo da nação, a disparidade chega às raias do intolerável. Veja-se o exemplo da nossa gloriosa Folha de S. Paulo a pobre menina rica dessa disnastia oriunda da pior combinação entre o servilismo, o favorecimento oficial e a padronização ideológica que campeou nos meios jornalísticos durante todo o século XX, representada por um time cuja braçadeira está atualmente nas mangas de um Clóvis Rossi da vida, aquele que domina com maestria inigualável a arte de não dizer absolutamente nada hoje e o inverso (veja-se que inverso não é contrário...) daqui algum tempo. Incompetente para tecer qualquer análise minimamente relevante do fenômeno reportado, perde-se pateticamente em carnavalizações de frases esparsas aqui e ali, venham elas do próprio pontífice, do presidente da República ou do monsenhor responsável pelo engraxamento dos sapatos escarlates de Sua Santidade; chegando, em sua sanha de explicar o que não precisa ou não deve ser explicado, onde nenhum homem jamais esteve. É de se guardar o quadrinho explicativo da edição de hoje sobre os trajes papais. Só faltaram, mesmo, os comentários do costureiro larápio, pra saber se o alemão está in ou out.
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A melancólica eliminação do time do Flamengo da Copa Libertadores dá a dimensão simbólica que faltava a algo que por si só sempre foi de uma evidência acaciana: a completa insignificância do campeonato estadual do Rio de Janeiro. Que de resto, diga-se de passagem, não difere substancialmente da banalidade dos outros vinte e sete que se espremem país afora nos primeiros meses do ano, como consolo para a enorme massa de times alijados das três divisões do campeonato nacional. Só não vê quem não quer, e acho bem bom, até, não querer. A comemoração de domingo é justíssima, válida, legítima e todas as outras adjetivações que estou com preguiça de procurar, jamais discutirei, bem como o aborrecimento dos vencidos. Acho, inclusive, invejável como os queridos amigos do Rio se relançam a paixões que julgava eu fossilizadas, mas se prova estarem até recentemente apenas em estado cataléptico. E é só a isso que se presta o derreado torneio, é o que procuro aqui firmar, um campeonato de três times, com a melhor das boas vontades. Aos botafoguenses restando, pois, segundo a interpretação otimista ou pessimista que leva a reputar-se o mesmo copo meio cheio ou meio vazio, comemorar o vice-campeonato, ou lamentar a penúltima colocação.
sexta-feira, 4 de maio de 2007
No elo Noël
Eu ia deixar passar. Sabia que fariam melhor que eu. Mas o texto do meu amigo Luiz Antonio Simas inspirou-me a um pitaco rápido pelos setenta anos completos que o nosso querido Poeta da Vila foi morar no Orun.
Noel foi um homem de seu lugar e de seu tempo. Não é preciso dizer do quanto ele incorporou do espírito coletivo da cidade do Rio de Janeiro e como soube, como pouquíssimos mais, transformar tudo em arte. Arte que cumpre a tarefa fundamental de ritualmente colocar em relevo e possibilitar a celebração do que, de outro modo, ficaria perdido no turbilhão quotidiano que tudo traga. Mas foi fundamentalmente um homem de seu tempo, um tempo de transformação dos traços remanescentes da organização colonial da sociedade brasileira rumo à tão propalada "modernização". Entendendo e dominando a incipiente linguagem de massa então representada pelo disco e pelo rádio, sua personalidade despida dos preconceitos típicos da elite e dos estratos médios brasileiros, dada à comunicação e ao encontro, pôde ir ao encontro das fontes mais populares de nossa cultura musical. Com sensibilidade para perceber seu papel de “ponte” e a generosidade - que tanto outros não tiveram – para não simplesmente se apropriar do que colhia, foi figura fundamental para a consolidação de uma forma de samba que seria predominante nos meios de comunicação a partir de então. Percebendo que a forma dominante do samba então feito nos morros e demais redutos de compositores - compostos primordialmente para a roda, só com refrão, para que os versos fossem tirados na hora de improviso – não se adequava a um produto destinado à comercialização, demandando a fixação de sua forma definitiva, especializou-se em escrever as chamadas segundas partes para tantos sambas de compositores ditos “do morro”, como Ismael, Cartola, Canuto, entre outros. Assim, possibilitava que o samba brotado dessas fontes chegassem aos ouvidos do grande público, preservada a identidade de seus compositores e superada a diluição da identidade criadora que sempre caracterizou as formas tradicionais da criação popular.
Que Noël esteja conosco, em nossos sambas, em nossos bares, neste final de semana e sempre, e nos possa ajudar a entender que a nossa missão não é mais do que isso: sintonizados com o nosso tempo, fazermos a ponte entre o que nos foi legado e o que a nós sobreviverá. Porque tudo estará perdido no dia em que um elo da cadeia se romper completamente. Que nos ajude, enfim, a entender, de uma vez por todas, a despeito de todos os hermanos vianas que teimam em nos confundir, que a originalidade da forma brasileira de estar e agir no mundo não está em outro lugar senão nessa privilegiada capacidade de promover dialeticamente o encontro e a comunicação (em seu mais forte sentido), a integração e a preservação, a criação e a continuidade. E que tudo mais não passa dos frutos abençoados desse ventre generoso.
E com a vossa licença, vou ali tomar uma gelada na Visconde de Abaeté, camisa aberta, ventre livre, chinelo nos pés, por entre as notas das calçadas musicais, assobiando “Vila Isabel veste luto...”
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Fernando para Otto*
Rio, 4 de Agosto de 1957.
Otto,
Confesso que sua carta me deixou meio irritado. Como você, talvez eu também esteja deprimido, e, por motivos óbvios – depressão esta cuja existência não lhe pode ocorrer, absorvido que você anda sempre com a sua própria. E os assuntos que você aborda são delicados – mais delicados que sua maneira de abordá-los. Em todo caso, vou tentar responder.
Me desculpe, mas não posso concordar com você em que deus seja apenas “Justiça Punitiva” e que “todo o sentimento de compaixão, de compassividade, de compreensão” seja “puramente demoníaco”. Evidente que eu sei o que você quer dizer, e é verdade que o Deus bonzinho, o Deus camarada, não existe. E eu não estou apelando para Ele, conforme você quis dizer. Nossa concepção da Justiça Divina difere muito, e creio neste ponto que estou mais próximo dos Evangelhos que você.
Para mim, Deus não funciona apenas no sentido negativo, “você vá para o diabo” - “você pode entrar”, porque “você fez o diabo” - e “você não fez nada”. Aí não pode escapar mais da parábola do publicano e do fariseuu – ainda que não façamos dela uma desculpa: não podemos escapar.
Quero dizer o seguinte: para mim, Deus não se limita a mandar para o diabo os que transgrediram a lei e a deixar entrar os que a respeitaram. Há algo mais: há a prática do bem, há o exercício deliberado da virtude – exercício voluntário, macerado e cheio de sacrifícios (e de aparentes contradições, que desencadeiam a contradição alheia). Assim: o critério de julgamento não será apenas negativo, condenando os que praticaram o mal e salvando os que não praticaram. Será afirmativo, pedindo algo mais: a prática do bem – que inclui, por exemplo, não julgar para não ser julgado; e isso é compaixão, compassividade, compreensão. Deus pode não tê-las, no sentido humano da palavra, mas exige que você tenha, por exemplo, para com meus problemas. (O que você, se tem, nunca demonstrou.) E isso exige amor – aqui chegamos na maior das vurtudes, que é a caridade. A que faltou ao fariseu para com o publicano e por isso esse saiu justificado, aquele não. O fariseu não era virtuoso? Não cumpria rigorosamente os mandamentos? E o publicano não era um bandalho que nem tinha coragem de entrar na igreja? Sem esse critério afirmativo que informa o julgamento de Deus, como você explica isso? E o Evangelho de hoje, oitavo domingo depois de Pentecostes? Eu também não explico, mas a minha intransigência para comigo eu não estendo aos outros, privando-os de compassividade, compaixão, compreensão. Quem sou eu para dizer como Deus deve admitir ou expulsar aqueles que vão bater à Sua porta?
E veja a incoerência: preocupado demais em saber como o diabo procede e com suas artimanhas, se esquece que não basta escapar dele para entrar no céu. Você, dentro de sua vida arrumadinha aí em Bruxelas, junto de sua mulher e seus filhos, cercado de conforto espiritual de uma vida realizada e defendida do demônio, passa a ver a presença dele nos outros, como um meirinho anunciando a chegada do Grande Inquisidor. Mas só porque um crítico escreve contra o seu livro, imediatamente você o ofende, insulta, despeja sobre ele os mais indecentes xingamentos. (Neste particular eu não poderia estar com você, porque o Wilson Martins escreveu um excelente artigo sobre o meu livro... Sou suspeito, e eu não li o que ele escreveu sobre o seu.) Na minha opinião, a sua reação é muito pouco canônica, para quem se dispõe a anunciar a presença do demônio na vida dos outros.
Sejamos mais objetivos (coisa que você não foi): a que, exatamente, você se refere? Fala que lhe escreveram dizendo que eu “assento planos de estabelecer-me em bases novas, renunciando a todo o meu passado, corando quem sabe as amarras com o FS de até aqui” etc. E pergunta: “Será possível, fora do chamado caminho cristão, inventar um homem novo, tão novinho em folha?”
Para princípio de conversa, quem é esse missivista? Se eu tiver de “assentar planos” de alguma coisa, como ele diz, pode ficar tranqüilo que serei o primeiro a lhe comunicar. Se bem que não sei a que vem essa alusão. Ao meu desquite? Quanto a isso, não há nada que você não saiba, isto é, que a despeito de todo o me esforço para evitá-lo, tive de me conformar e ele está em vias de solução amigável, na medida do possível, dentro da cordata e bem sucedida solução. Tudo mais sobre esse assunto, não creio que você seja a pessoa mais indicada para julgá-lo, só agora se preocupando. E depois de um silência seu de dois anos, na espera em fiquei de uma palavra sua, sobre o que você diretamente já sabia que era o meu problema. O quê, agora? Aminha nova relação? Também não entendo bem a sua competência para me falar na “justiça punitiva de Deus” quanto a este assunto. Na próxima carta seja mais explícito. Não sei se nesse pretenso “estabelecimento de novas bases, etc.” parar a minha vida a que você se refere, e que de resto não existe, você está se referindo a isso. Se estiver, é estranhável também, não tendo você nunca demonstrado interesse pela gravidade que o problema representa para mim, como fizeram o Hélio, o Marco Aurélio Mattos, o Castejon Branco e outros amigos. E o problema é o mesmo cuja existência você já sabe, não havendo perspectiva de mudança.
Mais o quê? Meus filhos? Mas se você próprio reconhece que nunca se ineressou por eles senão à distância, genericamente, “na repercussão que tudo isso pode ter na vida deles”, “as crianças são muito sensíveis”, etc. (e nem ao menos se lembra que é padrinho de um deles), não tendo nunca manifestado um interesse mais direto em relação a eles.
Resta o cartório: quanto a este, é verdade que me demiti. Mas esse ponto você também já tinha conhecimento, pois há muitos anos eu lhe dizia que tinha a intenção de deixá-lo assim que tivesse ocasião – e a ocasião chegou. Como você vê, não “assentei plano” nenhum que você não soubesse. Resumindo: o desquite já era de seu conhecimento, minha nova relação passou a ser. A situação de meus filhos também. Porque de súbito, aí de Bruxelas, você se põe a me ameaçar com o demônio de maneira tão furibunda? Minha vida continua a mesma. Não é verdade que eu “ando sumido” (tenho ido ao Pelicano toda santa noite) nem que “não queira ver ninguém”, ou que esteja entregue à “renovação de minha vida”. Você anda mal informado. Não há renovação nenhuma, senão aquela em que sempre me empenhei, e que por fraqueza tenho colhido tão poucos resultados. Fraqueza que você não leva em conta nos que confiam na Misericórdia Divina, mas que Deus talvez leve – na minha suspeita opinião, pelo menos.
Mudando de assunto, fiquei satisfeito de saber que vocês estão devidamente instalados – e que você já comprou cigarros. Aqui corriam notícias, via Ibrahim Sued, de que você estava desgostoso em Bruxelas. Cheguei a pensar em escrever uma peça chamada “OTTO DESGOSTOSO EM BRUXELAS”. Por falar nisso, estou escrevendo uma peça divertissement. (En passant: sua máquina está precisando de uma fita nova. E quando fechar o envelope, cuidado para não colar o papel, de si já meio ordinário, e azul, como a cor da fita.)
Nosso tempo é evidente que acabou. Mas quando você voltar encontrará tudo no mesmo, ou tudo mudado – como no fundo é a triste realidade dos que voltam. Você voltará.
Afinal, ficou amigão do nosso bonzo Juarez Távora? Crises e mais crises – mas de política, mesmo, aqui não há novidade: tudo na mesma. Hoje é dia 4 de agosto, passei por acaso na Rua Toneleros, rezei uma Ave-Maria pelo major Vaz, que morreu mesmo, você lembra? E continua morto. Fui convidado para dirigir a Revista da Semana, não aceitei, indiquei o Ferreira Gullar para secretário, não agüentou o puxado uma semana, saiu. O Diário Carioca em nova fase, Rosário Fusco de crítico. Livro do Dalton Trevisan aqui comigo para entrega definitiva à editora, contos definitivos. Melhorou pra burro, selecionou, cortou, ajeitou. Não me lembro o que te falei sobre o teu “Boca do Inferno”, mas escreva romance. Encontrei Padre Agnaldo no Mosteiro de São Bento (todos lá perguntam muito por você, leram seu livro, Dom Basílio especialmente, Dom Marcos, Dom Justino, comentários apaixonados). Disse (P. Agnaldo) que seu pai ficou arrasado com o Boca, “logo o meu filho, um educador! Que concepção de infância!” Mas ele acabou gostando.
Vou escrever mais a você, serei mais noticioso. E pare com esse negóciod e demônio, que diabo! Depois de “La Part du Diable” do Denis de Rougemon, você não leu mais livro nenhum: “Tudo é o DEMÔNIO...” Não vem com essa! Tudo é Deus, seu capeta. O resto é que é o demônio – que não é nada, ou seja: é o NADA.
Otto, pelo amor de Deus, pense mais em Deus e menos no demônio. Saber que ele existe é tão pouco, melhor que não soubesse. Além das palavras rituais do batismo, sugiro o Sermão da Montanha.
E voltado ao assunto inicial, já tendo passado a minha irritação: não se preocupe, que não se mudou nada de fundamental em mim. Continuo o mesmo, tentando acabar com meus problemas, antes que eles acabem comigo. Você não me ajuda em nada, me ameaçando com a danação eterna. Ajudaria mais tentando entender minhas aflições e não projetando nelas as suas próprias. Afinal de contas, D. Marcos entende mais de demônio do que você, e não me falou nele nenhuma vez. Falou em Deus, que é palavra boa de se ouvir. Mas não um Deus que manda os outros para o diabo, que diz “misericórdia divina uma ova!” Outro Deus, aquele verdadeiro, que não abandona aqueles que não O abandonam. Eu não O abandono.
O livro das “Nove histórias em grupo de três” do Autran é realmente Dourado, ou seja, como se esperava muito bom, tem duas ou três histórias de primeira ordem. Falar nisso, chegou a ver o artigo do Tristão sobre meu livro? Cita você e o Hélio Pellegrini. Tenho estado com ele (Pellegrini), mas não no tom Juiz x Réu que você preconiza. Gostaria que seu tom fosse outro: “Me dê notícias suas. Como vai Elianinha? Já ficou mocinha? Não diga! É ótimo que você dê tanta assistência a ela, se mostre sempre participante, compreensivo, converse sempre com ela... E o desquite? É, realmente essas coisas são chatas, mas com a ajuda de Deus tudo há de terminar bem, você fez o que pôde, não fez? Ou quem sabe se pode fazer ainda alguma coisa? Em que eu posso te ajudar? Enfim, você não é nenhum louco, não está precisando de mim ocmo psiquiatra, deve ter lá suas razões, você sabe o que faz... E sua vida, sua literatura, sua solidão? Seu livro foi bem sucedido, agora é preciso partir para outro. Vai com calma, que a coisa vem. Enquanto isso você vai ganhando a vida com suas crônicas e tudo isso e claro como água, e é límpido como o céu, porque imundo é o que sai do homem não o que nele entra...” Assim é que eu gostaria que você falasse, Otto. Assim é que eu quero que seja a sua próxima carta. Estou cansado da linguagem de belzebu que você assume. Prefiro conversar com minha mãe aqui hospedada comigo e que está me chamando agora. Ela nunca me falou no demônio, mas vive me dando a benção desde menino, vive me falando em Deus.
Fecha a porta do inferno, e me escreva dando notícias de Helena-André-Bruno e de tudo, que responderei com celestial pontualidade.
Abraços a eles, a você, do seu amigo
Fernando
12/8/57 – Esta carta estava escrita há uma semana. Não mandei por falta de envelope. Vai agora, senão teria que escrever outra – que escreverei quando receber resposta sua. É toma lá, dá cá. E nada de novo aconteceu nesta semana. Senão esta coisa estranha e paradoxal: sua carta, afinal, me fez um grande bem... Depois explico. Outro abraço do
F.
*Carta de Fernando Sabino para Otto Lara Resende in Cartas na mesa, Rio de Janeiro: Record, 2002, pp. 187 e ss.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Otto por Nelson*
“Muita gente não entende o nome da minha peça. Sujeitos me perguntam, numa amarga perplexidade: '- Por que Otto Lara Resende?' Entendo o espanto, entendo o escândalo. Normalmente só os defuntos, e, ainda assim, só os defuntos monumentais é que entram na ficção. Mas o Otto está aí, escandalosamente vivo e contemporâneo. Nós podemos apalpá-lo, farejá-lo, e, até, pedir-lhe dinheiro emprestado.
Amigos e parentes perguntam ao próprio: 'Você brigou com o Nelson?' Assim é o mundo. Importente de sentimento, o ser humano precisa ver o desamor por toda parte. Ninguém admite que o nome de minha peça é uma homenagem, apenas uma homenagem, uma cândida, límpida, inequívoca homenagem. Sou amigo do Otto. Gosto dele e abro-lhe as portas da ficção. E todo mundo sabe, desde Bulhão Pato, que a ficção é altamente promocional. Entrar numa ópera, num romance, num drama, ou numa simples burleta de Freyre Júnior, mesmo de carregador de bandeja, já vale a pena. Seu nome está nos anúncios, nos cartazes e na fachada do teatro.
Mas a simples amizade não é toda a explicação do título. Tudo, na personalidade do Otto, é um convite à ficção. Ele pertence menos à vida real e muito mais ao romance, à poesia, ao puro e irresponsável folclore. É ume scândal vê-lo no Procuradoria do Estado, a redigir pareceres sobre esgotos e padarias. O justo seria encontrá-lo impresso, em alguma página de Flaubert, ou mesmo de Eça ou, ainda, de Dickens.
Outra coisa que empurra o Otto para a ficção: a angústia. Não se pode imaginar sujeito mais sofrido. As suas depressões são, hoje, famosas, consagradas e, digo mais, invejadas. Explico: 'invejadas' porqe o herói, o santo, o gênio ou o profeta do nosso tempo há de ser neurótico. O sujeito se angustia porque se opõe a um mundo que fracassou. Por vezes o Otto aparece, na Procuradoria, macerado, como um Werther.
Outro elemento folclórico do amigo: a asma. Alguém dirá que a asma não passa de um problema respiratório. Assim pensa também a medicina oficial, com sua miopia crassa e ignara. Mas no caso do Otto, é diferente. Ele sofre de uma asma ética. Quando os brônquios do meu amigo começam a chiar, sabemos que o mundo vai mal. Se cai uma bomba em Hiroshima; ou se há um bloqueio; ou se a China invade a Índia; ou se o vizinho espanca o caçula – lá começa a asma do Otto. É curioso. Diante da iniqüidade, outros saem por aí derrubando bastilhas, decapitando Marias Antonietas, varrendo impérios. O Otto não, o Otto reage com a dispnéia. Mas uma coisa vos digo: no dia em que o homem amar o próximo como a si mesmo, Otto ficará eternamente bom da asma.
É ponto pacífico que muitos dividam de sua existência física. E quando ele se diz Otto Lara Resende, e como tal se apresenta, o sujeito fica entre duas hipóteses – ou da impostura, ou da piada. O seu mito está montado. Outro dia, ele apareceu na TV. As senhoras tomaram um susto. Era como se,d e repente, lá aparecesse a cobra-grande ou qualquer outra figura do folclore fluvial – de sapato, paletó e gravata.
Eu sei, por fim, que não faltará quem denuncie este depoimento como uma 'gozação'. E daí? Só os imbecis não resistem ao ridículo, só os imbecis não sobrevivem à piada. O verdadeiro amigo tem uma ferocidade jocunda e salubérrima. Eu sou esse amigo que não pode ver o Otto sem querer metê-lo numa anedota. Ele próprio faz auto-piadas. Quando soube que ia ser título da minha peça, cochichou para mim, com o olho rútilo: Eu pago o gás néon! Eu pago o gás néon! E assim ele selou a sua radiante simplicidade, com o título da minha peça – Otto Lara Resende.”
*excerto de entrevista de Nelson Rodrigues a Carlos Alberto Barreto, publicada originalmente em O Cruzeiro, edição de 22/12/1962. Apud Arquivinho nº 3 – Otto Lara Resende: Retratos escritos, Ed. Bem-te-vi, 2006
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Vida e Poesia
Vinícius de Moraes
Hoje eu acordei possuído da maior ternura por Otto Lara Resende. Otto tem sido para mim, ao longo de vinte anos de convívio, um amigo exemplar; daqueles que a pessoa não sabe bem o que fez para merecer. Mais habituado a dar do que receber, Otto usualmente se omite na relação, recorrendo à facilidade verbal e ao gênio que tem para a frase cunhada como uma espécie de cortina de palavras protetora de seu amor, que pratica à socapa, com malícia e disfarce bem mineiros.
Mas que é um grande amoroso, disto não haja dúvida. E daí o segredo da imantação que exerce sobre seus amigos, que acabam todos escravizados à sua escravidão. Eu dificilmente posso passar mais de dois dias sem lhe telefonar. Quando estou no estrangeiro, é das ausências que mais pesam. Quantas vezes já não disse, a perambular trist e sozinho pelos lugares mais esdrúxulos, o que não daria para ouvir, súbito, a meu lado, o seus passo curto apressado e suas palavras bem escandidas; ou o refrão que em geral canta, com afetação gutural, quando me vê e que passa a persegui-lo horas a fio.
Professor de ciências naturais
É o Vinícius de Moraes
Há amigos a quem querer bem se vai tornando, à medida, um sacrifício, de tal modo eles “bagunçam o nosso coreto”, como se diz por aí. Amigos que impõem a própria desarmonia, violentam a nossa intimidade, nos agridem quando bebem e estão sempre a nos pedir prestações de contas. São os tais que a gente gostaria de fazer “virar fada” quando se entra numa boate, porque o mínimo que pode acontecer é se brigar com a emsa ao lado. Eles têm o dom de provocar o assunto mais explosico para o nosso convidado, ou assumem o direito de achar que as moças que estão conosco adoram ouvir palavrões ou ser manuseadas. E quando já chatearam ao máximo, partem ofendidos, sem pagar a conta, depois de nos fazer ver que estamos ficando “muito importantes” ou “não somos mais o mesmo”.
Outros, pelo contrário, como o Otto, parecem estar sempre esticando uma mãozinha disfarçada para nos ajudar a carregar a nossa cruz. São seres de bons fluidos, que, quando a gente encontra, o dia melhora. Eles têm o dom da palavra certa no momento certo, e mesmo que tomem o maior dos pileques jamais se tornarão motivo de desarmonia. São seres respeitadores ao máximo da liberdade alheia, da “verdade” alheia e da mulher alheia. E não é outra a razão pela qual Otto Lara Resende tem tantos “deslumbrados”, dos quais o mais conhecido é sem dúvida seu maior “promotor”, o teatrólogo Nelson Rodrigues.
Eu, às vezes, conhecendo-lhes os horários, sigo-o em pensamento pela cidade – de casa para a Procuradoria, da Procuradoria para o jornal, do jornal para casa onde entra tarde e cansado. Como numa panorâmica tirada do alto, vejo-o atravessar a Avenida Rio Branco, acompanhado de um ou outro amigo jornalista, a discutir editoriais em função do momento político: um homem sempre “por dentro” de todos os assuntos, graças à confiança de que desfruta entre os poderosos e da qual nunca tira proveito próprio. Lá vai ele em seu passinho ligeiro, uma figura meio gauche na qual os ternos não assentam bem , as calças perdem rapidamente o vinco e as pontas do colarinho viram. Usa o olhar baixo, preso ao bico dos sapatos e não gosta de demorá-lo demasiado sobre o do seu interlocutor: mas não, como em seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, por tristeza, orgulho e alheamento do que na vida é porosidade e comunicação – e que conferem à poesia do grande itabirano a sua singular dignidade; antes por medo de pôr-se a gritar de repente que já não agüenta mais de tanto amar os outros e não sabe como dar o seu amor, que transforma em serviços prestados: um empreguinho aqui, uma intervenção junto a um banco ali; um pronunciamento bem escrito para um líder de letras canhestras; uma visita oportuna a um casal amigo em vias de rompimento; uma paciência inesgotável para as confissões e explicações de temperamento dos que andam perdidos nos labirintos da personalidade. Otto chega ao auge – o que para mim é motivo da maior admiração e iveja – de levar, mesmo sem ineresse, ao futebol no Maracanã, em pleno verão carioca, seus filhos André e Bruno: feito para mim só comparável à travessia do Kon-Tiki.
Ótimo marido, ótimo filho, ótimo pai, ótimo amigo, ótimo profissional, ótimo tudo – que mais dizer dessa no entanto misteriosíssima figura chamada Otto Lara Resende, ou melhor, o agente 001? Em fase de “cigarra”, como agora, nunca ninguém, poderá dizer tê-lo ouvido cantar em sebe alheia.mas ninguém tampouco poderá jamais saber o que está realmente planejando. Influindo no problema da sucessão presidencial? Bem possível. Nos destinos da ONU? Quase certo. O que vai fazer, por exemplo, quando, em meio à conversa mais animada, ausenta-se subitamente e volta meia hora depois, de cara esperta? O que fabrica no banheiro, onde passa a maior parte do seu dia?
Estará ele em vias de descobrir o filtro da eterna amizade?
(in Vinícius de Moraes - Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1988, pp. )
Hoje eu acordei possuído da maior ternura por Otto Lara Resende. Otto tem sido para mim, ao longo de vinte anos de convívio, um amigo exemplar; daqueles que a pessoa não sabe bem o que fez para merecer. Mais habituado a dar do que receber, Otto usualmente se omite na relação, recorrendo à facilidade verbal e ao gênio que tem para a frase cunhada como uma espécie de cortina de palavras protetora de seu amor, que pratica à socapa, com malícia e disfarce bem mineiros.
Mas que é um grande amoroso, disto não haja dúvida. E daí o segredo da imantação que exerce sobre seus amigos, que acabam todos escravizados à sua escravidão. Eu dificilmente posso passar mais de dois dias sem lhe telefonar. Quando estou no estrangeiro, é das ausências que mais pesam. Quantas vezes já não disse, a perambular trist e sozinho pelos lugares mais esdrúxulos, o que não daria para ouvir, súbito, a meu lado, o seus passo curto apressado e suas palavras bem escandidas; ou o refrão que em geral canta, com afetação gutural, quando me vê e que passa a persegui-lo horas a fio.
Professor de ciências naturais
É o Vinícius de Moraes
Há amigos a quem querer bem se vai tornando, à medida, um sacrifício, de tal modo eles “bagunçam o nosso coreto”, como se diz por aí. Amigos que impõem a própria desarmonia, violentam a nossa intimidade, nos agridem quando bebem e estão sempre a nos pedir prestações de contas. São os tais que a gente gostaria de fazer “virar fada” quando se entra numa boate, porque o mínimo que pode acontecer é se brigar com a emsa ao lado. Eles têm o dom de provocar o assunto mais explosico para o nosso convidado, ou assumem o direito de achar que as moças que estão conosco adoram ouvir palavrões ou ser manuseadas. E quando já chatearam ao máximo, partem ofendidos, sem pagar a conta, depois de nos fazer ver que estamos ficando “muito importantes” ou “não somos mais o mesmo”.
Outros, pelo contrário, como o Otto, parecem estar sempre esticando uma mãozinha disfarçada para nos ajudar a carregar a nossa cruz. São seres de bons fluidos, que, quando a gente encontra, o dia melhora. Eles têm o dom da palavra certa no momento certo, e mesmo que tomem o maior dos pileques jamais se tornarão motivo de desarmonia. São seres respeitadores ao máximo da liberdade alheia, da “verdade” alheia e da mulher alheia. E não é outra a razão pela qual Otto Lara Resende tem tantos “deslumbrados”, dos quais o mais conhecido é sem dúvida seu maior “promotor”, o teatrólogo Nelson Rodrigues.
Eu, às vezes, conhecendo-lhes os horários, sigo-o em pensamento pela cidade – de casa para a Procuradoria, da Procuradoria para o jornal, do jornal para casa onde entra tarde e cansado. Como numa panorâmica tirada do alto, vejo-o atravessar a Avenida Rio Branco, acompanhado de um ou outro amigo jornalista, a discutir editoriais em função do momento político: um homem sempre “por dentro” de todos os assuntos, graças à confiança de que desfruta entre os poderosos e da qual nunca tira proveito próprio. Lá vai ele em seu passinho ligeiro, uma figura meio gauche na qual os ternos não assentam bem , as calças perdem rapidamente o vinco e as pontas do colarinho viram. Usa o olhar baixo, preso ao bico dos sapatos e não gosta de demorá-lo demasiado sobre o do seu interlocutor: mas não, como em seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, por tristeza, orgulho e alheamento do que na vida é porosidade e comunicação – e que conferem à poesia do grande itabirano a sua singular dignidade; antes por medo de pôr-se a gritar de repente que já não agüenta mais de tanto amar os outros e não sabe como dar o seu amor, que transforma em serviços prestados: um empreguinho aqui, uma intervenção junto a um banco ali; um pronunciamento bem escrito para um líder de letras canhestras; uma visita oportuna a um casal amigo em vias de rompimento; uma paciência inesgotável para as confissões e explicações de temperamento dos que andam perdidos nos labirintos da personalidade. Otto chega ao auge – o que para mim é motivo da maior admiração e iveja – de levar, mesmo sem ineresse, ao futebol no Maracanã, em pleno verão carioca, seus filhos André e Bruno: feito para mim só comparável à travessia do Kon-Tiki.
Ótimo marido, ótimo filho, ótimo pai, ótimo amigo, ótimo profissional, ótimo tudo – que mais dizer dessa no entanto misteriosíssima figura chamada Otto Lara Resende, ou melhor, o agente 001? Em fase de “cigarra”, como agora, nunca ninguém, poderá dizer tê-lo ouvido cantar em sebe alheia.mas ninguém tampouco poderá jamais saber o que está realmente planejando. Influindo no problema da sucessão presidencial? Bem possível. Nos destinos da ONU? Quase certo. O que vai fazer, por exemplo, quando, em meio à conversa mais animada, ausenta-se subitamente e volta meia hora depois, de cara esperta? O que fabrica no banheiro, onde passa a maior parte do seu dia?
Estará ele em vias de descobrir o filtro da eterna amizade?
(in Vinícius de Moraes - Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1988, pp. )
terça-feira, 24 de abril de 2007
Semana Otto Lara Resende
No próximo dia 1º de maio, completam-se oitenta e cinco anos do nascimento desse gigante brasileiro chamado Otto Lara Resende. Esta página dedica-se modestamente, desde sua sabida pequenez, de hoje até a próxima terça-feira, a celebrar sua memória, sua obra, sua significação e seu legado. Palavras melhores e mais autorizadas que as minhas ocuparão a coluna nos próximos dias. De toda sorte, achei não ser de todo má a idéia de um breve intróito, a despeito da ingratidão da tarefa: escrever sobre quem, talvez acima de qualquer outro, tenha cultivado, mais que um zelo, um verdadeiro pudor no trato da palavra escrita.
Não penso ser o caso, exatamente, de uma apresentação. O escritor é uma reminiscência ainda bem presente nos meios leitores, embora tenda a esvanecer-se para as gerações posteriores à minha, que não desfrutaram o privilégio de conviver com a sua presença de jornalista, viva, atuante. Porque se o personagem Otto Lara Resende foi, já nas minhas primeiras leituras, absolutamente presente, íntimo, corriqueiro até, o encontro com seu texto veio bem mais tarde, através de sua coluna diária naquele gracioso ano e meio, talvez, de sua passagem pela Folha de S. Paulo. Parece-me, en passant, que o único acerto, com “A” maiúsculo, do jornal nestes vinte e sete anos que o venho lendo resignadamente, de má-vontade. Mas não era assim naquele 1991, 1992. Como em nenhuma ocasião mais, eu ansiava pelo diário a cada manhã, acordava mais cedo no domingo; despistava, como criança, lendo as outras colunas, só para aumentar a expectativa; até não ter mais jeito e me botar a sorver as suas palavras que soavam francas, precisas e tamanhamente inspiradas, como jamais pude supor possível numa coluna de jornal.
Coisa, hoje, difícil de explicar; difícil mesmo de acreditar – até para mim! Para mim que aprendi a ler e, sobretudo, aprendi o prazer da leitura através de autores e textos escritos exatamente para jornal: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, o Drummond cronista, o quarteto absoluto dos primeiros números da impagável coleção “Para gostar de ler”; depois Antônio Maria, Manuel Bandeira, Vinícius, João do Rio, Lima Barreto, e todos mais que eu fosse descobrindo dominadores dessa arte magistral de cerzir retalhos de poesia no pano roto da vida cotidiana estampada nos jornais. Mas desses todos não pude, com poucas exceções, saborear o texto vivo, quente, pulsante, que é o encantamento mais próprio da crônica. Otto Lara mesmo tenha talvez dado a melhor definição do fenômeno, ao comparar o texto de jornal a uma estação ferroviária, após a passagem do trem: sem nenhum interesse mais. É certo, contudo, que muitíssima literatura sobrevive nas crônicas de um Braga ou de um Barreto, setenta, noventa anos após terem sido escritas, de maneira que não se possa efetivamente falar em desinteresse: antes, talvez, a melancolia de quem olha uma estrela sabendo-a não mais ali há tantos milhares de anos...
Pode soar exagerado, mas havia um poder oculto naquelas pouquíssimas linhas diárias, capazes de criar uma dependência que desenvolvi à semelhança do que já confessou a mana Mariana Blanc em relação aos bons tempos de Luís Fernando Veríssimo no Globo. Descontada, pois, a habitual boutade do mestre, a atualidade, o “frescor” dos textos diariamente desovados, podem ter jogado a seu favor para explicar a fascinação que exerciam sobre todo um contingente de leitores (e sobretudo leitoras!) já um tanto desacostumados da presença de grandes cronistas, naquele início dos 90, nos periódicos mais destacados. Mas outra explicação ainda, certo mais ousada, me parece arriscável. A pena do grande escritor pode ter, de certa forma, pressentido o caráter quase testamentário daquela última ocupação. E revestida da extraordinária força brotada de um irreproduzível amálgama de sabedoria, competência e urgência finais, aquela derradeira fase possa, conscientemente ou não, ter encenado o epílogo possível à altura do seu espírito e de sua presença incomparáveis.
Tanto mais haveria para se dizer. Mas há quem melhor o faça: com vocês, Otto Lara Resende.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Mandavy kyvy kyvy'i
Xeramõi João da Silva Verá Miri
Então, meus netinhos...
Estas são as palavras transmitidas a nós por Nhanderu Papá, nosso Primeiro Pai. Nhanderu Papá, ao gerar o mundo, já previa tudo o que ia acontecer conosco. E isto vocês não esqueceram. Sinto uma forte emoção em minha alma divina. Eu já tenho muita idade. Por isto vou explicar e quero que vocês me escutem.
Este canto que cantamos ilumina nossos primeiros passos na vida. O significado desses cantos vocês não sabem ainda, meus netinhos. Nhanderu Papá, quando chegou à Terra, desejou que o canto ilumine a nossa vida. Nosso Pai criou a Terra e nela vocês podem brincar e cantar. É o que Ele deseja. Muitas coisas já foram esquecidas. Mas é assim, meus netinhos, o que vocês transmitem me faz lembrar muito. Por isso eu vou falar agora.
Deus ensinou as crianças a brincar. Nossos avôs e avós, com sua sabedoria, ensinaram a brincadeira a todos os seus filhos.Todas as crianças, de todas as idades e tamanhos, brincavam em nossa Terra Sagrada. Brincavam inspirados pela sabedoria divina. Cresciam inspiradas na sabedoria divina. Cresciam bonitas, fortalecidas e iluminadas pela Verdade e alcançavam o Ser Sagrado.
Hoje vivemos uma vida diferente do passado. Vou ensinar para vocês os cantos que todos cantavam antigamente quando brincavam. Todas as aldeias vão agora ouvir estes cantos. Todos vão saber como era o nosso canto. Vão se perguntar: isto era a verdade ou não era? Todos vão saber que esta é a nossa verdade. Vou transmitir para todos vocês para todas as aldeias, nossos parentes no centro da Terra, no Paraguai, todos os que vivem na Terra vão escutar. É para isto que estamos registrando esses cantos. Nossos parentes que estão além do oceano também vão escutar. Ao ouvir estes cantos, cada um se lembrará de nossas tradições e ensinará seus filhos a brincar novamente.
Deus ensinou a fazer as brincadeiras infantis. E as crianças se colocavam uma ao lado da outra, sentadas, para receber os ensinamentos. Andando de um lado para o outro, em frente às crianças, um velho sábio ensinava as crianças a cantar e a brincar. Ele cantava assim:
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy é um bichinho, um besourinho que costuma fazer um buraquinho na parede , próximo ao chão. As meninas cantavam e dançavam em volta do lugar onde os bichinhos ficam. Em seguida, as meninas sopravam dentro do buraquinho até o bichinho sair. Pegavam o bichinho e deixavam que ele mordesse o bico do seio. E assim elas se fortaleciam. Depois, o bichinho era deixado novamente em sua casa. Isto era feito para que elas tivessem muito leite quando os seus filhos nascessem. Elas faziam isto com muito respeito e acreditando nas palavras ensinadas por Nhanderu. Elas então ficavam alegres e cantavam assim para reverenciar Nhanderu:
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua
Assim nossos avós ensinavam a cantar. Para que se dizia 'Ero Takua'? Para nossas meninas se lebrarem de Nhanderu quando crescerem e se lembrarem de tocar o bastão takuapu na Casa da Reza.
Estas coisas vocês não sabem mais, meus netinhos. Antigamente nossos avós praticavam estes cantos e alcançavam a Terra Sem Mal impulsionados pelo vento sagrado. Hoje nós estamos aqui procurando lembrar. Isto eu sinto em meu coração. Eu vivo sentindo isto em meu coração. Vocês cantam e se lembram de Nhanderu e da trajetória de Nhamandu, nosso Deus Sol. Quando Ele chega, toda nossa Nação se levanta.
Assim nós recebemos a divindade, meus netinhos.
Xeramõi João da Silva Verá Miri, 92 anos, é cacique e pajé Guarani Mbya, da Aldeia Sapukai, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Depoimento gravado em idioma Guarani no esplendoroso álbum Ñande Arandu Pyguá – Memória viva Guarani, que se pode conhecer aqui. A tradução é de Marcos dos Santos Tupã
Então, meus netinhos...
Estas são as palavras transmitidas a nós por Nhanderu Papá, nosso Primeiro Pai. Nhanderu Papá, ao gerar o mundo, já previa tudo o que ia acontecer conosco. E isto vocês não esqueceram. Sinto uma forte emoção em minha alma divina. Eu já tenho muita idade. Por isto vou explicar e quero que vocês me escutem.
Este canto que cantamos ilumina nossos primeiros passos na vida. O significado desses cantos vocês não sabem ainda, meus netinhos. Nhanderu Papá, quando chegou à Terra, desejou que o canto ilumine a nossa vida. Nosso Pai criou a Terra e nela vocês podem brincar e cantar. É o que Ele deseja. Muitas coisas já foram esquecidas. Mas é assim, meus netinhos, o que vocês transmitem me faz lembrar muito. Por isso eu vou falar agora.
Deus ensinou as crianças a brincar. Nossos avôs e avós, com sua sabedoria, ensinaram a brincadeira a todos os seus filhos.Todas as crianças, de todas as idades e tamanhos, brincavam em nossa Terra Sagrada. Brincavam inspirados pela sabedoria divina. Cresciam inspiradas na sabedoria divina. Cresciam bonitas, fortalecidas e iluminadas pela Verdade e alcançavam o Ser Sagrado.
Hoje vivemos uma vida diferente do passado. Vou ensinar para vocês os cantos que todos cantavam antigamente quando brincavam. Todas as aldeias vão agora ouvir estes cantos. Todos vão saber como era o nosso canto. Vão se perguntar: isto era a verdade ou não era? Todos vão saber que esta é a nossa verdade. Vou transmitir para todos vocês para todas as aldeias, nossos parentes no centro da Terra, no Paraguai, todos os que vivem na Terra vão escutar. É para isto que estamos registrando esses cantos. Nossos parentes que estão além do oceano também vão escutar. Ao ouvir estes cantos, cada um se lembrará de nossas tradições e ensinará seus filhos a brincar novamente.
Deus ensinou a fazer as brincadeiras infantis. E as crianças se colocavam uma ao lado da outra, sentadas, para receber os ensinamentos. Andando de um lado para o outro, em frente às crianças, um velho sábio ensinava as crianças a cantar e a brincar. Ele cantava assim:
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy kyvy kyvy'i
Mandavy é um bichinho, um besourinho que costuma fazer um buraquinho na parede , próximo ao chão. As meninas cantavam e dançavam em volta do lugar onde os bichinhos ficam. Em seguida, as meninas sopravam dentro do buraquinho até o bichinho sair. Pegavam o bichinho e deixavam que ele mordesse o bico do seio. E assim elas se fortaleciam. Depois, o bichinho era deixado novamente em sua casa. Isto era feito para que elas tivessem muito leite quando os seus filhos nascessem. Elas faziam isto com muito respeito e acreditando nas palavras ensinadas por Nhanderu. Elas então ficavam alegres e cantavam assim para reverenciar Nhanderu:
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori tori
Ero tori, ero tori
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua takua
Ero takua, ero takua
Assim nossos avós ensinavam a cantar. Para que se dizia 'Ero Takua'? Para nossas meninas se lebrarem de Nhanderu quando crescerem e se lembrarem de tocar o bastão takuapu na Casa da Reza.
Estas coisas vocês não sabem mais, meus netinhos. Antigamente nossos avós praticavam estes cantos e alcançavam a Terra Sem Mal impulsionados pelo vento sagrado. Hoje nós estamos aqui procurando lembrar. Isto eu sinto em meu coração. Eu vivo sentindo isto em meu coração. Vocês cantam e se lembram de Nhanderu e da trajetória de Nhamandu, nosso Deus Sol. Quando Ele chega, toda nossa Nação se levanta.
Assim nós recebemos a divindade, meus netinhos.
Xeramõi João da Silva Verá Miri, 92 anos, é cacique e pajé Guarani Mbya, da Aldeia Sapukai, Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Depoimento gravado em idioma Guarani no esplendoroso álbum Ñande Arandu Pyguá – Memória viva Guarani, que se pode conhecer aqui. A tradução é de Marcos dos Santos Tupã
segunda-feira, 16 de abril de 2007
A existência possível (cont.)
(PARTE II)
A sobrevivência da negatividade
Todo estabelecimento de uma forma verdadeira, de um modelo ideal a ser perseguido admite logicamente a possibilidade de uma determinada forma da existência vir a suprimir todas as negatividades da existência dada, visto que a forma dada nada mais é do que a forma ideal, descontadas as mazelas decorrentes da má condução circunstancial no presente da existência. Mesmo na seara do pensamento crítico, toda vez que um determinado estado de coisas é tido como o estágio final de um processo histórico, esta súbita ressurgência de um estado de coisas positivo (quer dizer: não negável) assume papel imobilizador do processo histórico de emancipação humana.
Assim como a classe burguesa foi a classe revolucionária da superação do antigo regime e passa a, apartir da consumação da revolução, engendrar instrumentos de conservação da nova ordem instaurada, da mesma forma o pensamento político de Hegel que foi instrumento crítico fundamental para a consolidação filosófica da revolução liberal, trasforma-se incontinenti em instrumento conservador do estado de coisas “legitimado” a partir da implementação da nova ordem sócio-econômica burguesa. O estágio final da evolução política do espírito absoluto prussiano engendrara uma ordem em que puderam se encontrar a perfeição da liberdade e igualdade formais, pela subsunção dos indivíduos livres à racionalidade do estado de direito. A condição miserável da classe proletária fica relegada a mera circunstância transitória até que se perfaça na prática a justiça idealmente representada pelo estado de direito e pelo livre mercado. Para superar a estagnação crítica do pensamento hegeliano (quando da identificação histórica do estado prussiano com a consumação da realidade engendrada pela razão) Marx teve que engendrar todo um esforço filosófico para a reintrodução de um elemento negador da ordem burguesa estabelecida: o proletariado e sua situação de eterno perdedor no jogo do capitalismo. Precisou, portanto, demonstrar que o funcionamento das estruturas da sociedade capitalista não levariam, por seu aprimoramento, à superação da condição historicamente desfavorável do proletariado, mas, muito ao contrário, tenderia a agravá-la; e que, conseqüentemente, a negação dessa condição só seria possível pela negação da estrutura ela mesma.
A parir de então, o pensamento crítico pôde voltar-se à negação dos fundamentos do modo capitalista de produção e organização social. E não tardou a deparar-se com novos desafios, quando as revoluções nacionais começam a abolir as formas de apropriação privada da riqueza, mas variadas mazelas da vida social não desaparecem concomitantemente. Da mesma forma, então, a matriz de um pensamento que tornou possível a formulação filosófica da abolição do modo capitalista de produção passa a ter função conservadora, anti-crítica, quando vem considerar que as negatividades sobreviventes nas várias experiências do chamado socialismo real foram decorrentes de desvios pontuais na “correta” aplicação do modelo formulado! Quando esse pensamento, portanto, perde a capacidade de compreender que a substituição da estrutura capitalista pelo socialismo de estado engendra ela mesma novas negatividades específicas, novas mazelas estruturais (entre as quais pode se destacar a falta de liberdade, a dificuldade na preservação e expressão da singularidade subjetiva etc.), estanca novamente na sua tarefa de construir uma outra existência possível.
Dito assim, por outro modo, sempre que o pensamento abandona o criticismo que busca a negação de uma forma dada da existência pelo cotejamento com uma outra existência racionalmente possível e adota um modelo, um parâmetro específico, um ideal qualquer que seja está renunciando inapelavelmente a ser um instrumento transformador da realidade dada, rumo a uma outra forma possível. Quais os parâmetros, pois, para a razão identificar as negatividades nas formas presentes da existência? O parâmetro é sempre o da outra existência possível! Há alguma liberdade na forma presente da existência social, mas há uma outra liberdade racionalmente dimensionável? Há bons ganhos numa determinada forma social instaurada, mas é possível conceber racionalmente uma outra forma onde as mazelas presentes não estejam intrinsecamente atreladas à estrutura desta forma presente?
Não seríamos tolos em negar que no âmbito estrito de uma dada forma social são possíveis graus diferenciados de liberdades, igualdades, possibilidades etc. e que o atingimento desses máximos possíveis nos limites estruturais definíveis de uma forma dada da existência depende do padrão de eficiência do gerenciamento dos mecanismos próprios inerentes ao modelo, vale dizer, que a correção de desvios, a adequação gerencial propiciará ganhos na comparação entre esse máximo possível diagnosticado e a situação circunstanciadamente considerada. Este não é o problema. A eficiência gerencial não é má em si mesma, pelo contrário. Só não podemos, em nome deste processo menor que representa a otimização das condições presentes em vista a um máximo que se inscreve no limite daquela estrutura abrirmos mão do processo maior e mais ambicioso de ampliação destes próprios limites! Ou seja, nem sempre é preciso derrubar toda uma estrutura para se obter um ganho na supressão das mazelas da vida, mas há que se ter em mente que este ganho geralmente não ultrapassa o caráter quantitativo. Os ganhos qualitativos implicam na negação de toda uma trama de estruturas que opera no sentido da construção daquele limite referido, ou acacianamente, o limite estrutural.
Dado este ponto de vista, nenhuma estrutura do mundo presente, nenhuma forma de organização, nenhum modelo, nenhum valor político ou ideologia é imune ao pensamento crítico, pois esse não se limita à comparação das formas presentes da existência aos limites reconhecido justamente a partir da aceitação apriorística da excelência dessas estruturas, valores, modelos etc. Ele vai além, denunciando extrinsecamente ao âmbito estreito das formas aceitas os limites que essas mesmas formas impingem à possibilidade de outra existência! Para o pensamento crítico, só a realização máxima da existência humana em seu universo infinito de possibilidades é parâmetro para a crítica racional. Por isso a dialética não cessa nunca, a negação permanece para sempre, enquanto não encontrarmos os termos derradeiros do desenvolvimento de todas as nossas capacidades. A negatividade permeará as formas dadas da existência sempre que à razão crítica for possível conceber uma forma superior, com limites mais dilargados para o exercício das potencialidades humanas.
Sempre que permanecer possível uma existência mais plena em liberdade, igualdade, justiça, conhecimento e todas as formas de realização humana, o pensamento crítico será o instrumento de superação das negatividades da existência presente. E como não nos é dado conhecer os limites dessa progressão, não nos é dado eleger de antemão o modelo ideal da existência humana possível. Compare-se, por exemplo, no conjunto de todo o conhecimento humano coletivo acumulado hoje e há 150 anos, quando muitos acreditavam ter a humanidade chegado ao ápice do domínio tecnológico e científico!!! Da mesmíssima forma como o pensamento hegeliano pôde enxergar no estado prussiano o ápice da realização da liberdade política e social...
A sobrevivência da negatividade
Todo estabelecimento de uma forma verdadeira, de um modelo ideal a ser perseguido admite logicamente a possibilidade de uma determinada forma da existência vir a suprimir todas as negatividades da existência dada, visto que a forma dada nada mais é do que a forma ideal, descontadas as mazelas decorrentes da má condução circunstancial no presente da existência. Mesmo na seara do pensamento crítico, toda vez que um determinado estado de coisas é tido como o estágio final de um processo histórico, esta súbita ressurgência de um estado de coisas positivo (quer dizer: não negável) assume papel imobilizador do processo histórico de emancipação humana.
Assim como a classe burguesa foi a classe revolucionária da superação do antigo regime e passa a, apartir da consumação da revolução, engendrar instrumentos de conservação da nova ordem instaurada, da mesma forma o pensamento político de Hegel que foi instrumento crítico fundamental para a consolidação filosófica da revolução liberal, trasforma-se incontinenti em instrumento conservador do estado de coisas “legitimado” a partir da implementação da nova ordem sócio-econômica burguesa. O estágio final da evolução política do espírito absoluto prussiano engendrara uma ordem em que puderam se encontrar a perfeição da liberdade e igualdade formais, pela subsunção dos indivíduos livres à racionalidade do estado de direito. A condição miserável da classe proletária fica relegada a mera circunstância transitória até que se perfaça na prática a justiça idealmente representada pelo estado de direito e pelo livre mercado. Para superar a estagnação crítica do pensamento hegeliano (quando da identificação histórica do estado prussiano com a consumação da realidade engendrada pela razão) Marx teve que engendrar todo um esforço filosófico para a reintrodução de um elemento negador da ordem burguesa estabelecida: o proletariado e sua situação de eterno perdedor no jogo do capitalismo. Precisou, portanto, demonstrar que o funcionamento das estruturas da sociedade capitalista não levariam, por seu aprimoramento, à superação da condição historicamente desfavorável do proletariado, mas, muito ao contrário, tenderia a agravá-la; e que, conseqüentemente, a negação dessa condição só seria possível pela negação da estrutura ela mesma.
A parir de então, o pensamento crítico pôde voltar-se à negação dos fundamentos do modo capitalista de produção e organização social. E não tardou a deparar-se com novos desafios, quando as revoluções nacionais começam a abolir as formas de apropriação privada da riqueza, mas variadas mazelas da vida social não desaparecem concomitantemente. Da mesma forma, então, a matriz de um pensamento que tornou possível a formulação filosófica da abolição do modo capitalista de produção passa a ter função conservadora, anti-crítica, quando vem considerar que as negatividades sobreviventes nas várias experiências do chamado socialismo real foram decorrentes de desvios pontuais na “correta” aplicação do modelo formulado! Quando esse pensamento, portanto, perde a capacidade de compreender que a substituição da estrutura capitalista pelo socialismo de estado engendra ela mesma novas negatividades específicas, novas mazelas estruturais (entre as quais pode se destacar a falta de liberdade, a dificuldade na preservação e expressão da singularidade subjetiva etc.), estanca novamente na sua tarefa de construir uma outra existência possível.
Dito assim, por outro modo, sempre que o pensamento abandona o criticismo que busca a negação de uma forma dada da existência pelo cotejamento com uma outra existência racionalmente possível e adota um modelo, um parâmetro específico, um ideal qualquer que seja está renunciando inapelavelmente a ser um instrumento transformador da realidade dada, rumo a uma outra forma possível. Quais os parâmetros, pois, para a razão identificar as negatividades nas formas presentes da existência? O parâmetro é sempre o da outra existência possível! Há alguma liberdade na forma presente da existência social, mas há uma outra liberdade racionalmente dimensionável? Há bons ganhos numa determinada forma social instaurada, mas é possível conceber racionalmente uma outra forma onde as mazelas presentes não estejam intrinsecamente atreladas à estrutura desta forma presente?
Não seríamos tolos em negar que no âmbito estrito de uma dada forma social são possíveis graus diferenciados de liberdades, igualdades, possibilidades etc. e que o atingimento desses máximos possíveis nos limites estruturais definíveis de uma forma dada da existência depende do padrão de eficiência do gerenciamento dos mecanismos próprios inerentes ao modelo, vale dizer, que a correção de desvios, a adequação gerencial propiciará ganhos na comparação entre esse máximo possível diagnosticado e a situação circunstanciadamente considerada. Este não é o problema. A eficiência gerencial não é má em si mesma, pelo contrário. Só não podemos, em nome deste processo menor que representa a otimização das condições presentes em vista a um máximo que se inscreve no limite daquela estrutura abrirmos mão do processo maior e mais ambicioso de ampliação destes próprios limites! Ou seja, nem sempre é preciso derrubar toda uma estrutura para se obter um ganho na supressão das mazelas da vida, mas há que se ter em mente que este ganho geralmente não ultrapassa o caráter quantitativo. Os ganhos qualitativos implicam na negação de toda uma trama de estruturas que opera no sentido da construção daquele limite referido, ou acacianamente, o limite estrutural.
Dado este ponto de vista, nenhuma estrutura do mundo presente, nenhuma forma de organização, nenhum modelo, nenhum valor político ou ideologia é imune ao pensamento crítico, pois esse não se limita à comparação das formas presentes da existência aos limites reconhecido justamente a partir da aceitação apriorística da excelência dessas estruturas, valores, modelos etc. Ele vai além, denunciando extrinsecamente ao âmbito estreito das formas aceitas os limites que essas mesmas formas impingem à possibilidade de outra existência! Para o pensamento crítico, só a realização máxima da existência humana em seu universo infinito de possibilidades é parâmetro para a crítica racional. Por isso a dialética não cessa nunca, a negação permanece para sempre, enquanto não encontrarmos os termos derradeiros do desenvolvimento de todas as nossas capacidades. A negatividade permeará as formas dadas da existência sempre que à razão crítica for possível conceber uma forma superior, com limites mais dilargados para o exercício das potencialidades humanas.
Sempre que permanecer possível uma existência mais plena em liberdade, igualdade, justiça, conhecimento e todas as formas de realização humana, o pensamento crítico será o instrumento de superação das negatividades da existência presente. E como não nos é dado conhecer os limites dessa progressão, não nos é dado eleger de antemão o modelo ideal da existência humana possível. Compare-se, por exemplo, no conjunto de todo o conhecimento humano coletivo acumulado hoje e há 150 anos, quando muitos acreditavam ter a humanidade chegado ao ápice do domínio tecnológico e científico!!! Da mesmíssima forma como o pensamento hegeliano pôde enxergar no estado prussiano o ápice da realização da liberdade política e social...
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Salvo das Águas
Paixão amazônica de Martin Strel, segundo Szegeri
Em meio a um turbilhão de decretos municipais infames, delírios de generais desprezíveis (risos diarréicos: ninguém mais tem medo de vocês, por mais que vociferem seus impropérios boçais), vitórias desclassificantes, manifestos em prol de meliantes rabinos, da morte mais uma vez ignorada de um grande baluarte do samba (salve Tio Hélio!), fui, qual um moisés tupiniquim à mercê do seu próprio fracasso, miraculosamente salvo das águas por um herói mítico vindo de uma terra fria e distante para resgatar minha esperança e minha fé.
Ele é esloveno, se chama Martin Strel. Já havia nadado interirinho o Danúbio de Vovó, o Mississipi de tanto sangue negro derramado, o Yangtzé chinês. Muitos pensaram que só estaria atrás de um novo recorde, do nome no tal livro, essas coisas desimportantíssimas que a modernidade vai criando para disfarçar o nada que campeia e nos traga. Mas não sabiam de nada. Não sabiam que ele precisava levar a termo a sua missão para me resgatar a mim, Fernando José Szegeri. Para cumprir o destino a que me faltaram a coragem ou a força. Fazendo a nado a travessia do Solimões-Amazonas, da nascente à foz e ainda além, Martin Strel, em sua própria Semana Santa, salvou minha alma da danação eterna.
Por que estranhas e misteriosas razões o seu destino estivesse tão absolutamente atrelado ao meu, como um cristo particular, não saberia dizer; e esses mistérios são mesmo insondáveis. Mas sei que ele se dispôs a fazer em meu lugar a travessia necessária a que sorrateiramente, ao longo da fugacidade dos anos, fui opondo as falsas urgências, as duvidosas prioridades. E para que a obra salvífica fosse completa, foi necessário que me dissesse, olhando nos olhos da alma (embora não desconfie disso): “Vou fazer por você! E não quero barco. Vou fazer porque tem que ser feito. Você sabe o que acontecerá se não for feito. E pra que nenhuma dúvida mais paire, vou fazer a nado. Sozinho”.
“Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado
com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões
e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista,
às vezes parecia assustador”.
Os ribeirinhos acompanharam a sua paixão com o encanto e a desconfiança dos amazônidas. Aquele jeito de dizer calando, os olhos caboclos perdidos nas imensidões de florestas e almas e encantarias. Eles o esperaram a cada estação de sua via crucis, acenando, acolhendo, admirando, desconfiando. Porque aparece mesmo por ali cada assombração... É de se desconfiar. Por mais que se esteja acostumado.
Martin Strel, acostumado aos grandes rios, começou nadando noventa quilômetros por dia, certo de sua força e sua determinação. Mas o Grande Rio não é de aceitar imposições. Na Amazônia, tudo tem seu ritmo próprio, ditado pelos humores dos ventos, pelo sono dos rios, pela disposição da Floresta. E como se seu propósito não fosse completo, moisés invertido, todas as pragas lhe foram enviadas. Para que pudesse nadar com os botos, o sol fê-lo de púrpura encarniçada. "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também". O canto da Iara lhe confundiu a mente e o seu chamado o fez nadar para o lado contrário, remanso da vida que engana e confunde. Singrou águas infestadas de piranhas e piratas. Teve dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu 12 quilos. As dores que castigavam seu corpo não o deixavam dormir. Perdeu-se, passou a noite sozinho na margem, foi devorado pelos mosquitos.
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens,
homem de dores, e experimentado nos sofrimenos;
e, como um de quem os homens escondiam o rosto,
era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
e as nossas dores levou sobre si;
e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões
e moído por causa das nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.
(Isaías, 53, 3-5)
Porque ele esteve onde eu não soube estar. Mesmo com a certeza de que ali era meu lugar, que minha era a jornada. Todos os medos ele tomou sobre si. Sozinho na margem no meio da noite infinda, perdido, desidratado, temendo as visagens e os animais, devorado pelos insetos, ele era eu. E comigo, todo os meus fantasmas. E nele eu tive compaixão de mim mesmo. Cirineu, quis lhe mover os braços, aliviar-lhe o peso das águas. Tive ímpetos de enxugar-lhe o rosto e tratar as feridas; abaixar e com carinho em seus ouvidos contar até dez, a única coisa que saberia dizer em esloveno, língua de meu avô.
"A 'linha de chegada' foi atingida anteontem.
Ontem, ele cumpriu uma 'prorrogação' até a capital do Pará...
'Meu médico falava comigo
e me ajudava a tentar pensar em outras coisas.
Só queria terminar tudo isso' ”
E não se contentou em chegar à foz do Rio Mar. Era preciso que fosse a Belém. Era preciso que fosse resgatado na amurada onde passei tantas tarde cozendo meu banzo em fogo de tacho, pra tirar o veneno. Adiando meu destino. Em Belém onde eu precisava estar, porque esta terra eu não mais quero e aqueloutra não me quer, ele me pôde novamente olhar nos olhos, exangue, para dizer: “Está vendo? Foi feito! Podia ser feito”. E mesmo humilhado, exilado – porque a salvação é um exílio e uma humilhação – pude enfim nele ser rebatizado. Era necessário que findasse sua jornada em Belém, como um cristo ás avessas. Salvo das águas como um moisés.
Nesta pureza reconquistada, triste, cabisbaixa, sigo de braçadas exaustas num turbilhão sem sentido, com o fio da esperança religado. Olhado com desconfiança; confuso. Confiante que minhas últimas palavras, lavadas nessa lânguida expiação, possam um dia ser içadas das águas com uma compaixão, senão merecida, conquistada. Só querendo terminar tudo isso.
“Pai, eles não sabem o que fazem...” Em esloveno. Como Vovô.
*Fonte dos destaques em itálico, entre aspas: Folha de S. Paulo, edições de 07 e 09 de abril de 2007 – transcrição integral nos comentários a este texto
Em meio a um turbilhão de decretos municipais infames, delírios de generais desprezíveis (risos diarréicos: ninguém mais tem medo de vocês, por mais que vociferem seus impropérios boçais), vitórias desclassificantes, manifestos em prol de meliantes rabinos, da morte mais uma vez ignorada de um grande baluarte do samba (salve Tio Hélio!), fui, qual um moisés tupiniquim à mercê do seu próprio fracasso, miraculosamente salvo das águas por um herói mítico vindo de uma terra fria e distante para resgatar minha esperança e minha fé.
Ele é esloveno, se chama Martin Strel. Já havia nadado interirinho o Danúbio de Vovó, o Mississipi de tanto sangue negro derramado, o Yangtzé chinês. Muitos pensaram que só estaria atrás de um novo recorde, do nome no tal livro, essas coisas desimportantíssimas que a modernidade vai criando para disfarçar o nada que campeia e nos traga. Mas não sabiam de nada. Não sabiam que ele precisava levar a termo a sua missão para me resgatar a mim, Fernando José Szegeri. Para cumprir o destino a que me faltaram a coragem ou a força. Fazendo a nado a travessia do Solimões-Amazonas, da nascente à foz e ainda além, Martin Strel, em sua própria Semana Santa, salvou minha alma da danação eterna.
Por que estranhas e misteriosas razões o seu destino estivesse tão absolutamente atrelado ao meu, como um cristo particular, não saberia dizer; e esses mistérios são mesmo insondáveis. Mas sei que ele se dispôs a fazer em meu lugar a travessia necessária a que sorrateiramente, ao longo da fugacidade dos anos, fui opondo as falsas urgências, as duvidosas prioridades. E para que a obra salvífica fosse completa, foi necessário que me dissesse, olhando nos olhos da alma (embora não desconfie disso): “Vou fazer por você! E não quero barco. Vou fazer porque tem que ser feito. Você sabe o que acontecerá se não for feito. E pra que nenhuma dúvida mais paire, vou fazer a nado. Sozinho”.
“Pelas comunidades ribeirinhas, era acompanhado
com encanto e desconfiança. Exausto, cheio de arranhões
e com uma máscara que só lhe deixava os olhos e a boca à vista,
às vezes parecia assustador”.
Os ribeirinhos acompanharam a sua paixão com o encanto e a desconfiança dos amazônidas. Aquele jeito de dizer calando, os olhos caboclos perdidos nas imensidões de florestas e almas e encantarias. Eles o esperaram a cada estação de sua via crucis, acenando, acolhendo, admirando, desconfiando. Porque aparece mesmo por ali cada assombração... É de se desconfiar. Por mais que se esteja acostumado.
Martin Strel, acostumado aos grandes rios, começou nadando noventa quilômetros por dia, certo de sua força e sua determinação. Mas o Grande Rio não é de aceitar imposições. Na Amazônia, tudo tem seu ritmo próprio, ditado pelos humores dos ventos, pelo sono dos rios, pela disposição da Floresta. E como se seu propósito não fosse completo, moisés invertido, todas as pragas lhe foram enviadas. Para que pudesse nadar com os botos, o sol fê-lo de púrpura encarniçada. "Acho que os animais passaram a me aceitar. Eu nadei com eles por um longo período, acho que começaram a pensar que eu era um deles também". O canto da Iara lhe confundiu a mente e o seu chamado o fez nadar para o lado contrário, remanso da vida que engana e confunde. Singrou águas infestadas de piranhas e piratas. Teve dores musculares, cãibras, escoriações, desidratação, pressão alta, insônia, diarréia, náuseas e infecção por amebas. Perdeu 12 quilos. As dores que castigavam seu corpo não o deixavam dormir. Perdeu-se, passou a noite sozinho na margem, foi devorado pelos mosquitos.
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens,
homem de dores, e experimentado nos sofrimenos;
e, como um de quem os homens escondiam o rosto,
era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
e as nossas dores levou sobre si;
e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões
e moído por causa das nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,
e pelas suas pisaduras fomos sarados.
(Isaías, 53, 3-5)
Porque ele esteve onde eu não soube estar. Mesmo com a certeza de que ali era meu lugar, que minha era a jornada. Todos os medos ele tomou sobre si. Sozinho na margem no meio da noite infinda, perdido, desidratado, temendo as visagens e os animais, devorado pelos insetos, ele era eu. E comigo, todo os meus fantasmas. E nele eu tive compaixão de mim mesmo. Cirineu, quis lhe mover os braços, aliviar-lhe o peso das águas. Tive ímpetos de enxugar-lhe o rosto e tratar as feridas; abaixar e com carinho em seus ouvidos contar até dez, a única coisa que saberia dizer em esloveno, língua de meu avô.
"A 'linha de chegada' foi atingida anteontem.
Ontem, ele cumpriu uma 'prorrogação' até a capital do Pará...
'Meu médico falava comigo
e me ajudava a tentar pensar em outras coisas.
Só queria terminar tudo isso' ”
E não se contentou em chegar à foz do Rio Mar. Era preciso que fosse a Belém. Era preciso que fosse resgatado na amurada onde passei tantas tarde cozendo meu banzo em fogo de tacho, pra tirar o veneno. Adiando meu destino. Em Belém onde eu precisava estar, porque esta terra eu não mais quero e aqueloutra não me quer, ele me pôde novamente olhar nos olhos, exangue, para dizer: “Está vendo? Foi feito! Podia ser feito”. E mesmo humilhado, exilado – porque a salvação é um exílio e uma humilhação – pude enfim nele ser rebatizado. Era necessário que findasse sua jornada em Belém, como um cristo ás avessas. Salvo das águas como um moisés.
Nesta pureza reconquistada, triste, cabisbaixa, sigo de braçadas exaustas num turbilhão sem sentido, com o fio da esperança religado. Olhado com desconfiança; confuso. Confiante que minhas últimas palavras, lavadas nessa lânguida expiação, possam um dia ser içadas das águas com uma compaixão, senão merecida, conquistada. Só querendo terminar tudo isso.
“Pai, eles não sabem o que fazem...” Em esloveno. Como Vovô.
*Fonte dos destaques em itálico, entre aspas: Folha de S. Paulo, edições de 07 e 09 de abril de 2007 – transcrição integral nos comentários a este texto
35 anos da Guerrilha do Araguaia
Lembram-se hoje os 35 anos da deflagração da luta armada na região do Araguaia, episódio heróico, exemplo de bravura, desprendimento e inconformismo, reprimido sangrentamente como poucos na história brasileira. A história da Guerrilha e seus heróis pode ser conhecida nesta página especial do Portal Veremelho.Que as lições desta página imemorial do passado recente do Brasil nos sirvam de estímulo e alerta para as lutas que não fazem cessar. Para que tenhamos consciência de nossa responsabilidade, dos desafios que ela nos impõe e dos riscos que necessariamente temos por ela de correr.
Mesmo que o último guerrilheiro na selva hoje caia
Bratará eternamente do chão do Araguaia
A esperança de um povo traçar seu destino
Vivam os Heróis do Povo Brasileiro!
Viva a Revolução!
Viva o Brasil!
segunda-feira, 9 de abril de 2007
Fim de feira
Não tenho vontade nem competência para me meter a historiador – sempre tenho, por sorte, o Velho Simas para me socorrer e corrigir - mas importa lembrar, para o que hoje venho dizer, que o costume de se comerciar nas ruas talvez seja tão antigo quanto a própria História. Desde os tempos imemoriais os relatos referentes às formas mais rudimentares do que posteriormente se convencionou chamar civilização dão conta da utilização da via pública, do caminho de passagem como local privilegiado para a atividade fundamental da troca de mercadorias, na forma de escambo ou com o uso do elemento monetário. Conhecidas por quase todas as civilizações da antigüidade, as feiras atravessaram os séculos, tendo representado importante papel quando do renascimento comercial e cultural experimentado pela Europa na chamada Baixa Idade Média.
No Novo Mundo, a tradição urbana do comércio ambulante remonta aos tempos dos povos pré-colombianos, sendo bastante conhecidos, desde o México até o Peru Inca, os chamados tianguis, feiras dos povoados indígenas. A esta forma autóctene expressiva e disseminada de comércio a céu aberto, periódico e móvel, somou-se a contribuição da cultura hispânica de forte influência árabe, dando origem à tradição das feiras tais como conhecemos, que se disseminaram já nos tempos coloniais e sobrevivem fortemente em muitas cidades latino-americanas.
Entre nós, as feiras livres sofreram ainda a infuência decisiva da cultura africana, para a qual os mercados urbanos representam talvez o elemento mais fundamental da sociabilidade, aglutinando o centro das práticas públicas mais expressivas, desde o comércio propriamente dito, até a política, administração da justiça, religião etc. Em toda a África Ocidental, os chamados “Senhores do Mercado” constituíram-se em figuras poderosas e temidas por seu grande poder e influência, muitas vezes assumindo dignidades reais. Talvez por isso a impressão tão forte de que esses mercados ao ar livre tenham assumido no Brasil papéis que vão muito além da troca de víveres e outros artigos. A presença no espaço do mercado livre de fortes elementos simbólicos ligados à intersubjetividade e ao exercício da mediação social (política, religiosa, artística etc.) certamente terá propiciado um notável incremento nas possibilidades de interações mais criativas, menos engessadas, com formas menos pré-definidas. Não é preciso dizer o quanto estas possibilidades estão em consonância com nossos traços culturais originariamente tão marcados pelo encontro e pela comunicação interpessoal, pela informalidade e espontaneidade de muitas relações sociais.
Em algumas localidades brasileiras, os espaços tradicionalmente ocupados por estas feiras foram se fixando, muitas vezes até se transformarem em pólos agregadores de núcleos urbanos incipientes. Assim foi, por exemplo, com a tradicionalíssima feira de Caruaru, anterior à própria cidade que acabou por crescer à sua volta. Fixas também são ou foram outras feiras conhecidas, como o Ver-o-Peso em Belém do Pará ou a extinta feira de Água dos Meninos, em Salvador, ambas surgidas como entrepostos portuários, nos locais de ligação fluvial/marítima às localidades próximas das respectivas capitais, provedoras de pescado e gêneros agrícolas em geral. No Sudeste, ganharam força as feiras periódicas, encontráveis na Capital de São Paulo, por exemplo, desde o século XVII. No Rio, encontrei registros que remontam aos setecentos, mas custo a crer que não sejam mais antigas. Já nos primórdios do século passado, de periódicas aos poucos foram se transformando também em móveis, assumindo a forma que tão bem conhecemos por estas nossas bandas.
Ó “laranxa”, freguêeeesa...
Na minha meninice, ir à feira era misto de diversão, aventura e dedicação. Diversão, é claro, pela profusão de cheiros e sons e cores, festa para os nossos sentidos ainda não afogados na superexposição áudio-visual banalizante das gerações seguintes. Havia brinquedo pra comprar: peão, espingardinha de rolha, marionete, carrinho de rolimã, estilingue, papagaio; fora os sazonais: balão de São João, confete, bisnaga d'água pro Carnaval... Havia a barraca do pastel, do caldo-de-cana e ainda os tabuleiros com aqueles refrescos coloridos (tinha um nome, meu Deus...) em garrafinhas plásticas em forma de Fusca, de motocicleta, avião, barco, cachorro, boneca. A barulheira era infernal, pregoeiros se digladiando na batalha dos preços (“baxô, baxô, baxô o agrião...”), cantadores (“cinco maçã me dá só dez/ cinco maçã me dá só dez”), os bordões conhecidos (óóóóóó laraaaanxa, freguêêêsaaaaa... Tem lima, tem pera e tem seleta!). Mas havia que se ter disposição, porque a feira não era mole, sobretudo para as crianças. Multidão se acotovelando, carrinho de feira passando no dedão, sombrinhas das velhas, sol escaldante na moringa ou (pior!) chuva, o percurso não era bolinho pra quem tinha menos que um metro e trinta! Tinha mãe que amarrava o filho com correia pra não se perder, o que era freqüente (mas sempre achava, porque todo mundo se conhecia, fregueses e feirantes). A minha morria de medo dos punguistas hábeis zanzando pelas gentes, porque as feiras sempre foram também redutos da malandragem, para descolar um troco no lero-lero, no carreto de sacola ou, por que não?, na gatunagem.
Final de feira, legumes baratos
Meninos mulatos enrolam nos trapos
Os restos do prato
Que o dia-a-dia deixou pelo chão
Epa, mais vale uma xepa na boca da gente
Que o corpo doído, faminto, doente
E o amor esquecido de um coração
Que alegria
Panela no fogo, barriga vazia!
Que coisa boa
Batata-baroa, chuchu, agrião...
Subiu ladeira, moleque sabido, menino feliz
E quem é que diz
No bolso furado não leva um trocado
Nem vale um tostão..
(A Xepa, samba-de-roda de Ruy Maurity)
Três décadas se passaram, mas a feira ainda é o reduto do apelido, da gozação despreocupada das convenções inventadas pelos colonizados de sempre: de uns tempos pra cá eu sou, indefectivelmente, o “Barba”; mas já fui “Barriga”... O negrão retinto da barraca do tomate é “Alemão” e o banguela do caju é “mil e um”, mas já foi “Lazaroni” (time recuado, só um lá na frente...). Moça bonita, se não paga, não leva, mas se paga... É o palco da pechincha, em que a lábia do freguês e o jogo de cintura do vendedor compõe o preço da mercadoria - versão tão brasileira da lei universal da oferta e procura – com propriedade e justiça a que nenhum código de barra poderá aspirar.
Mas como tudo neste nosso judiado país que diga respeito às nossas formas singulares de existência, ao nosso modo próprio de ser e ver o mundo, as feiras - como o futebol, o carnaval, a música, os butiquins, açougues, padarias, as ruas com casas, entre tantos etcéteras – também viraram presas fáceis do grande capital, por um lado, mas sobretudo de uma psudo-culturazinha pasteurizada, de modelito importado, baseada na assepsia e “praticidade” autosuficientes de uma vida que prescinde do contato com o outro ser humano. Que apegada a falsas demandas por “segurança” e “higiene” constrói uma absoluta e ressentida ojeriza à rua, a tudo o que ela representa, tudo a que ela remete. E é por isso que hoje, com ou sem criança, pode-se andar à vontade pela feira da Vila Romana. Sem atropelo, sem empurra-empurra, sem trombadinha nem medo de perder o filho. Semi-deserta, mas ainda colorida e musical. Pelo menos até a semana passada.
Porque, senhores, os que se arvoram em donos desta triste Cidade não vêem limites para o seu despudor e sua falta de escrúpulo. Nada querem deixar de pé nada que possa remeter ao mundo brasileiro que eles tanto desprezam – e temem. Sequer se satisfazem com a morte lenta e desvalida do que resta de nossa gente e de nossa cultura nestas cinzentas plagas dominadas pela lógica impessoal do dinheiro. Querem o nocaute, a humilhação, a lona. Querem o nosso sangue, impiedosamente, como animais no matadouro. Assim é que o homenzinho que arrumaram pra ocupar a Prefeitura da Cidade no lugar do Mentiroso-mor – aquele que afirmou para quem quisesse ouvir que não se candidataria ao governo do Estado – meteu-se a decretar, acreditem os que quiserem, que a partir de agora, na feira, nenhum feirante mais pode gritar! Nada de barulheira, ora, se vivemos numa cidade civilizada, de primeiro mundo! A feira, daqui por diante, nos delírios higienizadores e aculturados dessa escumalha, terá barraqueiros uniformizados, banheiros químicos obrigatórios e caixotes higienizados. Nada daquela gente desdentada e rota e seus caixotes de pau! E horário, senhores, teremos horário! Hora pra chegar, pra montar, pra desmontar, tudo como manda a nova ditadura calvinista e asséptica dos padrões de existência.
Tudo está consumado. A batalha nos chama e não há como adiar. Mais este ultraje não ficará sem o desagravo à altura. Ora, que o homúnculo que pensa que nos governa enfie os seus decretos de merda no local que lhe der mais prazer! Porque se ele pensa que gritar é privilégio seu, que precisa nos convencer da sua macheza vociferando contra um humilde trabalhador na porta de uma unidade pública de saúde, vá ele ver que tudo tem um limite. Que nós gritaremos, espernearemos e morderemos acima do que a sua soberba autoritária possa supor ser possível, se eles insistirem em querer nos ver morrer como porcos.
terça-feira, 3 de abril de 2007
De roseiras, barbeiros e canários
Tem quem diga que é gênero. Pode até ser. O que implica, diretamente, numa espécie de distúrbio masoquista: porque, na verdade, só me trouxe solidão e angústia, quando não brigas e inimizades. Deve ser mesmo doença essa obstinação em se apegar àquilo que te foi legado, ensinado como certo, demonstrado como desejável. Em rejeitar as formas padronizadas prêt a porter, tão mais simples, tão mais práticas, e daí que importadas?, que importa se iguaizinhas pra todo mundo?
Não é possível, argumentam, que uma casa cheia de goteiras, vazamento, assoalho que range, calha que entope ser melhor que um moderno apartamento, com todo o conforto, segurança e assepsia demandados pela vida moderna. O homem moderno não pode estar a mercê de baratas, ácaros, vizinho que faz churrasco, vendedores de portão, pipas que caem no quintal. Pensava nessas coisas pela manhã tratando da roseira lá do jardim de casa. O homem que nos alugou, na assinatura do contrato, fez questão de nos conhecer ( bobagem, dirão os apologistas da praticidade: as imobiliárias estão aí mesmo pra isso, pra gente não ter que ficar aturando telefonema do inquilino, não se comover se ele ligar no final do mês pedindo mais cinco dias pra pagar o aluguel, porque a filha ficou doente...). Meio constrangido, justificou que gostava de saber quem é que ia morar na casa que o pai dele construiu; na qual cresceu e a mãe envelheceu, até morrer, coitadinha, havia uns meses. Coisa de gente antiga. Ou seria pra fazer gênero? Na despedida, só nos pediu que, se não fosse incomodar muito, não cortássemos a roseira que sua mãe plantara quando ele ainda era criança...
E fazendo gênero é que o meu coração assim se aperta todo dia, andando pelas ruas da Vila Romana, vila operária de maioria ítalo-descendente na primeira metade do século passado. Porque a cada passeio matinal com a minha filha de três meses, é uma fábrica que não está mais lá, uma vila inteira de casas que vai pro chão (vilas operárias, construídas e mantidas pelas tantas indústrias do bairro: Papéis Melhoramentos, Cerâmica Santa Catarina - depois Petybom - dos Matarazzo, tantas mais); é uma casa que resolveram "modernizar" a fachada, ou um butiquim que vira lanchonete, “espetinho” ou supermercado. E é inevitável, meus amigos, pensar que minha neta não vai ter ruas de árvores e casas e vizinhos pra passear nesta triste Cidade.
E é assim que, mesmo sem precisar tanto, meu banzo lapeano me levou, quase sem que percebesse, à velha barbearia do velho Arduile Bonizzi, sessenta e cinco anos de Lapa, onde se corta cabelo e se faz a barba sem precisar explicar, ao som de tangos e boleros, valsas e sambas de outros tempos, em fitas cassete sobreviventes de uma guerra suja e impiedosa impingida por inimigos invisíveis e desleais travestidos de fomentadores do progresso. Onde os velhos lapeanos ainda param pra ouvir e contar uma história de vez em vez, deixar recado, chave de casa esquecida pra mulher pegar quando chegar. Semana passada o vizinho da rua debaixo deixou os três canários pro fígaro tomar conta. De modos que eu, de olhos fechados por causa do talco, ouvindo Chico Alves desfilar versões duvidosas de boleros tão conhecidos, acompanhado devidamente pela passarinhada em coral, pude voar por minutos acima de uma realidade de incompreensão, ganância e utilitarismo. E saindo de lá, tive mesmo a impressão de encontrar meu avô dobrando a esquina, de paletó, gravata e pasta preta, sorrindo com um pacote de balas-de-goma e cigarrinhos de chocolate Pan só para mim.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Sala de espera
Não sabia ao certo por quê, mas era fato que ela o incomodava. Toda semana, naquela mesma hora, repetia-se o roteiro. Na ante-sala, ele esperava a filhinha por toda a duração da sessão.
Mais do que a própria figura, soçobrava-o a ausência aparente de motivo para a inquietação que ela lhe impingia. Uma figura comum, diria. Cordial, até. Teria facilmente a idade de sua mãe e era lampeira, cabelos arrumados, sempre bem maquiada, sem exageros, o batom fazendo-lhe a boca ainda menor do que já era. Uma simples e distinta senhora, desempenhando dignamente uma ocupação socialmente desejável e condizente com a sua condição, pensou.
Que diabos, então? O rádio ligado um tanto acima do esperado, brandia músicas que ele julgava incompatíveis com o ambiente. Não o lixo banal que campeava pelas lojas e tevês – antes isso! - mas a a emepebezinha reles com pretensões de bom gosto e universalidade; nada que o irritasse mais, aliás. Anotou o nome da rádio, ia mandar cartas, fazer protestos, ora se ia. Cantava a Calcanhoto, e ela vagamente parecia cantarolar um refrãozinho, impávida. Por que não lia um ao menos uma revista, meu Deus? Vinha uma do Arnaldo Antunes, e a megera de olhos estatelados, sem esboçar uma mínima reação de aprovação ou desagrado. Zeca Pagodinho, finalmente, e ele implorou aos santos em que não cria um mínimo sinal de vida inteligente.
Mas nada. Pôs-se a discar.
- Alô, Helena? Terezinha... Você soube do Rubens?
Gelou. Logo ele a quem apavoravam os assuntos de doenças.
- Aneurisma. Começou a sentir-se mal pela noitinha... Deve estar sendo operado neste instante.
Doía-lhe a cabeça. Seu falar escorreito soava-lhe como fina tortura, cada palavra uma crueldade caprichada, meticulosa, calculada. O incômodo transmutava-se em desejos de violência. Pensava na filha. Levantou-se afinal, pretextando a si próprio uma vaga vontade de urinar. Rosto lavado, ainda voltava quando ouviu um resto de outra conversa :
- Não vai embora, então, antes da vovó chegar, hein?
“O que mais, meu Deus?”, carcomia-se. Como diabos podia odiar uma velha cujo netinho de bochechas rosadas dali a minutos se atiraria em seus braços cansados: “Vovó...”
Sai a filhinha. Como a sacramentar o veredicto de sua condenação, tasca-lhe um beijo apertado que o despedaçou. Saía atabalhoado, puxando quase a menina, rosnando um cumprimento incompreensível. Não se esquivou a tempo de evitar:
- Até semana... Mesma hora, hein?
sexta-feira, 30 de março de 2007
Garoto de pobre
Geraldo Filme
Garoto de pobre só pode estudar
Em escola de samba
Ou andar pelas ruas
Jogado ao léu
Implorando a bondade dos homens
Aguardando a justiça do céu
Seu lápis é sua baqueta
Que bate o seu tamborim
Ninguém olha esse coitado,
Senhor, qual será o seu fim?
Na escola de samba da vida
É onde ele vai estudar
Ensaia o ano inteiro
Tem provas no carnaval
Ele desce dos morros
Ele vem das vilas
E chega à Cidade
Alegra os turistas
Recebe os aplausos da sociedade
Se criar novos passos
Criar nova ginga
Ou compor um samba:
Está aprovado,
Recebe o garoto o diploma de bamba!
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Garoto de pobre só pode estudar
Em escola de samba
Ou andar pelas ruas
Jogado ao léu
Implorando a bondade dos homens
Aguardando a justiça do céu
Seu lápis é sua baqueta
Que bate o seu tamborim
Ninguém olha esse coitado,
Senhor, qual será o seu fim?
Na escola de samba da vida
É onde ele vai estudar
Ensaia o ano inteiro
Tem provas no carnaval
Ele desce dos morros
Ele vem das vilas
E chega à Cidade
Alegra os turistas
Recebe os aplausos da sociedade
Se criar novos passos
Criar nova ginga
Ou compor um samba:
Está aprovado,
Recebe o garoto o diploma de bamba!
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
quinta-feira, 29 de março de 2007
Amores de balcão
Aviso, de antemão, que este texto é para iniciados. E o alerta é, como me foi ensinado, em prol dos incautos. Porque o mistério iniciático não é, como pensa o vulgo, nem recompensa, nem privilégio. É proteção para aqueles que não tem condições de segurar o tranco. Feito o aviso, sigo.
Porque como explicar para um neófito o que representa o butiquim na vida de um cachaceiro de fé? Podemos recorrer às analogias, é claro. Deus Nosso Senhor, por exemplo, quando nos quis demonstrar o quão grande era por nós o seu amor eterno e infinito, deu-nos a conhecê-lo através da maior experiência concreta de amor que o ser mortal pode experimentar. Assim, ensinou-nos a chamá-lo de ... Pai!. E eu só fui entender isso, é claro, quando a primeira criaturinha virou pra mim os olhos pidões de jabuticaba e e balbuciou... “Pá!”
Sejamos, pois, condescendentes com os novatos do pedaço - eis que me veio outro dia a informação (pouco crível, por óbvio) que este espaço seria freqüentado por menores de trinta anos. Vou tentar ser didático. Sabe aquele sentimento que te domina toda vez que você senta pra conversar, ainda que sem a menor chance, com a garota (no feminino por questões práticas, visto que por estas plagas aparece uma mulher a cada ano e meio...) disparadamente mais bonita do colégio? A de que você está no lugar certo, na hora certa e um abraço pro mundo? Sabe também quando aquele teu colega te convida pra assistir o ensaio da banda de garagem que ele montou semana passada, certo do caminho do estrelato? Que o lugar é errado, não importa a hora? Então... Só que, com o tempo, a gente vai experimentando demais a diferença entre o (muito pouco) que é bom pra valer, o que é apenas passável (boa parte) e o oceano imenso de tudo o que realmente merece a lata de lixo da nossa História particular. E vai ficando exigente, mal acostumado e – pior! - com a sensação de que o tempo perdido é cada vez mais precioso.
Passado o intróito necessário, parece oportuno esclarecer que me disponho hoje a falar sobre o assunto que mais gosto e, de verdade mesmo, o único de que minimamente entendo. Butiquim, de novo, por que não? E só pra explicar que butiquim é fase, igual paixão. Você bebe diariamente naquela mesma pocilga, sente que ali é o melhor lugar em que você poderia estar no planeta, livre das aporrinhações do seu chefe, do mau-humor dos motoristas, dos achaques dos políticos e das broncas da dona-da-pensão. O garçom é gente boa, a cerveja é geladaça, o tira-gosto honesto. O português deixa usar o telefone e até, em situações calamitosas, troca cheque. A rapaziada que muito de vez em quando aparece pra tocar um violão só manda brasa. Pô, sair dali pra quê? Só quem só faz usufruir, que freqüenta buteco pra se exibir é que sai de casa em busca de aventura. O pé-redondo profissional, esse é, por excelência, um conservador. Não troca o certo pelo duvidoso nem por uma boa pataca do vil metal. É de uma fidelidade a que mulher nenhuma no mundo ousaria aspirar.
Minha cabeça paulistana já foi do Alemão da Antárctica, do Pena Dourada, do Krystal das Perdizes, do Cardosinho da Monte Alegre, do velho Brahma (pré “reforma”), Bom Motivo, Pé pra Fora, Bar do Bilu, Xodó da Paulita (mais conhecido como Balde) do Bar do Cidão, Ó do Borogodó, tantos outros... Meu coração carioca já foi da espelunca da Praça São Salvador, da Adeguinha Portugália, do finado Carlitos da Cinelândia, de um sem-nome na Rua Barão de Flamengo, do Estephanio's (há os amores platônicos como Paladino, Bar Luiz, Salete, e houve, é claro, paixões de carnaval, como o que contei outro dia num final de Bola Preta, o bar do Zé da Rua do Carmo, uma espelunca inconfessável na Lapa de outros tempos, mas esses fogem ao tema do dia). Ultimamente estava morando na Almirante Gavião, mas confesso que outro banzo tijucano é dono dos meus quereres – inspiração desta crônica - numa rua com nome de revolucionário anti-imperial. O nome da moça, claro, eu não conto.
Porque, meus filhos, assim como nos romances, na vida não há bem que sempre dure. Passado um tempo, aquele jeito dela mexer no cabelo que te deixava maluco, começa a suavemente te irritar. Como aquele jeito do garçom atirar a cerveja e os copos em cima da mesa. Olha, ela nunca tinha te respondido assim. E o jeito com que o português emprestou o telefone da última vez, pra falar a verdade, te deixou meio puto. Gostas dela, é verdade, mas a mãe, rapaz, a mãe não vai mesmo com a tua cara. E o Manuel não mandou embora o Severino da cozinha, só porque ele chegou de fogo no dia seguinte do campeonato do Mengão? Você não acha que a pequena anda, assim, um tanto diferente? A dobradinha, terça passada, não tava a mesma coisa... Ela é bonita, não tenha dúvida, mas você reparou na morena que mudou pro 203? Tomei uma gelada com salaminho ontem ali no Ceará...
Pronto. Teu coração bateu asas, c'est la vie! Uma nova fase se anuncia. Com a diferença de que a gente, sem mulher, afoga as mágoas no buteco. Mas sem bar, não há mulher no mundo que nos console!
terça-feira, 27 de março de 2007
Estupro
Expira esta semana o prazo final para os munícipes da nossa triste Cidade adequarem-se ao mais recente desatino da razão imperial pseudo-pública a que já nos referimos neste espaço. Inapelavelmente, garantem os construtores de mais um delírio normocrático, até o fim-de-semana São Paulo estará livre de outdoors, placas de publicidade, letreiros, cartazes, luminosos, toldos e qualquer coisa que aluda a marcas particulares, com exceção futura, por óbvio, daquelas que o poder “público” resolver alugar arbitrariamente em proveito próprio.
E assim, de alguns dias para cá, a Velha Senhora tem começado melancolicamente a se despir, exibindo as vergonhas menos tristes pelas judiarias do tempo e da vida do que pela violência com que estão sendo postas a nu. Não o desvestimento natural do banho, nem a nudez voluptuosa do sexo, antes o despojamento forçado, brutal do estupro, indignidade suprema e imperdoável. Privada das dissimulações de suas rotas farpelas, eis que vê emergir o insuportável impudor dos seus esconsos violados até os limites últimos da integridade plausível de sua alma.
Desvela-se, assim, pouco a pouco, não um corpo, mas um monstrengo deformado nas pequenas e grandes dimensões de sua persona subjugada. Uma anciã cuja psique não sobreviveu ao incontrolado dos próprios desatinos, aos seus desejos paranóicos de não-ser, de consumir-se desenfreada e incessantemente, pelo simples “prazer” de ver girar a roda viva da grana que ergue e destrói todas as coisas, belas ou não. Que perdeu completamente a capacidade de manter-se íntegra a despeito de sua tão propalada auto-suficiência.
E a nós, de quem foram arrancadas impiedosamente todas e quaisquer possibilidades de diferenciação, de reconhecimento, de orientação, a quem foram peremptoriamente negadas as verdades simples de ruas e casas e lembranças, só nos restava a pantomima burlesca de marcas e placas e anúncios e letreiros. Pois se o nosso mundo de verdade foi destruído, um mundo honesto de vizinhos, farmácias, açougues e butecos, como podem agora nos querer arrancar dos simulacros aos quais, mais ou menos coletivamente, tivemos que nos agarrar para sobreviver na indistinção do caos induzido? É verdade que cada cidade tem o Redentor que merece, mas como é, meu Deus, que vamos nos guiar pelas noites náufragas sem o relógio do Itaú a luzir como um farol de esperança e Consolação?
Sobreviverá a Cidade, afinal, a si mesma? Suportará o horror das chagas que por tantos anos se auto impingiu? Será minimamente possível esperar que nossa verdade, enfim, nos liberte? Ou os infernos acolherão, por fim, os restos infectos dizimados por purulências de gangrenas irreversíveis?
segunda-feira, 26 de março de 2007
Outono do meu tempo
E enfim é outono. Quinto dia da nova estação, duas crises alérgicas, como previsto. Porque, curiosamente, mesmo encovado diariamente sob estas catacumbas de concreto, luz artificial, ar artificial – quinhão pessoal das galés a que universalmente fomos sentenciados desde a queda de Adão -, minha fisiologia íntima teima em responder aos apelos da natureza.
Por mais que eu tenha que correr desesperado à porta quando alguém grita “olha a chuva!!” - e que, mais!, se ali chegando, tanto ainda meu coração se apequene, restantes no chão não mais que meia dúzia de pocinhas, espelhos da minha mágoa, tonitruando a voz de um diabólico marcante de uma quadrilha kafkiana: “já passou!!!” - é aí, e de nenhum modo mais, que eu sou verdadeiramente carioca, suburbano, que sou sertanejo e que sou caboclo. Que sou brasileiro! É no meu coração de passarinho, que silencia com a chuva e se põe a semear sob o pálio azul, que se assenta meu pacto inquebrantável com esta Terra, que um dia, oxalá!, me há de matar.
Se o equinócio de outono marca para muitos povos ancestrais o início de um novo ciclo, um novo “ano”, segundo nossos padrões, a Estação, para os paulistanos que ainda têm olhos para ver, é um tempo rigorosamente inadiável. Nesta terra em preto-e-branco (os mais novos, favor consultarem os pais, livros, os arquivos, oráculos ou o diabo-que-os-carregue), em que à sede dos olhos costumam bastar as escalas de cinza, o outono é um período ímpar de luzes e cores. Só em abril e em maio se pode ver o céu verdadeiramente azul; só as suas manhãs possuem aquela luminosidade lânguida que remete a passeios distendidos de pés úmidos de relvas e folhas caídas: croch...
E de repente, não mais que de repente, acorda-se numa manhã e a Mão alteada, severa e respeitável, grita um “basta!” à claridade desnecessária, agressiva do verão. As torrentes avassaladoras de março parecem estancadas a um comando superior. E em honra à esperada temperança, os anjos saíram a lustrar os prédios e as árvores, os carros e os jardins, que generosamente respondem com um brilho renovado, fresco, ainda que sóbrio. E é assim que, súbito, nos vemos despojados das nossas premências de fazer e providenciar e resolver. Toda vaidade, toda prepotência parecem momentaneamente respeitosas de uma outra ordem, mais serena, mais composta, menos opressiva. E o telefone pode tocar, impune, enquanto adivinhamos as tentativas impressionistas dos raios de sol no pé de pitanga em frente.
Ora, como sempre, direis que envelheço, que a primavera é das crianças e o verão é dos jovens. Mas se o inverno, sabidamente, é de ninguém, e porque não estou em Copacabana nem na Aldeia Campista; porque não posso apanhar um ônibus para o Ver-o-Peso, me debruçar sobre a Baía, nem subir as dunas adivinhando a cor do mar, mais do que nunca faz-se mister, senhores, que se adiem as urgências, que se desmarquem os compromissos, que se alivie a agenda. É preciso parar para reencontrar a decaída intimidade com o instante; para desatrofiar os olhos e – ai! - o coração.
Por mais que eu tenha que correr desesperado à porta quando alguém grita “olha a chuva!!” - e que, mais!, se ali chegando, tanto ainda meu coração se apequene, restantes no chão não mais que meia dúzia de pocinhas, espelhos da minha mágoa, tonitruando a voz de um diabólico marcante de uma quadrilha kafkiana: “já passou!!!” - é aí, e de nenhum modo mais, que eu sou verdadeiramente carioca, suburbano, que sou sertanejo e que sou caboclo. Que sou brasileiro! É no meu coração de passarinho, que silencia com a chuva e se põe a semear sob o pálio azul, que se assenta meu pacto inquebrantável com esta Terra, que um dia, oxalá!, me há de matar.
Se o equinócio de outono marca para muitos povos ancestrais o início de um novo ciclo, um novo “ano”, segundo nossos padrões, a Estação, para os paulistanos que ainda têm olhos para ver, é um tempo rigorosamente inadiável. Nesta terra em preto-e-branco (os mais novos, favor consultarem os pais, livros, os arquivos, oráculos ou o diabo-que-os-carregue), em que à sede dos olhos costumam bastar as escalas de cinza, o outono é um período ímpar de luzes e cores. Só em abril e em maio se pode ver o céu verdadeiramente azul; só as suas manhãs possuem aquela luminosidade lânguida que remete a passeios distendidos de pés úmidos de relvas e folhas caídas: croch...
E de repente, não mais que de repente, acorda-se numa manhã e a Mão alteada, severa e respeitável, grita um “basta!” à claridade desnecessária, agressiva do verão. As torrentes avassaladoras de março parecem estancadas a um comando superior. E em honra à esperada temperança, os anjos saíram a lustrar os prédios e as árvores, os carros e os jardins, que generosamente respondem com um brilho renovado, fresco, ainda que sóbrio. E é assim que, súbito, nos vemos despojados das nossas premências de fazer e providenciar e resolver. Toda vaidade, toda prepotência parecem momentaneamente respeitosas de uma outra ordem, mais serena, mais composta, menos opressiva. E o telefone pode tocar, impune, enquanto adivinhamos as tentativas impressionistas dos raios de sol no pé de pitanga em frente.
Ora, como sempre, direis que envelheço, que a primavera é das crianças e o verão é dos jovens. Mas se o inverno, sabidamente, é de ninguém, e porque não estou em Copacabana nem na Aldeia Campista; porque não posso apanhar um ônibus para o Ver-o-Peso, me debruçar sobre a Baía, nem subir as dunas adivinhando a cor do mar, mais do que nunca faz-se mister, senhores, que se adiem as urgências, que se desmarquem os compromissos, que se alivie a agenda. É preciso parar para reencontrar a decaída intimidade com o instante; para desatrofiar os olhos e – ai! - o coração.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Desafio
Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro
Éramos eu e um cavalo
No seu galope macio
Pulando cerca de arame
Pisando morro de pedra
Andando em leito de rio
Éramos eu e um cavalo
E era um cavalo bravio
Casco de lâmina forte
Anca de chão de montanha
Crina de vela e pavio
Ele bufando fagulha
Eu contraído de frio
Montando em pêlo barroso
Éramos eu e um cavalo
Indo de encontro ao vazio
Éramos nós e os cavalos
Feitos do mesmo feitio
Vindo de todos os lados
E sobre eles sangrentos
Seus cavaleiros sombrios
Éramos nós e os cavalos
A nos causar calafrios
Todos os outros já mortos
Por essa causa contrária
A que se chamou poderio
E eu com uma bala no peito
Meu alazão nos baixios
Caímos de cordilheira
Deixando a causa nas lendas
Pra quem quiser desafio
Éramos eu e um cavalo
No seu galope macio
Pulando cerca de arame
Pisando morro de pedra
Andando em leito de rio
Éramos eu e um cavalo
E era um cavalo bravio
Casco de lâmina forte
Anca de chão de montanha
Crina de vela e pavio
Ele bufando fagulha
Eu contraído de frio
Montando em pêlo barroso
Éramos eu e um cavalo
Indo de encontro ao vazio
Éramos nós e os cavalos
Feitos do mesmo feitio
Vindo de todos os lados
E sobre eles sangrentos
Seus cavaleiros sombrios
Éramos nós e os cavalos
A nos causar calafrios
Todos os outros já mortos
Por essa causa contrária
A que se chamou poderio
E eu com uma bala no peito
Meu alazão nos baixios
Caímos de cordilheira
Deixando a causa nas lendas
Pra quem quiser desafio
terça-feira, 20 de março de 2007
Pára, que eu quero descer! (II)
Contei semana passada meu encontro com o bêbado do ônibus, em plena Avenida Paulista.
Centenas de cartas e mensagens chegaram à redação do Só dói nestes últimos dias. Impressionante como são ubíquas estas entidades do imaginário coletivo brasileiro. Falta, aliás, quem, despreocupado com o aparente paradoxo, seriamente se proponha a estudar o corpus mítico composto pelo vasto anedotário brasileiro - isso, é claro, enquanto a tropa de choque colonizada do politicamente correto, a mesma que quer acabar com o modo próprio de existir do brasileiro, não conseguir abolir a piada. Porque, salvo engano, nenhum outro povo cultiva, como nós, o gosto pelo inusitado, pelo desconsertante, pelo chiste e pela galhofa. Os personagens que habitam esse universo – o bêbado do ônibus, o português, o louco, a bichinha – com suas venturas e desventuras falam muito de nós e sobretudo da auto-imagem que pintamos. Dos diversos relatos recebidos, nenhum melhor do que o que segue. A entidade, agora, não é mais o bêbado, é a bichinha do ônibus. Acompanhem.
Estava meu amigo num final de bloco de carnaval, ali entre os velhos armazéns da Zona Portuária feitos de barracões; a turba reunida dava cabo do chope oferecido por conta do Abreu. A morena era um pedaço e não parava mesmo de olhar. Ria, até. Superou a insegurança adolescente e chegou junto num momento em que ela deu um tempo da turminha que até então não descolara. Sorridente, a beldade foi-se desculpando:
- Você pode até me telefonar – estendendo o papelzinho adrede preparado. Mas não posso sair com você hoje daqui. Meu amigo ali, ó – e apontou o mulato muito esguio que já lhes acenava, mãozinha desmunhecada à altura do rosto, cotovelo apoiado sobre a outra; a faixa vermelha repuxando a carapinha pro alto fazia sua testa asustadoramente comprida, escorrendo suor – tá apaixonado por você!
“Era o que me faltava”. Tentou ainda superar a incomodidade, mas ainda era um pouco mais do que sua recém-não-meninice podia dar conta. Tentou se convencer de que o telefone descolado era mais que nada, a noite não fora perdida de todo, e foi-se esperar o ônibus na Leopoldina. Madrugada alta, condução demorada, um tanto afogado entre chopes e pensamentos, só deu conta da figura que o seguia quando a distância já impedia uma manobra evasiva eficaz. Ficou ali, entre incrédulo e conformado, aturando o papo furado que, não demorou, já se transmutava em derramadas declarações de amor. Malgrado o incômodo, a semi-frustração e a cediça incapacidade juvenil para lidar com o inusitado, não queria também destroçar o coração da donzela, ora essa! O único ímpeto que não conteve foi quando viu a figura subir no coletivo, atrás de si:
- Ah, não! Tu tá te sacanagem! Tu num mora na Ilha do Governador nem por um caralho!
Pra quê... O carrro já um tanto cheio, sentou-se propositadamente num assento já meio-ocupado, sacomé?, pra evitar maiores intimidades. A bicha se postou umas quatro fileiras atrás e mandou, às lágrimas:
- Olha você me desprezou à noite inteira! Não tem importância, viu? Mesmo assim, vou cantar uma música par você nunca mais se esquecer de mim...
Pressentiu o pior, quis duvidar do realismo pouco crível da situação, mas foi beliscado de volta ao seu pesadelo, a voz afetada, entre palminhas:
Nada do que foi [clap] será
De novo [clap] do jeito que já foi [clap] um dia
Tudo passa [clap], tudo sempre [clap] passará...
E como praga de bichinha pega mil vezes mais que de cigano (só perde pra de mãe), não é que até hoje, homem feitíssimo, ao ouvir qualquer gaiato entabular o infalível hit heraclitiano de revéillon, depara nítidas na lembrança as fuças impávidas do sujeito, com o criouléo em delírio a apavorá-lo:
- Malvado, destruidor de coração!
- Fez mal, agora casa!
- Não embrulha, não, come enquanto tá quentinha!
Um troço.
segunda-feira, 19 de março de 2007
São José
Hoje é dia de São José.
Para os sertanejos, início do ciclo festivo que se estende por várias celebrações populares tradicionais como a Festa do Divino e Corpus Christi, até as festividades dos santos juninos, ocasião em que se colherá o milho que hoje deve ser plantado. Crê-se que se neste dia tivermos chuva, o inverno será chuvoso e a colheita abundante.
Para muitos europeus, como italianos e portugueses é o dia dos pais, por ter sido o venerável ancião pai de criação do Menino Jesus.
Para alguns terreiros do Brasil, o santo padroeiro dos carpinteiros é sincretizado com Oxalufã, o Oxalá “velho”, na tradição brasileira do candomblé. Parece-me que também é sincretizado, menos freqüentemente, com Airá (corrija-me o Velho Simas), “qualidade” pela qual no Brasil é invocado Xangô mais velho.
Para mim é também o último dia do verão, o que me causa uma fina e dolorida melancolia, aliada ao temor hipocondríaco das afecções alérgicas e virais que campeiam pelo outono (toc-toc-toc!).
Para mim-criança, era o dia de ir à casa dos avós austríacos José e Josefina, celebrar o onomástico (dia do santo do seu nome), que é também meu e do meu pai, comemoração tradicional e importante na Europa, em alguns lugares sobrepujando até a do aniversário. Havia, de regra, beliscos de comidinhas e troca de presentes entre os josés. E o mais legal é que os meus tios que se chamam Hilda e Frederico também entravam na dança dos zés, sob o pretexto invocado por vovó de que não houvera, ainda, fredericos ou hildas que se tivessem dignado a morrer após uma existência reconhecidamente piedosa e observante.
Essa é a mais perene lembrança do dia de São José e uma das melhores da minha vida. Peço e confio, de todo o coração, que vovô e vovó venham comer comigo hoje e continuem a verter sempre sobre nós o seu zelo carinhoso, sua sabedoria, sua proteção. E que São José nos abençoe!
Axé!
sexta-feira, 16 de março de 2007
Homens de Canivete
Fernando Sabino
Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são e os que não são de canivete.
Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão, mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as unhas.
É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente necessário.
Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a ser, como o pai, um homem de canivete.
Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:
- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?
Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados, embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria. Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida em Borboleta Amarela, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas reclamava do outro a posse de um canivete.
Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja, logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.
Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete. Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha. Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade, um simples canivete.
(in As melhores crônicas de Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record, 1986 - pp. 165-7)
Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são e os que não são de canivete.
Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão, mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as unhas.
É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente necessário.
Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a ser, como o pai, um homem de canivete.
Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:
- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?
Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados, embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria. Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida em Borboleta Amarela, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas reclamava do outro a posse de um canivete.
Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja, logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.
Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete. Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha. Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade, um simples canivete.
(in As melhores crônicas de Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record, 1986 - pp. 165-7)
quarta-feira, 14 de março de 2007
Pára, que eu quero descer!
Pois é, alguém já disse que o cronista tem de ter, antes de qualquer coisa, sorte.
São mil linhas de ônibus nesta cidade. Na Paulista, umas trinta pelo menos, cinco ou seis que me servem.
Quase quinze mil coletivos, para sete milhões de passageiros por dia.
Eu mesmo ontem, cansado, esfalfado, depois de uma jornada de umas quatorze horas, deixei passar bem uma meia dúzia: preguiça, queria saltar mais perto.
Subo no ônibus, só tem um lugar vazio, na primeira fila. Quem está sentado bem do meu lado, na mesma fila, separado apenas pelo corredorzinho? Ele mesmo, o bêbado. O bêbado do ônibus, o bêbado de todas as piadas de ônibus. Em pessoa.
Em dois minutos, o carro está vomitando gente pelas orelhas. Em frente à Nossa Senhora do Paraíso, nosso amigo levanta-se, faz o sinal da cruz mais estrepitoso desde que a Igreja Romana foi fundada e brada:
- Deus nos defenda!!! Deus nos defenda desse trânsito e dos motoristas de ônibus!
A platéia se contém. Noventa por cento de estudantada saída dos milhões de cursinhos e faculdades. Não sacou ainda qual é a do camarada. Uns dois ou três preocupam-se com a moça ao seu lado, seguidamente interpelada:
- Se tiver incomodando, é só a s'orita avisar!
E estendia-lhe a mão, respeitoso. Solavanco daqui, freada de lá, nosso amigo se vira para a assistência, a essa altura atenta, e manda um samba canção, em grande estilo:
- "Manhã, zzão bonita manhã..." Agossinho dos Santos... Conhecem? Conhecem naaada!
Quis emendar, mas achei melhor não dar a deixa.
- Zzuventude... Vocês, ó... não sabem de naaaaada!!
Dos meus, pensei. Sobe mais gente.
- Pra que tchime você torce?
Corinthians três, Palmeiras dois estava o placar. Entra um engravatado de oclinhos, branco, sangüíneo, com os livros todos da Getúlio Vargas mal conseguindo segurar:
- Aê, que tchime?
O administrador, bem baixinho, quase pra dentro:
- Num torço...
- Porra, mas em que planeta você nasceu??? Zzzzúpiter?
Ganhou a patuléia, que já se diverte ao riso solto. Entra a mulher de pouquíssimos amigos:
- A madame, aê, torce pra que time?
Ignorado solenemente que foi, mandou de letra:
- Sãopaulina! Só pode!
A essa altura, o povo já provocava. Entre uma e outra opinião sobre a política nacional e os prognósticos para o Campeonato Paulista, uma arrelia rodrigueana, aos berros:
- Molecaaadaaa... Vocês, ó....
E metralhava perdigotos, bochechas infladas, com a língua estralando entre os lábios protraídos, na expressão tipicamente indicativa de algo que já foi pro beleléu.
- "Lava roupa zzodo dia, que agonia..." Luiz Melodia... Conhecem pôooorra nenhuma!
"Sabe das coisas", comentou o senhor ao meu lado.
- Ôôô, mossorista... (e persignou-se, discretamente agora, apenas susssurrando um "Deus me defenda!"). Vou descer na Augusta. Me deixa na Augusta...
"Sabe onde vai", devolvi pro parceiro, que já esperava a tabela.
Motorista parou no Masp. Levantou de súbito, pediu licença, antecipou-se aos que vinham pra subir e se foi. Três pontos antes da Augusta. Ainda teve tempo, balançando os polegares vertidos a condenar os humilhados num coliseu imaginário e ambulante:
- Ó...Sabem de naaaada!
segunda-feira, 12 de março de 2007
Está faltando uma coisa em mim
Pedindo perdão pela pela omissão um tanto forçada, peguei o avião, correndo com razão deste frio (não há 30 graus que dêem jeito...), antes que um aventureiro lançasse mão. Procurando uma notícia boa pra trazer de volta.
E a notícia que vieram me trazer, os meus olhos não faltam dizer, guardei até onde eu pude guardar: o Rio de Janeiro, Fevereiro e Março, continua lindo... Por que será, então, que eu andei tão triste por te adorar?
Meu mano Edu? Continua sendo o maior sujeito que eu conheci, e fazendo das suas. Me explica, mano amado, o que de amor se perdeu neste Rio? Ipanema não é mais só felicidade, mas isso nossas garotas já sabiam.
Alô, torcida do Flamengo! O que é uma derrotazinha? Quarta-feira veio, tudo está no seu lugar, graças a Deus!
O Redentor segue de braços abertos, mas... e Aquele Abraço? Num canto da Mem de Sá, numa esquina qualquer, ou num bloco na Gomes Freire...
Se os meninos do Colégio Militar desfilam seus uniformes cáqui-grenás pelas tardes calorentas de amendoeiras, e não faltam as balizas do CEFET, que a Tijuca tá viva ainda lá, por que é que a vida insiste em se mostrar mais distraída dentro de um bar?... É trote, isso tudo não passa de um erro!
Ora, o Adonis continua sendo o melhor chope do mundo - o costume é a força que fala mais alto do que a natureza; e o Costa segue servindo seu bolinho de vagem. Eu quero esclarecer esse mal entendido...
Ah, as casas de Vila Isabel... Simples, com portas abertas, flores baldias e cadeiras na calçada, que São Sebastião ainda pode se salvar. Eu cheguei e escutei a vizinha falar.
Do Lamas ao Capela - que onde tem cabrito eu vou! - quando o comes-e-bebes começou, no melhor da cabritada...
Senti que o meu coração quis parar.
Num canto da Mem de Sá. Numa esquina qualquer, meu mano, ou num bloco na Gomes Freire: não apareceu!
Bateu asas. Foi-se embora.
Fechou, para todo o sempre, aquela sinuca da Rua do Riachuelo.
Vou caminhar por aí, a cantar. Tentando espantar a tristeza por onde eu passar.
sexta-feira, 9 de março de 2007
Fortuna de mulher
As muito lindas que me perdoem
mas há que se reconhecer
ser-lhes sempre disposto
o fatal atributo
que as há de propiciar
Sem dependência
do que lhes vá
veramente
Sob a carapaça
Se o do imo não corresponder
à fulgura do visível,
protegida ficará
pela detença que desconvida
ao abandono da superfície
O néscio das profundezas
Mas se das entranhas o poder
em fusão de ainda mais nobres
acalentos
for ainda superior ao verniz
A crosta não conterá
as derretedoras incandescências
que fora se cuspirão
com a força irreprimível que tudo
Movimenta
(janeiro de 2004)
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