segunda-feira, 9 de abril de 2007
Fim de feira
Não tenho vontade nem competência para me meter a historiador – sempre tenho, por sorte, o Velho Simas para me socorrer e corrigir - mas importa lembrar, para o que hoje venho dizer, que o costume de se comerciar nas ruas talvez seja tão antigo quanto a própria História. Desde os tempos imemoriais os relatos referentes às formas mais rudimentares do que posteriormente se convencionou chamar civilização dão conta da utilização da via pública, do caminho de passagem como local privilegiado para a atividade fundamental da troca de mercadorias, na forma de escambo ou com o uso do elemento monetário. Conhecidas por quase todas as civilizações da antigüidade, as feiras atravessaram os séculos, tendo representado importante papel quando do renascimento comercial e cultural experimentado pela Europa na chamada Baixa Idade Média.
No Novo Mundo, a tradição urbana do comércio ambulante remonta aos tempos dos povos pré-colombianos, sendo bastante conhecidos, desde o México até o Peru Inca, os chamados tianguis, feiras dos povoados indígenas. A esta forma autóctene expressiva e disseminada de comércio a céu aberto, periódico e móvel, somou-se a contribuição da cultura hispânica de forte influência árabe, dando origem à tradição das feiras tais como conhecemos, que se disseminaram já nos tempos coloniais e sobrevivem fortemente em muitas cidades latino-americanas.
Entre nós, as feiras livres sofreram ainda a infuência decisiva da cultura africana, para a qual os mercados urbanos representam talvez o elemento mais fundamental da sociabilidade, aglutinando o centro das práticas públicas mais expressivas, desde o comércio propriamente dito, até a política, administração da justiça, religião etc. Em toda a África Ocidental, os chamados “Senhores do Mercado” constituíram-se em figuras poderosas e temidas por seu grande poder e influência, muitas vezes assumindo dignidades reais. Talvez por isso a impressão tão forte de que esses mercados ao ar livre tenham assumido no Brasil papéis que vão muito além da troca de víveres e outros artigos. A presença no espaço do mercado livre de fortes elementos simbólicos ligados à intersubjetividade e ao exercício da mediação social (política, religiosa, artística etc.) certamente terá propiciado um notável incremento nas possibilidades de interações mais criativas, menos engessadas, com formas menos pré-definidas. Não é preciso dizer o quanto estas possibilidades estão em consonância com nossos traços culturais originariamente tão marcados pelo encontro e pela comunicação interpessoal, pela informalidade e espontaneidade de muitas relações sociais.
Em algumas localidades brasileiras, os espaços tradicionalmente ocupados por estas feiras foram se fixando, muitas vezes até se transformarem em pólos agregadores de núcleos urbanos incipientes. Assim foi, por exemplo, com a tradicionalíssima feira de Caruaru, anterior à própria cidade que acabou por crescer à sua volta. Fixas também são ou foram outras feiras conhecidas, como o Ver-o-Peso em Belém do Pará ou a extinta feira de Água dos Meninos, em Salvador, ambas surgidas como entrepostos portuários, nos locais de ligação fluvial/marítima às localidades próximas das respectivas capitais, provedoras de pescado e gêneros agrícolas em geral. No Sudeste, ganharam força as feiras periódicas, encontráveis na Capital de São Paulo, por exemplo, desde o século XVII. No Rio, encontrei registros que remontam aos setecentos, mas custo a crer que não sejam mais antigas. Já nos primórdios do século passado, de periódicas aos poucos foram se transformando também em móveis, assumindo a forma que tão bem conhecemos por estas nossas bandas.
Ó “laranxa”, freguêeeesa...
Na minha meninice, ir à feira era misto de diversão, aventura e dedicação. Diversão, é claro, pela profusão de cheiros e sons e cores, festa para os nossos sentidos ainda não afogados na superexposição áudio-visual banalizante das gerações seguintes. Havia brinquedo pra comprar: peão, espingardinha de rolha, marionete, carrinho de rolimã, estilingue, papagaio; fora os sazonais: balão de São João, confete, bisnaga d'água pro Carnaval... Havia a barraca do pastel, do caldo-de-cana e ainda os tabuleiros com aqueles refrescos coloridos (tinha um nome, meu Deus...) em garrafinhas plásticas em forma de Fusca, de motocicleta, avião, barco, cachorro, boneca. A barulheira era infernal, pregoeiros se digladiando na batalha dos preços (“baxô, baxô, baxô o agrião...”), cantadores (“cinco maçã me dá só dez/ cinco maçã me dá só dez”), os bordões conhecidos (óóóóóó laraaaanxa, freguêêêsaaaaa... Tem lima, tem pera e tem seleta!). Mas havia que se ter disposição, porque a feira não era mole, sobretudo para as crianças. Multidão se acotovelando, carrinho de feira passando no dedão, sombrinhas das velhas, sol escaldante na moringa ou (pior!) chuva, o percurso não era bolinho pra quem tinha menos que um metro e trinta! Tinha mãe que amarrava o filho com correia pra não se perder, o que era freqüente (mas sempre achava, porque todo mundo se conhecia, fregueses e feirantes). A minha morria de medo dos punguistas hábeis zanzando pelas gentes, porque as feiras sempre foram também redutos da malandragem, para descolar um troco no lero-lero, no carreto de sacola ou, por que não?, na gatunagem.
Final de feira, legumes baratos
Meninos mulatos enrolam nos trapos
Os restos do prato
Que o dia-a-dia deixou pelo chão
Epa, mais vale uma xepa na boca da gente
Que o corpo doído, faminto, doente
E o amor esquecido de um coração
Que alegria
Panela no fogo, barriga vazia!
Que coisa boa
Batata-baroa, chuchu, agrião...
Subiu ladeira, moleque sabido, menino feliz
E quem é que diz
No bolso furado não leva um trocado
Nem vale um tostão..
(A Xepa, samba-de-roda de Ruy Maurity)
Três décadas se passaram, mas a feira ainda é o reduto do apelido, da gozação despreocupada das convenções inventadas pelos colonizados de sempre: de uns tempos pra cá eu sou, indefectivelmente, o “Barba”; mas já fui “Barriga”... O negrão retinto da barraca do tomate é “Alemão” e o banguela do caju é “mil e um”, mas já foi “Lazaroni” (time recuado, só um lá na frente...). Moça bonita, se não paga, não leva, mas se paga... É o palco da pechincha, em que a lábia do freguês e o jogo de cintura do vendedor compõe o preço da mercadoria - versão tão brasileira da lei universal da oferta e procura – com propriedade e justiça a que nenhum código de barra poderá aspirar.
Mas como tudo neste nosso judiado país que diga respeito às nossas formas singulares de existência, ao nosso modo próprio de ser e ver o mundo, as feiras - como o futebol, o carnaval, a música, os butiquins, açougues, padarias, as ruas com casas, entre tantos etcéteras – também viraram presas fáceis do grande capital, por um lado, mas sobretudo de uma psudo-culturazinha pasteurizada, de modelito importado, baseada na assepsia e “praticidade” autosuficientes de uma vida que prescinde do contato com o outro ser humano. Que apegada a falsas demandas por “segurança” e “higiene” constrói uma absoluta e ressentida ojeriza à rua, a tudo o que ela representa, tudo a que ela remete. E é por isso que hoje, com ou sem criança, pode-se andar à vontade pela feira da Vila Romana. Sem atropelo, sem empurra-empurra, sem trombadinha nem medo de perder o filho. Semi-deserta, mas ainda colorida e musical. Pelo menos até a semana passada.
Porque, senhores, os que se arvoram em donos desta triste Cidade não vêem limites para o seu despudor e sua falta de escrúpulo. Nada querem deixar de pé nada que possa remeter ao mundo brasileiro que eles tanto desprezam – e temem. Sequer se satisfazem com a morte lenta e desvalida do que resta de nossa gente e de nossa cultura nestas cinzentas plagas dominadas pela lógica impessoal do dinheiro. Querem o nocaute, a humilhação, a lona. Querem o nosso sangue, impiedosamente, como animais no matadouro. Assim é que o homenzinho que arrumaram pra ocupar a Prefeitura da Cidade no lugar do Mentiroso-mor – aquele que afirmou para quem quisesse ouvir que não se candidataria ao governo do Estado – meteu-se a decretar, acreditem os que quiserem, que a partir de agora, na feira, nenhum feirante mais pode gritar! Nada de barulheira, ora, se vivemos numa cidade civilizada, de primeiro mundo! A feira, daqui por diante, nos delírios higienizadores e aculturados dessa escumalha, terá barraqueiros uniformizados, banheiros químicos obrigatórios e caixotes higienizados. Nada daquela gente desdentada e rota e seus caixotes de pau! E horário, senhores, teremos horário! Hora pra chegar, pra montar, pra desmontar, tudo como manda a nova ditadura calvinista e asséptica dos padrões de existência.
Tudo está consumado. A batalha nos chama e não há como adiar. Mais este ultraje não ficará sem o desagravo à altura. Ora, que o homúnculo que pensa que nos governa enfie os seus decretos de merda no local que lhe der mais prazer! Porque se ele pensa que gritar é privilégio seu, que precisa nos convencer da sua macheza vociferando contra um humilde trabalhador na porta de uma unidade pública de saúde, vá ele ver que tudo tem um limite. Que nós gritaremos, espernearemos e morderemos acima do que a sua soberba autoritária possa supor ser possível, se eles insistirem em querer nos ver morrer como porcos.
terça-feira, 3 de abril de 2007
De roseiras, barbeiros e canários
Tem quem diga que é gênero. Pode até ser. O que implica, diretamente, numa espécie de distúrbio masoquista: porque, na verdade, só me trouxe solidão e angústia, quando não brigas e inimizades. Deve ser mesmo doença essa obstinação em se apegar àquilo que te foi legado, ensinado como certo, demonstrado como desejável. Em rejeitar as formas padronizadas prêt a porter, tão mais simples, tão mais práticas, e daí que importadas?, que importa se iguaizinhas pra todo mundo?
Não é possível, argumentam, que uma casa cheia de goteiras, vazamento, assoalho que range, calha que entope ser melhor que um moderno apartamento, com todo o conforto, segurança e assepsia demandados pela vida moderna. O homem moderno não pode estar a mercê de baratas, ácaros, vizinho que faz churrasco, vendedores de portão, pipas que caem no quintal. Pensava nessas coisas pela manhã tratando da roseira lá do jardim de casa. O homem que nos alugou, na assinatura do contrato, fez questão de nos conhecer ( bobagem, dirão os apologistas da praticidade: as imobiliárias estão aí mesmo pra isso, pra gente não ter que ficar aturando telefonema do inquilino, não se comover se ele ligar no final do mês pedindo mais cinco dias pra pagar o aluguel, porque a filha ficou doente...). Meio constrangido, justificou que gostava de saber quem é que ia morar na casa que o pai dele construiu; na qual cresceu e a mãe envelheceu, até morrer, coitadinha, havia uns meses. Coisa de gente antiga. Ou seria pra fazer gênero? Na despedida, só nos pediu que, se não fosse incomodar muito, não cortássemos a roseira que sua mãe plantara quando ele ainda era criança...
E fazendo gênero é que o meu coração assim se aperta todo dia, andando pelas ruas da Vila Romana, vila operária de maioria ítalo-descendente na primeira metade do século passado. Porque a cada passeio matinal com a minha filha de três meses, é uma fábrica que não está mais lá, uma vila inteira de casas que vai pro chão (vilas operárias, construídas e mantidas pelas tantas indústrias do bairro: Papéis Melhoramentos, Cerâmica Santa Catarina - depois Petybom - dos Matarazzo, tantas mais); é uma casa que resolveram "modernizar" a fachada, ou um butiquim que vira lanchonete, “espetinho” ou supermercado. E é inevitável, meus amigos, pensar que minha neta não vai ter ruas de árvores e casas e vizinhos pra passear nesta triste Cidade.
E é assim que, mesmo sem precisar tanto, meu banzo lapeano me levou, quase sem que percebesse, à velha barbearia do velho Arduile Bonizzi, sessenta e cinco anos de Lapa, onde se corta cabelo e se faz a barba sem precisar explicar, ao som de tangos e boleros, valsas e sambas de outros tempos, em fitas cassete sobreviventes de uma guerra suja e impiedosa impingida por inimigos invisíveis e desleais travestidos de fomentadores do progresso. Onde os velhos lapeanos ainda param pra ouvir e contar uma história de vez em vez, deixar recado, chave de casa esquecida pra mulher pegar quando chegar. Semana passada o vizinho da rua debaixo deixou os três canários pro fígaro tomar conta. De modos que eu, de olhos fechados por causa do talco, ouvindo Chico Alves desfilar versões duvidosas de boleros tão conhecidos, acompanhado devidamente pela passarinhada em coral, pude voar por minutos acima de uma realidade de incompreensão, ganância e utilitarismo. E saindo de lá, tive mesmo a impressão de encontrar meu avô dobrando a esquina, de paletó, gravata e pasta preta, sorrindo com um pacote de balas-de-goma e cigarrinhos de chocolate Pan só para mim.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Sala de espera
Não sabia ao certo por quê, mas era fato que ela o incomodava. Toda semana, naquela mesma hora, repetia-se o roteiro. Na ante-sala, ele esperava a filhinha por toda a duração da sessão.
Mais do que a própria figura, soçobrava-o a ausência aparente de motivo para a inquietação que ela lhe impingia. Uma figura comum, diria. Cordial, até. Teria facilmente a idade de sua mãe e era lampeira, cabelos arrumados, sempre bem maquiada, sem exageros, o batom fazendo-lhe a boca ainda menor do que já era. Uma simples e distinta senhora, desempenhando dignamente uma ocupação socialmente desejável e condizente com a sua condição, pensou.
Que diabos, então? O rádio ligado um tanto acima do esperado, brandia músicas que ele julgava incompatíveis com o ambiente. Não o lixo banal que campeava pelas lojas e tevês – antes isso! - mas a a emepebezinha reles com pretensões de bom gosto e universalidade; nada que o irritasse mais, aliás. Anotou o nome da rádio, ia mandar cartas, fazer protestos, ora se ia. Cantava a Calcanhoto, e ela vagamente parecia cantarolar um refrãozinho, impávida. Por que não lia um ao menos uma revista, meu Deus? Vinha uma do Arnaldo Antunes, e a megera de olhos estatelados, sem esboçar uma mínima reação de aprovação ou desagrado. Zeca Pagodinho, finalmente, e ele implorou aos santos em que não cria um mínimo sinal de vida inteligente.
Mas nada. Pôs-se a discar.
- Alô, Helena? Terezinha... Você soube do Rubens?
Gelou. Logo ele a quem apavoravam os assuntos de doenças.
- Aneurisma. Começou a sentir-se mal pela noitinha... Deve estar sendo operado neste instante.
Doía-lhe a cabeça. Seu falar escorreito soava-lhe como fina tortura, cada palavra uma crueldade caprichada, meticulosa, calculada. O incômodo transmutava-se em desejos de violência. Pensava na filha. Levantou-se afinal, pretextando a si próprio uma vaga vontade de urinar. Rosto lavado, ainda voltava quando ouviu um resto de outra conversa :
- Não vai embora, então, antes da vovó chegar, hein?
“O que mais, meu Deus?”, carcomia-se. Como diabos podia odiar uma velha cujo netinho de bochechas rosadas dali a minutos se atiraria em seus braços cansados: “Vovó...”
Sai a filhinha. Como a sacramentar o veredicto de sua condenação, tasca-lhe um beijo apertado que o despedaçou. Saía atabalhoado, puxando quase a menina, rosnando um cumprimento incompreensível. Não se esquivou a tempo de evitar:
- Até semana... Mesma hora, hein?
sexta-feira, 30 de março de 2007
Garoto de pobre
Geraldo Filme
Garoto de pobre só pode estudar
Em escola de samba
Ou andar pelas ruas
Jogado ao léu
Implorando a bondade dos homens
Aguardando a justiça do céu
Seu lápis é sua baqueta
Que bate o seu tamborim
Ninguém olha esse coitado,
Senhor, qual será o seu fim?
Na escola de samba da vida
É onde ele vai estudar
Ensaia o ano inteiro
Tem provas no carnaval
Ele desce dos morros
Ele vem das vilas
E chega à Cidade
Alegra os turistas
Recebe os aplausos da sociedade
Se criar novos passos
Criar nova ginga
Ou compor um samba:
Está aprovado,
Recebe o garoto o diploma de bamba!
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Garoto de pobre só pode estudar
Em escola de samba
Ou andar pelas ruas
Jogado ao léu
Implorando a bondade dos homens
Aguardando a justiça do céu
Seu lápis é sua baqueta
Que bate o seu tamborim
Ninguém olha esse coitado,
Senhor, qual será o seu fim?
Na escola de samba da vida
É onde ele vai estudar
Ensaia o ano inteiro
Tem provas no carnaval
Ele desce dos morros
Ele vem das vilas
E chega à Cidade
Alegra os turistas
Recebe os aplausos da sociedade
Se criar novos passos
Criar nova ginga
Ou compor um samba:
Está aprovado,
Recebe o garoto o diploma de bamba!
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
Na escola de samba
Aprende a rir
Aprende a sofrer
Aprende a chorar
Mas não sabe ler, doutor,
Seu destino qual será?
quinta-feira, 29 de março de 2007
Amores de balcão
Aviso, de antemão, que este texto é para iniciados. E o alerta é, como me foi ensinado, em prol dos incautos. Porque o mistério iniciático não é, como pensa o vulgo, nem recompensa, nem privilégio. É proteção para aqueles que não tem condições de segurar o tranco. Feito o aviso, sigo.
Porque como explicar para um neófito o que representa o butiquim na vida de um cachaceiro de fé? Podemos recorrer às analogias, é claro. Deus Nosso Senhor, por exemplo, quando nos quis demonstrar o quão grande era por nós o seu amor eterno e infinito, deu-nos a conhecê-lo através da maior experiência concreta de amor que o ser mortal pode experimentar. Assim, ensinou-nos a chamá-lo de ... Pai!. E eu só fui entender isso, é claro, quando a primeira criaturinha virou pra mim os olhos pidões de jabuticaba e e balbuciou... “Pá!”
Sejamos, pois, condescendentes com os novatos do pedaço - eis que me veio outro dia a informação (pouco crível, por óbvio) que este espaço seria freqüentado por menores de trinta anos. Vou tentar ser didático. Sabe aquele sentimento que te domina toda vez que você senta pra conversar, ainda que sem a menor chance, com a garota (no feminino por questões práticas, visto que por estas plagas aparece uma mulher a cada ano e meio...) disparadamente mais bonita do colégio? A de que você está no lugar certo, na hora certa e um abraço pro mundo? Sabe também quando aquele teu colega te convida pra assistir o ensaio da banda de garagem que ele montou semana passada, certo do caminho do estrelato? Que o lugar é errado, não importa a hora? Então... Só que, com o tempo, a gente vai experimentando demais a diferença entre o (muito pouco) que é bom pra valer, o que é apenas passável (boa parte) e o oceano imenso de tudo o que realmente merece a lata de lixo da nossa História particular. E vai ficando exigente, mal acostumado e – pior! - com a sensação de que o tempo perdido é cada vez mais precioso.
Passado o intróito necessário, parece oportuno esclarecer que me disponho hoje a falar sobre o assunto que mais gosto e, de verdade mesmo, o único de que minimamente entendo. Butiquim, de novo, por que não? E só pra explicar que butiquim é fase, igual paixão. Você bebe diariamente naquela mesma pocilga, sente que ali é o melhor lugar em que você poderia estar no planeta, livre das aporrinhações do seu chefe, do mau-humor dos motoristas, dos achaques dos políticos e das broncas da dona-da-pensão. O garçom é gente boa, a cerveja é geladaça, o tira-gosto honesto. O português deixa usar o telefone e até, em situações calamitosas, troca cheque. A rapaziada que muito de vez em quando aparece pra tocar um violão só manda brasa. Pô, sair dali pra quê? Só quem só faz usufruir, que freqüenta buteco pra se exibir é que sai de casa em busca de aventura. O pé-redondo profissional, esse é, por excelência, um conservador. Não troca o certo pelo duvidoso nem por uma boa pataca do vil metal. É de uma fidelidade a que mulher nenhuma no mundo ousaria aspirar.
Minha cabeça paulistana já foi do Alemão da Antárctica, do Pena Dourada, do Krystal das Perdizes, do Cardosinho da Monte Alegre, do velho Brahma (pré “reforma”), Bom Motivo, Pé pra Fora, Bar do Bilu, Xodó da Paulita (mais conhecido como Balde) do Bar do Cidão, Ó do Borogodó, tantos outros... Meu coração carioca já foi da espelunca da Praça São Salvador, da Adeguinha Portugália, do finado Carlitos da Cinelândia, de um sem-nome na Rua Barão de Flamengo, do Estephanio's (há os amores platônicos como Paladino, Bar Luiz, Salete, e houve, é claro, paixões de carnaval, como o que contei outro dia num final de Bola Preta, o bar do Zé da Rua do Carmo, uma espelunca inconfessável na Lapa de outros tempos, mas esses fogem ao tema do dia). Ultimamente estava morando na Almirante Gavião, mas confesso que outro banzo tijucano é dono dos meus quereres – inspiração desta crônica - numa rua com nome de revolucionário anti-imperial. O nome da moça, claro, eu não conto.
Porque, meus filhos, assim como nos romances, na vida não há bem que sempre dure. Passado um tempo, aquele jeito dela mexer no cabelo que te deixava maluco, começa a suavemente te irritar. Como aquele jeito do garçom atirar a cerveja e os copos em cima da mesa. Olha, ela nunca tinha te respondido assim. E o jeito com que o português emprestou o telefone da última vez, pra falar a verdade, te deixou meio puto. Gostas dela, é verdade, mas a mãe, rapaz, a mãe não vai mesmo com a tua cara. E o Manuel não mandou embora o Severino da cozinha, só porque ele chegou de fogo no dia seguinte do campeonato do Mengão? Você não acha que a pequena anda, assim, um tanto diferente? A dobradinha, terça passada, não tava a mesma coisa... Ela é bonita, não tenha dúvida, mas você reparou na morena que mudou pro 203? Tomei uma gelada com salaminho ontem ali no Ceará...
Pronto. Teu coração bateu asas, c'est la vie! Uma nova fase se anuncia. Com a diferença de que a gente, sem mulher, afoga as mágoas no buteco. Mas sem bar, não há mulher no mundo que nos console!
terça-feira, 27 de março de 2007
Estupro
Expira esta semana o prazo final para os munícipes da nossa triste Cidade adequarem-se ao mais recente desatino da razão imperial pseudo-pública a que já nos referimos neste espaço. Inapelavelmente, garantem os construtores de mais um delírio normocrático, até o fim-de-semana São Paulo estará livre de outdoors, placas de publicidade, letreiros, cartazes, luminosos, toldos e qualquer coisa que aluda a marcas particulares, com exceção futura, por óbvio, daquelas que o poder “público” resolver alugar arbitrariamente em proveito próprio.
E assim, de alguns dias para cá, a Velha Senhora tem começado melancolicamente a se despir, exibindo as vergonhas menos tristes pelas judiarias do tempo e da vida do que pela violência com que estão sendo postas a nu. Não o desvestimento natural do banho, nem a nudez voluptuosa do sexo, antes o despojamento forçado, brutal do estupro, indignidade suprema e imperdoável. Privada das dissimulações de suas rotas farpelas, eis que vê emergir o insuportável impudor dos seus esconsos violados até os limites últimos da integridade plausível de sua alma.
Desvela-se, assim, pouco a pouco, não um corpo, mas um monstrengo deformado nas pequenas e grandes dimensões de sua persona subjugada. Uma anciã cuja psique não sobreviveu ao incontrolado dos próprios desatinos, aos seus desejos paranóicos de não-ser, de consumir-se desenfreada e incessantemente, pelo simples “prazer” de ver girar a roda viva da grana que ergue e destrói todas as coisas, belas ou não. Que perdeu completamente a capacidade de manter-se íntegra a despeito de sua tão propalada auto-suficiência.
E a nós, de quem foram arrancadas impiedosamente todas e quaisquer possibilidades de diferenciação, de reconhecimento, de orientação, a quem foram peremptoriamente negadas as verdades simples de ruas e casas e lembranças, só nos restava a pantomima burlesca de marcas e placas e anúncios e letreiros. Pois se o nosso mundo de verdade foi destruído, um mundo honesto de vizinhos, farmácias, açougues e butecos, como podem agora nos querer arrancar dos simulacros aos quais, mais ou menos coletivamente, tivemos que nos agarrar para sobreviver na indistinção do caos induzido? É verdade que cada cidade tem o Redentor que merece, mas como é, meu Deus, que vamos nos guiar pelas noites náufragas sem o relógio do Itaú a luzir como um farol de esperança e Consolação?
Sobreviverá a Cidade, afinal, a si mesma? Suportará o horror das chagas que por tantos anos se auto impingiu? Será minimamente possível esperar que nossa verdade, enfim, nos liberte? Ou os infernos acolherão, por fim, os restos infectos dizimados por purulências de gangrenas irreversíveis?
segunda-feira, 26 de março de 2007
Outono do meu tempo
E enfim é outono. Quinto dia da nova estação, duas crises alérgicas, como previsto. Porque, curiosamente, mesmo encovado diariamente sob estas catacumbas de concreto, luz artificial, ar artificial – quinhão pessoal das galés a que universalmente fomos sentenciados desde a queda de Adão -, minha fisiologia íntima teima em responder aos apelos da natureza.
Por mais que eu tenha que correr desesperado à porta quando alguém grita “olha a chuva!!” - e que, mais!, se ali chegando, tanto ainda meu coração se apequene, restantes no chão não mais que meia dúzia de pocinhas, espelhos da minha mágoa, tonitruando a voz de um diabólico marcante de uma quadrilha kafkiana: “já passou!!!” - é aí, e de nenhum modo mais, que eu sou verdadeiramente carioca, suburbano, que sou sertanejo e que sou caboclo. Que sou brasileiro! É no meu coração de passarinho, que silencia com a chuva e se põe a semear sob o pálio azul, que se assenta meu pacto inquebrantável com esta Terra, que um dia, oxalá!, me há de matar.
Se o equinócio de outono marca para muitos povos ancestrais o início de um novo ciclo, um novo “ano”, segundo nossos padrões, a Estação, para os paulistanos que ainda têm olhos para ver, é um tempo rigorosamente inadiável. Nesta terra em preto-e-branco (os mais novos, favor consultarem os pais, livros, os arquivos, oráculos ou o diabo-que-os-carregue), em que à sede dos olhos costumam bastar as escalas de cinza, o outono é um período ímpar de luzes e cores. Só em abril e em maio se pode ver o céu verdadeiramente azul; só as suas manhãs possuem aquela luminosidade lânguida que remete a passeios distendidos de pés úmidos de relvas e folhas caídas: croch...
E de repente, não mais que de repente, acorda-se numa manhã e a Mão alteada, severa e respeitável, grita um “basta!” à claridade desnecessária, agressiva do verão. As torrentes avassaladoras de março parecem estancadas a um comando superior. E em honra à esperada temperança, os anjos saíram a lustrar os prédios e as árvores, os carros e os jardins, que generosamente respondem com um brilho renovado, fresco, ainda que sóbrio. E é assim que, súbito, nos vemos despojados das nossas premências de fazer e providenciar e resolver. Toda vaidade, toda prepotência parecem momentaneamente respeitosas de uma outra ordem, mais serena, mais composta, menos opressiva. E o telefone pode tocar, impune, enquanto adivinhamos as tentativas impressionistas dos raios de sol no pé de pitanga em frente.
Ora, como sempre, direis que envelheço, que a primavera é das crianças e o verão é dos jovens. Mas se o inverno, sabidamente, é de ninguém, e porque não estou em Copacabana nem na Aldeia Campista; porque não posso apanhar um ônibus para o Ver-o-Peso, me debruçar sobre a Baía, nem subir as dunas adivinhando a cor do mar, mais do que nunca faz-se mister, senhores, que se adiem as urgências, que se desmarquem os compromissos, que se alivie a agenda. É preciso parar para reencontrar a decaída intimidade com o instante; para desatrofiar os olhos e – ai! - o coração.
Por mais que eu tenha que correr desesperado à porta quando alguém grita “olha a chuva!!” - e que, mais!, se ali chegando, tanto ainda meu coração se apequene, restantes no chão não mais que meia dúzia de pocinhas, espelhos da minha mágoa, tonitruando a voz de um diabólico marcante de uma quadrilha kafkiana: “já passou!!!” - é aí, e de nenhum modo mais, que eu sou verdadeiramente carioca, suburbano, que sou sertanejo e que sou caboclo. Que sou brasileiro! É no meu coração de passarinho, que silencia com a chuva e se põe a semear sob o pálio azul, que se assenta meu pacto inquebrantável com esta Terra, que um dia, oxalá!, me há de matar.
Se o equinócio de outono marca para muitos povos ancestrais o início de um novo ciclo, um novo “ano”, segundo nossos padrões, a Estação, para os paulistanos que ainda têm olhos para ver, é um tempo rigorosamente inadiável. Nesta terra em preto-e-branco (os mais novos, favor consultarem os pais, livros, os arquivos, oráculos ou o diabo-que-os-carregue), em que à sede dos olhos costumam bastar as escalas de cinza, o outono é um período ímpar de luzes e cores. Só em abril e em maio se pode ver o céu verdadeiramente azul; só as suas manhãs possuem aquela luminosidade lânguida que remete a passeios distendidos de pés úmidos de relvas e folhas caídas: croch...
E de repente, não mais que de repente, acorda-se numa manhã e a Mão alteada, severa e respeitável, grita um “basta!” à claridade desnecessária, agressiva do verão. As torrentes avassaladoras de março parecem estancadas a um comando superior. E em honra à esperada temperança, os anjos saíram a lustrar os prédios e as árvores, os carros e os jardins, que generosamente respondem com um brilho renovado, fresco, ainda que sóbrio. E é assim que, súbito, nos vemos despojados das nossas premências de fazer e providenciar e resolver. Toda vaidade, toda prepotência parecem momentaneamente respeitosas de uma outra ordem, mais serena, mais composta, menos opressiva. E o telefone pode tocar, impune, enquanto adivinhamos as tentativas impressionistas dos raios de sol no pé de pitanga em frente.
Ora, como sempre, direis que envelheço, que a primavera é das crianças e o verão é dos jovens. Mas se o inverno, sabidamente, é de ninguém, e porque não estou em Copacabana nem na Aldeia Campista; porque não posso apanhar um ônibus para o Ver-o-Peso, me debruçar sobre a Baía, nem subir as dunas adivinhando a cor do mar, mais do que nunca faz-se mister, senhores, que se adiem as urgências, que se desmarquem os compromissos, que se alivie a agenda. É preciso parar para reencontrar a decaída intimidade com o instante; para desatrofiar os olhos e – ai! - o coração.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Desafio
Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro
Éramos eu e um cavalo
No seu galope macio
Pulando cerca de arame
Pisando morro de pedra
Andando em leito de rio
Éramos eu e um cavalo
E era um cavalo bravio
Casco de lâmina forte
Anca de chão de montanha
Crina de vela e pavio
Ele bufando fagulha
Eu contraído de frio
Montando em pêlo barroso
Éramos eu e um cavalo
Indo de encontro ao vazio
Éramos nós e os cavalos
Feitos do mesmo feitio
Vindo de todos os lados
E sobre eles sangrentos
Seus cavaleiros sombrios
Éramos nós e os cavalos
A nos causar calafrios
Todos os outros já mortos
Por essa causa contrária
A que se chamou poderio
E eu com uma bala no peito
Meu alazão nos baixios
Caímos de cordilheira
Deixando a causa nas lendas
Pra quem quiser desafio
Éramos eu e um cavalo
No seu galope macio
Pulando cerca de arame
Pisando morro de pedra
Andando em leito de rio
Éramos eu e um cavalo
E era um cavalo bravio
Casco de lâmina forte
Anca de chão de montanha
Crina de vela e pavio
Ele bufando fagulha
Eu contraído de frio
Montando em pêlo barroso
Éramos eu e um cavalo
Indo de encontro ao vazio
Éramos nós e os cavalos
Feitos do mesmo feitio
Vindo de todos os lados
E sobre eles sangrentos
Seus cavaleiros sombrios
Éramos nós e os cavalos
A nos causar calafrios
Todos os outros já mortos
Por essa causa contrária
A que se chamou poderio
E eu com uma bala no peito
Meu alazão nos baixios
Caímos de cordilheira
Deixando a causa nas lendas
Pra quem quiser desafio
terça-feira, 20 de março de 2007
Pára, que eu quero descer! (II)
Contei semana passada meu encontro com o bêbado do ônibus, em plena Avenida Paulista.
Centenas de cartas e mensagens chegaram à redação do Só dói nestes últimos dias. Impressionante como são ubíquas estas entidades do imaginário coletivo brasileiro. Falta, aliás, quem, despreocupado com o aparente paradoxo, seriamente se proponha a estudar o corpus mítico composto pelo vasto anedotário brasileiro - isso, é claro, enquanto a tropa de choque colonizada do politicamente correto, a mesma que quer acabar com o modo próprio de existir do brasileiro, não conseguir abolir a piada. Porque, salvo engano, nenhum outro povo cultiva, como nós, o gosto pelo inusitado, pelo desconsertante, pelo chiste e pela galhofa. Os personagens que habitam esse universo – o bêbado do ônibus, o português, o louco, a bichinha – com suas venturas e desventuras falam muito de nós e sobretudo da auto-imagem que pintamos. Dos diversos relatos recebidos, nenhum melhor do que o que segue. A entidade, agora, não é mais o bêbado, é a bichinha do ônibus. Acompanhem.
Estava meu amigo num final de bloco de carnaval, ali entre os velhos armazéns da Zona Portuária feitos de barracões; a turba reunida dava cabo do chope oferecido por conta do Abreu. A morena era um pedaço e não parava mesmo de olhar. Ria, até. Superou a insegurança adolescente e chegou junto num momento em que ela deu um tempo da turminha que até então não descolara. Sorridente, a beldade foi-se desculpando:
- Você pode até me telefonar – estendendo o papelzinho adrede preparado. Mas não posso sair com você hoje daqui. Meu amigo ali, ó – e apontou o mulato muito esguio que já lhes acenava, mãozinha desmunhecada à altura do rosto, cotovelo apoiado sobre a outra; a faixa vermelha repuxando a carapinha pro alto fazia sua testa asustadoramente comprida, escorrendo suor – tá apaixonado por você!
“Era o que me faltava”. Tentou ainda superar a incomodidade, mas ainda era um pouco mais do que sua recém-não-meninice podia dar conta. Tentou se convencer de que o telefone descolado era mais que nada, a noite não fora perdida de todo, e foi-se esperar o ônibus na Leopoldina. Madrugada alta, condução demorada, um tanto afogado entre chopes e pensamentos, só deu conta da figura que o seguia quando a distância já impedia uma manobra evasiva eficaz. Ficou ali, entre incrédulo e conformado, aturando o papo furado que, não demorou, já se transmutava em derramadas declarações de amor. Malgrado o incômodo, a semi-frustração e a cediça incapacidade juvenil para lidar com o inusitado, não queria também destroçar o coração da donzela, ora essa! O único ímpeto que não conteve foi quando viu a figura subir no coletivo, atrás de si:
- Ah, não! Tu tá te sacanagem! Tu num mora na Ilha do Governador nem por um caralho!
Pra quê... O carrro já um tanto cheio, sentou-se propositadamente num assento já meio-ocupado, sacomé?, pra evitar maiores intimidades. A bicha se postou umas quatro fileiras atrás e mandou, às lágrimas:
- Olha você me desprezou à noite inteira! Não tem importância, viu? Mesmo assim, vou cantar uma música par você nunca mais se esquecer de mim...
Pressentiu o pior, quis duvidar do realismo pouco crível da situação, mas foi beliscado de volta ao seu pesadelo, a voz afetada, entre palminhas:
Nada do que foi [clap] será
De novo [clap] do jeito que já foi [clap] um dia
Tudo passa [clap], tudo sempre [clap] passará...
E como praga de bichinha pega mil vezes mais que de cigano (só perde pra de mãe), não é que até hoje, homem feitíssimo, ao ouvir qualquer gaiato entabular o infalível hit heraclitiano de revéillon, depara nítidas na lembrança as fuças impávidas do sujeito, com o criouléo em delírio a apavorá-lo:
- Malvado, destruidor de coração!
- Fez mal, agora casa!
- Não embrulha, não, come enquanto tá quentinha!
Um troço.
segunda-feira, 19 de março de 2007
São José
Hoje é dia de São José.
Para os sertanejos, início do ciclo festivo que se estende por várias celebrações populares tradicionais como a Festa do Divino e Corpus Christi, até as festividades dos santos juninos, ocasião em que se colherá o milho que hoje deve ser plantado. Crê-se que se neste dia tivermos chuva, o inverno será chuvoso e a colheita abundante.
Para muitos europeus, como italianos e portugueses é o dia dos pais, por ter sido o venerável ancião pai de criação do Menino Jesus.
Para alguns terreiros do Brasil, o santo padroeiro dos carpinteiros é sincretizado com Oxalufã, o Oxalá “velho”, na tradição brasileira do candomblé. Parece-me que também é sincretizado, menos freqüentemente, com Airá (corrija-me o Velho Simas), “qualidade” pela qual no Brasil é invocado Xangô mais velho.
Para mim é também o último dia do verão, o que me causa uma fina e dolorida melancolia, aliada ao temor hipocondríaco das afecções alérgicas e virais que campeiam pelo outono (toc-toc-toc!).
Para mim-criança, era o dia de ir à casa dos avós austríacos José e Josefina, celebrar o onomástico (dia do santo do seu nome), que é também meu e do meu pai, comemoração tradicional e importante na Europa, em alguns lugares sobrepujando até a do aniversário. Havia, de regra, beliscos de comidinhas e troca de presentes entre os josés. E o mais legal é que os meus tios que se chamam Hilda e Frederico também entravam na dança dos zés, sob o pretexto invocado por vovó de que não houvera, ainda, fredericos ou hildas que se tivessem dignado a morrer após uma existência reconhecidamente piedosa e observante.
Essa é a mais perene lembrança do dia de São José e uma das melhores da minha vida. Peço e confio, de todo o coração, que vovô e vovó venham comer comigo hoje e continuem a verter sempre sobre nós o seu zelo carinhoso, sua sabedoria, sua proteção. E que São José nos abençoe!
Axé!
sexta-feira, 16 de março de 2007
Homens de Canivete
Fernando Sabino
Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são e os que não são de canivete.
Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão, mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as unhas.
É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente necessário.
Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a ser, como o pai, um homem de canivete.
Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:
- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?
Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados, embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria. Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida em Borboleta Amarela, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas reclamava do outro a posse de um canivete.
Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja, logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.
Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete. Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha. Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade, um simples canivete.
(in As melhores crônicas de Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record, 1986 - pp. 165-7)
Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são e os que não são de canivete.
Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão, mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as unhas.
É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente necessário.
Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a ser, como o pai, um homem de canivete.
Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:
- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?
Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados, embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria. Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida em Borboleta Amarela, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas reclamava do outro a posse de um canivete.
Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja, logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.
Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete. Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha. Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade, um simples canivete.
(in As melhores crônicas de Fernando Sabino, Rio de Janeiro, Record, 1986 - pp. 165-7)
quarta-feira, 14 de março de 2007
Pára, que eu quero descer!
Pois é, alguém já disse que o cronista tem de ter, antes de qualquer coisa, sorte.
São mil linhas de ônibus nesta cidade. Na Paulista, umas trinta pelo menos, cinco ou seis que me servem.
Quase quinze mil coletivos, para sete milhões de passageiros por dia.
Eu mesmo ontem, cansado, esfalfado, depois de uma jornada de umas quatorze horas, deixei passar bem uma meia dúzia: preguiça, queria saltar mais perto.
Subo no ônibus, só tem um lugar vazio, na primeira fila. Quem está sentado bem do meu lado, na mesma fila, separado apenas pelo corredorzinho? Ele mesmo, o bêbado. O bêbado do ônibus, o bêbado de todas as piadas de ônibus. Em pessoa.
Em dois minutos, o carro está vomitando gente pelas orelhas. Em frente à Nossa Senhora do Paraíso, nosso amigo levanta-se, faz o sinal da cruz mais estrepitoso desde que a Igreja Romana foi fundada e brada:
- Deus nos defenda!!! Deus nos defenda desse trânsito e dos motoristas de ônibus!
A platéia se contém. Noventa por cento de estudantada saída dos milhões de cursinhos e faculdades. Não sacou ainda qual é a do camarada. Uns dois ou três preocupam-se com a moça ao seu lado, seguidamente interpelada:
- Se tiver incomodando, é só a s'orita avisar!
E estendia-lhe a mão, respeitoso. Solavanco daqui, freada de lá, nosso amigo se vira para a assistência, a essa altura atenta, e manda um samba canção, em grande estilo:
- "Manhã, zzão bonita manhã..." Agossinho dos Santos... Conhecem? Conhecem naaada!
Quis emendar, mas achei melhor não dar a deixa.
- Zzuventude... Vocês, ó... não sabem de naaaaada!!
Dos meus, pensei. Sobe mais gente.
- Pra que tchime você torce?
Corinthians três, Palmeiras dois estava o placar. Entra um engravatado de oclinhos, branco, sangüíneo, com os livros todos da Getúlio Vargas mal conseguindo segurar:
- Aê, que tchime?
O administrador, bem baixinho, quase pra dentro:
- Num torço...
- Porra, mas em que planeta você nasceu??? Zzzzúpiter?
Ganhou a patuléia, que já se diverte ao riso solto. Entra a mulher de pouquíssimos amigos:
- A madame, aê, torce pra que time?
Ignorado solenemente que foi, mandou de letra:
- Sãopaulina! Só pode!
A essa altura, o povo já provocava. Entre uma e outra opinião sobre a política nacional e os prognósticos para o Campeonato Paulista, uma arrelia rodrigueana, aos berros:
- Molecaaadaaa... Vocês, ó....
E metralhava perdigotos, bochechas infladas, com a língua estralando entre os lábios protraídos, na expressão tipicamente indicativa de algo que já foi pro beleléu.
- "Lava roupa zzodo dia, que agonia..." Luiz Melodia... Conhecem pôooorra nenhuma!
"Sabe das coisas", comentou o senhor ao meu lado.
- Ôôô, mossorista... (e persignou-se, discretamente agora, apenas susssurrando um "Deus me defenda!"). Vou descer na Augusta. Me deixa na Augusta...
"Sabe onde vai", devolvi pro parceiro, que já esperava a tabela.
Motorista parou no Masp. Levantou de súbito, pediu licença, antecipou-se aos que vinham pra subir e se foi. Três pontos antes da Augusta. Ainda teve tempo, balançando os polegares vertidos a condenar os humilhados num coliseu imaginário e ambulante:
- Ó...Sabem de naaaada!
segunda-feira, 12 de março de 2007
Está faltando uma coisa em mim
Pedindo perdão pela pela omissão um tanto forçada, peguei o avião, correndo com razão deste frio (não há 30 graus que dêem jeito...), antes que um aventureiro lançasse mão. Procurando uma notícia boa pra trazer de volta.
E a notícia que vieram me trazer, os meus olhos não faltam dizer, guardei até onde eu pude guardar: o Rio de Janeiro, Fevereiro e Março, continua lindo... Por que será, então, que eu andei tão triste por te adorar?
Meu mano Edu? Continua sendo o maior sujeito que eu conheci, e fazendo das suas. Me explica, mano amado, o que de amor se perdeu neste Rio? Ipanema não é mais só felicidade, mas isso nossas garotas já sabiam.
Alô, torcida do Flamengo! O que é uma derrotazinha? Quarta-feira veio, tudo está no seu lugar, graças a Deus!
O Redentor segue de braços abertos, mas... e Aquele Abraço? Num canto da Mem de Sá, numa esquina qualquer, ou num bloco na Gomes Freire...
Se os meninos do Colégio Militar desfilam seus uniformes cáqui-grenás pelas tardes calorentas de amendoeiras, e não faltam as balizas do CEFET, que a Tijuca tá viva ainda lá, por que é que a vida insiste em se mostrar mais distraída dentro de um bar?... É trote, isso tudo não passa de um erro!
Ora, o Adonis continua sendo o melhor chope do mundo - o costume é a força que fala mais alto do que a natureza; e o Costa segue servindo seu bolinho de vagem. Eu quero esclarecer esse mal entendido...
Ah, as casas de Vila Isabel... Simples, com portas abertas, flores baldias e cadeiras na calçada, que São Sebastião ainda pode se salvar. Eu cheguei e escutei a vizinha falar.
Do Lamas ao Capela - que onde tem cabrito eu vou! - quando o comes-e-bebes começou, no melhor da cabritada...
Senti que o meu coração quis parar.
Num canto da Mem de Sá. Numa esquina qualquer, meu mano, ou num bloco na Gomes Freire: não apareceu!
Bateu asas. Foi-se embora.
Fechou, para todo o sempre, aquela sinuca da Rua do Riachuelo.
Vou caminhar por aí, a cantar. Tentando espantar a tristeza por onde eu passar.
sexta-feira, 9 de março de 2007
Fortuna de mulher
As muito lindas que me perdoem
mas há que se reconhecer
ser-lhes sempre disposto
o fatal atributo
que as há de propiciar
Sem dependência
do que lhes vá
veramente
Sob a carapaça
Se o do imo não corresponder
à fulgura do visível,
protegida ficará
pela detença que desconvida
ao abandono da superfície
O néscio das profundezas
Mas se das entranhas o poder
em fusão de ainda mais nobres
acalentos
for ainda superior ao verniz
A crosta não conterá
as derretedoras incandescências
que fora se cuspirão
com a força irreprimível que tudo
Movimenta
(janeiro de 2004)
quinta-feira, 8 de março de 2007
Recordar é viver
E não é que no dia 8 de março não há mesmo como não se falar delas? E por uma razão muito simples: não há dia na vida em que um homem não fale delas... E ruminando neste tema tão caro aos encontros masculinos, remeto-vos a um bate-bola entre meu mano Edu Goldenberg, este que vos escreve e o saudosíssimo Fernando Toledo, na ordem em que foram gerados, na mesa imaginária do não menos saudoso Conexão Irajá.
quarta-feira, 7 de março de 2007
O grande momento
Augusto Frederico Schmidt
A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a morte,
com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...
A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a morte,
com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...
quinta-feira, 1 de março de 2007
Desagravo paulistano
Outro dia desses, não sei se foi o meu amigo Bruno Ribeiro, não sei se foi o velho e já tão querido mestreLuís Antônio “Amarildo” Simas, um dos dois escreveu mais ou menos que o homem que não ama a sua cidade é, no fundo, no fundo, um infame. Vinda de qualquer um dos dois craques, com efeito, a sentença reveste-se de uma incontestável autoridade, visto serem, ambos, eméritos e desvelados laudatórios dos encantos de seus respectivos torrões. E assume assim, para mim, o peso acabrunhante de uma condenação.
Assume, inelutavelmente, pois essa instância tão fundamental de existência coletiva que é a cidade significa demais para mim. Mais do que de lugares ou países, mais do que de bairros ou de bares, sempre fui um homem apaixonado pelas cidades. A cidade desde muito cedo na história humana - no Oriente, na África, Grécia ou na América pré-colombiana - representou a instância mais essencial dos grupamentos humanos, a que diz mais sobre um povo e um lugar. Síntese privilegiada entre o particularismo do clã familiar e a universalidade da nação, as cidades nascem, vivem e morrem, têm personalidade, sexo e temperamento bem humanos. Por isso o amor pela cidade é um amor carnal, que pode ser ardente hoje e repugnante amanhã, porque é concreto, é histórico. O amor pelo país, pela nação, é um amor de pertencimento, tem cheiro de infância, de colo de mãe, é essencial, está plantado no fundo; mas não é orgástico, não cansa e nem faz suar.
Por isso, meus amigos, não me redime da infâmia a imagem que durante muito tempo alimentei, para escamotear minha deplorável condição, este verdadeiro aleijão moral de que me acusam os meus queridos companheiros de linhas virtuais. Não adianta enganar, como outrora tentei, que o amor pelo Rio é de amante, por Belém é de esposa e por São Paulo é de mãe (aquele que a gente não escolhe, de que a gente não consegue se desvencilhar; que a gente, mesmo, não agüenta, mas faz parte da nossa mais recôndita essência). Porque assim como mulher nenhuma toleraria de um macho amante um bem-querer que se declare “filial” (com a óbvia exceção), de um amorzinho assim canhestro nem a minha cidade é merecedora.
Não é de hoje que este espaço é preenchido das lamúrias que assaltam diariamente o coração de um brasileiro obrigado a conviver, nesta cidade, com a negação sistemática daqueles traços – por que não, daqueles sintomas? - que fazem do brasileiro um povo tão singularmente vocacionado à fortuna, a despeito de tudo e de todos. Mas sempre faço questão de separar “a cidade”, do “povo” que nesta circunscrição espacial cumpre seu degredo peregrino. E talvez resida precisamente aí esta dureza d'alma que tanto nos assusta e incomoda, na separação do inseparável, de um corpo e sua alma, de uma cidade e seu povo. Porque esta cidade, meus senhores, não pertence ao seu povo. Pertence, como uma Jerusalém romanizada, aos usurpadores, aos invasores, àqueles que querem manter o Brasil eternamente refém da ganância espoliadora da mesma meia dúzia de sempre. Eles estão por toda parte da terra tupiniquim, direis, mas cá quase mais não vemos, ao menos, o protesto, a subversão constantemente intentada, esta soberania latente que aqui e ali se manifesta, mostrando por entre as frestas da dominação artificiosa, brutal, a realidade sobre os verdadeiros donos desta terra (e o carnaval é o ápice desta sublevação). Aqui, a batalha parece sempre perdida, o território irremediavelmente ocupado, o messias definitivamente de nós esquecido. O leviatã autômato não cessa de retroalimentar com eficiência crescente todos os mecanismos tendentes à eliminação dos sujeitos pensantes, amantes, dançantes, suantes.
Não, senhores, não há desagravo, nem instância de apelação. A condenação é certa e merecida. Para aliviar a execução da pena, arguo tão somente duas atenuantes. A uma, tenho que muita gente da melhor cepa que por aqui floresce (testemunhai em minha defesa, testemunhai!) me acompanha ao cadafalso, nutrida dos mesmos sentimentos. A duas, pra valer, São Paulo não é uma cidade. São muitas cidades justapostas, assemblage de retalhos chuleados ao léu, tão díspares, tão incomensuráveis, centão disforme, melancólico e patético. Em cada porção deste
embrechado pulsa um fragmento de alma, que se não alcança um efetivo hálito de ser, possui o condão de refrear o avanço da gangrena doutra forma inevitável.
Os bairros paulistanos representam para nós a única possível instância de salvação de nosso quotidiano. Se para a redenção de nossos seres, os brasileiros de São Paulo pomo-nos a sirigaitear por aí, oferecidos a rios de janeiros, beléns e salvadores, o peso do dia-a-dia só se nos alivia com o apego desesperado a esses pequenos fragmentos de dignidade urbana. Por isso é que meu querido Júlio Vellozo não consegue deixar de cortar o cabelo na Vila Gustavo. É por isso que o Fernando Borgonovi, por mais que se embriague nas vilas madalenas, tem que tomar a sua saideira diária no caga-sangue do Jaçanã. Por isso o Arthur Favela tem que bater ponto todo domingo na pelada do Anhangüera, na sua Barra Funda.
É por isso que eu percorro, todos os dias, ávido, desesperado, as ruas da minha Lapa. Não a Lapa boêmia de Luís Martins, colorida outrora como hoje. A Lapa suburbana, operária, comercial – tão cinzentinha, coitada!- devidamente nordestina e imigrante, como devem ser os subúrbios paulistanos. É por isso, senhores. Para salvar a minha Lapa. Para salvar o pouco que a nós resta. Porque até isso nos querem tirar. Aos que nada têm, até o que têm lhes será tirado. Porque os artífices deste monstro devorador de possibilidades não cessam de obrar para aniquilar os bairros de São Paulo, suas singularidades, seus modos de ser e de morar, por ação da plaina irrefreável a transformar lugares de carne-e-osso-e-alma em zumbis espectrais de concreto e soberba.
A partir de hoje, este espaço alteará sua voz em defesa das migalhas de dignidade e vida que restam a este projeto fracassado de cidade. Quem for paulistano, que me siga.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Noturno da Lapa
Luís Martins*
“C'est une place
C'est une rue
C'est même tout un quartier...”
(Pigalle, Georges Ulmer e Géo Koger)
Assim também, exatamente, é a Lapa: uma praça, uma rua – a rua e o largo da Lapa; e em torno a Lapa, propriamente dita, certamente um dos recantos mais estranhos, sugestivos e pitorescos da cidade do Rio de Janeiro.
Para falar da Lapa – lembremos, ainda uma vez, a opinião de Manuel Bandeira - “e fazer-lhe sentir todo o prodigioso encanto, só um Joyce – e Joyce do Ulisses, com sua extraordinária força de síntese poética. Basta dizer que a Lapa é um centro de meretrício todo especial (onde vivem as mulatas mais sofisticadas do Rio) e esse meretrício se exerce no ambiente místico irradiado da velhe igreja e do convento dos franciscanos”.
Mas não só o convento e a Igreja que dão à Lapa um aspecto monumental e venerável, contrastando com a humildade dos seus velhos sobrados de portas enegrecidas pelo tempo, a pobreza de seu pequeno comércio e os desregramentos de sua vida noturna; um de seus limites extremos, que a separa das luzes da Cinelêndia, é o venerando, o histórico Passeio Público; é na Lapa que se eleva, desafiando a fúria dos séculos, o grande aqueduto dos Arcos, obra colonial, talvez a mais grandiosa e majestosa das relíquias arquitetônicas do velho Rio. Isto sem falar na escadaria monumental que sobe para o Curvelo e no pitoresco casario que desce a pino do morro de Santa Teresa sobre a rua Joaquim Silva, fazendo lembrar certos aspectos de Lisboa.
As paredes das casas, os telhados rústicos, os portais de pedra parecem impregnados do mofo do tempo; tudo aquilo transpira velhice e tristeza; e, entretanto, a Lapa é – ou era, porque me refiro aos anos 1930 – um bairro alegre. Pelo menos movimentado, agitado, cheio de músicas e tabuletas luminosas, indicando bares, restaurantes e cabarés. Na Lapa vivia o Rio noturno.
Para quem não a conheceu, hoje é difícil imaginá-la nesse período. EU não hesito em afirmar que o prestígio da Lapa na década de 1930 foi, um pouco, promoção nossa, os jovens escritores que a freqüentávamos. Nós escrevíamos sobre ela artigos, crônicas e reportagens; criávamos, assim, a sua tradição, o seu mito e a sua lenda.
Para se ter idéia da importância da Lapa desse período na vida carioca, basta lembrar o seguinte: em mil novecentos e quarenta e tantos (eu já morava em São Paulo) inaugurou-se perto da rua da Lapa, perto do bar 49, uma boate à maneira de Montmartre, arrumada e decorada por um artista da moda e com pretensões a grã-fina: o 1900. No dia da inauguração, o velho bairro ficou atulhado de carros particulares e a festa constituiu um grande acontecimento mundano. Durante alguns dias, os elegantes da Zona Sul foram ao 1900, como em Paris se vai ao Lapin Agille e aos cabarés de Pigalle, porque era “bem” divertido e chique a Lapa, afinal era o Montmartre carioca... Mas a extravagância não durou muito. Os grã-finos logo se enfastiaram. Seis meses depois de inaugurado, o elegante bar ficou às moscas; então, a Lapa o invadiu, tomou conta dele, integrando-o em sua atmosfera e em seu estilo de vida. Naquele ambiente sofisticado, todo decorado com enormes painéis que pretendiam reproduzir a vida elegante e boêmia da belle époque, dava pena verem-se soldados, marinheiros e marafonas tomando cerveja...
A instalação do 1900 fora um erro. O momento não podia ser mais inoportuno. Estávamos no tempo da guerra e esta foi, como terei ocasião de demonstrar em outro capítulo, um dos responsáveis pela melancólica decadência da Lapa.
Aliás, foi uma felicidade que tivesse malogrado essa estranha e despropositada aventura; se a guerra não tivesse acabado com a Lapa, os grã-finos, se nela se instalassem, com certeza acabariam; porque grã-fino, onde se mete, estraga tudo.
(1963)
*in Noturno da Lapa, Rio de Janeiro: José Olympio, 2004 – 4ª ed. Pp. 99 -102
“C'est une place
C'est une rue
C'est même tout un quartier...”
(Pigalle, Georges Ulmer e Géo Koger)
Assim também, exatamente, é a Lapa: uma praça, uma rua – a rua e o largo da Lapa; e em torno a Lapa, propriamente dita, certamente um dos recantos mais estranhos, sugestivos e pitorescos da cidade do Rio de Janeiro.
Para falar da Lapa – lembremos, ainda uma vez, a opinião de Manuel Bandeira - “e fazer-lhe sentir todo o prodigioso encanto, só um Joyce – e Joyce do Ulisses, com sua extraordinária força de síntese poética. Basta dizer que a Lapa é um centro de meretrício todo especial (onde vivem as mulatas mais sofisticadas do Rio) e esse meretrício se exerce no ambiente místico irradiado da velhe igreja e do convento dos franciscanos”.
Mas não só o convento e a Igreja que dão à Lapa um aspecto monumental e venerável, contrastando com a humildade dos seus velhos sobrados de portas enegrecidas pelo tempo, a pobreza de seu pequeno comércio e os desregramentos de sua vida noturna; um de seus limites extremos, que a separa das luzes da Cinelêndia, é o venerando, o histórico Passeio Público; é na Lapa que se eleva, desafiando a fúria dos séculos, o grande aqueduto dos Arcos, obra colonial, talvez a mais grandiosa e majestosa das relíquias arquitetônicas do velho Rio. Isto sem falar na escadaria monumental que sobe para o Curvelo e no pitoresco casario que desce a pino do morro de Santa Teresa sobre a rua Joaquim Silva, fazendo lembrar certos aspectos de Lisboa.
As paredes das casas, os telhados rústicos, os portais de pedra parecem impregnados do mofo do tempo; tudo aquilo transpira velhice e tristeza; e, entretanto, a Lapa é – ou era, porque me refiro aos anos 1930 – um bairro alegre. Pelo menos movimentado, agitado, cheio de músicas e tabuletas luminosas, indicando bares, restaurantes e cabarés. Na Lapa vivia o Rio noturno.
Para quem não a conheceu, hoje é difícil imaginá-la nesse período. EU não hesito em afirmar que o prestígio da Lapa na década de 1930 foi, um pouco, promoção nossa, os jovens escritores que a freqüentávamos. Nós escrevíamos sobre ela artigos, crônicas e reportagens; criávamos, assim, a sua tradição, o seu mito e a sua lenda.
Para se ter idéia da importância da Lapa desse período na vida carioca, basta lembrar o seguinte: em mil novecentos e quarenta e tantos (eu já morava em São Paulo) inaugurou-se perto da rua da Lapa, perto do bar 49, uma boate à maneira de Montmartre, arrumada e decorada por um artista da moda e com pretensões a grã-fina: o 1900. No dia da inauguração, o velho bairro ficou atulhado de carros particulares e a festa constituiu um grande acontecimento mundano. Durante alguns dias, os elegantes da Zona Sul foram ao 1900, como em Paris se vai ao Lapin Agille e aos cabarés de Pigalle, porque era “bem” divertido e chique a Lapa, afinal era o Montmartre carioca... Mas a extravagância não durou muito. Os grã-finos logo se enfastiaram. Seis meses depois de inaugurado, o elegante bar ficou às moscas; então, a Lapa o invadiu, tomou conta dele, integrando-o em sua atmosfera e em seu estilo de vida. Naquele ambiente sofisticado, todo decorado com enormes painéis que pretendiam reproduzir a vida elegante e boêmia da belle époque, dava pena verem-se soldados, marinheiros e marafonas tomando cerveja...
A instalação do 1900 fora um erro. O momento não podia ser mais inoportuno. Estávamos no tempo da guerra e esta foi, como terei ocasião de demonstrar em outro capítulo, um dos responsáveis pela melancólica decadência da Lapa.
Aliás, foi uma felicidade que tivesse malogrado essa estranha e despropositada aventura; se a guerra não tivesse acabado com a Lapa, os grã-finos, se nela se instalassem, com certeza acabariam; porque grã-fino, onde se mete, estraga tudo.
(1963)
*in Noturno da Lapa, Rio de Janeiro: José Olympio, 2004 – 4ª ed. Pp. 99 -102
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
A existência possível (cont.)
(PARTE I - continuação)
Existência possível e forma verdadeira
Qual a diferença entre “existência possível” e “forma verdadeira”, segundo o uso que aqui fazemos desses conceitos? Em primeiro lugar, enquanto o pensamento conservador pode tomar “forma” por uma apresentação acidental determinada independente do seu conteúdo material, o pensamento crítico, muito ao contrário, a toma como manifestação essencial e indestacável desse conteúdo, a maneira própria dele existir historicamente “para nós”. A primeira conseqüência evidente é que a forma como a existência se apresenta para nós, carregada de suas mazelas e negatividades, é absolutamente indissociável de seu conteúdo mais intrínseco, de sua conformação estrutural, e não apenas uma deformação acidental e circunstancial de um modelo ideal. A superação de suas negatividades não pode, então, apresentar-se como ortopraxia, como simples correção de desvios, como eficiência gerencial, mas unicamente pode dar-se como negação material e determinada do conteúdo assim informado. O pensamento crítico, assim, penetra nas estruturas profundas do conteúdo historicamente situado e nega as formas presentes e determinadas da existência como dotadas de qualquer necessidade, verdade, ou realidade privilegiada em relação a outras formas possíveis.
Assim, a forma possível não é determinada nem sequer determinável genericamente. Não está presente num ponto mais ou menos definido ou definível. Situa-se no campo do não-ser. Só é construível a partir da negação determinada das estruturas dadas, ou, se quisermos, das negatividades (mazelas) encontráveis na forma dada da existência. Por isso é tão difícil para o conservador atribuir a essa forma possível um estatuto de realidade comparável à forma presentemente dada. Situa-se no oceano imenso e pouco navegado da possibilidade construenda. Muito diferente da “forma verdadeira”, definida e definível por parâmetros previamente estabelecidos, perfeitamente situável, familiar. A existência possível, assim, não se apresenta como utopia, como projeto salvaguardado num não-lugar extrínseco ao tempo e espaço, mas, muito mais, como um não-projeto situado em todos os lugares, presente a confrontar criticamente todas as formas dadas da existência, negando-as e sendo por elas negada, rumo à superação das negatividades apreendidas. Apresenta-se, antes, como processo, como movimento permanente e perpétuo, como tensão dialética entre o dado e o possível – o que “é” e o que “não é”, com idênticos estatutos de realidade/racionalidade, a negarem-se mútua e incessantemente até o infinito. A “forma verdadeira”, por sua vez, reduz essa tensão dialética entre o dado e o possível a uma mera relação entre ato e potência, onde o que pode ser já é, já está contido no que é, bastando para que se atualize a disposição ideal das condições favoráveis.
A partir do que ficou apresentado, percebemos que qualquer doutrina do fim ou do sentido da história, tenha contornos religiosos, políticos ou filosóficos, vai se apresentar conservadora no sentido que aqui emprestamos. Sempre que o processo se detém, que o movimento se encastela numa forma determinada, ideal ou verdadeira, sempre que se abrir mão da crítica e da negação possíveis, temos a morte da possibilidade. O paraíso e o nirvana são tão imobilizadores da emancipação humana quanto o estado prussiano de Hegel ou a sociedade comunista idealizada. Mais, qualquer parâmetro particular ideal que se ponha a positivamente confrontar as formas dadas da existência, seja a Liberdade, a Igualdade, a Democracia, etc. operam o mesmo papel, qual seja de escamotear a necessária negação dos conteúdos materiais e das estruturas que engendram as negatividades essenciais. Não que essas positividades não tenham o seu papel no curso quotidiano da vida, da existência e, por assim dizer, da sobrevivência: o têm, indiscutivelmente, e disso trataremos noutra parte. Apenas situam-se num grau de consciência limitado, que tem a sua utilidade, mas que impingem transtornos insuperáveis ao progresso do conhecimento crítico, à superação das negatividades da existência dada, toda vez que não se contêm em seus limites de uso estritos.
Existência possível e forma verdadeira
Qual a diferença entre “existência possível” e “forma verdadeira”, segundo o uso que aqui fazemos desses conceitos? Em primeiro lugar, enquanto o pensamento conservador pode tomar “forma” por uma apresentação acidental determinada independente do seu conteúdo material, o pensamento crítico, muito ao contrário, a toma como manifestação essencial e indestacável desse conteúdo, a maneira própria dele existir historicamente “para nós”. A primeira conseqüência evidente é que a forma como a existência se apresenta para nós, carregada de suas mazelas e negatividades, é absolutamente indissociável de seu conteúdo mais intrínseco, de sua conformação estrutural, e não apenas uma deformação acidental e circunstancial de um modelo ideal. A superação de suas negatividades não pode, então, apresentar-se como ortopraxia, como simples correção de desvios, como eficiência gerencial, mas unicamente pode dar-se como negação material e determinada do conteúdo assim informado. O pensamento crítico, assim, penetra nas estruturas profundas do conteúdo historicamente situado e nega as formas presentes e determinadas da existência como dotadas de qualquer necessidade, verdade, ou realidade privilegiada em relação a outras formas possíveis.
Assim, a forma possível não é determinada nem sequer determinável genericamente. Não está presente num ponto mais ou menos definido ou definível. Situa-se no campo do não-ser. Só é construível a partir da negação determinada das estruturas dadas, ou, se quisermos, das negatividades (mazelas) encontráveis na forma dada da existência. Por isso é tão difícil para o conservador atribuir a essa forma possível um estatuto de realidade comparável à forma presentemente dada. Situa-se no oceano imenso e pouco navegado da possibilidade construenda. Muito diferente da “forma verdadeira”, definida e definível por parâmetros previamente estabelecidos, perfeitamente situável, familiar. A existência possível, assim, não se apresenta como utopia, como projeto salvaguardado num não-lugar extrínseco ao tempo e espaço, mas, muito mais, como um não-projeto situado em todos os lugares, presente a confrontar criticamente todas as formas dadas da existência, negando-as e sendo por elas negada, rumo à superação das negatividades apreendidas. Apresenta-se, antes, como processo, como movimento permanente e perpétuo, como tensão dialética entre o dado e o possível – o que “é” e o que “não é”, com idênticos estatutos de realidade/racionalidade, a negarem-se mútua e incessantemente até o infinito. A “forma verdadeira”, por sua vez, reduz essa tensão dialética entre o dado e o possível a uma mera relação entre ato e potência, onde o que pode ser já é, já está contido no que é, bastando para que se atualize a disposição ideal das condições favoráveis.
A partir do que ficou apresentado, percebemos que qualquer doutrina do fim ou do sentido da história, tenha contornos religiosos, políticos ou filosóficos, vai se apresentar conservadora no sentido que aqui emprestamos. Sempre que o processo se detém, que o movimento se encastela numa forma determinada, ideal ou verdadeira, sempre que se abrir mão da crítica e da negação possíveis, temos a morte da possibilidade. O paraíso e o nirvana são tão imobilizadores da emancipação humana quanto o estado prussiano de Hegel ou a sociedade comunista idealizada. Mais, qualquer parâmetro particular ideal que se ponha a positivamente confrontar as formas dadas da existência, seja a Liberdade, a Igualdade, a Democracia, etc. operam o mesmo papel, qual seja de escamotear a necessária negação dos conteúdos materiais e das estruturas que engendram as negatividades essenciais. Não que essas positividades não tenham o seu papel no curso quotidiano da vida, da existência e, por assim dizer, da sobrevivência: o têm, indiscutivelmente, e disso trataremos noutra parte. Apenas situam-se num grau de consciência limitado, que tem a sua utilidade, mas que impingem transtornos insuperáveis ao progresso do conhecimento crítico, à superação das negatividades da existência dada, toda vez que não se contêm em seus limites de uso estritos.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Dama das camélias
João de Barro e Alcyr Pires Vermelho
A sorrir você me apareceu
E as flores que você me deu
Guardei no cofre da recordação
Porém depois você partiu
Prá muito longe e não voltou
E a saudade que ficou
Não quis abandonar meu coração
A minha vida se resume
Oh! Dama das Camélias
Em duas flores sem perfume
Oh! Dama das Camélias
A sorrir você me apareceu
E as flores que você me deu
Guardei no cofre da recordação
Porém depois você partiu
Prá muito longe e não voltou
E a saudade que ficou
Não quis abandonar meu coração
A minha vida se resume
Oh! Dama das Camélias
Em duas flores sem perfume
Oh! Dama das Camélias
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Divagações cinerárias
A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.
O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.
É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.
Bola Preta
Reiterando o costume já quase vintaneiro, estive sábado acompanhando o Cordão da Bola Preta na minha amada cidade do Rio de Janeiro. E só agora consigo perceber o sentido profundo da transformação que pude acompanhar nessas duas décadas.
O Bola Preta representava em 1989, quando saí pela primeira vez, uma centelha de esperança do Carnaval de rua do Rio, que se reduzia a uma dúzia de bandas e blocos resistentes, esses últimos já bem contaminados de uns bobos formalismos estruturais que deturpavam o caráter da manifestação que se devia definir pela espontaneidade: disputa de samba, desfiles intermináveis ao som de uma única música, camiseta etc. O espírito da brincadeira popular regrada tão somente pela disposição foliã confinava-se no velho Cordão, com seus seis, sete mil brincantes.
Hoje são duzentas, trezentas mil pessoas que nem propriamente compõem o desfile, mas que se apinham pelas ruas repletas de gente, simplesmente para se integrar no espírito coletivo da farra, da festa, da música, da galhofa. O Bola Preta tornou-se a celebração máxima e necessária da indentidade da cidade do Rio de Janeiro, do espírito da carioquice, que se traduz na brincadeira, na espontaneidade, na gozação, no jogo de cintura, no bate-papo. Ao verdadeiro carioca impõe-se o dever de peregrinar uma vez por ano ao santuário sagrado onde repousam as relíquias de uma cultura maravilhosa, protótipo de um país que nos propusemos historicamente a construir e que segue soterrado pelos escombros da ganância dos espoliadores de sempre. Por enquanto. Daquele altar sagrado e da imolação coletiva que sobre ele se oferece em honra de uma outra existência possível jorra a seiva que nutre as nossas esperanças.
Quem já presenciou ou sabe o que o Círio de Nazaré representa para um paraense entenderá perfeitamente a imagem que procuro construir. Muito mais que uma festa religiosa, acima e independentemente das variadíssimas formas e sentimentos em relação ao divino, a celebração coletiva da identidade de um povo é ela mesma sagrada. Por isso o paraense que não pode ir a Belém no segundo domingo de outubro sente-se um exilado. Por isso, esteja onde estiver, o paraense de escol dá seu jeito de tomar açaí, comer pato no tucupi. Sozinho ou, de preferência, encontrando outro paraense, vai encher a caveira, telefonar pros parentes, colocando logo cedo pra tocar um disco velho do Pinduca.
Assim se sente um verdadeiro carioca, de nascimento ou de coração, quando, por qualquer circunstância, se vê impedido de estar vagando perdidamente pelas ruas do centro do Rio no sábado de carnaval, o dia mais importante e mais carioca do ano, muito além de qualquer 20 de janeiro ou 1º de março. Assim compreendeu sempre meu velho Tio Osias, o maior carioca que conheço. E compreender hoje o velho me emociona e me comove muito além de qualquer distância.
O povo ama o Carnaval
Na base da autorização judicial, deu-se enfim o baile de rua da Terça-feira Gorda enchendo a pequenina rua de marchas, sambas, confetes e fantasias como, sinceramente, nunca vi e não imaginaria possível. Um encontro tão improvável como absolutamente real e necessário de todas as idades, todas as procedências, todas as condições. Velhinhos e crianças, pobres e ricos, o Centro e a Periferia se entupindo de música e serpentina, nostalgia e esperança. Quem viu, viu.
Tenho sempre aqui batido na tecla da incompatibilidade desta triste cidade com o espírito do Carnaval. Ela é aparentemente feita para os seus pretensos senhores desfilarem seus automóveis, construírem os bastiões onde encastelam sua ignorância soberba, para não serem molestados por essa desagradável e incômoda ocorrência chamada vida. Mas o povo desta cidade é um povo bom e generoso, que sofre demais por ver sua alma brasileira reiteradamente acabrunhada pelos iludidos da ordenada mudernidade capitalista.
Naquelas poucas horas cavadas a fórceps judicial em meio aos dias que por si só já deviam pertencer ao povo oprimido – e eu choro escrevendo isso – vi o Brasil latejar incontido dentro da carcaça de concreto e dinheiro. E através de um aleph improvável que imaginava tão distante destas plagas, vi, num átimo, passado, presente e futuro, o Rio de Janeiro e a Bahia, África e Amazônia, condensados num toque de Zé Pereira.
Minha gratidão eterna a todos os que embarcaram conosco neste sonho, ao Capitão Caverna Leo Gola, ao grande Marcão Gramegna, os colegas músicos e toda a família Borogodó. E especialissimamente a uma certa melindrosa ruiva que iluminava o céu com o seu sorriso tímido, em cuja cabecinha, carnavalesca como poucas, brotou e cresceu a disposição de contrariar a esperada expansão eterna da impossibilidade. A ela, meus sonhos, minhas esperanças, meus filhos. Minha vida.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Pra contrariar o chefe, K. Veirinha fundou o Bola Preta
Jota Efegê

Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: "Vamos formar um cordão!" E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: "Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!" Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.
Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.
À guisa de biografia
Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinah sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos 'carapicus' estiveram instalados.
Só em 1918, depois da terrível epidemia de 'influenza espanhola', da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: "Puxa, você parece uma caveira". À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: "Viva o K. Veirinha!" Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: "o Álvaro K. Veirinha".
K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: "Os grupos e cordões que perturbarem a ordem públcia terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei". Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.
Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o "chefão" temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um "maixético e rebolativo baile" (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.
Tradição da Bola Preta
O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) pederam levar à frente o folionico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui. [*]
Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete". Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.
Saudosista, mas não muito
Afastado das homéricas "farras" dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: "Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta".
Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.
(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro, Funarte, 1982, pp 18-20.Publicado originalmente em O Jornal, edição de 27 de janeiro de 1963.)
______________________
[*] Atualmente, a sede do glorioso Cordão da Bola Preta, onde tantas vezes sambei "até o sol raiar", está penhorada judicialmente e já foi levada a leilão algumas vezes sem sucesso, por dívidas de condomínio e IPTU. O poder público, como sempre, inimigo do povo. O Bola tem hoje só cerca de setenta sócios, contra mais de mil há quinze anos atrás. Que tal uma campanha de associação em massa? O que me dizes, Edu Goldenberg? O que me dizes, Paulo Eduardo Neves? O que me dizes, Luis Antonio Simas? Vamos encarar? Se cada uma das 200 mil pessoas que segue o Cordão no sábado de carnaval doasse R$ 10,00, a dívida estaria paga!
Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: "Vamos formar um cordão!" E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: "Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!" Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.
Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.
À guisa de biografia
Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinah sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos 'carapicus' estiveram instalados.Só em 1918, depois da terrível epidemia de 'influenza espanhola', da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: "Puxa, você parece uma caveira". À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: "Viva o K. Veirinha!" Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: "o Álvaro K. Veirinha".
K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: "Os grupos e cordões que perturbarem a ordem públcia terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei". Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.
Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o "chefão" temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um "maixético e rebolativo baile" (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.
Tradição da Bola Preta
O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) pederam levar à frente o folionico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui. [*]
Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete". Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.
Saudosista, mas não muito
Afastado das homéricas "farras" dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: "Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta".
Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro, Funarte, 1982, pp 18-20.Publicado originalmente em O Jornal, edição de 27 de janeiro de 1963.)
______________________
[*] Atualmente, a sede do glorioso Cordão da Bola Preta, onde tantas vezes sambei "até o sol raiar", está penhorada judicialmente e já foi levada a leilão algumas vezes sem sucesso, por dívidas de condomínio e IPTU. O poder público, como sempre, inimigo do povo. O Bola tem hoje só cerca de setenta sócios, contra mais de mil há quinze anos atrás. Que tal uma campanha de associação em massa? O que me dizes, Edu Goldenberg? O que me dizes, Paulo Eduardo Neves? O que me dizes, Luis Antonio Simas? Vamos encarar? Se cada uma das 200 mil pessoas que segue o Cordão no sábado de carnaval doasse R$ 10,00, a dívida estaria paga!
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Negação do Carnaval
Não põe corda no meu bloco
nem vem com teu carro-chefe
não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
que a gente não precisa
que organizem nosso Carnaval
A genialidade do dramaturgo santista percebe e mostra com a força de sua verve o que toda a teoria não é capaz de tão direta, tão claramente exprimir. O dedo do poder (político, econômico) tende sempre a destruir as manifestações mais genuínas e mais expressivas do povo, essa entidade mítica onde se encontram e se articulam os diversos indivíduos e a coletividade. E isso por uma razão bem simples. Essa expressão da subjetividade popular pressupõe espontaneidade, diversidade, singularidade, integração. E essa outra instância de mediação entre os indivíduos chamada “poder” (ou “sistema”, se preferirem) baseia-se opostamente em planejamento, planificação, homogeneização, formalização, separação. No Brasil, desde o Estado Novo, percebeu-se claramente que para conter os demônios incontroláveis e transformadores que se espalham todas as vezes que o povo manifesta livremente sua alma criadora, é muito mais fácil, mais eficaz e menos traumático organizar do que reprimir. E assim se fez, reiterada e seguidamente com as mais pujantes formas expressivas do carnaval brasileiro, sendo o exemplo das escolas de samba o mais evidente apenas.
Essa promiscuidade destrutiva das expressões populares com o poder constituído não é só obra do apetite voraz do sistema, esse buraco-negro que tudo quer tragar para sua órbita inarredável, tentando prender toda complexidade e toda espontaneidade à previsibilidade de suas categoriazinhas determinadas e determináveis de antemão. É fruto também de um desejo e uma busca, no mais das vezes muito legítimos, pelo reconhecimento do valor destas manifestações perante as estruturas “oficiais”, o que se pode interpretar como uma tentativa de fazer valer para fora dos ambientes originários os mesmos padrões de valoração, de intermediação, de sociabilidade ali encontráveis. Traduzindo com exemplo: no ambiente da escola o bamba é aquele que melhor dança o samba, que é imbatível no verso de improviso, que domina com maestria os diversos instrumentos etc. O valor que lhe é atribuído tem uma conotação meritória, muito diferente das atribuições de valores na sociedade “civil”, determinadas por uma infindável série de pré-definições alheias e anteriores ao indivíduo propriamente: onde nasceu, de qual a família, qual a cor da pele etc. Isso, claro, porque é nesta dimensão “civil” que se travam as batalhas do dia-a-dia, a luta pela sobrevivência tanto material quanto simbólica e é nela que se experimenta a violência de um sistema informado pela desigualdade, apartação, apropriação. O bamba que é reconhecido e tem lugar de destaque no seio da sua comunidade pelo seu valor, quer que esse valor lhe sirva minimamente para reconhecimento também na sociedade “civil”. Nem que seja por três dias no ano. E nessa busca tão legítima quanto ingênua, ele, normalmente, se estrepa: perde o que tem e não alcança o que almeja.
Por isso lanço aqui, na contra-mão do que postula meu amigo Paulo Eduardo Neves, a campanha: prefeitura do Rio, governantes em geral, peloamordedeus, fiquem bem longe do Bola Preta, deixem o velho Codão em paz!!! Eu sei que minhas amigas vão reclamar e dizer que só digo isso porque não sou mulher, mas eu afirmo que sei bem o que vocês sofrem. Ninguém precisa de sinalização! Ninguém precisa de banheiro! O Cordão sobrevive assim há noventa anos, graças aos butiquins, matinhos, carros estacionados e toda espécie de peripécias e artimanhas. E afirmo, mais uma vez, com a autoridade de dezoito carnavais, com as cicatrizes deixadas pelos tamancos, com a moral de quem já passou mal um sem número de vezes apertado em fantasias improváveis: há que se sofrer! Carnaval é, acima de qualquer coisa, sacrifício.
"O que não tem, até o que tem lhe será tirado." (Mt 25, 28-29)
“São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste.” Pois nisso envelheceu o texto do nosso guerreiro. Porque os bailes nos clubes, de matinées e soirées monumentais que bem conheci, também não há mais. Dos quatro mais tradionais grandes clubes, sei que Corinthians, Palmeiras e Portuguesa já não fazem noites de Carnaval, não sei o Juventus. Nem nos pequenos clubes e casas tradicionais: Monte Líbano, Clube Homs, Casa de Portugal. Nem nas gafieiras, só talvez em pouquíssimos e renitentes salões de bairro. Também uma ou outra “danceteria”, mas dá arrepios até imaginar o que se ouve e vê por ali, pela amostra que tive ano passado na decadentíssima matinée palmeirense em que tentei levar minha filha e não suportamos quinze minutos. Sobram iniciativas isoladas dos Sesc's e, modéstia às favas, o Ó do Borogodó.
Por essas e outras, meus caros, é que o Ó do Borogodó, num sobre-esforço quase acima das suas forças (que eu sei), num desapego quase insano aos aspectos propriamente comerciais da história, resolveu bancar o baile da Terça-feira Gorda na rua, absolutamente de graça, com palco, orquestra, cantores, som, iluminação tudo bancado pelo bar graças ao auxílio necessário, mas insuficiente, da Cerveja Itaipava. Mesmo com todo o esforço, com todo o desprendimento (e por que não dizer, com todo prejuízo) , acreditem, senhores, a nobre Companhia de Engenharia de Tráfego – C.E.T. não quer deixar! Aliando a desculpa esfarrapada da “organização” do fluxo de veículos (esses, sim, os únicos e verdadeiros donos desta pobre cidade), com a repressão indisfarçada, imotivada, árbitrária e proposital, o poder público desta cambaleante metrópole opõe-se a colocar dois ou três cavaletes para fechar por algumas horas, uma ruela com meia dúzia de casas e um cemitério, numa Terça de Carnaval em que até a Av. Paulista vira um cemitério. Não pode. Não vai fazer. Não querem. Nem pagando a esdrúxula e exorbitante taxa que é cobrada pela referida “companhia”. A frase da engenheira (risos urinantes) que veio fazer a “inspeção técnica” a partir do pedido feito pala casa cunhou a seguinte pérola, que vou enquadrar e pendurar na parede do quarto, ad perpetuam rei memoriam, para toda vez que eu sentir começar a arrefecer meu ânimo de mudar este estado de coisas que quer tomar este país: “Este ano ainda tem uns bloquinhos por aí que a prefeitura autorizou. Mas no ano que vem a gente acaba com tudo.”
Aí eu fico a cismar, ó Simas, o que será desses que se arvoram em donos dos caminhos? O que lhes acontecerá? Poderão impunemente desafiar, caçoar, troçar do Grande Senhor? Passarão? Passarão???
nem vem com teu carro-chefe
não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
que a gente não precisa
que organizem nosso Carnaval
(Plataforma, samba de João Bosco e Aldir Blanc)
Semana passada publiquei aqui um excelente texto do grande Plínio Marcos, conhecedor mais do que autorizado das coisas do profícuo carnaval que se fazia por estas cada vez mais desalentadas plagas, assim como de tantas coisas mais dos nossos pouco visíveis subterrâneos que ele tão apropriadamente batizou de “quebradas do mundaréu”. Pois bem, hoje completam-se exatos trinta anos de publicação do artigo, e é estarrecedor perceber sua brutal atualidade, numa cidade onde absolutamente nada se conserva, em que tudo está em permanente estado de transição. E, normalmente, para pior.A genialidade do dramaturgo santista percebe e mostra com a força de sua verve o que toda a teoria não é capaz de tão direta, tão claramente exprimir. O dedo do poder (político, econômico) tende sempre a destruir as manifestações mais genuínas e mais expressivas do povo, essa entidade mítica onde se encontram e se articulam os diversos indivíduos e a coletividade. E isso por uma razão bem simples. Essa expressão da subjetividade popular pressupõe espontaneidade, diversidade, singularidade, integração. E essa outra instância de mediação entre os indivíduos chamada “poder” (ou “sistema”, se preferirem) baseia-se opostamente em planejamento, planificação, homogeneização, formalização, separação. No Brasil, desde o Estado Novo, percebeu-se claramente que para conter os demônios incontroláveis e transformadores que se espalham todas as vezes que o povo manifesta livremente sua alma criadora, é muito mais fácil, mais eficaz e menos traumático organizar do que reprimir. E assim se fez, reiterada e seguidamente com as mais pujantes formas expressivas do carnaval brasileiro, sendo o exemplo das escolas de samba o mais evidente apenas.
Essa promiscuidade destrutiva das expressões populares com o poder constituído não é só obra do apetite voraz do sistema, esse buraco-negro que tudo quer tragar para sua órbita inarredável, tentando prender toda complexidade e toda espontaneidade à previsibilidade de suas categoriazinhas determinadas e determináveis de antemão. É fruto também de um desejo e uma busca, no mais das vezes muito legítimos, pelo reconhecimento do valor destas manifestações perante as estruturas “oficiais”, o que se pode interpretar como uma tentativa de fazer valer para fora dos ambientes originários os mesmos padrões de valoração, de intermediação, de sociabilidade ali encontráveis. Traduzindo com exemplo: no ambiente da escola o bamba é aquele que melhor dança o samba, que é imbatível no verso de improviso, que domina com maestria os diversos instrumentos etc. O valor que lhe é atribuído tem uma conotação meritória, muito diferente das atribuições de valores na sociedade “civil”, determinadas por uma infindável série de pré-definições alheias e anteriores ao indivíduo propriamente: onde nasceu, de qual a família, qual a cor da pele etc. Isso, claro, porque é nesta dimensão “civil” que se travam as batalhas do dia-a-dia, a luta pela sobrevivência tanto material quanto simbólica e é nela que se experimenta a violência de um sistema informado pela desigualdade, apartação, apropriação. O bamba que é reconhecido e tem lugar de destaque no seio da sua comunidade pelo seu valor, quer que esse valor lhe sirva minimamente para reconhecimento também na sociedade “civil”. Nem que seja por três dias no ano. E nessa busca tão legítima quanto ingênua, ele, normalmente, se estrepa: perde o que tem e não alcança o que almeja.
Por isso lanço aqui, na contra-mão do que postula meu amigo Paulo Eduardo Neves, a campanha: prefeitura do Rio, governantes em geral, peloamordedeus, fiquem bem longe do Bola Preta, deixem o velho Codão em paz!!! Eu sei que minhas amigas vão reclamar e dizer que só digo isso porque não sou mulher, mas eu afirmo que sei bem o que vocês sofrem. Ninguém precisa de sinalização! Ninguém precisa de banheiro! O Cordão sobrevive assim há noventa anos, graças aos butiquins, matinhos, carros estacionados e toda espécie de peripécias e artimanhas. E afirmo, mais uma vez, com a autoridade de dezoito carnavais, com as cicatrizes deixadas pelos tamancos, com a moral de quem já passou mal um sem número de vezes apertado em fantasias improváveis: há que se sofrer! Carnaval é, acima de qualquer coisa, sacrifício.
"O que não tem, até o que tem lhe será tirado." (Mt 25, 28-29)
“São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste.” Pois nisso envelheceu o texto do nosso guerreiro. Porque os bailes nos clubes, de matinées e soirées monumentais que bem conheci, também não há mais. Dos quatro mais tradionais grandes clubes, sei que Corinthians, Palmeiras e Portuguesa já não fazem noites de Carnaval, não sei o Juventus. Nem nos pequenos clubes e casas tradicionais: Monte Líbano, Clube Homs, Casa de Portugal. Nem nas gafieiras, só talvez em pouquíssimos e renitentes salões de bairro. Também uma ou outra “danceteria”, mas dá arrepios até imaginar o que se ouve e vê por ali, pela amostra que tive ano passado na decadentíssima matinée palmeirense em que tentei levar minha filha e não suportamos quinze minutos. Sobram iniciativas isoladas dos Sesc's e, modéstia às favas, o Ó do Borogodó.
Por essas e outras, meus caros, é que o Ó do Borogodó, num sobre-esforço quase acima das suas forças (que eu sei), num desapego quase insano aos aspectos propriamente comerciais da história, resolveu bancar o baile da Terça-feira Gorda na rua, absolutamente de graça, com palco, orquestra, cantores, som, iluminação tudo bancado pelo bar graças ao auxílio necessário, mas insuficiente, da Cerveja Itaipava. Mesmo com todo o esforço, com todo o desprendimento (e por que não dizer, com todo prejuízo) , acreditem, senhores, a nobre Companhia de Engenharia de Tráfego – C.E.T. não quer deixar! Aliando a desculpa esfarrapada da “organização” do fluxo de veículos (esses, sim, os únicos e verdadeiros donos desta pobre cidade), com a repressão indisfarçada, imotivada, árbitrária e proposital, o poder público desta cambaleante metrópole opõe-se a colocar dois ou três cavaletes para fechar por algumas horas, uma ruela com meia dúzia de casas e um cemitério, numa Terça de Carnaval em que até a Av. Paulista vira um cemitério. Não pode. Não vai fazer. Não querem. Nem pagando a esdrúxula e exorbitante taxa que é cobrada pela referida “companhia”. A frase da engenheira (risos urinantes) que veio fazer a “inspeção técnica” a partir do pedido feito pala casa cunhou a seguinte pérola, que vou enquadrar e pendurar na parede do quarto, ad perpetuam rei memoriam, para toda vez que eu sentir começar a arrefecer meu ânimo de mudar este estado de coisas que quer tomar este país: “Este ano ainda tem uns bloquinhos por aí que a prefeitura autorizou. Mas no ano que vem a gente acaba com tudo.”
Aí eu fico a cismar, ó Simas, o que será desses que se arvoram em donos dos caminhos? O que lhes acontecerá? Poderão impunemente desafiar, caçoar, troçar do Grande Senhor? Passarão? Passarão???
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Socialismo carioca
Alguém melhor antes de mim já disse que o carnaval é um tempo de inversões. É certo que a idéia de inversão pode ter uma série de possibilidades, de virar de ponta-cabeça, de passar uma imagem do positivo para o negativo, de alterar a ordem etc. Confesso que me dá calafrios imaginar no que daria o Brasil de hoje se simplesmente a gente pegasse essa barafunda (no mau sentido) e saísse por aí “invertendo” aleatoriamente. Mas não estou pra teorias e, ainda bem, o carnaval não tem nada de aleatório; tem, na verdade, uma Razão superior que o guia, ainda que não seja essa razãozinha mesquinha e impertigada que nos querem fazer descer pela goela há uns quinhentos anos. É a Razão coletiva de um povo, de um grande povo, norteada pelo encontro e pela possibilidade, pela entrega e pelo encanto. Capitaneada, é claro, pelo Senhor de todos os caminhos.
O grande Luiz Antonio Simas, o maior amigo que ainda não conheci, escreveu dia desses no seu absolutamente indispensável Histórias do Brasil sobre a bobagem e inutilidade de se colocar nas ruas do Rio as tropas, o Exército, a força (risos) nacional de segurança (mais risos - notem como ando goldenbergueano!), o diabo que os carregue. Advogava ali o velho historiador que a solução para garantir a paz era colocar na rua permanentemente o Cordão da Bola Preta. E eu posso testemunhar, com a autoridade de dezoito carnavais, que em meio a multidão de gente espremida e ébria NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM vi sequer um tapa na cara. Vi, ao contrário, encoxada na mulher do próximo, que normalmente daria defunto, ser resolvida pelo “proprietário da mercadoria” com a seguinte frase: “Aê, merrmão, aqui no nosso buteco a coxinha ainda não tá liberada. Mas se quiser chegar na cerveja...” Eu juro. O maridão meteu a mão na bolsa, sacou duma lata gelada e saiu abraçado bebendo com o tirador de casquinha.
Como essas eu já andei contando várias, por aqui e pelos butiquins menos virtuais. Mas nenhuma se equiparou, verdadeiramente, à mais bem sucedida ação revolucionária de abolição do modo capitalista de produção, de dar inveja a qualquer Fidel ou Ho Chi Min. Vou contar, saldando, aliás, uma dívida ancestral.
Final de desfile do Bola, coisa de meio-dia e meia, uma hora da tarde (vejam vocês...). O ano devia ser 1991, ou 92. Nesse tempo da minha mocidade, o glorioso Cordão entrava ainda, com suas sete ou oito mil pessoas, pela Rua da Carioca, onde se dava o melhor da festa, até “acabar” na Praça Tiradentes. Acabar vai assim, entre aspas, porque era a partir daí que a coisa realmente começava a desandar. Desobrigados todos de suas sacras obrigações de folião, a bebedeira comia solta na Praça e nos seus arredores. Minto. Comia solta em todo o trecho do desfile, porque mesmo antes do fim iam parando uns aqui e outros ali e depois da “apoteose” os que vinham voltando se juntavam e assim caminhava. Pois bem. Nesse ano, entramos eu e um amigo (há testemunhas! Há testemunhas!) num buteco apinhado de gente, na esquina de Carioca com a Praça. A coisa estava caótica. O português, descostumado com a multidão em seu estabelecimento, que só enchia uma vez por ano, não conseguia minimamente dar operacionalidade à distribuição dos víveres imprescindíveis para a manutenção das tropas . E o pior é que não havia muitas opções pra se beber chope por ali (O Bar Luís, por exemplo, não abria em dia de Bola, vejam vocês...). Levava tanto tempo conseguir um tulipinha, que pedíamos os para nós dois chopes em números pares: quatro, seis, oito, conforme ia aumentando o intervalo entre cada passada do garçom. E todo vez que chegava a preciosa seiva, meu amigo se punha a gritar, bem embaixo do escudo do Vasco, no melhor estilo Sucupira: “Morra Eurico Miranda, filho de uma égua!”
Aí, meus amigos, deu-se o inacreditável. Num determinado momento, o português, bandeja de chope em riste, se esgoelava chamando o garçom que, a léguas de distância, não ouviria nem que sua tuberculose já estivesse em grau de hemoptise. Foi quando um cidadão, encastelado no balcão, tomou a bandeja do galego e berrou pro cara que estava na mesa de trás: “desova na sete!”. E o que se viu foi o buteco virar um pequeno Maracanã, a bandeja transformada numa daquelas bandeiras que se abrem deitadas na arquibancada, passeando pelo alto, de mão em mão, a coletividade automática e espontaneamente atendendo ao imperativo superior, até ser recebida na mesa certa com vibração maior do que gol aos 40 do segundo tempo! E pra quê? Percebendo que esse sistema de distribuição seria infinitamente mais efetivo do que os atônitos dois garçons a atender uma orda de bebedores insaciáveis, as bandejas passaram a ser sequestradas uma após a outra. Como o saloio naturalmente protestasse que não tinha como controlar o que era servido pra quem, um gordo suado imediatamente passou pro lado de dentro do balcão, ocupando o setor das comandas e organizando as “redes” de distribuição, que passaram a funcionar na base do adiantado. Atônito, mas visivelmente satisfeito com o grau de eficiência do sistema implantado, o nobre vascaíno nem teve forças pra protestar quando uma simpática senhora de lenço na cabeça (eu poderia dizer que havia bobes, mas a memória me trai e não quero correr o risco da mínima falta com a absoluta e estrita verdade dos fatos) assumiu o caixa, recebendo, fazendo troco.
Isso, meus caros, em questão de minutos. O português encostou-se na boqueta que dava pra cozinha e dali passou a tudo observar rigorosamente calado. Minto. Vi-o umas duas vezes franzindo os bigodes e abanando a mão para a filha desesperada que virava e mexia aparecia na porta da cozinha: “deixa, ó pá!”. Um dos garçons - eu posso garantir por essa terra que me há de comer! - encostou a uns dois metros de onde a gente estava e já livre da gravatinha borboleta e dos pudores servis aceitava as tulipas que a rapaziada teimava em lhe pagar. E assim bebeu-se por uma boa parte da tarde.
Respondam, queridos: é ou não é o socialismo?
O grande Luiz Antonio Simas, o maior amigo que ainda não conheci, escreveu dia desses no seu absolutamente indispensável Histórias do Brasil sobre a bobagem e inutilidade de se colocar nas ruas do Rio as tropas, o Exército, a força (risos) nacional de segurança (mais risos - notem como ando goldenbergueano!), o diabo que os carregue. Advogava ali o velho historiador que a solução para garantir a paz era colocar na rua permanentemente o Cordão da Bola Preta. E eu posso testemunhar, com a autoridade de dezoito carnavais, que em meio a multidão de gente espremida e ébria NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM vi sequer um tapa na cara. Vi, ao contrário, encoxada na mulher do próximo, que normalmente daria defunto, ser resolvida pelo “proprietário da mercadoria” com a seguinte frase: “Aê, merrmão, aqui no nosso buteco a coxinha ainda não tá liberada. Mas se quiser chegar na cerveja...” Eu juro. O maridão meteu a mão na bolsa, sacou duma lata gelada e saiu abraçado bebendo com o tirador de casquinha.
Como essas eu já andei contando várias, por aqui e pelos butiquins menos virtuais. Mas nenhuma se equiparou, verdadeiramente, à mais bem sucedida ação revolucionária de abolição do modo capitalista de produção, de dar inveja a qualquer Fidel ou Ho Chi Min. Vou contar, saldando, aliás, uma dívida ancestral.
Final de desfile do Bola, coisa de meio-dia e meia, uma hora da tarde (vejam vocês...). O ano devia ser 1991, ou 92. Nesse tempo da minha mocidade, o glorioso Cordão entrava ainda, com suas sete ou oito mil pessoas, pela Rua da Carioca, onde se dava o melhor da festa, até “acabar” na Praça Tiradentes. Acabar vai assim, entre aspas, porque era a partir daí que a coisa realmente começava a desandar. Desobrigados todos de suas sacras obrigações de folião, a bebedeira comia solta na Praça e nos seus arredores. Minto. Comia solta em todo o trecho do desfile, porque mesmo antes do fim iam parando uns aqui e outros ali e depois da “apoteose” os que vinham voltando se juntavam e assim caminhava. Pois bem. Nesse ano, entramos eu e um amigo (há testemunhas! Há testemunhas!) num buteco apinhado de gente, na esquina de Carioca com a Praça. A coisa estava caótica. O português, descostumado com a multidão em seu estabelecimento, que só enchia uma vez por ano, não conseguia minimamente dar operacionalidade à distribuição dos víveres imprescindíveis para a manutenção das tropas . E o pior é que não havia muitas opções pra se beber chope por ali (O Bar Luís, por exemplo, não abria em dia de Bola, vejam vocês...). Levava tanto tempo conseguir um tulipinha, que pedíamos os para nós dois chopes em números pares: quatro, seis, oito, conforme ia aumentando o intervalo entre cada passada do garçom. E todo vez que chegava a preciosa seiva, meu amigo se punha a gritar, bem embaixo do escudo do Vasco, no melhor estilo Sucupira: “Morra Eurico Miranda, filho de uma égua!”
Aí, meus amigos, deu-se o inacreditável. Num determinado momento, o português, bandeja de chope em riste, se esgoelava chamando o garçom que, a léguas de distância, não ouviria nem que sua tuberculose já estivesse em grau de hemoptise. Foi quando um cidadão, encastelado no balcão, tomou a bandeja do galego e berrou pro cara que estava na mesa de trás: “desova na sete!”. E o que se viu foi o buteco virar um pequeno Maracanã, a bandeja transformada numa daquelas bandeiras que se abrem deitadas na arquibancada, passeando pelo alto, de mão em mão, a coletividade automática e espontaneamente atendendo ao imperativo superior, até ser recebida na mesa certa com vibração maior do que gol aos 40 do segundo tempo! E pra quê? Percebendo que esse sistema de distribuição seria infinitamente mais efetivo do que os atônitos dois garçons a atender uma orda de bebedores insaciáveis, as bandejas passaram a ser sequestradas uma após a outra. Como o saloio naturalmente protestasse que não tinha como controlar o que era servido pra quem, um gordo suado imediatamente passou pro lado de dentro do balcão, ocupando o setor das comandas e organizando as “redes” de distribuição, que passaram a funcionar na base do adiantado. Atônito, mas visivelmente satisfeito com o grau de eficiência do sistema implantado, o nobre vascaíno nem teve forças pra protestar quando uma simpática senhora de lenço na cabeça (eu poderia dizer que havia bobes, mas a memória me trai e não quero correr o risco da mínima falta com a absoluta e estrita verdade dos fatos) assumiu o caixa, recebendo, fazendo troco.
Isso, meus caros, em questão de minutos. O português encostou-se na boqueta que dava pra cozinha e dali passou a tudo observar rigorosamente calado. Minto. Vi-o umas duas vezes franzindo os bigodes e abanando a mão para a filha desesperada que virava e mexia aparecia na porta da cozinha: “deixa, ó pá!”. Um dos garçons - eu posso garantir por essa terra que me há de comer! - encostou a uns dois metros de onde a gente estava e já livre da gravatinha borboleta e dos pudores servis aceitava as tulipas que a rapaziada teimava em lhe pagar. E assim bebeu-se por uma boa parte da tarde.
Respondam, queridos: é ou não é o socialismo?
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
O Carnaval dos cordões
Plínio Marcos
A tradição canavalesca de São Paulo era o cordão. Havia algumas escolas de samba, porém (e sempre tem um porém), os bambas, a pesada eram os cordões. Camisa Verde e Branco (branco mesmo), Vai-Vai, Paulistano da Glória, Campos Elíseos, Som de Cristal eram todos famosos cordões. E o cordão paulista tinha batida diferente das escolas de samba, tinha outras figuras e outras mumunhas. Eu disse "tinha". Porque, que eu saiba, não existe mais nenhum cordão em São Paulo. Os que não acabaram de vez se transformaram em escolas de samba. Como é o caso do Vai-Vai e do Camisa Verde e Branco, que foram os que mais resistiram, antes de se transformarem em escolas de samba. E o fim dos cordões, sem dúvida nenhuma, se deve ao elitismo, ao paternismo das autoridades que, quando resolvem incrementar algumas manifestações espontaneas do povo, mesmo quando estão bem intencionadas, só atrapalham. Isso porque as autoridades, sempre tão distantes das bases, tomam suas medidas dentro dos gabinetes, escutando acessores que geralmente se preocupam com o brilhareco que resulte em algum lucro e nunca nos interesses da coletividade.
No caso do samba de São Paulo, não deu outra coisa. O Prefeito Faria Lima resolveu, com a melhor das intenções, oficializar o Carnaval de São Paulo. Mas deve ter consultado gente que sempre achou que nesta cidade não havia samba, nem sambistas. E essa gente, sem vacilar, desconhecendo totalmente o que é Carnaval, desconhecendo que carnaval não se resume apenas em desfiles, nem em escolas de samba, que desfile e escolas de samba são um aspecto do carnaval, que existem vários outros aspéctos que também devem ser considerados, essa gente estava interessada na cascata que podia fazer em torno da oficialização do Carnaval e não na preservação dos costumes carnavalescos do povo desta cidade. E então, sem nenhuma cerimônia, fizeram a presepada: oficializaram o Carnaval. Mas, na lei, ficou claro que o único evento carnavalesco que a Prefeitura se via obrigada a realizar era o desfile das escolas de samba. Resultado, todo incentivo da Prefeitura para as escolas de samba e nenhum para os cordões que, diante da indiferença das autoridades, foram se extinguindo ou virando escolas de samba, puxadas aos defeitos das escolas do Rio de Janeiro (é mais fácil copiar defeito que virtude) e se desvinculando totalmente das raízes culturais de São Paulo.O samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou no Rio de Janeiro a partir da casa das "tias". O samba paulista é mais puxado ao batuque, ao samba de trabalho. Do toco, durão. O samba paulista vem das fazendas de café. O crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé. E aqui, como no Rio de Janeiro, a polícia perseguia o samba e os sambistas. No Rio de Janeiro, os pagodeiros subiam o morro e a polícia se acanhava, e aí, não havia remandiola. O samba era solto, batido na mão, espalhado pelo terreiro. Aqui, o sambista se recolhia nos porões e lá puxava o samba, mas, naturalmente, não era a mesma coisa. Um samba espalhado debaixo de um céu cheio de estrelas e de luar e um samba espremido em porões, nos quais crioulo de mais de um metro e setenta tinha que mostrar o que sabia todo dobrado, pra não bater com a testa nas vigas. E quando o pagode esquentava, era tanta poeira que subia, que só era possível saber que estava havendo samba pelo ronco da cuíca e pelo gemido do cavaquinho, porque ver, não se via ninguém.
São muitos os grandes sambistas de São Paulo: Vassourinha (Olha aí, carnavalescos de escolas de samba, que andam com mania de enredo com vida de artista: esse foi gente grande e de muita embaixada no rádio), Dionísio Camisa Verde, Marmelada, Jamburá, Feijó, Pato Nágua, Sinval, Inocêncio Mulata, Carlão do Peruche, Nenê da Vila Matilde, Pé Rachado, Zézinho do Morro da Casa Verde, Geraldão da Barra Funda, Chiclete, Zeca da Casa Verde, Toniquinho, Nego Braço, Zoinho, Dona Eunice, Sinhá, Donata, Tudo gente que mantinha o samba na rua na época em que a polícia acabava samba na base do chanfralho. Tudo gente de valor provado no meio das batalhas. Tudo gente que saía nos cordões pelo prazer de sair, por gostar de samba, por querer sambar. No centro da cidade, muitas vezes, um cordão que ía encontrava um cordão que vinha. Então, era coisa pra valente. Ninguém recuava. Os cordões se cruzavam. Tinha um ritual todo cheio de parangolé. O baliza de pau de um cordão protegia a porta-estandarte do outro cordão. Os estandartes (ou bandeiras) eram trocados com muita gentileza e muito respeito. Depois de um tempo, se destrocavam os estandartes (ou bandeiras) e aí o pau comia. Navalha, tamanco, porrete entravam na fita pra bagunçar o pagode.
Pato Nágua foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano. Amanheceu boiando numa lagoa, comido de peixe e de bala. Dizem que foi a primeira vítima do Esquadrão da Morte. Ninguém sabe direito. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga à tardinha, na hora da Ave-Maria, e logo correu pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. E por todas as quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povão chorou a morte do sambista Pato Nágua. E o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo, chorou por todos num bonito samba chamado Silêncio no Bexiga.
O Largo da Banana era o lugar onde os caminhões que vinham do interior encostavam pra descarregar. Ali se juntava a curriola. Enquanto não vinha caminhão se armava o samba duro. Se jogava a tiririca:
É tumba, moleque, é tumba
é tumba pra derrubar
tiririca, faca de ponta
capoeira vai te pegar
Dona Rita do Tabuleiro
quem derrubou meu companheiro
Abre a roda, minha gente
que comigo é diferente
E só parava na roda quem se garantia. E o Inocêncio Mulata (hoje presidente do Camisa Verde e Branco da Barra Funda) sabia tudo. Tudo e mais alguma coisa. E no Carnaval, puxava no surdão um famoso trio de couro. Ele no surdão, o Feijó na caixa de guerra e o Zoinha no tamborim. Paravam num boteco qualquer e começavam a zoar. Ia juntando gente, juntando gente e aí o rio saía pela Barra Funda, com uns duzentos sambando atrás. Na Praça Marechal, já eram dois mil, na Glete, cinco mil. Aí, era zorra, zorra total, até a polícia chegar. Foi nesse trio de couro que o Inocêncio ganhou o apelido de Mulata. Logo ele, que não é de fazer careta pra cego, resolveu aprontar pro Feijó, que não podia ver rabo de saia. O Inocêncio pegou um vestido da Dona Sinhá, meteu um turbante, se embonecou e ficou na moita. O Feijó e o Zoinha, que estavam no boteco esperando o companheiro de trio, foram tomando todas. Quando já estavam bem bebuns, e achando que o Inocêncio não viria mais, ele se apresentou vestido de mulher. Fez sucesso pro Feijó, que achou aquilo uma tremenda mulata e foi logo pagando cerveja. Mais encantado ainda ficou o Feijó quando aquela mulata pegou no surdo e mandou ver. O trio saiu. O Feijó todo preocupado com a mulata e alimentando ela com cerveja até a Glete. Aí, o Feijó resolveu partir com tudo. Se entortou. O Inocêncio tirou o turbante e se apresentou. O patuá do Feijó entortou. Mas o Inocêncio ganhou pra sempre o apelido de Mulata.
Mas a guerra se avacalhou. Não existe mais trio de couro, nem bloco de sujo, nem vai-quem-quer. Essas manifestações espontâneas do povo, que sempre a polícia tentou acabar sem conseguir, acabaram graças às promoções carnavalescas da Prefeitura. No lugar dessas coisas todas, a Prefeitura meteu o Trio Elétrico. A própria poluição sonora, que com guitarras elétricas e grandes aparelhos de som, esmagam, apagam qualquer instrumento de couro batido por um sambista. Alguns músicos defendem essa jeringonça como mercado de trabalho, mas esquecem que um toca-fitas e uma Kombi fazem o mesmo efeito que esse trio elétrico. E esquecem que falta mercado de trabalho porque muitos bailes de Carnaval em São Paulo são animados por toca-fitas e que a própria Prefeitura promove um bailão pra quarenta mil pessoas, com toca-fitas.
São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste. Porque o Carnaval sempre serviu pras manifestações espontâneas do povo. E tudo agora vai se resumindo num espetáculo pra atrair turista. Feito no gosto dos turistas e avaliado pelos padrões culturais das elites. E isso dói. Porque um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.
(Fonte: Folha de S. Paulo, 13 de fevereiro de 1977)
A tradição canavalesca de São Paulo era o cordão. Havia algumas escolas de samba, porém (e sempre tem um porém), os bambas, a pesada eram os cordões. Camisa Verde e Branco (branco mesmo), Vai-Vai, Paulistano da Glória, Campos Elíseos, Som de Cristal eram todos famosos cordões. E o cordão paulista tinha batida diferente das escolas de samba, tinha outras figuras e outras mumunhas. Eu disse "tinha". Porque, que eu saiba, não existe mais nenhum cordão em São Paulo. Os que não acabaram de vez se transformaram em escolas de samba. Como é o caso do Vai-Vai e do Camisa Verde e Branco, que foram os que mais resistiram, antes de se transformarem em escolas de samba. E o fim dos cordões, sem dúvida nenhuma, se deve ao elitismo, ao paternismo das autoridades que, quando resolvem incrementar algumas manifestações espontaneas do povo, mesmo quando estão bem intencionadas, só atrapalham. Isso porque as autoridades, sempre tão distantes das bases, tomam suas medidas dentro dos gabinetes, escutando acessores que geralmente se preocupam com o brilhareco que resulte em algum lucro e nunca nos interesses da coletividade.
No caso do samba de São Paulo, não deu outra coisa. O Prefeito Faria Lima resolveu, com a melhor das intenções, oficializar o Carnaval de São Paulo. Mas deve ter consultado gente que sempre achou que nesta cidade não havia samba, nem sambistas. E essa gente, sem vacilar, desconhecendo totalmente o que é Carnaval, desconhecendo que carnaval não se resume apenas em desfiles, nem em escolas de samba, que desfile e escolas de samba são um aspecto do carnaval, que existem vários outros aspéctos que também devem ser considerados, essa gente estava interessada na cascata que podia fazer em torno da oficialização do Carnaval e não na preservação dos costumes carnavalescos do povo desta cidade. E então, sem nenhuma cerimônia, fizeram a presepada: oficializaram o Carnaval. Mas, na lei, ficou claro que o único evento carnavalesco que a Prefeitura se via obrigada a realizar era o desfile das escolas de samba. Resultado, todo incentivo da Prefeitura para as escolas de samba e nenhum para os cordões que, diante da indiferença das autoridades, foram se extinguindo ou virando escolas de samba, puxadas aos defeitos das escolas do Rio de Janeiro (é mais fácil copiar defeito que virtude) e se desvinculando totalmente das raízes culturais de São Paulo.O samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou no Rio de Janeiro a partir da casa das "tias". O samba paulista é mais puxado ao batuque, ao samba de trabalho. Do toco, durão. O samba paulista vem das fazendas de café. O crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé. E aqui, como no Rio de Janeiro, a polícia perseguia o samba e os sambistas. No Rio de Janeiro, os pagodeiros subiam o morro e a polícia se acanhava, e aí, não havia remandiola. O samba era solto, batido na mão, espalhado pelo terreiro. Aqui, o sambista se recolhia nos porões e lá puxava o samba, mas, naturalmente, não era a mesma coisa. Um samba espalhado debaixo de um céu cheio de estrelas e de luar e um samba espremido em porões, nos quais crioulo de mais de um metro e setenta tinha que mostrar o que sabia todo dobrado, pra não bater com a testa nas vigas. E quando o pagode esquentava, era tanta poeira que subia, que só era possível saber que estava havendo samba pelo ronco da cuíca e pelo gemido do cavaquinho, porque ver, não se via ninguém.
São muitos os grandes sambistas de São Paulo: Vassourinha (Olha aí, carnavalescos de escolas de samba, que andam com mania de enredo com vida de artista: esse foi gente grande e de muita embaixada no rádio), Dionísio Camisa Verde, Marmelada, Jamburá, Feijó, Pato Nágua, Sinval, Inocêncio Mulata, Carlão do Peruche, Nenê da Vila Matilde, Pé Rachado, Zézinho do Morro da Casa Verde, Geraldão da Barra Funda, Chiclete, Zeca da Casa Verde, Toniquinho, Nego Braço, Zoinho, Dona Eunice, Sinhá, Donata, Tudo gente que mantinha o samba na rua na época em que a polícia acabava samba na base do chanfralho. Tudo gente de valor provado no meio das batalhas. Tudo gente que saía nos cordões pelo prazer de sair, por gostar de samba, por querer sambar. No centro da cidade, muitas vezes, um cordão que ía encontrava um cordão que vinha. Então, era coisa pra valente. Ninguém recuava. Os cordões se cruzavam. Tinha um ritual todo cheio de parangolé. O baliza de pau de um cordão protegia a porta-estandarte do outro cordão. Os estandartes (ou bandeiras) eram trocados com muita gentileza e muito respeito. Depois de um tempo, se destrocavam os estandartes (ou bandeiras) e aí o pau comia. Navalha, tamanco, porrete entravam na fita pra bagunçar o pagode.
Pato Nágua foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano. Amanheceu boiando numa lagoa, comido de peixe e de bala. Dizem que foi a primeira vítima do Esquadrão da Morte. Ninguém sabe direito. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga à tardinha, na hora da Ave-Maria, e logo correu pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. E por todas as quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povão chorou a morte do sambista Pato Nágua. E o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo, chorou por todos num bonito samba chamado Silêncio no Bexiga.
O Largo da Banana era o lugar onde os caminhões que vinham do interior encostavam pra descarregar. Ali se juntava a curriola. Enquanto não vinha caminhão se armava o samba duro. Se jogava a tiririca:
É tumba, moleque, é tumba
é tumba pra derrubar
tiririca, faca de ponta
capoeira vai te pegar
Dona Rita do Tabuleiro
quem derrubou meu companheiro
Abre a roda, minha gente
que comigo é diferente
E só parava na roda quem se garantia. E o Inocêncio Mulata (hoje presidente do Camisa Verde e Branco da Barra Funda) sabia tudo. Tudo e mais alguma coisa. E no Carnaval, puxava no surdão um famoso trio de couro. Ele no surdão, o Feijó na caixa de guerra e o Zoinha no tamborim. Paravam num boteco qualquer e começavam a zoar. Ia juntando gente, juntando gente e aí o rio saía pela Barra Funda, com uns duzentos sambando atrás. Na Praça Marechal, já eram dois mil, na Glete, cinco mil. Aí, era zorra, zorra total, até a polícia chegar. Foi nesse trio de couro que o Inocêncio ganhou o apelido de Mulata. Logo ele, que não é de fazer careta pra cego, resolveu aprontar pro Feijó, que não podia ver rabo de saia. O Inocêncio pegou um vestido da Dona Sinhá, meteu um turbante, se embonecou e ficou na moita. O Feijó e o Zoinha, que estavam no boteco esperando o companheiro de trio, foram tomando todas. Quando já estavam bem bebuns, e achando que o Inocêncio não viria mais, ele se apresentou vestido de mulher. Fez sucesso pro Feijó, que achou aquilo uma tremenda mulata e foi logo pagando cerveja. Mais encantado ainda ficou o Feijó quando aquela mulata pegou no surdo e mandou ver. O trio saiu. O Feijó todo preocupado com a mulata e alimentando ela com cerveja até a Glete. Aí, o Feijó resolveu partir com tudo. Se entortou. O Inocêncio tirou o turbante e se apresentou. O patuá do Feijó entortou. Mas o Inocêncio ganhou pra sempre o apelido de Mulata.
Mas a guerra se avacalhou. Não existe mais trio de couro, nem bloco de sujo, nem vai-quem-quer. Essas manifestações espontâneas do povo, que sempre a polícia tentou acabar sem conseguir, acabaram graças às promoções carnavalescas da Prefeitura. No lugar dessas coisas todas, a Prefeitura meteu o Trio Elétrico. A própria poluição sonora, que com guitarras elétricas e grandes aparelhos de som, esmagam, apagam qualquer instrumento de couro batido por um sambista. Alguns músicos defendem essa jeringonça como mercado de trabalho, mas esquecem que um toca-fitas e uma Kombi fazem o mesmo efeito que esse trio elétrico. E esquecem que falta mercado de trabalho porque muitos bailes de Carnaval em São Paulo são animados por toca-fitas e que a própria Prefeitura promove um bailão pra quarenta mil pessoas, com toca-fitas.
São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste. Porque o Carnaval sempre serviu pras manifestações espontâneas do povo. E tudo agora vai se resumindo num espetáculo pra atrair turista. Feito no gosto dos turistas e avaliado pelos padrões culturais das elites. E isso dói. Porque um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.
(Fonte: Folha de S. Paulo, 13 de fevereiro de 1977)
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
A existência possível
PARTE I
Não sei se efetivamente é mais assombrosa a existência ou a consciência que dela podemos tomar. Porque é fato que o nada permanece, se pensarmos bem, indiscutivelmente mais plausível. Mas não bastasse o contra-senso primeiro que é existir o universo em geral e as coisas diversas em particular, existimos também nós que podemos não só fazer esta constatação, mas ainda especulativamente negá-la. Diferentemente da infinita maioria dos demais entes que conosco dividem essa aventura existencial, que simplesmente existem e pronto. Ou, por outro modo, são massacrados e oprimidos por sua existência, em si mesma acachapante e invencível.
Cinismo, conservadorismo, criticismo
Não nós, por certo. A consciência da existência e, acima de tudo, a capacidade de negá-la, ainda que conceitualmente, nos dá como que uma vitória sobre a existência dada, que não tem sobre nós, portanto, o mesmo poder absoluto e avassalador que tem sobre os demais entes. E poder negar conceitualmente a existência ela mesma nos permite da mesma sorte negar uma certa existência dada (vale dizer, uma determinada forma da existência), que para nós igualmente passa a estar destituída desse estatuto de necessidade invencível. É este o ponto no qual passamos de uma consciência meramente perceptiva, constatadora, para uma consciência conceitual. A esse nível da consciência posso chamar crítico, eis que se caracteriza pela faculdade de conceber, para além da existência dada, uma outra existência possível. Essa faculdade passa necessariamente pela admissão de que uma outra existência possível assim concebida tem um estatuto de realidade comparável ao da forma de existência apreendida a partir das circunstâncias meramente constatadas. Trata-se, pois, de uma operação duplamente direcionada: destituir a forma percebida da existência da sua condição de forma por excelência da realidade e atribuir às formas concebidas da existência possível um estatuto de realidade além da mera utopia ou disposição programática. Só com um comparável estatuto de realidade essa existência possível pode, por um lado, estabelecer uma negação válida das formas presentemente dadas e, por outro, ser ela própria negada por estas últimas.
Este ponto é de fundamental importância. Porque se atribuirmos qualquer tipo de proeminência real (ou racional) das formas dadas da existência tenderemos inexoravelmente a crer ou (positivamente) que tudo não passa de uma questão de adaptação e reforma, ou (negativamente) que tudo está irremediavelmente perdido. É nesse ponto que começamos a perder o jogo para a existência dada, que mergulhamos no oceano informe e passivo dos entes inconscientes; que a razão abdica de seu efetivo poder transformador. Aí, se a consciência constata que a realidade que vivemos é repleta de males de todas as ordens, ou (negativamente) estes males são intrínsecos à estrutura da existência dada e nada poderemos fazer a respeito (a não ser salvar-se cada um por si mesmo), ou (positivamente) representam uma deformação acidental da forma presente da existência que circunstancialmente a aparta de sua forma “verdadeira” ou ideal. Daí, estas deformações podem ser revertidas através de uma espécie de ortopraxia, de uma correção de desvios. A primeira forma de acomodação da consciência, conduz, pois, ao cinismo. A segunda, que passa a nos interessar, ao conservadorismo.
O conservador, portanto, não é por definição o inimigo do progresso social, o defensor das mazelas do mundo, o beneficiário consciente e descarado de tudo o que é negativo na forma da existência dada, como freqüentemente queremos fazer crer. Esse é o cínico. O conservador é aquele que acredita que essas negatividades presentes na forma apreendida da existência são fruto de uma deformação da forma ideal da realidade (ou seja, da forma “verdadeira”). O que percebemos existente, portanto, é a realidade. Essa realidade possui uma forma ótima, ideal, que aqui chamamos verdadeira. As formas presentemente dadas apartam-se desse modelo ideal no qual toda negatividade desapareceria, cabendo à consciência descobrir essas deformações e os meios eficazes de corrigí-las. O pensamento conservador, portanto, não é cínico nem amoral. É uma forma válida (ainda que limitada) de consciência que apreende os males encontráveis na forma presentemente dada da existência como acidentais, não essenciais, corrigíveis e procura os meios eficazes de superação dessas mazelas. Não é por outro motivo que o pensamento conservador tende a adotar um discurso de eficiência administrativo-gerencial como forma de enfrentar os problemas do tempo presente, para ele contingenciais e não estruturais. A sua limitação advém, precisamente, de negar às formas possíveis da existência um estatuto de realidade/racionalidade, substituindo por uma forma “verdadeira”; vale dizer, o que separa a existência dada da existência verdadeira ou ideal é de uma natureza estritamente de forma, de conformação.
E eis porque esta forma válida de consciência, conforme frisamos, é limitada em sua capacidade de transformar a forma dada da existência. Porque de duas, uma: (1) ou não pode essa forma “verdadeira” ser estabelecida previamente senão segundo os parâmetros subjacentes às formas presentes da existência; ou (2) será estabelecida segundo parâmetros arbitrários “a priori”, sem compromisso com os dados da experiência e/ou históricos. No primeiro gênero situam-se as utopias políticas e seus consectários; no segundo, as utopias religiosas e quejandas. Num caso ou em outro, ao negar a tudo o que se situa no campo diáfano do não-ser o efetivo estatuto de realidade/racionalidade, a consciência conservadora, em sua manifestação religiosa ou política, está condenada ou a abdicar à conformação da forma dada da existência à forma verdadeira (situando-a, assim, extrinsecamente ao plano histórico, no “outro mundo”, paraíso, nirvana ou o que o valha) ou a trabalhar em abstrações ideais positivas a partir dos dados da forma presente de existência e baseado neles criar seu modelo de “forma verdadeira”. E em ambos os casos, como os adoradores do bezerro de ouro, o pensamento conservador prostra-se reverente à divindade das formas moldadas por suas próprias mãos.
Não sei se efetivamente é mais assombrosa a existência ou a consciência que dela podemos tomar. Porque é fato que o nada permanece, se pensarmos bem, indiscutivelmente mais plausível. Mas não bastasse o contra-senso primeiro que é existir o universo em geral e as coisas diversas em particular, existimos também nós que podemos não só fazer esta constatação, mas ainda especulativamente negá-la. Diferentemente da infinita maioria dos demais entes que conosco dividem essa aventura existencial, que simplesmente existem e pronto. Ou, por outro modo, são massacrados e oprimidos por sua existência, em si mesma acachapante e invencível.
Cinismo, conservadorismo, criticismo
Não nós, por certo. A consciência da existência e, acima de tudo, a capacidade de negá-la, ainda que conceitualmente, nos dá como que uma vitória sobre a existência dada, que não tem sobre nós, portanto, o mesmo poder absoluto e avassalador que tem sobre os demais entes. E poder negar conceitualmente a existência ela mesma nos permite da mesma sorte negar uma certa existência dada (vale dizer, uma determinada forma da existência), que para nós igualmente passa a estar destituída desse estatuto de necessidade invencível. É este o ponto no qual passamos de uma consciência meramente perceptiva, constatadora, para uma consciência conceitual. A esse nível da consciência posso chamar crítico, eis que se caracteriza pela faculdade de conceber, para além da existência dada, uma outra existência possível. Essa faculdade passa necessariamente pela admissão de que uma outra existência possível assim concebida tem um estatuto de realidade comparável ao da forma de existência apreendida a partir das circunstâncias meramente constatadas. Trata-se, pois, de uma operação duplamente direcionada: destituir a forma percebida da existência da sua condição de forma por excelência da realidade e atribuir às formas concebidas da existência possível um estatuto de realidade além da mera utopia ou disposição programática. Só com um comparável estatuto de realidade essa existência possível pode, por um lado, estabelecer uma negação válida das formas presentemente dadas e, por outro, ser ela própria negada por estas últimas.
Este ponto é de fundamental importância. Porque se atribuirmos qualquer tipo de proeminência real (ou racional) das formas dadas da existência tenderemos inexoravelmente a crer ou (positivamente) que tudo não passa de uma questão de adaptação e reforma, ou (negativamente) que tudo está irremediavelmente perdido. É nesse ponto que começamos a perder o jogo para a existência dada, que mergulhamos no oceano informe e passivo dos entes inconscientes; que a razão abdica de seu efetivo poder transformador. Aí, se a consciência constata que a realidade que vivemos é repleta de males de todas as ordens, ou (negativamente) estes males são intrínsecos à estrutura da existência dada e nada poderemos fazer a respeito (a não ser salvar-se cada um por si mesmo), ou (positivamente) representam uma deformação acidental da forma presente da existência que circunstancialmente a aparta de sua forma “verdadeira” ou ideal. Daí, estas deformações podem ser revertidas através de uma espécie de ortopraxia, de uma correção de desvios. A primeira forma de acomodação da consciência, conduz, pois, ao cinismo. A segunda, que passa a nos interessar, ao conservadorismo.
O conservador, portanto, não é por definição o inimigo do progresso social, o defensor das mazelas do mundo, o beneficiário consciente e descarado de tudo o que é negativo na forma da existência dada, como freqüentemente queremos fazer crer. Esse é o cínico. O conservador é aquele que acredita que essas negatividades presentes na forma apreendida da existência são fruto de uma deformação da forma ideal da realidade (ou seja, da forma “verdadeira”). O que percebemos existente, portanto, é a realidade. Essa realidade possui uma forma ótima, ideal, que aqui chamamos verdadeira. As formas presentemente dadas apartam-se desse modelo ideal no qual toda negatividade desapareceria, cabendo à consciência descobrir essas deformações e os meios eficazes de corrigí-las. O pensamento conservador, portanto, não é cínico nem amoral. É uma forma válida (ainda que limitada) de consciência que apreende os males encontráveis na forma presentemente dada da existência como acidentais, não essenciais, corrigíveis e procura os meios eficazes de superação dessas mazelas. Não é por outro motivo que o pensamento conservador tende a adotar um discurso de eficiência administrativo-gerencial como forma de enfrentar os problemas do tempo presente, para ele contingenciais e não estruturais. A sua limitação advém, precisamente, de negar às formas possíveis da existência um estatuto de realidade/racionalidade, substituindo por uma forma “verdadeira”; vale dizer, o que separa a existência dada da existência verdadeira ou ideal é de uma natureza estritamente de forma, de conformação.
E eis porque esta forma válida de consciência, conforme frisamos, é limitada em sua capacidade de transformar a forma dada da existência. Porque de duas, uma: (1) ou não pode essa forma “verdadeira” ser estabelecida previamente senão segundo os parâmetros subjacentes às formas presentes da existência; ou (2) será estabelecida segundo parâmetros arbitrários “a priori”, sem compromisso com os dados da experiência e/ou históricos. No primeiro gênero situam-se as utopias políticas e seus consectários; no segundo, as utopias religiosas e quejandas. Num caso ou em outro, ao negar a tudo o que se situa no campo diáfano do não-ser o efetivo estatuto de realidade/racionalidade, a consciência conservadora, em sua manifestação religiosa ou política, está condenada ou a abdicar à conformação da forma dada da existência à forma verdadeira (situando-a, assim, extrinsecamente ao plano histórico, no “outro mundo”, paraíso, nirvana ou o que o valha) ou a trabalhar em abstrações ideais positivas a partir dos dados da forma presente de existência e baseado neles criar seu modelo de “forma verdadeira”. E em ambos os casos, como os adoradores do bezerro de ouro, o pensamento conservador prostra-se reverente à divindade das formas moldadas por suas próprias mãos.
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