quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Quando o Carnaval chegar

Chico Buarque


Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando
Que eu vou aturar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar...
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Num domingo de carnaval


Dante fa versi diviini
Chianti fa vini diversi


Num domingo de carnaval em 1914, precisamente no dia 22 de fevereiro, nasceram no Engenho de Dentro – provavelmente o lugar menos italiano de todo o planeta – os gêmeos Dante e Chianti. Teixeira Nunes, é bom frisar. Se não me engano, na rua Bento Gonçalves, do lado que antigamente se dizia "das oficinas", em alusão aos galpões de pintura e reparo de vagões da Estrada de Ferro Central do Brasil que hoje abrigam o Museu do Trem.

O terreno da casa da Rua Bento Gonçalves era tão grande, mas tão grande, que um dia um homem se enforcou numa árvore do quintal e só encontraram o corpo três dias depois, por causa dos urubus. Quem era esse homem, como entrou no quintal, ou por que teria-se matado, ignoro completamente. Só sei que vovô, o Dante, contava. Como contava também das redes armadas embaixo das jaqueiras, pra que a jaca não se espatifasse ao cair. E olha o tamanho da bichona, descendo, quebrando a galharada! E quando caía, ah... A molecada enfiava mesmo a cara na jaca (não era o pé, naquele tempo) e - meu Deus! – não é que eu posso ver direitinho as carapinhas todas lambuzadinhas, mesmo só tendo nascido 50 anos depois?

Desse tempo também era a receita de aluá, com casca de abacaxi e enterrado no quintal por três dias, pelo menos. E o bonde puxado por burro, que vovó, da Zona Sul, sempre caçoou.

Depois, foi a casa da rua que depois se chamou Monsenhor Jerônimo, como até hoje, que começa na linha do trem e morre na Dias da Cruz. Nessa casa lembro do meu bisavô chegando da feira com aquelas bananas pretejadas que ele gostava – assim como vovô - e a bisa Anália reclamando. Lembro da minha mãe, pequenina, brincando na rua com as amiguinhas que moravam naquele arremedo de morro. Vocês vão querer saber como é que eu posso lembrar e eu só sei que quando pus os pés pela primeira vez na Monsenhor Jerônimo uma casa velha chamou demais minha atenção e encheu-me o coração daquela saudade engraçada do que se não viveu. Naquela hora eu soube. E horas mais tarde, soube de novo, do jeito mais usual de se saber, confirmadinho pelo bom Tio Osias.

Tempos depois foram as tardes de domingo no velho Largo do Estácio. E a gola da camisa que ficava preta por causa da fuligem da maria fumaça. Já em São Paulo, foram as pensões da Santa Ifigênia, com os ratos mordendo o dedão dos hóspedes, onde um belo dia um colega levou um violão e um menino conterrâneo do Engenho de Dentro, que cantava bonito demais e estava começando no rádio, Orlando por nome. Nos seus olhos castanhos, já meio acinzentados de sabedoria e doçura, vi também o Chico Viola no Pacaembu, reconhecido na multidão, acenando pra torcida com o paletó.

No sorriso postiço, de dentes perdidos antes dos trinta anos, vi o Palestra em campo, empoleirado numa arquibancada de madeira. E que defesa do Oberdan... Jair da Rosa Pinto era malandro, só jogava se o clube lhe reembolsasse o imposto de renda devido (e olha que era vovô, fiscal da Receita, que lhe preparava as declarações, como as do Junqueira e as do Zezé Procópio). Mas como jogava! Comecei a ficar palmeirense quando sábado, na casa dele, esperava-o chegar todo de branco, distintivo reluzente embaixo do S.E.P. bordado em verde, uniforme oficial do imbatível time de bocha do Palmeiras. E terminei quando conduzido por esse semideus mulato, meu particular "príncipe etíope de rancho", fui parar no colo do Luís Pereira, titular da seleção brasileira, sim senhor.

A vizinha da Rua Cotoxó, na Pompéia, ficava espiando a hora dele chegar. E dez minutos depois estava de orelha posta na janela que dava pro banheiro onde vovô desfilava seu repertório de sambas e serestas. Podia ter sido cantor, não fosse gongado por aquele palhaço do Otávio Gabus, pai do Cassiano, que só entendia mesmo era de passear com as "boas" candidatas, ora essa! Se essa rua, se essa rua fosse minha... Está lá gravada a voz do velho até hoje, vibrato caprichado de seresteiro, trinta segundos de uma imortalidade que é muito mais efetiva dentro do meu peito. Talvez por isso eu cante, por ele ter-me dito que quando morresse só sentiria saudade do canto da voz humana. E quando eu-menino comecei a morrer naquele 18 de julho de 1989, soube que eu-homem precisava começar a nascer. E cantar.

E enquanto esse homem-menino segue cantando, meio-nascendo-meio-morrendo, vai lembrando da sua mão fria e tão macia, o dedão curvado, cheirando a Pinho Campos do Jordão. Vai querendo seu colo de vô, lembrando do dia em que fez uma malcriação qualquer e ele chorou, mas disse que não tinha importância "porque vovô te ama muito". Vai tentando se mirar no funcionário público exemplar, impoluto, cassado politicamente pelos putos dos milicos da pseudo-revolução moralizadora. Vai sentindo gosto de Chokito, bala de goma, cigarrinhos Pan de chocolate, fósforo de marzipã ou Alpino, que ele trazia todo dia quando nos visitava, no caminho do trabalho pra casa. E vai, principalmente, tentando viver essa vida direitinha, pra quando um dia se chamar saudade, alguma alma possa dizer, mesmo mentindo, como rigorosamente TODO MUNDO diz dele até hoje, sem mentir: "O Dante? O Dante foi o maior de todos..."

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Dos carnavais que não voltam mais – I


Quero ser ninguém na multidão


Quero me afogar em serpentina
Quando ouvir o primeiro clarim tocar
Quero ver milhões de colombinas
A cantar "tra-la-la-la-la-lá"...
Quero me perder de mão em mão
Quero ser ninguém na multidão

O primeiro clarim, marcha de
Klecius Caldas e Rutinaldo


Um homem que não guarda segredo sobre seus descaminhos carnavalescos, não honra as saias que veste.

Pois conversavam hoje na repartição, moços e moças, quase inocentemente, sobre seus planos para o carnaval. Há uns anos poucos e as conversas seriam sobre a etapa do campeonato de surfe nalguma praia catarinense, ou sobre um pacote muito em conta para as Serras Gaúchas. Hoje, o carnaval voltou à moda. Bem menos em São Paulo, é certo, mas ainda assim anda sempre na pauta da moçada paulistana um bloco desses no circuito Barra-Ondina, abadá uma pechincha, parcelado em doze vezes. E o maracatu-nação? Tudo! Escola de samba do Rio está na baixa, mas não perdeu completamente seu valor (com traslado do hotel para o sambódromo incluso, que a violência no Rio, Deus me livre andar na rua...). Desfile das campeãs, que dá menos fila é melhor.

Entre os cariocas, a onda mesmo de uns quatro ou cinco anos pra cá são os blocos. Meu irmão Edu, a quem apraz passear por muitos blogues, deve estar se fartando de roteiros pessoais para o carnaval, com horários, compromissos, programações. E dicas, muitas dicas. Tudo tintim-por-tintim: sábado vou ao Bola (essa está em todas, mesmo se o cidadão acorde meio-dia de ressaca e vá tomar um chope quente no Amarelinho à uma; encontra dois bebuns cantando "Pela porta aberta..." e escreve no blogue, na quinta-feira, que o Bola mais uma vez foi a melhor coisa do carnaval), depois vou pra cá, depois pra lá. Domingo encontro fulano e vamos pra casa de sicrano encontrar o pessoal do bloco tal... E assim vai.

Pois acho que eu sou de outro tempo. Sou do tempo do velho Mário Lago, que chegando em casa manhã avançada, indagado por sua mãe sobre onde estivera, devolveu com a elegância malandra de outrora: "a senhora quer que lhe minta ou lhe falte com o respeito?". Do tempo do Baile dos Casados nas matinês de segunda-feira de carnaval, dia de expediente, sim senhor. Do tempo da máscara negra que lhe escondia o rosto. De tirar o anel de doutor, para não dar o que falar...

Meus amigos reclamam que não me acham. Que marco e não apareço. O Edu mesmo, que é preciso do início ao fim, me procura no Bola todo ano, mas nunca conseguiu me encontrar. Se encontro, não fico. Se acho, passo. Porque a graça mesmo do carnaval é esse deixar-se largar, é sair sem paradeiro, beber até o dinheiro acabar (depois voltar de táxi, pedindo pro chofer esperar enquanto vai lá dentro pegar o da corrida; ou dormir na rua...). É pegar o primeiro ônibus que passar, desmaiar de porre e saltar quando for acordado por um pixinguiniano "pa ra ra rá ra ra rá ra ra ra ra ra ra ra ra rá / pa ra rá / pa ra rá / pa ra ri ri ri ri ríííííí...", num trombone desafinado.

Talvez tenhamos levado, os homens, a piada tão a sério, que hoje a graça toda seja mais contar do que viver. Talvez nós que não lemos as revistas caras nem assistimos aos biguebróders estejamos mais impregnados desse espírito panóptico do que possamos admirtir. Nos desvencilhamos em boa parte, é certo, de uma hipocirisia colonial que trancava mulheres e filhos em casa e fazia da rua o reinado dos machos adultos, cenário dos jogos de dominação em todos os níveis. Mas talvez tenhamos perdido junto a utopia do carnaval como reinado da indiferenciação, do anonimato, da mistura, do desregramento (nesse sentido). Não soubemos ou não pudemos incorporar da sabedoria africana e indígena o sentido da ocultação e o correspondente jogo do desvelamento, que afinal compõem a forma tanto do sagrado como do jogo da sedução.

Por isso, talvez, o carnaval em geral esteja assim perdendo um pouco da graça. Dirão vocês que estou ficando velho, e possivelmente resida aí uma parte considerável do problema. Mas anoto que não deixo de sentir graça e não deixo de celebrar o velho e bom Carnaval com a energia e a entrega que me são pedidas nos momentos e espaços onde ainda é possível minimamente encontrá-lo. Enquanto se dessacraliza, na medida em que se despe da sua forma de ocultação, de ritualização, de entrega e sacrifício e assume sua dimensão de normalidade, de universalidade, o carnaval, "em momentos assim, morre um pouquinho mais". Paradoxalmente, quanto mais blocos na rua, quanto mais gente nas suas fileiras, quanto mais se incorpora na "agenda cultural da cidade", menos sobrevive do carnaval.

Não acredito tratar-se de uma lei inexorável (embora não adiante escrever isso, porque os bobocas de sempre dirão, com isso ou sem isso, posto que não sabem ler, que somos puristas, donos da festa, curadores do povo e todos os etcéteras cansativos), mas no mínimo de uma tendência perversa. E não nos resta muito senão desligar os televisores, não comprar as revistas caras, não ler os blogues-vitrines. Não assumir compromissos, não compartilhar roteiros, não dar nem pedir dica. Sair, beber, dançar, brincar...

Ser ninguém na multidão.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Nancy


Batidas na porta da frente: é o tempo!
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei...


Resposta ao Tempo,
de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos



Dede o longínquo 06 de fevereiro de 1916, existe para essa dimensão do mundo sob nossos olhos a que carregaria o nome de Nancy. Minha avó, mãe de mamãe. E a família ontem reuniu-se para o almoço, que transcorreu com a animação possível, boa comida, boa música e aquele incômodo de todos sentido e pouco manifestado de constatarmos que não éramos mais os mesmos da festa dos 80. As ausências dos que nesse meio-tempo passaram para a morada dos ancestrais, somada à dos mais jovens que, sem paciência para as coisas dos velhos e sem idade para serem conduzidos sub vara, deram a medida de que, afinal, o tempo tem passado para todos.

Num telão acoplado a um computador, iam desfilando, como a moda reza, velhas e novas fotos familiares. Agora ela está com vovô, vestida de noiva, em 1940...

Carioca de Botafogo, nascida na Rua Marquês de Abrantes, criou-se em São Paulo, mas jamais perdeu a referência de origem, da qual até hoje dão testemunha o "s" chiadinho e o "r" reforçado. Das suas três amigas dos tempos da Escola Normal Caetano de Campos que estiveram nos 80 anos, só uma presente. Quando cheguei ela já tomava sua Brahma geladinha, mas recusou a segunda por não querer "abusar". A saúde não permitiu a presença das demais, vivas e lúcidas, para poderem reafirmar contra quaisquer argumentos uma convivência de 77 anos.

De repente está lá minha mãe, adolescente, num "vestido alinhado, de godê, todo plissado", como no samba...

Acompanhando-se ao violão, um rapaz de não mais que vinte e poucos anos cantava a Rosa do Pixinguinha, canções do Caymmi, sambas do Ary Barroso. Soube que é amigo do Bruno, o mais novo dos primos, que mostrou também que dia-a-dia tem aprimorado seu violão. Como eu, passou a adolescência entre Sílvio Caldas, Noel, Orlando Silva, mas afortunadamente a performance indica mais talento e mais dedicação. Fiquei pensando em como a minha solidão foi maior, jamais poderia ter encontrado jovens companheiros pras minhas nostalgias musicais (fora a Roberta Valente, que já nasceu velha). Meio sem motivo, apanhou-me uma boa sensação de ter cumprido o papel de levar à frente o bastão. Mas pelo menos os anos de estrada ainda me permitiram invocar vovô, o velho seresteiro, e cantar em homenagem à aniversariante:

Ouve esta canção
Que eu fiz pensando em ti
É uma veneração, Nancy...


E não é que ele aparece de calção de praia, moço e bonito como só, mas o computador mal nos permite firmar a atenção e de repente estamos todos, com ele, numa das suas últimas fotos em 89...

Vovó, que até então mais observava, gostou. Enquanto esperava minha mulher, fiquei ali a ver minha filha correr pelo salão. Mamãe comandava a organização junto com o Dudu. As fotos todas se sucedendo na tela, a melancolia misturando-se ao champanhe na brecha da noite mal dormida. Quatro gerações entre si costuradas no tempo e no espaço, pela força dos fios da memória, do coração e dos circuitos eletrônicos.

...Somente poderia
A musa traduzir
O nome que é poesia:
Nancy...


Logo me vejo, só de fraldas no colo dela, no portão da velha casa da Rua Cotoxó...

Se hoje percebo em mim mais nítidos os traços dos outros avós, ela foi sem dúvida, na primeira infância, meu porto mais seguro, minha referência mais presente. Instância de apelação quando das demandas indeferidas, ouvidoria para as queixas, embaixada em caso de necessidade de asilo. Vali-me muito bem, é certo, da condição de protegido que gozei até ter consciência e autonomia para discordar. Mas se a vida foi pouco a pouco pondo em relevo as divergências, não é menos certo que eu me pegue a torto e a direito reproduzindo seus ditados, contando suas histórias, incorporando suas lembranças, nesse processo tão vital de sobrevivência que consiste na transmissão do nosso cabedal mais íntimo, aquele que, se não nos incumbimos de competentemente legar, não há inventário nem testador que dêem conta.

...É a mais linda história
De amor que conheci
Quando o seu nome
Assim eu repeti:
Nancy, Nancy, Nancy *


Bisa para a Iara, minha mãe duas vezes, como sempre fez questão que eu repetisse, vejo-a agora na tela, aos cinco anos, nas vésperas do carnaval de 22...


* Nancy, valsa de Moacyr Bueno Rocha, originalmente gravada por Francisco Alves em 1933

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Radamés


Homenagem ao grande Radamés Gnatali, no ano de seu centenário,
no dia em que se completam 18 anos de sua partida.



Pianinho

Edu Lobo e Aldir Blanc

Em vez de vir direto àquele assunto que me traz
Eu vim chorando leve e de viés...
Gravei de ouvido tantas confissões musicais,
móveis e imóveis tramas que a onda faz
tangendo a lua branca no convés.

E sem negar o sonho não botei nada de mais
- um truque se transforma num revés -
e uma voz de longe disse assim: "ô, rapaz,
Falta de medida só revela o incapaz.
Imita a simetria das marés".
É, tudo bem. Vou logo lhe avisando que tou nessa também
e essa Voz que me aconselha de onde vem?
Não acredito em deuses. Digo amém. Hein?

Falando em chope, bonde, bandolim, retrato, jazz,
moderna e lá no tempodo mil-réis,
lembrando, então, que agora daqui a pouco é jamais
nazarethas, valzinhos, tons, garatos, ravéis
- reconheci a voz do Radamés...

Reconheci a voz do Radamés!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Yemonjá awabô



Yemonjá awabô aiô
Yemonjá awabô aiô
Iagba ode ire sê
A ki iê Yemonjá
Iá koko pê ilegbê aiô
Odofi iassa ueré o
Iassa ueré o
Odofi iassa ueré o




Promessa de Pescador

Dorival Caymmi


Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!

Senhora que é das águas
Tome conta de meu filho
Que eu também já fui do mar
Hoje tou velho acabado
Nem no remo sei pegar...
Tome conta de meu filho
Que eu também já fui do mar

Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!

Quando chegar o seu dia
Pescador véio promete
Pescador vai lhe levar
Um presente bem bonito
Para dona Iemanjá...
Filho seu é quem carrega
Desde terra inté o mar

Alodé Iemanjá odoiá!
Alodé Iemanjá odoiá!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Porta de barbearia

Sou, como os meus bem o sabem, acima de tudo um fiel. Mormente no que respeita aos meus butiquins, aos comércios em que confio, aos meus lugares e manias. O que dirá em relação ao homem que segura a navalha contra o seu pescoço, em quem se deve confiar cegamente, como bem alerta a sabedoria popular. Cortei o cabelo durante mais de 25 anos no mesmo lugar, o Salão Marília, um cinquëntenário estabelecimento do tradicional bairro das Perdizes. Dele não diria simples, mas clássico. Nesse quarto de século, enterrei dois barbeiros e um terceiro voltou pro Ceará. Aí perdi o gosto, principalmente porque as coisas menos importantes feitas no barbeiro são barba e cabelo.

Os barbeiros, na verdade, são de uma relevância menos ressaltada que o merecido na história urbana brasileira. No século XIX, a ocupação foi a primeira profissão liberal assessível aos elementos das camadas sociais mais baixas, mulatos, brancos pobres, negros forros ou mesmo escravos autorizados, eis que não dependia de uma habilitação acadêmica só possível para os "de berço". E a habilidade desenvolvida no manuseio dos instrumentos de cutelaria acabou por conferir a esses profissionais prerrogativas de realizar tarefas muito mais importantes do que as simplesmente relativas ao corte da barba e do cabelo. Do que se chamaria mais tarde manicure/pedicure até cirurgias de pequeno porte, passando a aplicações de emplastos, compressas e sanguessugas, além de outras técnicas medicinais da época, tudo incumbia aos bons barbeiros.

Um capítulo ligado especificamente à história da música popular brasileira mereceu estudo minucioso do grande José Ramos Tinhorão: a chamada música de barbeiros. Pois eram esses profissionais mais afeitos aos trabalhos delicados que as pesadas lidas da construção, da lavoura ou da estiva a quem sobrava mais tempo para a dedicação às técnicas dos variados instrumentos. Somando-se a presença entre os barbeiros de negros educados nas bandas de música das fazendas e o caráter urbano das barbearias, tivemos os ingredientes para a primeira forma de música instrumental urbana nativa, tida como célula mater do choro.

Hoje, é certo, as barbearias não tem mais a mesma importância que até meio século atrás, ou pouco menos em relação às cidades menores. O advento dos aparelhos elétricos e descartáveis pouco a pouco fez desaparecer o hábito de se fazer a barba diariamente com profissionais. E, em conseqüência, os salões foram deixando de ser aquele ponto de encontro diário dos homens mais ou menos importantes, a caminho de suas tarefas diárias. Não obstante, até hoje o barbeiro é para mim, juntamente com o táxi, o melhor termômetro dos ânimos populares, seja no que respeite à política, ao futebol e às trivialidades do dia-a-dia.

Depois que abandonei as Perdizes e o Marília em busca de um habitat menos hostil à minha alma suburbana, fui migrando por vários barbeiros sem destino muito certo. Perigosamente ignorando o aforismo popular, a escolha ia se baseando nos quesitos aferíveis de plano: cabeça branca do titular, tira de couro na cadeira pra afiar a navalha (eu disse navalha, não esses arremedos com giletes descartáveis), estufa elétrica ou a gás para a esterilização, vidro de Água Velva em lugar visível. Imagem do santo de devoação ou poster do time do coração ajudam, principalmente se for do Juventus ou da Portuguesa. Minha única exigência mesmo é que no letreiro esteja escrito "barbeiro", ou "barbearia". Pode até não escrever nada, desde que estejam longe as palavras proibidas: "cabeleireiro" e "unissex"!

Três vivas e os melhores sentimentos, então, para os que me dispensaram a ajuda dos psiquiatras cuidando bem da minha cabeça: Carlos e Horácio, que já aparam as barbas de São Pedro; Antônio, que voltou pro Ceará; Oswaldo e Raul, ativos ainda, há 50 anos no Marília; Seu Joaquim, com sua barbearia insuperável, também cinqüentona, parede-com-parede do Ó do Borogodó, com direito ao dito poster da Lusa, rádio a válvula e tubos de Bilcrim com duas polegadas de poeira; e, finalmente, o bom Bonizzi, em cuja portinha lapeana ancorei de novo minha confiança, de uma gentileza e dedicação que tanto me comoveram e inspiraram nesta manhã.

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Soneto do Bar do Biu

Virando numa curva distraída
- era noite de samba e butiquim!
Um sol brotou gigante dentro em mim
Bem quando ouvia o Vendaval da vida

Pra tudo o que tardou aquele Dia
negou-se a enfim deixar haver depois
Porque manjar algum não poderia
Dizer mais de nós que um baião-de-dois

Mister após um ano confessar
Faltar-me a tua presença como o ar
Se súbito os olhos não te contemple

Só no mais enumerar alegrias:
Trezentos e sessenta e cinco dias
Que mudaram minha vida pra sempre

[pra Stefânia, minha "Amada pra valer"]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Três sambas pra José

Nos 103 anos do Vovô Amigo


João Valentão

Dorival Caymmi

João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção nem pensa na vida
A todos João intimida
Faz coisas que até Deus duvida
Mas tem seu momento na vida...

É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo pra noite chegar
É quando se ouve mais forte
O ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida, da vida
Obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe
Se chega pro lado querendo agradar

Se a noite é de lua
A vontade é contar mentira
É se espreguiçar
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
Do que sua terra, não há


Pedro Pedregulho

Geraldo Pereira

Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho
Quebrando boteco, fazendo barulho
Até com a própria polícia brigou
Vivia do jogo e quando perdia só mesmo muamba
Rasgava pandeiro, acabava com o samba
Parece mentira, Pedro endireitou...

Stelinha, orgulho do morro, mulher disputada
Que quando ia ao samba saía pancada
Ao Pedro dos Santos deu seu grande amor
E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho,
por uma marmita, e sobe o Pedregulho
De noite, cansado do seu batedor.


Caco velho

Ary Barroso

Reside no subúrbio do Encantado
Num barracão abandonado
João de Tal, cabra falado
E dizem que viveu fora da lei
Foi um rei
Que zombava da morte
Tinha um santo forte

No meio de gente bamba
O seu prazer era tirar um samba
Pulava, dava rasteira
Topava briga de qualquer maneira

Mas hoje é um caco velho que não vale nada
Tem a cabeça branca, a pele encarquilhada
Faz até pena ver o seu estado
(pobre coitado!)
A vida é essa...
É um segundo que se esvai depressa
Todos nós temos o nosso momento
E depois dele o esquecimento

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

São Sebastião

Eu vi chover eu vi relampear
Mas mesmo assim o céu estava azul
Samborê, pemba, folha de Jurema
Oxóssi reina de norte a sul!


Obrigado padim
São Sebastião!
Por poder ofertar
Nesse cantinho
que é altar e congá
Em tua devoção
por dois anos já
Um pouco de mim

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Planos de janeiro

Este ano, sabe, eu quero botar termo às ilusões irreais, fabricadas – ainda que belas – e me libertar, me abrir para as ilusões verdadeiras, que me conduzam pelos caminhos da beleza, da criação e da união. Do outro.

Este ano eu quero botar o bloco na rua, brincar, botar pra gemer. Até porque, pra falar a verdade, mesmo morrendo de medo, mesmo caindo do galho, porra, nunca ninguém pôde dizer que eu tenha fugido da briga quando o pau quebrou!

Neste ano eu quero sair de casa numa sexta-feira, de camisa branca, nova. Ir ao bar e beber e ouvir cantar o velho sambista amigo meu. E quero sair pra tomar a saideira. E eu não quero voltar, perdido de amor, de pé numa esquina barulhenta, entre os ônibus que começarão a vir e as putas que acabarão de ir.

Eu quero apenas não voltar. Quero só ir, e ir, e ir cada vez mais.

No carnaval deste ano, eu quero me vestir de sereia, com um rabo bem verde e cílios amarelos enormes. E uma peruca ruiva, de preferência, com um diadema de estrasses bem ordinários. Eu vou me divertir, na certa eu vou sambar, mas desta vez a ilusão não vai me pegar. Vou só ficar bebendo com os amigos nos butiquins mais mais vagabundos e fazendo declarações de amor politicamente incorretas.

Na Terça-feira Gorda vou me fantasiar de pierrô. Por dentro. Apaixonado assim pela colombina mais bonita do baile...

Este ano eu quero conhecer uma praia nova, bem bonita, onde a gente só possa chegar de barco, pra poder levar a minha filha. Onde tenha uma casa sem eletricidade bem no meio do mato, pra poder conversar com os amigos e com os grilos e com o riacho que passar atrás. Pra poder brigar com a namorada e pra gente saber que a beleza da vida implica na sua imperfeição.

Este ano, no São João, eu vou brincar a quadrilha a valer. E vai ter um casamento caipira, onde eu vou ser a noiva.

Quero mudar pra uma casa nova, este ano. Vermelha, de preferência, com um quintal bonito onde eu possa fazer uma festa de casamento. A mais bonita. Pra todos os meus amigos – e os filhos deles – encherem a casa e a cara até não se poder mais.

Este ano vou cuidar da saúde, fazer dieta e beber menos. E acordar mais cedo todo dia pra nadar.

Olha, eu vou tirar férias este ano e passear muito. Quem sabe eu vá a Minas, ver de novo aquelas igrejas e casas e montanhas velhas. Quem sabe até não vejo por lá alguma festa bonita, dessas que não tem mais, com a pretoria toda castigando tambores velhíssimos como as montanhas e as igrejas? Vou, sim, eu vou a Minas este ano... Assistir à missa e acompanhar a procissão – tomara que não chova!

Até o Natal deste ano – tenho certeza – não vai ser chato que nem o natal desses últimos anos todos. Vamos fazer uma festa bem bonita, armar a árvore e o presépio. E vamos comer e comer e comer e beber até não sobrar nada. Vou convencer meu primo a se vestir de Papai Noel, só pra minha filha sorrir aquele sorriso que é o sopro mais puro de tudo o que existe.

Do jeito que este ano vai ser incrível, eu viro até personagem de livro - de tão bacana que este ano vai ser!

É... Pra esse ano ser perfeito eu vou dar um pulo no meu Rio de Janeiro. Não, não vou ao Rio de Janeiro nesse dia, não. Vou três dias antes, claro, é bem melhor, com certeza. Então eu vou ligar pro meu Amigo, pro meu Xará e convidá-lo pra gente beber. E a gente vai ficando assim, bebendo uma bebedeira bem vagabunda... E eu não vou deixar ele ir embora, não! A gente vai ficar bebendo... Bebendo...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Soneto de natividade para Dara

Mamãe que é em pessoa dádiva e riso
Por nove meses no ventre gestara
Caudal de essência tão bela e tão rara
Estrela em tela que estela diviso

O arauto virtual a nós anuncia
Júbilo ao cabo de tão grande espera,
A chegada de quem muito supera
Tudo que o pai já compôs de poesia

Aceita, ó Dara, este incenso remoto
Que em ondas etéreas ora navega
Mesmo se o senso ordinário se nega

De quem já é teu reverente devoto
Qual daquel'Outro pequeno também
Nascido em mês de dezembro em Belém

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Canoas do Tejo

(Frederico de Brito)

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira
O vento sopra nas fragas
O sol parece um morango...
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Canoa, conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem
Canoa, por onde vais
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais.

Canoa de vela panda
Que vens da boca da barra
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra
Teu arrais prendeu a vela
E se adormeceu, deixa-lo
Agora muita cautela
Não vá o mar acordá-lo

Canoa, conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem
Canoa, por onde vais
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Buenos dias, Capitán!

No dia-a-dia ele fala pouco. Assim quietinho chegou a primeira vez, desembainhando a cuíca e pedindo licença pra sentar na roda. Olho azul, cabelo louro, a rapaziada desconfiou. Mas não é que o alemão sabia do riscado? E foi fazendo com a gente aquela camaradagem de samba e butiquim, uma cervejinha aqui, um breque "chorado" na cuíca, a prosa boa da Zona Norte, meio malandra, meio caipira.

Até que um dia veio contar que ia comprar um butiquim ali perto, em sociedade com a irmã. O estabelecimento já era antigo no pedaço, mas não muito manjado pelo time do samba-choro que freqüentava ali o nosso reduto, administrado pelo bom Cidão. Mas camarada comprando butiquim é sempre notícia alvissareira. E assim começamos a passear por aquela meia-porta escondida atrás do cemitério, que aos poucos passou a receber a rapaziada musical de Pinheiros. Dali pras rodas de samba e choro se instalarem foi um pulo.

O tempo foi dando as suas voltas, o Ó do Borogodó hoje é o que é. E a irmã do Léo, como naquela velha canção do Caboclinho Querido em homenagem ao bairro da Casa Verde, "hoje é minha"... Mas o que eu queria mesmo lhes contar é que aquele que pra nós já foi "o alemão da cuíca", o "Léo do Sem Vintém", o "Leozinho do Ó", que conserva o jeitão desligado e o carisma dos olhos ainda jovens, basta só uma brisazinha de maresia pra se transformar, como nas histórias de heróis, no intrépido Capitão Léo Gola, assim mesmo, com nome de personagem de ópera! E eu juro que quem o vê pelo balcão do bar não reconhece o bravo enfrentador de vagas e marolas, faça sol ou faça chuva. Não lhe vê a barba russa eriçada pela viração, nem a tempestade de raios satisfeitos e trovoadas desafiadas que se lhe faz no céu dos olhos, de costume tão azuis.

Este que vos escreve dá testemunho de que quem o vê por trás da cuíca marota e da beleza plácida de garotão não sabe o tarado, o louco, o sanguinário, no convés de seu veleiro de três mastros, como na canção-retrato, basta a água salgada acarinhar de leve a barriguinha de seu Oxalá (o maior, como está dito!). Não tem noção da comoção e do respeito que provocam a simples menção de seu nome de rei, lá pelas plagas onde parece ter encalhado um barcão bem maior, todo vermelho, por cima de um rochedo quase dentro do mar. Não sabe que por ali ele manda chover e manda parar, conforme o capricho dos amigos a quem se põe a encantar.

Não conhece o desbravador da baía da Ilha Grande! O prefeito de Cajaíba, leão no nome e no signo.

O grande Capitão-de-Mar-e-Guerra Leonardo Gola! Meu cunhado, sim senhor!

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Outra vez

É curiosa a época de virada de ano. Este efeito psicológico tão compreensível quanto necessário, provocado pela demarcação de etapas na perdição do tempo indistinto, tradicionalmente remete a uma avaliação/projeção comparativa de metas, ou pelo menos, de modos. O exercício é quase natural, mas nem por isso menos aborrecido e cansativo. E o enfado acaba sempre desaguando na inafastável indagação: "afinal, pra quê tudo isso?".

Já percebestes, a essa altura, que não estou para literaturas. Não é fácil pra gente, em geral, porque parece que pesa sempre sobre os nossos pescoços a espada drummondiana: "nem me reveles teus sentimentos..." As águas do espírito agitam-se tão desordenadas, e os remansos se cruzam, se estranham e se crispam sob o céu de incertos auspícios. E assim, por impossíveis de honestamente compartilhar, esses soçobramentos não podem escapar do inferno íntimo nem ter um mínimo sentido, ainda que fraco e desprezível. Talvez um dia, desobrigados dos pudores de letras, nos seja franqueado esse infinito oceano de ventos incertos no qual atiraremos nossas miseráveis e desesperadas súplicas engarrafadas, para que cumpram seu destino e venham pousar sossegadas n’alguma praia desavisada. Sem sentimentos, pois, por ora, que não interessam mesmo a ninguém.

Porque estamos nós bem aboletadinhos nas nossas certezas, singrando a vida pela margem e de repente... zaz! Um canto qualquer de sereia nos puxa pro meio do rio, entre correntezas, galhos e tempestades. E o que é pior, com a sensação de que a vida é mesmo isso, o vento na cara, os solavancos, o barco adernando. Até a hora em que, afogamento iminente, somos forçados ao regresso. E as margens nos sorriem com satisfeita provocação, como mulher de malandro que se compraz com a certeza de seu arrego. O retorno é sempre o mais difícil dos caminhos.

Porque, afinal, há que se viver a vida, senhores. Esse delicioso produto de acasos absurdamente improváveis, desde aquele, Supremo, que propiciou ao primeiro aglomerado protéico a capacidade de engendrar a sua própria replicação.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Natal

Rubem Braga


É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!0 motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.

(in A Borboleta Amarela, Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963 - pág. 124)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Soneto de confusão

Se apenas fico são nesta loucura
E só repousa o espírito sem paz
Se na doença é que encontro a minha cura
E o que me faz sorrir são os próprios ais

À essa angústia que me move e tortura
Entregar-me por completo posso hoje
Pois é o que cada vez mais se procura
O mesmo de que mais sempre se foge

Se eu bebo dia e noite e estranhamente
Acordo bem disposto pra chuchu
A rima de Noël me vem à mente

Se o banzo que hoje sinto é assim tão blue
- e essa mania de inglês me põe doente!
I’m getting sentimental over you

[para Dani "Sorriso Maracanã"]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Casa Nova

Pois é, meus cinco amigos. Caminhando para o segundo aniversário, estamos de casa nova. Mais facilidades de edição, mais estabilidade, melhores recursos. O antigo provedor não estava dando conta do recado há meses. Aproveitamos pra dar uma reciclada no visual, com o objetivo de que a leitura ficasse menos desagradável aos olhos e a navegação mais simples para os milhões de aficcionados da página, depois de meses de complicados testes de acuidade visual média da população ocidental.

Bem, chegamos por ora neste formato, mas nada é definitivo. Opiniões são bem-vindas, mesmo que não sejam acatadas; porque afinal, como diria o bom Fernando Toledo, democracia em geral atrapalha.

Vamos aos poucos passando todos os antigos arquivos pra cá, como em qualquer mudança. De qualquer forma, na coluna ao lado fica um liame permanente para o antigo Só dói - obviamente para os nostálgicos -, enquanto de lá não formos despejados.

Resumo da ópera: Só dói quando eu Rio 2006 - muito mais facilidade pra continuar ninguém lendo!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Não deixo a vida, mas entro pra História

Fim de ano chegando e eis que eu ganho um presente dos mais belos, dos mais imerecidos e, sem dúvida, dos menos esperados. Não é que nessa altura da vida virei personagem de livro??? Não só eu, mas o Marcão, o Augusto, a Dani, o Flavinho, o Zé Colméia, o Vidal e tantos amigos que ao longo da minha modestamente respeitável carreira butiquinística foram dividindo as mesas, as porções, histórias e emoções que a gente vai vivendo nesse templo de vida e brasilidade que a gente tanto gosta de estar: o boteco!

Pois o meu irmão-cumpadre Edu Goldenberg, o sacerdote pagão do meu impagável casamento, resolveu com o talento e maestria que Deus lhe deu, reunir as histórias muitas de vida e de bar, várias das quais eu pude compartilhar, num maravilhoso, emocionado e engraçadíssimo livro: Meu lar é o botequim: histórias, palpites e feitiço sem fim, saído há dias do forno da Casa Jorge Editora, com prefácio de mestre Aldir Blanc, capa do genial Lan, apresentação do grande Fusto Wolff e orelha escrita, modestamente, por este que vos fala.

O lançamento no Rio de Janeiro deu-se na última segunda-feira, 12 de dezembro. Uma festa pra valer! Senti-me no Sítio do Pica-pau Amarelo, quando a Emília abria os livros e os personagens todos começavam a pular lá de dentro, pra desespero e espanto da Tia Nastácia!

Conto EFETIVAMENTE com a presença de vocês todos! O lançamento em SÃO PAULO será lá no Ó do Borogodó, na Rua Horácio Lane, 21 (Pinheiros, travessinha da Cardeal Arcoverde, atrás do Cemitério São Paulo), neste próximo SÁBADO, 17/12, a partir de 13h30. Não tem desculpa portanto: cerveja gelada, feijoada de primeira e o samba comendo pra valer, a partir de 15h30, com a última roda do ano dos Inimigos do Batente.

E de quebra vocês podem comprar o que eu tenho certeza que será um belíssimo presente de Natal pros amigos!

Até sábado!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Deus e o diabo na terra da infidelidade


O presidente Luis Inácio Lula da Silva tem protagonizado mais uma pantomima entre as tantas de seu duvidoso gosto. Não sei se é só porque eu ando meio azedo, mas dessa vez não é que tem me incomodado um tanto mais ser tratado como um debilóide completo? É certo que eu detesto fazer coro com o boboca do Jabor, mas se o autoritarismo de Fernando Henrique nos aviltava pela arrogância, o de Lula prima mesmo pela subestimação da nossa inteligência e capacidade de indignação.

O enredo mal rabiscado conta mais ou menos a seguinte história: tendo em vista que se aproximam as eleições e eu tenho que contar com o apoio do capital financeiro que é dono do país, mas não posso desprezar a massa de votos que, somados um a um, podem despejar-me, eu e minha digníssima, da aprazível granja onde nos encontramos instalados, tenho que acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo. Aí, imagino que pra não dar muito na cara, eu posso mandar uma incessar a patuléia, criticando o arrocho e pedindo investimentos públicos, e outro garantir o amém dos patrões, bancando a "estabilidade". Aí eu vou pra televisão dizer que a discussão é normal e saudável num governo democrático e plural e fica todo mundo contente, achando que, apesar da linha dura palocciana, há uma voz a clamar pelos pobres. Ou, olhando ao contrário (que poderíamos chamar linha "jaboriana"), que apesar das insanidades dos atrasados ainda não-convertidos, há a voz da razão e da competência para garantir que nada mudará. Contando, claro, com a claque de plantão, esse triste papel que parece a nós reservado, pra dizer que o governo é politicamente tenso e por isso não podemos abandonar nosso papel de apoio responsável e reinvindicativo. Tudo certo, se não tivessem esquecido de avisar os russos, como diria o Mané. Ou se a canastrice do protagonista não passasse despercebida pela minha filha de cinco anos. Posando de conhecedor-mor e único dos bastidores do jogo político, julgando-nos a todos uns completos imbecis incapazes de identificar a falta de mínima verossimilhança na farsa que arma, o presidente segue pensando que a gente pensa que ele pensa que nos embroma com sua nauseabunda falta de talento.

O que mais me bestifica, entretanto, é que os comunistas, disparadamente os que reputo politicamente mais capazes de construir uma crítica decente a esse mau teatro, pela retidão de propósitos, pelo cabedal analítico, pelo compromisso histórico com as lutas populares, estão há três anos repetindo, como um disco quebrado, a cantilena de que Lula representa a opção das forças progressistas frente aos reacionários que se empenham na reconquista do poder perdido. Só não me mostraram, ainda (e olhe que eu estou pedindo há um ano, pelo menos), exatamente: 1) onde está o progresso da gestão petista frente ao posto maior da nação (eu disse progresso, e não falta de retrocesso); 2) por que é preferível a má opção a nenhuma opção, ou melhor, à opção de retirar-se da linha de frente por ora e começar uma articulação de forças efetivamente progressistas, ainda que esta preparação seja lenta e só venha a ensejar uma efetiva intervenção que signifique luta pelo poder político daqui a muitos anos; 3) que raio de poder é esse, que exercido indistintamente por uns ou por outros, não tem o condão de minimamente influenciar nas grandes rotas de condução das feições econômicas do país, que em marxismo elementar (às vezes surpreendentemente esquecido) acabam por determinar os traços de toda a sociedade brasileira; 4) por que diabos o presidente que até agora não conseguiu imprimir rumos progressistas à sua gestão seria o líder indicado para continuar como depositário dos nossas anseios de mudança?

O estarrecedor é que se fica batendo na tecla da defesa da opção Lula com a mesma veemência que se clama (como no editorial da semana passada do Portal Vermelho) para que o presidente promova a guinada almejada para o a opção desenvolvimentista, para que assuma de uma vez por todas as rédeas da nação, que honre os compromissos (com os quais se elegeu) de romper com o rigorismo da lógica financista que imperou no período precedente. Como se as opções econômicas até agora assumidas não marcassem indelevelmente o caráter desse governo, novamente em bom marxismo. Porque das duas, uma: ou o presidente não tem poder, não tem cacife político para promover a tal guinada desenvolvimentista, e aí me parece indiferente que ele permaneça lá ou não; ou efetivamente não está comprometido com essa vertente, e aí me parece que deveamos mesmo defenestrá-lo. Não há saída para a aporia. Não há justificativa que se sustente logicamente para que a Lula seja novamente confiada a tarefa de enfrentar o desafio maior da sociedade brasileira, qual seja reintroduzir a política como forma de condução dos negócios públicos, contra o automatismo auto-referente da lógica financista que continua a dar as cartas. As justificativas apresentadas estão entre as histórias da Carochinha e uma espécie de crença religiosa no poder salvífico do grande filho do proletariado. Vamos e venhamos.

Estamos nós como aquele sujeito que, aconselhado pelos amigos a largar a mulher, de todos sabidamente infiel, briga com eles jurando a honra da companheira, exaltando-lhe a origem de ótima família, ponderando que, ademais, não poderia arranjar casamento que conviesse melhor à sua estratégia de bem criar os rebentos. Que tudo não passa de intriga da oposição, capitaneada por sua ex-namorada - essa sim, uma desclassificada que o traía desbragadamemente - , que só quer ver sua separação e ruína, como no samba. Chegando em casa, louça na pia de duas semanas, a grana da feira torrada no butiquim, filho chorando de fome e ela "na sala rolando com um vadio", como diria o poeta. E qual é, então, a tática do cidadão? Suplica delicadamente para que o sujeito saia do seu sofá; vai, resignado, fazer a janta pra barriga vazia da molecada; e com carinho pede pra ela endireitar, pra largar dessa vadiagem, que no fundo ela é a mulher da sua vida, só precisa se livrar das más influências.

É isso que me pedis, camaradas?

terça-feira, 22 de novembro de 2005

95 anos da eclosão da Revolta da Chibata!



Salve João Cândido! Salve o Almirante Negro!


O Mestre-Sala Dos Mares

(João Bosco e Aldir Blanc)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas,
jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos
entre cantos e chibatas
Inundando o coração
do pessoal do porão
que a exemplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas
Às mulatas
Às sereias
Glória à farofa
À cachaça
Às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
que através da nossa história
não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro!
Que tem por monumento
as pedras pisadas do cais
(mas salve)
Salve o Almirarante Negro!
que tem por monumento
as pedras pisadas do cais
(mas faz muito tempo...)

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Bíblico III

"Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, um outro te porá o cinto e te levará para onde não queres ir." (Jo 21, 18)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Samba de Eleguá

(Nei Lopes)

Samba é de Eleguá
Como a régua é de medir e de traçar
Como a trégua é o momento de parar
E a mágoa é pra calar
Samba é de Eleguá
Como a água é de beber e de lavar
Como a lígua é de comer e de falar
Como a légua é caminhar

Eleguá é viajeiro
Mensageiro de Iorubá
Como o samba é timoneiro
Do pandeiro e do ganzá
Eleguá é meu tambor
Como o samba também é
Ele á guarda do meu corpo
Meu caminho e minha fé

Caminha, meu samba, anda
Pela régua de Eleguá
Coloca a moçada louca
Pela boca de Eleguá

Axé Balogum Metá!
Odé Inlê Abatá!
Obá Xangô airá!
Ologum Edé Babá!
Iá Mi Oxum Iê Pandá!
Iá Messã Oiá!
Axé Iabá Iemanjá!
Atotô Ajé Xalungá!
Ibêji Mi Mojubá!
Odudua! Obatalá!
Mojubá Babá Ifá!
Iboru Boye Alafiá!

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Ressaca


Bem, passado o referendo deste último domingo, volto à carga somente à guisa de conclusão, até porque a partir do texto de semana passada é que pude entabular as melhores discussões sobre o assunto, nos comentários, pelo correio eletrônico, em casa, ou com meus pares da Confraria S.E.M.P.R.E.

Tive a felicidade de ouvir belíssimos argumentos favoráveis a ambas posições, pelo que julguei respeitável a decisão de alguns, pelo sim, pelo não, ou pelo branco/nulo. Não de outros, confesso que a estrondosa maioria, movidos pela anteriormente apontada onda da costumeira babaquice geral da república, que acabou por opor pacificistas ingênuos a conservadores paranóicos. Ao fim e ao cabo cravei o "sim" impulsionado decisivamente pelos argumentos de meu querido amigo, (não mais tão) jovem e (sempre e cada vez mais) brilhante advogado paulistano, Maurício Silveira.

Argumentamos, debatemos, discordamos e concordamos. O que me moveu decisivamente acabou sendo o caráter simbólico, como recado indicativo de vontade política, como utopia a ser perseguida, tendo em vista que os efeitos práticos eram controversos e que o mérito da comercialização em si não se confunde com a questão do acesso e utilização (porte) da arma de fogo. E passada a vaga algo tormentosa, convenci-me do acerto da minha particular opção. Porque, como já previa o bom Dr. Maurício, a vitória do "não", pela forma como se deu, teve um significado político-simbólico altamente negativo, perdoada a redundância. Provas incontestes, os números paulistanos sinalizaram acachapantes vitórias do "não" em bairros como Perdizes, Vila Mariana, Indianópolis, Morumbi, Moóca, todos redutos de classe média a alta, enquando o "sim" fez-se mais presente nos piores guetos de miserabilidade e violência, como Capão Redondo, Paralheiros, Grajaú, São Mateus e Piraporinha. Não consegui os dados do Rio de Janeiro, mas duvido muito que sinalizem em outra direção. Simbologia claríssima da vontade de uma população que sabe o que é a vida civil cotidiana brasileira povoada pela violência real, em oposição à da população atormentada muito mais (mas não só) por um certo pânico induzido do que pela efetividade das ameaças.

Mas sem dúvida foi o pleito mais estranho da minha vida. Acostumado a defender minhas opções com unhas e dentes, vi-me brigando com três pessoas diferentes no sábado, contestando seu pífios e ingênuos argumentos pelo "sim". Aos camaradas comunistas (que acabaram por indicar a opção correta, mas com argumentos fracos, quando não falseáveis), por exemplo, repasso a pergunta que me fez o chofer do táxi que me levou ao meu colégio de votação: "Doutor, sem arma pra comprar legalmente, como a gente vai fazer quando os cidadãos tiverem que se levantar contra a tirania do governo?". Lembrei-me do velho Brizola a distribuir armas aos estancieiros, na famosa marcha pela legalidade.

Outra prova do revés político da vitória do "não" para os progressistas é o ressurgimento da ferocidade de setores conservadores, animados com a possibilidade (bastante duvidosa, registre-se) de se ressuscitar discussões como redução da maioridade penal, adoção da pena de morte, tudo devidamente subordinado a simplórias consultas populares. O que me remete à discussão da própria legitimidade da utilização indiscriminada desses mecanismos de decisão popular direta, que reputo altamente questionável em variados casos, como no em questão, por exemplo. Mas esta é uma discussão que não estou com vontade de levar adiante neste momento.

Ficou para mim, de tudo isso, requisitado para servir à Justiça Eleitoral nesses dias de preparação e execução do processo de consulta, o sentimento de ter sido efetivamente útil, pela primeira vez em quase treze anos de serviço público, à coletividade que paga o meu salário.

Sambando no Avesso

Caio Silveira Ramos


Para Germano, malandro que em um 26 de outubro, há 50 anos, ganhou um concurso e uma carteira de trabalho anotada: "cantor e executante de instrumentos exóticos." Samba, Germano. Samba.


Cheguei de longe, com o rosto aceso da cidade, mas não era, não era aquilo. Prédio, cinza, tiro: nada que meu pesadelo desaguara, era tudo, tudo outro. Outra. Que rosto tinha que meu sonho não viu ?

Consolação, Viaduto do Chá, eu lá, trançandando, rua, rua, do disco antigo encontrei um sotaque, será ? Pois não joguei pra rede palestras, bardis, martinelis, pignataris ? Iria então comer poeira, buscar o rosto dela em vanzolinis e rubinatos. Mais fácil seria topar com um rubinato, que o outro, doutor sambado, foi mergulhar entre cobras e lagartos. Perimetrei transambando, cadê Joca, Mato Grosso ? Inês saiu, apaga o fogo Mané, que Iracema meu grande amor foi embora. Mas Rubinato, cadê ? Adormeceu, adonirou-se antes do meu pé se cravar na cidade. Por que me abandonaste, bancando o Arnesto ?

Mas perdidosseilá, foi que vi o malaco. Desconsiderei. Pois como podia, sambista paulista, chamado Germano, europas no nome, trazer um gingado ? Como é que podia, Mathias, mãe, pai lusitanos, fadista não ser ? Como é que podia, branquelo, velhaco, ecoar piraporas dos jongos fora-da-lei ?

Pois foi nele que encontrei a cidade, mesmo antes me embebedar de João Antonio, meu palavreiro vadião a me guiar pelos infernos e inferninhos das Bocas infinitas. Germano Mathias apareceu assim, de esbarrão na esquina, desmalandrado, sem bombeta, sem pisante bico-fino, sem camisa listada, sem nada. Ali, esperando o ônibus pra Parada de Taipas. E eu fui junto.

Na ginga de se equilibrar nas curvas, no requebro do passar pela roleta, lá se foi ele, de cadeira quebrada, batucando sozinho, no banco, na janela, nos canos. E eu fui junto.

E São Paulos foram se formando dele, deles, germanos, lusos, dos falares italianados, dos brancos de coração pulsando africano, negro, negro, de alma e poesia estaladas concretas na lata de graxa. De pernada de moleque xepado no lustro certeiro.

Não sou eu não, não mais, sou Germano, homem dos trinta andares, quase arranha-céu, dos mil falares sincopados se prestando a adivinhar o quanto sambar é possível e amar é quebrável. Sou Germano para gingar Padeirinho, carioca, Mangueira em férias a verderrosear as barafundas. Sou Germano para suingar Caco Velho, pai-mestre, gaúcho negro de cuicar as veias azuis dos preconceitos. Sou Germano para me enluvar Jorge Costa, alagoano, domador da sílaba que se inverte para moldar meu passo.

Roubei uns passos, uns corpos, uns gingados, sou bom ladrão, mas meu Deus, não me perdoe, que perdão não preciso. Só quis engolir todas as línguas do mundo e sair por aí falando, sambando no avesso.

E pelo descompasso de amar errado, pecarei por adormecer com a cidade, que encostada no poste, sorri: me ama.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Sim ou não, eis a questão

Protelei até quando pude meu pitaco sobre o tema mais candente do momento, até pra não dizerem que me precipito, que não tenho paciência, que o tempo político é outro, etcéteras mil. Ou na esperança de que ainda alguma alma pudesse lançar luzes honestas sobre as trevas cerradas. Porque o debate sobre o tal referendo realmente se instaura sobre uma barafunda de assustar, mesmo num país onde o furdunço é sinônimo de normalidade. Minha derradeira esperança esvaiu-se, quando, animado pela publicação de um artigo do grande Celso Antônio Bandeira de Mello, dos pouquíssimos juristas intelectualmente respeitáveis da nação, frustrei-me absolutamente pelo tom quase pueril de sua defesa do "não".

Porque, simplesmente, senhores, a coisa já começou mal a partir do momento em que se travestiu uma decisão sobre a comercialização legal de armas e munições em "plebiscito do desarmamento". Assim fácil, como se a perguntar ao eleitor se ele é a favor ou contra a proliferação das armas de fogo, num país que perde 40 mil de seus filhos todos os anos por meio dessa forma de morrer e matar. Depois, veio a campanha, que ao invés de esclarecer o equívoco da abordagem ao eleitor leigo nos assuntos legislativos, tratou de reforçar o engano, pra não dizer engodo. Então, defendo o "sim", apareceram o Chico Buarque, a Fernando Montenegro, Dom Paulo Evaristo, só faltaram o Betinho e o Chico Xavier, por razões óbvias. Aí você olha defendendo o "não" e estão o Erasmo Dias, o Afanázio Jazadi, o Coronel Ubiratan. Isso porque o Hildebrando está em cana. Instaura-se a completa banalização do debate, como se se tratasse de uma disputa entre a "turma do bem", do "paz e amor" e a turma barra pesada, do quanto pior melhor. Sinceramente, mais uma vez o grande prejuízo político para a democracia brasileira é a perda da oportunidade de um debate público sério, de nível, aproveitando a ausência de disputas eleitorais pessoais diretas.

Aí as pesquisas de intenção de voto, curiosamente, estão dando ligeira vantagem ao "não", mas em empate técnico, sendo que antes do começo da campanha os que se diziam favoráveis ao banimento das armas eram perto de 80%. Competência da campanha do "não"? Antes fosse. A confusão que por si só já não era pequena vem recebendo mãozinhas eficientes, por exemplo, da Igraja Católica, que tem espalhado por seus templos a frase, em letras bem grandes, pra quem quiser ler: "diga NÃO às armas"... Sinceramente, eu que andava bem desesperançado dos destinos da nação, depois da recente peregrinação pelo interior mineiro, a vontade é de desistir.

Confusões à parte, ocorre, na verdade, que a discussão é tão despreparada, tão fora de contexto e de senso de realidade, que os argumentos todos, de ambas as partes, não convencem ninguém. A tendência dos que somos batalhadores por uma sociedade mais fraterna e menos violenta é pela solução mais fácil, pelo "sim". Infelizmente, porém, a coisa não se processa tão simplesmente, porque não se trata de uma decisão sobre o desarmamento. A proibição do porte de arma, a política de recolhimento de armas e outras iniciativas já implementadas pelo Estatuto do Desarmamento estão corretas em tese e na prática provaram ter alguma eficácia. Fosse essa, simplesmente, a questão, e o voto seria no "sim", sem pestanejar. Mas o buraco é bem mais embaixo. Trata-se de inquirir se a uma sociedade que não quer armas é benéfico estabelecer uma proibição de comércio das mesmas e respectivas munições.

Porque é fato que a sociedade, em tese, não quer drogas, mas a proibição de comercialização não só não surte mínima eficácia, como, pelo contrário, ocasiona toda uma série de problemas ligadas ao mercado negro, ao comércio ilegal, bem conhecidos de todos nós, gerando custos sociais e financeiros estratosféricos. Foi assim com a proibição de venda de bebidas alcoólicas na Chicago dos anos 30. Então, a primeira pergunta é: a sociedade quer mesmo o banimento da droga? E quer o das armas, ou essa encenação é toda pra inglês ver, ou pra atender a outros interesses, menos confessáveis? E eu que há pelo menos dez anos defendo a legalização do comércio de drogas de toda espécie, como posso coerentemente defender a proibição do comércio de armas? Dirão uns que o mercado clandestino de armas já existe, mas é fato que elementos inéditos e importantes seriam introduzidos, como, por exemplo, o fato de se criar uma casta de poucas pessoas com a possibilidade de acesso ao comércio legal de munições, como praticantes de tiro esportivo (a Folha de S. Paulo de ontem dá conta de que cresceram em 70% em média os quadros associativos dos principais clubes de tiro...) e, principalmente, policiais, o que tenderia a acrescer um fator de incentivo à corrupção, hoje já em níveis quase incontroláveis.

O PCdoB, meu partido, editou uma resolução política elencando os motivos pelo "sim", posição oficial da legenda. Com todo o respeito e vênia, absolutamente imprestáveis todos os argumentos. Nenhum aborda diretamente a questão, nem enfrenta os problemaas reais decorrentes da possível proibição. Desalentador, eu diria. Por outro lado, a linha de defesa do "não", baseada em argumentos de um liberalismo mofado (do tipo "o estado não tem o direito de interferir no direito de defesa do cidadão de bem"), ou na escancaradamente inverossímil premissa de que os agressores passarão a enfrentar vítimas sabidamente desarmadas, também não se prestam ao convencimento. A qualquer um que adote a segunda linha e que tenha um mínimo de bom senso e amor à vida, arrisque perguntar: a partir da proibição, você encararia uma discussão de trânsito com toda tranqüilidade, confiando no seu poder de persuasão e nos seus punhos, na certeza de que seu contendor estará desarmado? Francamente...

Em verdade, a única coisa que me poderia inclinar ao "sim", que não chega a ser um argumento, um juízo categórico racional - está mais pra um urro desalentado, o que não lhe tira o valor de convencimento - é aquele que diz que se uma única vida for salva pela proibição de comercialização, já terá valido a pena. Se eu me convencer disso até domingo, voto "sim". O probleminha é que não saberemos se a vida que estará sendo salva hoje não gerará a multiplicação das mortes e das chagas sociais amanhã, e isso parece que ninguém está disposto ou tem condições de provar.

Caso contrário, nessa onda, como protesto ao rebaixamente irracional do debate e à pantomima de péssimo gosto que mais uma vez se encena, cravarei pela primeira vez depois de muitos anos, um voto em branco.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Última oração



(Edyr Proença e Emanuel Matos)

Quando eu for morrer
Vou pedir pra ser Outubro
No meio daqueles anjos
do Círio de Nazaré
Lá estarei tranqüilo
Com meu cigarro de palha
As dores todas vencidas
Nas ondas do Rio-Mar

Antes de chegar a hora
No instante de partir
Pedirei à Virgem
Asas feitas de meriti

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Eternidade II

"A carne que se transforma
em verbo sabe que morre"
Hélio Pellegrino

Quisera fazer poesia
desse instante perpetuar
o gozo em idéia
O esvair-se em permanência iludida
do poder de alçar
à palavra o que é tempo
Fazer eternidade do que é sentimento
solidão do que é entrega

Não fossem o sentimento
e a entrega
O gozo
O tempo
Negação do mesmo que esvai solidão
debruçando pelo Outro

Não fosse a palavra sentença
da possibilidade condenada
ao mesmo
Não-gozo

Não fosse a Eternidade
Palavra em poesia possível
no mesmo Tempo

terça-feira, 4 de outubro de 2005

São Francisco



Hoje é dia de São Francisco. Pra não deixar passar, pra marcar esta volta incipiente, pra alinhavar uns tantos sentimentos que têm-me ido. Mineiridades nostálgicas, belezas e chagas de outros brasis, antigos, tão atuais. Desesperanças e enfados, perplexidades e conformismos, luzes e sombras talhados em volutas intermináveis, a sangue e a ouro, pelo cinzel da impiedade capitalista que lavra o destino trágico desta Nação.

São Francisco batiza as três mais impressionantes igrejas que vi, na Cidade da Bahia, há uns dez anos, em São João del Rey, já há vinte, e ora em Ouro Preto, à custa de uns bons minutos - horas não seriam demais - e uma bela cervicalgia, olhar engolido pelo teto de Ataíde, frontões e retábulos do Aleijadinho. Seriam quatro, com mais uma que me apaixonou, pela simplicidade resgatada e pela impudica, reveladora nudez do restauro, no Arraial do Tijuco do Distrino Diamantino: uma dama de três séculos, nua e envergonhada como uma moça-menina.

São Francisco é o rio que só dói e agoniza. E eis que volto e um bispo-frade, em sua magreza obstinada, resolve juntar à morte à míngua do gigante de outrora a sua própria de pequeno e magro, de obstinado. De franciscano. E a dureza dos ouvidos oficiais se faz mais usurpadora pela ignorância dos gritos tantos. Nossos. E mais patética, de uma mesquinhez algo burra, algo bufa, preocupada com as repercussões sobre a audiência do presidente com o Papa. Enquanto o sertão forja, do âmago de seus franciscanos estigmas, mais um conselheiro a bramir nossa grotescência, soberba e surda.

São Francisco, no quase impensável século XIII, é o que largou heranças por sentimentos. E porque temos, até hoje, meu Deus - e até quando? - essa impressionante dificuldade.

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Espelho


Quero hoje prestar homenagem a uma figura maravilhosa, para mim mais do que querida, a quem eu considero francamente meu segundo pai, talvez ele mesmo não saiba disso. E para que ele e o mundo saibam, vou cravar nestas páginas a partir de hoje e nos dias que seguirem o exemplo dessa personalidade encantadora que me conquistou desde muito cedo.

Foi com ele, inexplicavelmente, que dei início à verdadeira vocação de missivista que só veio decolar depois do advento do imêiou - dado que em mim nada, nem vocação, nem qualidade e nem mesmo paixão é maior do que a preguiça. Pois aos seis, sete anos de idade escrevia cartinhas cá de Sampa àquele tio-avô carioca, cujas fuças só tinha encarado tête-à-tête uma única vez, ainda bem pequeno. E, incrivelmente para mim, ele respondia, criando laços de ternura que se consolidaram verdadeiramente muito mais tarde, quando de braços mais que abertos me recebeu e desvelou o meu Rio de Janeiro que amei desde as idéias inatas.

Cariocaço da antiga, tricolor doente e salgueirense, craque na arte do bate-papo, de uma inteligência luminosa e charme raro. Um sedutor nato, que soube durante a vida agregar à beleza física com que a natureza o presenteou um caráter escultural, de aço mesmo, incapaz da mais remota daquelas pequenas mesquinharias que todos nós escondemos nalgum cantinho da alma, é só procurar direito. De alma carnavalesca, acompanha anualmente, como um peregrino muçulmano, o desfile do Bola Preta, a meca do carnaval carioca, tendo alardeado pela vida que só deixaria de acompanhar o Cordão quando a terra por cima e a tampa do paletó de madeira impedissem (embora ano passado tenha me confidenciado seu pedido de arrego ante as proporções estratosféricas que a coisa tomou, bem diferente daquele 1989, quando me arrastou pra lá pela primeira vez ). Firme nas suas convicções, incorruptível como demonstrará a história que a partir da semana que vem passarei a transcrever, tornou-se para mim um modelo, um espelho daqueles de que falou o nosso bom João Nogueira - e que não se há de quebrar nunca, por certo. Sua lucidez impressionante e seu vigor físico não denotam as oitenta e seis primaveras que completa no dia de hoje, ainda que a saúde tenha-lhe querido impingir alguns revezes recentes. Mas não há de ser nada, meu tio velho, que vais driblando os percalços com aquela tua boa lábia suburbana do Engenho de Dentro, sim senhor, e com o teu andar meio gingado de fazer babar as moçoilas desavisadas, pra desespero da Tia Zeca - que outro dia, aliás, queixou-se a mim, meio chorosa, que esses cinqüenta anos de casamento tinham passado tão rápido...

Embora ele também possivelmente não saiba, devo muito ao meu tio-e-avô, como se auto-denominou depois que meu avô querido, seu irmão, foi cantar seresta ao lado de Orlando e Chico. Devo a opção pela faculdade de direito, porque ainda que não se tenha formado bacharel, o velho é o verdadeiro rábula da antiga: sabedoria, estilo, verve de quem sabe a quem, como e em que momento pedir. Devo minha carreira de funcionário público, para a qual sempre brilhou, juntamente com os seus irmãos, todos servidores, como exemplo maior de retidão e dedicação à coisa pública (isso é um ponto importante, para que entendam a história que passarei a contar). Devo minha devoção ao Rio, passando à prática o que aprendi com vovô na teoria desde que me entendi por gente. Devo algum jeito para tratar as moças, mas sobretudo, o seu fulgurante exemplo de chefe de família exemplar, pai amoroso e marido dedicadíssimo.

É por isso que eu mando daqui um beijo mais que especial ao meu queridíssimo tio Osias Teixeira Nunes. Do Engenho de Dentro e das Laranjeiras, sim senhor. E com vocês, a partir de segunda-feira, e principalmente pra meu irmão Eduardo, a história que envolve o velho Osias e nosso grande Nelson Rodrigues, enredados numa mesma história - verídica! - pelas mãos do cronista Armando Nogueira. Espero que titio não me processe pela violação de direitos autorais, que não sou páreo pro homem nas barras de um tribunal!

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples



Senhores, esta vida está mesmo ficando difícil.

Está certo que o "discurso" oficial da modernidade tem sentido oposto, de que as tecnologias que inventamos estão destinadas a que a vida seja cada vez mais cômoda, de modo a que teoricamente sobrasse mais tempo e disposição para a fruição das coisas efetivamente importantes, dos prazeres, da contemplação. Não vejo porque, doutra forma, teríamos que conviver com coisas tão desagradáveis como o liquidificador, a câmera digital, o caixa-automátco, o aspirador de pó, o celular, a injeçãoo eletrônica, o sistema de auto-atendimento etc. Mas a verdade é que, na prática, a teoria é outra.

Não quero aqui repetir que, no capitalismo, essas tecnologias todas são para uns poucos, e para que esses poucos possam desfrutar de suas "comodidades", as multidões de famintos continuarão a morrer à míngua dos bens mais primários e essenciais. E també não adianta somente o raciocínio um tanto óbvio segundo o qual não fazemos senão correr atrás do prório rabo, gerando constantemente novas necessidades a partir das inovações que introduzimos,
ad infinitum. O que nos complicou pra valer talvez tenha sido nossa consciência tardia sobre essa verdade simples, quando os efeitos dessa intervenção frenética e desordenada sobre o mundo (que só fez crescer exponencialmente durante os últimos 120 anos; bastando dizer que meu avô no coléio, escrevia basicamente segundo o mesmo sistema dos monges copistas da alta Idade Média) já se tinham disseminado de maneira nefasta e o ciclo vicioso e viciante do capitalismo já conduzira a compulsão tecnológica ao limite máximo da sua eficiêcia (a serviço dele prório, por certo).

Assisti ao longo da vida o padecimento dos mais velhos sucessivamente alijados das operações simples do dia-a-dia, cada vez mais subordinadas à mediação da tecnologia. Minha avó de 89 anos sempre elaborou sozinha sua declaração de imposto de renda, mas hoje precisa da minha ajuda, não porque não tenha lucidez para entender os regulamentos, deduçõees e alíquotas, mas porque não consegue preencher o formulário eletrôniico nem enviar pela Internet. Mais novo, troçqva de meu pai que não sabia programar o vídeo-cassete (nossa, que coisa antiga...) e nem esquentar o prato de feijão no microondas, mas o fato é que eu mesmo, ainda na casa dos trinta, não conseguia mais acompanhar o ritmo da história toda. Outro dia, levando minha filha a um famoso parque de diversões aqui perto de São Paulo, tive que pedir ajuda à funcionária, pois não sabia onde jogar os restos do lanche que fizemos, ante a profus? de umas seis latas de lixo de cores diferentes, com instruções sobre o que pode jogar, o que não pode...

A cada dia a ciência vai descobrindo - e, principalmente, os jornais vão divulgando - a quantidade imensa de dores de cabeça que arrumamos para nós mesmos, aliada à constatação óbvia de que os anos passam para todos nós e tudo o que ontem parecia inofensivo começa a representar terríveis perigos ameaçadores. Pegar uma prainha, por exemplo, ato inocente, simplório mesmo há uns tempos atrás, começa a parecer mais perigoso do que servir na resistência iraquiana. O sol dá câncer de pele, a areia dá micose, o mar, hepatite. Espetinho de camarão, um veneno, a caipirinha é um criadouro de monstruosidades: o limão é transgênico e dá mancha na pele, o açúcar é considerado um pó branco mais mortal que a cocaina, o gelo é de água contaminada. Só salva a cachaça, quando não tem metanol. Pra falar a verdade, nem aquela morenaça daria vontade de chegar perto, se você começasse a pensar no monte de precauções que você tem que tomar: saber se ela não se chama Asdrúbal, usar camisinha, pensar nas implicações civis da união estável etc. etc.

A evolução do conhecimento sobre os efeitos colateriais nefastos das artficialidades pouco a pouco criadas não para dominarmos o mundo, como outrora, mas para o dominarem em nosso lugar e à nossa revelia, resulta numa série infinita de pequenas preocupações a nos consumirem o ânimo permanentemente. Comer, dormir, respirar, namorar, falar, caminhar deixaram de ser atos espontâneos, naturais, para tornarem-se tarefas que demandam elevados níveis de atenção e consciência. Cada garfada que eu levo à boca tenho que calcular o número de calorias, pensar nas implicações metabóicas para a minha taxa de ácido úrico e se não estou incrementando a ingestão diária de lactose, fatal para minha rinite e comprometedora do meu desempenho vocal. Lavar as narinas a cada dois dias, por causa da poluição. Usar máscara e luva para trabalhar com os processos, por causa das bactérias que se alojam no papel. Fazer alongamento três vezes por dia. Dormir com o travesseiro alto, por causa do refluxo, mas não muito, pra não comprometer a coluna. Respiração baixa. Tomar mel, mas sem própolis, que é antibiótico e deixa os microorganismos resistentes. Pra falar, então, tem que ler a cartilha do ministério...

Talvez seja esta nossa inacreditável capacidade de fazer exatamente sempre o contrário do que nos propomos que tenha levado o Apóstolo a escrever aos romanos: "não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero". Ou o Poeta a querer tão somente, com todo ardor, "a delícia de poder sentir as coisas mais simples". E porque a simplicidade abandona seu lugar natural, espontâneo, para ser rara a ponto de precisar ser desejada, aí justamente, é que se esvai.


sábado, 28 de maio de 2005

Mais Sindô


Complemento algumas informações sobre o grande Hélio Sindô, sobre quem escrevi semana passada, haja vista que a oficialidade (é impressionante como mesmo a marginália do grande sistema tem as suas "oficialidades" particulares...) não está nem aí.

O velho violonista e compositor nasceu na cidade de Senador Pompeu, CE, no dia 07 de outubro de 1919 e morreu no último dia 09 de maio, com 85 anos, portanto.

Gravou na Contiental seu primeiro disco: "Divina Dama", samba (Henricão - Raul Marques - Buci Moreira) e "Vem ao Rio, Rita", samba (Antônio Ferreira da Silva - João Rosa - Correia Filho). Gravou ainda "O costume dela", samba (Hélio Sindô - Arlindo Pinto), "Grande Bahia", samba (Avaré - Adoniran Barbosa), "China chou", marcha (Jair Gonçalves - Hélio Sindô), "Asa negra", samba (Adoniran Barbosa), "Minha promessa", samba (Soriano - Boris), "Boogie-woogie não é samba", samba (Hélio Sindô), "Kikiricó", marcha (Arlindo pinto - Waldomiro Lobo), "Porteiro de cabaré", samba (Osvaldo França - Conde - B. França), "É de Bangu", samba (Hélio Sindô - Carlos Armando), "Marcha do tubarão", marcha (Hélio Sindô - Capitão Balduíno), "Vai dormir teu sono", samba (Heitor de Barros - Conde), "Italiana", marcha (Ciro de Sousa), "Quem é o presidente?", samba (Ciro ed Sousa), "Falso amigo", samba (Conde - Brioso), "Embrulho", samba (Djalma Mafra - Alaviade), "Medo da onda", marcha (Reinaldo dos Santos - Hélio Sindô), "Ai, se eu fosse português", samba (Hélio Sindô - Boca - Noel Victor), "Falaram tanto", samba (Hélio Sindô - Conde), "Pobre no pedir", samba (Djalma Mafra - Alvaiade), "Cabocla", samba (Arlindo Pinto - Hélio Sindô), "Sapato custa dinheiro", balanceio (Hélio Sindô - Carlos de Sousa), "Arrebenta a bexiga", samba (Mário Zan - Arlindo Pinto), "Ó Nesta", marcha (Ciro de Sousa - Polera), "Delator", samba (Hélio Sindô - Reinaldo Santos), "Vaca malhada", samba (Ciro de Sousa - Hélio Sindô), "Desapareceu", samba (Antônio Rago - Hélio Sindô), "Cachopa de branco", marcha (Jucata), "Tenho pena dela", samba (Raguinho - José Saccomani), "Triste caboclo", samba (Paraguassu), "Amor de palhaço", marcha (Orlando Monelo - Jucata), "É fingimento", samba (Júlio Nagib - Reizinho), "A volta do dobrado", dobrado (Mário Vieira - Arlindo Pinto), "Galicho ganhou", dobrado (J. E. Galvão de França - L. Ripoli Filho), "Veja você", samba (Rago - Totó), "Valete", marcha (Beduíno), "Pepita", marcha (Beduíno), "O Senhor me chamou", marcha (Hélio Sindô - Otelo Zeloni), "Flauta do Bartolo", marcha (Armando Rosas - Hélio Sindô), "Num banco de jardim", samba (Fernandes - Hélio Sindô), "Voltou o pombo correio", samba (Hélio Sindô - Ariowaldo Pires) e "Eu não posso acreditar", samba (Hélio Sindô - Domingos Romanelli).

Agradeço ao grande Roberto Lapiccirella pela preocupação constante e o carinho para com a memória do nosso grande patrimônio musical popular.

Quem tiver mais informações, peço ajuda para fazer neste canto um pequeno (e único) memorial em homenagem a esse belo personagem do nosso samba.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Sindô e Simon


Nos últimos dias, a música brasileira perdeu dois grandes personagens. Tão grandes quanto esquecidos.

Hélio Sindô (Hélio Rodrigues Sindeaux), paulistano de coração e cearense de nascimento, foi um dos grandes violonistas da noite desta cidade durante três décadas pelo menos. Intérprete, parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, compositor importante, gravado por gente do tamanho de Aracy de Almeida, conheceu seu maior sucesso com o belo samba "E Você Não Dizia Nada" (com José Sacomani e Jorge Martins), gravado magistralmente por Gilberto Alves na década de 50.

Conheci o malandro pelos butiquins das Perdizes da década de 80, apresentado pelo meu irmãozinho Jason, cujo homônimo e saudoso pai - conhecido crooner de importantes casas de dança da noite paulistana como o Avenida e o Vila Sofia – com ele trabalhara durante duas décadas. O velho Sindô, então já caminhando para os 80, ainda tinha o violão e a voz seguros e as histórias na ponta da língua afiada. Dizia-se parceiro de Ataulfo Alves no famoso samba "Pois é...", mas nunca consegui uma confirmação dessa história, nem mesmo registro da parceria por qualquer meio.

E os descaminhos tão díspares e fortuitos da vida que me levaram a figuras maravilhosas da música brasileira, bem antes de eu ser intrometido como hoje (entre os quais o grande Roberto Ribeiro e, acima de qualquer outro, sua majestade Luiz Gonzaga), levaram-me também o compositor Victor Simon. Naquelas mesas do semi-finado Bom Motivo tomei com o velho bamba várias cachaças e lições. Como também numa madrugada, telefone no viva-voz, ele derramando mágoas, histórias e preciosas informações para o incansável Roberto Lapicirella, um dos grandes responsáveis pela memória deste e de outros personagens que honrada e competentemente fizeram a história e a grandeza da música popular brasileira não estarem completamente varridas do mapa. Muito diferentemente, aliás, de certas figuras que, recém-chegadas à cena, parecem julgar-se os responsáveis pela "redescoberta" da história da música brasileira, sem a menor preocupação com se suas acusações descabidas - certo motivadas mais por ignorância do que por qualquer indício de má-fé - possam levianamente enxovalhar a memória de um artista batalhador, honrado, competente e sofrido como Victor Simon. Leiam no texto abaixo, de autoria de alguém que escreve por que conhece e conhece porque estuda, a demonstração do descabimento dessa injuriosa afirmação.

Apesar dos belos currículos, nenhum dos dois malandros recém-embarcados para aquela estação de onde nunca se volta é sequer mencionado, por exemplo, na Enciclopédia de Música Brasileira, nem tampouco no empavonado Dicionário Cravo Albin. Possivelmente por darem menos ibope - ou dinheiro - do que o Simoninha e o Max de Castro, esses devidamente agraciados com os competentes verbetes.

Ante o descaso dos grandes e a incúria dos pequenos, deixo-vos com quem sabe das coisas, trabalha sério e não gosta de aparecer. Com vocês, Victor Simon pelas mãos seguras do meu querido amigo Caio Silveira Ramos.

Victor Simon

Caio Silveira Ramos


Victor Simon por Roberto Lapicirella

Já era noite alta, o telefone tocou e a voz envelhada chegou como se abrisse a porta e sentasse no sofá: "Boa noite, aqui quem fala é o Victor Simon, quem me deu seu número foi o Osvaldinho da Cuíca. Eu queria participar do Festival de Música da TV Globo: vamos fazer um samba ?" Duvidei, não podia ser. Conhecia a fama do homem, compositor famoso das décadas de 40, 50 e 60. Que fazia ali na minha sala ? Mas era ele lá e em todo lugar. Veio mastigando a alma com as histórias passeando no Rio boêmio, nos cafés, nos cassinos, nas vozes dos cantores mortos. Saiu de lá, cambaleou pela paulicéia chuviscosa e amarga e, "e aí vamos fazer aquele samba?". Me rasgou o pensamento perdido no sereno, assustei, pedi perdão: "não posso", não saberia atropelar o tempo, indigno que eu era de pertencer ao passado. Não concordou, só aceitou meu encabulamento: "então esquece o concurso, um dia a gente faz um samba junto".

Não sei se ele chegou a participar do festival – que composição inédita é que não faltava em seus papéis – mas nosso samba nunca saiu. Se perdeu pelo telefone, morreu lá. Feito ele agora: esquecido, quase indigente, morto. Compositor genuíno, batalhador pioneiro pelos direitos autorais, amigo de Custódio Mesquita e Ismael Silva, Victor cantou pouco, mas criou muito para que outros transformassem sua alma em som. Na lista de intérpretes de suas músicas, entre tantos outros, ecoam as vozes eternas de Francisco Alves, Isaurinha Garcia, Luiz Gonzaga, Bob Nelson, Gilberto Alves, Quatro Ases e Um Coringa, Os Cariocas, Trio de Ouro, Geraldo Pereira, Blecaute, Araci de Almeida, Nelson Gonçalves, Linda Batista, Carlos Galhardo, Maurici Moura, Altemar Dutra, Titulares do Ritmo, Roberto Luna, Cauby Peixoto, Anjos do Inferno e Jamelão.

Vejo alguém ali torcendo o nariz para o Bob Nelson. É´, Victor Simon compôs várias músicas para Bob, inclusive três de seus maiores sucessos: "Minha Linda Salomé" (em parceria com Denis Brean), "O Boi Barnabé" (em parceria com o próprio Bob Nelson) e "A Valsa do Vaqueiro". Mas que ninguém se iluda, atrás da roupa de caubói americano, dos falsetes tiroleses improvisando "ourureirilus" e de algumas canções desnecessárias, o cantor Bob Nelson, cujo nome de batismo era Nelson Perez, é um grande intérprete de xote, valsa, marcha de carnaval e samba. Quem duvidar pode ouvir seu domínio rítmico e melódico nos sambas-choros "Um Samba na Suíça" (dos míticos compositores – comumente visitados por João Gilberto – Haroldo Barbosa e Janet de Almeida) e "Vaqueiro no Samba" (de Irany de Oliveira e Rosalino Senos). Inspirado provavelmente pela marcha de carnaval "Cawboy do Amor" (de Wilson Batista e Roberto Martins) lançada em dezembro de 1940 pelos "Anjos do Inferno", Bob Nelson criou seu estilo, que pode até ser criticado em vários aspectos, mas não deixa de ser, no mínimo, antropofágico. No citado "O Boi Barnabé" (que era apaixonado por uma vaca que dava "leite açucarado misturado com café" "engarrafado com tampinha e com rolha") a suposta rendição à cultura americana é subvertida pela deslavada marchinha de Victor e Bob, como se o caubói se derramasse desvairado em plena terça-feira gorda. E para completar a barafunda, só faltava mesmo Ciro Monteiro fazendo com a voz o mugido do boi apaixonado. Mas nem isso faltava. Na gravação em novembro de 1945, Ciro estava presente, atendendo pelo nome de Barnabé.

A menção a Ciro Monteiro nos faz atentar para um outro nome da lista de intérpretes das obras de Victor Simon: Geraldo Pereira. Se o Formigão cantou como poucos os sambas de Geraldo, em o "Falso Patriota" a presença de Simon subverte novamente a história, pois Pereira deixa de lado a sua arte de compor para ser simplesmente intérprete. Aliás, um grande intérprete.

Tive notícia recente de um comentário em um blog onde, por causa de "Falso Patriota", Victor Simon foi chamado injusta e injuriosamente de "comprositor" (a insinuação é de que o autor verdadeiro seria Geraldo Pereira). O comentário – que foi bravamente combatido por Fernando Szegeri em um discurso inflamado diante das mesas e violões do "Ó do Borogodó" – só pode ser fruto de confusão, desinformação ou desatenção lógica e histórica, jamais de má fé, suponho. Ora, analisando a grandiosa obra (tanto em número quanto em qualidade) de Victor Simon e a extensa lista de seus (brilhantes) intérpretes, percebe-se que ele jamais foi um falso compositor que se apropriava de músicas alheias.
No que diz respeito à composição específica, o comentário injusto não encontra qualquer respaldo em obras fundamentais sobre Geraldo Pereira, como são os casos de "Um Certo Geraldo Pereira", de Alice Duarte Silva de Campos, Dulcinéa Nunes Gomes, Francisco Duarte Silva e Nelson Matos (Nelson Sargento) – Rio de Janeiro: FUNARTE/INM/Divisão de Música Popular, 1983 e "Um Escurinho Direitinho – A Vida e Obra de Geraldo Pereira, autor de ‘Falsa Baiana’, ‘Bolinha de Papel’ e dezenas de outros sambas imortais’ ", de Luís Fernando Vieira, Luís Pimentel e Suetônio Valença – Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995. Isso sem falar no texto de contracapa de Zuza Homem de Mello para o LP que resgatou "Falso Patriota" do limbo dos 78 rpm, "Sambistas de Bossa & Sambas de Breque" (RCA – 107.0278 – 1977).

Do ponto de vista lógico e histórico a injúria não se justifica. "Comprositores" sempre houve em nossa música, mas tal prática se dava (e talvez ainda se dê) nas seguintes hipóteses mais constantes: a) ou o "comprador" buscava a parceria para ter seu nome impresso e divulgado ao lado de um compositor respeitado – não só para também conseguir fama, mas visando principalmente à gravação da música por algum intérprete renomado, o que resultaria em provável retorno financeiro, ou b) tal "usurpador", não raro um cantor já reconhecido, percebendo as potencialidades artísticas e econômicas de um determinado samba, comprava (das mais diversas formas) a parceria (ou a composição toda) para lucrar não só como intérprete, mas também pela arrecadação de direitos autorais. No caso de "Falso Patriota" – gravação de 26 de junho de 1953, no lado "A"do 78 rpm que apresenta no "B" "Cabritada Mal Sucedida", do próprio Geraldo, Wilton Wanderley e Jorge Gebara (RCA – Victor 80.1192) – a situação se inverte. Por mais que fosse um compositor respeitado (ainda que não fosse reconhecida sua genialidade àquela época), Pereira não era um intérprete famoso, embora igualmente fantástico. Geraldo Pereira teve dificuldade para gravar seus 32 registros como cantor, sendo talvez o referido disco, seu maior "sucesso" nessa área. Victor já era autor reconhecido na época da gravação de "Falso Patriota" e não tinha interesse nenhum em gravar com um cantor de pouca projeção, a não ser o prazer de ouvir seu samba na voz de um artista que ele, sensível como Geraldo, percebia ser um mestre. Talvez Pereira tenha tido mais interesse nessa gravação do que Victor, justamente porque, nessa época queria se firmar como cantor, e o reconhecimento de um compositor respeitado como Simon emprestava respeitabilidade ao seu disco. Logicamente Geraldo não precisava nada disso, como se pode constatar ouvindo, no lado "B", o brilhante samba "Cabritada Mal Sucedida" talvez um dos seus sambas mais perfeitos; mas dizer que Victor Simon não seria capaz de compor "Falso Patriota" é totalmente equivocado, e, repita-se, injusto. No samba – talvez uma resposta a eventuais críticos de sua ligação com Bob Nelson – Victor enaltece as coisas e valores brasileiros, criticando os que abdicam dos produtos nacionais em detrimento do estrangeiro. Se em "O Boi Barnabé" Simon praticava canibalismo cultural, em "Falso Patriota" ele beirava a xenofobia, talvez reflexo das idéias marxistas que desde essa época passara a defender com paixão. Não bastasse tudo isso, não se pode menosprezar a participação na autoria de David Raw, parceiro constante de Victor Simon e também um compositor de talento como atesta o samba (em parceria com Jucata) "Vida Dura", sucesso na voz de Caco Velho, recentemente regravado por Germano Mathias.

A preocupação social foi sempre uma constante na obra de Victor Simon, ainda que essa não apareça muitas vezes de forma explícita. No samba "Porteira do Brás" (em parceria com Lys Monteiro), gravado por Wilson
Roberto (acompanhado pelo regional de Benedito Lacerda e Raul de Barros no trombone, provavelmente no final da década de 40), ao tratar da derrubada de uma porteira da rede ferroviária que atrapalhava o trânsito no bairro paulistano do Brás, Victor Simon metaforicamente abre os olhos e ouvidos da cidade para os então renegados bairros pobres da zona leste, região marginalizada e esquecida pelos órgãos públicos. Se o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros tentou utilizar a música em seu benefício político (já que fôra ele que, com a construção do Viaduto do Gasômetro, derrubara uma das porteiras – embora somente em 1967 o Brás tenha se livrado definitivamente de seus "entraves"), espertamente Victor Simon inseriu com pioneirismo a "cidade excluída", mencionando bairros renegados em um samba que fez muito sucesso na época e que abriu trincheiras para que Adoniran Barbosa chegasse até as Vila Ré e Esperança. Pouco depois, Victor Simon voltou a tratar de "cidades partidas" (para usar uma expressão muito cara a Zuenir Ventura): em janeiro de 1954 foi lançada a marcha "Vagalume" (em parceria com Fernando Martins) através de duas gravações diferentes, uma de Violeta Cavalcanti e outra dos Anjos do Inferno. Estrondoso sucesso de carnaval, os versos "Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz" escondem por trás do genial espírito irônico (gozador, diria João Nogueira) do carioca (embora Victor fosse fluminense de Macaé, incorporara todo bom-humor da capital) uma crítica social violenta, que não se restringia a cidade do Rio de Janeiro, mas a todas as outras cidades brasileiras: o desprezo dos poderes públicos às necessidades da população. Por trás de monumentos, de praias aclamadas com lirismo, de uma cidade violentamente bela, existia outra, mal-administrada, tomada por problemas, feita de pessoas que moravam no asfalto e nos morros, vistas tantas vezes apenas como parte de uma paisagem exótica. Naquele momento, Simon e Fernando Martins não diziam isso com todas as letras, mas hoje a profecia de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro parece querer se cumprir e o morro ameaça descer sem que seja carnaval para receber aquilo que sempre lhe foi negado. Depois de carnavalizar o caubói americano, defender sincopadamente o produto brasileiro, abrir as portas da cidade para a zona leste e seus moradores entrarem na música brasileira incomodando a elite paulistana e denunciar risonhamente o descaso do governo com a população, Victor – não antes de alcançar sucesso com o samba "Bom Dia, Café" na voz de Roberto Luna em 1958 – resolveu se embrenhar por China, Rússia, América Latina e acabou conhecendo "Che" Guevara, declarado fã do "bolero-mambo" de Simon (vertido para várias línguas), "O Vagabundo", "Que importa saber quem sou/Nem de onde venho/Nem pra onde vou/O que eu quero são os teus lindos olhos, morena/Tão cheios de amor/O sol brilha no infinito/E aquece o mundo aflito/Que importa saber quem sou/Nem de onde venho/Nem pra onde vou/Eu só quero é o teu amor/Que me dá a vida/Que me dá calor/Tu me condenas por ser vagabundo/E meu destino é viver ao léu/Pois vagabundo é o próprio mundo/Que vai girando no azul do céu".

E o mundo vagabundo foi estraçalhando Victor Simon. O autoritarismo brasileiro das décadas de 60, 70 e início da de 80 foi pouco a pouco sufocando seus sambas, sua marchas, suas idéias de igualdade e sua vida. A crença em regimes alternativos que pudessem salvar o homem que caminhava na rua acabou se transformando apenas na crença naquele homem. E nada mais. Perto do fim, talvez continuasse compondo em nome dessa fé, mas suas músicas há tempos não ganhavam vida e muitas morreram junto com ele. Amigos como Roberto Lapiccirella e Osvaldinho da Cuíca ainda conseguiram que Victor Simon, com mais de 80 anos, se apresentasse lembrando suas histórias. E nessas horas ele se desgrudava um pouco do sufoco a que fora condenado para cantar em paz.

Não se pode negar ao artista o direito de cometer erros. Victor Simon deve ter cometido os seus e sua vida terminou de maneira quase miserável. Mas os erros não se comparam à sua obra, às suas idéias, ao seu amor pelo mundo. E ele não merecia morrer da forma que tanto lutou para que o homem não vivesse. Uma segunda-feira, 16 de maio de 2005, encontrou o boêmio, compositor e sonhador Victor Simon morto, aos 88 anos. E primeiro de agosto estará logo ali, esperando pelos 89 que nunca virão.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

A César o que é de César


Quem não é advogado dificilmente pode saber que existe na Ordem que fiscaliza e normatiza a profissão uma espécie de "comissão de desagravos", encarregada de julgar casos onde advogados no exercício de suas prerrogativas profissionais previstas em lei são desrespeitados por juízes, promotores, delegados, autoridades em geral. Se o pedido de desagravo é julgado procedente, acontece uma solenidade na qual o violador é espinafrado publicamente e a categoria, simbolicamente, presta sua solidariedade e apoio ao desacatado.

Foi exatamente essa a dimensão da cerimônia que presenciamos eu e meus bons amigos Augusto Diniz e Capitão Léo Gola, num Bar do Giba lotado e atônito. Meu bom irmão Eduardo Goldenberg, de passagem por São Paulo, foi nos encontrar para matar saudades e entornar umas. Ao chegar ao bar, seus olhos não eram os de sempre. No sorrizinho mal contido, canto de boca, residia uma satisfação íntima cujo motivo eu não podia adivinhar. Antes de me cumprimentar, foi mandando:

- Irmão, eis que o dia é chegado!

Não consegui de imediato perscrutar a profundidade da frase escatológica. Tentei, mas o homem só dizia, abraçado na pasta de trabalho como um menino à bola nova ganhada de Natal:

- Precisei viver pra ver esse dia. E você tinha que estar comigo.

Edu seguiu na bebedeira algo misterioso e mais taciturno do que de hábito. De vez em quando seus olhos rebrilhavam e deixava escapar entre muxoxos:

- Vamos vingá-lo...

- Não perdeu por esperar...

- Finalmente desentalaremos...

E por aí seguia. E o homem agarrado na tal da pasta. Uma certa hora, mais ou menos entre a quarta e quinta rodada de Buchannan's que entremeavam as Brahmas semi-congeladas, abre a pasta, tira dela um velho LP (os mais jovens podem ir ao dicionário ou ao Google, que eu não tenho saco de explicar) e se levanta em tom solene, mãos ao alto segurando o disco acima da cabeça, autêntico Carlos Alberto com sua Julles Rimet particular:

- Senhores e senhoras, paguei por isso que vocês vêem a exata medida da obra e do caráter desse pulha! Um mísero real num sebo fedorento da Boca do Lixo é o que ele vale!

Incontinenti, possuído por uma luminosidade transcendentental, fumegando pelos olhos, meu bom irmão Edu arrebenta o disco sobre a coxa, que se espatifa em estilhaços. Os presentes se levantam. Eu, a essa altura já entendendo perfeitamente o ritual, imediatamente ateio fogo à capa que flameja como uma sarsa no deserto. Garçonetes em polvorosa, o povo da cozinha saindo pra assistir a imolação. Capitão já sapateava sobre os destroços espalhados pelo chão e Augusto golpeava virulentamente a foto do encarte com uma tesoura cega, enquanto a patuléia urrava em delírio:

- Biltre! Patife! Safado!

Súbito, alguém se levantou de uma mesa do fundo, arrancou a foto do Palocci do jornal e a esmigalhou freneticamente, ao que outro gritava: "Pisa no Lula, pisa no Lula". Não tenho bem certeza, mas parece que alguém chegou a gritar: "o Severino é meu!" E foi um tal de tacar fogo em foto, pisotear aliança, arrancar uniforme, que o bar foi tomado de um espírito libertário de catarse coletiva. Edu, lágrimas de ira escorrendo pelo rosto, grunhia entre os dentes semicerrados "por você, Aldir, por você...", enquanto destroçava os últimos pedaços. E foram aplausos, apupos, uivos coletivos quando encerrávamos a cerimônia, abraçados, chorando, sensação reconfortante do dever cumprido.

A vingança, amigos, é um prato frio comido pela História. E não custa mais que um mísero real.

[para Aldir Blanc]