quinta-feira, 8 de março de 2007

Recordar é viver

E não é que no dia 8 de março não há mesmo como não se falar delas? E por uma razão muito simples: não há dia na vida em que um homem não fale delas... E ruminando neste tema tão caro aos encontros masculinos, remeto-vos a um bate-bola entre meu mano Edu Goldenberg, este que vos escreve e o saudosíssimo Fernando Toledo, na ordem em que foram gerados, na mesa imaginária do não menos saudoso Conexão Irajá.

quarta-feira, 7 de março de 2007

O grande momento

Augusto Frederico Schmidt


A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a morte,
com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...

quinta-feira, 1 de março de 2007

Desagravo paulistano


Outro dia desses, não sei se foi o meu amigo Bruno Ribeiro, não sei se foi o velho e já tão querido mestreLuís Antônio “Amarildo” Simas, um dos dois escreveu mais ou menos que o homem que não ama a sua cidade é, no fundo, no fundo, um infame. Vinda de qualquer um dos dois craques, com efeito, a sentença reveste-se de uma incontestável autoridade, visto serem, ambos, eméritos e desvelados laudatórios dos encantos de seus respectivos torrões. E assume assim, para mim, o peso acabrunhante de uma condenação.

Assume, inelutavelmente, pois essa instância tão fundamental de existência coletiva que é a cidade significa demais para mim. Mais do que de lugares ou países, mais do que de bairros ou de bares, sempre fui um homem apaixonado pelas cidades. A cidade desde muito cedo na história humana - no Oriente, na África, Grécia ou na América pré-colombiana - representou a instância mais essencial dos grupamentos humanos, a que diz mais sobre um povo e um lugar. Síntese privilegiada entre o particularismo do clã familiar e a universalidade da nação, as cidades nascem, vivem e morrem, têm personalidade, sexo e temperamento bem humanos. Por isso o amor pela cidade é um amor carnal, que pode ser ardente hoje e repugnante amanhã, porque é concreto, é histórico. O amor pelo país, pela nação, é um amor de pertencimento, tem cheiro de infância, de colo de mãe, é essencial, está plantado no fundo; mas não é orgástico, não cansa e nem faz suar.

Por isso, meus amigos, não me redime da infâmia a imagem que durante muito tempo alimentei, para escamotear minha deplorável condição, este verdadeiro aleijão moral de que me acusam os meus queridos companheiros de linhas virtuais. Não adianta enganar, como outrora tentei, que o amor pelo Rio é de amante, por Belém é de esposa e por São Paulo é de mãe (aquele que a gente não escolhe, de que a gente não consegue se desvencilhar; que a gente, mesmo, não agüenta, mas faz parte da nossa mais recôndita essência). Porque assim como mulher nenhuma toleraria de um macho amante um bem-querer que se declare “filial” (com a óbvia exceção), de um amorzinho assim canhestro nem a minha cidade é merecedora.

Não é de hoje que este espaço é preenchido das lamúrias que assaltam diariamente o coração de um brasileiro obrigado a conviver, nesta cidade, com a negação sistemática daqueles traços – por que não, daqueles sintomas? - que fazem do brasileiro um povo tão singularmente vocacionado à fortuna, a despeito de tudo e de todos. Mas sempre faço questão de separar “a cidade”, do “povo” que nesta circunscrição espacial cumpre seu degredo peregrino. E talvez resida precisamente aí esta dureza d'alma que tanto nos assusta e incomoda, na separação do inseparável, de um corpo e sua alma, de uma cidade e seu povo. Porque esta cidade, meus senhores, não pertence ao seu povo. Pertence, como uma Jerusalém romanizada, aos usurpadores, aos invasores, àqueles que querem manter o Brasil eternamente refém da ganância espoliadora da mesma meia dúzia de sempre. Eles estão por toda parte da terra tupiniquim, direis, mas cá quase mais não vemos, ao menos, o protesto, a subversão constantemente intentada, esta soberania latente que aqui e ali se manifesta, mostrando por entre as frestas da dominação artificiosa, brutal, a realidade sobre os verdadeiros donos desta terra (e o carnaval é o ápice desta sublevação). Aqui, a batalha parece sempre perdida, o território irremediavelmente ocupado, o messias definitivamente de nós esquecido. O leviatã autômato não cessa de retroalimentar com eficiência crescente todos os mecanismos tendentes à eliminação dos sujeitos pensantes, amantes, dançantes, suantes.

Não, senhores, não há desagravo, nem instância de apelação. A condenação é certa e merecida. Para aliviar a execução da pena, arguo tão somente duas atenuantes. A uma, tenho que muita gente da melhor cepa que por aqui floresce (testemunhai em minha defesa, testemunhai!) me acompanha ao cadafalso, nutrida dos mesmos sentimentos. A duas, pra valer, São Paulo não é uma cidade. São muitas cidades justapostas, assemblage de retalhos chuleados ao léu, tão díspares, tão incomensuráveis, centão disforme, melancólico e patético. Em cada porção deste
embrechado pulsa um fragmento de alma, que se não alcança um efetivo hálito de ser, possui o condão de refrear o avanço da gangrena doutra forma inevitável.

Os bairros paulistanos representam para nós a única possível instância de salvação de nosso quotidiano. Se para a redenção de nossos seres, os brasileiros de São Paulo pomo-nos a sirigaitear por aí, oferecidos a rios de janeiros, beléns e salvadores, o peso do dia-a-dia só se nos alivia com o apego desesperado a esses pequenos fragmentos de dignidade urbana. Por isso é que meu querido Júlio Vellozo não consegue deixar de cortar o cabelo na Vila Gustavo. É por isso que o Fernando Borgonovi, por mais que se embriague nas vilas madalenas, tem que tomar a sua saideira diária no caga-sangue do Jaçanã. Por isso o Arthur Favela tem que bater ponto todo domingo na pelada do Anhangüera, na sua Barra Funda.

É por isso que eu percorro, todos os dias, ávido, desesperado, as ruas da minha Lapa. Não a Lapa boêmia de Luís Martins, colorida outrora como hoje. A Lapa suburbana, operária, comercial – tão cinzentinha, coitada!- devidamente nordestina e imigrante, como devem ser os subúrbios paulistanos. É por isso, senhores. Para salvar a minha Lapa. Para salvar o pouco que a nós resta. Porque até isso nos querem tirar. Aos que nada têm, até o que têm lhes será tirado. Porque os artífices deste monstro devorador de possibilidades não cessam de obrar para aniquilar os bairros de São Paulo, suas singularidades, seus modos de ser e de morar, por ação da plaina irrefreável a transformar lugares de carne-e-osso-e-alma em zumbis espectrais de concreto e soberba.

A partir de hoje, este espaço alteará sua voz em defesa das migalhas de dignidade e vida que restam a este projeto fracassado de cidade. Quem for paulistano, que me siga.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Noturno da Lapa

Luís Martins*


“C'est une place
C'est une rue
C'est même tout un quartier...”


(Pigalle, Georges Ulmer e Géo Koger)

Assim também, exatamente, é a Lapa: uma praça, uma rua – a rua e o largo da Lapa; e em torno a Lapa, propriamente dita, certamente um dos recantos mais estranhos, sugestivos e pitorescos da cidade do Rio de Janeiro.

Para falar da Lapa – lembremos, ainda uma vez, a opinião de Manuel Bandeira - “e fazer-lhe sentir todo o prodigioso encanto, só um Joyce – e Joyce do Ulisses, com sua extraordinária força de síntese poética. Basta dizer que a Lapa é um centro de meretrício todo especial (onde vivem as mulatas mais sofisticadas do Rio) e esse meretrício se exerce no ambiente místico irradiado da velhe igreja e do convento dos franciscanos”.

Mas não só o convento e a Igreja que dão à Lapa um aspecto monumental e venerável, contrastando com a humildade dos seus velhos sobrados de portas enegrecidas pelo tempo, a pobreza de seu pequeno comércio e os desregramentos de sua vida noturna; um de seus limites extremos, que a separa das luzes da Cinelêndia, é o venerando, o histórico Passeio Público; é na Lapa que se eleva, desafiando a fúria dos séculos, o grande aqueduto dos Arcos, obra colonial, talvez a mais grandiosa e majestosa das relíquias arquitetônicas do velho Rio. Isto sem falar na escadaria monumental que sobe para o Curvelo e no pitoresco casario que desce a pino do morro de Santa Teresa sobre a rua Joaquim Silva, fazendo lembrar certos aspectos de Lisboa.

As paredes das casas, os telhados rústicos, os portais de pedra parecem impregnados do mofo do tempo; tudo aquilo transpira velhice e tristeza; e, entretanto, a Lapa é – ou era, porque me refiro aos anos 1930 – um bairro alegre. Pelo menos movimentado, agitado, cheio de músicas e tabuletas luminosas, indicando bares, restaurantes e cabarés. Na Lapa vivia o Rio noturno.

Para quem não a conheceu, hoje é difícil imaginá-la nesse período. EU não hesito em afirmar que o prestígio da Lapa na década de 1930 foi, um pouco, promoção nossa, os jovens escritores que a freqüentávamos. Nós escrevíamos sobre ela artigos, crônicas e reportagens; criávamos, assim, a sua tradição, o seu mito e a sua lenda.

Para se ter idéia da importância da Lapa desse período na vida carioca, basta lembrar o seguinte: em mil novecentos e quarenta e tantos (eu já morava em São Paulo) inaugurou-se perto da rua da Lapa, perto do bar 49, uma boate à maneira de Montmartre, arrumada e decorada por um artista da moda e com pretensões a grã-fina: o 1900. No dia da inauguração, o velho bairro ficou atulhado de carros particulares e a festa constituiu um grande acontecimento mundano. Durante alguns dias, os elegantes da Zona Sul foram ao 1900, como em Paris se vai ao Lapin Agille e aos cabarés de Pigalle, porque era “bem” divertido e chique a Lapa, afinal era o Montmartre carioca... Mas a extravagância não durou muito. Os grã-finos logo se enfastiaram. Seis meses depois de inaugurado, o elegante bar ficou às moscas; então, a Lapa o invadiu, tomou conta dele, integrando-o em sua atmosfera e em seu estilo de vida. Naquele ambiente sofisticado, todo decorado com enormes painéis que pretendiam reproduzir a vida elegante e boêmia da belle époque, dava pena verem-se soldados, marinheiros e marafonas tomando cerveja...

A instalação do 1900 fora um erro. O momento não podia ser mais inoportuno. Estávamos no tempo da guerra e esta foi, como terei ocasião de demonstrar em outro capítulo, um dos responsáveis pela melancólica decadência da Lapa.

Aliás, foi uma felicidade que tivesse malogrado essa estranha e despropositada aventura; se a guerra não tivesse acabado com a Lapa, os grã-finos, se nela se instalassem, com certeza acabariam; porque grã-fino, onde se mete, estraga tudo.

(1963)

*in Noturno da Lapa, Rio de Janeiro: José Olympio, 2004 – 4ª ed. Pp. 99 -102

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

A existência possível (cont.)

(PARTE I - continuação)


Existência possível e forma verdadeira


Qual a diferença entre “existência possível” e “forma verdadeira”, segundo o uso que aqui fazemos desses conceitos? Em primeiro lugar, enquanto o pensamento conservador pode tomar “forma” por uma apresentação acidental determinada independente do seu conteúdo material, o pensamento crítico, muito ao contrário, a toma como manifestação essencial e indestacável desse conteúdo, a maneira própria dele existir historicamente “para nós”. A primeira conseqüência evidente é que a forma como a existência se apresenta para nós, carregada de suas mazelas e negatividades, é absolutamente indissociável de seu conteúdo mais intrínseco, de sua conformação estrutural, e não apenas uma deformação acidental e circunstancial de um modelo ideal. A superação de suas negatividades não pode, então, apresentar-se como ortopraxia, como simples correção de desvios, como eficiência gerencial, mas unicamente pode dar-se como negação material e determinada do conteúdo assim informado. O pensamento crítico, assim, penetra nas estruturas profundas do conteúdo historicamente situado e nega as formas presentes e determinadas da existência como dotadas de qualquer necessidade, verdade, ou realidade privilegiada em relação a outras formas possíveis.

Assim, a forma possível não é determinada nem sequer determinável genericamente. Não está presente num ponto mais ou menos definido ou definível. Situa-se no campo do não-ser. Só é construível a partir da negação determinada das estruturas dadas, ou, se quisermos, das negatividades (mazelas) encontráveis na forma dada da existência. Por isso é tão difícil para o conservador atribuir a essa forma possível um estatuto de realidade comparável à forma presentemente dada. Situa-se no oceano imenso e pouco navegado da possibilidade construenda. Muito diferente da “forma verdadeira”, definida e definível por parâmetros previamente estabelecidos, perfeitamente situável, familiar. A existência possível, assim, não se apresenta como utopia, como projeto salvaguardado num não-lugar extrínseco ao tempo e espaço, mas, muito mais, como um não-projeto situado em todos os lugares, presente a confrontar criticamente todas as formas dadas da existência, negando-as e sendo por elas negada, rumo à superação das negatividades apreendidas. Apresenta-se, antes, como processo, como movimento permanente e perpétuo, como tensão dialética entre o dado e o possível – o que “é” e o que “não é”, com idênticos estatutos de realidade/racionalidade, a negarem-se mútua e incessantemente até o infinito. A “forma verdadeira”, por sua vez, reduz essa tensão dialética entre o dado e o possível a uma mera relação entre ato e potência, onde o que pode ser já é, já está contido no que é, bastando para que se atualize a disposição ideal das condições favoráveis.

A partir do que ficou apresentado, percebemos que qualquer doutrina do fim ou do sentido da história, tenha contornos religiosos, políticos ou filosóficos, vai se apresentar conservadora no sentido que aqui emprestamos. Sempre que o processo se detém, que o movimento se encastela numa forma determinada, ideal ou verdadeira, sempre que se abrir mão da crítica e da negação possíveis, temos a morte da possibilidade. O paraíso e o nirvana são tão imobilizadores da emancipação humana quanto o estado prussiano de Hegel ou a sociedade comunista idealizada. Mais, qualquer parâmetro particular ideal que se ponha a positivamente confrontar as formas dadas da existência, seja a Liberdade, a Igualdade, a Democracia, etc. operam o mesmo papel, qual seja de escamotear a necessária negação dos conteúdos materiais e das estruturas que engendram as negatividades essenciais. Não que essas positividades não tenham o seu papel no curso quotidiano da vida, da existência e, por assim dizer, da sobrevivência: o têm, indiscutivelmente, e disso trataremos noutra parte. Apenas situam-se num grau de consciência limitado, que tem a sua utilidade, mas que impingem transtornos insuperáveis ao progresso do conhecimento crítico, à superação das negatividades da existência dada, toda vez que não se contêm em seus limites de uso estritos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Dama das camélias

João de Barro e Alcyr Pires Vermelho


A sorrir você me apareceu
E as flores que você me deu
Guardei no cofre da recordação

Porém depois você partiu
Prá muito longe e não voltou
E a saudade que ficou
Não quis abandonar meu coração

A minha vida se resume
Oh! Dama das Camélias
Em duas flores sem perfume
Oh! Dama das Camélias

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Divagações cinerárias


A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.


Bola Preta

Reiterando o costume já quase vintaneiro, estive sábado acompanhando o Cordão da Bola Preta na minha amada cidade do Rio de Janeiro. E só agora consigo perceber o sentido profundo da transformação que pude acompanhar nessas duas décadas.

O Bola Preta representava em 1989, quando saí pela primeira vez, uma centelha de esperança do Carnaval de rua do Rio, que se reduzia a uma dúzia de bandas e blocos resistentes, esses últimos já bem contaminados de uns bobos formalismos estruturais que deturpavam o caráter da manifestação que se devia definir pela espontaneidade: disputa de samba, desfiles intermináveis ao som de uma única música, camiseta etc. O espírito da brincadeira popular regrada tão somente pela disposição foliã confinava-se no velho Cordão, com seus seis, sete mil brincantes.

Hoje são duzentas, trezentas mil pessoas que nem propriamente compõem o desfile, mas que se apinham pelas ruas repletas de gente, simplesmente para se integrar no espírito coletivo da farra, da festa, da música, da galhofa. O Bola Preta tornou-se a celebração máxima e necessária da indentidade da cidade do Rio de Janeiro, do espírito da carioquice, que se traduz na brincadeira, na espontaneidade, na gozação, no jogo de cintura, no bate-papo. Ao verdadeiro carioca impõe-se o dever de peregrinar uma vez por ano ao santuário sagrado onde repousam as relíquias de uma cultura maravilhosa, protótipo de um país que nos propusemos historicamente a construir e que segue soterrado pelos escombros da ganância dos espoliadores de sempre. Por enquanto. Daquele altar sagrado e da imolação coletiva que sobre ele se oferece em honra de uma outra existência possível jorra a seiva que nutre as nossas esperanças.

Quem já presenciou ou sabe o que o Círio de Nazaré representa para um paraense entenderá perfeitamente a imagem que procuro construir. Muito mais que uma festa religiosa, acima e independentemente das variadíssimas formas e sentimentos em relação ao divino, a celebração coletiva da identidade de um povo é ela mesma sagrada. Por isso o paraense que não pode ir a Belém no segundo domingo de outubro sente-se um exilado. Por isso, esteja onde estiver, o paraense de escol dá seu jeito de tomar açaí, comer pato no tucupi. Sozinho ou, de preferência, encontrando outro paraense, vai encher a caveira, telefonar pros parentes, colocando logo cedo pra tocar um disco velho do Pinduca.

Assim se sente um verdadeiro carioca, de nascimento ou de coração, quando, por qualquer circunstância, se vê impedido de estar vagando perdidamente pelas ruas do centro do Rio no sábado de carnaval, o dia mais importante e mais carioca do ano, muito além de qualquer 20 de janeiro ou 1º de março. Assim compreendeu sempre meu velho Tio Osias, o maior carioca que conheço. E compreender hoje o velho me emociona e me comove muito além de qualquer distância.


O povo ama o Carnaval

Na base da autorização judicial, deu-se enfim o baile de rua da Terça-feira Gorda enchendo a pequenina rua de marchas, sambas, confetes e fantasias como, sinceramente, nunca vi e não imaginaria possível. Um encontro tão improvável como absolutamente real e necessário de todas as idades, todas as procedências, todas as condições. Velhinhos e crianças, pobres e ricos, o Centro e a Periferia se entupindo de música e serpentina, nostalgia e esperança. Quem viu, viu.

Tenho sempre aqui batido na tecla da incompatibilidade desta triste cidade com o espírito do Carnaval. Ela é aparentemente feita para os seus pretensos senhores desfilarem seus automóveis, construírem os bastiões onde encastelam sua ignorância soberba, para não serem molestados por essa desagradável e incômoda ocorrência chamada vida. Mas o povo desta cidade é um povo bom e generoso, que sofre demais por ver sua alma brasileira reiteradamente acabrunhada pelos iludidos da ordenada mudernidade capitalista.

Naquelas poucas horas cavadas a fórceps judicial em meio aos dias que por si só já deviam pertencer ao povo oprimido – e eu choro escrevendo isso – vi o Brasil latejar incontido dentro da carcaça de concreto e dinheiro. E através de um aleph improvável que imaginava tão distante destas plagas, vi, num átimo, passado, presente e futuro, o Rio de Janeiro e a Bahia, África e Amazônia, condensados num toque de Zé Pereira.

Minha gratidão eterna a todos os que embarcaram conosco neste sonho, ao Capitão Caverna Leo Gola, ao grande Marcão Gramegna, os colegas músicos e toda a família Borogodó. E especialissimamente a uma certa melindrosa ruiva que iluminava o céu com o seu sorriso tímido, em cuja cabecinha, carnavalesca como poucas, brotou e cresceu a disposição de contrariar a esperada expansão eterna da impossibilidade. A ela, meus sonhos, minhas esperanças, meus filhos. Minha vida.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Pra contrariar o chefe, K. Veirinha fundou o Bola Preta

Jota Efegê



Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: "Vamos formar um cordão!" E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: "Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!" Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.


À guisa de biografia


Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinah sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos 'carapicus' estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de 'influenza espanhola', da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: "Puxa, você parece uma caveira". À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: "Viva o K. Veirinha!" Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: "o Álvaro K. Veirinha".


K. Veirinha enfrenta o chefe Leal


Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: "Os grupos e cordões que perturbarem a ordem públcia terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei". Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o "chefão" temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um "maixético e rebolativo baile" (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.


Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) pederam levar à frente o folionico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui. [*]

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete". Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.


Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas "farras" dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: "Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta".

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.


(in Figuras e coisas do Carnaval carioca, Rio deJaneiro, Funarte, 1982, pp 18-20.Publicado originalmente em O Jornal, edição de 27 de janeiro de 1963.)

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[*] Atualmente, a sede do glorioso Cordão da Bola Preta, onde tantas vezes sambei "até o sol raiar", está penhorada judicialmente e já foi levada a leilão algumas vezes sem sucesso, por dívidas de condomínio e IPTU. O poder público, como sempre, inimigo do povo. O Bola tem hoje só cerca de setenta sócios, contra mais de mil há quinze anos atrás. Que tal uma campanha de associação em massa? O que me dizes, Edu Goldenberg? O que me dizes, Paulo Eduardo Neves? O que me dizes, Luis Antonio Simas? Vamos encarar? Se cada uma das 200 mil pessoas que segue o Cordão no sábado de carnaval doasse R$ 10,00, a dívida estaria paga!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Negação do Carnaval

Não põe corda no meu bloco
nem vem com teu carro-chefe
não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
que a gente não precisa
que organizem nosso Carnaval

(Plataforma, samba de João Bosco e Aldir Blanc)

Semana passada publiquei aqui um excelente texto do grande Plínio Marcos, conhecedor mais do que autorizado das coisas do profícuo carnaval que se fazia por estas cada vez mais desalentadas plagas, assim como de tantas coisas mais dos nossos pouco visíveis subterrâneos que ele tão apropriadamente batizou de “quebradas do mundaréu”. Pois bem, hoje completam-se exatos trinta anos de publicação do artigo, e é estarrecedor perceber sua brutal atualidade, numa cidade onde absolutamente nada se conserva, em que tudo está em permanente estado de transição. E, normalmente, para pior.

A genialidade do dramaturgo santista percebe e mostra com a força de sua verve o que toda a teoria não é capaz de tão direta, tão claramente exprimir. O dedo do poder (político, econômico) tende sempre a destruir as manifestações mais genuínas e mais expressivas do povo, essa entidade mítica onde se encontram e se articulam os diversos indivíduos e a coletividade. E isso por uma razão bem simples. Essa expressão da subjetividade popular pressupõe espontaneidade, diversidade, singularidade, integração. E essa outra instância de mediação entre os indivíduos chamada “poder” (ou “sistema”, se preferirem) baseia-se opostamente em planejamento, planificação, homogeneização, formalização, separação. No Brasil, desde o Estado Novo, percebeu-se claramente que para conter os demônios incontroláveis e transformadores que se espalham todas as vezes que o povo manifesta livremente sua alma criadora, é muito mais fácil, mais eficaz e menos traumático organizar do que reprimir. E assim se fez, reiterada e seguidamente com as mais pujantes formas expressivas do carnaval brasileiro, sendo o exemplo das escolas de samba o mais evidente apenas.

Essa promiscuidade destrutiva das expressões populares com o poder constituído não é só obra do apetite voraz do sistema, esse buraco-negro que tudo quer tragar para sua órbita inarredável, tentando prender toda complexidade e toda espontaneidade à previsibilidade de suas categoriazinhas determinadas e determináveis de antemão. É fruto também de um desejo e uma busca, no mais das vezes muito legítimos, pelo reconhecimento do valor destas manifestações perante as estruturas “oficiais”, o que se pode interpretar como uma tentativa de fazer valer para fora dos ambientes originários os mesmos padrões de valoração, de intermediação, de sociabilidade ali encontráveis. Traduzindo com exemplo: no ambiente da escola o bamba é aquele que melhor dança o samba, que é imbatível no verso de improviso, que domina com maestria os diversos instrumentos etc. O valor que lhe é atribuído tem uma conotação meritória, muito diferente das atribuições de valores na sociedade “civil”, determinadas por uma infindável série de pré-definições alheias e anteriores ao indivíduo propriamente: onde nasceu, de qual a família, qual a cor da pele etc. Isso, claro, porque é nesta dimensão “civil” que se travam as batalhas do dia-a-dia, a luta pela sobrevivência tanto material quanto simbólica e é nela que se experimenta a violência de um sistema informado pela desigualdade, apartação, apropriação. O bamba que é reconhecido e tem lugar de destaque no seio da sua comunidade pelo seu valor, quer que esse valor lhe sirva minimamente para reconhecimento também na sociedade “civil”. Nem que seja por três dias no ano. E nessa busca tão legítima quanto ingênua, ele, normalmente, se estrepa: perde o que tem e não alcança o que almeja.

Por isso lanço aqui, na contra-mão do que postula meu amigo Paulo Eduardo Neves, a campanha: prefeitura do Rio, governantes em geral, peloamordedeus, fiquem bem longe do Bola Preta, deixem o velho Codão em paz!!! Eu sei que minhas amigas vão reclamar e dizer que só digo isso porque não sou mulher, mas eu afirmo que sei bem o que vocês sofrem. Ninguém precisa de sinalização! Ninguém precisa de banheiro! O Cordão sobrevive assim há noventa anos, graças aos butiquins, matinhos, carros estacionados e toda espécie de peripécias e artimanhas. E afirmo, mais uma vez, com a autoridade de dezoito carnavais, com as cicatrizes deixadas pelos tamancos, com a moral de quem já passou mal um sem número de vezes apertado em fantasias improváveis: há que se sofrer! Carnaval é, acima de qualquer coisa, sacrifício.



"O que não tem, até o que tem lhe será tirado." (Mt 25, 28-29)


“São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste.” Pois nisso envelheceu o texto do nosso guerreiro. Porque os bailes nos clubes, de matinées e soirées monumentais que bem conheci, também não há mais. Dos quatro mais tradionais grandes clubes, sei que Corinthians, Palmeiras e Portuguesa já não fazem noites de Carnaval, não sei o Juventus. Nem nos pequenos clubes e casas tradicionais: Monte Líbano, Clube Homs, Casa de Portugal. Nem nas gafieiras, só talvez em pouquíssimos e renitentes salões de bairro. Também uma ou outra “danceteria”, mas dá arrepios até imaginar o que se ouve e vê por ali, pela amostra que tive ano passado na decadentíssima matinée palmeirense em que tentei levar minha filha e não suportamos quinze minutos. Sobram iniciativas isoladas dos Sesc's e, modéstia às favas, o Ó do Borogodó.

Por essas e outras, meus caros, é que o Ó do Borogodó, num sobre-esforço quase acima das suas forças (que eu sei), num desapego quase insano aos aspectos propriamente comerciais da história, resolveu bancar o baile da Terça-feira Gorda na rua, absolutamente de graça, com palco, orquestra, cantores, som, iluminação tudo bancado pelo bar graças ao auxílio necessário, mas insuficiente, da Cerveja Itaipava. Mesmo com todo o esforço, com todo o desprendimento (e por que não dizer, com todo prejuízo) , acreditem, senhores, a nobre Companhia de Engenharia de Tráfego – C.E.T. não quer deixar! Aliando a desculpa esfarrapada da “organização” do fluxo de veículos (esses, sim, os únicos e verdadeiros donos desta pobre cidade), com a repressão indisfarçada, imotivada, árbitrária e proposital, o poder público desta cambaleante metrópole opõe-se a colocar dois ou três cavaletes para fechar por algumas horas, uma ruela com meia dúzia de casas e um cemitério, numa Terça de Carnaval em que até a Av. Paulista vira um cemitério. Não pode. Não vai fazer. Não querem. Nem pagando a esdrúxula e exorbitante taxa que é cobrada pela referida “companhia”. A frase da engenheira (risos urinantes) que veio fazer a “inspeção técnica” a partir do pedido feito pala casa cunhou a seguinte pérola, que vou enquadrar e pendurar na parede do quarto, ad perpetuam rei memoriam, para toda vez que eu sentir começar a arrefecer meu ânimo de mudar este estado de coisas que quer tomar este país: “Este ano ainda tem uns bloquinhos por aí que a prefeitura autorizou. Mas no ano que vem a gente acaba com tudo.”

Aí eu fico a cismar, ó Simas, o que será desses que se arvoram em donos dos caminhos? O que lhes acontecerá? Poderão impunemente desafiar, caçoar, troçar do Grande Senhor? Passarão? Passarão???

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Socialismo carioca

Alguém melhor antes de mim já disse que o carnaval é um tempo de inversões. É certo que a idéia de inversão pode ter uma série de possibilidades, de virar de ponta-cabeça, de passar uma imagem do positivo para o negativo, de alterar a ordem etc. Confesso que me dá calafrios imaginar no que daria o Brasil de hoje se simplesmente a gente pegasse essa barafunda (no mau sentido) e saísse por aí “invertendo” aleatoriamente. Mas não estou pra teorias e, ainda bem, o carnaval não tem nada de aleatório; tem, na verdade, uma Razão superior que o guia, ainda que não seja essa razãozinha mesquinha e impertigada que nos querem fazer descer pela goela há uns quinhentos anos. É a Razão coletiva de um povo, de um grande povo, norteada pelo encontro e pela possibilidade, pela entrega e pelo encanto. Capitaneada, é claro, pelo Senhor de todos os caminhos.

O grande Luiz Antonio Simas, o maior amigo que ainda não conheci, escreveu dia desses no seu absolutamente indispensável Histórias do Brasil sobre a bobagem e inutilidade de se colocar nas ruas do Rio as tropas, o Exército, a força (risos) nacional de segurança (mais risos - notem como ando goldenbergueano!), o diabo que os carregue. Advogava ali o velho historiador que a solução para garantir a paz era colocar na rua permanentemente o Cordão da Bola Preta. E eu posso testemunhar, com a autoridade de dezoito carnavais, que em meio a multidão de gente espremida e ébria NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM vi sequer um tapa na cara. Vi, ao contrário, encoxada na mulher do próximo, que normalmente daria defunto, ser resolvida pelo “proprietário da mercadoria” com a seguinte frase: “Aê, merrmão, aqui no nosso buteco a coxinha ainda não tá liberada. Mas se quiser chegar na cerveja...” Eu juro. O maridão meteu a mão na bolsa, sacou duma lata gelada e saiu abraçado bebendo com o tirador de casquinha.

Como essas eu já andei contando várias, por aqui e pelos butiquins menos virtuais. Mas nenhuma se equiparou, verdadeiramente, à mais bem sucedida ação revolucionária de abolição do modo capitalista de produção, de dar inveja a qualquer Fidel ou Ho Chi Min. Vou contar, saldando, aliás, uma dívida ancestral.

Final de desfile do Bola, coisa de meio-dia e meia, uma hora da tarde (vejam vocês...). O ano devia ser 1991, ou 92. Nesse tempo da minha mocidade, o glorioso Cordão entrava ainda, com suas sete ou oito mil pessoas, pela Rua da Carioca, onde se dava o melhor da festa, até “acabar” na Praça Tiradentes. Acabar vai assim, entre aspas, porque era a partir daí que a coisa realmente começava a desandar. Desobrigados todos de suas sacras obrigações de folião, a bebedeira comia solta na Praça e nos seus arredores. Minto. Comia solta em todo o trecho do desfile, porque mesmo antes do fim iam parando uns aqui e outros ali e depois da “apoteose” os que vinham voltando se juntavam e assim caminhava. Pois bem. Nesse ano, entramos eu e um amigo (há testemunhas! Há testemunhas!) num buteco apinhado de gente, na esquina de Carioca com a Praça. A coisa estava caótica. O português, descostumado com a multidão em seu estabelecimento, que só enchia uma vez por ano, não conseguia minimamente dar operacionalidade à distribuição dos víveres imprescindíveis para a manutenção das tropas . E o pior é que não havia muitas opções pra se beber chope por ali (O Bar Luís, por exemplo, não abria em dia de Bola, vejam vocês...). Levava tanto tempo conseguir um tulipinha, que pedíamos os para nós dois chopes em números pares: quatro, seis, oito, conforme ia aumentando o intervalo entre cada passada do garçom. E todo vez que chegava a preciosa seiva, meu amigo se punha a gritar, bem embaixo do escudo do Vasco, no melhor estilo Sucupira: “Morra Eurico Miranda, filho de uma égua!”

Aí, meus amigos, deu-se o inacreditável. Num determinado momento, o português, bandeja de chope em riste, se esgoelava chamando o garçom que, a léguas de distância, não ouviria nem que sua tuberculose já estivesse em grau de hemoptise. Foi quando um cidadão, encastelado no balcão, tomou a bandeja do galego e berrou pro cara que estava na mesa de trás: “desova na sete!”. E o que se viu foi o buteco virar um pequeno Maracanã, a bandeja transformada numa daquelas bandeiras que se abrem deitadas na arquibancada, passeando pelo alto, de mão em mão, a coletividade automática e espontaneamente atendendo ao imperativo superior, até ser recebida na mesa certa com vibração maior do que gol aos 40 do segundo tempo! E pra quê? Percebendo que esse sistema de distribuição seria infinitamente mais efetivo do que os atônitos dois garçons a atender uma orda de bebedores insaciáveis, as bandejas passaram a ser sequestradas uma após a outra. Como o saloio naturalmente protestasse que não tinha como controlar o que era servido pra quem, um gordo suado imediatamente passou pro lado de dentro do balcão, ocupando o setor das comandas e organizando as “redes” de distribuição, que passaram a funcionar na base do adiantado. Atônito, mas visivelmente satisfeito com o grau de eficiência do sistema implantado, o nobre vascaíno nem teve forças pra protestar quando uma simpática senhora de lenço na cabeça (eu poderia dizer que havia bobes, mas a memória me trai e não quero correr o risco da mínima falta com a absoluta e estrita verdade dos fatos) assumiu o caixa, recebendo, fazendo troco.

Isso, meus caros, em questão de minutos. O português encostou-se na boqueta que dava pra cozinha e dali passou a tudo observar rigorosamente calado. Minto. Vi-o umas duas vezes franzindo os bigodes e abanando a mão para a filha desesperada que virava e mexia aparecia na porta da cozinha: “deixa, ó pá!”. Um dos garçons - eu posso garantir por essa terra que me há de comer! - encostou a uns dois metros de onde a gente estava e já livre da gravatinha borboleta e dos pudores servis aceitava as tulipas que a rapaziada teimava em lhe pagar. E assim bebeu-se por uma boa parte da tarde.

Respondam, queridos: é ou não é o socialismo?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

O Carnaval dos cordões

Plínio Marcos


A tradição canavalesca de São Paulo era o cordão. Havia algumas escolas de samba, porém (e sempre tem um porém), os bambas, a pesada eram os cordões. Camisa Verde e Branco (branco mesmo), Vai-Vai, Paulistano da Glória, Campos Elíseos, Som de Cristal eram todos famosos cordões. E o cordão paulista tinha batida diferente das escolas de samba, tinha outras figuras e outras mumunhas. Eu disse "tinha". Porque, que eu saiba, não existe mais nenhum cordão em São Paulo. Os que não acabaram de vez se transformaram em escolas de samba. Como é o caso do Vai-Vai e do Camisa Verde e Branco, que foram os que mais resistiram, antes de se transformarem em escolas de samba. E o fim dos cordões, sem dúvida nenhuma, se deve ao elitismo, ao paternismo das autoridades que, quando resolvem incrementar algumas manifestações espontaneas do povo, mesmo quando estão bem intencionadas, só atrapalham. Isso porque as autoridades, sempre tão distantes das bases, tomam suas medidas dentro dos gabinetes, escutando acessores que geralmente se preocupam com o brilhareco que resulte em algum lucro e nunca nos interesses da coletividade.

No caso do samba de São Paulo, não deu outra coisa. O Prefeito Faria Lima resolveu, com a melhor das intenções, oficializar o Carnaval de São Paulo. Mas deve ter consultado gente que sempre achou que nesta cidade não havia samba, nem sambistas. E essa gente, sem vacilar, desconhecendo totalmente o que é Carnaval, desconhecendo que carnaval não se resume apenas em desfiles, nem em escolas de samba, que desfile e escolas de samba são um aspecto do carnaval, que existem vários outros aspéctos que também devem ser considerados, essa gente estava interessada na cascata que podia fazer em torno da oficialização do Carnaval e não na preservação dos costumes carnavalescos do povo desta cidade. E então, sem nenhuma cerimônia, fizeram a presepada: oficializaram o Carnaval. Mas, na lei, ficou claro que o único evento carnavalesco que a Prefeitura se via obrigada a realizar era o desfile das escolas de samba. Resultado, todo incentivo da Prefeitura para as escolas de samba e nenhum para os cordões que, diante da indiferença das autoridades, foram se extinguindo ou virando escolas de samba, puxadas aos defeitos das escolas do Rio de Janeiro (é mais fácil copiar defeito que virtude) e se desvinculando totalmente das raízes culturais de São Paulo.O samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou no Rio de Janeiro a partir da casa das "tias". O samba paulista é mais puxado ao batuque, ao samba de trabalho. Do toco, durão. O samba paulista vem das fazendas de café. O crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé. E aqui, como no Rio de Janeiro, a polícia perseguia o samba e os sambistas. No Rio de Janeiro, os pagodeiros subiam o morro e a polícia se acanhava, e aí, não havia remandiola. O samba era solto, batido na mão, espalhado pelo terreiro. Aqui, o sambista se recolhia nos porões e lá puxava o samba, mas, naturalmente, não era a mesma coisa. Um samba espalhado debaixo de um céu cheio de estrelas e de luar e um samba espremido em porões, nos quais crioulo de mais de um metro e setenta tinha que mostrar o que sabia todo dobrado, pra não bater com a testa nas vigas. E quando o pagode esquentava, era tanta poeira que subia, que só era possível saber que estava havendo samba pelo ronco da cuíca e pelo gemido do cavaquinho, porque ver, não se via ninguém.

São muitos os grandes sambistas de São Paulo: Vassourinha (Olha aí, carnavalescos de escolas de samba, que andam com mania de enredo com vida de artista: esse foi gente grande e de muita embaixada no rádio), Dionísio Camisa Verde, Marmelada, Jamburá, Feijó, Pato Nágua, Sinval, Inocêncio Mulata, Carlão do Peruche, Nenê da Vila Matilde, Pé Rachado, Zézinho do Morro da Casa Verde, Geraldão da Barra Funda, Chiclete, Zeca da Casa Verde, Toniquinho, Nego Braço, Zoinho, Dona Eunice, Sinhá, Donata, Tudo gente que mantinha o samba na rua na época em que a polícia acabava samba na base do chanfralho. Tudo gente de valor provado no meio das batalhas. Tudo gente que saía nos cordões pelo prazer de sair, por gostar de samba, por querer sambar. No centro da cidade, muitas vezes, um cordão que ía encontrava um cordão que vinha. Então, era coisa pra valente. Ninguém recuava. Os cordões se cruzavam. Tinha um ritual todo cheio de parangolé. O baliza de pau de um cordão protegia a porta-estandarte do outro cordão. Os estandartes (ou bandeiras) eram trocados com muita gentileza e muito respeito. Depois de um tempo, se destrocavam os estandartes (ou bandeiras) e aí o pau comia. Navalha, tamanco, porrete entravam na fita pra bagunçar o pagode.

Pato Nágua foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano. Amanheceu boiando numa lagoa, comido de peixe e de bala. Dizem que foi a primeira vítima do Esquadrão da Morte. Ninguém sabe direito. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga à tardinha, na hora da Ave-Maria, e logo correu pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. E por todas as quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povão chorou a morte do sambista Pato Nágua. E o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo, chorou por todos num bonito samba chamado Silêncio no Bexiga.

O Largo da Banana era o lugar onde os caminhões que vinham do interior encostavam pra descarregar. Ali se juntava a curriola. Enquanto não vinha caminhão se armava o samba duro. Se jogava a tiririca:

É tumba, moleque, é tumba
é tumba pra derrubar
tiririca, faca de ponta
capoeira vai te pegar
Dona Rita do Tabuleiro
quem derrubou meu companheiro
Abre a roda, minha gente
que comigo é diferente

E só parava na roda quem se garantia. E o Inocêncio Mulata (hoje presidente do Camisa Verde e Branco da Barra Funda) sabia tudo. Tudo e mais alguma coisa. E no Carnaval, puxava no surdão um famoso trio de couro. Ele no surdão, o Feijó na caixa de guerra e o Zoinha no tamborim. Paravam num boteco qualquer e começavam a zoar. Ia juntando gente, juntando gente e aí o rio saía pela Barra Funda, com uns duzentos sambando atrás. Na Praça Marechal, já eram dois mil, na Glete, cinco mil. Aí, era zorra, zorra total, até a polícia chegar. Foi nesse trio de couro que o Inocêncio ganhou o apelido de Mulata. Logo ele, que não é de fazer careta pra cego, resolveu aprontar pro Feijó, que não podia ver rabo de saia. O Inocêncio pegou um vestido da Dona Sinhá, meteu um turbante, se embonecou e ficou na moita. O Feijó e o Zoinha, que estavam no boteco esperando o companheiro de trio, foram tomando todas. Quando já estavam bem bebuns, e achando que o Inocêncio não viria mais, ele se apresentou vestido de mulher. Fez sucesso pro Feijó, que achou aquilo uma tremenda mulata e foi logo pagando cerveja. Mais encantado ainda ficou o Feijó quando aquela mulata pegou no surdo e mandou ver. O trio saiu. O Feijó todo preocupado com a mulata e alimentando ela com cerveja até a Glete. Aí, o Feijó resolveu partir com tudo. Se entortou. O Inocêncio tirou o turbante e se apresentou. O patuá do Feijó entortou. Mas o Inocêncio ganhou pra sempre o apelido de Mulata.

Mas a guerra se avacalhou. Não existe mais trio de couro, nem bloco de sujo, nem vai-quem-quer. Essas manifestações espontâneas do povo, que sempre a polícia tentou acabar sem conseguir, acabaram graças às promoções carnavalescas da Prefeitura. No lugar dessas coisas todas, a Prefeitura meteu o Trio Elétrico. A própria poluição sonora, que com guitarras elétricas e grandes aparelhos de som, esmagam, apagam qualquer instrumento de couro batido por um sambista. Alguns músicos defendem essa jeringonça como mercado de trabalho, mas esquecem que um toca-fitas e uma Kombi fazem o mesmo efeito que esse trio elétrico. E esquecem que falta mercado de trabalho porque muitos bailes de Carnaval em São Paulo são animados por toca-fitas e que a própria Prefeitura promove um bailão pra quarenta mil pessoas, com toca-fitas.

São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste. Porque o Carnaval sempre serviu pras manifestações espontâneas do povo. E tudo agora vai se resumindo num espetáculo pra atrair turista. Feito no gosto dos turistas e avaliado pelos padrões culturais das elites. E isso dói. Porque um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.

(Fonte: Folha de S. Paulo, 13 de fevereiro de 1977)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

A existência possível

PARTE I

Não sei se efetivamente é mais assombrosa a existência ou a consciência que dela podemos tomar. Porque é fato que o nada permanece, se pensarmos bem, indiscutivelmente mais plausível. Mas não bastasse o contra-senso primeiro que é existir o universo em geral e as coisas diversas em particular, existimos também nós que podemos não só fazer esta constatação, mas ainda especulativamente negá-la. Diferentemente da infinita maioria dos demais entes que conosco dividem essa aventura existencial, que simplesmente existem e pronto. Ou, por outro modo, são massacrados e oprimidos por sua existência, em si mesma acachapante e invencível.


Cinismo, conservadorismo, criticismo

Não nós, por certo. A consciência da existência e, acima de tudo, a capacidade de negá-la, ainda que conceitualmente, nos dá como que uma vitória sobre a existência dada, que não tem sobre nós, portanto, o mesmo poder absoluto e avassalador que tem sobre os demais entes. E poder negar conceitualmente a existência ela mesma nos permite da mesma sorte negar uma certa existência dada (vale dizer, uma determinada forma da existência), que para nós igualmente passa a estar destituída desse estatuto de necessidade invencível. É este o ponto no qual passamos de uma consciência meramente perceptiva, constatadora, para uma consciência conceitual. A esse nível da consciência posso chamar crítico, eis que se caracteriza pela faculdade de conceber, para além da existência dada, uma outra existência possível. Essa faculdade passa necessariamente pela admissão de que uma outra existência possível assim concebida tem um estatuto de realidade comparável ao da forma de existência apreendida a partir das circunstâncias meramente constatadas. Trata-se, pois, de uma operação duplamente direcionada: destituir a forma percebida da existência da sua condição de forma por excelência da realidade e atribuir às formas concebidas da existência possível um estatuto de realidade além da mera utopia ou disposição programática. Só com um comparável estatuto de realidade essa existência possível pode, por um lado, estabelecer uma negação válida das formas presentemente dadas e, por outro, ser ela própria negada por estas últimas.

Este ponto é de fundamental importância. Porque se atribuirmos qualquer tipo de proeminência real (ou racional) das formas dadas da existência tenderemos inexoravelmente a crer ou (positivamente) que tudo não passa de uma questão de adaptação e reforma, ou (negativamente) que tudo está irremediavelmente perdido. É nesse ponto que começamos a perder o jogo para a existência dada, que mergulhamos no oceano informe e passivo dos entes inconscientes; que a razão abdica de seu efetivo poder transformador. Aí, se a consciência constata que a realidade que vivemos é repleta de males de todas as ordens, ou (negativamente) estes males são intrínsecos à estrutura da existência dada e nada poderemos fazer a respeito (a não ser salvar-se cada um por si mesmo), ou (positivamente) representam uma deformação acidental da forma presente da existência que circunstancialmente a aparta de sua forma “verdadeira” ou ideal. Daí, estas deformações podem ser revertidas através de uma espécie de ortopraxia, de uma correção de desvios. A primeira forma de acomodação da consciência, conduz, pois, ao cinismo. A segunda, que passa a nos interessar, ao conservadorismo.

O conservador, portanto, não é por definição o inimigo do progresso social, o defensor das mazelas do mundo, o beneficiário consciente e descarado de tudo o que é negativo na forma da existência dada, como freqüentemente queremos fazer crer. Esse é o cínico. O conservador é aquele que acredita que essas negatividades presentes na forma apreendida da existência são fruto de uma deformação da forma ideal da realidade (ou seja, da forma “verdadeira”). O que percebemos existente, portanto, é a realidade. Essa realidade possui uma forma ótima, ideal, que aqui chamamos verdadeira. As formas presentemente dadas apartam-se desse modelo ideal no qual toda negatividade desapareceria, cabendo à consciência descobrir essas deformações e os meios eficazes de corrigí-las. O pensamento conservador, portanto, não é cínico nem amoral. É uma forma válida (ainda que limitada) de consciência que apreende os males encontráveis na forma presentemente dada da existência como acidentais, não essenciais, corrigíveis e procura os meios eficazes de superação dessas mazelas. Não é por outro motivo que o pensamento conservador tende a adotar um discurso de eficiência administrativo-gerencial como forma de enfrentar os problemas do tempo presente, para ele contingenciais e não estruturais. A sua limitação advém, precisamente, de negar às formas possíveis da existência um estatuto de realidade/racionalidade, substituindo por uma forma “verdadeira”; vale dizer, o que separa a existência dada da existência verdadeira ou ideal é de uma natureza estritamente de forma, de conformação.

E eis porque esta forma válida de consciência, conforme frisamos, é limitada em sua capacidade de transformar a forma dada da existência. Porque de duas, uma: (1) ou não pode essa forma “verdadeira” ser estabelecida previamente senão segundo os parâmetros subjacentes às formas presentes da existência; ou (2) será estabelecida segundo parâmetros arbitrários “a priori”, sem compromisso com os dados da experiência e/ou históricos. No primeiro gênero situam-se as utopias políticas e seus consectários; no segundo, as utopias religiosas e quejandas. Num caso ou em outro, ao negar a tudo o que se situa no campo diáfano do não-ser o efetivo estatuto de realidade/racionalidade, a consciência conservadora, em sua manifestação religiosa ou política, está condenada ou a abdicar à conformação da forma dada da existência à forma verdadeira (situando-a, assim, extrinsecamente ao plano histórico, no “outro mundo”, paraíso, nirvana ou o que o valha) ou a trabalhar em abstrações ideais positivas a partir dos dados da forma presente de existência e baseado neles criar seu modelo de “forma verdadeira”. E em ambos os casos, como os adoradores do bezerro de ouro, o pensamento conservador prostra-se reverente à divindade das formas moldadas por suas próprias mãos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Sabores e saberes

Vejam lá, vocês, como hoje a gente não cessa de deparar, nas mais prosaicas situações, os paroxismos dessa gangrena que vai carcomendo a vida contemporânea. Bem, talvez seja um começo exagerado para o que me proponho tratar, mas gostei de como ficou a frase, e a gente tem sempre que de alguma forma recomeçar do que restou de uma paixão.

O fato é que estava eu há alguns minutos no Ponto Azul, aqui na esquina, saboreando um bifão à milaneza daqueles pingando óleo (só pra fazer gênero, Isaac querido) e tomando a minha meiota geladíssima (que eu só bebo lá, na verdade, por causa dela: detesto longuenéqui, latinha não se presta pra beber sentado e uma inteira costuma comprometer a seqüência da tarde) e estava a tv irremediavelmente ligada passando um comercial da coleção “Folha” da cozinha internacional.

Pausa, no melhor estilo goldenbergueano, para uma triste constatação. As pessoas, antigamente (leia-se, quando eu era moço), ainda costumavam ir ao bar pra prosear. Ia-se ao butiquim muito mais pra jogar conversa fora do que propriamente pra beber; só por isso, aliás, tinha sentido, por exemplo, tomar café fraco, requentado, com mais horas de vôo que piloto de Electra: um bom papo paga, de longe, qualquer gastrite. Mas hoje não há um estabelecimento sequer sob este céu onde o azul é mais azul e uma cruz de estrelas aponta o sul, da mais vagabunda birosca aos empertigadíssimos e abjetos drinking centers, que não tenha nele ligada uma maldita caixinha de fazer doido, e isso graças à invenção da maldita parabólica por Luís Grande e Barbeirinho do Jacarezinho. Essa invasão foi particularmente triste nos rincões do meu Brasil varonil, onde os homens se juntavam no bar, ao fim do dia de trabalho, ou no aguardo da madrugada para o mar, pra falar da vida, das mulheres, das histórias de assombração, do peixe que estava dando. Mas hoje, em 99% das espeluncas onde se entra, vêem-se seres passivos e atônitos, mudas criaturas de braços cruzados, massacradas pelo monturo que os sufoca e que dia a dia só faz aumentar. Se você puxa prosa, nem te ligo e ainda é capaz de fazerem cara feia. E sem conversa, meus amigos, adeus assombração, adeus aquele jeito tal de armar a rede, adeus receita do remédio pra curar o moleque que ficou tossindo em casa.

Mas não era nada disso que eu queria falar hoje. Eu queria era falar da propaganda estulta que sugere que você, mesmo sendo um néscio de pai e mão sobre quem tenha sido Clóvis ou São Luís, o piedoso, ainda que ignorando solenemente a existência de Robespièrre, Napoleão Bonaparte e Zinedine Zidane, a aquisição do exemplar “França” da laureada coleção o tornará incontinenti um grand chef capaz de preparar escargots divinos, ou um cocq au vin de fazer a Brigitte Bardot lhe cair de quatro (não é emocionante a minha erudição em culinária francesa?). Não é de admirar, meus caros, que a coleção em questão seja patrocinada por um dos jornalões que mais se esmera na promoção dessa mentalidadezinha que quer nos fazer crer que tudo é possível, desde que se tenha a “técnica”. Tudo está ao alcance do homem globalizado, mente aberta, leitor da Folha, com acesso à Internet, porque afinal essa coisinha bairrista é coisa dos órfãos do muro. Vocês cariocas, Edu, não estão sozinhos.

E tudo isso me veio à cabeça porque uma prima recém adquirida (a despeito do regime matrimonial de comunhão parcial, alguma incorporação sempre é possível), que anda a “morare” em Portugal, estava em casa por esses dias querendo me convencer que eu posso perfeitamente preparar um arroz de calamares à moda do Porto que ela aprendeu e executa com propalada competência. Mas eu sinceramente não acho possível. A comida seja talvez uma das mais inquebrantáveis formas de expressão de uma cultura. Quando nada mais resiste, cantos, histórias, técnicas de trabalho, os hábitos alimentares ainda perseveram enraizados nas zonas mais profundas da alma humana. Há que se ter vivência pra se preparar um prato. Como é que se pode fazer, meu Deus, um acarajé, sem ter se embriagado do cheiro das ladeiras crocantes do velho centro de Salvador? Sem ter chorado de saudade com um samba do Caymmi, ou sem ter dançado um ponto de Exu? Como se pode preparar uma feijoada sem ter sentido, quando criança, no rosto um carinho de mão negra calejada de trabalho e exalando tempero? Quem consegue fazer um tacacá, se nunca se espremeu embaixo de uma lona de barraca, misturados os cheiros da chuva, do tucupi, do camarão e do suor escorrendo pela testa? Como eu posso fazer um doce de mamão, sem saber de cor um poema de Cora Coralina, sem tê-la visto mexer o seu enorme tacho de cobre no fogão de lenha, na velha casa junto à ponte?

Ainda que tanto sangue portucalense nos corra nas veias, nem toda minha coleção do Eça, nem todo o Pessoa me farão suficientemente luso para que o meu arroz não cheire a simulacro! Adeus, calamares! Nem todos os meus discos do Pepino di Capri me ensinarão a fazer um macarrãozinho decente. Por isso, não me venham com essa de que os melhores sushimen de São Paulo são todos cearenses. No restaurante que eu freqüento, Shimizu San mal consegue dizer “boa noite” em português. Os nordestinos têm no geral notória competência para a culinária, valendo-se, entre outras coisas, de sua espetacularmente diversa experiência de olfato e paladar, numa terra de milhares de diferentes frutas, peixes, temperos. Mas é rigorosamente impossível a um não-japonês fazer um peixe como o do pequeno Sushi Guen. Cearenses, pernambucanos e paraibanos são, sim, insuperáveis pizzaiolos. Mas isso é só a confirmação da regra. Porque, aqui moídos, viram todos genuínos paulistanos. E pizza – pelo menos como a conheço - é a mais paulistana de todas as comidas.

Nunca consegui cozinhar com receita; sempre a intuição me guiou. Se fui mediano na juventude, então, a vida, o sofrimento, as lembranças têm acentuado os sabores que hoje consigo burilar. Perguntando há muitos anos a uma velha iabassê – tão bobo...- aprendi que a gente só sabe que o refogado está no ponto quando começa ter vontade de chorar. Por isso não consigo fazer doce: porque simplesmente não consigo me emocionar. E só sei fazer dignamente: baião-de-dois, rabada, dobradinha, peixada (ou moqueca), feijão, mocotó, ossobuco, língua, camarão com abóbora e carne assada. Posso no limite da honestidade arriscar um pato no tucupi, ou um sarapatel. Passando disso, é enganação. Mesmo que de enganação se possa, ainda, sobreviver.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Perambelemdo

Derny Thiago


Te procurei na Pariquis
Por onde eu passei não fui feliz
Te viram num bar na Pirajá –
ou Perebebuhy...?

Depois passei no Umarizal
Fui com tanta fé, mas me dei mal
Eu estava mesmo é na pior
Lá na Itororó

Aí lembrei que já te vi nas ruas de Icoaraci
Aguardando sinal na frente do Iguatemi
Dobrei a Humaitá, depois varei pela Timbó
Estou me sentindo tão só...

Imaginei você nas noites quentes lá da Marambaia
Ou curtindo o mar - que pena, Belém não tem praia!
Subi na contra-mão Mundurucus e Caripunas
Fui me perder no Jurunas!

Te procurei por todo o Cais
Na Tupinambás você não pára,
Menina, na Guanabara, no Maguari
Fiquei louco por ti


Com esta canção de estimação de autoria do grande Derny Thiago, excepcional compositor, magistral ser humano, meu irmão para sempre, aqui rebatizada e adaptada provisoriamente à sua revelia (se você não gostar eu mudo...), o Só dói inaugura o quarto ano da série com uma homenagem imensamente saudosa à Minha Morena, Santa Maria de Belém do Grão Pará, esta jovem senhora a completar 391 anos de fogosa existência, e a todos os queridos amigos que ela pôs em meu caminho, pelos quais choro e canto todos os dias derramadas saudades.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Ano Novo

Chico Buarque de Hollanda


O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo

Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo

A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar

E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

No tempo dos quintais

Sivuca e Paulinho Tapajós


Era uma vez um tempo de pardais
De verde nos quintais
Faz muito tempo atrás
Quando ainda havia fadas...
No bonde havia um anjo pra guiar
Outro pra dar lugar
Pra quem chegar sentar
De duvidar, de admirar...

Havia frutos num pomar qualquer
De se tirar do pé
No tempo em que os casais
Podiam mais namorar
Nos lampiões de gás
Sem os ladrões atrás
Tempo em que o medo se chamou jamais!

Veio um marquês de uma terra já perdida
E era uma vez se fez dono da vida
Mandou buscar cem dúzias de avenidas
Pra expulsar de vez as margaridas
Por não ter filhos (talvez por nem gostar...)
Ou talvez por mania de mandar!

Só sei que enquanto houver os corações
Nem mesmo mil ladrões
Podem roubar canções
E deixa estar que há de voltar
O tempo dos pardais
De verde nos quintais
Tempo em que o medo se chamou jamais...


Em tributo ao maestro paraibano Severino Dias
de Oliveira, o imortal Sivuca, perda irreparável
para a música brasileira

sábado, 16 de dezembro de 2006

O pomar e o arroio *


Quem pôde ver a centelha
Luzir em outro dezembro
Esperança em fatiota vermelha
Teimosa ainda a brilhar
Sobre a lapa onde bruxuleava
A chama de Arroyo e Pomar?

Qual solo poderá recusar
Em resistências pudendas
Enfim se deixar fecundar
De dor tornada em apoio
Se transbordou para sempre
Um tão frutuoso arroio?

Qual fome não se sacia
Dos frutos que persistem
A despeito da vil covardia
Obstinadamente em brotar
Sob a sombra benfazeja
De um tão torrentoso pomar?

Da seiva tenaz do Araguaia
Quem poderia contar
Que tão desprezível laia
Gerasse o inominável joio
Entre o trigo mais bem cevado
Pra trair Pomar e Arroyo?

Qual infâmia deterá o Rio
Imenso de pororocas caudalosas
As margens opressoras a fio
Dia e noite a solapar
Amazonas de leito inundado
Do sangue de Arroyo e Pomar?


*Em honra aos heróis do povo brasileiro
Ângelo Arroyo e Pedro Pomar
nos 30 anos da Chacina da Lapa


terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Desencontro marcado


Por onde andará o que de mim
me despedi?
O que será daquele que disse sim
quando eu disse não?

Nosso impossível reencontro:
Julgamento definitivo
Sentença imediata
de aniquilação

O desencontro marcado
É o que de tudo nos salva
o que não foi

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Voltando o troco - Parte final

Dr. Sebastião ia chegando com o carrão importado, vidros “filmados”, e já no que contornou a rotatória viu a muvuca na porta do condomínio, o mais moderno daquelas bandas de Deltaville XIV:

-Vai lá, Djalma, ver que perereco é esse, que eu tou atrasado pra teleconferência.

O negrão Djalma voltou branco. A confusão era imensa, uma montanha de gente querendo entrar, a segurança segurando, a coisa já estava no nível do bate-boca e os ânimos se esquentando.

- Dotô, o negócio tá feio. Tá lá aquele homem da Tv, o Celio Burroumano, ele tá aprontando o maior banzé. Eu não queria dizer, não, mas eles querem falar é com o Sinhô...

-Tá maluco, Djalma? O que é que esses caras vão querer comigo? Sou um empresário de respeito, ora...

- Sei não, dotô, mas achava melhor a gente voltar só mais tarde.

- Que qué isso, ô Djalma? Não vou entrar na minha casa, agora? Sem chance, meu camarada. Pode pôr a geringonça pra acelerar.

O resignado Djalma fez o que o patrão mandou. E até que eles entraram sem maiores problemas, que o vidro preto não deixava ver dentro nem se tivesse pegando fogo. Mas foi pisar dentro de casa que o Dr. Sebastião não teve mesmo mais sossego. Ligava síndico, ligava vizinho, ligava repórter. Até aquele vereador que lhe havia quebrado o galho no episódio de uns terreninhos invadidos ali na área da sua jurisdição telefonou pra pedir que ele atendesse o tal apresentador. “Afinal, o senhor sabe, o homem agora é o deputado mais votado. E do meu partido! O senhor entende que a gente tem alguns compromissos...” Não teve jeito. Ficou acertado que seria permitida a sua entrada acompanhado de dois clientes queixosos do tratamento que vinham obtendo da Bica D'Água Seguros. E o câmera, naturalmente. Só pra dialogar, ninguém ali queria confusão, que afinal de contas é conversando que a gente se entende. E assim foi feito, ao vivo, diante de milhares e milhares de espectadores ferrados na audiência.

- Seu Jonahtan, qual a reclamação que o senhor tem a dirigir contra a empresa dirigida aí pelo Seu Sebatião?

- Olha, Seu Céllio, o senhor sabe como funciona esse negócio, num sabe? Tem que ser na base da confiança. Ou então não dá. Igual médico, padre, garçom de butiquim...

- Mas, afinal, Seu Jonahtan, o telespectador quer saber o que está havendo na realidade.

- Olha, no início, mil maravilhas. A gente pagava a mensalidade e adeus preocupações, cervejinha no butiquim até meia-noite, portão sem cadeado, carro parado de janela aberta. O cachorro morreu de velhinho e eu nem quis outro, que as meninas já tão grandes e o senhor sabe o que é chegar em casa meia-noite com umas três além da faixa de contenção e dar com aqueles olhos pidões clamando por uma voltinha pra aliviar as necessidades? Até a patroa andava mais relaxada, ficava no carteado na casa da vizinha, nem aparecia mais no Vira Três pra me resgatar. Até o dia em que a minha sogra foi roubada na esquina de casa. Preencheu no site o formulário de reclamação. Três vezes. No telefone, após meia hora, disque dois, disque nove, disque quatro, desistiu. Quis fazer a reclamação pessoalmente, mas em nenhum lugar descobria o endereço da sede da empresa.

- Seu Jonahtan, o senhor estava em dia com o pagamento das suas mensalidades?

- Mais que em dia, seu Célio, a gente pagava até adiantado, que isso aí pra gente era mais sagrado que qualquer coisa. Tenho três filhas moças, Deus o livre! Só uma vez a gente ficou uns mesinhos no atraso, naquele ano que eu perdi o emprego, mais foi a coisa normalizar que a gente não deixou de honrar uma mensalidadezinha. Ando até com o boleto pago na carteira, que é pra qualquer eventualidade.

- O senhor tem alguma coisa a dizer S. Sebastião?

- Olha, eu não posso acompanhar pessoalmente tudo o que se passa no atendimento aos nossos clientes, mas tenho certeza que o problema aí do cidadão deve estar relacionado a uma sobrecarga dos nossos operadores, que pode ser resolvida muito facilmente. Eu pessoalmente vou encaminhar o caso dele.

- Mas e quanto à sogra assaltada?

- Olha, seu deputado, tenho certeza absoluta que deve estar havendo algum engano. Na nossa área a cobertura é total, não existem pontos cegos. Não tem roubo na nossa jurisdição. Mas, assim mesmo, como o caso é especial, pelo trabalho todo que o amizade aí teve com o caso, eu mesmo já ordenarei o ressarcimento imediato de todos os prejuízos declarados e vou verificar o que aconteceu no dia do incidente.

- Está bem pro Senhor?

- Se é assim igual ao que ele tá falando...

- Estando bom para as duas partes, Célio Burroumano pro Jornal Regional.

Mas, contrariamente ao que na hora imaginara, tudo o que não ficou foi bom pro lado do nosso segurador popular. Aquele caso morreu ali mesmo. Sebastião apurou que a desgraçada da velha foi roubada mesmo uma rua pra baixo da linha delimitadora da área de cobertura, que é que ele podia fazer? Mas pra evitar essa gritaria na porta de casa, essa algazarra que o infeliz do apresentador fazia, achou melhor não discutir e pagar o preço da tranqüilidade. Mas qual o quê... Dali pra frente foi um tal de reclamação no rádio, na tevê, o tal do Burroumano marcando em cima que até o vereador se aborreceu (que afinal, devia satisfação também aos seus clientes...), carta pro jornal. Uma delas começava assim: “Eu e minha esposa, cidadãos de bem e pagadores dos nossos impostos, estamos indignados com o tratamento dado pela seguradora Bica D'Água...” Um reclamava do site, o outro, do telefone. Até ação na justiça teve pra obrigar o Tião a se responsabilizar pelos sinistros que não estavam no contrato, cliente seqüestrado fora da jurisdição, vê se pode? As “otoridades” assustadas com a intranqüilidade que começava a se instaurar, baixaram pro malandro uma resolução dizendo que seqüestro relâmpago na área tinha que estar na cobertura. Mas seqüestro normal, dentro e fora, só pra quem tivesse o plano antigo. E a mensalidade? Tinha que ver direito esses reajustes...

A situação do Bica D'Água, malandro perigoso daquele pedaço da antiga vila operária, hoje playground dos especuladores imobiliários, dali pra frente foi só ladeira abaixo: as normatizações todas, os sinistros falsos, o percentual no negócio que ele teve de ceder pro vereador, o outro pro apresentador-deputado. Até concorrência começou a pintar, e ele já não dava conta de zelar pela fidelidade de todos os seus comandados, assediados pelas promessas da abertura de mercado, vejam só. A margem de lucro despencou, uma parte dos clientes se bandiou. Desfez-se das propriedades, voltou pra área pra cuidar de perto dos negócios, ressuscitando o velho três-oito pra comandar pessoalmente umas operações de integralização do capital desvalorizado. Mas ali já não era mais nem sombra da poderosa organização que um dia vendeu o sonho de uma cidade sem violência.

E assim foi que foi que foi. E foi. Até que um dia ninguém mais ouviu falar dele. E até – mais – quando morreu seu Joaquim e os filhos resolveram reformar o Vira Três e transformar numa moderna lanchonete, forrada de uma lajota bem bonita, com letreiro de neon: Help's...

Final borgeano: quando muitos anos depois ainda perguntavam à D. Francisca se era verdade que aquele mendigo da praça, que virava todo dia três maria-moles, se ele tinha mesmo sido um poderoso empresário da contravenção oficial, o olho da velhíssima saloia brilhava de um sorriso assim - como direi? - meio úmido.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Voltando o troco - Parte II


Sebastião Oliveira é um próspero empresário do ramo de seguros. Começou pequenino, o único cliente por muito tempo foi o Seu Joaquim do Vira Três, butiquinzinho na rua sem saída que acaba atrás da escadaria que desce da avenida. Uns dizem que o nome vem dum pinguço conhecido bem antigamente no bairro que, contam, chegava de manhãzinha, virava três maria-moles e voltava pra dormir na praça até o fim do dia, na hora da segunda “refeição”. Outros dizem que é por causa da localização: passa o escadão, vira a esquerda, depois de novo e de novo. Seu Joaquim não gostava de nenhuma das versões e sua grande tristeza é que ninguém se referisse ao seu estabelecimento pelo nome de batismo: Bar e Lanches Nossa Senhora da Ajuda, com direito a nicho e oratório. Um ou outro ainda arriscava em casa, pra mulher, tentando dourar a pílula indigesta: “vou comprar cigarro no Ajuda”.

A dobradinha das terças era de primeira! E não é que a espelunca ficava abarrotada? Dona Francisca caprichava no bucho com feijão branco, muito paio, lingüiça, batata “inglesa”, azeitona preta, ovo cozido, asinha de frango, servida com arroza à grega, sim senhor. E foi bem numa terça, bem na hora do corre-corre, que o Tião Bica d'Água entrou espavorido, trepado num 38 rodado, pra tentar arrumar unzinho pra segurar as despesas urgentes. Não que fosse a primeira nem a segunda vez. Mas naquele dia Seu Joaquim veio com uma conversa mole que, na hora, ferveu a idéia do malandro, mas acabou sendo o início de uma nova vida, menos arriscada, menos aflita, mas muito mais cheia de responabilidades. Afinal, o que parecia 171 do português maluco, acabou por se tornar um pioneiro empreendimento logo popularizado entre a clientela dos mais variados setores da sociedade local.

Naquele tempo, personal era a palavra de ordem na área! O Oswaldão, professor de ginástica do Grupo, virou trainer; a dona Maricotinha, costureira, stylist. E a coisa ia de vento em popa pra quem não se deixasse ficar pra trás, porque, afinal de contas, o bairro se modernizava, aquelas casas velhas todas, com aquele monte de tábuas no teto e no assoalho, dando lugar aos modernos apartamentos de vidro e concreto. Cada prédio, uma beleza! Park of Princess, Spazzio della Fontana, Silver Gardens... Quem diria, aquela vila cheia de galpão de fábrica!? A idéia do português foi comprada pelo Tião, que em pouco tempo botou a coisa pra funcionar. E como funcionava! De início, teve trabalho, precisou usar de toda sua reputação na área, botar respeito, fazer correr uns manguinhas-de-fora; só teve de usar “convencimento” pra valer com o João Corre-Cotia, mas o moleque, coitado, tão doido, se não caísse de bala, caía de bagulho. Ou na mão de fornecedor, que já andava mais enrolado que linha de pipa em lata de óleo. Depois, foi uma belezura só! Seu Joaquim satisfeito, não precisava mais passar incerteza, até podia fechar o bar mais tarde, as receitas aumentaram. Os comerciantes em volta gostaram da coisa e engrossaram a carteira de clientes. Aí já tava bem mais fácil pro ex-malandro, era raro aparecer um “sinistro” pra resolver. Quando os moradores começaram a querer aderir, Sebastião colocou duas meninas de sua estrita confiança pra vender os planos de porta em porta, que a freguesia merecia um conforto, sacomé?

A coisa no bairro andava que nem rolimã em ladeira asfaltada. Moradores satisfeitos, o comércio local faturando mais, Sebastião enchendo as burras. Virou padrinho do Águia da Baixada, agremiação semi-secular que passou a ter campinho gramado, uniforme de jogo e de treino, condução para as competições importantes, e andou até faturando o campeonato da liga barbante. As “otoridades” satisfeitas aplaudiam as iniciativas do empresário e, claro, tinham garantida uma pequena participação nos frutos da prosperidade coletiva.

Terceirização, economia aberta, personal pra cá e pra lá. A sociedade nacional respirava ares de modernidade, o que é que poderia dar errado? O mercado responderia à falta de saúde, educação, previdência social, segurança... Planos de cobertura, seguros, tudo na base do contrato, ali ó, sem aquele monte de funcionário público folgado pra atrapalhar, carimbo azul, carimbo vermelho, três vias, passa no guichê cinco. Nada disso! Tudo pela Internet, cartão magnético, disque dois para informações financeiras, quatro para novos serviços... O Dr. Sebastião não podia ficar pra trás. As empresas do grupo foram pioneiras na automatização completa. Ele foi morar num condomínio fechado numa cidade vizinha, a 15 minutos da Marginal. Do seu escritório virtual comandava a parada toda.

Mas a casa do malandro começou a cair no dia em que aquele apresentador-deputado veio bater à sua porta.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Voltando o troco - Parte I

"Eu lhe dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos
Você tem que me voltar dezessete e setecentos"

(Dezessete e setecentos,
calango de Luiz Gonzaga e Miguel Lima)



- Aê, todo mundo quietinho aí que eu só quero a grana, rapidinho!
- Peraí...
- Peraí, o quê, mano??? Abre logo essa porra!
- Quero falar contigo...
- Falar o quê, Portuga, tá me estranhando?
- Não, tou te conhecendo, é por isso...
- Ô, galego, quer que eu te arrebente a fuça? Tá ligado que eu não sou de lero-lero, vamo logo!
- É que eu fui assaltado semana passada...
- Que que eu tenho com isso, mané? Semana passada não fui eu, só tou querendo a minha!
- Exatamente! Não quero mais outro, só quero ser assaltado por você!
- Como é que é, loco?
- Exclusividade! Quero que você seja meu personal assaltante...
- Qual que é, Seu Joaquim, tá querendo atrasar o meu lado? É a décima vez, tu nunca foi de me embassar? Vou acabar fazendo uma merda aqui...
- Um plano de assalto... Pago a mensalidade, você vem aqui, recebe direitinho, não precisa de revólver, incomodar a clientela, correr risco, os homens vivem por aí...
- Hã?
- E eu também não preciso ficar encarando canhão na minha cara... Aliás, tu poderias baixar esse troço e vir aqui pra trás pra gente conversar direito.
- Haannn.... E onde entra a minha parte, o Mané? Tá achando que eu sou otário?
- Você só vai prestar o seu serviço normalmente. Em vez de me assaltar toda semana, passa aqui no fim do mês e leva a tua parte. Só preciso da exclusividade.
- Cumé que é, truta?
- Seguinte: tu não podes deixar ninguém mais me assaltar. Dá aí teu jeito, a tua parte tá garantida, mas eu não estou em condições de bancar mais de um plano por mês.
- Êeeta, Portuga, até que não era má idéia...
- Se você preferir, em vez de vir aqui, pode deixar aí o boleto.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006




Kawó Kabiecilé!


Meu pai São João Batista é Xangô!
É o dono do meu destino até o fim!
Se um dia me faltar a fé no meu Senhor
Derrube essa pedreira sobre mim!
Se um dia me faltar a fé no meu Senhor
Derrube essa pedreira sobre mim!

segunda-feira, 20 de novembro de 2006




Morte de Zumbi

Luís da Câmara Cascudo



Na Serra da Barriga, em sua encosta oriental, viveram, sessenta e sete anos, os negros livres dos Palmares.

Tinham fugido de várias fazendas, engenhos, cidades e vilas, reunindo-se, agrupando-se derredor de chefes, fundando uma administração, um estado autônomo, defendido pelos guerreiros que eram, nas horas de paz, plantadores de roça e criadores de gado.

Elegiam vitaliciamente, um Zumbi, o Senhor da força militar e da lei tradicional.

Não havia ricos, nem pobres, nem furtos, nem injustiças. Três cercas de madeira rodeavam, numa tríplice paliçada, o casario de milhares e milhares de homens.

Ao princípio, para viver, desciam os negros armados assaltando, depredando, carregando o butiu para as atalaias de sua fortaleza de pedra inacessível.

Depois o governo nasceu e com ele a ordem; a produção regular simplificou comunicações pacíficas, em vendas e compras nos lugarejos vizinhos. Constituiu-se a família e nasceram os cidadãos palmarinos.

As plantações ficavam nos intervalos das cercas, vigiadas pelas guardas de duzentos homens, de lanças reluzentes, longas espadas e algumas armas de fogo.

No pátio central, como numa aringa africana, residia o Zumbi, o Rei naquela república negra, o primeiro governo livre em todas as terras americanas.

Ali o Zumbi distribuía justiça, exercitava as tropas, recebia festas e acompanhava o culto, religião expontânea, aculturação de catolicismo com os rituais do continente negro.

Vinte vezes, durante a existência, foram atacados, com sorte diversa, mas os Palmares resistiam, espalhando-se, divulgando-se, atraindo a esperança de todos os escravos chibateados nos eitos de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

A república palmarina desorganizava o ritmo do trabalho escravo em toda a região. Dia a dia fugiam novos cativos, futuros soldados do Zumbi, com seu manto, sua espada e sua lança real.
Por fim, depois de investidas numerosas, em 1693, sete mil homens veteranos, comandados por grandes chefes de guerra, marcharam sobre Palmares.

Debalde o Zumbi levou suas forças ao combate, repelindo e vencendo. O inimigo recompunha-se, recebendo viveres e munições, quando os negros, sitiados, se alimentavam de furor e de vingança.

Numa manhã, todo exército atacou ao mesmo tempo, por todas as faces. As paliçadas foram cedendo, abatidas a machado, molhando-se o chão com o sangue desesperado dos negros guerreiros.

Os paulistas de Domingos Jorge Velho; Bernardo Vieira de Melo com as tropas de Olinda; Sebastião Dias com os homens de reforço - foram avançando e pagando caro cada polegada qua a espada conquistava.

Gritando e morrendo, os vencedores subiam sempre, despedaçando as resistências, derramando-se como rios impetuosos, entre as casinhas de palha, incendiando, prendendo, trucidando.

Quando a derradeira cerca se espatifou, o Zumbi correu até o ponto mais alto da serra, de onde o panorama do reino saqueado era completo e vivo. Daí, com seus companheiros, olhou o final da batalha.

Paulistas e olindenses iniciavam a caçada humana, revirando as palhoças, vencendo os últimos obstinados.

Do cimo da serra, o Zumbi brandiu a lança espelhante, e saltou para o abismo.

Seus generais o acompanharam, numa fidelidade ao Rei e ao Reino vencido.

Em alguns pontos da serra ainda estão visíveis as pedras negras das fortificações.

E vive ainda a lembrança do último Zumbi, o rei dos Palmares, o guerreiro que viveu na morte seu direito de liberdade e de heroísmo...


( in Lendas Brasileiras, Ed. Cattleya Alba, 1945. Reproduzida ilustração de Martha Pawlowna Schidrowitz constante na edição original)

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Jongo do Irmão Café

(Wilson Moreira e Nei Lopes)


Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!

Meu passado é africano
Teu passado também é.
Nossa cor é tão escura
Quanto chão de massapé.
Amargando igual mistura
De cachaça com fernet
Desde o tempo que ainda havia
Cadeirinha e landolé
Fomos nós que demos duro
Pro país ficar de pé!

Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!

Você, quente, queima a língua
Queima o corpo e queima o pé
Adoçado, tem delícias
De chamego e cafuné
Requentado, cria caso,
Faz zoeira e faz banzé
E também é de mesinha
De gurufa e candomblé
É por essas semelhanças
Que eu te chamo "Irmão Café"

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Haja consciência

Pela primeira vez, neste ano, o novel feriado dedicado ao Dia da Consciência Negra vai ser observado pra valer nesta triste Cidade de São Paulo (a lei é de 2004, já vigorava nos dois anos passados, mas a data então caiu sábado e domingo), como já o é há muitos anos no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras. Mas, como não poderia deixar de ser, nós temos que dar ao episódio a coloração acinzentada que nos é peculiar, a nossa nota tradicional de mesquinhez e pouca identificação com os temas sensíveis para o Brasil.

O que se vê pela cidade é, em primeiro lugar, a crassa ignorância a respeito do feriado. Não me espantarei se os mais desligados aparecerem segunda-feira de paletó e gravata aqui em frente à repartição e demorarem aquela eternidade dos parvos para perceber o que estará acontecendo. Logo em seguida, a incredulidade dos que são informados: "Será mesmo?" Que poderia muito bem ser traduzido, em melhor português brasileiro paulistano: "será possível que alguma autoridade séria desse país decretaria feriado só por causa de um punhado desses crioulos?". À desconfiança segue-se a desaprovação: "Um absurdo! Isso lá é motivo pra feriado? Já trabalham tão pouco! Por isso que este país não vai pra frente!".

Maestro Kiko do Cavaco, o maior sorriso negro do samba brasileiro, ligou-me dia desses, logo de manhãzinha, indignado. Queria saber o número da lei, a data do Diário Oficial, artigo e alínea, que o patrão estava achando que isso tudo era até bacana, mas todo mundo na firma tinha que ir trabalhar, sim senhor, ora essa... A coisa é tão séria, que num país onde judeu dá presente de Natal, que beata da Igreja adora carnaval (pra fazer retiro espiritual, é claro) e que católicos, muçulmanos, umbandistas e budistas, gregos e troianos adoram curtir uma praiazinha prolongada na Sexta-feira Santa, tem gente doidinha pra trabalhar. Só pra não dar o braço a torcer. Afinal, "se a moda pega", como me disse uma indignada e zeloza senhora, "vamos ter o dia da consciência italaina, da consciência japonesa, árabe..."

Só pra se ver como o buraco ainda é muito mais embaixo. Faz tempo que o Velho avisa... Muita água ainda há de rolar até que venha a nossa Grande Noite. A luta está ainda só no começo. E como estamos carecas de saber que nosso direito de exaltar Zumbi não é colher de chá pra matar uma féria, mas conquistado a sangue e lágrimas, como são de resto todos os que hoje nos reconhecem e os que hão de ter de reconhecer, nós vamos fazer a nossa festa. No Ó do Borogodó vai ter samba de bumbo, jongo, congo, partido-alto, comida de santo, política e a benção de Mãe Sandra de Xangô. E logo de tarde, que é pra todo mundo ouvir. Vamos cantar pros Orixás e pros Ancestrais, comer baião-de-dois no dendê com camarão, beber e brincar a valer. Vamos falar de direitos e de política, vamos aprender e ver filme sobre Exu. Que nós temos mesmo é que nos fortalecer. Porque passada a festa, ou nem mesmo isso, a briga é grande e é feia. Mas nós estaremos mais fortes e mais juntos, sim, passada essa próxima segunda-feira, 20 de novembro, dia de Zumbi, saravá! Cada vez mais fortes, sim, até que a Grande Noite venha.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

São Francisco


Enquanto consome-se o Agonizante
na soberba indelével dos suicidas
pulsa-lhe a artéria convulsa,
semovente esperança de improvável socorro
Sorte

O Rasgo infecto e purulento
escoa lágrimas, salivas e suores
escândalo vivo e berrante
na gangrena provocada, concedida: gozada
Corte

E o menor Pássaro se faz arauto
em comunhão de míngua a
sorver-lhe os pruridos de estigmas
de paixão tenaz, coragem de entrega
Forte

Visionários sonhos de redenção
sebastianas velas e preces
fome e encanto, Deus e o Diabo
incendendo ânimos julgados dormidos
Norte

Depara a razão inusitada resistência
autônoma chama de vida avessa
aos ímpetos seus mutiladores
semente desesperada do contestado porvir
Morte

(outubro/2005)

quarta-feira, 27 de setembro de 2006



Samba de Dois-Dois

Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro


Esse samba é de dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, esse samba é de dois

Pra puxar carroça grande
É melhor um par de bois
Se juntar mulher com homem
Vai sair mais um depois
Mas quem vai com sede ao pote
Às vezes vem logo dois
É um berço pra dois filhos
Camisola de filó
É o dobro de trabalho
Desses pais eu tenho dó
Mas quando se tem gêmeos
Acho que é melhor
Que na roda da vida
Nenhum deles brinca só

Festa dos Ibejês
Dia dos Erês
Vem Dadá e Ogum
Doú chega com Neném
Tem beiju, quindim
Acaçá, mel e xerém
Caruru, xinxim
Tem pipoca, abará e aberém

Quando eles vêm, eles vêm assim
É de Dois-Dois
Crispiano vem com Crispim
É de Dois- Dois
Onde vai um vai o seu irmão
É de dois em dois
Se vem Doum, também vem Romão
É de dois em dois
Dia de Cosme e Damião
É dia de louvar Dois-Dois!