domingo, 5 de abril de 2026

Vamos renascer das cinzas

 

Que os ovos, coelhos, ramos e tudo o mais nesta Páscoa nos restituam a sabedoria de esperar.


Passou o feriado e foi um tal de “feliz Páscoa” pra lá e pra cá. Irmão te liga do outro lado do mundo, o vizinho passa na rua e te cumprimenta, o cliente do bar vem te dar um abraço. Você responde a todos, claro, com aquela sensação de não saber direito o que está dizendo. Porque tirando aqueles (poucos) que ainda a celebram com algum sentido religioso, a Páscoa vira mais uma data pra pagar mais caro do que as coisas ordinariamente valem, pegar fila em mercado (porque NINGUÉM que eu conheço compra ovo com mais de dois dias de antecedência), passar constrangimento esquecendo o chocolate da secretária e aqueles todos perrengues que nós bem conhecemos. Né?

Não. Pra mim não é, não.

Primeiro, porque eu sou um homem de ritos, como diz o nunca assaz citado Luiz Antônio Simas. Lá bem antigamente, um obrigatório nessa época era malhar o Judas ao meio-dia do sábado de aleluia – e não vos direi nada mais a respeito porque o grande João Antônio, minha inspiração permanente, já o fez de maneira definitiva no seu obrigatório “Malhação do Judas Carioca” (que tive a pachorra de transcrever, alguns anos atrás). Outro, infalível na casa de minha avó, era colorir os ovos pra comer no almoço de domingo. De galinha mesmo - porque não vamos achar que a Páscoa foi fundada no mesmo ano que a Chocolates Pan. Esse eu ainda mantenho e é farra garantida para os pequenos. Sexta da Paixão era dia de não comer carne, não ouvir música, não fazer algazarra – as ameaças de vovó eram terríveis... Tinha procissão do Senhor Morto, de velas acesas e ladainhas as mais pungentes. (Em uma que me lembro muito, o Deus assassinado por seus filhos pergunta “povo meu, que te fiz eu? Em que foi que te faltei?...” De se debulhar.) E a bem da verdade, ainda que o silêncio tenha ido para o espaço e as procissões rareado, não sei se ainda por força dessas imemoriais imprecações, até hoje muita gente não dispensa o peixe no almoço. Mesmo a maré não estando, como diria o Mestre Nei, “pra sardinha nem pra baiacu”.


Mas apertando os olhos um pouquinho, para tentar ver além das brumas do desencantamento do mundo, da banalização dos ritos e dos paroxismos mercantis, aquele que anda nas ruas vê de novo outras luzes, outros tons, outras aragens. Folhas por aqui, flores acolá... Porque muito antes de Moisés abrir o mar com seu cajadão poderoso, muitos povos do hemisfério norte já celebravam algum tipo de ritual relacionado à chegada da primavera, sempre com a ideia de renascimento, renovação: mesmo depois do mais terrível dos invernos. Alheia à divisão abstrata e arbitrária do tempo, respeitando tão somente os ciclos solar e lunar (pois sempre cai no primeiro domingo de lua cheia após o equinócio de primavera, no Norte, ou de outono, pra nós), a festa possivelmente mais antiga e mais universal da humanidade parece ainda nos dizer, por entre a barafunda das correrias no dia a dia indiferenciado, que a vida não é só isso que não se vê, contrariando o Poeta. Que a história não se encerra nesse falso andar sempre em frente, esse consumir incessante e infinito dos instantes, deitados à beira dos caminhos seus despojos. Que os cheiros, cores, ventos uma vez mais transmudados vêm nos dizer que somos parte de um ciclo de nascimento, esplendor, decadência, morte. E renascimento!
 

Penso naquela tribo onde só havia, entre os homens, joões e josés. O filho de um josé sempre se chamaria João. Que geraria sempre outro josé, de modo que sempre um joão seria neto e avô de outro. Para se lembrarem da sua condição de elos de uma cadeia, de etapas de um ciclo. Nós, na empáfia de senhores da natureza e da história, na crença desmedida e cega no progresso, vira e mexe somos “traídos” pelo retorno “inesperado” dos períodos de retrocessos e obscurantismos. E prisioneiros de uma forma de ver o mundo que tem tanto lugar para a fé e quase nenhum para esperança, facilmente... Desesperamos. O desejo desta coluna, nesta Páscoa, é que os ovos, coelhos, ramos, josés e joões nos restituam a sabedoria de esperar. Para podermos atravessar o inverno que está só no começo. Para, no tempo oportuno, renascermos.


(publicado originalmente no hoje não mais acessível portal Ultrajano, do jornalista José Trajano, provavelmente em 2017)

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