quinta-feira, 13 de maio de 2004
Expulsar ou não: eis a questão
O governo brasileiro errou no episódio da expulsão do “jornalista” do New York Times? Sim e não.
Sim, porque, segundo a sábia lição que me foi ensinada por vovó, talvez valesse mais à pena fazer ouvidos de mercador e ignorar simplesmente aquele aborto do pseudo-jornalismo, do que, reagindo, emprestar-lhe a importância e significação que absolutamente não tem para o povo e o estado brasileiros. Vale dizer, deu-se munição para falarem até a exaustão os oposicionistas detratores, a imprensa subserviente aos interesses estadunidenses e mesmo para o ecoar renitente do fato pelo mundo afora. Questão de mera política de comunicação, de que tanto entende o ora discordante e sempre festejado Duda Mendonça.
E não por uma pletora de razões. Atenho-me às elementares.
A primeira, de ordem eminentemente jurídica, diz respeito ao princípio orientador do direito internacional consubstanciado no ideal de reciprocidade de tratamento. Ora, nesse sentido, despiciendo imaginar o que aconteceria com um profissional brasileiro de comunicação que, de dentro de território estadunidense, resolvesse de maneira caluniosa e alheia aos mais elementares princípios do jornalismo minimamente responsável e democrático, resolvesse enxovalhar a honra da máxima instituição nacional baseada em boatos e disque-disques oriundos das mais suspeitas fontes (aliás, gostaria muito de não acreditar no aventado envolvimento do governador Leonel Brizola no episódio, que macularia indelevelmente uma biografia dedicada à defesa dos interesses soberanos da nação brasileira e arruinaria o respeito e admiração que sempre dediquei a si, malgrado as divergências democráticas). Nem se precisa ir tão longe. Por muitíssimo menos, artistas, intelectuais, cientistas e mesmo autoridades do estado brasileiro (que o diga o Deputado Gabeira, que agora curiosamente soma-se ao coro dos indignados com a “violência” da reação do governo), já foram impedidas de entrar em território ianque por supostas manifestações de sentimento anti-americano.
Outra, porque é evidente o tom conspiratório do artigo. Diferentemente do que afirma Clóvis Rossi na Folha de hoje, as alusões às articulações internacionais para a desestabilização da liderança de Lula no cenário latino-americano não partiram de paranóicos do PT ou o que o valha. Partiram primordialmente do respeitado jornalista Jânio de Freitas, seu colega no mesmo veículo. São tradicionais, aliás as relações pouco transparentes da grande imprensa estadunidense com as atividades de ingerência externa da política da Casa Branca, sobretudo no continente americano, que os primos do norte teimam em enxergar como seu quintal. Ignorá-las seria ingênuo, senão mal-intencionado. Não esqueçamos que a política externa do governo Lula tem incomodado particularmente os interesses conservadores e servilistas, tendo há pouco merecido reprovações nitidamente despeitadas por parte do embaixador maior da subserviência nacional, o senhor Fernando Henrique Cardoso.
Por tudo, então, entendo perfeitamente caracterizada a legitimidade da pretensão do governo brasileiro, que há de ter os aspectos de legalidade, caso formalmente questionados, devidamente examinados pelas instâncias competentes. Não me convence a gritaria indignada da imprensa (só a Folha de hoje dedica oito páginas inteiras ao episódio) e principalmente de alguns setores políticos compostos por muitos que docil ou cooptadamente se calaram quando deveras nenhuma liberdade de informação o país desfrutava.
Cor Preta
Jota Maranhão e Paulo César Feital
Meu filho, foi Deus quem te deu cor preta
Na dúvida, amor, vem me perguntar, não sofre não
É São Benedito o estafeta do Senhor
É negra a madrinha dessa nação
Meu filho, eu vou te levar na areia
A mesma que viu bisavô chegar na escravidão
Mistura-se África em cada veia do Brasil
Mulato é o povo dessa nação
Meu filho se orgulhe do teu cabelo e cor
Não tenha vergonha de tê-lo, é lindo, amor
Foi feito pra protegê-lo do calor
Por tê-lo agradeça a teu pai Xangô
Meu filho, se alguém te humilhar na escola
Levante a cabeça como Mandela na prisão
O sangue do Congo e de Angola, meu amor
Fizeram a história dessa nação
Meu filho, não tenha vergonha do teu pai
Dos lábios que beijam tua mãe quando ele sai
O negro que me fez amor como ele faz
É o mesmo que me engravidou de paz
Meu filho não é branca nem negra a escravidão
O homem é escravo da própria dor
Se torne, meu filho, um Zumbi de compaixão
Grilhão já não faz distinção de cor
Meu filho, escute, tua mãe é negra
Que orgulho que tenho por ter em mim a escuridão
A mesma do ventre que te hospedou, meu negro amor
Do negro nasceu a iluminação
Nem uma lágrima,
Nem uma lágrima...
Meu filho, foi Deus quem te deu cor preta
Na dúvida, amor, vem me perguntar, não sofre não
É São Benedito o estafeta do Senhor
É negra a madrinha dessa nação
Meu filho, eu vou te levar na areia
A mesma que viu bisavô chegar na escravidão
Mistura-se África em cada veia do Brasil
Mulato é o povo dessa nação
Meu filho se orgulhe do teu cabelo e cor
Não tenha vergonha de tê-lo, é lindo, amor
Foi feito pra protegê-lo do calor
Por tê-lo agradeça a teu pai Xangô
Meu filho, se alguém te humilhar na escola
Levante a cabeça como Mandela na prisão
O sangue do Congo e de Angola, meu amor
Fizeram a história dessa nação
Meu filho, não tenha vergonha do teu pai
Dos lábios que beijam tua mãe quando ele sai
O negro que me fez amor como ele faz
É o mesmo que me engravidou de paz
Meu filho não é branca nem negra a escravidão
O homem é escravo da própria dor
Se torne, meu filho, um Zumbi de compaixão
Grilhão já não faz distinção de cor
Meu filho, escute, tua mãe é negra
Que orgulho que tenho por ter em mim a escuridão
A mesma do ventre que te hospedou, meu negro amor
Do negro nasceu a iluminação
Nem uma lágrima,
Nem uma lágrima...
terça-feira, 11 de maio de 2004
A verdadeira herança maldita
ou Da morte da política
Das primeiras discussões sobre o novo “valor” do salário-mínimo até a recentemente anunciada proposta de desvinculação da atualização dos benefícios previdenciários ficou-me uma triste sensação: a política está morta. Em seu lugar, reina impávido o domínio da competência contábil. A própria oposição, ao apresentar hoje a proposta alternativa, não encaminhará argumentos políticos atinentes ao desenvolvimento ou à coerência dos líderes petistas. Invocará, tão somente, “argumentos técnicos”, como estampam os principais jornais.
Se para saber o valor do salário o que contam são apenas e tão somente os nunca assaz esclarecidos cálculos do Ministério da Fazenda, teria preferido um contador ao torneiro mecânico de São Bernardo para a outrora chamada “suprema magistratura da nação”.
Outrora chamada, porque mais hoje não é “magistratura”, pelo menos não como definida pelo bom e saudoso Antônio Houaiss a figura do “magistrado”: “indivíduo investido de importante autoridade, que se exerce nos limites de uma jurisdição, com poder para julgar e mandar, ou que participa da administração política ou que integra o governo político de um Estado”. Porque me recuso a identificar má-fé a tal ponto no homem que veio de Garanhuns num pau-de-arara para tentar a sobrevivência no sul-maravilha. Incompetência também não é, pois Lula cansou-se de mostrar sua sagacidade política em todos esses anos de atuação marcante e decisiva na cena nacional. Então, só pode ser falta de poder para julgar e mandar.
“Suprema” também deixou de ser faz tempo. Lula manda mais, ou o Palocci e o Meirelles? Mas ele é o dono da caneta que poderia botar estes últimos para correr, ora direis. Mas sabemos que ambos ali estão a mando de outrém, talvez do “Coiso”, como diria o bom Nataniel Jebão.
E a “nação” também não tenho certeza de a quantas anda.
Isso nos conduz à triste conclusão de que a verdadeira herança maldita deixada pela era tucana não se resume à exponenciação da dívida pública, ao aniquilamento do parque industrial nacional, à completa estagnação econômica e à dilapidação do patrimônio estatal. O legado fatídico é a perpetuação de uma lógica financista auto-referente e auto-suficiente que, mais do que desprezar, faz prescindir-se da política como arte dos cidadão de uma pólis disputarem os rumos da coletividade e negociarem a tomada de decisões. A lógica contábil dos superávits (que obviamente é não mais que a máscara ideológica para o verdadeiro substrato consistente na intangenciabilidade da obrigação de honra aos compromissos formais com os credores) governa os destinos do estado brasileiro como um andróide insensível pré-programado para exercer a sua sanha exterminadora, rebelado e incontrolável .
O imobilismo de um governo que incorpora setores altamente representativos da esquerda brasileira, sua quase patética incapacidade de desmontar as armadilhas mais simplórias do modelo financista, mostram-nos o quanto precisamos urgentemente ressuscitar a política como forma de controle do estado pelos cidadãos. A Argentina está descobrindo a duras penas, depois da implosão do sistema, mas é altamente instrutivo perceber como, a despeito de todos os sinais inequívocos, foi preciso que o carro desgovernado caísse no precipício, sem que fosse possível, de dentro do sistema, uma correção de rota.
O grande desafio que se lança, portanto, não só aos setores progressistas, mas a todos os que minimamente pretendem a continuidade do Brasil enquanto nação, é descobrir como reintroduzir-se mecanismos de controle político sobre a lógica insana que tudo submete, em última instância, ao interesse da voracidade do capital financeiro improdutivo. Ou o sistema-leviatã, hoje autômato e escravizado, nos engolirá a todos e, finalmente, a si próprio.
Das primeiras discussões sobre o novo “valor” do salário-mínimo até a recentemente anunciada proposta de desvinculação da atualização dos benefícios previdenciários ficou-me uma triste sensação: a política está morta. Em seu lugar, reina impávido o domínio da competência contábil. A própria oposição, ao apresentar hoje a proposta alternativa, não encaminhará argumentos políticos atinentes ao desenvolvimento ou à coerência dos líderes petistas. Invocará, tão somente, “argumentos técnicos”, como estampam os principais jornais.
Se para saber o valor do salário o que contam são apenas e tão somente os nunca assaz esclarecidos cálculos do Ministério da Fazenda, teria preferido um contador ao torneiro mecânico de São Bernardo para a outrora chamada “suprema magistratura da nação”.
Outrora chamada, porque mais hoje não é “magistratura”, pelo menos não como definida pelo bom e saudoso Antônio Houaiss a figura do “magistrado”: “indivíduo investido de importante autoridade, que se exerce nos limites de uma jurisdição, com poder para julgar e mandar, ou que participa da administração política ou que integra o governo político de um Estado”. Porque me recuso a identificar má-fé a tal ponto no homem que veio de Garanhuns num pau-de-arara para tentar a sobrevivência no sul-maravilha. Incompetência também não é, pois Lula cansou-se de mostrar sua sagacidade política em todos esses anos de atuação marcante e decisiva na cena nacional. Então, só pode ser falta de poder para julgar e mandar.
“Suprema” também deixou de ser faz tempo. Lula manda mais, ou o Palocci e o Meirelles? Mas ele é o dono da caneta que poderia botar estes últimos para correr, ora direis. Mas sabemos que ambos ali estão a mando de outrém, talvez do “Coiso”, como diria o bom Nataniel Jebão.
E a “nação” também não tenho certeza de a quantas anda.
Isso nos conduz à triste conclusão de que a verdadeira herança maldita deixada pela era tucana não se resume à exponenciação da dívida pública, ao aniquilamento do parque industrial nacional, à completa estagnação econômica e à dilapidação do patrimônio estatal. O legado fatídico é a perpetuação de uma lógica financista auto-referente e auto-suficiente que, mais do que desprezar, faz prescindir-se da política como arte dos cidadão de uma pólis disputarem os rumos da coletividade e negociarem a tomada de decisões. A lógica contábil dos superávits (que obviamente é não mais que a máscara ideológica para o verdadeiro substrato consistente na intangenciabilidade da obrigação de honra aos compromissos formais com os credores) governa os destinos do estado brasileiro como um andróide insensível pré-programado para exercer a sua sanha exterminadora, rebelado e incontrolável .
O imobilismo de um governo que incorpora setores altamente representativos da esquerda brasileira, sua quase patética incapacidade de desmontar as armadilhas mais simplórias do modelo financista, mostram-nos o quanto precisamos urgentemente ressuscitar a política como forma de controle do estado pelos cidadãos. A Argentina está descobrindo a duras penas, depois da implosão do sistema, mas é altamente instrutivo perceber como, a despeito de todos os sinais inequívocos, foi preciso que o carro desgovernado caísse no precipício, sem que fosse possível, de dentro do sistema, uma correção de rota.
O grande desafio que se lança, portanto, não só aos setores progressistas, mas a todos os que minimamente pretendem a continuidade do Brasil enquanto nação, é descobrir como reintroduzir-se mecanismos de controle político sobre a lógica insana que tudo submete, em última instância, ao interesse da voracidade do capital financeiro improdutivo. Ou o sistema-leviatã, hoje autômato e escravizado, nos engolirá a todos e, finalmente, a si próprio.
segunda-feira, 10 de maio de 2004
Festa no céu 2004
A malandragem do céu
Resolveu fazer uma festa
E aí convidaram o Poyares
Pra ir tocar sua flauta
Queriam um bacharel
pra ter samba e não só seresta
Chamaram o Paulinho Soares
pra completar essa malta
Não adianta escarcéu
Chorar é o que agora nos resta
E sambar – eis nossos altares
aos que farão tanta falta
Poyares e Paulinho
Poyares
Nem uma mísera nota. A não ser, evidentemente, na onipresente Agenda do Samba & Choro. Não sei o que dói mais...
Carlos Poyares nos deixou na semana passada. O maior chorão que eu conheci. Um de seus números clássicos: nas rodas de seresta, quando sua função “adjetiva” era solar algumas introduções e as primeiras partes “no retorno”, ficava batendo papo animadamente enquanto o cantor se esgüelava; na hora de entrar, levantava da mesa do bate-papo, já com a flauta em punho, sem perguntar tom nem nada. Exemplo de seu ouvido treinadíssimo e da malandragem adquirida em tantos e tantos anos de butiquins e quintais. Era um flautista exímio, um virtuose de impressionar músicos europeus das mais importantes orquestras do mundo. Mas sua música, assim como sua postura, transpareciam esse espírito popular no melhor sentido.
E é justamente por isso que o considero o maior chorão que eu conheci. Ninguém como ele encarnava mais esse espírito vagabundo, malandro e algo amador (no bom sentido) que hoje parece tão distante dos círculos de choro, povoados pelos bem nascidos jovens formados nos conservatórios e faculdades de música. Esse espírito que tanto dominou os ambientes onde o choro particularmente se desenvolveu na passagem do século XIX para o XX.
Nosso maior momento de convivência foi numa certa noitada de muito papo e muita birita (dois terrenos em que ele jogava como craque), onde ele nos brindou com suas histórias divertidíssimas com os maiores nomes da música popular brasileira (não é todo mundo que sabe que ele ia para o Rio, na década de 50, e passava dias e dias na casa de Pixinguinha, bebendo – muito – e tocando – imaginem o quanto...). Perguntado sobre Altamiro, ele não titubeou: “em termos de habilidade e musicalidade, ele é um monstro; mas lhe falta a alma do butiquim , que é a alma do choro. E essa eu tenho de sobra!”
Ficam para os que o conheceram, as boas lembranças, as histórias, seus inúmeros discos, a fita com ele tocando a flautinha de lata. Para mim, particularmente, a enorme honra de ter sido por ele acompanhado em tantas andanças vagabundas pelas noitadass de muita música e cachaça.
Paulinho
E foi-se também o nosso bom Paulinho Soares. De repente, como os bons malandros merecem. Parece mesmo que às vezes alguém lá de cima resolve botar o serviço em dia. E dá-lhe rapa! Em algumas semanas, foram Joel Teixeira, o Poyares e o Paulinho.
Este eu conheci pouco e muito. Pouco porque infelizmente foram menos freqüentes que eu gostaria as oportunidades de sentarmos juntos pra biritar e papear, artes a mim tão caras em que ele se mostrava um mestre. Muito, porque era uma das figuras que mais eu encontrava nos ambientes e ocasiões propícios a boa música e boa conversa. Um craque da carioquice, gozador, galhofeiro, conversador e rápido no gatilho como poucos.
E que bom compositor. Entre seus muitos sambas, gravados e inéditos, uma pérola gravada por Beth Carvalho que resumia muito do espírito malandro e gozador do sambista em geral e dele em particular: “morreu, o nosso amor morreu/ mas, cá pra nós, antes ele do que eu”.
Um beijo, malandro, onde você estiver. Obrigado pelo carinho de sempre. A gente se esbarra.
Nem uma mísera nota. A não ser, evidentemente, na onipresente Agenda do Samba & Choro. Não sei o que dói mais...
Carlos Poyares nos deixou na semana passada. O maior chorão que eu conheci. Um de seus números clássicos: nas rodas de seresta, quando sua função “adjetiva” era solar algumas introduções e as primeiras partes “no retorno”, ficava batendo papo animadamente enquanto o cantor se esgüelava; na hora de entrar, levantava da mesa do bate-papo, já com a flauta em punho, sem perguntar tom nem nada. Exemplo de seu ouvido treinadíssimo e da malandragem adquirida em tantos e tantos anos de butiquins e quintais. Era um flautista exímio, um virtuose de impressionar músicos europeus das mais importantes orquestras do mundo. Mas sua música, assim como sua postura, transpareciam esse espírito popular no melhor sentido.
E é justamente por isso que o considero o maior chorão que eu conheci. Ninguém como ele encarnava mais esse espírito vagabundo, malandro e algo amador (no bom sentido) que hoje parece tão distante dos círculos de choro, povoados pelos bem nascidos jovens formados nos conservatórios e faculdades de música. Esse espírito que tanto dominou os ambientes onde o choro particularmente se desenvolveu na passagem do século XIX para o XX.
Nosso maior momento de convivência foi numa certa noitada de muito papo e muita birita (dois terrenos em que ele jogava como craque), onde ele nos brindou com suas histórias divertidíssimas com os maiores nomes da música popular brasileira (não é todo mundo que sabe que ele ia para o Rio, na década de 50, e passava dias e dias na casa de Pixinguinha, bebendo – muito – e tocando – imaginem o quanto...). Perguntado sobre Altamiro, ele não titubeou: “em termos de habilidade e musicalidade, ele é um monstro; mas lhe falta a alma do butiquim , que é a alma do choro. E essa eu tenho de sobra!”
Ficam para os que o conheceram, as boas lembranças, as histórias, seus inúmeros discos, a fita com ele tocando a flautinha de lata. Para mim, particularmente, a enorme honra de ter sido por ele acompanhado em tantas andanças vagabundas pelas noitadass de muita música e cachaça.
Paulinho
E foi-se também o nosso bom Paulinho Soares. De repente, como os bons malandros merecem. Parece mesmo que às vezes alguém lá de cima resolve botar o serviço em dia. E dá-lhe rapa! Em algumas semanas, foram Joel Teixeira, o Poyares e o Paulinho.
Este eu conheci pouco e muito. Pouco porque infelizmente foram menos freqüentes que eu gostaria as oportunidades de sentarmos juntos pra biritar e papear, artes a mim tão caras em que ele se mostrava um mestre. Muito, porque era uma das figuras que mais eu encontrava nos ambientes e ocasiões propícios a boa música e boa conversa. Um craque da carioquice, gozador, galhofeiro, conversador e rápido no gatilho como poucos.
E que bom compositor. Entre seus muitos sambas, gravados e inéditos, uma pérola gravada por Beth Carvalho que resumia muito do espírito malandro e gozador do sambista em geral e dele em particular: “morreu, o nosso amor morreu/ mas, cá pra nós, antes ele do que eu”.
Um beijo, malandro, onde você estiver. Obrigado pelo carinho de sempre. A gente se esbarra.
terça-feira, 4 de maio de 2004
67 anos sem Noel
Poucas palavras. Uma canção, lindamente gravada pelo Caboclinho Querido, Sílvio Caldas:
Violões em Funeral
(Sílvio Caldas / Sebastião Fonseca)
Vila Isabel veste luto
Pelas esquinas escuto
Violões em funeral
Choram bordões, choram primas
Soluçam todas as rimas
numa saudade imortal
Entre as nuvens escondida
como de crepe vestida
a lua fica a chorar
E o pranto que a lua chora
goteja, goteja agora
dos oitis do "Boulevard"
Adeus cigarra vadia
que mesmo em tua agonia
cantavas para morrer!
Tu viverás na saudade
da tua grande cidade
que não te há de esquecer
Adeus poeta do povo
que ressuscitas de novo
quando na morte descambas!
Sinhô de pele mais clara
no qual Sinhô encarnara
a alma sonora dos sambas
Toda a cidade soluça
Comovida se debruça
Sobre o caixão de Noel ...
Matriz, Estácio , SAlgueiro
Todo o Rio de Janeiro
Consola Vila Isabel
Violões em Funeral
(Sílvio Caldas / Sebastião Fonseca)
Vila Isabel veste luto
Pelas esquinas escuto
Violões em funeral
Choram bordões, choram primas
Soluçam todas as rimas
numa saudade imortal
Entre as nuvens escondida
como de crepe vestida
a lua fica a chorar
E o pranto que a lua chora
goteja, goteja agora
dos oitis do "Boulevard"
Adeus cigarra vadia
que mesmo em tua agonia
cantavas para morrer!
Tu viverás na saudade
da tua grande cidade
que não te há de esquecer
Adeus poeta do povo
que ressuscitas de novo
quando na morte descambas!
Sinhô de pele mais clara
no qual Sinhô encarnara
a alma sonora dos sambas
Toda a cidade soluça
Comovida se debruça
Sobre o caixão de Noel ...
Matriz, Estácio , SAlgueiro
Todo o Rio de Janeiro
Consola Vila Isabel
segunda-feira, 3 de maio de 2004
Mais Caymmi
E sempre.
Não posso deixar de registrar aqui o liame para a belíssima entrevista concedida pelo mestre à sua neta Stella (que também assina a bela biografia do avô, pela editora 34: Dorival Caymmi - O mar e o tempo), na edição virtual do Jornal do Brasil do último dia 29. O velho Dorival, Obá de Xangô, do alto de suas nove décadas, dá generosas e iluminadas lições de sabedoria e tranqüilidade, enchendo de alegria os corações daqueles que temo-lo como essa presença monumental no cenário brasileiro.
Atentem para a segunda ("O mundo visto de Pequeri")e a terceira ("Receita de vida") partes que estão liadas no pé da página. De quebra, uma belíssima foto do velho cantador da Bahia.
sexta-feira, 30 de abril de 2004
Pedra Noventa
A música popular brasileira está em festa. Gostaria de dizer o Brasil, mas sabemos que infelizmente, em boa parte por obra dos nossos donos, a nação ainda não se apropriou definitivamente de suas riquezas mais preciosas. Mas os que vivemos e respiramos a brisa privilegiada dessa sonoridade que brota do seio desse povo mestiço estamos com o coração exultante. Afinal, um dos mais fascinantes espíritos surgidos na canção brasileira no século passado completa nove décadas, singrando forte e decididamente as águas desse terceiro milênio.
“Dorival é gênio universal”. E não sou eu que digo: “Pegou o violão e orquestrou o mundo”, emendou o maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, para os poucos que por desconhecimento, despreparo ou inacreditável soberba podem ainda pôr-se a duvidar dessa verdade simples. Conta sempre o magistral Sivuca que, pedindo certa vez algumas partituras estrangeiras para aprofundamento de seus estudos de harmonia ao respeitadíssimo maestro Guerra Peixe, esse lhe teria rebatido: “pra quê? Está tudo lá na obra do Caymmi...”.* Depoimentos insuspeitos de quem tem a autoridade que nos falta e obriga a valermo-nos de argumentos mais extensos.
Dorival Caymmi é um dos pilares fundamentais de um processo amplo que fez a música popular brasileira, em pouco mais de um século, transformar-se de um ajuntamento de manifestações de cunho basicamente tradicional, ligadas à dança e aos folguedos, a uma das mais sofisticadas, expressivas e criativas manifestções da música universal. A dialética essencial que faz com que a o “canto de nossa aldeia” possa ser o mais universal dos cantos, segundo a definição clássica de Tolstói, encontra na música brasileira expressão privilegiada na obra de autores como Luiz Gonzaga, Pixinguinha e Noel Rosa (sem falar, por exemplo, num Waldemar Henrique, que acabou por não distender tanto suas influências por força do isolamento histórico a que a Amazônia sempre foi submetida). Esses baluartes são emblematicamente responsáveis pelo processo de integração dos elementos básicos (rítmicos, melódicos, harmônicos, líricos, dinâmicos) presentes nas manifestações de feições fortemente regionais numa música que pudesse assumir um cunho mais propriamente nacional, ser consumida em larga escala via difusão pelos meios de massificação e ser reconhecida mundialmente por seus traços distintivos gerais. Trata-se, pois, de uma especial manifestação de uma necessária sensibilidade para se reconhecer a riqueza dos elementos musicais espalhados pela tradição musical informal, sua forte presença no quadro geral dos referenciais estéticos coletivos do povo brasileiro e uma habilidade ímpar para promover sua indispensável amalgamação no processo mais geral que permitirá que se forme a idéia (ainda que arquetípica) de uma música popular especificamente brasileira.
Se Gonzaga traz o som árido do sertão cratense para o ambiente urbano do Rio de Janeiro a década de 40, gerando o dançabilíssimo baião; se Noel é quem primeiro tem consciência do processo de massificação do samba carioca, colhendo e adaptando as melodias e versos dos compsitores dos morros às necessidades musicais do rádio, do disco e do carnaval que se tranformava; se Pixinguinha condensa e sistematiza a herança riquíssima da tradição do choro, espalhando um padrão por toda a música popular que se gravaria em disco por quase três décadas; Dorival certamente abriu os caminhos para que à música popular fossem nacionalmente incorporados os temas ligados à vida no mar e à cultura afro-brasileira, o som lamentoso das canções praieiras, o ritmo dos baticuns dos terreiros etc., elementos todos que tem sua manifestação mais evidente e emblemática na sua Bahia de tanta importância e representatividade na história e na cultura brasileiras.
Caymmi foi pioneiro, ainda na década de 30, da prática de cantar suas próprias composições, fato que se tornaria corriqueiro somente a partir dos anos 60. Também introduziu definitivamente no repertório musical brasileiro a fórmula “voz e violão”, que viria mais tarde a encontrar em seu confessado discípulo e conterrâneo, João Gilberto, uma das expressões internacionalmente mais reconhecidas do gênio musical brasileiro. Como este, o mestre também fez da sonoridade singular de seu violão uma marca personalíssima de sua música, antecipando em muitos anos a larga utilização de dissonâncias harmônicas que se faria comum com o advento da bossa-nova (com sentido estético diverso, anote-se).
Outro traço singular da obra caymmiana que se incorpora definitivamente ao padrão musical brasileiro é o seu poder de síntese. Suas canções são sintéticas (se conhecem a pequena jóia “Canto de Nanã”, com 4 versos curtos e, no todo, não mais que umas 30 notas, saberão exatamente do que estou falando) sem excessos líricos ou melódicos de nenhuma espécie, numa época em que a música brasileira, embora caminhando em diverso sentido, ainda não de todo se livrara dos dramalhões lítero-musicais alla Catulo da Paixão e das serestas derramadas entoadas pelos dós-de-peito de plantão. E mesmo sua obra é enxuta, não obstante com possivelmente a maior proporção de grandes clássicos da música brasileira que qualquer outro compositor. Não temeria dizer que no caminho que conduz a música popular das modinhas derramadas do século XIX à síntese minimalista de um João Gilberto, o velho Dorival é um claro divisor de águas.
Na década seguinte (40) faz brotar inúmeras canções delicadas, de acompanhamento simples, para se ouvir no recolhimento, quando o rádio e o disco estão sendo invadidos pela sonoridade dos fox-trotes dançantes das big bands estadunidenses popularizados pelo cinema. E, finalmente, nos anos 50, quando o samba-canção ganhará o status de expressão musical oficial da classe média brasileira, criará alguns clássicos imorredouros do gênero, dominando com perfeição os temas românticos e as sonoridades intimistas, marcadamente urbanas, aperfeiçoando e superando como nenhum outro grande autor do gênero os paradigmas “bolerizantes” dos temas e melodias.
Na década de 70, aclamado pelas (hoje já não tão) novas gerações da música popular, Dorival Caymmi vai assumindo o papel que lhe cabe tão bem de grande patriarca dessa família musical que tantos belos frutos gerou. A resistência que alguns inexplicavelmente ainda lhe oferecem viria de seu sucesso? Viria do fato de ter conseguido viver dignamente de seu trabalho artístico e ter freqüentado os círculos da elite econômica e intelectual? Sim, porque inegavelmente, foi intérprete e compositor considerado e aclamado pelos seus contemporâneos de várias gerações, contrariando um paradigma demagógico que a tantos deleita: o do artista incompreendido e marginal.
Mil vezes salve Dorival Caymmi, nosso buda-nagô! Junto minha humilde prece à da Família Caymmi neste dia mágico e sensacional em que a alegria musical não nos cabe no peito, e rogo ao nosso pai Xangô:
Protege teu filho, obá de Xangô
Seu Obá Otum Onikoyi
Que tanto precisa
precisa de ti
Pro canto compor
Pra canto cantar
O canto em louvor
Das graças da flor
Da terra, do povo e do mar da Bahia
...
Protege teu filho,
teu filho Caymmi
Dorival Obá Onikoyi
E Stella Caymmi
A mãe de Dori, de Nana e Danilo
Que é musa e mulher
que é amor e amiga!...
* Fonte: Songbook Dorival Caymmi, Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1994
terça-feira, 27 de abril de 2004
Soneto para Eduardo
Coisa não há que mais hoje me espante
Nem maior gosto talvez proporcione
que ver os liames tecidos na insone
atalaia de oculto vigilante
A unir o que os caminhos põem distante.
E por mais que a longitude aprisione
Nenhuma força resiste o bastante
a esse anjo a nos servir de cicerone
Mas eis que se desvela a efígie ignota:
da emoção recôndita num lampejo
emerge dentre as brumas a garota
que nitidamente agora revejo
cacos de vidro em punho, triste e rota
trocados pr’uma pizza e por um beijo
segunda-feira, 26 de abril de 2004
Cravos da esperança
Cravos da Esperança
Ainda que com um dia de atraso, não poderia deixar de plantar aqui um cravo vermelho em homenagem aos 30 anos da derrubada da ditadura salazarista em Portugal, celebrados no dia de ontem.
Nosso Chico Buarque de Hollanda, inspirado pelos ventos da Revolução dos Cravos e imerso em um Brasil dominado ainda pelas trevas da ditadura, escreveu a primeira versão pouco conhecida do clássico Tanto Mar:
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
A canção foi censurada, obviamente. Liberada três anos após, Chico reescreveu a letra, algo decepcionado com os rumos da política portuguesa:
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, como é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim
Não houve jeito, o episódio remeteu-me à grande festa popular quando da vitória de Lula nas eleições de 2002. Não havia mais ditadura a derrubar, ninguém em sã consciência acreditava em revolução; mas o povo brasileiro encheu-se da esperança de que algo podia ser verdadeiramente transformado, não somente a partir do estado, mas pela recuperação da auto-estima e da liberação do enorme potencial criativo da nossa gente.
É cada vez menos ocultável a nossa decepção, sobretudo com a falta da ousadia e da criatividade que julgávamos seriam as grandes armas de reconstrução da nação. Mas, confesso-vos, ainda guardo renitente um velho cravo para mim. Cá estamos carentes, é verdade, mas não é possível que não tenham esquecido uma sementezinha sequer n’algum canto de jardim...
Ainda que com um dia de atraso, não poderia deixar de plantar aqui um cravo vermelho em homenagem aos 30 anos da derrubada da ditadura salazarista em Portugal, celebrados no dia de ontem.
Nosso Chico Buarque de Hollanda, inspirado pelos ventos da Revolução dos Cravos e imerso em um Brasil dominado ainda pelas trevas da ditadura, escreveu a primeira versão pouco conhecida do clássico Tanto Mar:
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
A canção foi censurada, obviamente. Liberada três anos após, Chico reescreveu a letra, algo decepcionado com os rumos da política portuguesa:
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, como é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim
Não houve jeito, o episódio remeteu-me à grande festa popular quando da vitória de Lula nas eleições de 2002. Não havia mais ditadura a derrubar, ninguém em sã consciência acreditava em revolução; mas o povo brasileiro encheu-se da esperança de que algo podia ser verdadeiramente transformado, não somente a partir do estado, mas pela recuperação da auto-estima e da liberação do enorme potencial criativo da nossa gente.
É cada vez menos ocultável a nossa decepção, sobretudo com a falta da ousadia e da criatividade que julgávamos seriam as grandes armas de reconstrução da nação. Mas, confesso-vos, ainda guardo renitente um velho cravo para mim. Cá estamos carentes, é verdade, mas não é possível que não tenham esquecido uma sementezinha sequer n’algum canto de jardim...
Se não têm pão, comam brioches...
Sinceramente, acho que desse aborto do jornalismo, a que por comodidade chamaremos “texto”, podemos extrair valiosas lições sobre o pensamento que domina um fatia considerável de nossas elites, explicitamente, e freqüenta mesmo o inconsciente coletivo de uma larga parcela da nossa população.
Trata-se de uma matriz de pensamento segundo a qual o acesso aos bens materiais deva ser guiado unicamente pelo desejo (no sentido mais hedonista do termo), que funciona como um motor psíquico a impulsionar as atitudes do sujeito, sem o qual estaria este condenado ao tédio eterno e mortal. Ora, tal concepção da realidade pressupõe, logicamente, que todas as necessidades primárias efetivas (assim entendidas aquelas coisas sem as quais a existência material não perdura – o ar, o alimento, o sustento material) estejam plenamente satisfeitas. Isto é, pois, nesse modelo, um dado. Por outro lado, a satisfação das assim chamadas necessidades secundárias (ou aquelas sem as quais a existência não se coaduna com as mínimas expectativas em relação ao uma concepção arquetípica da pessoa humana – a educação, a cultura, o lazer, a cidadania) passa a uma decorrência natural da existência primária. Isto é possível, obviamente, porque esse arquétipo humano é pensado a partir do padrão do próprio sujeito que engendra essa bela representação da realidade.
Assim, portanto, esse modelo pode conceber que o anseio pela terra, pela moradia, pelo trabalho sejam uma mera afetação psicológica, um capricho de quem não tem algo e se sente motivado a conseguir, para afastar seu vazio interior, assim como um colecionador de vinhs e sapatos. Ou, por outro modo, se nunca me passou pela cabeça que um ser humano não tenha as necessidades mais elementares satisfeitas por obra e graça da ordem natural das coisas, automaticamente eu tendo a considerar que problemas como não ter o que comer ou onde dormir não possam estar na pauta de preocupações elementares dos humanos como eu. A conclusão, ainda que não formulada, não pode ser outra: os que se debatem com essas primárias e insatisfeitas necessidades não partilham da minha natureza, ou são uma anomalia na ordem natural. A partir daí, também não segue que devam ter atendidas as suas demais necessidades, pois o padrão de expectativa não lhes é aplicável.
A formulação pode parecer, a alguns, forte nas tintas. Mas já não viram vocês gente doando roupa velha que nem pra pano de chão serviria, justificando: “essa gente não liga pra essas coisas...”? Ou seja, ESSA gente não é a nossa gente que come, dorme, se veste, vai à escola, ao médico e trabalha. É uma outra gente...
A outros, o argumento pode parecer prolixo demais. Mas eu justifico o esforço. Não posso de outro jeito compreender como uma criatura que dispõe das ferramentas de um jornal do tamanho de “O Globo” possa comparar a necessidade de terra para trabalhar, comida e trabalho a um “apetite psicológico” por um vinho ou um sapato caro. A não ser, por óbvio, que a autora considerasse que as oportunidades na sociedade brasileira são iguais para todos e que os que não têm condições mínimas de trabalho, saúde, alimentação e moradia devam isso à sua pouca disposição ou habilidade para ganhar dinheiro. Mas eu tendo mais a acreditar em abjetas deformações ideológicas do que em simples burrice e estupidez em tamanho grau. Soa-me benevolente demais com quem não merece.
sexta-feira, 23 de abril de 2004
Dia de São Jorge Pixinguinha Vianna de Ogum
O meu Rio de Janeiro está em festa. Feriado na cidade, dia de São Jorge, sincretizado com Ogum (na Bahia, o santo representa Oxóssi). Ferve o Campo de Santana, fervem os terreiros. E Quintino, então...
Ah!, que vontade de ir pra concentração na Vista Alegre, casa do bom Camunguelo... Pra depois assistir a missa das 7h00, já de fogo, e depois encostar naquelas barraquinhas, esticar pelos butiquins de Cascadura, até as pernas agüentarem. Ouvir aquelas histórias e haja flauta... E haja fé!
Dia de Pixinguinha, dia do choro. Dia de rezar. Dia de ouvir. De beber de cantar.
Canta, Moacyr!
Medalha de São Jorge
(Moacyr Luz / Aldir Blanc)
Fica ao meu lado, São Jorge Guerreiro
com tuas armas, teu perfil obstinado
me guarda em ti, meu Santo Padroeiro
me leva ao céu em tua montaria
Numa visita a lua cheia
que é a medalha da Virgem Maria
Do outro lado, São Jorge Guerreiro
põe tuas armas na medalha enluarada
te guardo em mim, meu Santo Padroeiro
a quem recorro em horas de agonia
tenho a medalha da lua cheia
você casado com a Virgem Maria
O mar e a noite lembram a Bahia
orgulho e força, marcas do meu guia
conto contigo contra os perigos
contra o quebranto de uma paixão
Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge me guarde no coração
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
e muita vez tem ar de anjo
e garras de dragão
Som de Prata
Moacyr Luz / Paulo César Pinheiro)
Nasceu no Rio de Janeiro
Dia do Santo Guerreiro
Naquele tempo que passou
Foi o maior mestre do choro
Tinha um coração de ouro
E que bom compositor
Foi Carinhoso e foi Ingênuo
E na roda dos boêmios
Sua flauta era rainha
E em samba, choro e serenata
Como era doce o som de prata, doutor
Que a flauta tinha
O embaixador desta cidade
Meu Deus do Céu, ai! que saudade que dá
Do velho Pixinguinha
Veio da terra de Zambi, sangue de malê
De uma falange do Rei Nagô
Filho de Ogum, de São Jorge, do batuquejê
De Benguelê, de iaô, Rainha Ginga
É que sua avó era africana
A rezadeira de Aruanda, vovó, vovó cambinda
Só quem morre dentro de uma igreja
Vira orixá, louvado seja, Senhor!
Meu Santo Pixinguinha
Ele é de Benguelê
Ele é de iaô
E do batuquejê
Ele é do Rei Nagô
Tem sangue de malê
É banto sim sinhô...
sábado, 17 de abril de 2004
Há certa tristeza indizível e íncita que independe de específicos estares.
Essa tristeza perene que é a contraposição necessária do esplendor da vida e filha da finitude jaz subjacente em cada nosso movimento. E por estranha e magnífica confluência, expressa-se acentuadamente no mais íntimo de todas as manifestações genuínas do espírito brasileiro. “A tristeza é senhora”. E embora independa dos risos e sisos, manifesta-se positivamente na forma dessa nossa melancolia vaga.
A Floresta, em toda sua solidão imensa de rios e verdes sem fim, incorpora essa melancolia nos seus falares e cantares. O país e o mundo deslumbram-se com os róseos geraísmos, compreensivelmente. Mas um país que não olha seu umbigo não olhará jamais seus recônditos íntimos. A Amazônia é o sexo do Brasil, país mulher. O falar do caboco ribeirinho é o som mavioso que ecoa dos ocos férteis e olorosos, inebriantes.
E não se entendem sem um acostume. Iniciação é pouco. Pede-se uma dedicação, uma entrega, um sacrifício. Há que se navegar, e que se prosear e que se fumar, nas distâncias invencíveis, nos silêncios intermináveis.
E porque hoje as frutas e as linhas e o coração afloram-se-me rachados (e agora sabereis por que, ai!), ofereço-vos. Ela saberá. A mastigação é presente de sabiá-pai.
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Para a identificação gráfica da maneira de falar dos cabocos amazônicos, que misturam ao português termos de origem africana e indígena, originando sortidas formas de alterações fonéticas características, são aqui utilizadas de forma definida e diversa do original, segundo abaixo:
- o apóstrofe registra pronúncia sempre vibrante do “r” (herança tupi) . É também usado no início de palavras para indicar supressão de fonemas.
- trema expressa a pronúnica do “o” ou do “e” com seus valores originais e não os semi-vocálicos “u” e “i”
- repare-se a modificação do ditongo “ou” para um som localizável entre o “o” e o “u”, de difícil precisão
Fruta Rachada
(Walter Freitas e Joãozinho Gomes)
Më enveredu pula ‘ribêra
paresque inté pros Araguai-ai
mundo é tu quë leva as andadêra
‘strela dö Nor’te deitu, ai
me deixu fruta ‘rachada
im cada pé dë dur‘ cresceu
um araçá de cor morena ‘strada
Nas planta cá bem dentro d’eu
më enveredu pula ‘ribêra
paresque inté pros Araguai-ai
mundo é tu quë leva as andadêra
noite incendiada im nos arraiá
me deixú fruta ‘rachada
era os acúcar‘ dos biribás
‘strela do Nor‘te, manhã ‘raiada
‘scanchu-se fêmea nos ingás
Tambur truveja as bor‘dadêras
truveja, ê boi ‘relevantú
Perobo é quem xingu-me feia ê
Zé Breu bor‘da ‘strelas pro Nhô
Ar‘ruma Chica das Candeias
traz pinga, a tar‘ lá do Nestur
traz fita, traz muié festêra, ê,
depressa, onça inté já roncú
Pula patêxa du-te minhas mãos
vi num dos seios jor‘ro enfim ruim
ë o puço ‘stranho que eu não vi
fez ‘rio de mágoa n’água dë mim
Ai, ai, me beija pulo tudo amur‘
danei no mundo ‘sim que te per‘di
a fim do fundo o poço ë a dur‘
me dero abrigo ah sigo me vú!
Andu pur‘ tudas muitas léguas
meu cor‘po im mim num‘de avexar‘
meu cor‘po em flor‘ mur‘chosa aber‘ta ë
- três vez lembrei dos matagá
pavures im fina’r de festa
tremures dentro um temporá
dë puraqué de punho um resto, ê,
tar’vez me vor‘te a te encontrar‘
Pula patêxa du-te minhas mãos
vi num dos seios jor‘ro enfim ruim
ë o puço ‘stranho que eu não vi
fez ‘rio de mágoa n’água dë mim
Ai, ai, me beija pulo tudo amur‘
danei no mundo ‘sim que te per‘di
a fim do fundo o poço ë a dur‘
me dero abrigo ah sigo me vú!
‘scurume im nos meus alguidares
irapuru assubinhadur
vaçuncê tece as acanitares
aluá nö pote aluou
Se asserene mas se asserene
meu coração, sumano, cantur‘
dereiereiereieridene
amur, meu amur, meu amur
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Më enveredu pula ‘ribêra... – essa toada de boi, de amor e despedida, abre mostrando os caminhos dos amantes que se separam
paresque inté pros Araguai-ai - o Rio Araguaia lastimado pelo amante que fica na imensidão de sua ribeira. Está perdida a amada.
‘strela dö Nor’te deitu, ai – imagem que marca o tempo decorrido desde a partida, pelo movimento dos astros do céu
fruta rachada – crença bastante arraigada na cultura nortista de que a mulher, subindo em uma árvore, faz com que seus frutos passem a nascer rachados. Evidente louvação do sexo feminino e a influência que se lhe atribui.
im cada pé dë dur‘ cresceu – a transposição do movimento objetivo do crescimento da natureza, para a realidade subjetiva do amante abandonado, fornece a dimensão extra dessa relação do homem amazônico com a criação e destruição à sua volta.
Noite incendiada – introduz-se a situação das festas juninas com suas fogueiras e arraiais, cenário da história
‘scanchu-se fêmea nos ingás – mais uma vez a influência do sexo feminino sobre o abrir-se das frutas
Tambur truveja as bor‘dadêras – tambores são as barricas usadas pelos tocadores de boi-bumbá. Os personagens animam os bastidores do terreiro empenhados em dar os últimos retoques nas inumentárias, nas músicas e nos demais detalhes da brincadeira. O boi se prepara para ir às ruas. O trovejo das barricas avexa as mulheres para que tudo fique pronto a tempo.
ê boi ‘relevantú – o boi que descansa no meio do tambor (terreiro) levanta-se para brincar, tendo embaixo o “tripa”, figurante considerado “a alma” do bicho.
Perobo – fresco, viado, na linguagem caboca. Figura freqüente nas brincadeiras de boi, reagindo e dizendo que perobo é quem o xingou de feia.
Xingu-me – o sotaque caboco transforma a palavra no nome do rio, reintroduzindo o tema da separação e da distância
Zé Breu bor‘da ‘strelas pro Nhô – um homem borda estrelas para outro. Erotismo sutil subjacente no trabalho poético, retratando um elemento homossexual presente na brincadeira do boi.
Chica das Candeias – negra cujo poder de iluminar as almas valeu-lhe o apelido.
onça inté já roncú - “onça” é a denominação da puíta ou espécie de cuíca usada nas funções de boi, de som grave e profundo como o ronco de um animal
Pula patêxa du-te minhas mãos – a pateixa e umapeça de ferro, com três ganchos, usada para retirar baldes e outros objetos que caem nos poços. Comparação com as mãos do amante tentando resgatar a amada
vi num dos seios jor‘ro enfim ruim – para ela conta-se definitiva separação:o jorro dos sentimentos que se turvam e se transformam na dor da perda irreparável
ë o puço ‘stranho que eu não vi – desse estranho poço que de repente se abre à sua frente brota um rio de mágoa
Ai, ai, me beija pulo tudo amur‘ – “esquematiza-se a seqüência de um dialogo. O homem volta a falar, embora os dois não se achem face a face. Ele tam,bém parte ao conhecer que a perdeu e acha abrigo na dor e no fundo poço de seus sentimentos. Abate-se o tempo sobre a história de amos dos dois: a memória e o próprio corpo em flor se desvanecem. Todos os pavores de um fim inexorável se realizam”
dë puraquê de punho um resto – referência a uma crença de que a introdução de um pedaço do rabo do puraquê no punho confere força descomunal ao indivíduo
‘scurume im nos meus alguidares – a mulher retorna à narrativa, assim como a calmaria ao quotidiano. Os alguidares escurecem-se pelo açaí ali batido, o pássaro canta, os ornamentos de cabeça (acanitares) voltam a ser tecidos, o aluá está pronto. A serenidade volta ao coração. Reforça-se o sentimento cíclico e de retorno tão presente na cultura amazônica.
Fonte: Disco Tuyabae Cuaá (1987) do compositor paraense Walter Freitas
quinta-feira, 15 de abril de 2004
"Posso me identificar?"
Serão impressionantes as cenas da violência no morro da Rocinha nos últimos dias? Sinceramente, conseguímo-nos ainda impressionar com a guerra que se incorporou definitivamente ao nosso cotidiano?
Talvez ainda nos impressione a trajédia “vista assim do alto” dos seiscentos mil assassinados em 20 anos, e dos mais de dois milhões de mortes violentas, encampados os números do trânsito e dos suicídios, em números oficiais do IBGE. Números eloqüentes de uma guerra que há muito deixou de ser surda.
A comparação com a guerra declarada no Iraque não é minha – é do JB de ontem – e nem é nova. Em 09 de abril de 2003, há exato um ano, escrevia um texto que republico abaixo, justamente traçando um paralelo entre a guerra de lá (então supostamente acabada...) e a de cá (no auge da onda de ataques das supostas milícias do tráfico às posições policiais). Mudem o “2003” pelo “2004”. O cenário desolador, desértico, é rigorosamente o mesmo.
E é por isso que concito vivamente os amigos do Rio de Janeiro, que encampem a idéia da manifestação de amanhã, sexta-feira (16/04), a partir das 14h00, no Largo do Machado, sob o eslogan “Posso me identificar?”. Trata-se de uma iniciativa de jovens lideranças de comunidades de várias regiões da cidade, chamando a atenção para o abandono e o descalabro em que suas vidas encontram-se mergulhadas, sem assistência médica, sem escola, sem trabalho, acossados pela violência social e pela truculência policial. Estarei espiritualmente presente, mas gostaria muitíssimo que muitos de vós me pudessem representar de corpo presente.
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Guerra nossa
Fernando Szegeri
Fui à rede esta manhã em busca de informações sobre o boato de fim da guerra na longínqua Bagdá. Mas meus caminhos detiveram-se no noticiário sobre mais uma madrugada de extrema violência nas ruas da cidade do Rio de Janeiro.
Este texto não almeja poesia, nem filosofia e sequer se propõe a instar a vossa comoção, é importante que isto esteja claro. É apenas uma conclamação a que deixemos de escamotear a evidência gritante dos fatos. Evidência que nos massacra ao destruir as representações de nós mesmos a que nos acostumamos - por motivos os mais variados -, impedindo assim que nos reconheçamos e, por conseqüência, possamos operar a distinção fundamental entre “o que somos” e “o que não somos”. Gostaria de que o lêsseis com a mesma serenidade grave de que tento me cobrir ao escrevê-lo.
Cresci acompanhado da idéia tão disseminada quanto difusa de que um dia “o morro desceria e não seria carnaval”. Assim como no samba, a idéia se manifesta socialmente de variadas formas: “isso aqui só vai ter jeito com uma revolução”; “qualquer dia que o povo se cansar, vai ser uma guerra civil”; e por aí. Concomitantemente, compartilhamos a convicção que “alguma coisa deveria ser feita”, que “essa situação não pode perdurar”, ou. que “o nível de nossa miséria é insuportável”. Entretanto, a idéia de transformação radical, de “revolução”, de “guerra” sempre esteve associada à de “redenção”, de triunfo das forças legítimas, de afirmação “da vontade do Povo”, do banimento das injustiças. Sim, o “Povo”, este estranho não-sujeito social, sem face, sem ideologia, sem contradições ou divisões, o escatológico messias salvador.
Mais do que gostaríamos de admitir, somos colonizados por um idealismo que enxerga a história caminhando para o triunfo da razão civilizatória, donde os momentos de barbárie nada mais são do que a necessária antítese a ser dialeticamente superada. Sempre senti que as idéias de falência geral, de guerra generalizada, de colapso absoluto não habitavam o conjunto das nossas representações do real ou do possível, antes figurando como uma espécie de anti-utopia, condensando a imagem do indesejável de maneira simbólica, mas não como uma ameaça real, numa espécie de adolescentismo psico-social. Porém, mais difícil do que incorporarmos a realidade da guerra civil deflagrada nas nossas ruas, por sobre paisagens que nos são tão caras e familiares, é encararmos que as armas tenham sido definitivamente empunhadas não pela mão redentora e mítica do “Povo”, em nome da Justiça, mas pela escória abjeta, dividida, contraditória, em nome da vingança e da destruição, ou em nome de nada. Não poderemos jamais encarar a realidade de que esta guerra não esteja orientada para instaurar a Civilização Justa, mas a barbárie completa, a destruição e a morte da sociedade.
Não há mais como e nem porque dourar a pílula de nossa triste realidade: a guerra civil está entre nós instaurada. Remeto-vos ao sítio virtual do jornal “O Globo On Line” e peço que compareis serenamente os fatos estampados nos noticiários de hoje com os dos conflitos congêneres mundo afora. Nas zonas norte e oeste do Rio de Janeiro, que representam a maioria esmagadora da área da cidade, há muito instaurou-se o toque de recolher, expresso nas favelas, tácito nas ruas. Ônibus e carros são atacados diariamente, assim como quotidianos são os ataques de milícias armadas a postos e guarnições policiais. Patrulhas são interceptadas nas ruas. O número de mortes violentas é estatisticamente comparável a zonas de conflito declarado. Não, não temos e não teremos centenas de milhares de tutsis, hutus ou curdos incinerados em poucos dias. Isto não tira de nossa situação o estatuto de guerra civil declarada.
Ora me direis nada lucrarmos com o reconhecimento formal da guerra, ou que meras rotulações não influenciariam no curso da realidade instaurada. Não creio. Há conseqüências desde jurídicas até simbólicas, todas permeadas pela indelével dimensão política. Entre as primeiras, notabiliza-se a possibilidade de decretação do estado de defesa, do estado de sítio e/ou da intervenção federal, todas medidas constitucionalmente previstas e harmônicas, malgrado anômalas, com os princípios do estado democrático de direito. Mas são os efeitos simbólicos que mais nos interessam. Quem sabe, pela primeira vez despojados violentamente dos andrajos ideológicos que desde sempre encobriram a escandalosa e impudica nudez moral de uma sociedade construída sobre a exploração exauriente da grande maioria por uns poucos, possamos enfim perfilarmo-nos para o combate, não contra um nosso semelhante, mas contra a própria guerra em si, alegoria pavorosamente real de nossa miséria.
(09 de abril de 2003)
quarta-feira, 14 de abril de 2004
Soneto para Cristina
Por mais que sempre tente e queira
Não impeço que a lembrança me visite
Dos cachinhos rolando a ribanceira -
maldade de menino sem limite
Não é mais velha, sequer caçula – vixe!
Sofre bem mais a filha sanduíche!
Mas por mais que de dois lados apanhe
Sempre foi preferidada da mamãe
Hoje longe de nós, em outra cidade
Na montanha gelada – miserere!
Casada – pode? – com um carabinieri
Faz com que mais torçamos contra a Itália
Embora saibamos felicidade
ser coisa que em toda vida mais valha
segunda-feira, 12 de abril de 2004
Araguaia Vermelho
Há exatos 32 anos, iniciava-se na região banhada pelo Rio Araguaia o maior levante armado organizado de resistência à ditadura militar brasileira instaurada em 1964. O Grande Rio viu, durante dois anos e meio, suas águas tingirem-se do rubor do ideal e do sangue de jovens brasileiros conscientes da necessidade histórica de se opor à barbárie inaceitável do obscurantismo oficial, financiado pelos interesses do grande capital e apoiado por boa parte da classe média que se refastelava numa falsa pujança que apresentaria sua conta anos depois.
Peço encarecidamente a vocês que, não só em nome de um compromisso com a justiça e a decência que queremos imperem um dia no Brasil, mas também da dívida que temos com uma história falseada, escondida e manipulada, leiam o artigo profundo e emocionado de hoje do historiador comunista Augusto Buonicore, publicado no Portal Vermelho.
Leiam, como eu li e guardei. Para aquelas horas em que temos a tendência de menoscabar a dimensão cruel e covarde do regime repugnante e desprezível impingido pelos militares sob o aplauso de muitos que hoje posam de defensores da democracia e da liberdade.
quarta-feira, 7 de abril de 2004
S.E.M.P.R.E.
Amigos, sinto que até os quatro cavaleiros do Apocalipse me querem abandonar. Também, pudera. Sei que ando negligente para convosco e dói, sobretudo, e não só quando rio. Mas saibam que não é por falta de disposição em aborrecer-vos, tampouco por falta das minhocas a caraminholar o solo das idéias, antes pela exacerbação recente da extração de mais-valia a partir da minha força de trabalho pobremente prostituída, menos dignamente que nas calçadas.
Mas, para alegrar a vossa Semana Santa , não vos perturbarei com temas acres e descoloridos. Falarei sobre a única coisa sobre a qual realmente entendo alguma coisa.
Sim, porque sabidamente, sou um sujeito que discorre sem muitos problemas sobre uma gama reconhecidamente vasta de assuntos. Eu sou daquele tempo antigo em que a gente aprendia as coisas vivendo aqui um tiquinho, lendo um jornal ali, uma enciclopediazinha pra tirar as dúvidas. Os títulos mais robustos quase sempre a esmo, sem preocupações mais nobres que não os interesses evidenciados pelos humores mais despertos na hora de entrar na livraria.
Mas como todo mundo que entende um pouquinho de um monte de coisas, me estrepo se o convite envolve mergulho em águas mais profundas. Sou um estrangeiro nessa vasta pátria de especialistas capazes de discorrer horas a fio sobre a volubilidade comportamental das mitocôndreas das células hepáticas dos canários belgas machos. É de temperamento. Também danço mais ou menos, toco violão mais ou menos, cozinho mais ou menos.
Há, entretanto, uma matéria, apenas uma única, sobre a qual considero-me conhecedor profundo, ombreado com os grandes “experts” mundiais, exigindo, portanto, respeito e reconhecimento. Uma área pela qual transito, modestamente, com a elegância de um Sócrates, a força de um Rivelino e a autoridade de um Luís Pereira. Trata-se daquele ramo da ciência que estuda o fenômeno “bar” (também conhecido como ‘butiquim”) e todo o sistema de relações que o envolve e implicações que gera, com as sub-áreas afetas a essa complexa seara do conhecimento humano, a saber: o beber (que difere da bebida, em si), o comer, o petiscar, o tratar os garçons e proprietários, o prosear, o discutir, o arrumar encrenca na hora certa, o chegar em casa depois etc., etc.
Como pudestes já perceber, orgulho-me deste conhecimento sólido, vasto e estribado, fruto de prática intensa, reflexão profunda e, sobretudo, incessante intercâmbio científico, posto que talvez em nenhuma outra área do saber o conhecimento tenha um caráter tão coletivo. Papai, por óbvio, partilha desse orgulho, mestre que foi nos meus primeiros caminhos e ele mesmo um PhD reconhecido no metiê. Não se pode dizer o mesmo de mamãe...
O fato que motiva este festivo relato, porém, é diverso, embora conseqüente. É que encontrei nas minhas muitas jornadas por esse universo maravilhoso de papos-furados, álcoois, frituras e mijadas anti-higiênicas, meia-dúzia de criaturas que não só partilham o meu nível de conhecimento, mas sobretudo a paixão derramada e militante pelo engrandecimento desse repositório de sapiência tão brasileira que é o bar. Amantes como eu dos rituais próprios desse espaço, fundaram uma Confraria de iniciados, com estatuto, plano de carreira e liturgias severas: a Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos - S.E.M.P.R.E . Tudo costurado pelo fio inquebrantável de uma amizade atroz, as reuniões desses profissionais da arte de butecar só podem ser uma usina voluptuosa de idéias, canções, porres, confissões, afetos, chorumelas, discussões, brigas, ou seja, tudo o que cerca uma vida devotada verdadeiramente ao butiquim.
Assim é que, regularmente indicado e admitido “nas regras da arte”, tomarei posse no corrente mês de abril, na condição muitíssimo honrosa e envaidecedora de primeiro confrade não carioca, pelo menos de nascimento e/ou residência. Trata-se, em primeiro, da solidificação de uma amizade fraternal que me uniu a Eduardo Goldenberg, estendeu-se a Fernando Goldenberg e agora espalha-se lenta e fortemente a Vidal (a Lenda), Malavota, Dalton e Zé Colméia. Em segundo, do reconhecimento público de minha inequívoca competência na matéria, evidenciado na concessão do grau de bebum, que mais uma vez orgulha papai e preocupa mamãe.
O que se seguirá em minha vida, daqui por diante, caríssimos, não saberei dizer. As idas mensais e relâmpagos ao Rio serão inevitáveis. Que venham os porres, certos e esplendorosos; as choradeiras, declarações, polêmicas e brigas. Tudo registrado e reduzido a termo, assinado quando lido e achado conforme. Porque nos dias que vão, como bem disse o Poeta, “há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber”.
segunda-feira, 5 de abril de 2004
Amigos, empresto do Poetinha o retrato sem retoques do meu dia, do meu momento. Do meu ser. E de quebra, um abraço saudoso para o maior dos meus mestres.
Mensagem a Rubem Braga
Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento. Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que têm havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo-sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
(Vinícius de Moraes, in Antologia Poética - 2ª ed. aumentada, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960)
Mensagem a Rubem Braga
Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se agüenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na Rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo. Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento. Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que têm havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo-sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo Capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
(Vinícius de Moraes, in Antologia Poética - 2ª ed. aumentada, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960)
quarta-feira, 24 de março de 2004
Ninguém aprende samba no colégio
O samba vive um momento privilegiado no que tange a visibilidade para o público em geral, o que implica em incremento do consumo (de discos, shows, rodas etc.) e conseqüente oferta de trabalho para músicos, autores etc. , salutar por todas as formas. Os que vivemos o dia-a-dia desse mundo, sabemos que assim foi em outras épocas, o que não impediu que sobreviessem fases de ostracismo e dificuldades. Com efeito, o samba nunca foi tratado pelos porta vozes a “oficialidade” como o patrimônio cultural fundamental do povo brasileiro que realmente é, muito pelo contrário. Aproveitam dele quando interessa e “dá retorno” depois encostam no canto até precisarem de novo, no melhor estilo “só na hora da sede é que procuras por mim” (salve Monsueto!). Afortunadamente, a fonte é tão caudalosa e arraigada no seio do nosso povo, que mesmo nos tempos de seca os cursos d’água minguam, mas não chegam a secar.
Essas fases de expansão do samba no mercado cultural, portanto, coincidem com uma aproximação maior das elites com o mundo do samba. Foi assim na década de 30, quando as classes médias passam a consumir o samba “dos morros” pelo rádio e pelo disco e impulsionam a explosão da popularidade das escolas de samba no carnaval. Foi assim na década de 60, quando o estreitamento do espaço cultural pela repressão e vigilância política impele a juventude da Zona Sul para as casas de samba e terreiros de escola no centro da cidade e nos subúrbios. Está sendo assim na explosão das rodas de samba pelas adjacências da Lapa carioca, pelo grande afluxo de público a casas “temáticas” voltadas para o samba na cidade de São Paulo, pelo enorme aceitação de Zeca Pagodinho até mesmo nas classes altas etc.
Mas, como dito acima, o “sucesso” nunca garantiu ao samba o reconhecimento efetivo e perene que ele merece enquanto expressão maior da especificidade musical brasileira. Ou seja, a expansão do consumo dos produtos musicais ligados ao universo do samba, por si só, nada garante relativamente ao histórico descaso e à marginalização marcadamente ideológica relativa ao gênero - comumente associado às classes baixas e à cultura negra (pejorativamente), quando não à malandragem e à marginalidade -, se não refletir uma efetiva formação de platéias aptas a compreender essa forma da arte musical popular do povo brasileiro como expressão maior de toda uma cultura, que traduz formas específicas de sociabilidade, comportamento, ética, visão de mundo etc.
Como sempre lembra mestre Nei Lopes, o samba é um saber iniciático, no que espelha inequivocamente, aliás, a matriz cultural africana. Não se compreendem seus significados, suas regras e sobretudo seus mistérios, se não se progride na experienciação paulatina desta ampla gama de sutilezas que permeia as relações, os rituais, os ambientes em geral desse universo.
Portanto, para que o samba possa aumentar o número de seus adeptos cativos, insusceptíveis aos ventos efêmeros dos modismos, é preciso que se ofereça a este publico que se aproxima do “produto final” do mundo do samba a procura de mero entretenimento condições para que ele compreenda os diversos outros elementos a envolver esta expressão cultural tão singular.
Talvez seja difícil precisar, no âmbito estreito da discussão que aqui colocamos, quais especificamente sejam estas condições, mesmo porque abrangem sutilezas cujo entendimento também pressuporia um grau de iniciação. Mas é possível identificar com maior facilidade, por exemplo, onde comparativamente estas condições estão mais presentes. Com efeito, nas rodas de samba que em São Paulo formaram-se em torno dos movimentos de valorização do samba tradicional, marcados duplamente pelo culto fiel às tradições e à memória do samba, por um lado, e pela valorização de novos compositores, por outro, observa-se a formação de verdadeiras comunidades, marcadas por laços de identidades sociais e geográficas, sim, mas sobretudo de devoção ao nosso ritmo maior.
Some-se a isso o espírito que tem norteado novas (e outras já não tão novas) iniciativas no circuito do samba paulistano e observaremos um cenário mais promissor, segundo a óptica que aqui buscamos adotar, do que no carioca, o que pode constituir curiosa inversão de uma tendência histórica. Ao circular por um circuito que ainda atrai, relativa ou absolutamente, um público maior do que em São Paulo, não tenho sentido predominar na mesma proporção as condições para formação de platéias que atravessem as meras tendências de momento. É sabido que as umbilicais ligações histórico-geográficas da cidade com o universo do samba, a identificação do ritmo como expressão natural e privilegiada do modo carioca de ser, o contato permanente com as tradições representadas pelos baluartes dessa cultura específica etc. facilita enormemente as coisas. Mas é essa mesma naturalidade que pode, paradoxalmente, vir a tornar mais difícil a percepção a que me refiro, isto é, da ausência de condições para um envolvimento mais substancioso e, por conseqüência, mais perene com o gênero.
Como se trata de uma percepção subjetiva difícil de justificar precisamente, só o tempo a confirmará ou desmentirá. Alertando, estou tão somente buscando cumprir mais fielmente meu papel de elo transmissor da tradição que recebi dos antigos e pretendo legar aos que vierem depois. Compreender-me-ão os iniciados.
Essas fases de expansão do samba no mercado cultural, portanto, coincidem com uma aproximação maior das elites com o mundo do samba. Foi assim na década de 30, quando as classes médias passam a consumir o samba “dos morros” pelo rádio e pelo disco e impulsionam a explosão da popularidade das escolas de samba no carnaval. Foi assim na década de 60, quando o estreitamento do espaço cultural pela repressão e vigilância política impele a juventude da Zona Sul para as casas de samba e terreiros de escola no centro da cidade e nos subúrbios. Está sendo assim na explosão das rodas de samba pelas adjacências da Lapa carioca, pelo grande afluxo de público a casas “temáticas” voltadas para o samba na cidade de São Paulo, pelo enorme aceitação de Zeca Pagodinho até mesmo nas classes altas etc.
Mas, como dito acima, o “sucesso” nunca garantiu ao samba o reconhecimento efetivo e perene que ele merece enquanto expressão maior da especificidade musical brasileira. Ou seja, a expansão do consumo dos produtos musicais ligados ao universo do samba, por si só, nada garante relativamente ao histórico descaso e à marginalização marcadamente ideológica relativa ao gênero - comumente associado às classes baixas e à cultura negra (pejorativamente), quando não à malandragem e à marginalidade -, se não refletir uma efetiva formação de platéias aptas a compreender essa forma da arte musical popular do povo brasileiro como expressão maior de toda uma cultura, que traduz formas específicas de sociabilidade, comportamento, ética, visão de mundo etc.
Como sempre lembra mestre Nei Lopes, o samba é um saber iniciático, no que espelha inequivocamente, aliás, a matriz cultural africana. Não se compreendem seus significados, suas regras e sobretudo seus mistérios, se não se progride na experienciação paulatina desta ampla gama de sutilezas que permeia as relações, os rituais, os ambientes em geral desse universo.
Portanto, para que o samba possa aumentar o número de seus adeptos cativos, insusceptíveis aos ventos efêmeros dos modismos, é preciso que se ofereça a este publico que se aproxima do “produto final” do mundo do samba a procura de mero entretenimento condições para que ele compreenda os diversos outros elementos a envolver esta expressão cultural tão singular.
Talvez seja difícil precisar, no âmbito estreito da discussão que aqui colocamos, quais especificamente sejam estas condições, mesmo porque abrangem sutilezas cujo entendimento também pressuporia um grau de iniciação. Mas é possível identificar com maior facilidade, por exemplo, onde comparativamente estas condições estão mais presentes. Com efeito, nas rodas de samba que em São Paulo formaram-se em torno dos movimentos de valorização do samba tradicional, marcados duplamente pelo culto fiel às tradições e à memória do samba, por um lado, e pela valorização de novos compositores, por outro, observa-se a formação de verdadeiras comunidades, marcadas por laços de identidades sociais e geográficas, sim, mas sobretudo de devoção ao nosso ritmo maior.
Some-se a isso o espírito que tem norteado novas (e outras já não tão novas) iniciativas no circuito do samba paulistano e observaremos um cenário mais promissor, segundo a óptica que aqui buscamos adotar, do que no carioca, o que pode constituir curiosa inversão de uma tendência histórica. Ao circular por um circuito que ainda atrai, relativa ou absolutamente, um público maior do que em São Paulo, não tenho sentido predominar na mesma proporção as condições para formação de platéias que atravessem as meras tendências de momento. É sabido que as umbilicais ligações histórico-geográficas da cidade com o universo do samba, a identificação do ritmo como expressão natural e privilegiada do modo carioca de ser, o contato permanente com as tradições representadas pelos baluartes dessa cultura específica etc. facilita enormemente as coisas. Mas é essa mesma naturalidade que pode, paradoxalmente, vir a tornar mais difícil a percepção a que me refiro, isto é, da ausência de condições para um envolvimento mais substancioso e, por conseqüência, mais perene com o gênero.
Como se trata de uma percepção subjetiva difícil de justificar precisamente, só o tempo a confirmará ou desmentirá. Alertando, estou tão somente buscando cumprir mais fielmente meu papel de elo transmissor da tradição que recebi dos antigos e pretendo legar aos que vierem depois. Compreender-me-ão os iniciados.
segunda-feira, 15 de março de 2004
Aznar dele
Fernando Szegeri
O povo espanhol deu nas urnas a resposta que estava nas vontades de todo o mundo. O adesismo focinhante do fâmulo José María Aznar à paranóia mercenário-beligerante estadunidense mereceu a vergasta que todos os democratas gostaríamos de empunhar e que agora parte ao encalço da dupla B&B.
Ainda que fosse remotamente possível abstrair o horror insano do 11 de março, não creio que o resultado seria outro. A tragédia selou fatidicamente o desfecho da disputa, não só pelo repúdio ao terrorismo em todas as suas formas - incluído o apoiado pelo gabinete do PP espanhol no Iraque - mas sobretudo pela grotesca tentativa do governo de a todo custo responsabilizar o ETA pelo ataque em Madri, contrariamente às mais gritantes evidências. A mais básica delas parece que passou despercebida da maioria das análises (confirmando uma tese conhecida de Sherlock Holmes): qual interesse teria a organização basca de promover um atentado dessas proporções e não assumir (ou negar) a autoria? O significado político das ações do ETA reside unicamente na demonstração do que será capaz em caso de não atendimento às suas reivindicações. Um ataque anônimo absolutamente não faz parte do menu de atrocidades habitualmente oferecido pelos extremistas euscaros.
A insistente e inconsistente responsabilização do ETA pelo governo espanhol, assim, representou uma ignóbil tentativa de expiação de culpas, como se o premiê pudesse, com mais uma mentira, aliviar o peso que certamente lhe estará atormentando o sono bem mais do que a própria derrota. Não importa que vis motivações (econômicas ou políticas) tenham-no impelido ao seu lamentável apoio à recente invasão estadunidense ao Iraque. A incerteza sobre o nexo de causalidade entre seu ato e a absurda ceifa de tantas vidas humanas é certamente uma carga muito além do que qualquer espírito humano possa suportar. Mas o eleitorado espanhol não se deixou comover pela indigência humana do rastejante Aznar e aplicou, implacável e exemplarmente, a palmatória da democracia.
Aos grupos fundamentalistas partidários do terror interessa incorporar-se a dúvida aos efeitos das suas monstruosidades. Interessa-lhes que pese no espírito das vítimas a incerteza sobre motivações e autorias, para que se tema a todo instante, para que o pânico e a insegurança dominem os espíritos. Ninguém sabe quem será a próxima vítima, nem o local do próximo ataque, porque não se vê e não se conhece o inimigo, nem as suas reais motivações. Paira sempre a advertência diáfana aos que se contrapuserem às causas que elegem. Então, nas mentes tão dilaceradas quanto os corpos, viverá eternamente o terror.
Ao deixarmos nossos espíritos dominarem-se e acabrunharem-se pelo medo, porém, estaremos dando aos bárbaros a coroa de louros desta prova macabra. Não se pode deixar ofuscar a luz que brilha em cada um de nós, expressão ao mesmo tempo singular e universal do mais incrível fenômeno do Universo, sob qualquer ponto de vista que se encare: a Humanidade, esse impressionante coletivo que produziu todo um mundo de conhecimento, sabedoria e beleza, a despeito do mal que nos habita intrínseca e dialeticamente.
Irmãos espanhóis, europeus, iraquianos, afegãos, cubanos, africanos, estadunidenses e de todo o mundo, com o coração esmagado pela dor, pelo medo e pela dúvida, meu samba é a única coisa que eu posso vos dar:
Não tenha medo, amigo
Martinho da Vila
Não tenha medo, amigo
Não tenha medo
É, como falou o poetinha Vinicius,
"São demais os perigos dessa vida"
Mas o sangue borbulha nas veias
E eu tenho que andar na rua
Gosto de enfrentar o mundo cara-a-cara
Olhar as pessoas no olho
Tenho que estar nos botequins, nas favelas
Nos palcos, nas platéias
Nos campos, nas cidades, nos sertões
Aqui e acolá, como gente
Pés no chão, no meio do povo
Cautelosamente sem cautela
Receosamente sem receio
Distraidamente distraído
Mas sem medo
Não tenha medo, meu amigo, não tenha medo
Porque o medo é o seu maior inimigo
Admiro medrosos sem medo
Detesto valentes
De heróis desconfio
Do mundo eu não tenho medo
Mas viver a vida é um desafio
Não tenha medo
Não tenha medo, amigo
É, amigo
A vida é um segmento de reta sinuoso
Um vai-e-vem
Todo mundo tem que ser viandante
Pois "barco parado não faz frete"
- Tá lá nos caminhões
"Fé em Deus e pé na tábua"
Seguindo o destino
Moldando o destino, transando com ele
Sem medo do que você tem e do que você pode ter
Do que você é e do que você será
Vá em frente amigo
Amando a mulher amada
Dando amor a muitas mulheres
Caminhando em busca do infinito
Sem mitos, sem metas
Sem medo
Não tenha medo
Porque o medo é o seu maior inimigo
Não tenha medo de ficar doente
De ser impotente
Ou de levar um chifre
Confie no amor da amante
E na honestidade da mulher de casa
Não é mais tempo do duelo nobre
Ou de lavar a honra com florete ou sabre
Não tenha medo do clamor divino
E nem do capeta e seu inferno em brasa
O povo espanhol deu nas urnas a resposta que estava nas vontades de todo o mundo. O adesismo focinhante do fâmulo José María Aznar à paranóia mercenário-beligerante estadunidense mereceu a vergasta que todos os democratas gostaríamos de empunhar e que agora parte ao encalço da dupla B&B.
Ainda que fosse remotamente possível abstrair o horror insano do 11 de março, não creio que o resultado seria outro. A tragédia selou fatidicamente o desfecho da disputa, não só pelo repúdio ao terrorismo em todas as suas formas - incluído o apoiado pelo gabinete do PP espanhol no Iraque - mas sobretudo pela grotesca tentativa do governo de a todo custo responsabilizar o ETA pelo ataque em Madri, contrariamente às mais gritantes evidências. A mais básica delas parece que passou despercebida da maioria das análises (confirmando uma tese conhecida de Sherlock Holmes): qual interesse teria a organização basca de promover um atentado dessas proporções e não assumir (ou negar) a autoria? O significado político das ações do ETA reside unicamente na demonstração do que será capaz em caso de não atendimento às suas reivindicações. Um ataque anônimo absolutamente não faz parte do menu de atrocidades habitualmente oferecido pelos extremistas euscaros.
A insistente e inconsistente responsabilização do ETA pelo governo espanhol, assim, representou uma ignóbil tentativa de expiação de culpas, como se o premiê pudesse, com mais uma mentira, aliviar o peso que certamente lhe estará atormentando o sono bem mais do que a própria derrota. Não importa que vis motivações (econômicas ou políticas) tenham-no impelido ao seu lamentável apoio à recente invasão estadunidense ao Iraque. A incerteza sobre o nexo de causalidade entre seu ato e a absurda ceifa de tantas vidas humanas é certamente uma carga muito além do que qualquer espírito humano possa suportar. Mas o eleitorado espanhol não se deixou comover pela indigência humana do rastejante Aznar e aplicou, implacável e exemplarmente, a palmatória da democracia.
Aos grupos fundamentalistas partidários do terror interessa incorporar-se a dúvida aos efeitos das suas monstruosidades. Interessa-lhes que pese no espírito das vítimas a incerteza sobre motivações e autorias, para que se tema a todo instante, para que o pânico e a insegurança dominem os espíritos. Ninguém sabe quem será a próxima vítima, nem o local do próximo ataque, porque não se vê e não se conhece o inimigo, nem as suas reais motivações. Paira sempre a advertência diáfana aos que se contrapuserem às causas que elegem. Então, nas mentes tão dilaceradas quanto os corpos, viverá eternamente o terror.
Ao deixarmos nossos espíritos dominarem-se e acabrunharem-se pelo medo, porém, estaremos dando aos bárbaros a coroa de louros desta prova macabra. Não se pode deixar ofuscar a luz que brilha em cada um de nós, expressão ao mesmo tempo singular e universal do mais incrível fenômeno do Universo, sob qualquer ponto de vista que se encare: a Humanidade, esse impressionante coletivo que produziu todo um mundo de conhecimento, sabedoria e beleza, a despeito do mal que nos habita intrínseca e dialeticamente.
Irmãos espanhóis, europeus, iraquianos, afegãos, cubanos, africanos, estadunidenses e de todo o mundo, com o coração esmagado pela dor, pelo medo e pela dúvida, meu samba é a única coisa que eu posso vos dar:
Não tenha medo, amigo
Martinho da Vila
Não tenha medo, amigo
Não tenha medo
É, como falou o poetinha Vinicius,
"São demais os perigos dessa vida"
Mas o sangue borbulha nas veias
E eu tenho que andar na rua
Gosto de enfrentar o mundo cara-a-cara
Olhar as pessoas no olho
Tenho que estar nos botequins, nas favelas
Nos palcos, nas platéias
Nos campos, nas cidades, nos sertões
Aqui e acolá, como gente
Pés no chão, no meio do povo
Cautelosamente sem cautela
Receosamente sem receio
Distraidamente distraído
Mas sem medo
Não tenha medo, meu amigo, não tenha medo
Porque o medo é o seu maior inimigo
Admiro medrosos sem medo
Detesto valentes
De heróis desconfio
Do mundo eu não tenho medo
Mas viver a vida é um desafio
Não tenha medo
Não tenha medo, amigo
É, amigo
A vida é um segmento de reta sinuoso
Um vai-e-vem
Todo mundo tem que ser viandante
Pois "barco parado não faz frete"
- Tá lá nos caminhões
"Fé em Deus e pé na tábua"
Seguindo o destino
Moldando o destino, transando com ele
Sem medo do que você tem e do que você pode ter
Do que você é e do que você será
Vá em frente amigo
Amando a mulher amada
Dando amor a muitas mulheres
Caminhando em busca do infinito
Sem mitos, sem metas
Sem medo
Não tenha medo
Porque o medo é o seu maior inimigo
Não tenha medo de ficar doente
De ser impotente
Ou de levar um chifre
Confie no amor da amante
E na honestidade da mulher de casa
Não é mais tempo do duelo nobre
Ou de lavar a honra com florete ou sabre
Não tenha medo do clamor divino
E nem do capeta e seu inferno em brasa
quarta-feira, 10 de março de 2004
Olhares amazônicos
O título deste blogue, "Só dói quando eu Rio", pretende ser uma homenagem a dois grandes ídolos meus na música, Moacyr Luz e Aldir Blanc, e à própria canção, uma obra-prima. Mas mais do que isso, exprime essa trajetória da minha vida de descobridor do jeito brasileiro de ser, tão serpenteada por rios, do "de Janeiro" até os amazônicos, caudalosos. Estes encarnam um aprendizado para mim fundamental no desvelamento de um olhar tão singular sobre a brasilidade e sobre a humanidade: o olhar amazônico.
Faço essa introdução para assinalar que, após uma fase mais detidamente carioca, outros rios presentes na minha vida irão transbordar por aqui, na expressão feliz de meu irmão Eduardo. Inclusive com textos de outros autores sobre rios (as contribuições serão muitíssimo bem vindas), retomando uma série que eu comecei alhures e não levei a diante.
Começo por assinalar a matéria publicada em "O Globo" deste sábado, sobre o escritor Daniel Munduruku. A segunda parte termina com uma frase que exprime muito do jeito índio de ver o mundo, e que me inspirou a transcrever o belo poema do bardo roraimense Eliakin Rufino, lindamente musicado pelo talentosíssimo cantador amazônico Nilson Chaves:
O Sonho do Xamã
(Eliakin Rufino e Nilson Chaves)
Um xamã yanomami sonhou
que a fumaça da civilização
abriria um buraco no céu
e o céu cairia no chão
O xamã resolveu avisar
o que o sonho queria dizer
mas ninguém parou pra escutar
pouca gente tentou entender...
Muito tempo depois deste sonho
a ciência pode então descobrir
que o buraco na camada de ozônio
é por onde o céu pode cair...
O meu sonho é que nada aconteça
que a vida não tenha final
que o xamã não desapareça
que o sonho não seja real
Faço essa introdução para assinalar que, após uma fase mais detidamente carioca, outros rios presentes na minha vida irão transbordar por aqui, na expressão feliz de meu irmão Eduardo. Inclusive com textos de outros autores sobre rios (as contribuições serão muitíssimo bem vindas), retomando uma série que eu comecei alhures e não levei a diante.
Começo por assinalar a matéria publicada em "O Globo" deste sábado, sobre o escritor Daniel Munduruku. A segunda parte termina com uma frase que exprime muito do jeito índio de ver o mundo, e que me inspirou a transcrever o belo poema do bardo roraimense Eliakin Rufino, lindamente musicado pelo talentosíssimo cantador amazônico Nilson Chaves:
O Sonho do Xamã
(Eliakin Rufino e Nilson Chaves)
Um xamã yanomami sonhou
que a fumaça da civilização
abriria um buraco no céu
e o céu cairia no chão
O xamã resolveu avisar
o que o sonho queria dizer
mas ninguém parou pra escutar
pouca gente tentou entender...
Muito tempo depois deste sonho
a ciência pode então descobrir
que o buraco na camada de ozônio
é por onde o céu pode cair...
O meu sonho é que nada aconteça
que a vida não tenha final
que o xamã não desapareça
que o sonho não seja real
segunda-feira, 8 de março de 2004
Dia da Mulher
Bom, como não podia passar em branco, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, publico aqui carta a mim endereçada por meu irmão de fé, Julio Vellozo, doutor máximo na matéria, aliás:
"São Paulo, 08 de março de 2004
Fernandão,
Estava na minha mesa, lendo alguns jornais, naquela honestidade que me é característica, quando deparei-me com duas notícias. Uma boa e uma má.
A má:
A contagem de espermatozóides está diminuindo cada vez mais. Ou seja, os doutores cientistas, essas pessoas de bem que ficam estudando as formas de livrar-nos de todo o mal, descobriram o que já nos era óbvio: a macheza vive um processo contínuo e firme de decadência. A figura clássica do homem está com os dias contados. Seu lugar vai sendo assumido por uma figura intermediária, resultado da inevitável vitória final do feminino sobre o masculino. O macho, seguindo a escalada implacável da evolução, vai deixar de ter papel no processo de reprodução. Esse negócio vai durar alguns anos, talvez séculos, mas palpito que vamos pro vinagre antes da arara azul e do mico-leão dourado.
Mas tem também a notícia boa:
Eles descobriram também que nos espermatozóides que vão nos sobrando, os famosos xizinhos, são em número muito maior do que os famigerados ypsilonizinhos. O que quer dizer que, lançamos à luta, cada vez que possuímos uma dama, um número cada vez maior de potenciais mulheres. Nós dois, que fizemos nossas partes colocando duas belas mulheres no mundo, seremos correspondidos por nossos companheiros de batalha.
Que beleza! Futuro radiante dos povos será com mais mulheres e menos homens. Uma humanidade mais generosa, mais inteligente, mais sensível - em suma mais feminina.
Ou seja meu velho, do macaco pra cá melhoramos bastante. Daqui pra frente melhoraremos mais. E nós, homens à antiga, do tipo que ainda manda flores, devemos aceitar tranqüilos a nossa derrota final. As mulheres venceram, apesar de ainda não terem levado ( vide toda a exploração a que são submetidas). Venceram e convenceram.
Eu de minha parte, e tenho certeza que você da sua, continuarei da minha trincheira, antagonizando com as mulheres, mas só pra na contradição ser superado.
Mas confesso que, apesar de entender tudo isso como a vitória do feminino sobre masculino, me reservarei o direito de continuar achando algumas coisas bem esquisistas. Como o velho Gonzagão:
"Cabra do cabelo grande
Cinturinha de pilão
Calça justa bem cintada
Custeleta bem fechada
Salto alto, fivelão
Cabra que usa pulseira
No pescoço medalhão
Cabra com esse jeitinho
No sertão de meu padrinho
Cabra assim não tem vez não."
No sertão de cabra macho
quem brigou com Lampião
brigou contra Silvino
quem enfrenta batalhão
amansa burro bravo
pega cobra com a mão
trabalha sol a sol
de noite vai pro sermão
rezar pra Padre Ciço
falar com Frei Damião
No sertão de gente assim
No sertão de gente assim
Cabeludo tem vez não"
Abraço,
Julio
"São Paulo, 08 de março de 2004
Fernandão,
Estava na minha mesa, lendo alguns jornais, naquela honestidade que me é característica, quando deparei-me com duas notícias. Uma boa e uma má.
A má:
A contagem de espermatozóides está diminuindo cada vez mais. Ou seja, os doutores cientistas, essas pessoas de bem que ficam estudando as formas de livrar-nos de todo o mal, descobriram o que já nos era óbvio: a macheza vive um processo contínuo e firme de decadência. A figura clássica do homem está com os dias contados. Seu lugar vai sendo assumido por uma figura intermediária, resultado da inevitável vitória final do feminino sobre o masculino. O macho, seguindo a escalada implacável da evolução, vai deixar de ter papel no processo de reprodução. Esse negócio vai durar alguns anos, talvez séculos, mas palpito que vamos pro vinagre antes da arara azul e do mico-leão dourado.
Mas tem também a notícia boa:
Eles descobriram também que nos espermatozóides que vão nos sobrando, os famosos xizinhos, são em número muito maior do que os famigerados ypsilonizinhos. O que quer dizer que, lançamos à luta, cada vez que possuímos uma dama, um número cada vez maior de potenciais mulheres. Nós dois, que fizemos nossas partes colocando duas belas mulheres no mundo, seremos correspondidos por nossos companheiros de batalha.
Que beleza! Futuro radiante dos povos será com mais mulheres e menos homens. Uma humanidade mais generosa, mais inteligente, mais sensível - em suma mais feminina.
Ou seja meu velho, do macaco pra cá melhoramos bastante. Daqui pra frente melhoraremos mais. E nós, homens à antiga, do tipo que ainda manda flores, devemos aceitar tranqüilos a nossa derrota final. As mulheres venceram, apesar de ainda não terem levado ( vide toda a exploração a que são submetidas). Venceram e convenceram.
Eu de minha parte, e tenho certeza que você da sua, continuarei da minha trincheira, antagonizando com as mulheres, mas só pra na contradição ser superado.
Mas confesso que, apesar de entender tudo isso como a vitória do feminino sobre masculino, me reservarei o direito de continuar achando algumas coisas bem esquisistas. Como o velho Gonzagão:
"Cabra do cabelo grande
Cinturinha de pilão
Calça justa bem cintada
Custeleta bem fechada
Salto alto, fivelão
Cabra que usa pulseira
No pescoço medalhão
Cabra com esse jeitinho
No sertão de meu padrinho
Cabra assim não tem vez não."
No sertão de cabra macho
quem brigou com Lampião
brigou contra Silvino
quem enfrenta batalhão
amansa burro bravo
pega cobra com a mão
trabalha sol a sol
de noite vai pro sermão
rezar pra Padre Ciço
falar com Frei Damião
No sertão de gente assim
No sertão de gente assim
Cabeludo tem vez não"
Abraço,
Julio
Refúgio
O Grande Espírito das matas encerrará meu ser quieto
E o seio da Hiléia guardar-me-á do pavor
da mediocridade e da covardia
Quero me esconder nas profundas escurezas e como boto
emergir troçante de visagens sem destino
de viagens em desatino
Entre purus e roixinóis
Ficará minha música total... Silenciosa.
Minhas lágrimas inundarão Alenquer e
pelo Surubiú descerão ao Rio-Mar
Na imensidão dos verdes e ventos
toda a vaidade sucumbe
Quero perder-me nos caminhos de Ossain
E deixar-me aos apelos da Iara
Quando a viração eriçar-me a barba descomposta
E o Espírito do Homem há de pairar novamente sobre as águas
(Fernando Szegeri, setembro/2003)
quinta-feira, 4 de março de 2004
Ambev + Interbrew
Noticiários de hoje estampam a fusão entre esse monstrengo tão nacional chamado American Beverage (AmBev) e a cervejaria belga (!) Interbrew. Minha primeira reação foi entre a revolta e a desolação: depois de termos perdido a soberania sobre as telecomunicações, a energia elétrica, a malha ferroviária etc. etc., só nos faltava mesmo é deixar que uns gringos de cintura dura decidam sobre qual cerveja devemos tomar. Porque a despeito das reiteradas negativas, a “Folha de S. Paulo” garante taxativamente que 52% do capital votante (i.e., com poder decisório) da AmBev foi vendido aos europeus.
A própria fusão entre as duas maiores cervejarias brasileiras que criou esse Frankenstein etílico-industrial foi um golpe de morte em um dos pilares da cultura brasileira de butiquim. Há tempos, o butequeiro bebedor de cerveja que não se declarasse “Brahma” ou “Antárctica” seria um ser excluído do mundo, assim como os são-paulinos, botafoguenses, americanos (de Minas) ou tunantes (torcedores da Tuna Luso, pra quem não tem o pezinho no Pará). Sim, porque a dualidade essencial que permeia nossa existência exige que nos posicionemos sobre as realidades fundamentais: ou você é palmeirense, ou corinhthiano; Vasco ou Flamengo; Cruzeiro ou Atlético; Remo ou Paysandu. O resto são seres que gravitam em uma dimensão paralela do universo sem jamais poderem experimentar uma nesgazinha de realidade. Pois o que não se nega não é real (será que Hegel tomava cerveja? Alemão...).
A rivalidade Brahma x Antárctica alimentou, durante anos, infindáveis horas de salutares embates butequísticos sobre as qualidades das louras que dividiram realmente a preferência nacional, no tempo em que violão não era ligado na tomada e fábrica de pandeiro dava lucro, como dizia o saudoso Moraes Sarmento. Quanta sardinha não se fritou, quanto casamento não acabou, quantos fígados e colesteróis não foram pra estratosfera em nome de tema tão fundamental para a identidade nacional. Um belo dia, acordamos e... lept! Tudo estava consumado. Reputações arruinadas, mundos desabados por um mero acordo operacional (pras negas deles...).
A cerveja brasileira é ímpar no mundo, sabidamente. Desde a apresentação em garrafas de 600 ml - as lindamente conhecidas “ampolas” – que só no Brasil tornam o ato de beber cerveja um acontecimento intrinsecamente social (porque tomar uma lata é quase igual punheta: não é que seja ruim, mas é outro barato), até a preferência quase absoluta pelas chamadas “pilsen”, cervejas de baixa fermentação e baixo teor que alguém um dia ganhou dinheiro pra sacar que “descem redondas”. Agora, se um belo dia meia dúzia de altos executivos belgas (meu Deus, eu não me conformo...) acordarem e acharem que nossa Brahma é fraca demais, tudo estará acabado? E se por uma conveniência belga insondável qualquer resolverem tirar do mercado a “Faixa Azul”, meu compadre Moacyr Luz vai beber o quê na vida? As perspectivas são apavorantes!
Mas como a diferença do otimista para o pessimista é mesmo ver o copo meio-cheio ou meio-vazio, um anônimo já soltou hoje, logo cedo, a pérola no butiquim do Severo: “pelo menos agora vai ter Brahma no mundo inteiro; já dá pra gente fazer um pagode nas Oropa”.
A própria fusão entre as duas maiores cervejarias brasileiras que criou esse Frankenstein etílico-industrial foi um golpe de morte em um dos pilares da cultura brasileira de butiquim. Há tempos, o butequeiro bebedor de cerveja que não se declarasse “Brahma” ou “Antárctica” seria um ser excluído do mundo, assim como os são-paulinos, botafoguenses, americanos (de Minas) ou tunantes (torcedores da Tuna Luso, pra quem não tem o pezinho no Pará). Sim, porque a dualidade essencial que permeia nossa existência exige que nos posicionemos sobre as realidades fundamentais: ou você é palmeirense, ou corinhthiano; Vasco ou Flamengo; Cruzeiro ou Atlético; Remo ou Paysandu. O resto são seres que gravitam em uma dimensão paralela do universo sem jamais poderem experimentar uma nesgazinha de realidade. Pois o que não se nega não é real (será que Hegel tomava cerveja? Alemão...).
A rivalidade Brahma x Antárctica alimentou, durante anos, infindáveis horas de salutares embates butequísticos sobre as qualidades das louras que dividiram realmente a preferência nacional, no tempo em que violão não era ligado na tomada e fábrica de pandeiro dava lucro, como dizia o saudoso Moraes Sarmento. Quanta sardinha não se fritou, quanto casamento não acabou, quantos fígados e colesteróis não foram pra estratosfera em nome de tema tão fundamental para a identidade nacional. Um belo dia, acordamos e... lept! Tudo estava consumado. Reputações arruinadas, mundos desabados por um mero acordo operacional (pras negas deles...).
A cerveja brasileira é ímpar no mundo, sabidamente. Desde a apresentação em garrafas de 600 ml - as lindamente conhecidas “ampolas” – que só no Brasil tornam o ato de beber cerveja um acontecimento intrinsecamente social (porque tomar uma lata é quase igual punheta: não é que seja ruim, mas é outro barato), até a preferência quase absoluta pelas chamadas “pilsen”, cervejas de baixa fermentação e baixo teor que alguém um dia ganhou dinheiro pra sacar que “descem redondas”. Agora, se um belo dia meia dúzia de altos executivos belgas (meu Deus, eu não me conformo...) acordarem e acharem que nossa Brahma é fraca demais, tudo estará acabado? E se por uma conveniência belga insondável qualquer resolverem tirar do mercado a “Faixa Azul”, meu compadre Moacyr Luz vai beber o quê na vida? As perspectivas são apavorantes!
Mas como a diferença do otimista para o pessimista é mesmo ver o copo meio-cheio ou meio-vazio, um anônimo já soltou hoje, logo cedo, a pérola no butiquim do Severo: “pelo menos agora vai ter Brahma no mundo inteiro; já dá pra gente fazer um pagode nas Oropa”.
quarta-feira, 3 de março de 2004
Viva a Vila
À minha direita raia um sol vermelho-e-branco
À minha esquerda o verde-e-rosa vem dormir
À minha frente ecoa um grito de gol
Atrás de mim dorme a Floresta do Andaraí
(Rui Quaresma e Nei Lopes)
Sei que vocês não querem saber das minhas venturas e desventuras carnavalescas – sobretudo os que ficaram em São Paulo tomando chuva (não deu pra segurar...) – mas há que se prolongar o gozo o quanto se possa. E Vila Isabel, a minha Vila querida, foi palco de dois momentos de maior emoção.
O primeiro seria barbada, depois da bola que cantei aqui: processado o inventário da infância de Aldir Blanc pelas ruas do bairro mais querido do Brasil, na partilha coube-me entregar a placa ao meu ídolo, redundando na maior contra-homenagem que eu mesmo já recebi. Coisas possíveis a partir do universo absurdo – por isso mesmo crível - de um maluco querido, que entre agravos retidos e recursos adesivos, ocupa seu tempo enchendo os amigos de presentes tão preciosos como imateriais: Edu Goldenberg, meu mano, mais do que nunca, obrigado.
Não bastasse, o legado ainda compôs-se de uma bebedeira homérica e uma camisa de Vila Isabel tirada do corpo por uma criatura que é só samba, fibra e doçura, sorriso e coração de não caber no metro e setenta franzinos, depois de meia dúzia de sambas-enredo puxados. O homem que, nascida sua quarta filha em plena Terça-feira Gorda, saiu com a roupa do centro cirúrgico pra desfilar com sua Vila querida, ainda se livrando das marcas da tinta com que pintara o quarto da pequena, em duas madrugadas insones de carnaval. Buba da Vila, vinho das melhores pipas, laços difíceis de se descoser...
O segundo momento, revivendo meus melhores carnavais, a G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel lançou-se ao Boulevard 28 de Setembro, com baianas, bateria, Velha Guarda, mestre-sala e porta-bandeira, tudo a que tínhamos direito os que sofremos por estes anos de exílio imerecido no grupo de acesso. O pressentimento da vitória-retorno fez o presente da escola para a sua comunidade – sim, na Vila ainda há dessas coisas... – ser ainda mais especial. Os moradores do bairro de Noel responderam à altura, com bandeirinhas tremulando nas janelas e o povo na rua cantando com sua branco-e-azul.
Há dez anos, eu achava o programa mais gostoso do carnaval o ensaio-geral da Vila na quarta-feira anterior ao desfile. Até hoje me arrepio ao lembrar de Martinho subindo no carro de som e puxando o esquenta: "Sambar na avenida de azul e branco é o nosso papel...". E sempre atribuí essa energia à grande mistura de classes, raças e tribos que criam as condições propícias nesse balão de ensaio da plena integração carnavalesca. Porque carnaval é mistura, é subversão das regras, hierarquias e separações. Tomara que um dia o percebam os boitatás da vida.
Parabéns, Vila! Quero vê-la linda, quero vê-la ainda muito mais feliz. O grupo especial terá de aturar novamente senhoras do Boulevard, garotos da Maxwell e a rapaziada do Macaco desfilando sob as luzes-lentes internacionais.
Soneto para Paula
Em três de março de setenta e cinco
A minha expectativa e de Cristina
Era só saber: menino ou menina?
Pra logo meter a chuteira ou o brinco
No ninho de dois, mais um mafagafo
Vinha pra gente descer o sarrafo
Irmãzinha caçula de uma figa
Saco de pancada brincando ou em briga
Originados da mesma semente
- caminhos separados pela vida –
Nenhum de nós pode, por mais que tente
Separar do arquipélago cada ilha
Negar a rede de tramas cosida
No ventre e no coração de Cecília
A minha expectativa e de Cristina
Era só saber: menino ou menina?
Pra logo meter a chuteira ou o brinco
No ninho de dois, mais um mafagafo
Vinha pra gente descer o sarrafo
Irmãzinha caçula de uma figa
Saco de pancada brincando ou em briga
Originados da mesma semente
- caminhos separados pela vida –
Nenhum de nós pode, por mais que tente
Separar do arquipélago cada ilha
Negar a rede de tramas cosida
No ventre e no coração de Cecília
segunda-feira, 1 de março de 2004
Feliz ano (de) novo
Hoje começa o ano. Navegante de rio, apavora-me o mar aberto, total. Nenhuma margem, nenhuma praia. Só o mar pela frente, a completa indiferenciação.
Nada mais se pode adiar. Tomaram-nos o grande curinga, a panacéia para todas as coisas que não se queria ou podia encarar: “depois do carnaval a gente vê”, “depois do carnaval a gente senta”... De repente, não mais que de repente (embora a gente já soubesse...), sobra-nos na mão esse infalível mico-preto do dia-a-dia. Todo o turbilhão de aborrecimentos, sobretudo os mais banais – esses insuperáveis - , parece precipitar-se sem licença, como se até agora só estivessem pacientemente esperando o seu fatal anti-jubileu: todo o perdão desaparece, toda condenação é inapelável, todas as dívidas são exigíveis.
Hoje acordei na hora, o despertador nem chegou a tocar. Sem perceber, eis-me de sapato, pasta e blusão (nem estava frio) olhando no espelho pateticamente, como a tentar saber afinal o que aconteceu. Onde foi parar meu vestido de chita? Mas se há alguns instantes Ela me puxava pela mão no meio do largo... Cadê a baiana que agora mesmo ajudei a vestir? Vejo que sumiu de vez a tinta preta atrás das orelhas... A bandeirinha da Vila ainda tremula naquela janela e eu cheguei adiantado quinze minutos no serviço.
O Carnaval na sua euforia esfuziante carrega uma inegável dimensão de morte, de imolação, atualizada nos rituais de libação. O delírio do folião encerra um abandono, uma entrega da própria vida à sua causa-crença. A sofreguidão dessa vivência é a negação de nossa não-vida de filas, reuniões, contas para pagar, telefonemas a dar, imêious a responder.
Vamos, pois, adiante, singrando marços e abris, oh Braga, nessa inescapável certeza do que não somos, rumo a uma visãozinha de margem que não negará a trajetória. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar. Que nos valha o Senhor dos Navegantes até qualquer praia possível.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004
Carnaval
Na relatividade
não pensada dos espaços
distantes unidos na dimensão das melodias
encontram-se amantes do mesmo não-ser
Que se faz ressuscitar – oh! Lamartine – entre abraços
A imensa Cidade Pequena em erupção
verdejando pelas fendas dos comandos de cimento
- e ressentimento
A renascer
Contraindo-se em quatro dias
na contra-mão da esperada expansão
eterna da impossibilidade
(fevereiro de 2003)
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004
...
Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
( Hilda Hilst, 21/04/1930 - 04/02/2004)
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
( Hilda Hilst, 21/04/1930 - 04/02/2004)
Conexão e revolução
Fernando Szegeri
Quem já não se pegou em situações de completa estupefação em relação a atitudes, reações e comportamentos de pessoas com quem somos postos em contato no dia-a-dia, de modo a perguntar a si próprio: em que mundo estou vivendo? São cada vez mais comuns as situações de absoluto estranhamento em relação às posturas do "outro", no trânsito, no trabalho, na vizinhança. Este "outro" não é ninguém mais que o "próximo" de outros tempos, aquele que partilha conosco os mesmos espaços comuns, públicos ou semi-públicos.
Essa sensação da inviabilização da comunicação e do entendimento na vida quotidiana, o esfacelamento dos padrões tradicionais de sociabilidade exprimem a falência das estruturas reprodutoras dos valores sociais elementares como a escola, a religião e a família. Num passado não tão distante, a presença marcante dessas estruturas acabava por gerar um substrato de valores comuns que possibilitava o estabelecimento de um nível de diálogo impensável na ausência de mínimos acordos, pressupostos de todo ato comunicacional.
Numa sociedade assim cada vez mais dominada pelo não-entendimento (e, como conseqüência, pela violência em diversos níveis), com cada vez menos valores comuns encontráveis em grandes cortes da população cada vez mais concentrada e (des)organizada em centros urbanos caóticos, o encontro pessoal, face a face, tende a tornar-se um problema. Na ausência desses pressupostos e formas de reprodução simbólica clássicas, as estruturas mínimas de sociabilidade passam a depender dos valores reproduzidos pelos meios de comunicação de massa, submetidos à lógica estrita do capitalismo ultra-consumista. Percebe-se, portanto, que não se possa esperar ética, solidariedade, respeito pela pessoa humana etc. numa sociedade moldada à imagem e semelhança dos pastiches grotescos dos "realitty shows".
A lógica elementar do capitalismo reza que o detentor da propriedade dos meios de produção é quem dita os padrões, critérios e diretrizes da atividade produtiva, com vistas a remuneração do capital empatado e conseqüente acumulação. Das determinações do processo produtivo estão alienados, assim, tanto os trabalhadores responsáveis diretamente pela atividade de produção, como os consumidores do produto final. Isso é tão mais marcante quanto seja requerido um maior aporte de capital para se viabilizar a atividade produtiva.
Assim sempre foi no setor de comunicação, pois que a produção de um grande jornal, a montagem de uma emissora de rádio ou televisão sempre requereu a mobilização de grandes somas de capital. O advento e a progressiva popularização da rede mundial de computadores, porém, instaurou uma tendência de subversão dessa lógica básica, e talvez esteja aí a sua dimensão mais efetivamente revolucionária. Na Internet, os que se debruçam sobre a atividade de produzir informação não carecem de muito dispêndio de capital, o que leva a uma grande horizontalização pulverização da produção informativa, com a conseqüente pluralidade. Quebra-se igualmente o paradigma da acumulação, quando se vê que uma enorme parte da informação produzida na rede não se destina a gerar lucratividade diretamente (ou seja, não há capital empatado que seja necessário remunerar), sendo motivada muito mais pelo que poderíamos chamar de espírito de compartilhamento. Em verdade, em poucos anos a Internet dos negócios virtuais mirabolantes, do sonho do enriquecimento vertiginoso, dos mega-portais milionários foi dando lugar à proliferação irrefreável dos "blogs" e páginas pessoais, movidas unicamente pelo anseio comunicativo.
Assim, a rede, subvertendo a lógica básica da produção da informação em larga escala, abala certamente as formas de reprodução simbólica que os meios de comunicação passam a exercer a partir da falência dos emissores tradicionais a que já nos referimos e, em certa escala, passa a substituir tanto estes como aqueles. Efetivamente, a rede esfacela não só o monopólio capitalista da produção de informação em larga escala, como outros paradigmas tradicionais como a comunicação massiva "em via de mão única". Essa é uma dimensão importante da revolução entabulada pela rede, só limitada em função da não democratização do acesso digital a todas as camadas da população. Seu conteúdo será cada vez mais presente e sensível na medida em que maiores fatias do povo tiverem acesso ao mundo cibernético, tal como se deu com a televisão, que passou de artigo de luxo, há 30 anos, para gênero de 1ª necessidade. A disseminação do computador e das conexões em rede poderá ser a grande primeira revolução do século XXI.
A rede propicia, sem dúvida, uma importante dimensão de sociabilização, pois, além da proteção oferecida pela ausência de contato físico no espaço de mediação , oferece a possibilidade de aproximação das pessoas filtradas por interesses comuns prévios aos encontros que se estabelecem. Além do mais, o ambiente virtual permite a possibilidade da discussão e criação permanente de códigos de conduta e valores tendentes a construir o espaço de convivência (quem participa de qualquer lista de discussão na rede pode constatar a recorrência dos temas auto-referentes, como o que pode e o que não pode ser debatido naquele espaço) .
A substituição do contato real pelo contato virtual é, assim, decorrência e não causa do isolamento das pessoas, como parece óbvio. Porém, essa atomização dos espaços de convivência e seus respectivos valores, regras e substratos simbólicos, pode de um lado salvar o indivíduo do isolamento completo a que de outro modo estaria submetido, mas no limite tende a agravar a inclinação já largamente sentida de impossibilidade de construção de espaços maiores de sociabilidade, como a cidade e a nação, por exemplo. Vale dizer, as "comunidades" construídas virtualmente tornam-se possíveis pela existência do espaço contínuo de mediação para reprodução e recriação dos valores, representações, referenciais e regras que tornam possível a ação comunicacional e conseqüente racionalização das formas de convivência e tomada de decisão. Por outro lado, a espeficidade desses sistemas comunicativos auto-referentes tende a acentuar a dificuldade de interconexão entre os diferentes grupos, ou destes com as esferas maiores de socialização.Assim, acentuada uma incapacidade dos meios tradicionais de forjar os meios simbólicos comuns necessários à subsistência das formas de sociabilização a que ainda estamos fortemente submetidos, caminharíamos assim para uma espécie de "feudalismo virtual".
Não sabemos ao certo como estas novas formas de sociabilidade conviverão com as tradicionais, de modo que se nos afigura ao menos temerária a deposição de todas as esperanças dos que lutam por novos estágios de desenvolvimento da humanidade unicamente na chamada inclusão digital e na globalização total cibernética. Os grandes desafios de justiça política, social e econômica sobreviverão, como tem sido até então, enquanto centro principal de nossas preocupações imediatas, ainda que seja enorme o poder da ferramenta que cada vez mais se põe em nossas mãos.
Quem já não se pegou em situações de completa estupefação em relação a atitudes, reações e comportamentos de pessoas com quem somos postos em contato no dia-a-dia, de modo a perguntar a si próprio: em que mundo estou vivendo? São cada vez mais comuns as situações de absoluto estranhamento em relação às posturas do "outro", no trânsito, no trabalho, na vizinhança. Este "outro" não é ninguém mais que o "próximo" de outros tempos, aquele que partilha conosco os mesmos espaços comuns, públicos ou semi-públicos.
Essa sensação da inviabilização da comunicação e do entendimento na vida quotidiana, o esfacelamento dos padrões tradicionais de sociabilidade exprimem a falência das estruturas reprodutoras dos valores sociais elementares como a escola, a religião e a família. Num passado não tão distante, a presença marcante dessas estruturas acabava por gerar um substrato de valores comuns que possibilitava o estabelecimento de um nível de diálogo impensável na ausência de mínimos acordos, pressupostos de todo ato comunicacional.
Numa sociedade assim cada vez mais dominada pelo não-entendimento (e, como conseqüência, pela violência em diversos níveis), com cada vez menos valores comuns encontráveis em grandes cortes da população cada vez mais concentrada e (des)organizada em centros urbanos caóticos, o encontro pessoal, face a face, tende a tornar-se um problema. Na ausência desses pressupostos e formas de reprodução simbólica clássicas, as estruturas mínimas de sociabilidade passam a depender dos valores reproduzidos pelos meios de comunicação de massa, submetidos à lógica estrita do capitalismo ultra-consumista. Percebe-se, portanto, que não se possa esperar ética, solidariedade, respeito pela pessoa humana etc. numa sociedade moldada à imagem e semelhança dos pastiches grotescos dos "realitty shows".
A lógica elementar do capitalismo reza que o detentor da propriedade dos meios de produção é quem dita os padrões, critérios e diretrizes da atividade produtiva, com vistas a remuneração do capital empatado e conseqüente acumulação. Das determinações do processo produtivo estão alienados, assim, tanto os trabalhadores responsáveis diretamente pela atividade de produção, como os consumidores do produto final. Isso é tão mais marcante quanto seja requerido um maior aporte de capital para se viabilizar a atividade produtiva.
Assim sempre foi no setor de comunicação, pois que a produção de um grande jornal, a montagem de uma emissora de rádio ou televisão sempre requereu a mobilização de grandes somas de capital. O advento e a progressiva popularização da rede mundial de computadores, porém, instaurou uma tendência de subversão dessa lógica básica, e talvez esteja aí a sua dimensão mais efetivamente revolucionária. Na Internet, os que se debruçam sobre a atividade de produzir informação não carecem de muito dispêndio de capital, o que leva a uma grande horizontalização pulverização da produção informativa, com a conseqüente pluralidade. Quebra-se igualmente o paradigma da acumulação, quando se vê que uma enorme parte da informação produzida na rede não se destina a gerar lucratividade diretamente (ou seja, não há capital empatado que seja necessário remunerar), sendo motivada muito mais pelo que poderíamos chamar de espírito de compartilhamento. Em verdade, em poucos anos a Internet dos negócios virtuais mirabolantes, do sonho do enriquecimento vertiginoso, dos mega-portais milionários foi dando lugar à proliferação irrefreável dos "blogs" e páginas pessoais, movidas unicamente pelo anseio comunicativo.
Assim, a rede, subvertendo a lógica básica da produção da informação em larga escala, abala certamente as formas de reprodução simbólica que os meios de comunicação passam a exercer a partir da falência dos emissores tradicionais a que já nos referimos e, em certa escala, passa a substituir tanto estes como aqueles. Efetivamente, a rede esfacela não só o monopólio capitalista da produção de informação em larga escala, como outros paradigmas tradicionais como a comunicação massiva "em via de mão única". Essa é uma dimensão importante da revolução entabulada pela rede, só limitada em função da não democratização do acesso digital a todas as camadas da população. Seu conteúdo será cada vez mais presente e sensível na medida em que maiores fatias do povo tiverem acesso ao mundo cibernético, tal como se deu com a televisão, que passou de artigo de luxo, há 30 anos, para gênero de 1ª necessidade. A disseminação do computador e das conexões em rede poderá ser a grande primeira revolução do século XXI.
A rede propicia, sem dúvida, uma importante dimensão de sociabilização, pois, além da proteção oferecida pela ausência de contato físico no espaço de mediação , oferece a possibilidade de aproximação das pessoas filtradas por interesses comuns prévios aos encontros que se estabelecem. Além do mais, o ambiente virtual permite a possibilidade da discussão e criação permanente de códigos de conduta e valores tendentes a construir o espaço de convivência (quem participa de qualquer lista de discussão na rede pode constatar a recorrência dos temas auto-referentes, como o que pode e o que não pode ser debatido naquele espaço) .
A substituição do contato real pelo contato virtual é, assim, decorrência e não causa do isolamento das pessoas, como parece óbvio. Porém, essa atomização dos espaços de convivência e seus respectivos valores, regras e substratos simbólicos, pode de um lado salvar o indivíduo do isolamento completo a que de outro modo estaria submetido, mas no limite tende a agravar a inclinação já largamente sentida de impossibilidade de construção de espaços maiores de sociabilidade, como a cidade e a nação, por exemplo. Vale dizer, as "comunidades" construídas virtualmente tornam-se possíveis pela existência do espaço contínuo de mediação para reprodução e recriação dos valores, representações, referenciais e regras que tornam possível a ação comunicacional e conseqüente racionalização das formas de convivência e tomada de decisão. Por outro lado, a espeficidade desses sistemas comunicativos auto-referentes tende a acentuar a dificuldade de interconexão entre os diferentes grupos, ou destes com as esferas maiores de socialização.Assim, acentuada uma incapacidade dos meios tradicionais de forjar os meios simbólicos comuns necessários à subsistência das formas de sociabilização a que ainda estamos fortemente submetidos, caminharíamos assim para uma espécie de "feudalismo virtual".
Não sabemos ao certo como estas novas formas de sociabilidade conviverão com as tradicionais, de modo que se nos afigura ao menos temerária a deposição de todas as esperanças dos que lutam por novos estágios de desenvolvimento da humanidade unicamente na chamada inclusão digital e na globalização total cibernética. Os grandes desafios de justiça política, social e econômica sobreviverão, como tem sido até então, enquanto centro principal de nossas preocupações imediatas, ainda que seja enorme o poder da ferramenta que cada vez mais se põe em nossas mãos.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2004
Segura
Vou falar de um bairro.
Quando em 1987 li a excelente biografia de Noël Rosa, por João Máximo e Carlos Didier, ficava imaginariamente passeando por aquelas ruas e esquinas da Vila Isabel dos anos 30, como a gente instintivamente faz quando lê qualquer livro. Chamava-me a atenção especialmente o Ponto dos Cem Réis, onde os bondes faziam a volta para retornarem ao centro da cidade e os passageiros que seguiam tinham que pagar mais cem réis. Nenhuma foto, apenas as imagens compondo-se em minha mente, pelas descrições dos autores e a narrativa das histórias.
Eu que já tinha então lido duas outras obras sobre a vida do Poeta da Vila – a clássica, escrita por Almirante, "No tempo de Noël Rosa" e um pequeno livreto chamado "Noel Rosa: de costas para o mar", de cujo autor o nome me escapa agora – sofri um grande impacto com o livro de Máximo e Didier. Na primeira oportunidade que tive de ir ao Rio, não pestanejei em conferir in loco os caminhos do bairro mais cantado na história da música popular. Difícil descrever a sensação. Só sei que o sangue efetivamente me faltou quando descortinou-se em minha frente exatamente o cenário que em minha cabeça compunha o Ponto dos Cem Réis. Cético que era e sou, cheguei em casa para conferir a localização exata d o local do retorno dos bondes. Batata...
A partir de então, desenvolvi uma ligação muito particular com o aquele bairro "bem ali entre o Maracanã, Grajaú e Salgueiro". Esse namoro, começado no Boulevard e selado na Praça Sete (Barão de Drummond), depois estendeu-se pelas travessas, pelos butiquins, pelos arredores do Macaco. Foi muitas vezes celebrado no Costa, no Petisco, no Palpite, no Bar Madri, quase na subida do morro. E, mais recentemente, no Estephanio’s.
Vou falar de um butiquim.
Vésperas de carnaval, ensaio do bloco "Segura pra não cair", em frente ao Estephanio’s. Grande balbúrdia, confusão, chope servido prudentemente em copos de plástico, na base da comanda. Chegamos eu e Marcão a um garçom conhecido e pergunto se não poderia beber no copo de vidro. "Você, pode", respondeu-me com a solicitude de sempre. Eu, insistindo na chatice com ele: não pode você marcar os chopes, sem esse negócio de comanda? "Pode".
Querendo sentar, pergunto se não pode colocar uma mesa bem na porta do bar, mesmo que ninguém mais pudesse entrar e sair. "Pode". Mas era embaixo do ventilador e esquentava meu chope.
- Pode desligar o ventilador?
- Pode.
Pedi um ovo cozido, não tinha.
- Pode ir buscar o ovo no bar do lado?
- Pode.
Aí virou festa. Marcão começou a provocar.
- Pode me mandar uma porção de moela acebolada sem a cebola?
- Pode fazer uma porçãozinha de torresmo sem a gordurinha de fora?
- Pode pagar com cheque pra daqui 15 dias?
Não havia pergunta que fizéssemos que a resposta não fosse invariavelmente a mesma. Esse é o Estephanio’s, o bar onde TUDO PODE!
Vou falar de um irmão de fé.
Conheci-o pela Internet, numa lista de discussão. Ele invariavelmente arrumando confusão com opiniões contundentes, sem preocupação de agradar quem quer que fosse. Depois fundou o seu próprio sítio, o saudoso "Sentando o Cacete", reunindo um timaço de feras da caneta, descendo o pau em Deus e o mundo. Ganhou a minha alma no primeiro texto, contando como trocara o caco de vidro de uma menina que viera lhe assaltar por um beijo e um pedaço de pizza. Depois nos conhecemos pessoalmente, bêbados, num bloco de carnaval.
Esse é meu irmãozinho de fé Eduardo Goldenberg. Advogado destemido, cronista de mão cheia, lutador desesperado pelas idéias em que acredita, arrumador de justas encrencas, fígado nervosíssimo, contador impagável das melhores histórias, coração de manteiga. Uma das melhores prosas e uma das figuras mais autênticas e íntegras que conheci.
Vou falar de um ídolo.
Aldir Blanc Mendes é o ídolo dos meus trinta anos, como Rubem Braga foi dos meus quinze, com a diferença de que pude dizer isso a ele, na mais fantástica bebedeira da minha vida. O maior poeta da música popular brasileira. A poesia e a insanidade do Aldir são o alento da minha consciência do mundo, entre deslumbrada, atormentada e perdida. Ambas – a insanidade e a poesia – transbordam aos borbotões de suas canções, seus livros, suas crônicas, seus poemas. Nelas me reconheço, me salvo e me perco.
Mas afinal, o que têm a ver tudo isso?
É que neste domingo desfilará o "Segura pra não cair", que se concentra no Estephanio’s, desfila pela Vila Isabel, com samba do Eduardo, homenageando Aldir. Como nunca fui ao bloco, quis arrumar um jeito de dizer porque não se pode perder esse desfile por nada desse mundo. Nem que para isso seja preciso abalar-se de São Paulo ao Rio ou adiar as férias. De brinde, a letra do samba:
O INVENTÁRIO DA INFÂNCIA DE ALDIR BLANC EM VILA SABEL
(Eduardo Goldenberg, Mariana Blanc, Edmundo Souto e Fernando de Lima)
Hoje eu vou voltar no tempo...
Recordar!
Dos teus dias de criança,
o inventário da infância
são muitas histórias pra contar!
Desfilando nessa rua
sob a luz da linda lua
eu vou mostrar...
Vila, a febre que não quer passar,
do teu delírio eu fiz enredo
vem pra roda cirandar!
Dois cinco sete, eu me lembro!
Vó Noêmia!
Vô Aguiar tinha alma
bem boêmia!
Tio Placidino, Cicinha
e Tio Bimbas também,
Ceceu Rico e Helena vêm!
É, veja que felicidade,
tudo isso ainda é verdade,
Simpatia É Quase Amor!
Vem cantarolar a linda rosa juvenil,
que teu sonho descobriu!
Uni-duni-tê!
Arma a quadrilha que eu vou...
Anarriê!
Prima da Penha mostrou
Copacabana
de cheiro-mar tão sacana...
Vai, vai ser Blanc na vida em nome da Vila
Mesmo se o SEGURA não desfila
o show tem que continuar!
Faz do samba o "74" da saudade...
Rua dos Artistas parou pra te aplaudir
Vem, Aldir!
Quando em 1987 li a excelente biografia de Noël Rosa, por João Máximo e Carlos Didier, ficava imaginariamente passeando por aquelas ruas e esquinas da Vila Isabel dos anos 30, como a gente instintivamente faz quando lê qualquer livro. Chamava-me a atenção especialmente o Ponto dos Cem Réis, onde os bondes faziam a volta para retornarem ao centro da cidade e os passageiros que seguiam tinham que pagar mais cem réis. Nenhuma foto, apenas as imagens compondo-se em minha mente, pelas descrições dos autores e a narrativa das histórias.
Eu que já tinha então lido duas outras obras sobre a vida do Poeta da Vila – a clássica, escrita por Almirante, "No tempo de Noël Rosa" e um pequeno livreto chamado "Noel Rosa: de costas para o mar", de cujo autor o nome me escapa agora – sofri um grande impacto com o livro de Máximo e Didier. Na primeira oportunidade que tive de ir ao Rio, não pestanejei em conferir in loco os caminhos do bairro mais cantado na história da música popular. Difícil descrever a sensação. Só sei que o sangue efetivamente me faltou quando descortinou-se em minha frente exatamente o cenário que em minha cabeça compunha o Ponto dos Cem Réis. Cético que era e sou, cheguei em casa para conferir a localização exata d o local do retorno dos bondes. Batata...
A partir de então, desenvolvi uma ligação muito particular com o aquele bairro "bem ali entre o Maracanã, Grajaú e Salgueiro". Esse namoro, começado no Boulevard e selado na Praça Sete (Barão de Drummond), depois estendeu-se pelas travessas, pelos butiquins, pelos arredores do Macaco. Foi muitas vezes celebrado no Costa, no Petisco, no Palpite, no Bar Madri, quase na subida do morro. E, mais recentemente, no Estephanio’s.
Vou falar de um butiquim.
Vésperas de carnaval, ensaio do bloco "Segura pra não cair", em frente ao Estephanio’s. Grande balbúrdia, confusão, chope servido prudentemente em copos de plástico, na base da comanda. Chegamos eu e Marcão a um garçom conhecido e pergunto se não poderia beber no copo de vidro. "Você, pode", respondeu-me com a solicitude de sempre. Eu, insistindo na chatice com ele: não pode você marcar os chopes, sem esse negócio de comanda? "Pode".
Querendo sentar, pergunto se não pode colocar uma mesa bem na porta do bar, mesmo que ninguém mais pudesse entrar e sair. "Pode". Mas era embaixo do ventilador e esquentava meu chope.
- Pode desligar o ventilador?
- Pode.
Pedi um ovo cozido, não tinha.
- Pode ir buscar o ovo no bar do lado?
- Pode.
Aí virou festa. Marcão começou a provocar.
- Pode me mandar uma porção de moela acebolada sem a cebola?
- Pode fazer uma porçãozinha de torresmo sem a gordurinha de fora?
- Pode pagar com cheque pra daqui 15 dias?
Não havia pergunta que fizéssemos que a resposta não fosse invariavelmente a mesma. Esse é o Estephanio’s, o bar onde TUDO PODE!
Vou falar de um irmão de fé.
Conheci-o pela Internet, numa lista de discussão. Ele invariavelmente arrumando confusão com opiniões contundentes, sem preocupação de agradar quem quer que fosse. Depois fundou o seu próprio sítio, o saudoso "Sentando o Cacete", reunindo um timaço de feras da caneta, descendo o pau em Deus e o mundo. Ganhou a minha alma no primeiro texto, contando como trocara o caco de vidro de uma menina que viera lhe assaltar por um beijo e um pedaço de pizza. Depois nos conhecemos pessoalmente, bêbados, num bloco de carnaval.
Esse é meu irmãozinho de fé Eduardo Goldenberg. Advogado destemido, cronista de mão cheia, lutador desesperado pelas idéias em que acredita, arrumador de justas encrencas, fígado nervosíssimo, contador impagável das melhores histórias, coração de manteiga. Uma das melhores prosas e uma das figuras mais autênticas e íntegras que conheci.
Vou falar de um ídolo.
Aldir Blanc Mendes é o ídolo dos meus trinta anos, como Rubem Braga foi dos meus quinze, com a diferença de que pude dizer isso a ele, na mais fantástica bebedeira da minha vida. O maior poeta da música popular brasileira. A poesia e a insanidade do Aldir são o alento da minha consciência do mundo, entre deslumbrada, atormentada e perdida. Ambas – a insanidade e a poesia – transbordam aos borbotões de suas canções, seus livros, suas crônicas, seus poemas. Nelas me reconheço, me salvo e me perco.
Mas afinal, o que têm a ver tudo isso?
É que neste domingo desfilará o "Segura pra não cair", que se concentra no Estephanio’s, desfila pela Vila Isabel, com samba do Eduardo, homenageando Aldir. Como nunca fui ao bloco, quis arrumar um jeito de dizer porque não se pode perder esse desfile por nada desse mundo. Nem que para isso seja preciso abalar-se de São Paulo ao Rio ou adiar as férias. De brinde, a letra do samba:
O INVENTÁRIO DA INFÂNCIA DE ALDIR BLANC EM VILA SABEL
(Eduardo Goldenberg, Mariana Blanc, Edmundo Souto e Fernando de Lima)
Hoje eu vou voltar no tempo...
Recordar!
Dos teus dias de criança,
o inventário da infância
são muitas histórias pra contar!
Desfilando nessa rua
sob a luz da linda lua
eu vou mostrar...
Vila, a febre que não quer passar,
do teu delírio eu fiz enredo
vem pra roda cirandar!
Dois cinco sete, eu me lembro!
Vó Noêmia!
Vô Aguiar tinha alma
bem boêmia!
Tio Placidino, Cicinha
e Tio Bimbas também,
Ceceu Rico e Helena vêm!
É, veja que felicidade,
tudo isso ainda é verdade,
Simpatia É Quase Amor!
Vem cantarolar a linda rosa juvenil,
que teu sonho descobriu!
Uni-duni-tê!
Arma a quadrilha que eu vou...
Anarriê!
Prima da Penha mostrou
Copacabana
de cheiro-mar tão sacana...
Vai, vai ser Blanc na vida em nome da Vila
Mesmo se o SEGURA não desfila
o show tem que continuar!
Faz do samba o "74" da saudade...
Rua dos Artistas parou pra te aplaudir
Vem, Aldir!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2004
João do Rio
A madrinha Christiane, uma das pessoas que mais encarna o autêntico espírito carnavalesco, transcreveu no excelente Contexto da Descoberta uma belíssima página do grande cronista João do Rio, sobre os carnavais do começo do século passado.
João do Rio, como se percebe, era um retratista sagaz da cidade e da alma brasileira na virada do século XIX para o XX. Este texto, assim como todos os presentes no indispensável livro "A Alma Encantadora das Ruas", é fundamental para qualquer um que pretenda entender a identidade mais profunda do povo brasileiro. Identidade esta tão autêntica, tão presente, mas que dolorosamente vemos se esvaindo em meio a todas as formas de violência que nos são impingidas, dentre as quais talvez a mais sutil e mais destruidora seja a aniquilação da nossa singularidade, diversidade e expressividade culturais.
Duas coisas chamaram-me a atenção, particularmente. Uma é a constatação do sentido corrente da designação "sambas de carnaval" posto que nenhuma adjetivação, explicativa ou restritiva lhe segue, dando a entender que a significação fosse perfeitamente partilhada pelo senso comum. Claramente, não possui a significação rítmica específica que hoje designa um gênero musical, mesmo porque a cristalização deste elemento rítmico só se deu mais de trinta anos após a data deste maravilhoso escrito, apesar de apontar inequivocamente para as matrizes rítmicas e cênicas de origem africana (“...porque a origem dos cordões é o Afoxé africano...”). Contudo, pelo tom de todo o texto, podemos tentar intuir a carga mais profunda de significações que a palavra encerrava, algo que tange a forma mais autêntica, espontânea e, ao mesmo tempo, especificamente engendrado para desfiar as agruras, alegrias, penúrias, dasabafos e desejos de um povo que era mantido sempre calado. trezentos e sessenta e dois dias por ano. Maravilhoso saborear esta atmosfera de catarse coletiva da parcela mais humilhada, mais subjugada de uma nação. Mais emocionante é perceber como esta carga significativa da palavra "samba", enquanto o privilegiado cantochão dessa liturgia que dialeticamente leva ao extremo o sagrado e o profano, perpetuou-se mesmo após a fixação e o predomínio da significação propriamente rítmica, conferindo essa sacralidade que nós, amantes do samba, sentimos tão fortemente, mesmo sem muitas vezes sermos capazes de verbalizar. Sacralidade esta que escancara o pecado daqueles que teimam em tomar seu santo nome em vão, de pagodeiros a Super-Escolas S/A.
A segunda curiosidade é perceber como, bem inversamente ao que comumente se aceita, o carnaval de rua do Rio de Janeiro hoje é muito mais “família” do que há cem anos atrás. A única coisa que talvez haja em comum são as turbas se acotovelando nas ruas em determinadas manifestações, mas o que mais se vê hoje em dia, em vez da atmosfera de luxúria, são criancinhas montadas nos ombros dos pais. O carnaval de rua, hoje, certamente é mais comportado, mais seguro. Se ainda é alegre, se ainda se presta à descontração, à música e à dança, falta-lhe a essência do povo, em sua quase desesperada necessidade de bradar seus tormentos, desejos e prazeres em forma de sambas. Se nele há ainda, aqui ou acolá, pretas bêbadas desconjuntando os quadris largos, a verdade é que perdeu-se esta dimensão de verdadeira transgressão, na acepção visceralmente coletiva. A sua luxúria, assim como sua música e sua dança, hoje são fabricados e podem ser comprados em ofertas “pret-a-porter”.
domingo, 1 de fevereiro de 2004
Pasquim
Com pouco mais de uma semana de vida, o "Só dói quando eu Rio" foi indicado por OPasquim21, na edição desta semana, o que muitíssimo nos honra e alegra, em vista de tudo o que esse grande jornal representou e representa na resistência jornalística e cultural no Brasil. Beijo especial para meu querido Luís Pimentel e todo o time de feras do Pasca! Valeu a força!
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