sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Cura-te a ti mesmo!


O Ministério Público e a transformação do futebol em estado de exceção à normalidade democrática


A gente fala de sentimentos, eles não entendem. A gente fala de cultura, eles arvoram seus preconceitos, seu desprezo por tudo que não reproduza seu padrão de pensamento de classe dominante. A gente fala de política, esbarra em seus autoritarismos, verborragias, empáfias e lugares comuns contruídos em anos de imbecilização das massas. Vamos, pois, falar de Direito.

A regra político-jutídica que nos dias atuais grassa na imensa maioria das nações e sociedades ditas democráticas é a que se convencionou chamar “Estado de Direito”. Basicamente se define pela subsunção absoluta do exercício do poder estatal a um conjunto de regras anteriormente definidas e conhecidas, submetidas todas a uma norma fundante e fundamental. Entre nós, essa norma superior que serve de suporte a todas as demais é a Constituição. E em nossa Lei Maior a máxima consubstanciação desse sistema que visa tanto o controle político sobre a ação do estado, como a preservação das liberdades individuais, tem lugar no chamado “princípio da legalidade”, segundo o qual apenas e tão somente as leis aprovadas pelo Congresso Nacional e demais casas legislativas (Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores) é que definem o que os cidadãos e o Estado podem ou não podem fazer. Entretanto, o alcance dessa máxima em relação aos cidadãos em geral tem um sentido, por assim dizer, oposto ao que tem em relação à atuação do Estado por meio de seus agentes. Dito de forma prática, enquanto o particular pode fazer qualquer coisa que a lei não proíba, os agentes estatais apenas e tão somente podem fazer aquilo que é previsto estrita e expressamente pela lei.

No estudo da teoria do estado moderno é também conhecida a figura do assim chamado “estado de exceção”, que alguns tendem, didaticamente, a contrapor à noção de “Estado de Direito”, por caracterizar uma situação em que a atuação estatal não se pauta estritamente pela lei, mas está balizada por parâmetros outros. Essa contraposição, entretanto, não é precisa. Há que se distinguir, basicamente, por um lado, as hipóteses em que o próprio sistema normativo admite uma flexibilização das formalidades legais para o atendimento de situações emergenciais, tais como as decorrentes de grandes catástrofes climáticas, de invasão do território por forças estrangeiras, ou outras ameaças à própria existência do estado, suas instituições e poderes constituídos. Nesse caso, é o ordenamento normativo que prevê a supressão momentânea de determinadas formalidades para que o parâmetro da atuação estatal passe a ser a resposta pronta e eficiente às demandas que envolvam atuações rápidas e distintas do padrão. Essas hipóteses devem ser precisamente descritas e tem tempo de duração absolutamente restrito à restauração da normalidade; a adequação aos objetivos que as ensejam, bem como os eventuais excessos cometidos, submetem-se ao controle das instituições democráticas como os parlamentos, o Poder Judiciário etc. Por outro lado, situação completamente diversa se dá quando a normalidade do funcionamento do Estado de Direito fica comprometida fora das hipóteses previstas no ordenamento normativo, como no caso extremo do golpe de estado, ou quando há comprometimento grave e sistemático do funcionamento institucional, com o surgimento de poderes “paralelos”. Nesses casos, como parece claro, os instrumentos de ação do Estado de Direito mostram-se incapazes de promover a restauração da normalidade jurídico-democrática, e os parâmetros para o exercício do poder estatal migram para fora do sistema, seja para a vontade pessoal do ditador, seja para o exercício da violência por ela mesma, ou para interesses de grupos para-estatais (organizações criminosas, movimentos políticos extremistas etc.) e por aí vai.

Por ocasião da realização da Copa do Mundo no Brasil, muitas vozes se ergueram para alertar sobre o perigo representado por concessões relativamente à prevalência de determinadas regras jurídicas vigentes em relação aos interesses organizacionais envolvidos, com riscos de se erigirem em verdadeiras situações de exceção. Desde regras especiais para a aquisição de bens e serviços pelo setor público (que normalmente obedece a rígidos parâmetros estabelecidos pela Lei de Licitações) até as denúncias de desapropriações e remoções para a realização de obras, passando pela restrição à liberdade de expressão e à circulação de particulares em locais e dias de jogos, muitos aspectos deram a sensação que vigia em relação a tudo o que se referisse ao mega-evento esportivo um conjunto de ordenações “paralelo”, ao largo e muitas vezes por sobre os direitos, garantias e prerrogativas normalmente invocáveis pelos cidadãos nacionais e/ou oponíveis à ação estatal. O que talvez ignorem as tão bem intencionadas vozes é que aqueles que vivem o dia a dia dos eventos futebolísticos no Estado de São Paulo há muitíssimo tempo (dezenove anos, para ser mais exato) experimentam uma inusitada e teratológica situação de exceção, onde as estruturas e princípios que regem o funcionamento de nossa sociedade pretensamente democrática parecem ceder lugar a imperativos “práticos”, clamores passionais, idiossincrasias e preconceitos de todas as ordens (é exemplar, nesse diapasão, a justificativa que rolou solta na boca de autoridades e jornalistas para a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante a Copa: “trata-se de outro público”). Incitado por uma fatia da imprensa esportiva que não limita sua atividade à análise opinativa do que acontece dentro das quatro linhas e à cobertura informativa dos acontecimentos que circunscrevem o evento, arvorando-se em púlpito dos mais inconfessáveis sentimentos e interesses, o Ministério Público do Estado de São Paulo passa a coonestar a gradual supressão, no âmbito dos eventos futebolísticos, das liberdades democráticas que lhe incumbe precisamente defender. Mormente quando a projeção alcançada por essa sinistra associação com a já citada imprensa nefasta passou a render dividendos outros, inclusive de natureza eleitoral.

Sob invocações de variadíssimos jaezes, todas de altíssimo grau de subjetividade, a instituição que deveria ser a Fiscal da Lei passa a orquestrar uma série de medidas, ora no âmbito judicial, ora na interferência direta sobre o planejamento das atividades organizacionais (leia-se: policiais), de restrição de direitos e liberdades, que acabou por desaguar num ambiente em que ficou “normal” tolerar a restrição SEM PREVISÃO LEGAL à liberdade de expressão (vide as faixas proibidas, os coros censurados), do direito de ir e vir (do cidadão, por exemplo, que, não tendo o ingresso, não pode se aproximar de um estádio TRANSITANDO A PÉ POR LOGRADOUROS PÚBLICOS), do direito à associação para fins pacíficos e do princípio fundamental de que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo, senão em virtude de lei. E num ambiente de exceção, onde o parâmetro decisório do que pode e não pode ser feito é deslocado da lei para os “sentimentos” de segurança, tranquilidade, ordem pública etc., não é difícil perceber que acabará por restar à instituição que é incumbida da operacionalidade dos eventos esportivos - a Polícia Militar, normalmente tão ciosa da observância da legalidade estrita – tomar casuisticamente um sem número de decisões sobre onde se possa ou não ficar, o que possa ou não possa ser feito, o que possa ou não ser exprimido , o que possa ou não ser portado (e não estou falando de armas ou entorpecentes: guarda-chuvas, rádios, bengalas – TUDO ISSO EU JÁ VI COM MEUS PRÓPRIOS OLHOS SER EXPROPRIADO na entrada dos estádios paulistas) etc. etc. etc. E quando digo a instituição, leia-se: o indivíduo investido na função de agente estatal, ali naquela hora, naquele lugar. É ao exclusivo arbítrio desse indivíduo que está relegado naquele momento e local o direito do cidadão brasileiro que pretensamente vive sob a égide de um Estado de Direito, com prerrogativas garantidas pela Constituição que o funda e rege.

Pois mais uma vez vem a público um membro do Ministério Público Paulista – esta coluna não conseguiu apurar se e quando será candidato a um cargo eletivo - mais uma vez de carona na enorme atenção despertada em torno da partida que definirá a permanência ou não na elite do futebol nacional de um dos clubes mais populares do Brasil, despejar o seu baú de idiossincrasias e arvorar-se em legislador, tutor e executor de uma norma de exceção que ele pretende vá disciplinar a organização do evento esportivo desse próximo domingo. Sintam o tom “impessoal” desejável de toda autoridade investida de prerrogativas públicas num Estado de Direito: “"Eu particularmente sou contra essa aglomeração no entorno do estádio. Eu prezo por um entorno mais saudável. Eu entendo que pelo fato de estar encravado no centro da cidade, com várias casas e pontos comerciais, atrapalha fazer um círculo de isolamento. Mas eu acho salutar, acho que a gente tem de buscar isso. A gente tem de acabar com isso no entorno.” (o negrito, obviamente, não está no original da matéria; o senhor promotor, estilista do vernáculo que parece ser, presumo deva ter-se valido do conhecido recurso da ênfase pela repetição). EU prezo, EU sou contra, EU entendo, EU acho... A lei??? Ora, a lei... A ilustre autoridade pública não se referiu a ela em nenhum momento! Com o que a lei considera “saudável” ele não parece preocupado, investido que está da capacidade supra-sensível de dizer e interpretar os sentimentos da sociedade! Se a vontade e a percepção do digníssimo membro do Parquet são erigidas em parâmetro da atuação estatal, quem estará preocupado com a lei??? Lá na frente a nossa máxima autoridade do estado de exceção esportivo parece se dar conta do “esquecimento” e apressa-se em citar a lei que, segundo ele, proíbe a venda de bebida alcoólica num entorno de 200m dos estádios. E quanto ao “isolamento”? E quanto a acabar com as “aglomerações”? E quanto à proibição de se aproximar do estádio sem ingresso? E quanto à impossibilidade de se ostentar cartazes de protesto contra os desmandos da polícia? E quanto a levar o seu guarda-chuva para o estádio? ONDE DIABOS ESTÁ A LEI QUE RESPALDA TAIS INTERDIÇÕES AO CIDADÃO COMUM???

O “costume” da torcida se reunir em torno do estádio em dias de jogos “não é visto com bons olhos pelo Ministério Público de São Paulo”, diz a matéria jornalística. Não vou perder meu tempo, obviamente, problematizando a questão acerca do quanto a lei pode ou deve se sobrepor ao costume ou contrariá-lo - isso seria sociologia, coisa de comunista, com a qual as nossas doutas autoridades e nossa preclara imprensa esportiva não desperdiçarão seu precioso (literalmente) tempo. A despeito disso, sinto-me no direito de perguntar: afinal, quem são “os olhos do MPSP”? Porque, diferentemente do que poderia supor um cidadão de boa-fé, não parecem ser os olhos da lei. Perderá tempo quem for buscar nos textos legais, na sua interpretação doutrinária ou jurisprudencial, a definição do que é “tranquilo”, do que é “saudável”, do que “a gente tem que acabar”. O preclaro doutor Paulo Castilho disso já se incumbiu.

(publicado originalmente em 05/12/2014 em Turiassu 1840)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Cultura da boca pra fora

Aos amigos, Juca Ferreira; aos inimigos, Celso Jatene*


Quando eu defendo a tese de que há que se desenvolver uma consciência e uma responsabilidade cultural, assim como se desenvolveram a consciência e a responsabilidade ambientais, os tarefeiros da política acham que é abstração intelectual.

Quando eu digo que qualquer medida governamental - desde a concessão de uma licença, um alvará, até a formulação de políticas públicas, passando pela elaboração legislativa que disciplina a vida social – tenha que obrigatoriamente passar por uma avaliação de impacto cultural, os intelectuais flanantes por suas geleiras e altas montanhas não conseguem perceber a relevância e o alcance concreto dessa exigência.

Quando eu digo que é uma baita incoerência defender nas tribunas, seminários e congressos partidários os recursos para o ponto de cultura da ciranda-do-toco-fincado-da-tia-maricotinha-da-quarta-praia-depois-da-barra-do-riacho-fundo e não dar um mísero pio quando tramita o projeto de lei que obriga a fechar o butiquim – aqui no Centro de São Paulo, bem antes da quarta praia... - na hora que eles bem entendem, neguinho fica com cara de ué, sem (querer) entender o que tem a ver o cós com a cueca.

Não serei o primeiro a sacramentar que o futebol é muito possivelmente a mais importante ritualização coletiva do funcionamento, dos dilemas, da auto-representação, dos antagonismos etc. na sociedade de massas pós Revolução Industrial – fosse lá em seus primórdios de afirmações nacionalistas e sobrevivências grupais, seja cá no mundo eletrônico globalizado. Também não preciso me dar ao trabalho de descrever os desdobramentos simbólicos, psicológicos, sociais, antropológicos, políticos etc. dessa poderosa ritualização. Para quem, portanto, não entendeu que o futebol é muito mais do que o pode ser visto dentro das quatro linhas, indicaria o caminho da biblioteca. Se necessário, precedido do Caminho Suave.

Pois não é precisamente o antagonismo das torcidas o elemento de ritualização fundamental das tensões e conflitos insculpidos no mais profundo íntimo das sociedades modernas, de desigualdades reais aplainadas pela máscara da igualdade jurídica? Não é o enfrentamento das energias contrárias metáfora e simulacro das grandes dualidades que presidem inúmeras interpretações do universo, só não mais antigas que as representações circulares e esféricas que encarnam o equilíbrio desejável dessas contrariedades, não por acaso dominantes no grande teatro do futebol, da bola ao estádio? Não estarão também aí celebradas as incursões pelo território “inimigo”, elemento de mediação de forças naturais e sociais que remete a domínios compartilhados até mesmo com o mundo animal?

Mas para além de toda generalidade do jogo em si e dos elementos que o circunscrevem, na nossa aldeia em particular, as construções simbólicas e culturais que se desenvolveram a partir e para além do jogo, mais precisamente em torno do ato de “ir ao futebol” e do consectário “assistir o jogo do seu time”, são de uma riqueza e de uma complexidade que transcendem imensamente o que ali meramente se vê - que, não fosse o que acima se disse do futebol em geral, poder-se-ia até dizer simplório, em face de toda a delicadeza, brutalidade, força, sofreguidão, expressividade da construção dos “entornos” todos. Para quem, então, forjou boa parte de seus entendimentos sobre esse mundo nos interstícios de tempo e de espaço que separavam o transcorrer modorrento e linear da vida quotidiana da epifania atemporal de tantos pertencimentos que se dá no seio de um estádio de futebol, como pode ser entendido o risível conselho secretarial “assista o jogo pela tv”???

Para quem não pode compreendê-lo, por falta de vivência, não há aqui, infelizmente, biblioteca que dê jeito. Mas não sendo dado ao senhor secretário valer-se dessa escusa, homem de arquibancadas que foi, como compreender a falácia de seu discurso, senão como parte de um muitíssimo bem orquestrado movimento que, gestado nas catacumbas gélidas e escuras onde há muito e à sorrelfa conspiram a imprensa rastejante, os dirigentes corruptos e os demais manipuladores e beneficiários dos mais inconfessáveis interesses que circunscrevem a mercantilização desse patrimônio popular, agora adrede se lança ao ataque, indisfarçadamente, pelos mais variados flancos? Ou será coincidência que num interregno de três dias se ouçam em coro cuja afinação humilharia os meninos de Viena vozes tão distantes quanto manjadas como as de um Flávio Prado, de um Leandro Alexandre Pretzel Quessada, de um Paulo Nobre, somadas à do próprio Jatente?

É por isso que eu gostaria de ouvir o que têm a dizer meus companheiros de trincheira política, sobretudo em face da sensibilidade a essas questões que tem sido há tempos demonstrada por proeminentes figuras do nosso campo, como o Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo e o recém eleito deputado Orlando Silva. Porque o Senhor Jatene é o responsável pelas políticas públicas para o esporte na Capital de São Paulo. Porque, afinal, nós fazemos ou não fazemos parte desta gestão? É só pra ocupar cargo? Ou não tem a ver o cós com a calça? Ou essa mentalidade não dará o tom , na hora em que for pra discutir pra valer, no âmbito do esporte, as questões da preservação identitária da Cidade, da afirmação das diversidades, da tolerância, da expressividade, da resistência cultural?

Está na hora, de uma vez por todas, do prefeito Fernando Haddad enfrentar as divisões que há no seu governo, a fim de que a inclinação política da gestão possa ficar mais clara e mais conforme tudo aquilo que o ouvimos afirmar, ao vivo e a cores, com as veias do pescoço saltadas, nos atos finais da campanha pela reeleição da Presidente Dilma. Até para a gente saber até onde é para acreditar. Senão vira o samba do crioulo doido: o que é da seara da Secretaria da Cultura, “ok, tudo bem, vamos discutir cultura em alto nível”. O resto, vá lidar com a tropa de choque da “base de sustentação”. Só que cultura, minha gente, não é só teatro, música e virada. Cultura é comer, morar, passear com a família, tomar cerveja, ir à igreja, enfeitar a casa, fazer a feira, reunir os amigos, assistir o futebol e quantos mais etcéteras puderem ser colecionados.

Se não formos nós a trazer para a pauta essas questões, companheiros, quem será?


* a propósito de declaração do Secretário de Esportes do Município de São Paulo, Celso Jatente, acerca da torcida única nos estádios.
(Texto publicado originalmente em Turiassu1840)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Jorge Costa


A primeira vez que o vi tive a certeza de que se tratava de um bamba. Porque eu era garoto, engatinhava na noite, e os sambistas que já trombava aqui e ali, um pouco nos raros espetáculos, um tanto pelas quadras das escolas no de vez em quando, não correspondiam ao estereótipo cravado no imaginário geral brasileiro. Nele, muitíssimo pelo contrário, estava tudo lá: as correntes, medalhões, anéis, a capanga de couro, a boina, a elegância negra, o carisma, as boas companhias, o sapato branco. Aliás, como nesses idos a sexta-feira ainda era o dia que por excelência dava pra fugir para a noite do Centro, quando o via pelo legendário Pena Dourada o branco não era só no sapato; como de preceito, a fatiota todinha luzia de uma alvura que ressaltava ainda mais sua beleza negra madura.

Esse era Jorge Costa, compositor afamado, disputado até, no seu auge pelos anos 60 e 70. Alagoano de nascimento, cedo veio bater no Rio de Janeiro, tendo seu talento musical e a mão das musas o levado ao Morro da Mangueira, onde viria a se tornar grande companheiro de um dos maiores representantes do gênero em que mais tarde tanto se destacaria: Padeirinho. Mas foi em São Paulo, onde uma linhagem muito característica do samba sincopado barbaramente florescia – com expoentes como Caco Velho, Isaurinha Garcia, Germano Mathias e, mais tarde, Miriam Batucada – que Jorge se consagrou entre o nono círculo dos maiorais, precursor do tipo de divisão e levada que mais tarde caracterizariam um outro subgênero tão particular: o samba-rock.

Mas quem conheceu seus sambas pela voz de intérpretes tão consagrados como diversos, num espectro que vai de Ângela Maria a Bezerra da Silva, passando necessariamente por Germano Mathias, Noite Ilustrada, Jair Rodrigues, Nelson Gonçalves, Beth Carvalho, João Borba entre outros, não imagina o sambista magistral, domínio absoluto da percussão e do canto - divisão e suíngue incomparáveis -, verdadeiro “show man” da roda de samba. Sem falar no já citado carisma. Não conheço sambista em São Paulo que, tendo com ele minimamente convivido, não se fascinasse e deixasse influenciar, por qualquer forma, pela sua arte e pela sua figura. Wilson Sucena, Chico Aguiar, João Borba, Valtinho do Violão, a saudosa Denise Camargo e esse que vos escreve talvez sejam os mais confessos, mas certamente não os únicos.

Pra apimentar a sexta-feira e dar o ponta-pé no fim de semana com samba da melhor estirpe, um pouquinho da arte do genial – e hoje tão pouco lembrado – Jorge Costa. Porque amanhã é sábado e tem mais, no Ó do Borogodó. Ao vivo e a cores.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Credo

(para Antonio Nóbrega)



O Brasil em que eu acredito não é esse senhor carrancudo que, alquebrado pelas amarguras – reais, realíssimas! - da existência, põe-se esculhambar aqueles tantos que fazem da festa a sua maneira de reinventar a vida. Porque é esse também um jeito de não sucumbir à vergasta quotidiana. Reinventar a vida pela festa é dar existência, ainda que efêmera, ainda que tão sutil, a uma outra ordenação do mundo, destituída da mácula da opressão, as dores todas ressignificadas. É postular que tudo o que está aí, do jeito que está aí, não precisa ser necessariamente desse jeito; de que há uma outra existência tão possível, tão real quanto esta.

O Brasil em que eu acredito é um dos sonhos mais bonitos que a Humanidade já sonhou: que era uma vez um lugar habitado por povos tão diversos como as estrelas do céu. Para onde vieram, certo dia, viajantes de um mundo tão outro, de costumes tão outros, dispostos a construir uma nova morada. Viajantes que arrastaram consigo para esse lugar, contra a sua vontade, mais um sem número de povos outros, numerosos e diversos como as areias da praia. E que, uma vez vindos, tais viajantes trouxeram na rebarba de suas boas e más intenções, tanto aos nativos do lugar como aos que arrastaram consigo, seiscentos e uma luas de muitas dores, mortes, sofrimentos e destruição. Mas exposto a todo esse caudal de martírios, ao invés de ver brotar cidades cinzentas a transbordar de ódio e ressentimento, esse estranho lugar gerou jardins floridos de tolerâncias e entendimentos, com flores de uma malemolência brejeira, bailando bailados nunca imaginados, embaladas pela música mais bela que jamais se ouviu.

Mas um certo dia pragas horrendas se puseram a assolar o jardim com o qual a Humanidade sonhava. E as pestes se valeram das fraquezas tantas que habitaram desde sempre o seio desse jardim forjado e fornido entre dores tantas, entre precariedades também tantas. E cresceram. E se alastraram. E as flores começaram a desistir de bailar seu bailado espontâneo à brisa morna das manhãs ensolaradas, desacreditadas do poder de sua beleza.

Na hora em que todos aqueles que nos obstinamos em sonhar um sonho tamanhamente possível nos vemos arrastados de nossas redes e nossas varandas ao meio da rua da amargura e da sofreguidão, atirado às nossas faces o libelo terrível - de incensarmos e cultivarmos uma ordem outra, de festas e músicas, brinquedos e bailados, delicadezas e sabidices, preguiças e jeitinhos - eu rezo.

Rogo e imploro ao Anjo Barroco do Brasil: devolve-nos a incerteza de tuas pernas garruchas! Ensombreia as claridades das arenas arquivisíveis com as tortuosidades de seus caminhos tecidos pelos gramados esburacados. Deus que andou pelas esquinas, abre caminhos improváveis por entre as retrancas da amargura, das eficiências e estratégias. Reciviliza teu povo, esquecido da alegria, da molecagem e da mandinga. Ensina de novo aos teus filhos os olhos de se perder no céu escuro, pontilhado de não-caminhos, prenhe de desvãos. E desvia-nos da obsessão da luz, que, como advertira o poeta, nos trouxe às portas do inferno.

Amém.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O jogo


No tempo em que os bichos falavam e a noite era abrigo das almas solítárias e passantes, fora um grande andarilho das madrugadas. Não mais, por certo, violado o santuário, profanado o mistério, banalizado o sagrado. Mas aquela madrugada temporã espocou como epifania de pertencimentos julgados dormidos. E saiu; costurando as estranhezas com uma habilidade não se sabe onde mal preservada. Mas se foi e se deixou levar, quase obstinado, como a submeter as convicçções empoeiradas a uma espécie de experimentum crucis. Já se vê...

E as andanças todas, e as tomanças, os acertos e os desacertos, os houve todos, ao gosto do freguês. Mas haveremos de nos contentar com a cena final da madrugada. Era num butiquim. Dos mais ordinários – e não no bom sentido, para os que me entendem. Por qualquer estranho motivo, passava na tevê do bar o videoteipe de um antigo, antiquíssimo jogo de seu time. Épico. E como se o luzeiro fatídico o puxasse pelo braço do torpor onde boiava, viu-se tragado para uma dimensão outra. E torceu, como há muito não sucedia. E sofreu. Desesperou-se com os gols perdidos, secou os ataques adversários, xingou o juiz, completamente alheio a qualquer dissensão temporal. E não que a ignorasse, anote-se bem. Conhecia o jogo! (aquele jogo...!) Sabia perfeitamente, não só do resultado, mas da sucessão toda dos acontecidos, dos lances, dramas e polêmicas. Não obstante, envolvia-se barbaramente em cada jogada, absorto, transfigurado, dedicado à tarefa primordial de torcedor: torcer.

Pois a Copa do Mundo outra vez nos bate às portas. O clima pouco a pouco se instaura, os sentimentos começam a despertar, ainda que tão absolutamente diversos do que querem pintar os marqueteiros bancários e galvânicos com seus pincéis do desconhecimento das coisas simples, da gente comum; ainda que uns tantos em nome do país estejam diariamente passando atestados de sua disposição de se converter à mesmice mal-humorada do mundo, de abandonar o que ainda tínhamos de singular, de brejeiro, de macunaímico. Na madrugada que atravessamos, restos e ecos de uma noite recém-antiga perduram ante os sinais da iminente claridade destruidora das sutilezas todas urdidas por entre os caminhos esconsos. O furor solar do futebol ultracapitalista, mercantilizado e globalizado, convive uma vez mais com os ecos de uma noite mal dormida, de fantasmas ainda não retornados a seus covais: nacionalismos, tabus, paixões, rancores, sanhas conquistadoras, preconceitos, rivalidades, tribalismos, guerras.

Entre o torcedor solar dos oba-obas, eventos, camarotes, badalações e muito verde-amarelo fashion, de um lado, e o masoquismo noturno e cinzento dos monopolistas dos sentimentos ditos verdadeiros, de outro, paira a figura diáfana do nosso torcedor da madrugada. Sabedor de que a história não vai mudar – e que talvez nem tenha que mudar -, completamente envolvido e absorto por um jogo suspenso no tempo e no espaço, com vida própria e independente, que está sempre a se jogar. Que ao mesmo tempo é único e são todos. Cujo resultado, ainda que conhecido, desimporta significativamente.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Jair de Todos os Sambas




















Partiu ontem para a morada dos Ancestrais uma das minhas mais marcantes referências na arte de cantar: Jair Rodrigues. Mas apesar de um excepcional intérprete do samba, com grande domínio de ri...tmo, cadência e divisão, sem falar em sua extraordinária voz; apesar de ter consolidado sua imagem artística como “sambista” nas duas primeiras décadas de sua carreira; apesar de ter consagrado composições de importantíssimos e incontestáveis sambistas de estirpe como Dedé da Portela, Dida, Gracia do Salgueiro, Wilson Moreira, Nei Lopes, Niltinho Tristeza, Jorge Costa, Ary do Cavaco, Otacílio da Mangueira, Martinho da Vila, Zuzuca, os baianos Edil Pacheco, Tião Motorista e Ederaldo Gentil, Velha da Portela, Venâncio, Bala entre tantos e tantos outros; apesar de figura decisiva no meio musical nos anos 70, sobretudo, a influenciar a carreira de importantes nomes ligados umbilicalmente ao samba como Clara Nunes e Os Originais do Samba, só pra ficar nos mais evidentes; apesar de ter gravado diversos discos dedicados somente ao samba, alguns de grande qualidade, tanto no que respeita a repertório e autores, como no que tange a interpretações, arranjos, instrumentação e produto sonoro final; apesar de pessoalmente ser uma figura querida e respeitada quase unanimemente no meio musical... Apesar de todos esses e outros pesares, Jair há muito é tratado com monumental indiferença no nosso querido e muitas vezes estranho mundinho do samba “stricto sensu”. E com isso não me refiro aos coiós de mola que vivem por aí elaborando seus “index” pra cá, sapecando os seus “nihil obstat” pra lá, à guisa de Santo Ofício. Falo da ausência quase absoluta do repertório do paulista, tirando um ou outro clássico, em praticamente todas as rodas de samba pelas quais tenho passado nesses quase trinta anos.

 Sempre me perguntei pelos porquês. As hipóteses a se levantar são muitas, evidentemente, e talvez nenhuma esgote a questão. A mais simplória diria que Jair não fazia questão de se apresentar (socialmente, simbolicamente, visualmente etc.) como um sambista, nem fazia questão de cumprir os salamaleques, beija-mãos e bate-cabeças comuns no metiê que tão bem conhecemos. Outra poderia se reportar ao fato de que seu repertório desde sempre tenha transitado por uma gama mais vasta de gêneros, com o agravante de que o samba tenha perdido ao longo do tempo até mesmo a preponderância da primeira hora – e a derivada agravante: que isso se tenha dado mais por tendências gerais do mercado do que por uma opção essencialmente artística. Se fôssemos dar asas à síndrome de Ubaldo, poderíamos pensar que Jair nasceu paulista e assim se manteve, não tendo se “acariocado” como, gaúchos, mineiros, maranhenses e baianos ilustres, seus colegas e contemporâneos. Talvez um pouco de cada coisa, somado ao fato evidente de que as fronteiras culturais que muitas vezes impomos na busca fundamental da preservação de identidades e modos de vida, muitas vezes deixem exilados alguns concidadãos que nos teriam muito mais a dar e ensinar do que os que vivem-nos distribuindo abraços e continências.

 Afortunamente, a roda dos Inimigos do Batente também nisso se constituiu como exceção. Sempre cantamos um sem números de sambas “criados”, como se dizia antigamente, pelo grande Jair, desde os que se transformaram em clássicos absolutos como “Gotas de Veneno” (Wilson Moreira e Nei Lopes), ou “O ouro e a madeira” (Ederaldo Gentil) até pérolas quase desconhecidas como “As lavadeiras da favela” (Paulo Sette), passando por saborosos partidos como “Quero meu boi” (Gracia a Pedrinho do Borel) e “Viva a mulher da gente” (Umberto Silva e Curumba) – aliás, era um grande intérprete do partido alto. Por essa admiração, por essa referência, por essa presença constante na minha formação musical e na formação do repertório - e mais do que isso: na proposta de repertório! – dos Inimigos, sonhamos em tê-lo como um dos homenageados da série “O Samba na Roda: em Prosa & Verso”, que os Inimigos realizaram no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em 2013, comemorativa dos dez anos do grupo. Infelizmente, por uma série de razões que não cabem aqui, não conseguimos tirar o sonho do travesseiro.

A homenagem virá, por certo, neste sábado, no Ó do Borogodó. Póstuma, muito infelizmente. Mas que perdurará enquanto nosso samba soar pelos caminhos todos de Ilu Ayê. Axé!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

“Eu tenho é medo do carnaval de hoje”


A frase que está no título deste texto não é de um pastor evangélico, da presidente da liga das senhoras, nem do CONSEG (pra quem não é de São Paulo, nem se ocupe em saber o que é...) ou da associação de moradores do meu bairro. É do gênio da raça, do grande entendedor do Brasil; do compositor, poeta e escritor Nei Lopes. Ele mesmo. E se explica: mestre Nei se refere à grande transformação que fez do Carnaval de rua, que era o reino da espontaneidade, da gratuidade, do encontro, um privilegiado espaço de reprodução da lógica mesma do dinheiro, do negócio, do poder. Nada diferente do que ocorreu com o carnaval das escolas de samba, com o futebol, com os butiquins etc. Etc. Etc. Mas nada também que tenha determinado até agora que não houvesse mais os butiquins libertadores dos encontros improváveis, o futebol sonhador das peladas a pé descalço, os instantes de magia e transfiguração pelas avenidas tantas pelo país afora. E ouso sonhar que não determinará também a morte do Carnaval em que a gente acredita. E espera a cada ano. Ao qual a gente se entrega.

E esse Carnaval - como já bem disse meu para sempre fraterno-irmão Luiz Antonio Simas – é da espontaneidade e da subversão. Ou da subversão pela espontaneidade. Porque o que se subverte, na verdade, é o dia a dia das preordenações , da previsibilidade, dos formalismos, onde a vida é mediada por soluções antecipadamente delineadas, senão em seus conteúdos, ao menos em suas formas. Com os resultados que a gente vê... A hierarquia, o poder de ditar as regras, os lugares predefinidos são a sustentação e a expressão mais visível dessa ordem a ser subvertida. A lógica da eficiência, o cálculo de meios e finalidades e a técnica, sua filha dileta, são seu modus operandi por excelência. Por isso essa ordem não resiste e se quebra pelo gesto sem finalidade, pela brincadeira que se esgota nela mesma, pelo abandono ao “seja o que Deus quiser”; pelo descaminho, pela total imprevisão, pelas formas nunca acabadas que se reinventam a todos os instantes, pelas soluções inusitadas, pelas estéticas aberrantes, pelas inversões dos papéis.

Por isso o “bloco do eu-sozinho” é a celula mater desses dias, encarnação daquele que sai de casa sabendo “apenas que vai para a rua imolar-se nos blocos e cordões, receber a extrema-unção com água benta de teor alcoólico e morrer até a Quarta-Feira de Cinzas”, sem itinerário, sem compromisso, sem programação. E o bloco de sujo é sua perfeita correspondente coletiva, sendo nada mais que um ajuntamento de “eu-sozinhos” que se encontram no acaso, no átimo, na fresta, no diáfano. Esses são filhos legítimos e diretos do velho entrudo. Tudo o que demanda algum grau de planejamento, organização, ou mesmo intencionalidades outras, se desvia desse sentido originalíssimo.

Quem vai para o carnaval PARA beber, ou PARA paquerar, não é folião. Não pertencem à esfera sagrada do Carnaval os “blocos” que saem para defender ideias, bandeiras, ou reivindicar isso e aquilo. Mesmo os folguedos todos que povoaram os carnavais Brasil afora, ouso dizer – malgrado o respeito quase devocional que já nutri pelas escolas de samba e ainda nutro, por exemplo, pelo maracatu rural de Pernambuco - já são corruptelas desse espírito fundamental. Populares, indubitavelmente, subversores eles mesmos, claro, pela encarnação da ludicidade, da teatralidade, da desconstrução-reinvenção da vida. Mas, via de regra, apenas identificados a posteriori com o Carnaval, por aproveitarem o relaxamento da vigilância e da repressão durante esses dias, expressões que foram e são de negros, índios, pobres, marginalizados, despossuídos, os excluídos todos da festa oficial.

E assim também, obviamente, nossos atuais blocos de rua serão também simulacros apartados dessa entrega “exusíaca” total (“quem tem Exu não precisa de Dionísio”). Mas são as nossas tentativas possíveis, humildes, desesperadas, de reconstrução dessas possibilidades, dessas não-formas de rebrincarmos o nosso Carnaval, a despeito, contra ou até “aproveitando” a onda do oba-oba geral. Por isso o carnaval de que Mestre Nei tem medo – e eu pavor! - vai lá em cima minúscula. Por isso, meus amigos, aproxima-se o dia mais importante, mais esperado do ano, que para mim já foi o sábado de abertura do Carnaval, hoje é o domingo que o antecede. Mudou o dia, mudou o lugar, mudaram os jeitos, mas não o significado. O tanto que posso morrer, morrerei; nem mais, nem menos. Essa é a minha jura de folião.

E porque não posso por decreto impor a tolerância àqueles que continuam a apostar nos moralismos como fórmulas de salvar os outros; porque não posso apartar do poder todos os que dele abusam em seus exclusivos interesses; porque não posso abrir a forceps os olhos, mãos e braços de uma sempiterna casa-grande aparentemente determinada a morrer abraçada aos seus anéis; porque não posso banir do nosso convívio veículos de opinião que são a encarnação mal-disfarçada dos mais torpes, sórdidos interesses; porque não posso estrangular o sujeito que estaciona, por desleixo ou prepotência, o seu carro ocupando duas vagas; porque não posso resgatar da mão dos usurpadores um joguinho só que seja do meu time, “assim como era no princípio”... Para eles e por eles todos – moralistas, poderosos, proprietários, gângsters, usurpadores, egocêntricos - oferecerei mais uma vez, a partir de domingo, vestido de sereia ou de Emília, o meu particular holocausto. Afirmação singela, mas peremptória, da possibilidade em que eu acredito e que nessas terras foi plantada.


Evoé!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não põe corda no meu Bloco


Conversava por esses dias com meu dileto amigo Luiz Antonio Simas, traçando uma antárctica mofada e uma sardinha frita no Bode Cheiroso. Falávamos, nas brechas das coisas que realmente importam, de como em outros tempos o inimigo visível da tradição era o discurso “modernizante”. Nos estranhos dias que correm, entretanto, é recorrente o uso da própria tradição com vistas a absorver, digerir, neutralizar e, assim, liquidar toda a força motora dessa mesma tradição.

E eis que voltando aos dias sem antárcticas e sem sardinhas deparo de cara o engraçadíssimo seminário – várias pessoas já me recriminaram, dizendo que a coisa é grave, mas eu, infelizmente, não consigo parar de rir - “Carnaval de rua”, a se realizar na próxima semana, por iniciativa da Prefeitura de São Paulo. Breve aperitivo dos participantes, segundo a programação oficial divulgada pela secretaria de cultura:

“Felipe Ferreira - Possui graduação em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993), mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996), doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e pós-doutorado em Letras pela Université Paris III - Sorbonne Nouvelle.”
(um pouco de sabedoria pra nos esclarecer)
“Guilherme Belitani - atualmente é Secretário de Desenvolvimento, Turismo e Cultura, além de sócio diretor-geral e professor da Faculdade Baiana de Direito.”
(desenvolvimento, turismo, direito: temas candentes na alma de qualquer folião)
….
"Domingos Leoneli - Publicitário e atual Secretário de Turismo da Bahia."
(o que seria do Carnaval sem os publicitários e sem a Bahia???)
“Tania Fayal - Umas das criadoras [sic] do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro.”
(eu juro que não estou inventando! Tá escrito lá...)
….
“João Luiz Passador - Coordenador do Gpublic – Centro de Estudos em Gestão e Políticas Públicas Contemporâneas. Possui graduação em Administração pela Fundação Getúlio Vargas, com especialização na Università Comerciale Luigi Bocconi (Milão, Itália), graduação em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, mestrado em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente é professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.”
(esse eu fiz questão de transcrever por inteiro)
“Sergio de Souza Merlo - Coordenador Operacional da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, USP. Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar.”
(...)

E vai por aí. Seu Carlão do Peruche tá perdido nessa também, com mais uns dois ou três que alguma vez na vida talvez tenham saído de casa só com uma fralda de bebê. Eu aqui, ingenuamente, enquanto só tinha batido os olhos meio de relance no título do seminário, preparei até um curriculozinho que achei que dava pra concorrer:

Nome semi-completo: Emília Mônica Smurfete Nega-maluca Curupira Sereia Pirilampo de Tejipió
Profissão: malocada, 'pra não dar o que falar'...
Currículo: não se lembra de quase nada, por estar quase sempre de porre. Das vagas lembranças, uma particularmente cara era de tomar ônibus de olho fechado e descer na primeira batucada que encontrasse. Testemunhas dão conta de que dormiu mutuamente escorado em Cláudio Camunguelo, no meio da barafunda da dispersão da Bateria da Portela.

Mas a Stefânia me desencorajou logo. Depois entendi.

Eu sonho com o dia em que o prefeito, os secretários, as instituições, a academia, os publicitários, legisladores, polícias e as putas todas que os pariram reconheçam, simples e finalmente, que o Carnaval é feito dos quatro dias em que eles - e seus títulos, propriedades, cargos, graduações e pós-graduações - não têm IMPORTÂNCIA ABSOLUTAMENTE NENHUMA. Que o Carnaval é, por excelência e por definição, a subversão e supressão da ordem cotidiana de hierarquias, poderes, mandos e ordenações. É o império do descompromisso, da incerteza, do nivelamento, do aleatório, da rua. Do HOMEM COMUM.

Eu sonho, simplesmente, com o dia em que eles nos deixarão em paz. Aí haverá Carnaval de novo. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Benjamin

Regozijam-se uma vez mais os que não cessaram
De vencer: a História finda, pois
Não se consumou
Consumiu-se
Tornado em redemoinho o vendaval
O Anjo sem olhos queda inerte
                            - a boca ainda escancarada
Tripudiam dos mortos a arder em fornalhas agora
A céu aberto
Nem a tristeza mais nos pertence
Os fantasmas íntimos outrora
tão temidos
Jazem amortalhados nas bandeiras que nos arrancaram
                                                                      O vazio
De qualquer pertencimento desistidos
Sentidos
Perdidos
Ateamos fogo às naus sem mesmo
Desembarcar


para Benjamim Esufemi Simas, numa garrafa atirada ao mar

sábado, 12 de janeiro de 2013

Um século do lobo solitário do Cachoeiro



Em 12 de janeiro de 1913, há exatos cem anos, pois, vinha ao mundo na capixaba Cachoeiro de Itapemirim aquele que seria para mim o maior dos escritores brasileiros: Rubem Braga. Como homenagem humílima à imensidão que representou na minha vida de leitor, tomo coragem para publicar uma crônica inédita que escrevi na flor de meus vinte anos, por ocasião de sua partida para a Noite Grande - retocada a lápis, apenas, como naqueles antigos retratos, para suavizar as imperfeições mais gritantes do traço. Descontada a juventude que já se foi e a adoração que nesses vinte e dois anos só cresceu, este pequeno e despretencioso requiem conserva tão somente o mérito de se somar às vozes que afortunadamente quebram o silêncio já não surpreendente dos “grandes”, absolutamente incompatível com a grandeza e importância do homenageado. Chama Rubem Braga!



Requiem para Rubem 



Passa das onze da noite. Completam-se sete dias sem o amigo. Amigo que jamais vi e a quem nunca pude falar. Mas que conheci e conheceu-me tanto – e tanto me disse! Já andava então por veredas outras, respeitáveis até, importantes; mas Rubem Braga foi o responsável pela poesia em minha vida. Não, certo, a poesia ordinária e fundamental da vida, mas aquela própria que se tece a cinzel sobre o bronze informe das letras e palavras, acima e antes de qualquer outro poeta. Sem apologias nem erudições. Simplesmente com sua prosa cósmico-cachoeirense regada a cachaça ou a uísque, ensinando das mulheres, das gentes, dos passarinhos e dos pés de caju.

Ah, velho Braga... Chamo-te assim agora, como te chamaste desde a idade mais tenra, mesmo sabendo que acharias, assim, esquisito. Mas te chamo porque te conheço, Braga velho! Chorei tua morte, sim, me achei ridículo, e depois decepcionado de me ter assim achado. Por que não te posso chorar, Braga? Se me ensinaste a olhar a vida com os olhos da poesia, e a conviver com ela não sem sofrer? Por que não posso chorar, se a fé que tenho não enche esse vazio que me deixou tua partida? Por que rezar pela tua alma, se é a desalma do mundo que padecerá tanto do teu silêncio?

Esta crônica foi-me resistida sete dias. De preceito, talvez... E nesses dias todos, como que a tua cadeira vazia não me deixava de obrigá-la. (Mas falta a rotina, de que tanto reclamavas...) E já foi emocionada, e foi melancólica; foi lacônica e foi loquaz, e até irônica. Mas não a queria de um jeito qualquer - não a queria de jeito nenhum. Queria-a simples, apenas, ainda que sem jeito. Até por responsabilidade - quanto palavrório por esses dias! A sutileza de um articulista, por exemplo, largou esta: “Braga morre sem deixar discípulos. Os jovens de hoje buscam caminhos mais sólidos para suas glórias literárias.” Me aceita, então, Mestre, a pretensão única de desamarrar as tuas sandálias cansadas da poeira da vida toda, na volatilidade dos descaminhos a que te entregaste.

Estes fins de ano andam tristes que não sei... E este como vai ser, oh Braga, sabedor da falta de teu olhar de pássaro atento, penetrante e assustado na tua gaiola de Ipanema? Mas é verão, amigo, e as tardes serão longas e as mulheres estarão belas. E tu estarás em cada por-do-sol , à beira do mar que te encantava. E as tuas mulheres todas serão, no meu coração, apenas uma como sempre foi. Apenas Joana. As tuas mulheres, Velho, pelas quais chorei em primeiro lugar, quando soube que partiras.

(São Paulo, 26 de dezembro de 1990, sétimo dia da morte de Rubem Braga)


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Mais do Mesmo



Eu sou, sou do terreiro, eu vim de lá
E estou com saudade de lá para ser franco...”

(Terreiro de Jesus - João Bosco, Edil Pacheco e Francisco Bosco)


De onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo, ouço meu pai repetir desde que me entendo por gente. Mais admirável do que a grande imprensa continuar monocórdia e repetitiva é tanta gente ainda dando trela para o que ela segue a alardear. O arqui-previsível Luis Fernando Vianna não decepcionou, mais uma vez, ao escrever semana passada sobre a nova etapa do ótimo projeto É tradição, e o samba continua, dessa vez levado ao teatro do Sesc Vila Mariana. A matéria poderia muito bem chamar-se “Já é tradição, a lenga-lenga continua”. As mesmas citações, os mesmos clichês, os mesmos entrevistados, as mesmas falsas questões. Haja.

Rômulo Fróes mandou até bem, ao dizer que o samba não tem dono. Não tem mesmo. Lembrei, entretanto, do velho revolucionário patrício de meu avô, Georg Lukács, que foi quem descobriu que não adiantava somente a gente abolir as formas econômicas típicas do capitalismo. Para perfazermos uma verdadeira revolução, as mentalidades tinham que se libertar da forma capitalista de pensar e de ver o mundo que as colonizava, mesmo quando o modelo econômico já não funcionava segundo as regras desse capitalismo. E é daí que o bom Rômulo, a despeito de reconhecer que o samba não pertence a ninguém, continua indo a ele com o ímpeto da apropriação, com alma de proprietário - aquele que usa, goza e dispõe, como aprendi nas lições de direito civil, lá no século passado. E isso só é possível porque, diferentemente do que ocorreria nas sociedades tradicionais, onde o que não tem dono pertence ao coletivo, à natureza, ao universo, aos deuses etc., e portanto não se pode dispor como se bem entende, segundo a mentalidade colonizada pelo capitalismo, o que não tem dono está aí como coisa apta a ser apropriada, coisa devoluta, não só para se usar ou gozar, mas sobretudo para se dispor. Apropriação, aliás, é uma palavra que anda na moda.

Mas afora os atos falhos nossos de cada dia, o samba como elemento estético (sonoro, cênico, figurativo etc.), e até mesmo como elemento comportamental, pode ser mesmo disposto da forma como a propalada liberdade ocidental preconiza. Cada um faz o que quer. Como fizeram Donga e o Peru-dos-pés-frios, em 17, ou como os estacianos uma década depois; como o Bando-da-Lua, as orquestras dos anos 40 e o samba-canção de Dick e Lúcio; como João Gilberto, Jorge Ben e Tom Zé; como Benito de Paula, nos 70, Fundo de Quintal, nos 80 e as Super-Escolas-Samba S/A; como o É o tchan, o Raça Negra e o Seu Jorge; como o Kiko Dinucci, o Rodrigo Campos e quem mais queira. E o samba não deixou de ser samba, não ficou menos samba ou mais samba. Vai ficando sambas.

Meu irmãozinho Dinucci mandou mal. Em tempos em que a moda é o vale-tudo geral, auto-investido na função de polícia de costumes, esculhambou o bicolor e o panamá da rapaziada, devidamente enfatiotado no seu pretinho básico, vejam vocês. Seria engraçado, se não fosse espantoso. Mas a “onda” não é cada um fazer o que quer? Então o menino da periferia não pode achar bonita a figura do pai, do avô ou do bisavô – ou a do herói mítico da raça, o negro respeitado, o bamba, o compositor, o malandro, o desafiador, o talentoso? - engomadinho num S-120 luzindo de branco? Só o rapper então é que pode meter um tênis de marca americana, fabricado na China? Aí, é muderno, O advogado metido no seu terno sofrido do dia a dia é cultor do passado. Piercingtatoo, é liberdade de expressão, essa que é a pegada. Talvez para o bom Kiko, usar filà, agbadá, bùbá, gélé, aso ìró, também esteja presentemente soando como culto “exagerado” ao passado. Mas pior que a gafe é o conceito (ou a falta de), até porque a arte de conceituar exige talento, técnica e treino, tanto como as de compor, tocar, cantar, nas quais ele é mestre e nada de braçada: “Enquanto isso, ritmos periféricos como funkrap e tecnobrega assumem o diálogo com as questões contemporâneas, coisa que o samba perdeu há muito tempo.” Só não disse em que sentido(s) o samba é mais “central” - por oposição a “periférico” - do que os aludidos. Não pode, certo, estar se referindo à periferia geográfica, pois é de lá e conhece, como não esconde no ótimo samba “Depressão periférica”. Baseia-se ele na programação das grandes rádios, das grandes emissoras de TV? Seria o sambista um beneficiário “do sistema”, e o rapper um contestador, um excluído? Não bastasse a ululante falta de perspectiva histórica da afirmação, não esclarece nem de longe, também, o que quis dizer com “perder o diálogo com as questões contemporâneas”. O que é diálogo? É troca, é influência, é mistura? Então ele estaria desdizendo a si próprio e aos seus, como parece cediço. E o que seriam as tais “questões contemporâneas” também ficamos sem saber. Estéticas? Éticas? Políticas? Filosóficas? Talvez históricas, ou sociais? Qualquer que fosse a resposta, não consigo vislumbrar em que medida perderam a percepção do contemporâneo – se é a isso  que pretendeu se referir - autores de samba tão distintos no tempo, no espaço e no estilo como Nei Lopes, Douglas Germano, Paulo César Pinheiro, Roberto Didio, Luiz Carlos Máximo, Martinho, Aldir Blanc, Paqüera, Luiz Grande, Leci Brandão, Edvaldo Galdino... Todos bem vivinhos e produzindo, sim senhor, como tantos e tantos outros. É tanta modernidade, que de repente se perde a percepção de que as formas de “dialogar com o contemporâneo” que podem ser reputadas válidas, sob um determinado ponto de vista, podem não ser as únicas possíveis.

Euzinho aqui, a bem da verdade, não tenho nada a ver com isso. Só adquiri o mau vício de não ouvir abobrinha calado. Vou seguindo minha sendazinha despretenciosa, empenhado na tarefa árdua de não ser o elo fraco da corrente. Ora acusado de vendilhão pelos justiceiros da cultura popular made in Vila Madalena, ora queimado na fogueira inquisitiva dos guardiães da virgindade mítica, ora desdenhado como uma anta babante pelos neo-pensadores do desconstrutivismo multi-tudo, vou despreocupado. Até porque o que nós realmente nos preocupamos em fazer não é propriamente o samba. É roda-de-samba, coisa muito diferente, como tão bem sacramentou, antes de nos deixar, o nosso bom Roberto M. Moura. Que é rito, é celebração, é divertimento, é jogo, é espaço de trocas simbólicas, de mediações sociais supra-conceituais, de ajustamentos negociados, de evocações, de reminescências, de projeções. E disso ninguém se apropria nem fácil, nem impunemente. E fazemos porque nos preocupamos, acima de tudo, em preservar alguns importantes referenciais que fundam nosso sentimento de pertença a um determinado contexto cultural. Referenciais que não estão relacionados diretamente com uma antigüidade cronológica, não por "serem antigos", mas ao contrário, por serem perenes, por pertencerem a uma esfera de anterioridade atemporal (do que está antes, do que está por trás). E, juntamente com esses referenciais, formas de sociabilidade neles baseadas, mais horizontais, mais plurais, mais dinâmicas, mais interativas, menos engessadas nos regramentos formais a priori, mais despidas de preconceitos, mais estribadas na expressividade-emotividade do que na lógica calculista de meios e fins etc. Etc. Pra podermos viver, nem que seja por alguns instantes, num mundo mais parecido com aquele que sonhamos.

Sigo, assim, tranqüilo, ainda que cansado. Com saudade do terreiro de onde eu vim, onde não impera a vaidade; onde não há patrão, nem senhor , nem lugar pra pai-joão, nem tempo pra conversa-mole; onde “bobo é bobo, bamba é bamba”. Esse terreiro que não fica em lugar nenhum, mas que a gente tenta recriar em cada roda, no butiquim ou no fundo do quintal. Onde, afortunadamente, muita gente ainda se reconhece. E ri, e chora, e ama, e reverencia, e se entrega, se indigna, se coloca, troca, disputa, recebe, interfere, chama, ouve, percebe, diz, faz, aprende, ensina, pede, dá. Mas isso não se diz nos jornais. E não se dirá, enquanto forem sempre os mesmos a serem ouvidos. Enquanto deles permanecerem apartadas as vozes dos compositores desconhecidos, dos batuqueiros anônimos, dos apreciadores atentos, dos diletantes amadores, dos conhecedores sem bazófia, dos negros ancestrais. Dos brasileiros comuns, efetivos artífices, na despretensão de seu dia a dia, desse sentimento que não se constrói nas academias, não se compra no xópim, nem se baixa na internet. Que não está a mercê dos jornalistas, dos descolados, nem dos donos do que quer que seja. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012


Este belíssimo poema foi por mim publicado neste espaço em 28 de agosto de 2009, com autoria errôneamente atribuída ao grande poeta amazonense Aníbal Beça, por ocasião de sua partida para a morada dos Ancestrais. Faço a republicação como sincero pedido de desculpas ao autor e reconhecimento público do meu imperdoável erro.  Na postagem original substituí-o por um extraordinário soneto de Beça, que merece ser lido. Lá, ainda, pode ser encontrado o comentário de Luiz Alberto Monjeló, em que apontou o erro cometido, bem como minha resposta-explicação acerca do ocorrido.


Quando eu passar a porta escura

Luiz Alberto dos Santos Monjeló


Quando eu passar a porta escura
e minha ausência deixar saudade
quando sentires minha falta tanta,
e for tamanha a dor que sintas,
abre meu livro em qualquer hora,
e então me leias e me devora.

Vais descobrir minhas lembranças,
de meus amores tempo afora,
das muitas coisas que fui e fiz,
de tantas outras que quis outrora.

Frases de mim, do que fui e sou,
coisas de ti, entre palavras,
falo de amores, falo de mágoas,
falo de tudo porque passei,
porque pequei, porque paguei.

Relembro encontros que me ensinaram,
muitos alguéns que já não importam
Mostro a minha vida que vivo agora,
mais feliz por me entender
e atender meus desejos todos,
alguns tão tolos, outros nem tantos,
mas sempre puros.
Quando eu passar a porta escura,
lembra de mim assim.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

Xingu

João Nogueira e Paulo César Pinheiro


Pintado com tinta de guerra
O Índio despertou
Raoni cercou os limites da aldeia
Bordunas e arcos e flechas e facões
De repente eram mais que canhões
Na mão de quem guerreia!

Caraíba quer civilizar o índio nu
Caraíba quer tomar as terras do Xingu

Quando o sol resplandece os raios da manhã
Na folha, na fruta, na flor e na cascata
Reclama o pajé pra Tupã
Que o curimatâ sumiu dos rios
E o uirapuru fugiu por alto da mata
Toda caça ali se dispersou
Oh, Deus Tupã, benze a pedra verde, a muiraquitã
Que os Índios estão se juntando igual jamais se viu
Pelas Terras do Pau Brasil!

É Krenakarore, Kaiabi, Kamaiurá
É Txucarramãe, é Kretire, é Karajá

Eh! Xingu
Ouvindo o som do seu tambor
As asas do Condor, o pássaro guerreiro
Também bateram se juntando ao seu clamor
Na luta em defesa do solo brasileiro
Um grito de guerra ecoou,
Calando o uirapuru lá no alto da serra
A Nação Xingu retumbou
Mostrando que ainda é o Índio
O dono da Terra

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Scripta etiam volant...



“... E é isto a vida literária! Futuro! Que futuro pode ter uma obra escrita na areia da praia, como os cânticos de Anchieta? Tivesse eu a certeza de que uma só de minhas páginas viveria e ficaria contente... Mas não se vive em túmulo e o português... Não vale a pena. Anchieta, ao menos, tinha um leitor: o mar. E eu?”

(Aluísio Azevedo)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pergunta ao poeta


- Qual seu meio preferido de distração?


- Olhar. Há muita gente que tem apenas olhos para ver. A capacidade de se ter, 'olhos de olhar' a vida, recolhendo dela tudo o que nos pode oferecer é mais empolgante.... e o mais barato de todos os divertimentos. (J. G. de Araújo Jorge)


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

"Não tive tempo para ter medo"












Há exatos 100 anos nascia um grande herói do povo brasileiro: Carlos Marighella. Em homenagem à sua memória e a seus ideais de justiça, paz, dignidade e liberdade, republico aqui (o fiz pela primeira vez em 04 de novembro de 2004, aniversário de 35 anos de seu covarde assassinato pelo aparelho repressivo chefiado pelo nefasto delegado fleury - a minúscula é adrede) dois poemas e um trecho de seu famoso Chamanento ao Povo Brasileiro, que, se chocam pela atualidade, avivam-nos a consciência da tarefa de lutarmos pela Nação que queremos. 
Viva Marighella!
Viva o Brasil!



O Urubu

Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.

Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.

Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça

Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça

(São Paulo, Presídio Especial, 1939)


Rondó da Liberdade

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

(São Paulo, Presídio Especial, 1939)




Chamamento ao Povo Brasileiro

“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.

Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.
2
O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.

Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.

Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...”   (dezembro/1968) 




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Toniquinho Batuqueiro



"Mandei preparar o terreiro
que já vem chegando o dia
Vou encourar meu pandeiro
preparar pra folia
Quando começar o pagode
Pego o pandeiro
caio na orgia" 

(Ditado Antigo)



Hoje é dia de bater tambor. Ontem, 23 de novembro, partiu para a morada dos ancestrais o legendário compositor paulista Toniquinho Batuqueiro.

Nascido em Pau Queimado, na região de Piracicaba, em meio a uma família de cururueiros, macumbeiros e tocadores de tambu, Toniquinho encarna uma espécie de "elo perdido" do samba paulista, uma síntese dos complexos processos de formação que resultaram no samba que se faz na Paulicéia. Carregado dos batuques rurais do interior, veio para Capital morar nos Campos Elíseos, reduto de sambistas. Freqüentou as rodas do Largo da Banana e depois foi engraxate na Praça da Sé, palco das famosas rodas de tiririca e encontro de sambistas das mais variadas procedências. Na década de 70, participou do histórico espetáculo criado por seu grande amigo e parceiro, o dramaturgo Plínio Marcos:  Nas quebradas do mundaréu, ao lado dos também legendários Zeca da Casa Verde e Geraldo Filme.


- Tinha samba no Largo da Sé?
- Nossa Senhora... *


Passou por diversas escolas de samba, como Unidos de Vila Maria e Império do Cambuci, mas afirmava que seu coração pertencia à Unidos do Peruche, que ajudou a fundar junto com o não menos grande Carlão do Peruche. Foi lá, no “Cantinho” feito célebre pela queridíssima Denise - outra grande guerreira que também já está batucando na Aruanda - que o vi pela última vez, há alguns meses, bastante debilitado, mas altivo, grandioso, imponente e elegante como sempre. Ritmista legendário, cantador de belíssimo timbre, viu, conheceu de dentro, participou de literalmente tudo o que aconteceu no samba de São Paulo em cinco décadas. Mas era essa altivez, essa imponência sem soberba, o que mais chamava a atenção no velho mestre. Um homem bonito, eu diria, no alto de seus 80 anos, mesmo alquebrado pela velhice, pela doença e pela cegueira. Talvez mais que qualquer outro que tenha conhecido, via no imenso Toniquinho a encarnação da grandeza do negro,  artífice, sábio e guerreiro.  Arrastado sob vara aos porões imundos onde cruzou o oceano para nos civilizar, continua até hoje agrilhoado às correntes pesadíssimas de um cativeiro que ainda não se aboliu, “livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”; a despeito, ou ainda talvez, em função disso, continua a construir espetacularmente sua obra libertadora, educando-nos, pela beleza, pela sabedoria e pela luta,  para a compreensão de “que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais.”


- Como é que te descobriram lá no meio de São Paulo?
- Não descobrem ninguém, não, meu filho. Você é que tem que se descobrir. Tem que sair na hora: abriu a roda, você vai e faz. Sem ofender ninguém, você faz seu nome.


Bato daqui meus tambores em honra do mestre-fundador, que foi se ajuntar aos que o precederam. Faz parte, agora mais ainda, da galeria maravilhosa que reverenciamos em cada roda, em cada pagode, em cada batucada: aqueles que nos legaram o samba – suas melodias, versos, ensinamentos, posturas, valores -, a voz mais pujante do coração brasileiro.

Republico em sua homenagem, a seguir, um texto de cinco anos atrás. Mo jubá!




* trecho do excelente documentário que pode ser conferido na íntegra aqui, sobre o qual não ainda não consegui  encontrar os créditos, mas que vale demais a pena compartilhar. Assim que os tiver, serão inseridos aqui.




Noite


Olho para o céu de noite aberta e sem lua. Afasto-me da varanda onde a luz da arandela teimava em me contrair as pupilas ansiosas das estrelas todas. Desde menino, a mesma angústia. Mas não será, mesmo, pela toda vida esse o desassossego? Um querer, assim, que nunca não se farta?

O Velho tanto nos prevenira, mas quem somos nós a dar ouvidos a esses tantos avisos e cuidados? Quem houvera de ter paciência para aqueles sentidos ocultos, para aquelas tramas todas urdidas a despeito e contra as evidências? Tudo sabíamos, tudo podíamos, nossos corpos e olhos e mentes, era só sair por aí devorando a vida, os saberes, os mistérios. Quais segredos nos freariam a sanha toda? Tola... Quanto sofrimento não seria poupado se tivéssemos, pelo menos, aprendido a olhar.

As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.

Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.

Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.

Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.

O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.

Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.