Olha, tenho me segurado até hoje. Mas para bom estabelecimento da verdade (a verdade da minha opinião, entendam bem; que, aliás, pode mudar daqui a meia hora...), para evitar as brigas nos dias de jogo e os desentendimentos matrimoniais; para que eu possa parar de manifestar meus desvairios no varejo, pelos blogues alheios a fora, e possa trabalhar e deixar os colegas de seção trabalharem; escreverei aqui e agora um único texto sobre a Seleção Brasileira desta Copa de 2006.
Sim, meus amigos, porque as brigas têm-se multiplicado e tenho sido um defensor implacável deste time. Mesmo com os riscos de, em caso de acontecer algo que permito-me não nomear, por superstição extremada, os dedos em riste voltarem-se contra mim e os "não avisei?" massacrarem-me por anos a fio. Porque torcer, enfim, é isso. É abraçar uma causa, contra tudo e todos, tomar partido num dos lados da batalha. E a batalha envolvida numa competição de futebol é muito mais que um triunfo ou fracasso esportivo. Mexe intima e diretamente no âmago da alma brasileira, naquilo que ela talvez tenha de mais frágil: no brio, no orgulho, no amor próprio, no sentimento efetivamente Nacional, aquilo que meu brilhante amigo Felipe Maia
mostrou não existir, por exemplo, num país como a Espanha.
Então, tentarei ser objetivo. Em primeiro, Copa do Mundo não é o casados e solteiros dominical do Clube Alvi-Verde da Vila Romana. É uma competição magistral, dificílima, pela tradição, pelos holofotes, por tudo o que fez sua mística desde 1930 e ainda por todo o mais que envolve o mundo do futebol presentemente. A prova disso é que em dezessete edições, com dezenas de países disputantes, temos somente sete campeões. Há os aspectos técnicos, atléticos, propriamente esportivos, mas há os políticos, os históricos, os simbólicos, culturais de muitos espectros.
Segundo. Para o Brasil, tende a ser sempre mais difícil. É o maior dos campeões, indiscutivelmente. É o país de Pelé, pra começar. Depois, é o de Leônidas, de Zizinho, de Garrincha, de Rivelino, de Zico, de Romário, de Ronaldo e de Ronaldinho, pra não ir muito longe. Há sempre uma expectativa internacional e interna enormes, uma cobrança muito grande daí decorrente. Bem, até agora sem novidade.
Terceiro. Há, presentemente, essa transformação de tudo em
show business,
glamour, badalação etc., que envolve tudo e todos que têm vida pública de alguma maneira, e não seria diferente para os jogadores de futebol. Há o dinheiro milionário que ganham, há o fato de jogarem muito longe dos torcedores nacionais, tornando-os tão desconhecidos, tão distantes como Brad Pitt ou Bento XVI. Eu que moro em São Paulo, vi o Zico no campo dezenas de vezes, muito menos que meu pai viu Pelé. Mas minha filha não vai ver o Robinho nem o Ronaldinho Gaúcho. Isso tudo tende a criar uma distância da Seleção com o povo. Nada disso é culpa do Ronaldo, do Roberto Carlos, do Dida ou dos outros todos (talvez com duas ou três exceções) que são pessoas nascidas nas classes mais pobres da população e que ascenderam pelo talento, pela arte de bem jogar. A culpa é do sistema.
Quarto. Esse distanciamento só pode ser quebrado com uma figura altamente carismática que, por cima do quadro objetivamente adverso, consiga reeditar subjetivamente uma identificação da nação com o escrete. Tivemos isso em 2002 com Luís Felipe Scolari. Não temos agora. Não temos jogadores carismáticos, pelo contrário, no máximo um ou outro chega a ser simpático, como Cafu e Ronaldinho. Parreira é o anti-carismático por definição e Zagallo está velho demais pra pesar na balança. Então, aquela sensação de faltar alguma coisa, de faltar garra, empolgação, amor pela camisa, ou qualquer coisa que o valha é uma soma dos fatores objetivos que apontei acima com essa falta generalizada de carisma.
Quinto. Porque, na minha opinião, não tem faltado garra e nem vontade de ganhar. Olhe no rosto do Ronaldo e veja se falta dedicação. Ou do Ronaldinho, visivelmente insatisfeito com suas atuações, mas em nenhum momento fugindo do jogo ou se escondendo ou negando fogo. Não vi uma pipocada até agora. Não vi um deboche. Sinceramente, de todo meu coração, vejo garotos de 20 ou 30 anos, que tem tudo na vida, muito dinheiro, as mulheres mais belas, badalação, segurança (moram na Europa, não na Barra da Tijuca), prestígio etc. etc. Que tem como ÚNICA motivação de jogar, de dar suas pernas valiosas a quebrar, a mística das Copas e da camisa amarela, o simbolismo, o peso histórico. Isso para pessoas que, repito, não tiveram acesso privilegiado a uma formação cultural mais completa. Eles estão lá, entram em campo, jogam, suam, enfrentam as críticas, as vaias, o jornalista dizendo que estão comendo as mulheres deles, os zagueiros maldosos, as entradas cavalares. E têm ganhado todas até aqui.
Sexto. O time pode jogar melhor? Pode, claro. Mas de quem é a culpa por não o estarem fazendo até agora? É do técnico? É deles? Difícil dizer. Não há possibilidade de treinar, a competição é curta. TODAS as seleções são formadas na última hora e acabam prevalecendo mais os talentos individuais mesmo. Um time como a Argentina tem a seu favor o fato de, se não me engano, onze dos 23 convocados jogarem juntos desde as seleções de base, em 1995. Talvez isso explique um futebol mais "associado", pra usar um termo fora de moda. Há problemas de posicionamento no time brasileiro. Na defesa, clássico, tem sido superado com atuações individualmente brilhantes de Juan (o melhor da Copa, para mim, até agora) e Lúcio e com Emerson encontrando um meio mais eficaz de fazer as coberturas. Mas ainda dá sustos, mesmo assim, e não permite que os laterais possam jogar o que sabem e o que podem colaborar na frente, notadamente Roberto Carlos. Na frente, o que todos pediam insitentemente era a entrada de Juninho no meio pra liberar Ronaldinho pra jogar mais à frente. No último jogo (Gana) aconteceu isso, Juninho jogou mal e Ronaldinho não avançou. É certo que as coisas funcionaram melhor contra o Japão, mas acima de comparações técnicas de adversários, ali não havia a responsabilidade de um mata-mata. O que pode fazer o Parreira, meu Deus, senão experimentar, trocar, avaliar no decorrer da competição e dos jogos? Qual a conclusão? É que, objetivamente, a despeito dos posicionamentos problemáticos da defesa, temos tomado poucos gols e jogado bem, inclusive o gelado e eficientíssimo Dida. E no ataque, temos feito os gols e ganho as partidas, apesar de sabermos que poderíamos ser mais eficientes. E que ainda não conseguimos jogar um jogo pra valer com a formação que se mostrou mais eficiente até aqui, com Zé Roberto e Emerson mantidos no meio, sim senhor, e Robinho na frente ao lado do bravo, eficiente, competente e goleador Ronaldo.
Sétimo. O Brasil foi a única seleção que sobrou nas oitavas. Ao contrário do que alguns dizem, não tomou sufoco, não senhores. Recuou demasiadamente após o primeiro gol, o que provocou desespero num Parreira consciente e determinado a tirar o time da retranca em que se colocou naturalmente. Meus amigos, ganhamos por 3 x 0! Perigo, mesmo, lembro de um chute de Gana e a cabeçada que o Dida tirou por milagre, no reflexo, com o pé. Então, matematicamente, pode ter havido um domínio territorial maior de Gana em metade do primeiro tempo e em uns 15 minutos do segundo, não mais que isso.
Oitavo. O que quereis mais, detratores do futebol brasileiro? O Brasil ganhou no tempo normal TODAS as quatro partidas até aqui, igualado apenas pela anfitriã Alemanha e pela brava seleção portuguesa. Quereis goleadas? As tivestes, duas. Quereis golaços? Tivemos dois do Ronaldo, pelo menos, e um do Kaká, contra a Croácia. Quereis lançamentos magistrais? Kaká os tem dado. Ou não? Insisto: OU NÃO? Quereis garra? Tem havido, ainda que acho que pode haver ainda mais. Quereis que Ronaldinho jogue tudo o que sabe? Também quero. O QUE MAIS? Tem havido alguma dessas coisas nos outros? Sinceramente, não sei que futebol é esse que quereis. É de outra época, por certo, mas QUAL? Hoje, a competição é essa, o perfil internacional é esse, o futebol é esse. E em três últimas copas, ganhamos duas e um vice. E na atual já estamos entre os oito.O que é dar show, jogar bonito? É o que fez a seleção de 70? Então, digo para vocês, e quem me conhece sabe que é verdade, que já assisi os jogos COMPLETOS da Copa de 70 dez ou quinze vezes cada um. Enganam-se os assistidores do vídeo Caras de Todas as Copas que o time do Brasil jogava genialmente por 90 minutos a fio. Pelé errava passes, sim senhores. O posicionamento na frente do Tostão demorou a se acertar, sim senhores. A defesa era uma peneira, sim senhores, e se o time atual levasse um daqueles gols contra o Peru, por exemplo, o técnico seria crucificado em praça pública. Mas o time tinha jogadas geniais e os talentos individuais e a força física excepcional (o preparador era o Parreira, só pra lembrar...) prevaleceram sim. Deram espetáculo porque ganharam todos os jogos, porque fizeram belos gols, porque souberam superar as dificuldades de posicionamento, as limitações técnicas de algumas posições e as improvisações que tiveram que ser feitas. Ou quereis a Copa de 82? Quando o empate nos classificava e mesmo assim o time inteirinho estava lá na frente, quando um belíssimo passe de trivela do Sr. Cerezo cruzando nossa intermediária, certamente para debochar da cintura-dura dos italianos, foi encontrar um Paolo Rossi prontinho pra sacramentar o que os detratores do futebol e do povo brasileiro teimam em determinar seja a sina do Brasil: a derrota.
Mas não desta vez. O povo brasileiro vai pras ruas comemorar o HEXA. Ou chorará a derrota - que faz parte, afinal! -, enquanto os leitorezinhos da Folha de S. Paulo ou d'O Globo vão fazer as suas devidas interpretações sócio-psicológicas, entre um e outro
scotch. Sou hoje um afastado do futebol, pode-se dizer, e aqui não é o lugar para discutir as razões. Mas houve época, talvez um seis ou sete anos a fio, que assistia os TREINOS do Palmeiras. TODOS OS SANTOS DOS PUTOS DIAS. Talvez por ter sido boleiro a vida inteira e grosso, e brigador, e aguerrido; talvez por ter sofrido demais pelo meu time e vibrado demais nas vitórias; talvez por ter pegado sol, chuva e tomado borrachada da polícia montada; talvez por isso tudo, futebol para mim seja batalha, seja épico, seja transcendente; talvez por ter visto demais a beleza de zicos e maradonas jogando, ao vivo, ou pelés e ademires-da-guia, pelo vídeo; talvez por ter visto demais a feiura técnica e a paixão desmedida dos Desafios ao Galo, torneio varzeano famoso dos anos 70/80. Talvez por tudo isso. Ou talvez por verdadeiramente desconhecidas razões, eu seja acima de tudo um TORCEDOR BRASILEIRO. Que sofre nas derrotas e comemora as vitórias. Só. Que se apega ao que vê, com o coração, mas cuidadosamente. Sóbrio. E que deixa as teorias para depois.
Chega de briga. Quem discordar, que argumente.