terça-feira, 16 de maio de 2006
Terça-feira de cinzas
Aterrorizado com a irresponsabilidade e a falta de mínimo compromisso ético de veículos de comunicação de massa, concessionários de serviço público, a disseminar indiscriminadamente um sem número de boatos com o intuito único do faturamento comercial. Esses deveriam ser os primeiros bandidos a serem presos.
Aterrorizado com a facilidade com que uma população inteira, capitaneada por uma elite com acesso a automóveis e computadores, se deixa irracionalmente levar ao estado de pânico; seu absoluto estranhamento e despreparo em relação ao mundo de violência que domina o cotidiano de noventa por cento da população brasileira.
Aterrorizado pelo desfile de autoridades e pseudo-analistas em dezenas de depoimentos absolutamente - quero repetir: ABSOLUTAMENTE - incapazes de passar da estrita superficialidade dos fênomenos ocorridos, tratando de reduzí-los a implicações e explicações de cunho administrativo-gerencial, a única lógica que a sociedade coisificada parece capaz de compreender. Debater sobre formas e modelos desprovidos de conteúdo material é o que eles sabem, incapazes de lidar com contradições gritantes de forma minimamente operacional. Que fazem diagnósticos franceses, advogam soluções estadunidenses, sem perceber que nossa sociedade tem muito menos em comum com Holanda e Canadá do que com Ruanda ou Burundi.
Aterrorizado pelo fato de que nem a de certa forma inédita e generalizada eclosão de um estado extremo de violência possa dissuadir a média da opinião pública da idéia suicida de que a repressão deva ser intensificada. De que as pessoas continuem a pedir mais e mais violência e não percebam que é precisamente a inexistência de controles e limitações racionais do modo de proceder do aparelho repressivo que gere um campo de disputa onde vencerá o mais apto a dominar esses modos de atuação. Quando o estado usa irracional e ilimitadamente a violência - de cujo uso deveria deter o monopólio justamente por usá-la de forma estritamente racional - joga-se em uma batalha a priori perdida: os "inimigos" serão sempre mais numerosos, estarão sempre em posição geográfica provilegiada, mais disseminados, mais escondidos, mais motivados e com menos a perder.
Aterrorizado pela incapacidade das pessoas mais próximas em compreender que o clamor por uma interpretação que leve em conta a estrutura violenta da sociedade brasileira, baseada na hierarquia, no privilégio de castas e estamentos e historicamente mediada pela repressão, não configura sociologismo despreocupado de resolver as questões emergenciais que se põem para o reestabelecimento da normalidade social. Mas que, ao contrário, num momento agudo de crise, só um esforço profundo para compreender os complexos processos econômicos, políticos e simbólicos é via apta à reconstrução de alguma racionalidade capaz de desviar a rota deste nosso trem desgovernado rumo à completa dissolução das formas civilizadas. Falando na linguagem direta que a situação exige: é preciso dialogar e se entender com a bandidagem, não para se curvar quando a situação não tem mais remédio, mas para estabelecer padrões mínimos de interlocução que ponham frente a frente as forças sociais que eles representam, de um lado, e o estado de direito, de outro. É hora de encararmos que as massas excluídas, das quais a criminalidade é somente uma das vozes (a mais poderosa, por óbvio), representam uma força social presente e efetivamente constitutiva do modelo sócio-econômico que criamos e não uma anomalia na ordem constituída que se possa enfrentar reprimindo. E como tal merecem respeito, senão por sua dignidade humana abstrata, pela capacidade que adquiriram de fazer valer seus interesses, língua que a sociedade capitalista entende bem.
Aterrorizado com a passiva perplexidade das forças políticas sinceramente comprometidas com a transformação da sociedade brasileira, sua completa incapacidade de enxergar as formas presentes de negatividade que dominam as sociedades capitalistas periféricas, presas a diagnósticos historicamente desatualizados e a práticas políticas estratégicas elaboradas em face de realidades hoje superadas, se é que em algum dia tiveram lugar entre nós. Incapazes que são de perceber como as formas de opressão social e de destruição do indivíduo há muito deixaram de se restringir à extração da mais-valia, não vêem que não é mais o proletariado a encarnação da negatividade que move dialeticamente a História, muito menos que esse movimento possa não nos levar aonde pensávamos que levaria. Ignoram a complexização das formas opressivas que ensejam no substrato simbólico coletivo a identificação das vozes da resistência indistintamente com o PCC, Che Guevara e Osama Bin Laden. Enquanto estamos preocupados em ganhar os congressos estudantis e dirigir as entidades sindicais, o bonde da História está a depositar em outras mãos as forças de dissolução da ordem burguesa.
Este espaço propõe-se há quase dois anos e meio a falar de cultura. E é de cultura que se vai continuar a falar, é de cultura que se PRECISA falar, antítese única e possível da barbárie.
sexta-feira, 12 de maio de 2006
Cidade nua
É claro que já não era sem tempo. Não conheço do projeto mais do que os jornais publicaram, mas no ponto em que nos encontramos, qualquer regulação parece a princípio melhor que a barbárie geral; e não é por outro motivo que a proposta encaminhada soa rigorosa. Como, aliás, em geral no que atine à fúria devoradora do capitalismo que, deixada à própria sorte, não deixa pedra sobre pedra. Não obstante, a questão remete a uma outra, mais complicada: o que veremos, de verdade, quando o rei estiver nu? Tiradas as placas, cartazes, faixas, letreiros, luminosos, o que restará para ser visto?
Coloco a indagação porque sinto há anos na pele os efeitos da síndrome autofágica que assola muitos bairros tradicionais da cidade, sobre o que meu irmãozinho Marcão Gramegna poderia melhor discorrer. A especulação imobiliária tem destruído bairros inteiros para erguer os seus monstruosos arranha-céus, varrendo do mapa formas arquitetônicas tão diversas quanto singulares, que exprimem a distinta origem e desenvolvimento dos variados núcleos pré-urbanos da metrópole que acabaram por posteriormente se agrupar. É muito diversa a história social e econômica de bairros como Mooca, Santo Amaro, Penha, Lapa, Santana e tantos outros tão separados entre si como muitas cidades do interior paulista não o são.
Destruindo as formas habitacionais que refletem as formas específicas de sociabilidade que caracterizaram esses lugares, por óbvio também as distroem em si mesmas. Como resultado, os modos tradicionais de convivência, o jeito específico de morar, até os diferentes acentos lingüísticos vão sendo triturados nessa grande máquina de moer gente, transformando tudo numa pasta informe dominada pelas formas mais impessoais e formalizadas do modo de vida da burguesia estúpida que se apropria ilegitimamente desta cidade que não lhe pertence. Ou isso, ou a periferia judiada, abandonada, sem serviços, sem infra-estrutura, sem opções de cultura, lazer ou trabalho: violenta.
Vi isso acontecer com as Perdizes, onde nasci e cresci. Bairro de origem semi-rural, com um núcleo de população negra culturalmente ativo, berço de muitos bambas que fizeram do próximo e famoso Largo da Banana o seu palco. Até os anos oitenta, um lugar de classe média onde as pessoas se encontravam na padaria, na farmácia, no mercado do Seu Godofredo, na esquina de Turiaçu com Ministro Godói – vejam vocês... Hoje, um amontoado de prédios imensos, naquela coleção conhecida de mau gosto que vai do néo-colonial-brega até uns simulacros pseudo-modernistas com seus superapartamentos de noventa metros quadrados e piscinas, academias, xópim center, tudo para o cidadão não ter que sair na rua – esse espaço horroso e hostil (ô, Damatta!). Com a Pompéia, originalmente um bairro operário e da pequena burguesia, Santana, Tatuapé etc. etc. a mesma coisa. E assim será, lamentavelmente com a minha querida Vila Romana, se algo não for feito urgentemente.
Desde que mudei para o bairro há quatro anos, várias fábricas já sucumbiram para dar lugar a edifícios. Na esquina da casa de mamãe, na Rua Fábia com Duílio, um quarteirão inteirinho de pequenas casas de uma antiga vila operária foi posto abaixo. No quadrilátero onde ficava a fábrica da Petybom, da família Matarazzo, que cheirava a biscoito assado a três quarteirões de distância, três torres de trezentos e sessenta (!) apartamentos cada uma, de propriedade de um dos orgulhos da cultura nacional, a grande (o quê mesmo?) Adriane Galisteu. Por causa desse monstro, a feira tradicional da Rua Fábia foi mudada de lugar, obviamente para não atrapalhar a saída dos carros importados da garagem do condomínio. Duas quadras para lá, a fábrica Cardo-Brasil está no chão desde o fim do ano. Em seu lugar teremos o orgulho de contar com o NYC – New York Center, cujas virtudes são anunciadas por um panfleto simulando a diagramação do New York Times: "o charme da Vila Romana com as comodidades de New York"...
Isso tudo, meus caros, é para dizer que não adianta patavina a prefeitura felina de São Paulo preocupar-se com a poluição visual se a cidade acima de qualquer coisa não assumir uma atitude de auto-preservação. Não conheço caso que remotamente se assemelhe ao da capital paulista nas muitas cidades onde andei por esse Brasil e sequer tenho notícia que em outros bastiões do capitalismo avançado permita-se um semelhante genocídio cultural. Senão, o que restará para se ver e preservar quando os ícones da publicidade forem botados abaixo? Ou será simplesmente mais uma jogada dos vilipendiadores da cidade para sobrevalorizar os espaços específicos – lixeiras, pontos de ônibus, relógios de rua etc. - que passam a ser os destinatários exclusivos das peças publicitárias?
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Bidu
Não sou mais, definitivamente, um fã ardoroso do bel-canto e nem tenho pretensão a qualquer julgamento mais autorizado. Mas essas divagações remeteram-me a uma conversa recente sobre a nova geração de cantoras populares brasileiras, que parece não ter mais fim. Em cada giro pela noite, em cada ligada de rádio (nas pouquíssimas estações decentes, por óbvio), em cada visita às lojas de disco, em cada conversa com os amigos atentos, novas descobertas. Entre surpresas boas, outras nem tanto, espanta sobretudo a quantidade. Não me atreveria fazer uma estatística, mas a impressão que fica é que para cada cantor, surgem cem moças competentes em maior ou menor grau.
É claro que o barateamento dos custos de produção, aliado ao desenvolvimento dos meios de comunicação independentes, sobretudo a Internet (questão que já tratei em outras oportunidades), permitiram um acesso muito mais "democrático" ao registro fonográfico. Por outro lado, a bárbara evolução das técnicas de gravação permite aparar muito mais facilmente as arestas de quem não tem a capacidade de uma Elisete de gravar um disco com doze faixas de fio a pavio sem errar um compasso; de modo que é no palco que a gente acaba tendo melhor oportunidade de separar o joio do trigo. Com tudo isso, o que me chama mais a atenção é que num universo tão vasto somente umas poucas vozes acabam por nos tocar mais fundo. Porque, ao fim e ao cabo, tudo vai ficando muito parecido, as vozes, as técnicas (sobretudo), as interpretações. Espantosamente, é o reflexo do que acontece, muito mais acintosa e deliberadamente, é claro, no segmento mais - digo para ser delicado - comercial. No campo sério e honesto os repertórios podem ser bons, os arranjos corretos, as execuções bem feitas. Mas tem faltado alma. Uma espécie de versão canora de uma burocratização generalizada das formas sociais que, se já era denunciada há mais de cem anos nas fronteiras mais avançadas do capitalismo, parece ter chegado pra ficar entre nós desde a década passada, a destroçar o que nos resta de singularidade resistente. E assim a gente vai reunindo as moças segundo a "escola" a que vão se filiando: escola Mônica Salmaso, escola Marisa Monte e por aí vai.
Difícil precisar em termos objetivos o que diferencia essas poucas intérpretes. Certamente não são quesitos aferíveis tecnicamente como afinação ou divisão, nem sequer escolha de repertório, como já disse. Arriscaria que é mais um "querer dizer algo", que logicamente pressupõe que se tenha efetivamente algo a dizer. Algo que compreende uma sensibilidade específica não somente para o que materialmente se ouve e reproduz, mas para toda a gama de significações que enreda uma obra de arte musical num sem fim de relações mutuamente imbrincadas e determinantes que compõe o universo cultural em que se insere; aliada, obviamente, a uma capacidade de traduzir essas percepções no ato de cantar.
Graças a Deus, tem gente por aí com muita coisa a dizer, querendo e sabendo como. Algumas tem e sabem como, mas ainda não resolveram de verdade se querem. Outras tem e querem e estão procurando a forma justa - e hão de chegar lá, sem dúvida. Mas temos que ficar atentos. Salve Dorina, Andréa Pinheiro, Maria Martha, Carminha Queiroz e tantas outras que, na estrada há um pouco mais de tempo, tiveram a coragem de nadar contra a corrente da mesmice e instalaram seu canto no pódio alto que o fará ressoar através do tempo. Que venham Fabiana Cozza, Iracema Monteiro, Juliana Amaral, Railídia, Graça Braga, Karina Ninni – só pra não ir muito longe – com as suas verdades tão diferentes, tão ncecessárias. E que venham elisetes, elzas, elises, claras, que o Brasil precisa de suas mulheres.
terça-feira, 9 de maio de 2006
Vô Laurindo
- Não acabou! A Praça Onze não acabou!
Vamos esquentar os nossos tamborins!
Procura a porta-bandeira
E põe a turma em fileira
E marca o ensaio pra quarta-feira
(Laurindo, samba de Herivelto Martins
para o carnaval de 1943)
Quero hoje vos falar de uma outra São Paulo. Não sobre aquela "estranha senhora, que hoje sorri e amanhã te devora", como diria o Chico, mas sobre esta mãe afável - fumante, é verdade; boêmia, é verdade - que bem ou mal nos nina e alimenta, malgrado sufoque e envenene, desde as próprias entranhas. Não desse gigante de obsessões e eficiências impessoais, tão paradoxalmente ciosa da aparência e destruidora de si mesma; esquizofrênica, coitadinha. Uma cidade que agoniza nos seus butiquins e padarias, nas suas vendas e freguesias, de Ó a Z. Com seus personagens reais, vivos (sim!) e dignos do nosso respeito, da nossa audiência.
Assim ele foi. Na verdade, o vi uma única vez, assim "cos' óio". Mas soube dele demais, pela boca de seu neto, camarada do peito, madeira de lei daquela cepa bem veiada, doçura sem bestagem, fibra sem arrogância. Apaixonado pelo velho, pudera: personagem daqueles que não se fabrica, respeitado pela vizinhança - rei da Cachucha! - mais conhecido que nota de um, bom tomador, gozador da vida, pai de família e trabalhador, na medida exata que faz dessa gente de verdade o arreio que não deixa esta terra de Piratininga descer de vez a ladeira.
Esta besta que vos escreve mil e uma vezes ficou de tomar umas cachaças com o "Vô", lá na Parada Pinto, no mesmo butiquim de anos, mas por qualquer coisa se enrolava e não aparecia. Um belo dia, no Jaçanã, não teve jeito: batendo o bolão dos craques, o véio Laurindo ia ali, devagar, tomando as suas, soltando das suas, exercendo aquele estágio da convivência que a sabidice ensina a não deixar passar. Assim como a gente vai tentando não deixar passar a bola que nos foi enfiada, passe milimétrico entre os zagueiros. E vai vendo que, nem que a gente não queira, os passantes vão nos colocando na cara do gol, graças a Deus!
Na devoção do meu parceirinho Fernando pelo seu vô Laurindo reconheço minha paixão derramada pelos meus velhos, minha dependência que hoje é saudade, herança e "responsa" cotidianas. Vendo o quanto eles vivem e revivem dia-a-dia em nós, naquele encontro marcado de gerações do qual nos falam o Benjamin e o Sabino. E num butiquim improvável que é ao mesmo tempo na Cachoeirinha e no Bom Retiro e na Santa Ifigênia é que vou me reconciliar com a cidade que me escorre pelas chagas, entre um trago de cachaça, uma conversa na moça e um tapa na orelha de um desavisado qualquer.
Pois é. O "camarada Laurindo", como o chamaram Wilson Batista e Haroldo Lobo (acho que ele não ia achar ruim e o neto certamente vai gostar) num outro samba, foi convocado semana passada pro ensaio lá do G.R.E.S Unidos do Firmamento. E com tanta gente boa reunida pro furdunço, não seria logo ele a fazer forfait, né? E por esses mistérios costurados por uma outra História, enquanto a gente fica por aqui se segurando, negando o que nos é negado, foi pra tendinha do terreiro celestial tomar uma com o vô Amigo, enquanto o vô Dante metia uma sete na caçapa do fundo. Saravá!
quinta-feira, 4 de maio de 2006
Recidiva
Luto, desde 1999, contra um vício que me atormentou por anos. Que roubou-me preciosos momentos da juventude, custou alguns relacionamentos, interferiu nas amizades, no trabalho, na família até. A história é bem conhecida de vocês. A coisa começa como uma distração, um pequeno prazer para atenuar um pouco as agruras da arena da luta real de todos os dias. Depois vai crescendo, vai te dominando sem você perceber, até que não se vive mais sem aquilo, não te sai da cabeça um só momento, consome seu tempo, suas atenções, seus desvelos. Mal você está saindo de uma rodada braba, teu pensamento está na próxima, que parece não chegar nunca. Isso, é claro, interfere diretamente no teu humor e, dependendo dos resultados, te destrói por dias a fio.
A decisão de abandonar veio de um dia que eu vi um cidadão morrer a poucos metros de mim. Nesse momento prometi a mim - há testemunhas! - que eu não acabaria daquele jeito. E desde então tem sido dura a batalha, por anos a fio, gradualmente tentando arrancar da minha mente aquela obsessão doentia. Fui conseguindo, devagar, as recaídas ficando mais raras, a angústia mais controlada. Não que a falta daquela sensação de se transportar para uma dimensão que é de sonho, que se apresenta tão épica diante da nossa banalidadezinha cotidiana, não me corroesse. Mas eu queria vida: cuidar da família, estudar, trabalhar...
É por isso, meus caros amigos, que a minha dor nesta amanhã foi tão aguda; a sensação de ter novamente capitulado, quase insuportável. Caí no erro tão comum, infringi a proibição mais elementar, desprezei o alerta de que nunca se pode confiar no auto-controle quando a irracionalidade fala mais alto. Julgava-me curado, e por isso, certamente, a derrota parece ter doído como nunca. Tudo voltou como num terrível pesadelo recorrente: o desânimo, a irritação, a agressividade, a revolta; e eis-me aqui completamente impotente.
Peço a ajuda de vocês meus amigos, porque não sei o que será de mim, de novo, daqui para frente. Mas tenho que confessar que ontem, de novo, meu céu turvou-se depois de longa primavera: assisti inteirinho, de cabo a rabo, de fio a pavio, roendo-me como nunca, o jogo da Sociedade Esportiva Palmeiras.
quarta-feira, 3 de maio de 2006
História
Me perdoa por me dar, assim, inteiro.
Se eu não fosse, assim, inteiro teu
Se não fosse tão completamente que me desse
Não precisaria dar-te
Tão pouca força
à custa de tanta rudeza
Tão pouca lucidez
à custa de tanta arrogância
Tão pouco...
à custa de tanta impaciência
Porque tudo está em mim
Em mim todo
E o contrário
Se eu não fosse, assim, completamente teu
Se não fosse, assim, todo inteiro que me desse
Não poderia dar-te
Todo o meu amor
à custa de nenhuma força
Toda a minha devoção
à custa de nenhuma lucidez
Toda a História. Toda
à custa de nem um pouco...
Como dou
Tudo: o Tempo
À custa nenhuma
(para Stefânia)
quinta-feira, 27 de abril de 2006
Para o Edu, em abril
" 'Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana', diz Lotze, 'está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação ao seu futuro'. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está quase toda, inteira, no ar que já rspiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado enre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma força messiânica, para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente."
(Walter Benjamin)
segunda-feira, 24 de abril de 2006
Folhas no Ar
Vou buscar aquilo que foi meu
e que no mundo se perdeu
qual folhas que o vento soprou no ar
Ter a mesma paz de antigamente
sair cantando por cantar
qualquer canção sob qualquer luar
Vou buscar aquele amor tão meu
sair andando a perguntar
qual o caminho por onde ele foi
E por onde for irei também
até o coração achar
que simplesmente não achou
E aí então vou entender
que ao buscar eu me perdi
de tudo aquilo que eu sou
quarta-feira, 19 de abril de 2006
Como morrem os espíritos
Hoje, 19 de abril, a índia pankararu Maria das Dores Oliveira, de 42 anos, defende tese de doutorado na Universidade Federal de Alagoas e será a primeira índia a ser reconhecida pela sabência oficial com aquele grau acadêmico. Logo os índios, tão, mas tão mais sabidos do que nós...
Maria das Dores é de uma aldeia no município de Tacaratu, Pernambuco, conterrânea do meu querido mano Julio Vellozo. E sua tese é sobre a língua Ofayé, um idioma indígena do Mato Grosso do Sul que conta atualmente com somente 11 falantes vivos. Em parceria com a professora ofayé Marilda de Souza, nossa doutora organizou uma espécie de gramática didática, em forma de cartilha, para tentar interessar as crianças e jovens pelo aprendizado da língua, que de outro modo se extinguirá para sempre.
No Brasil atual, sobrevivem cerca de 180 idiomas indígenas (o que corresponde somente a algo entre 15 e 20% do total de línguas aqui faladas em 1500), das quais cerca de 60 têm menos de 100 falantes e outras 110 menos de 400. A maioria das sobreviventes pertence às 10 famílias do tronco tupi, metade das quais concentradas em Rondônia (possível ponto de partida da migração tupi para a zona litorânea brasileira), um estado sabidamente ameaçado pela expansão da fronteira agrícola, pelo desmatamento, garimpos ilegais e conflitos fundiários.
Uma língua morre completamente quando morre o último de seus falantes. Pode ficar registrada como vocabulário e formas gramaticais, mas se perde o referencial simbólico subjetivo, o jeito de pensar e de viver que ela exprime, que só é adequadamente transmitido justamente através dela. Foi Merleau-Ponty - que não conhecia os índios: era francês e doutor - quem demonstrou que ninguém consegue expressar-se em uma língua estrangeira, por mais que a domine, por mais que esteja acostumado a ela e aculturado por ela, da mesma forma que em seu idioma natal. Nem mesmo a minha comadre Dani. Porque a língua nativa é o que dialeticamente determina e exprime um modo próprio de compreender e representar o mundo que se prega ao espírito como um filtro, cravando como um molde todas as categorias de intermediação entre o pensamento e essa coisa estranha que se convencionou chamar realidade.
Não basta, portanto, os jovens ofayé aprenderem sua língua. É preciso que as crianças ofayé que vierem a nascer sejam educadas no idioma e na vida pelos seus mais velhos, pois somente assim ficará nelas impressa essa semente imaterial e tão presente, encarnação sensível e real do espírito de um povo. Isso num país que não tem apreço e não consegue defender nem mesmo nosso combalido e atacado português brasileiro, tão peculiar, tão sonoro, tão enriquecido, menina dos olhos de poetas como Mário de Andrade e Ruy Barata, e de vaqueiros solitários como nosso bom Aldo Rebelo.
Tudo índio
Eu conheço um wapixana que mora no Treze
E ele sabe de outros cem
Que também moram lá
Muita gente índia (muita gente...)
No conselho indigenista
Macuxi de São Vicente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio
Em cada bairro da cidade
Cada tribo tem seu representante
Os Tuxáuas se reúnem
Toda semana
Na associação do Asa Branca
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio
Eu conheço um yanomami que vende sorvete
E um pedreiro taurepang que vive de biscate
As mulheres índias
Longe da maloca e da floresta
Sobrevivem como desempregadas domésticas
E os milhares de meninos e meninas
Fazem papel de índio no Boi
durante as festas juninas
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo índio, tudo parente
Tudo... Índio
*poeta e cantador roraimense; dos melhores, aliás
segunda-feira, 17 de abril de 2006
Mana Mariana,
Nem o tempo, nem a distância, dizendo o seu NÃO repetitivo.
Mas soou bonito e eu gostei
(assim de público, mas foi você que começou...)
Mana Mariana,
A vida é engraçada...
O teu mano eu o vi, contigo, pela última vez
No Costa.
Sei que te falto na incumbência
de que definitivamente não sou capaz
E que as intimidades não somos nós que as damos, elas que se nos dão
Desde uma mensagem tão diáfana no tempo em que te convidava a uma
um sofá improvisado e de todo coração
um começo de aniversário no meio do carnaval
um bate-boca ébrio no Alcazar
uma tarde a oito mãos e trinta e oito cervejas na Espírito Santo Cardoso
Camarões na beira do Maracanã...
Por uma Procura de Paula
E um encontro da Confraria
No Costa.
Eu lembro, Mana!
Mana Mariana,
Vamos em frente, que não sei bem o que vem por trás
- deve de ter, assim, se não uma explicação, uma satisfação
E as milenas de iaras hão de nos fazer seguir
ainda que as milhares de hienas sigam a rir
(des)Esperadas
Do Fausto que as regalará
segunda-feira, 10 de abril de 2006
A conspiração dos outros
Amanheci resfriado - e a manhã também resfriada, com nuvens pardas e sujas e um pequeno vento maligno.
Ontem tive um dia mau, um desses dias em que a gente tem vontade de ir até o aeroporto, puxar as notas que tem no bolso e os níqueis e dizer em qualquer balcão de companhia: "Me dá isso de passagem."
A cidade estava francamente hostil. Pululavam mulheres feias e homens desagradáveis. Parece que eles se telefonam e combinam todos sair à rua em massa determinado dia, ocupar os pontos estratégicos, patrulhar as calçadas, ocupar os transportes, abarrotar os botequins, cortar toda a esperança e estragar toda a paciência de um pobre homem distraído e de boa vontade.
Fizeram isso. Vieram de todos os bairros, e mal escondiam sua nefanda combinação: falavam-se em voz alta, abraçavam-se nas portas dos elevadores diante da raiva impotente dos cabineiros e dos passageiros que tinham pressa, conversavam de boca cheia nos restaurantes e fungavam nos cinemas.
E onde estavam as outras pessoas? As mulheres suaves, os amigos reconfortantes, as pessoas desconhecidas que, entretanto, fazem bem, o mulato alto de quem nos sentimos irmãos quando nossos olhares se encontram depois de verem ambos a mesma mulher que passa com certo jeito engraçado? Ou, por exemplo, aquele vendedor ambulante e clandestino de cigarros estrangeiros a quem não quisemos comprar nada e mostramos nosso cigarro mata-rato, e nos filou um dizendo amavelmente: "Isso é muito melhor"; e aquele chofer que podia fiar irritado com a barbeiragem tremenda da mocinha do fusca, mas apenas lhe gritou com um sorriso: "Você acaba aprendendo, meu bem!" - ou o sujeito do interior que numa intimidade súbita nos fala de sua lavoura e de seu filho que está querendo estudar para aviador, ao passo que o mais velho tem gosto é para a criação de gado, "falou com ele de boi, ele está satisfeito - onde estão as almas boas, as súbitas mulheres lindas de vestidos simples, os doidos simpáticos, as caras amenas, as vozes estranhas que nos comovem por algum acento familiar, a gente humana da cidade?
Creio que todos foram avisados que era dia de se esconderem. Talvez os amigos estejam reunidos em uma festa improvisada e, quando eu me queixar que ninguém me avisou, digam: "- Puxa, mas todo mundo sabia, eu estava crente que você ia aparecer." E então descobriremos que saímos de um lugar cinco minutos antes de um amigo chegar, ou chegamos dez minutos depois, e nos telefonaram quando não tinha ninguém em casa, e nós discamos inutilmente três vezes para um aparelho com defeito - e assim ficamos desprezados, entregues à população hostil, bebendo, de cara voltada para a parede, o conhaque amargo da solidão.
(in As boas coisas da vida, Rio de Janeiro: Record, 2003, pp. 115-117)
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Tristeza de samba
Não sei se voltarei
Tu não me queiras mal
Hoje é Carnaval
(Jair do Cavaquinho e Nelson Cavaquinho)

Gosto de dizer que existe uma alegria de samba que só sabe o que é quem já viveu. Aquela sensação de alma lavada, de viver a vida, num momento, longe e a salvo da mentira que campeia. De poder exercer a emoção, a liberdade, o encontro do outro, se não sem máscara, ao menos imbuído daquela que encena e encarna o jogo de ocultamento-revelação propriamente sedutor, prenhe de uma verdade nossa tão superior à dissimulação unívoca quotidiana.
Mas há, analogamente, uma tristeza de samba. Ela que, já sabemos, é senhora, mãe e filha desse sentimento que nos irmana numa mesma crença devota, na sabença iniciática de alguns entendimentos e sentires. E é essa que encharca-me os olhos e o coração neste momento em que soube que os cavaquinhos parceiros de Vou partir se juntaram no céu. Jair da Costa, o Jair do Cavaquinho, bamba número 1 da minha querida Portela, professor na arte maior do samba, nosso dom, foi encontrar os velhos companheiros.
Quem desde muito o conhecia da Portela, das apresentações da Velha Guarda ou dos rega-bofes de Oswaldo Cruz não podia imaginar o gigante encastelado naquele octogenário metro e sessenta ornado de poucos cabelos e nenhumas rugas, que a sensibilidade e à tenacidade de Tereza Cristina e Pedrinho Amorim lograram em justo momento evidenciar. Registrei num texto que republico abaixo a avassaladora comoção que causou a esta cidade que o recebia pela primeira vez em palco do Sesc Ipiranga. Graças também ao auxílio luxuoso de Marisa Monte, Jair pôde a tempo nos legar, num registro à altura de sua grandeza, várias das obras-primas que até então nos soavam inacreditavelmente inéditas, coroando com um belíssimo disco sua trajetória de bamba.
Juntam-se outros cacos no grande mosaico de beleza simples e irradiante que guardarei no meu coração. Um encontro que propusemos lá no Jardim América e ele quis marcar na Cinelândia, "pra poder tomar um chopinho mais tranqüilo, sabe como é muito perto de casa...", em companhia do Paulinho Neves. O dia em que ele foi ao Ó do Borogodó conhecer os Inimigos do Batente que o acompanhariam na homenagem que lhe prestou a Agenda do Samba & Choro em seu VIII Aniversário. Chegou preocupado, não conhecendo os músicos, marcou ensaio, passou repertório, indicou tom. Quando começou a roda, caiu no samba, deu canja de meia hora, não queria ir embora, desmarcou o ensaio e disse que pra ele "já tava tudo certo"! Ou naquela tarde de histórias de sambas e malandragens de outros tempos, num papo furado que nos juntou, mais o Paulinho Timor e mestre Wilson Moreira.
Acabo de lembrar que, na última vez que o vi, prometi levar-lhe para autografar um meu LP dos anos setenta, em que ele está na capa, vestido de verde-e-rosa (!), ao lado do Dedé da Portela, Gracia do Salgueiro, Joãozinho da Pecadora (se não me engano) e outros do naipe. Se pudesse lhe deixar um bilhete pra levar, seira o que escrevi após a homenagem de 2004:
Graças a Deus a vida tem-me permitido conviver e trabalhar com muitos de meus ídolos. Seu Jair, além de uma maravilhosa e importantíssima figura da história do samba brasileiro, é um dos mais profissionais, solícitos, bem-humorados, simpáticos, tranqüilos artistas com que já tive o privilégio de trabalhar. Merecidíssima homenagem, nunca assaz reiterada!
Assinado: Fernando
Número 1
Lamento profundamente por aqueles que não assistiram ao espetáculo que mestre Jair do Cavaquinho et caterva proporcionaram à estupefata platéia do SESC Ipiranga na noite deste sábado. Choro, principalmente, por aqueles que desistiram na última hora, que foram colhidos pela chuva ou pela preguiça, e sobretudo - ai! - pelos que não conseguiram desmarcar com a namorada.
Sem dúvida, a emoção amiúde me acentua o traço. Mas não é esse o caso quando afirmo que entre os abençoados que partilharam comigo aqueles momentos, pouquíssimas vozes destoariam da unanimidade: um dos maiores momentos do samba nesta cidade em muitos e muitos anos. Para mim, particularmente, que procurei acompanhá-los quase todos, desde um triste tempo em que não andavam nada freqüentes por essas plagas, só se compararam uns três ou quatro.
Perfeição musical e profunda emoção. Coisas que não somente são raras de se conjugar como, em certo sentido, podem até antagonizar-se. Porque muitas vezes na busca da perfeição "técnica", acaba-se por deixar o coração em segundo plano, ou, em sentido contrário, a emoção exacerbada pode acabar comprometendo a correção. Não foi, de modo algum, o que vimos. Raros espetáculos musicais em minha vida (não estou falando só de samba) lograram atingir tamanha precisão de conceitos e formas. Os músicos maravilhosos (ouvi dizer que Carlinhos 7 Cordas e Pedro Amorim não podem mais aparecer aqui em SP: mandado de prisão expedido, por solicitação de dois cardíacos presentes no SESC Ipiranga, por exposição da vida e saúde alheia a riscos). Os arranjos perfeitos: instrumentos valorizados, na justa medida, fazendo cada canção render o melhor de si. O coro (ah!, como o samba é coro!) impressionantemente sintonizado. E houve Tereza Cristina, esplendorosamente respeitosa e carinhosa com o Mestre. Com certeza, uma das grandes responsáveis por este espetáculo e por este resgate.
E Seu Jair? O que dizer de um homem que aos oitenta anos é a imagem exata de tudo o que a tradição do samba acumulou nesses tempos? Melodia, letra, dignidade, bailado, a sabedoria... Ali estava Clementina e o seu Rosa de Ouro. Ali estavam o Voz do Morro e os 5 Crioulos. Ali estava Paulo e sua Portela. Ali estava o parceiro Nelson Cavaquinho. Ali estava, nada mais nada menos do que Jair do Cavaquinho, sócio número 1 da Portela, a melhor paletada de cavaco do samba, como sentenciou ninguém menos que Jacob do Bandolim. Quem poderá esquecer a imagem do Mestre bailando o "partido-alto" ou o "miudinho", com a graça, a leveza e a molecagem de um drible do Mané? E que canções, meu Deus. Como é que pode a gente ter conhecido, até agora, só meia-dúzia de sambas do homem? Aliás, todas obras-primas, o que dá a conta da sua grandeza como compositor. E pelo que pude conhecer, parece que aquele baú guarda inestimável tesouro. É reconfortante saber que tem alguém preocupado em não deixar que isso se perca.
A emoção? Digo com todas as letras e em caixa-alta, pra ninguém duvidar: NUNCA VI IGUAL REAÇÃO DA PLATÉIA AQUI EM SÃO PAULO. "Não basta um idioma inteiro" para descrever o estado de enlevo coletivo que colheu o público. Perguntem a qualquer dos amigos meus que saíram dali chorando (que eu vi, uns quatro). Ou perguntem ao próprio Mestre...
Hoje, 48 horas após o ocorrido, posso repetir para o grande Jair do Cavaquinho, o que lhe consegui balbuciar entre soluços no próprio sábado: Tua imagem permanece imaculada em minha retina cansada.... E permanecerá sempre. Coisa para se contar aos netos.
(Março de 2001)
quarta-feira, 5 de abril de 2006
O verdeiro Poderio do samba
Que alguém ache as palavras onde elas não cabem, ou são desnecessárias. Para que se registre, para que se saiba, hoje e nalgum dia.
E assim, mesmo sabedor de não poder escapar de boas doses de cabotinismo, vou ainda arriscar-me duplamente, a fim de ajudar a recordação insubstituível e em vão brigar contra a fugacidade da emoção que nos tomou durante a festa de comemoração pelos cinco anos – e também, principalmente, de salvação - do Ó do Borogodó. Em primeiro, por me arvorar em falador do sentimento alheio - ainda que no caso não seja assim TÃO alheio: de minha amada Stefânia e do intrépido Capitão Léo, comandantes, ambos, dessa nau portentosa que é o Ó. Em segundo, pela possibilidade da memória me trair, agradecendo nominalmente de público, no melhor estilo Oscar, às pessoas que tornaram possível um evento com tanta energia, tanto brilho, em que mesmo os pequenos problemas puderam passar quase despercebidos. Não para nós, claro, que prometemos todo o empenho para que na próxima seja ainda melhor.
Quero antes, porém, dizer a quem não esteve na quadra da G.R.S.C.E.S Pérola Negra, que o tradicional reduto negro e boêmio da Paulicéia poucas vezes viu tanto talento e beleza reunidos durante dez horas seguidas de música ao vivo. Um axé impressionante, mostra da força da boa música brasileira que, em grande parte graças a muitas daquelas pessoas que trouxeram seu trabalho e sua arte para a roda na Pérola domingo, vive um momento ímpar de reconhecimento e carinho do público. Mas foi mostra também do trabalho incansável dos profissionais que ao longo desses cinco anos de trabalho duro, sério, profissional, dedicado e generoso, construíram essa potência chamada Ó do Borogodó: do Léo, que um dia chegou no Bar do Cidão dizendo que tinha comprado um butiquim, e da Stefânia que com ele encarou essa briga de cachorro grande, até o garçom que trabalhou ali um único dia, passando por músicos e funcionários, todos hoje merecem os cumprimentos por sua contribuição a esse espaço ao qual a cidade de São Paulo hoje tanto deve.
Muito obrigado a cada um pelo comparecimento, elogios, críticas e incentivos; a vocês que trouxeram seu coração, seus ouvidos, sua solidariedade para engrandecer a festa. Muito especialmente:
São Pedro, meu parceiro de muitos e muitos eventos, graças ao seu Chefe! Continuo contando contigo, Pedrão!
Pasquale, amigo de todas as horas, pela intercessão e pelo apoio.
Presidente Edilson "Nego", extensivo a toda a Pérola Negra, sua diretoria, seus associados e toda a comunidade madalenense.
Daniel, timoneiro da Nau, incansável, fiel, competente, profissa pacas.
Bareta, pela idéia da festa, pelo visual da divulgação; Edu Batata, pela idéia do local!
Às parceiraças de sempre Robertinha Valente, pela costumeira dedicação de corpo e alma, e Railídia, pela assessoria de imprensa competente e carinhosa demais.
Thomas, pela cessão graciosa, em todos os sentidos, do equipamento de som.
Ildo Silva, João Poleto, Alexandre Ribeiro, Ricardinho Valverde, André Hosoi, Paulinho Ramos, Zé Barbeiro, Alessandro Penezzi, Dona Inah, Kiko Dinucci, Dulce, Railídia, Alex, Júlio, Edu Batata, Cacá Sorriso, Paulinho Timor, Dil Bandeco, Marcelo Justo, Mineiro, Cebolinha, Roberta Valente, Lula Gama, Verônica Ferriani, Juliana Amaral, Thomas, Renato Anesi, João Borba, Bareta, Diogo, Guilherminho, Márcio Arruda, Denilson, Luizinho 7 Cordas, Júlio Valverde: músicos que fazem do Ó do Borogodó o mais importante bar de música brasileira da cidade de São Paul, modéstia às favas!
João Macacão, Fabiana Cozza, Vítor Lopes, Gabriel Grossi, Douglas Alonso, Giana, Ione Papas, Bia Góes, Henrique do Bandolin, Rodrigo y Castro pelas canjas mais que especiais.
Kika Hein, Paulinha Sanches, Português e todos os músicos que estiveram marcando presença e pelas minhas confusões (des)organizativas acabaram não dando a sua canja.
Meus manos Edu Goldenberg e Dani, os primeiros a comprar seus ingressos, a garantir suas presenças que se efetivaram, mesmo que a distância diga não.
Robson, que emprestou braços, boca e (sobretudo) coração e Ivan que deu, literalmente, o sangue.
Zé Francisco, Seu Antônio (Velho) e Cleodon (Zezinho), profissionais competentes demais, braços incansáveis que são o verdadeiro coração donde emana o sangue bom e forte que irriga toda a máquina do Ó.
Zé Szegeri, Renatinha e Graziela, tranqüilidade, dedicação e rigor na retaguarda "administrativa".
Mazinho Guerreiro e seus teclados e seus cabos e seus fios e seus microfones e suas caixas... Incansável (não é mole não...)
Ivone e Fátima, garantindo a limpeza, dedicadas e graciosas demais.
Xuxa, extensivo à turma da segurança e portaria, pelo bom senso combinado com humildade, pela educação aliada à firmeza, pelo sorriso complementando os músculos!
Darkon, cliente que todo bar gostaria de ter, porque sem você, nada teria valido.
Janis e Dani, porque vocês fazem parte disto tudo e porque foi bom demais ter o vosso carinho e os vossos sorrisos tão lindos, tão felizes, ali sempre ao nosso lado.
E saibam todos vocês, enfim: deu!!! Segue a barca do Ó, feita daquela madeira que tanto conhecemos e que cupim nenhum vai se meter a roer. Enquanto houver samba...
Beijo enorme,
Fê
sexta-feira, 31 de março de 2006
Tambor de couro
Pro João Gomes eu mandei um verso
Antigo
Dizendo poeta é como chama
Acende
É lamparina no calendário das
Luzes
Outro azul que me ilumina
No ver da gilva eu vi você saindo
Eu vi você sumindo pro Iriri de vez...
De madrugada canta o galo
Anunciando
Que o dia já vem raiando
E tá na hora de acordar
Parece a força da maré numa
Reponta
Parece o rasgo da campina do
Encantado
Parece o cabo da viola pontiando
Na mesma jura aquele anel dedilha
O aço
Levanto o macho e vou cantar pra
Ilha escura
Vou fazer procura, vou fazer
Bumbá...
Bumbando o norte no capim
Nas água grande
Nas cores
Na violeta que o sol vem alumiar
Eu canto e o meu tambor
de couro
Alucina...
quarta-feira, 29 de março de 2006
Xênia e você
Quando era criança, morávamos numa casa de bairro onde eu, mesmo que não fosse assim um grande explorador da natureza como outros meninos, tinha o quintal à disposição. Em dia de chuva, porém, o jeito era ficar dentro de casa, fazendo engenharias com as almofadas da sala, o que deixava mamãe maluca. À tarde, na tv, ela não dispensava um programa desses iguais a tantos outros que depois vieram, com médicos e receitas, chamado Xênia e você, apresentado pela própria. Esse nome, seu cabelo mechado penteado de laquê, aquela voz tão nasal ficam-me retumbando na cabeça, remoendo, toda tarde de chuva, uma melancolia de infância.
Via de regra sou um nostálgico, é sabido, mas não particularmente da infância, como a maioria das gentes. Acho, na verdade, que fui menos criança que os outros, já era meio gente grande, preocupado com a crise do petróleo e o terrorismo das Brigadas Vermelhas na Itália (pensava nisto outro dia, vendo minha filha brincar a valer com um bando de crianças que ela conhecera fazia cinco minutos...). Tenho muito mais saudade de lugares e de pessoas do que propriamente de ser criança. Mas hoje, imobilizado no trânsito, sapatos encharcados, deu uma tremenda vontade de ouvir a voz da Xênia embaixo de um túnel de almofadas e esperar minha mãe trazer uma bandeja bem cheirosa com misto quente e nescau batido no leite.
segunda-feira, 27 de março de 2006
Ariclê Perez
Tomado de tristeza e daquela indignação que suscitam as mortes particularmente estúpidas (como se a morte em si mesma não fosse uma enorme e necessária estupidez), registro aqui minha homenagem à bela atriz e ao ser humano especial que tive oportunidade de conhecer, quando em 1992 ela generosamente aceitou o convite de uns estudantes malucos para apresentar um ato relembrando os quinze anos de invasão truculenta da PUC-SP pelas tropas do coronel que não vou nomear, por respeito aos escassos leitores deste espaço.
Ariclê, daqui da minha insignificância, alteio a vozinha cansada pra consignar o agradecimento e o carinho que o tempo não vai apagar do meu coração.
sexta-feira, 24 de março de 2006
Amazônia
Sim, eu tenho a cara do saci
O sabor do tucumã
Tenho as asas do curió
E namoro cunhatã
Tenho o cheiro do patchuli
E o gosto do taperabá
Eu sou açaí e cobra grande
O curupira, sim, saiu de mim
Saiu de mim
Saiu de mim...
Sei cantar o "tar" do carimbó,
do siriá e do lundu
Um caboclo lá de Cametá
E um índio do Xingu
Tenho a força do muiraquitã
Sou pipira nas manhãs
Sou boto, igarapé
Sou Rio Negro e Tocantins!
Samaúma da floresta
Peixe-boi e jabuti
Mururé, filho da selva
A boiuna está em mim
Sou Curumim, sou Guajará
O Waldemar, o Marajó, cunhã...
A pororoca, sim, nasceu em mim
Nasceu em mim
Nasceu em mim...
Sim, eu tenho a cara do Pará
O calor do tarubá
Um uirapuru que sonha
Sou muito mais
Eu sou... Amazônia
quarta-feira, 22 de março de 2006
De botequins e academias
Fernando Toledo*
Sempre que chego em uma cidade que não conheço, a primeira coisa que faço é correr para um pé-sujo, local onde a verdadeira face da cidade em questão me é sempre revelada. Ficar trancado no hotel ou seguir as recomendações da VEJA nunca foi um bom caminho para se conhecer uma cidade, em seus aspectos humanos. Por falar nisso, foi um dos motivos pelo qual detestei Guarulhos: não tem botequim no centro da cidade. Ô lugarzinho chato!
Qualquer estabelecimento com registro no CNPJ, ou CGC, ou CNPq, ou CNPQP pode vir a ser um "centro cultural". Acontece apenas que os botequins, por serem, por definição, locais dedicados única e exclusivamente a um processo de relaxamento coletivo, talvez sejam os lugares mais adequados para que o ser humano promova um reencontro consigo mesmo, e, consequentemente, como seu próximo, viabilizando, desta forma, a manifestação da criação que é, em última análise, o próprio cerne da Arte.
Quando digo relaxamento coletivo, digo que é um local onde as pessoas tendem (note bem o TENDEM) a largar suas mascarazinhas de empresário, contínuo, varredor de ruas, escritor et um monte de coeteras e se manifestarem apenas como seres humanos, uns para outros. Quem não é capaz de compreeender isto é indigno de entrar num botequim e participar em igualdade da confraria ali estabelecida.
Academização é quase que sinônimo de torre-de-marfim (apud Edmund Wilson), de elitização, de impedimento de acesso, por parte do povo, da Cultura. Ao passo que um botequim, por pior que seja, é sempre um ponto onde individualidades se encontram e, até mesmo, se interpenetram (sem viadagem), o extremo oposto do meu conceito de Academia. Para mim, parece óbvio que é muito mais fácil atingir a compreensão do ser humano em um botequim do que numa "academia".
Paulo Mendes Campos, em uma crônica chamada "Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira", tece uma comparação interessante. Diz que o Kafka imaginava uma conto como seguinte enredo: uma festa à qual várias pessoas comparecessem, sem que nenhuma tivesse sido convidada, ninguém se conhecesse, e onde, contudo, o convívio se estabelecesse, com todas os seus aspectos positivos e negativos. Paulo Mendes Campos dizia que essa festa já existia, e eram os bares do Rio. No que concordo em gênero, número e grau.
* devidamente editado por este impronunciável xará, a partir de trechos pinçados de uma mensagem deixada na saudosa Tribuna do Samba & Choro
segunda-feira, 20 de março de 2006
Gaudium et spes
Quero é a delícia de poder sentir as coisas mais simples (Manuel Bandeira)
São Paulo teve a felicidade de receber neste final de semana (e o fato de ser a negação dialética do Brasil confere, ao menos, algumas prerrogativas à cidade), dois eventos que encheram de alegria e esperança os corações dos que ainda têm olhos pra ver e ouvidos para ouvir.
O primeiro, havia já cantado a bola semana passada, foi o Terruá Pará. Mais de sessenta artistas das mais variadas tendências da música pujante que se faz no mais belo estado brasileiro, com sua força expressiva, sua autenticidade arraigada, sua identidade tão própria, bem como - por que não dizer? - suas contradições, muito bem representadas pela barulheira desconexa do “tecno brega”. Destaque para a força instrumental desse torrão que faz brotar músicos aos borbotões em cada meandro de rio, em cada esquina de cidade, em cada igarapé, representada entre outros pelo guitarrsita Pio Lobato, das fileiras do roque e com a sensibilidade de perceber as riquezas todas do universo musical amazônico, do genial maestro Luís Pardal, pelas “metaleiras” que animam os carimbós levanta poeira desse mundão de meu Deus, pelos excepcionais mestres da Guitarrada.
Tudo esteve lá. Das raízes de Dona Onete, do Boi Veludinho e do Arraial do Pavulagem às vozes sofisticadas de Nilson Chaves e Lucinha Bastos, passando pelo impacto do tecno-brega da Gabi, o Pará é aquilo mesmo. Não há – e isso talvez o que mais tenha-me impressionado desde 1991 – o menor traço de folclorismo naquelas todas manifestações. Todos os artistas que ali se apresentaram tem seu público, seu papel. Nilson Chaves não é um ícone venerado pela intectualidade “preocupada” com a música de raiz: é um fenômeno de sucesso e popularidade há 30 anos, menestrel de sua terra e de sua gente, querídissimo pelo povo paraense de todas as classes sociais. Os bois arrastam multidões pelas ruas de Belém nas épocas próprias, os bailes dos carimbós e das guitarradas do interior fervilham de uma gente que não consegue viver longe da música. O tecno-brega das aparelhagens pode estar criando uma geração ensurdecida pela potência irracional e desproporcional dos equipamentos de som, mas só quem já percorreu muito aquelas periferias sabe da sua força com as multidões, tanto como os bailões de brega, zuck, jererê e por aí vai. Facetas várias, por vezes opostas, por vezes contraditórias, de uma terra que respira musicalidade até no jeito de falar e andar, onde a Rádio Cultura (dedicada excelusivamente à boa música popular brasileira e em grande parte privilegiando a produção local) está sempre disputando as primeiras colocações no ranking de audiência.
O outro banho de beleza não só musical foi a série de shows de lançamento do álbum Trilha, Toada e Trupé do grupo paulistano A Barca, composto por três Cd’s e um DVD, fruto de uma peregrinação por mais de 10.000 km em nove estados brasileiros, do Pará a São Paulo, entre dezembro de 2004 a fevereiro de 2005. Foram trinta comunidades visitadas, entre aldeias ribeirinhas, terreiros, quilombos, periferias de cidades, sempre colhendo material, registrando, interagindo. O resultado do trabalho que está no álbum e esteve no palco do teatro do Sesc Pompéia é material obrigatório para quem se propuser a refletir sobre o papel das manifestações culturais na vida e na estrutura social dessas comunidades e, conseqüentemente, de todo o povo brasileiro.
Mas acima de tudo, o que ali se viu e que se pode ouvir do que foi colhido é a aparentemente inesgotável e profunda beleza das formas expressivas que misturam sonoridades, coreografias, dramaticidades que levam ao mais aguçado limite a dialética entre simplicidade e sofisticação. Universos sonoro-visuais inacreditavelmente ainda possíveis, formas que se perpetuaram e resistem contra e a despeito de toda desconstrutividade do nosso mundo que a tudo devora e planifica, na alma dos artistas e das comunidades que os gestam, maravilhosamente colhidos, tratados e recriados pelos competentíssimos músicos d’A Barca, o que só faz evidenciar mais e mais as possibilidades de riqueza estética e expressiva espalhadas pelo chão brasileiro.
Dois grandiosos momentos que acabaram por coincidir no espaço-tempo, dois gigantescos esforços de produção competente e arrojada, a cujos responsáveis devoto aqui o maior respeito e admiração. O público afortudanamente respondeu à altura, lotando os dois eventos, prestigiando o que de melhor ainda tem o Brasil, demonstrando tamanho envolvimento e respeito que me fizeram, em átimos, acreditar que tudo ainda pode ter jeito.
quinta-feira, 16 de março de 2006
Terruá Pará
Acontece nesta sexta, sábado e domingo (17, 18 e 19 de março) o Terruá Pará, grande espetáculo que reunirá no auditório do Parque Ibirabuera uma seleção da pesada de grandes forças expressivas da maravilhosa música popular brasileira que se faz no meu querido estado do Pará. "Terruá" é uma forma acabocada do francês terroir, termo que remete às coisas próprias "da terra", tanto no sentido telúrico, como no de no sentido de autênticas, originais, próprias de um lugar (nesta acepção próximo ao nosso pobre "de raiz").
Nos três dias de evento, mais de 50 músicos paraenses apresentarão um grande show dirigido pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, entre os quais mestre Nilson Chaves, a rapaziada batuqueira do Trio Manari, o excelente Arraial do Pavulagem, Toni Soares, Lucinha Bastos, Almirzinho Gabriel, Dona Onete, La Pupuña, Mestres da Guitarrada, Pio Lobato, Tubas da Amazônia, Gabi Amarantos, Dj Iran, Mestre Laurentino, MG Calibre, Boi Veludinho, Metaleiras da Amazônia, e o endiabrado multinstrumentista Pardal. É esperada também a participação especial da estrela maior, Fafá de Belém.
O cenário será todo confeccionado em madeira de miriti, palmeira amazônica a partir da qual se fazem os tradicionalíssimos brinquedos característicos da festa do Círio de Nazaré, e está sendo preparado pela ONG Miritong de Abaetetuba.
Estarão representadas muitas correntes da variadíssima expressão musical do estado do Pará - estado que conta com mais de 40 diferentes ritmos populares tradicionais! – do carimbó ao tecno-brega, do boi-bumbá ao choro, passando pela música tão popular quanto refinadíssima de mestre Nilson Chaves, em minha opinião um dos nomes mais importantes da música brasileira. E olha que ainda vão faltar a voz poderosíssima de Vital Lima, os sambas do David Miguel e do Alfredo Oliveira; vão faltar o Pedrinho Cavallero, o Marco André, o Alcyr Guimarães e o pop do Marco Montheiro; o Paulo André, o Joãozinho Gomes e o Walter Freitas; as vozes de Andréia Pinheiro, Lia Sophia, Albinha, Simone Almeida, Dayse Addário, Jacely Duarte, e Rutinha Neves; os violões do Nego Nelson, do Sebastião Tapajós, do Salomão Habib, do Paulinho Moura; o choro da rapaziada do Bar do Gilson, a flauta do meu amigo Yuri Guedelha. O meu amigo Mapiu, um dos grandes Percussionistas (com "P" maiúsculo" mesmo) que conheci na vida, pode ser que esteja. Mas vão faltar o Gileno Foinquinos, o Adelbert Carneiro e o Floriano; o Olivar Barreto, o Pedrinho Callado, o Eduardo Dias. Vão faltar as canções tão fortes, tão mocorongas da Maria Lídia, os vozeirões do Walter Bandeira e do Alfredo Reis, além do roque do Mosaico de Ravena. Faltarão Mestre Verequete e Mestre Cupijó. É bem posível que estejam lá o Chico Senna, o Edyr Proença e Mestre Lucindo, mas aí a gente não vai conseguir ver, nem firmando muito bem a vista (talvez se distraindo dela...).
Mas de qualquer modo, meus caros, podem apostar: eu vou estar lá! Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!
Terruá Pará - dias 17, 18 e 19 de março, a partir de 20h30, no auditório do Parque Ibirapuera. Ingressos: R$ 30,00
quarta-feira, 15 de março de 2006
terça-feira, 14 de março de 2006
Dia Nacional da Poesia
Os poemas
Mário Quintana
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
quinta-feira, 2 de março de 2006
Túmulo do Brasil
É bom dizer que o impacto foi naturalmente maior depois de ter estado no Bola Preta no sábado. E não digo nem o Bola Preta, que acima de tudo, como ser carioca, é um estado de espírito, sobre o qual não me animo a discorrer agora com medo de agravar minha depressão pós-momesca. Falo do povo tomando o centro da Cidade que lhe pertence, horas e horas após o desfile, quando ainda não se podia andar duzentos metros em menos de quinze minutos. Falo do Cordão do Boitatá - a quem tanto já critiquei, mas não posso deixar de render homenagem - do Flor do Sereno, do Céu na Terra, das bandas, do Terreirão (mas principalmente do "terreirinho"), dos bate-bolas de Marechal, das escolas de samba da Sapucaí e as de Bonsucesso, do Cacique, do Bafo, do Clube do Samba, da Lapa, dos bailes populares, da Vila Isabel desfilando no Boulevard (não sei se houve este ano), do baile na sede do Bola Preta. Dos mais de quatrocentos blocos cadastrados pela prefeitura do antigo Distrito Federal.
Senhores, a cidade de São Paulo no carnaval é deprimente. O vazio das ruas é deprimente, assim como o é a satisfação dos que curtem a "tranqüilidade" da cidade, a fluidez do trânsito. São deprimentes os cinemas abarrotados tanto quanto o enfado dos burocratas de plantão, doidinhos pra vida voltar ao "normal" - o seu "normal" deprimente de resolver coisas e encaminhar expedientes e fechar negócios. É deprimente - não, não: é EXTREMAMENTE deprimente - um arremedo de matinê de clube, com fanques e axés insuportáveis, como é deprimente a apuração das escolas de samba, com os bate-bocas, ameaças e quebra-quebras tão repetitivos quanto mal ensaiados. É deprimente ver como o povo ainda gosta do carnaval, sim - eu disse O POVO - mas não tem a força pra fazê-lo por si só, dependente das migalhas que uns poucos e bravos resistentes teimam em oferecer (parabéns ao SESC!) e completamente à mercê dos que o privatizaram, dos que o confiscaram de seu legítimo detentor, para impor suas pseudo-fórmulas burras, artificiais, vendidas, que a nada se prestam.
O povo que lota os Sesc's e ainda deposita desejos numa fórmula tão desgastada como a das escolas de samba, artificialmente transformadas em algo a que não nasceram vocacionados os velhos e saudosos cordões. Palco de disputas que não poderiam ser mais dissociadas do espírito do carnaval - verbi gratia, as desavenças pseudo-futebolísticas (e perdoem se me repito) - , as atuais escolas de samba herdaram a forceps o formato das agremiações cariocas, com todos os vícios que a modernidade lhes impôs e sem um mínimo da pujança resistente dos primórdios, da identificação popular histórica, e até mesmo da organização que hoje se faz presente, com todas as magnânimas críticas que se lhe posssa tecer.
Ora direis haver os bailes do Ó do Borogodó. Mas aí não é São Paulo! É a negação de tudo o que acima se disse, assim como São Paulo é a negação desse Brasil que teima em se amar, singular, mestiço e tropical, sim senhor. E nesta negação da negação, dialética perfeita, é que se há de ressuscitar o Brasil a partir do que aqui jaz, sufocado pelas ervas daninhas, tão ferozes quanto mal-ajambradas, muito bem plantadas nesta triste sede do capitalismo tupiniquim.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
Quando o Carnaval chegar
Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando
Que eu vou aturar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
Num domingo de carnaval
Dante fa versi diviini
Chianti fa vini diversi
Num domingo de carnaval em 1914, precisamente no dia 22 de fevereiro, nasceram no Engenho de Dentro – provavelmente o lugar menos italiano de todo o planeta – os gêmeos Dante e Chianti. Teixeira Nunes, é bom frisar. Se não me engano, na rua Bento Gonçalves, do lado que antigamente se dizia "das oficinas", em alusão aos galpões de pintura e reparo de vagões da Estrada de Ferro Central do Brasil que hoje abrigam o Museu do Trem.
O terreno da casa da Rua Bento Gonçalves era tão grande, mas tão grande, que um dia um homem se enforcou numa árvore do quintal e só encontraram o corpo três dias depois, por causa dos urubus. Quem era esse homem, como entrou no quintal, ou por que teria-se matado, ignoro completamente. Só sei que vovô, o Dante, contava. Como contava também das redes armadas embaixo das jaqueiras, pra que a jaca não se espatifasse ao cair. E olha o tamanho da bichona, descendo, quebrando a galharada! E quando caía, ah... A molecada enfiava mesmo a cara na jaca (não era o pé, naquele tempo) e - meu Deus! – não é que eu posso ver direitinho as carapinhas todas lambuzadinhas, mesmo só tendo nascido 50 anos depois?
Desse tempo também era a receita de aluá, com casca de abacaxi e enterrado no quintal por três dias, pelo menos. E o bonde puxado por burro, que vovó, da Zona Sul, sempre caçoou.
Depois, foi a casa da rua que depois se chamou Monsenhor Jerônimo, como até hoje, que começa na linha do trem e morre na Dias da Cruz. Nessa casa lembro do meu bisavô chegando da feira com aquelas bananas pretejadas que ele gostava – assim como vovô - e a bisa Anália reclamando. Lembro da minha mãe, pequenina, brincando na rua com as amiguinhas que moravam naquele arremedo de morro. Vocês vão querer saber como é que eu posso lembrar e eu só sei que quando pus os pés pela primeira vez na Monsenhor Jerônimo uma casa velha chamou demais minha atenção e encheu-me o coração daquela saudade engraçada do que se não viveu. Naquela hora eu soube. E horas mais tarde, soube de novo, do jeito mais usual de se saber, confirmadinho pelo bom Tio Osias.
Tempos depois foram as tardes de domingo no velho Largo do Estácio. E a gola da camisa que ficava preta por causa da fuligem da maria fumaça. Já em São Paulo, foram as pensões da Santa Ifigênia, com os ratos mordendo o dedão dos hóspedes, onde um belo dia um colega levou um violão e um menino conterrâneo do Engenho de Dentro, que cantava bonito demais e estava começando no rádio, Orlando por nome. Nos seus olhos castanhos, já meio acinzentados de sabedoria e doçura, vi também o Chico Viola no Pacaembu, reconhecido na multidão, acenando pra torcida com o paletó.
No sorriso postiço, de dentes perdidos antes dos trinta anos, vi o Palestra em campo, empoleirado numa arquibancada de madeira. E que defesa do Oberdan... Jair da Rosa Pinto era malandro, só jogava se o clube lhe reembolsasse o imposto de renda devido (e olha que era vovô, fiscal da Receita, que lhe preparava as declarações, como as do Junqueira e as do Zezé Procópio). Mas como jogava! Comecei a ficar palmeirense quando sábado, na casa dele, esperava-o chegar todo de branco, distintivo reluzente embaixo do S.E.P. bordado em verde, uniforme oficial do imbatível time de bocha do Palmeiras. E terminei quando conduzido por esse semideus mulato, meu particular "príncipe etíope de rancho", fui parar no colo do Luís Pereira, titular da seleção brasileira, sim senhor.
A vizinha da Rua Cotoxó, na Pompéia, ficava espiando a hora dele chegar. E dez minutos depois estava de orelha posta na janela que dava pro banheiro onde vovô desfilava seu repertório de sambas e serestas. Podia ter sido cantor, não fosse gongado por aquele palhaço do Otávio Gabus, pai do Cassiano, que só entendia mesmo era de passear com as "boas" candidatas, ora essa! Se essa rua, se essa rua fosse minha... Está lá gravada a voz do velho até hoje, vibrato caprichado de seresteiro, trinta segundos de uma imortalidade que é muito mais efetiva dentro do meu peito. Talvez por isso eu cante, por ele ter-me dito que quando morresse só sentiria saudade do canto da voz humana. E quando eu-menino comecei a morrer naquele 18 de julho de 1989, soube que eu-homem precisava começar a nascer. E cantar.
E enquanto esse homem-menino segue cantando, meio-nascendo-meio-morrendo, vai lembrando da sua mão fria e tão macia, o dedão curvado, cheirando a Pinho Campos do Jordão. Vai querendo seu colo de vô, lembrando do dia em que fez uma malcriação qualquer e ele chorou, mas disse que não tinha importância "porque vovô te ama muito". Vai tentando se mirar no funcionário público exemplar, impoluto, cassado politicamente pelos putos dos milicos da pseudo-revolução moralizadora. Vai sentindo gosto de Chokito, bala de goma, cigarrinhos Pan de chocolate, fósforo de marzipã ou Alpino, que ele trazia todo dia quando nos visitava, no caminho do trabalho pra casa. E vai, principalmente, tentando viver essa vida direitinha, pra quando um dia se chamar saudade, alguma alma possa dizer, mesmo mentindo, como rigorosamente TODO MUNDO diz dele até hoje, sem mentir: "O Dante? O Dante foi o maior de todos..."
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Dos carnavais que não voltam mais – I
Quero ser ninguém na multidão
Quero me afogar em serpentina
Quando ouvir o primeiro clarim tocar
Quero ver milhões de colombinas
A cantar "tra-la-la-la-la-lá"...
Quero me perder de mão em mão
Quero ser ninguém na multidão
O primeiro clarim, marcha de
Klecius Caldas e Rutinaldo
Um homem que não guarda segredo sobre seus descaminhos carnavalescos, não honra as saias que veste.
Pois conversavam hoje na repartição, moços e moças, quase inocentemente, sobre seus planos para o carnaval. Há uns anos poucos e as conversas seriam sobre a etapa do campeonato de surfe nalguma praia catarinense, ou sobre um pacote muito em conta para as Serras Gaúchas. Hoje, o carnaval voltou à moda. Bem menos em São Paulo, é certo, mas ainda assim anda sempre na pauta da moçada paulistana um bloco desses no circuito Barra-Ondina, abadá uma pechincha, parcelado em doze vezes. E o maracatu-nação? Tudo! Escola de samba do Rio está na baixa, mas não perdeu completamente seu valor (com traslado do hotel para o sambódromo incluso, que a violência no Rio, Deus me livre andar na rua...). Desfile das campeãs, que dá menos fila é melhor.
Entre os cariocas, a onda mesmo de uns quatro ou cinco anos pra cá são os blocos. Meu irmão Edu, a quem apraz passear por muitos blogues, deve estar se fartando de roteiros pessoais para o carnaval, com horários, compromissos, programações. E dicas, muitas dicas. Tudo tintim-por-tintim: sábado vou ao Bola (essa está em todas, mesmo se o cidadão acorde meio-dia de ressaca e vá tomar um chope quente no Amarelinho à uma; encontra dois bebuns cantando "Pela porta aberta..." e escreve no blogue, na quinta-feira, que o Bola mais uma vez foi a melhor coisa do carnaval), depois vou pra cá, depois pra lá. Domingo encontro fulano e vamos pra casa de sicrano encontrar o pessoal do bloco tal... E assim vai.
Pois acho que eu sou de outro tempo. Sou do tempo do velho Mário Lago, que chegando em casa manhã avançada, indagado por sua mãe sobre onde estivera, devolveu com a elegância malandra de outrora: "a senhora quer que lhe minta ou lhe falte com o respeito?". Do tempo do Baile dos Casados nas matinês de segunda-feira de carnaval, dia de expediente, sim senhor. Do tempo da máscara negra que lhe escondia o rosto. De tirar o anel de doutor, para não dar o que falar...
Meus amigos reclamam que não me acham. Que marco e não apareço. O Edu mesmo, que é preciso do início ao fim, me procura no Bola todo ano, mas nunca conseguiu me encontrar. Se encontro, não fico. Se acho, passo. Porque a graça mesmo do carnaval é esse deixar-se largar, é sair sem paradeiro, beber até o dinheiro acabar (depois voltar de táxi, pedindo pro chofer esperar enquanto vai lá dentro pegar o da corrida; ou dormir na rua...). É pegar o primeiro ônibus que passar, desmaiar de porre e saltar quando for acordado por um pixinguiniano "pa ra ra rá ra ra rá ra ra ra ra ra ra ra ra rá / pa ra rá / pa ra rá / pa ra ri ri ri ri ríííííí...", num trombone desafinado.
Talvez tenhamos levado, os homens, a piada tão a sério, que hoje a graça toda seja mais contar do que viver. Talvez nós que não lemos as revistas caras nem assistimos aos biguebróders estejamos mais impregnados desse espírito panóptico do que possamos admirtir. Nos desvencilhamos em boa parte, é certo, de uma hipocirisia colonial que trancava mulheres e filhos em casa e fazia da rua o reinado dos machos adultos, cenário dos jogos de dominação em todos os níveis. Mas talvez tenhamos perdido junto a utopia do carnaval como reinado da indiferenciação, do anonimato, da mistura, do desregramento (nesse sentido). Não soubemos ou não pudemos incorporar da sabedoria africana e indígena o sentido da ocultação e o correspondente jogo do desvelamento, que afinal compõem a forma tanto do sagrado como do jogo da sedução.
Por isso, talvez, o carnaval em geral esteja assim perdendo um pouco da graça. Dirão vocês que estou ficando velho, e possivelmente resida aí uma parte considerável do problema. Mas anoto que não deixo de sentir graça e não deixo de celebrar o velho e bom Carnaval com a energia e a entrega que me são pedidas nos momentos e espaços onde ainda é possível minimamente encontrá-lo. Enquanto se dessacraliza, na medida em que se despe da sua forma de ocultação, de ritualização, de entrega e sacrifício e assume sua dimensão de normalidade, de universalidade, o carnaval, "em momentos assim, morre um pouquinho mais". Paradoxalmente, quanto mais blocos na rua, quanto mais gente nas suas fileiras, quanto mais se incorpora na "agenda cultural da cidade", menos sobrevive do carnaval.
Não acredito tratar-se de uma lei inexorável (embora não adiante escrever isso, porque os bobocas de sempre dirão, com isso ou sem isso, posto que não sabem ler, que somos puristas, donos da festa, curadores do povo e todos os etcéteras cansativos), mas no mínimo de uma tendência perversa. E não nos resta muito senão desligar os televisores, não comprar as revistas caras, não ler os blogues-vitrines. Não assumir compromissos, não compartilhar roteiros, não dar nem pedir dica. Sair, beber, dançar, brincar...
Ser ninguém na multidão.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Nancy
Batidas na porta da frente: é o tempo!
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei...
Resposta ao Tempo,
de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos
Dede o longínquo 06 de fevereiro de 1916, existe para essa dimensão do mundo sob nossos olhos a que carregaria o nome de Nancy. Minha avó, mãe de mamãe. E a família ontem reuniu-se para o almoço, que transcorreu com a animação possível, boa comida, boa música e aquele incômodo de todos sentido e pouco manifestado de constatarmos que não éramos mais os mesmos da festa dos 80. As ausências dos que nesse meio-tempo passaram para a morada dos ancestrais, somada à dos mais jovens que, sem paciência para as coisas dos velhos e sem idade para serem conduzidos sub vara, deram a medida de que, afinal, o tempo tem passado para todos.
Num telão acoplado a um computador, iam desfilando, como a moda reza, velhas e novas fotos familiares. Agora ela está com vovô, vestida de noiva, em 1940...
Carioca de Botafogo, nascida na Rua Marquês de Abrantes, criou-se em São Paulo, mas jamais perdeu a referência de origem, da qual até hoje dão testemunha o "s" chiadinho e o "r" reforçado. Das suas três amigas dos tempos da Escola Normal Caetano de Campos que estiveram nos 80 anos, só uma presente. Quando cheguei ela já tomava sua Brahma geladinha, mas recusou a segunda por não querer "abusar". A saúde não permitiu a presença das demais, vivas e lúcidas, para poderem reafirmar contra quaisquer argumentos uma convivência de 77 anos.
De repente está lá minha mãe, adolescente, num "vestido alinhado, de godê, todo plissado", como no samba...
Acompanhando-se ao violão, um rapaz de não mais que vinte e poucos anos cantava a Rosa do Pixinguinha, canções do Caymmi, sambas do Ary Barroso. Soube que é amigo do Bruno, o mais novo dos primos, que mostrou também que dia-a-dia tem aprimorado seu violão. Como eu, passou a adolescência entre Sílvio Caldas, Noel, Orlando Silva, mas afortunadamente a performance indica mais talento e mais dedicação. Fiquei pensando em como a minha solidão foi maior, jamais poderia ter encontrado jovens companheiros pras minhas nostalgias musicais (fora a Roberta Valente, que já nasceu velha). Meio sem motivo, apanhou-me uma boa sensação de ter cumprido o papel de levar à frente o bastão. Mas pelo menos os anos de estrada ainda me permitiram invocar vovô, o velho seresteiro, e cantar em homenagem à aniversariante:
Ouve esta canção
Que eu fiz pensando em ti
É uma veneração, Nancy...
E não é que ele aparece de calção de praia, moço e bonito como só, mas o computador mal nos permite firmar a atenção e de repente estamos todos, com ele, numa das suas últimas fotos em 89...
Vovó, que até então mais observava, gostou. Enquanto esperava minha mulher, fiquei ali a ver minha filha correr pelo salão. Mamãe comandava a organização junto com o Dudu. As fotos todas se sucedendo na tela, a melancolia misturando-se ao champanhe na brecha da noite mal dormida. Quatro gerações entre si costuradas no tempo e no espaço, pela força dos fios da memória, do coração e dos circuitos eletrônicos.
...Somente poderia
A musa traduzir
O nome que é poesia:
Nancy...
Logo me vejo, só de fraldas no colo dela, no portão da velha casa da Rua Cotoxó...
Se hoje percebo em mim mais nítidos os traços dos outros avós, ela foi sem dúvida, na primeira infância, meu porto mais seguro, minha referência mais presente. Instância de apelação quando das demandas indeferidas, ouvidoria para as queixas, embaixada em caso de necessidade de asilo. Vali-me muito bem, é certo, da condição de protegido que gozei até ter consciência e autonomia para discordar. Mas se a vida foi pouco a pouco pondo em relevo as divergências, não é menos certo que eu me pegue a torto e a direito reproduzindo seus ditados, contando suas histórias, incorporando suas lembranças, nesse processo tão vital de sobrevivência que consiste na transmissão do nosso cabedal mais íntimo, aquele que, se não nos incumbimos de competentemente legar, não há inventário nem testador que dêem conta.
...É a mais linda história
De amor que conheci
Quando o seu nome
Assim eu repeti:
Nancy, Nancy, Nancy *
Bisa para a Iara, minha mãe duas vezes, como sempre fez questão que eu repetisse, vejo-a agora na tela, aos cinco anos, nas vésperas do carnaval de 22...
* Nancy, valsa de Moacyr Bueno Rocha, originalmente gravada por Francisco Alves em 1933
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
Radamés
Homenagem ao grande Radamés Gnatali, no ano de seu centenário,
no dia em que se completam 18 anos de sua partida.
Pianinho
Edu Lobo e Aldir Blanc
Em vez de vir direto àquele assunto que me traz
Eu vim chorando leve e de viés...
Gravei de ouvido tantas confissões musicais,
móveis e imóveis tramas que a onda faz
tangendo a lua branca no convés.
E sem negar o sonho não botei nada de mais
- um truque se transforma num revés -
e uma voz de longe disse assim: "ô, rapaz,
Falta de medida só revela o incapaz.
Imita a simetria das marés".
É, tudo bem. Vou logo lhe avisando que tou nessa também
e essa Voz que me aconselha de onde vem?
Não acredito em deuses. Digo amém. Hein?
Falando em chope, bonde, bandolim, retrato, jazz,
moderna e lá no tempodo mil-réis,
lembrando, então, que agora daqui a pouco é jamais
nazarethas, valzinhos, tons, garatos, ravéis
- reconheci a voz do Radamés...
Reconheci a voz do Radamés!
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
Yemonjá awabô

Yemonjá awabô aiô
Yemonjá awabô aiô
Iagba ode ire sê
A ki iê Yemonjá
Iá koko pê ilegbê aiô
Odofi iassa ueré o
Iassa ueré o
Odofi iassa ueré o
Promessa de Pescador
Dorival Caymmi
Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!
Senhora que é das águas
Tome conta de meu filho
Que eu também já fui do mar
Hoje tou velho acabado
Nem no remo sei pegar...
Tome conta de meu filho
Que eu também já fui do mar
Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!
Quando chegar o seu dia
Pescador véio promete
Pescador vai lhe levar
Um presente bem bonito
Para dona Iemanjá...
Filho seu é quem carrega
Desde terra inté o mar
Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
Porta de barbearia
Os barbeiros, na verdade, são de uma relevância menos ressaltada que o merecido na história urbana brasileira. No século XIX, a ocupação foi a primeira profissão liberal assessível aos elementos das camadas sociais mais baixas, mulatos, brancos pobres, negros forros ou mesmo escravos autorizados, eis que não dependia de uma habilitação acadêmica só possível para os "de berço". E a habilidade desenvolvida no manuseio dos instrumentos de cutelaria acabou por conferir a esses profissionais prerrogativas de realizar tarefas muito mais importantes do que as simplesmente relativas ao corte da barba e do cabelo. Do que se chamaria mais tarde manicure/pedicure até cirurgias de pequeno porte, passando a aplicações de emplastos, compressas e sanguessugas, além de outras técnicas medicinais da época, tudo incumbia aos bons barbeiros.
Um capítulo ligado especificamente à história da música popular brasileira mereceu estudo minucioso do grande José Ramos Tinhorão: a chamada música de barbeiros. Pois eram esses profissionais mais afeitos aos trabalhos delicados que as pesadas lidas da construção, da lavoura ou da estiva a quem sobrava mais tempo para a dedicação às técnicas dos variados instrumentos. Somando-se a presença entre os barbeiros de negros educados nas bandas de música das fazendas e o caráter urbano das barbearias, tivemos os ingredientes para a primeira forma de música instrumental urbana nativa, tida como célula mater do choro.
Hoje, é certo, as barbearias não tem mais a mesma importância que até meio século atrás, ou pouco menos em relação às cidades menores. O advento dos aparelhos elétricos e descartáveis pouco a pouco fez desaparecer o hábito de se fazer a barba diariamente com profissionais. E, em conseqüência, os salões foram deixando de ser aquele ponto de encontro diário dos homens mais ou menos importantes, a caminho de suas tarefas diárias. Não obstante, até hoje o barbeiro é para mim, juntamente com o táxi, o melhor termômetro dos ânimos populares, seja no que respeite à política, ao futebol e às trivialidades do dia-a-dia.
Depois que abandonei as Perdizes e o Marília em busca de um habitat menos hostil à minha alma suburbana, fui migrando por vários barbeiros sem destino muito certo. Perigosamente ignorando o aforismo popular, a escolha ia se baseando nos quesitos aferíveis de plano: cabeça branca do titular, tira de couro na cadeira pra afiar a navalha (eu disse navalha, não esses arremedos com giletes descartáveis), estufa elétrica ou a gás para a esterilização, vidro de Água Velva em lugar visível. Imagem do santo de devoação ou poster do time do coração ajudam, principalmente se for do Juventus ou da Portuguesa. Minha única exigência mesmo é que no letreiro esteja escrito "barbeiro", ou "barbearia". Pode até não escrever nada, desde que estejam longe as palavras proibidas: "cabeleireiro" e "unissex"!
Três vivas e os melhores sentimentos, então, para os que me dispensaram a ajuda dos psiquiatras cuidando bem da minha cabeça: Carlos e Horácio, que já aparam as barbas de São Pedro; Antônio, que voltou pro Ceará; Oswaldo e Raul, ativos ainda, há 50 anos no Marília; Seu Joaquim, com sua barbearia insuperável, também cinqüentona, parede-com-parede do Ó do Borogodó, com direito ao dito poster da Lusa, rádio a válvula e tubos de Bilcrim com duas polegadas de poeira; e, finalmente, o bom Bonizzi, em cuja portinha lapeana ancorei de novo minha confiança, de uma gentileza e dedicação que tanto me comoveram e inspiraram nesta manhã.
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Soneto do Bar do Biu
- era noite de samba e butiquim!
Um sol brotou gigante dentro em mim
Bem quando ouvia o Vendaval da vida
Pra tudo o que tardou aquele Dia
negou-se a enfim deixar haver depois
Porque manjar algum não poderia
Dizer mais de nós que um baião-de-dois
Mister após um ano confessar
Faltar-me a tua presença como o ar
Se súbito os olhos não te contemple
Só no mais enumerar alegrias:
Trezentos e sessenta e cinco dias
Que mudaram minha vida pra sempre
[pra Stefânia, minha "Amada pra valer"]
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
Três sambas pra José
João Valentão
Dorival Caymmi
João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção nem pensa na vida
A todos João intimida
Faz coisas que até Deus duvida
Mas tem seu momento na vida...
É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo pra noite chegar
É quando se ouve mais forte
O ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida, da vida
Obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe
Se chega pro lado querendo agradar
Se a noite é de lua
A vontade é contar mentira
É se espreguiçar
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
Do que sua terra, não há
Pedro Pedregulho
Geraldo Pereira
Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho
Quebrando boteco, fazendo barulho
Até com a própria polícia brigou
Vivia do jogo e quando perdia só mesmo muamba
Rasgava pandeiro, acabava com o samba
Parece mentira, Pedro endireitou...
Stelinha, orgulho do morro, mulher disputada
Que quando ia ao samba saía pancada
Ao Pedro dos Santos deu seu grande amor
E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho,
por uma marmita, e sobe o Pedregulho
De noite, cansado do seu batedor.
Caco velho
Ary Barroso
Reside no subúrbio do Encantado
Num barracão abandonado
João de Tal, cabra falado
E dizem que viveu fora da lei
Foi um rei
Que zombava da morte
Tinha um santo forte
No meio de gente bamba
O seu prazer era tirar um samba
Pulava, dava rasteira
Topava briga de qualquer maneira
Mas hoje é um caco velho que não vale nada
Tem a cabeça branca, a pele encarquilhada
Faz até pena ver o seu estado
(pobre coitado!)
A vida é essa...
É um segundo que se esvai depressa
Todos nós temos o nosso momento
E depois dele o esquecimento
sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
São Sebastião
Mas mesmo assim o céu estava azul
Samborê, pemba, folha de Jurema
Oxóssi reina de norte a sul!
Obrigado padim
São Sebastião!
Por poder ofertar
Nesse cantinho
que é altar e congá
Em tua devoção
por dois anos já
Um pouco de mim
quarta-feira, 18 de janeiro de 2006
Planos de janeiro
Este ano eu quero botar o bloco na rua, brincar, botar pra gemer. Até porque, pra falar a verdade, mesmo morrendo de medo, mesmo caindo do galho, porra, nunca ninguém pôde dizer que eu tenha fugido da briga quando o pau quebrou!
Neste ano eu quero sair de casa numa sexta-feira, de camisa branca, nova. Ir ao bar e beber e ouvir cantar o velho sambista amigo meu. E quero sair pra tomar a saideira. E eu não quero voltar, perdido de amor, de pé numa esquina barulhenta, entre os ônibus que começarão a vir e as putas que acabarão de ir.
Eu quero apenas não voltar. Quero só ir, e ir, e ir cada vez mais.
No carnaval deste ano, eu quero me vestir de sereia, com um rabo bem verde e cílios amarelos enormes. E uma peruca ruiva, de preferência, com um diadema de estrasses bem ordinários. Eu vou me divertir, na certa eu vou sambar, mas desta vez a ilusão não vai me pegar. Vou só ficar bebendo com os amigos nos butiquins mais mais vagabundos e fazendo declarações de amor politicamente incorretas.
Na Terça-feira Gorda vou me fantasiar de pierrô. Por dentro. Apaixonado assim pela colombina mais bonita do baile...
Este ano eu quero conhecer uma praia nova, bem bonita, onde a gente só possa chegar de barco, pra poder levar a minha filha. Onde tenha uma casa sem eletricidade bem no meio do mato, pra poder conversar com os amigos e com os grilos e com o riacho que passar atrás. Pra poder brigar com a namorada e pra gente saber que a beleza da vida implica na sua imperfeição.
Este ano, no São João, eu vou brincar a quadrilha a valer. E vai ter um casamento caipira, onde eu vou ser a noiva.
Quero mudar pra uma casa nova, este ano. Vermelha, de preferência, com um quintal bonito onde eu possa fazer uma festa de casamento. A mais bonita. Pra todos os meus amigos – e os filhos deles – encherem a casa e a cara até não se poder mais.
Este ano vou cuidar da saúde, fazer dieta e beber menos. E acordar mais cedo todo dia pra nadar.
Olha, eu vou tirar férias este ano e passear muito. Quem sabe eu vá a Minas, ver de novo aquelas igrejas e casas e montanhas velhas. Quem sabe até não vejo por lá alguma festa bonita, dessas que não tem mais, com a pretoria toda castigando tambores velhíssimos como as montanhas e as igrejas? Vou, sim, eu vou a Minas este ano... Assistir à missa e acompanhar a procissão – tomara que não chova!
Até o Natal deste ano – tenho certeza – não vai ser chato que nem o natal desses últimos anos todos. Vamos fazer uma festa bem bonita, armar a árvore e o presépio. E vamos comer e comer e comer e beber até não sobrar nada. Vou convencer meu primo a se vestir de Papai Noel, só pra minha filha sorrir aquele sorriso que é o sopro mais puro de tudo o que existe.
Do jeito que este ano vai ser incrível, eu viro até personagem de livro - de tão bacana que este ano vai ser!
É... Pra esse ano ser perfeito eu vou dar um pulo no meu Rio de Janeiro. Não, não vou ao Rio de Janeiro nesse dia, não. Vou três dias antes, claro, é bem melhor, com certeza. Então eu vou ligar pro meu Amigo, pro meu Xará e convidá-lo pra gente beber. E a gente vai ficando assim, bebendo uma bebedeira bem vagabunda... E eu não vou deixar ele ir embora, não! A gente vai ficar bebendo... Bebendo...
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
Soneto de natividade para Dara
Por nove meses no ventre gestara
Caudal de essência tão bela e tão rara
Estrela em tela que estela diviso
O arauto virtual a nós anuncia
Júbilo ao cabo de tão grande espera,
A chegada de quem muito supera
Tudo que o pai já compôs de poesia
Aceita, ó Dara, este incenso remoto
Que em ondas etéreas ora navega
Mesmo se o senso ordinário se nega
De quem já é teu reverente devoto
Qual daquel'Outro pequeno também
Nascido em mês de dezembro em Belém
sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
Canoas do Tejo
Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira
O vento sopra nas fragas
O sol parece um morango...
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango
Canoa, conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem
Canoa, por onde vais
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais.
Canoa de vela panda
Que vens da boca da barra
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra
Teu arrais prendeu a vela
E se adormeceu, deixa-lo
Agora muita cautela
Não vá o mar acordá-lo
Canoa, conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem
Canoa, por onde vais
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Buenos dias, Capitán!
Até que um dia veio contar que ia comprar um butiquim ali perto, em sociedade com a irmã. O estabelecimento já era antigo no pedaço, mas não muito manjado pelo time do samba-choro que freqüentava ali o nosso reduto, administrado pelo bom Cidão. Mas camarada comprando butiquim é sempre notícia alvissareira. E assim começamos a passear por aquela meia-porta escondida atrás do cemitério, que aos poucos passou a receber a rapaziada musical de Pinheiros. Dali pras rodas de samba e choro se instalarem foi um pulo.
O tempo foi dando as suas voltas, o Ó do Borogodó hoje é o que é. E a irmã do Léo, como naquela velha canção do Caboclinho Querido em homenagem ao bairro da Casa Verde, "hoje é minha"... Mas o que eu queria mesmo lhes contar é que aquele que pra nós já foi "o alemão da cuíca", o "Léo do Sem Vintém", o "Leozinho do Ó", que conserva o jeitão desligado e o carisma dos olhos ainda jovens, basta só uma brisazinha de maresia pra se transformar, como nas histórias de heróis, no intrépido Capitão Léo Gola, assim mesmo, com nome de personagem de ópera! E eu juro que quem o vê pelo balcão do bar não reconhece o bravo enfrentador de vagas e marolas, faça sol ou faça chuva. Não lhe vê a barba russa eriçada pela viração, nem a tempestade de raios satisfeitos e trovoadas desafiadas que se lhe faz no céu dos olhos, de costume tão azuis.
Este que vos escreve dá testemunho de que quem o vê por trás da cuíca marota e da beleza plácida de garotão não sabe o tarado, o louco, o sanguinário, no convés de seu veleiro de três mastros, como na canção-retrato, basta a água salgada acarinhar de leve a barriguinha de seu Oxalá (o maior, como está dito!). Não tem noção da comoção e do respeito que provocam a simples menção de seu nome de rei, lá pelas plagas onde parece ter encalhado um barcão bem maior, todo vermelho, por cima de um rochedo quase dentro do mar. Não sabe que por ali ele manda chover e manda parar, conforme o capricho dos amigos a quem se põe a encantar.
Não conhece o desbravador da baía da Ilha Grande! O prefeito de Cajaíba, leão no nome e no signo.
O grande Capitão-de-Mar-e-Guerra Leonardo Gola! Meu cunhado, sim senhor!