quarta-feira, 27 de setembro de 2006



Samba de Dois-Dois

Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro


Esse samba é de dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, esse samba é de dois

Pra puxar carroça grande
É melhor um par de bois
Se juntar mulher com homem
Vai sair mais um depois
Mas quem vai com sede ao pote
Às vezes vem logo dois
É um berço pra dois filhos
Camisola de filó
É o dobro de trabalho
Desses pais eu tenho dó
Mas quando se tem gêmeos
Acho que é melhor
Que na roda da vida
Nenhum deles brinca só

Festa dos Ibejês
Dia dos Erês
Vem Dadá e Ogum
Doú chega com Neném
Tem beiju, quindim
Acaçá, mel e xerém
Caruru, xinxim
Tem pipoca, abará e aberém

Quando eles vêm, eles vêm assim
É de Dois-Dois
Crispiano vem com Crispim
É de Dois- Dois
Onde vai um vai o seu irmão
É de dois em dois
Se vem Doum, também vem Romão
É de dois em dois
Dia de Cosme e Damião
É dia de louvar Dois-Dois!

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Testamento-libelo de partideiro


"Pra minha mulher deixo amor, sentimento
Na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo um bom exemplo
Na paz do Senhor
Deixo como herança força de vontade
Na paz do Senhor
Quem semeia amor deixa sempre saudade
Na paz do Senhor
Pros meus amigos deixo meu pandeiro
Na paz do Senhor
Honrei meus pais e amei meus irmãos
Na paz do Senhor
Aos fariseus não deixarei dinheiro
Na paz do Senhor
É... mas pros falsos amigos deixo o meu perdão
Na paz do Senhor"

(Candeia)



Ainda que demos sorte, e as sabedorias todas índias tão várias e africanas tantas puderam temperar e amalgamar esse olhar brasileiro tão privilegiado, tão mais capacitado ao entendimento dessa bagunça toda que os bichinhos de duas pernas andam perpetrando pelo mundo. Mas, apartado do povo brasileiro e mesmo, na maioria das vezes, de costas pra ele, a pequena minoria “esclarecida” segue se arvorando em dona da razão e do entendimento, em senhora dos conceitos e dos destinos. Se essa pequena casta, porém, não representa o modo de ser do brasileiro, antes tendo historicamente feito tudo para que esta singularidade não se afirmasse, não existisse, ela sempre tratou de se encastelar nos jornais e universidades, nos cargos públicos e nas “sociedades organizadas”, agindo, pensando e falando – como se pudesse! - em nome do povo brasileiro. É por isso que, via de regra, nos livros bem vendantes, seminários badalados, reuniões intermináveis, artigos de jornal não vamos encontrar o Brasil; no máximo, essa burleta grotesca urdida pelos usurpadores.

Desta minoria tristemente fazemos parte, e por mais que nos queiramos livrar, por mais que ansiemos uma vida simples e natural, pesa sobre nós a herança de soberba e prepotência que tudo quer dominar. Somos filhos de um sujeito que se definiu pensante e transcendental, independentemente de qualquer experiência concreta do mundo. De um espírito que se pretendeu absoluto, encarnação da razão e sentido da história, senhor da idéia e da existência. Carregamos em nós essa pretensão usurpadora essencial, de ser o que não somos; não de querer mais, o que seria em tese legítimo, mas sobretudo de achar que pode o mais.

O século é da grandiloqüência, das grandes causas, das decisões fundamentais (ou fundamentantes, ou fundamentalistas, como queiram). Estou sinceramente farto de carregar sobre os ombros, sozinho, o destino da humanidade. É certo que o materialismo histórico padeceu da mesma doença, do mesmo sentido totalizante, filho do século que é. Mas a dialética nos ensinou a História como experiência essencialmente coletiva, a razão como uma construção necessariamente de muitos, de todos. Toda pretensão individual é irracional e, portanto, anti-histórica! Qualquer conceito que se abriga no sujeito renuncia ao conhecimento e decreta a ditadura farsante das positividades.

A vida é difícil, tenho que me preocupar com o aquecimento global, com a camada de ozônio, com as animosidades entre judeus e árabes, com os delírios do Sr. Bush. Tudo depende de mim, a chuva ácida, a fome em Burkina-Faso, o desempenho do ataque do Palmeiras, a reforma do Judiciário, o reajuste salarial da minha categoria, de todas as categorias. Depende de mim? Depende de mim uma ova! Quer dizer, depende mas não depende. Como animal pensante e social, está afeito à minha seara de responsabilidades ter consciência do que se passa no mundo, tentar entendê-lo minimamente, cuidar dos que estão no meu entorno, agir segundo esse entendimento e esse cuidado. Não muito mais que isso.

Temos urgentemente que renunciar à pretensão de decidirmos os destinos do mundo. É imperioso reconhecermos que nossas idéias particulares sobre todas as coisas são, isoladas, prejudiciais ao funcionamento da humanidade. E elas só não estarão isoladas se conviverem, necessariamente com suas negações, pois só assim caminha a experiência humana do mundo. É por isso que todo aquele que permanece atrás do seu lap top, ditando opiniões e regras, policiando comportamentos e cobrando a adequação aos seus decretos distorcidos constrói a sua pequena ditadura particular, mãe e mantenedora de todas as formas de opressão. E é bem fácil conhecer, de longe, os pequenos ditadores. Seu discursinho conformador da realidade normalmente começa pela defesa intransigente da democracia, vale dizer, da possibilidade de cada ditaturazinha individual sobre a conformação do mundo se fazer respeitar na sua mediocridade essencial.

Sempre construí minha vida publicamente: escrevendo, debatendo, fazendo música, fazendo política, combatendo meus pequenos combates. Militando. Meus erros e acertos são conhecidos dos que se acercam de mim. Foi pública minha adolescência católica, no debate intelectual intenso e na dedicação pastoral irrestrita. Sabida minha participação na fundação do PSDB, minha proximidade participativa e atuante junto ao PT, a militância estudantil e na organização da minha categoria profissional. Os que me conhecem sabem como pus abaixo todo meu arsenal de idéias sobre a vida lendo Hume e Kant, sabem do meu marxismo arraigado, minha paixão pela teoria crítica, de tudo o que sobrevive em mim de católico, de tudo quanto busco e tento aprender no tesouro de sabedoria que campeia pelo Brasil, América Latina, África. Sabem da minha opção de engajamento filiado ao Partido Comunista, bem como todas as minhas críticas e discordâncias, que até hoje implicaram em debate e nunca dissidência. Tudo me podem imputar, menos dissimulação. Por que me cobram, então? “Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que me perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito.” (Jo 18, 20-21).

Abaixo, pois, os desvarios megalomaníacos. Quem vota no Lula não é arauto da bandalheira e nem detrator da ética na condução dos negócios públicos. O que opta pelo Alckmin não é baluarte do moralismo udenista que ele pode representar e muito menos o eleitor da Heloísa Helena é um sebastianista messiânico inimigo da liberdade sexual das mulheres. Da mesma forma que os eleitores do Cristóvão não são os salvadores do mundo, “vinde a mim as criancinhas”. São pessoas, são forças políticas, são organizações, todas absolutamente inseridas e determinadas historicamente por uma infinidade de circunscriçõess. O eleitor faz uma opção, que é política, que é histórica, que é circunstancial. Não faz um juramento de fé, não imola sua alma, não faz votos perpétuos nem promessas de fidelidade “até que a morte os separe”. Faz escolhas circunstanciadas. Os mesmos que hoje se escandalizam com a corrupção desnudada são os que ajudaram, satisfeitos, a carregar a bandeira da “honestidade” como proposta política, como traço de distinção “dos corretos”. Os mesmos de sempre, prontíssimos tanto para alardear de suas janelas a impudicícia das filhas dos vizinhos, quanto para expulsar de casa a sua própria, carregadora que se fizer do estigma do “outro”, do impuro.

Este texto, que propositadamente pode ter feições de testamento intelectual, é muito mais um salve ao bom debate das idéias e um libelo contra as pretensões totalitárias desses democratazinhos de merda, cagadores de pseudo-conceitos e regrinhas de pensamento bem comportadas. Estou farto dos covardes e enrustidos, idumentária favorita dos opressores. Sou apenas um indivíduo. Um cidadão que pensa o seu mundo com uma lógica que não é só sua, que canta os seus sentimentos com um canto que não é seu, é de muitos, é de um povo. Que cuida de sua família, ganha o seu dinheiro, cumpre razoavelmente seus deveres, tem os seus inúmeros erros e defeitos e procura combater os seus combates.

Que sabe que está lutando e que quem luta tem que estar pronto para tombar. O combatente que não tem sentimento da própria morte é um louco ou um farsante.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Noite

Olho para o céu de noite aberta e sem lua. Afasto-me da varanda onde a luz da arandela teimava em me contrair as pupilas ansiosas das estrelas todas. Desde menino, a mesma angústia. Mas não será, mesmo, pela toda vida esse o desassossego? Um querer, assim, que nunca não se farta?

O Velho tanto nos prevenira, mas quem somos nós a dar ouvidos a esses tantos avisos e cuidados? Quem houvera de ter paciência para aqueles sentidos ocultos, para aquelas tramas todas urdidas a despeito e contra as evidências? Tudo sabíamos, tudo podíamos, nossos corpos e olhos e mentes, era só sair por aí devorando a vida, os saberes, os mistérios. Quais segredos nos freariam a sanha toda? Tola... Quanto sofrimento não seria poupado se tivéssemos, pelo menos, aprendido a olhar.

As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.

Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.

Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.

Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.

O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.

Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.

[para Nei Lopes]

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Vil

Fico às vezes embasbacado ao ver que todo o pretenso avanço institucional brasileiro ainda não foi capaz de banir da vida pública certas posturas e personagens que não têm o menor pudor de encarnar publicamente os mais abjetos conceitos e sentimentos contra os quais gastamos boa parte de nossas vidas combatendo.

Uma destas grotescas figuras, albergado seguidamente por cada uma das emissoras de televisão aberta do país e agora aspirante a um cargo eletivo, é useira e vezeira em declarações desastrosas e ofensivas à dignidade da população brasileira que é, em instância final, a titular do serviço público de telecomunicações que o emprega. Trata-se do senhor que atende pelo nome Clodovil Hernandes, costureiro afamado e dublê de apresentador de televisão, atividade na qual destaca-se por colecionar uma sucessão que parece interminável de ratas, maledissências e pseudo-polêmicas de variadas ordens.

Anteontem, figurando em matéria publicada pela Folha de S. Paulo, justamente sobre os supostos candidatos "extravagantes e divertidos", no dizer da manchete, o indigitado senhor declara, ao ser perguntado sobre “qual a vantagem de ser político”: “Nenhuma. Ainda mais porque eu nasci aqui e não na Alemanha, onde tudo é melhor, a começar pela raça. Nós viemos de índios bobos, antropófagos, você não pode pretender que as coisas sejam iguais.” (o destaque, que chega a ser desnecessário, é meu)

Há pouco mais de dois anos, o mesmo senhor Clodovil, à época cumprindo a função de apresentador do programa televisivo “A Casa é Sua”, veiculado pela emissora Rede TV, no programa do dia 17 de março de 2004, referindo-se ao suposto fato de o conhecido e não menos desastrado cantor Agnaldo Timóteo ter sido impedido por fiscais da Prefeitura Municipal de São Paulo de vender seus discos como ambulante nas ruas do centro de São Paulo, proferiu o seguinte comentário, textualmente: “[Agnaldo Timóteo] tem que vender discos na rua (...) Ele vai fazer o quê? Ele vai fazer o que todo crioulo faz no Brasil? Vai virar ladrão, bandido ou o quê?” (grifos nossos) (fonte: FolhaOnline, 18/03/2004).

Este espaço e seus leitores não reclamam a escansão dos conceitos compreendidos na infamatória assertiva, que será levada a efeito nas instâncias adequadas, como já na época. Só peço, para o mal menor das instituições democráticas, entre as quais, o Congresso Nacional, do qual aspira fazer parte o “extravagante” senhor, que divulguem.

sexta-feira, 1 de setembro de 2006




Cortejo

Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro


No paxorô de Oxalufã
Vou me amparar, Obá
Obatalá!

Me vesti de branco
Me enfeitei de fitas
Com pano-da-Costa
Fiz meu abadá
Pus no meu turbante
Uma pedro roxa
Pendurei a guia
Com meu patuá
Botei água-de-cheiro
E antes de sair pra rua
Fui pedir a benção
Ao meu Orixá

Vim de Nazaré das Farinhas
Só pra desfilar
No afoxé dos Filhos de Gandhi
Tocando o seu ijexá
Vou seguir o cortejo
Pela beira do mar
Até o pé da igreja
De pai Oxalá

No paxorô de Oxalufã
Vou me amparar, Obá
Obatalá!

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Descartando Descartes

"Creio na virtude do confuso. O papel do etnólogo é trasnformar as idéias claras e distintas em idéias confusas, obscuras."

(Roger Bastide)

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Bahia de Todas as Esperanças

Cem por cento dos leitores pedem a volta destas mal traçadas. Não sabem é que continuo impregnado de Bahia até os ossos, e então mister não se precipitar, meu rei. Até o final do ano, três velocidades: devagar, quase parando e parado.

Quase dez anos passados, o Brasil nestes tempos tão atacado, tão solapados seus fundamentos pelos predadores de sempre, ora travestidos de mudernos e competentes governantes entreguistas do patrimônio público e da soberania nacional, devidamente comissionados, ora de baluartes do multiculturalismo tudo-é-válido-ningúem-é-de-ninguém, ora de pentecostais donos e senhores pretensos de toda a verdade e todos os caminhos (que Exu nos venha vingar!). Temia eu tivesse a terra de Todos os Santos sucumbido à frouxeza dos nossos alicerces balangantes. Mas qual o quê!

Adalgisa, que encontrei nas imediações sagradas do Opô Afonjá, de emanações de resistências jamais vincendas, mandou dizer que a Bahia tá viva ainda lá. Rio Vermelho, dez da noite, a negra mercando ainda parece um lamento que se agarra de unhas, dentes e contas ao que ainda vive e pulsa pelos becos e ladeiras. Ladeiras do Pelourinho que já não tem aquele verniz de ocasião que a Malvadeza mandou caiar - a do Carmo anda em pandarecos lamentável falta de projeto e proposta para o mais representativo acervo arquitetônico civil colonial: ficou só na perfumaria, infelizmente. Mas acima de tudo, os negros e negras esculturais seguem desfilando sua altivez e sua soberania impressionantes, senhores das ruas e dos mistérios, donos dos sons, dos passos e dos remédios nesta Cidade da Bahia.

Que continua a mais democrática, a mais miscigenada de todas as capitais brasileiras. Não só na promiscuidade tão maravilhosa de genes, credos e etnias, volúpias sempre incontidas, mas na não separação das moradias, bairros todos abrigando a variedade das classes e das culturas. Igrejas vizinhas de terreiros, prédios modernos junto às casinhas de alvenaria sem reboco, pretas de acarajés e abarás em frente ao restaurante japonês de linhas futuristas. Essa, a Bahia. A pichação de rua ostenta o arco-e-flecha de Oxóssi apontados para a igreja-franquia em frente, ladeados pelos dizeres: "não à intolerância, respeito à diversidade".

É tema para nós sempre recorrente o processo de apropriação da cultura popular pela lógica capitalista, que busca transformar tudo o que é liberdade e resistência em perpetuação dos processos de acumulação e de opressão. Dei-me conta nesta estada na cidade de Todos os Santos e Todas as Raças, que lá se operou, talvez como em nenhum outro lugar uma apropriação invertida. Impossibilitada de suprimir o âmago da própria opressão, a magnífica cultura do povo baiano transformou em seu, em único, muitas manifestações que seriam exclusivas dos dominantes. Pois é esse povo que faz da magnífica Igreja da Conceição da Praia templo de Iemanjá, do santuário Senhor Bonfim casa de seu Oxalá negro, encenando ali, mais do que um ritual de fé, uma demonstração de quem manda efetivamente nas ruas e encruzilhadas da Cidade Santa da Bahia, ignorando apelos e proibições eclesiásticas. E é nas suas ruas que esse povo canta, dança, come e reza.

Meu credo, sabeis, é que no fazer singular, nas especificidades dos modos de ser e estar no mundo é que se descortina o reino da liberdade, da autodeterminação, que presentemente se traveste em resistência, mas um dia há de ser afirmação. O grande Jorge Amado anteviu ainda nos anos 30 que a liberdade que vem da revolução dos meios produtivos, da quebra das estruturas capitalistas, convive já com essa liberdade anterior e essencial que se coloca aquém e além das estruturas econômicas de mediação social. Em seu Jubiabá, o grande romancista exalta reiteradamente a liberdade dos vagabundos, dos valentes, mendigos e desordeiros, juntamente com a sabedoria conselheira e curativa do centenário pai-de-santo, a prefigurar os domínios da atividade humana que podem ser mediados por outras categorias não-alienadas, ainda que o exercício dessa liberdade acabe finalmente por exigir a transformação das estruturas de poder, o que se dá pela luta operária. A Bahia nos ensina, pois, de qualquer forma, que nenhuma liberdade jamais existirá, se não formos sujeitos construtores do nosso próprio destino.

Vai o baiano, assim, resistindo, afirmando-se senhor de seus caminhos: nas tardes vagabundas de segunda-feira, na Ribeira; na arte afiada de Hansen Bahia, abaianadora de tudo o que se pode imaginar; nas quase-barrocas fotografias reveladoras-ocultadoras do babalaô Verger. No policial do Batalhão de Proteção ao Turista aboletado em prontidão defronte a uma viela suspeitíssima, a informar solicitamente aos interessados em saber o que encerrava aquele beco instigante e tortuoso: "aglomerado de bares ilegais, pontos de venda de drogas e objetos roubados, senhor; altamente recomendável não entrar".

Cultura de todos os dias

Hoje é dia 22 de agosto, dia de reunir os amigos, contar histórias velhas, botar novidades em dia, como fazemos nós, velhos diretores do outrora querido Centro Acadêmico 22 de Agosto, religiosamente há mais de quinze anos. Dia também que alguém resolveu designar como o dia nacional do folclore. Abro há pouco, por acaso, a página inicial do portal UOL e logo de cara deparo a pérola: "Hoje é dia: celebre tudo o que caracteriza a cultura brasileira". Não poderia haver, com certeza, retrato mais fiel e mais preocupante dos sombrios tempos atravessados por essa nação chamada Brasil.

Fez-se razoavelmente disseminada a distinção o que se convencionou chamar "folclore" e o que se denomina "cultura popular". Não que seja de rigor, mas é útil para o que aqui queremos apresentar. Grosso modo, "folclore" é museu, ou seja, uma tentativa de se preservar um acervo a que se atribui importância histórica e de que, de outra forma, estaria fadado à degeneração. De importância inegável, é certo que se destina à preservação das coisas que já não está encampadas no dia-a-dia, por isso mesmo ameaçadas de extinção caso não se promova uma intervenção direcionada. Essa disposição consciente de preservação tem, portanto, pressupostos subjetivos e objetivos que determinam francamente a dimensão do "corte" que se vai operar na realidade representada, de modo que a referência seja sempre parcial, indireta e, de certo ponto de vista, dirigida.

"Cultura", de outra parte, é algo vivo, que exprime um jeito particular de ser e estar no mundo e de agir sobre ele. No falar, no cantar, nas histórias, na preparação dos alimentos, nos modos de morar, vestir e trabalhar, na sabedoria conselheira ou curativa, em todos os aspectos do fazer humano em que se pode revelar um determinado modo que se pode mais ou menos delinear como peculiar a um determinado grupamento humano. Esses modos de ser e fazer ao mesmo tempo determinam, por um lado, as categorias através das quais os indivíduos interagem com o mundo ao seu redor e, por outro, representam o produto coletivizado dessas interações. O campo da cultura, assim, é onde se opera magistralmente a interação dialética entre indivíduo e coletividade, de um lado, e entre passado, precisamente enquanto conjunto das realizações humanas conquistadas coletivamente, e presente, entendido como arena privilegiada aberta às novas contribuições, constantemente reinterpretada e recriada. A complexidade e a historicidade arraigadas são, pois, marcas profundas e fundamentais. Não há lugar, aqui (a não ser para as interpretações científicas, mas aí estaremos num outro plano do fazer cultural, ou "metacultural"), para as univocidades, para os cortes representativos, para as imobilizações de qualquer ordem, para as ações orientadas a finalidades a priori determinadas, sob pena de negação dessa dinâmica e dessa dialética essencial.

Percebemos, assim, a impropriedade essencial da recomendação de um dos maiores grupos da comunicação privada no país: "celebre tudo o que caracteriza a cultura brasileira". Leia-se, em outras palavras: hoje é dia de lembrar do jeito brasileiro de fazer as coisas, se der um tempinho entre uma passada no xópim, uma lanche no maquidônaldi e um filme da bloquimbuster. No momento em que eu tenho que parar o fluxo do meu dia-a-dia para pensar nas coisas que representam o Brasil, é porque essas coisas já morreram para mim há muito tempo, porque esse "brasil" só faz sentido como uma reminiscência distante que se urge preservar pelo valor histórico, quiçá sentimental. Se comer uma feijoada, ouvir um samba, ir ao futebol ou entrar num butiquim para tomar uma cerveja transformarem-se num ato de grande solenidade em homenagem ao modo brasileiro de comer, beber, cantar, então é porque eles já estarão mortos, farão parte de um passado que só tem sentido para mim como remissão historicista.

Não quero dizer com isto, absolutamente, que não sejam necessárias ações para se preservar o espaço privilegiado da manifestação da cultura popular. Muito pelo contrário, pois estamos num cenário de guerra onde as forças da padronização, do pensamento único, do estabelecimento de padrões de sociabilidade externamente em relação aos indivíduos singularmente considerados, quotidianamente envidam esforços e ações para varrer todos os vestígios de possibilidade de exercício de um fazer singular, criativo, que não aceita a pré-determinação dos modos de vida tão caros à planificação capitalista e que se constituem, é fácil perceber, no domínio por excelência da liberdade. Nessa batalha, os domínios da cultura constituídos de estruturas simbólicas delicadas são presas fáceis para a sanha predadora da univocidade anti-cultural a serviço da lógica da acumulação do capital. As intervenções para equilibrar a batalha, então, são por demais necessárias. Apenas, há que se ter sempre presente a preocupação de não imobilizar a dinâmica complexa dos processos culturais sob pretexto de preservá-los, o que equivaleria a embalsamar o fazer cultural vivo nos folclóricos museus de cera.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Por motivo de férias coletivas de toda a redação, esta página ficará sem novos conteúdos até 13 de agosto próximo. Por ora, embarquem conosco nesta imaginária e olorosa viagem à grande Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Axé e até!

Canto de amor à Bahia

Jorge Amado




















Se gostas do teu marido,
na minha frente não passes...


canta o marinheiro no cais, próximo ao Mercado, em cuja calçada, como lâminas de aço, brilham os peixes ao sol. Ah! Se amas a tua cidade, se tua cidade é o Rio, Paris, Londres, ou Leningrado, Veneza de canais ou Praga de velhas torres, Pequim ou Viena, não deves passar por essa cidade da Bahia, porque um novo amor encherá teu coração. Esplêndida cidade, noiva do mar, enhora do mistério e da beleza. Nesse mar habita Yemanjá, a dos cinco nomes, e o misterioso chamado dos atabaques ressoa nas noites dos casarões sob a lua, das igrejas de ouro, das ladeiras grávidas de passado. O mistério e a beleza da cidade te envolverão, darás teu coração para jamais; jamais poderás esquecer a Bahia, o óleo de sua beleza densa te banhou, sua mágica realidade te perturbou para sempre.

No alto da montanha, na Praça Castro Alves, o poeta vigilante no monumento estende a mão libertária e aponta o mar embaixo, de um traiçoeiro azul subitamente verde, onde as velas dos saveiros se abrem ao vento numa aventura renovada cada manhã. Plantado em meio às águas, o negro forte antigo dorme um sono centenário; há muito se incorporou à paisagem, é paisagem ele mesmo e não praça de guerra. Todas as ladeiras descem para o mar de manhã cedo, mas à noite todas elas se dirigem aos candomblés, atendendo ao insistente bater dos atabaques, aos cantos nagôs saudando os santos. Mas a manhã é a hora do mar no pequeno cais do Mercado iluminado de mangas, abacaxis, abios, cajás, cajaranas, cajus, verdes melancias e das estrelas de sangue das pitangas; no cais da Feira de Água dos Meninos, onde saveiros depositam bilhas, moringas, pratos desenhados e cavalgadas de barro, bois mansos e cavalos azuis, tudo construído pelas mãos ingênuas e sábias de anônimos artesãos: na praia de Itapuão, de onde partem as jangadas de Caymmi, com Pedro Ferreira e Bento para enfrenatar “lá fora os pés-de-vento”. A manhã é a hora do mar quando os búzios dos saviros despertam Janaína cansada da noite na macumba, das dansas rituais, e ela sai de sua morada no Dique e se espalha sobre o mar, dona das águas.

E uma beleza antiga, sólida e envolvente a dessa cidade. Não nasceu de repente, foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. No Largo do Pelourinho eles eram castigados, e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. Almas penadas habitam os casarões e ficam vagando pelas escadas sujas. Nos sombrios corredores ouvem-se os ais de dor dos negros injustiçados. Libertam-se pela noite de mistérios e sobem pelas ladeiras clamando vingança. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas, os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios, Ladeira do Tabuão, Rua do Cabeça, Largo das Sete Portas, Mirante dos Aflitos, que escorre das igrejas dos santos negros, esculpidos em madeira e ferro, Xangô, Oxóssi, Ogum, Exu amedrontador, a bravia Iansã e o tétrico Omolu, que comanda a varíola. Dessa arte anônima dos santeiros negros nasceu a moderna escultura baiana, Mário Cravo, Agnalso Mirabeau. Em meio à promiscuidade da mais completa pobreza, num velho casarão, surge, inesperada, a riqueza de antigos azulejos, os poucos que ainda não foram levados pelos ricos de outras terras. Como uma figura antiga, a baiana de perfeito colo desabrochado nas rendas da bata, sentada em frente ao tabuleiro de acarajé e abará, de moqueca de aratu, de cocada e beijus. Ela é como a rainha da cidade, essa pobre negra que ganha duramente a vida. De majestosa beleza, de fala mansa e coração de bondade, riso aberto e claro, suas mão criam cada dia a arte do vatapá e do caruru, do efó e do xinxim de galinha. O bordado dos papéis que cobrem os tabuleiros recorda o papel cortado da Polônia ou da China na pureza do desenho.

O homem é imaginoso e cordial nessa terra de pimenta e brisa do mar, de mariscos e água de coco. Ele sabe as palavras sonoras e por vezes difíceis, sua fala é larga, sua voz cantante. Terra do sangue misturado, mestiça com todos os coloridos do moreno, todas as nuanças entre o branco e o negro. Negras como rainhas de tribos desaparecidas, mulatas de cintura de vespa e onduloso andar, brancas desfalecendo ao falar, nasceram todas de Moema, a que de amor morreu no mar quando a cidade apenas começara. Os pintores vêm de longe para descobrí-las, para recriar as paisagens, as casas e ruas que o homem construiu. Vêm o pintor Pancetti para a praia, a jangada e o mar; o alemão Hansen para o Bar São Miguel, de tímidas rameiras inocentes; outro alemão, Udo, para os arredores do Mercado, Rescala para as igrejas e o casario, e Carybé para a cidade inteira, para nunca mais sair. Viraram baianos, todos eles e para todo o sempre. E por mais longe que estejam, levam consigo o mistério e a beleza da Bahia.

Nem tuo é poesia apenas, e o drama explode nas ruas em enxames de crianças famintas, na multiplicação dos mendigos, na fome em terra tão rica. Nem tudo é grande tampouco, e certos homens, aventureiros vindos de todas as partes, tentam reduzir essa beleza negra e pesada, densa como óleo e profunda de mistério a proporções turísticas, e tudo fica pequeno e triste quando tocado por tais mãos. Existe uma permanente e criminosa tentativa de deformar a beleza da Bahia, sua dramática beleza centenária.

À noite o mistério aumenta. Das encruzilhadas escuras chega o eco da orquestra dos atabaques, agogõs, chocalhos, cabaças, chamando os filhos e filhas-de-santo para a festa da macumba. No céu de estrelas a lua amarela se derrama sobre o mar. Os santos descem nos terreiros, vindos das florestas da África. Os homens vão pedir saúde, dinheiro, longa vida e sobretudo amor, fidelidade de inconstantes corações. O sangue dos galos e dos bodes se derrama sobre Exu, para que ele não venha perturbar a festa dos homens. Nos cantos de rua, feitiços são colocados, afastemos nossos passos desses perigos. Na noite do mar sobe a canção do marinheiro:


Se gostas do teu marido
por que vens na minha frente
tuas ancas rebolar...?


Junto aos tabuleiros das baianas se acomodam os fregueses mais habituais para saborear mingau de puba, de milho e tapioca, sarapatel, bolo de aipim, o que há de mais gostoso para comer. Dorme a cidade baixa, menos o cais; movimenta-se a cidade alta. A música domina os homens, o ritmo negro dos batuques vem de recantos perdidos e atravessa as ruas e avenidas, acompanha os ônibus e automóveis, bate no sabgue de cada habitante. À noite o mistério aumenta e a beleza da Bahia se cobre de luar.

Essa é a minha cidade e em todas as muitas cidades que andei, eu a revi num detalhe de beleza. Nenhuma assim, tão densa e oleosa. Nenhma assim, para viver. Nela quero morrer, quando chegar o dia. Para sentir a brisa que vem do mar, ouvir à noite os atabaques e as canções dos marinheiros. A Cidade da Bahia, plantada sobre a montanha, penetrada de mar.

(in Bahia de todos os Santos: guia de ruas e mistérios, Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 61-65. Ilustração de Carlos Bastos)

terça-feira, 18 de julho de 2006

Ela vestiria seu vestido tão azul

Juliana Amaral


No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul, que caindo solto sobre seu corpo pequeno desenharia os seios pontudos e as carnes ainda redondas. Traria nos olhos castanhos, grandes e assustados, o peso das encarnações todas, molhados de uma saudade antecipada. Dentro do peito agora azul haveria o coração vermelho que sabe, sempre soube, dos monstros atrás das portas e dos fantasmas sob os tapetes. No coração grande tantas prateleiras ocupadas, bagagem pesada a dela, carrega no peito seu o amor de outras tantas carnaturas, as palavras, os filhos, os homens, os sons e os ventos todos, as águas sem fim.

Sabia que chegaria o dia anunciado, a partida premeditada desde o primeiro dia, nada prenderia aqueles olhos, aquelas mãos, nem o enredo das suas palavras, nem seu corpo habilidoso e fácil, nem seus olhos tristes, nem o riso solto. Talvez a voz pudesse, vento que sai da garganta em busca do porto seguro dos ouvidos continentes, e que suspendendo o mundo longe do chão carrega seu umbigo feminino pra dentro da casa dos homens e lá fica, como uma lembrança boa, como um desejo sujo. Mas a sua voz que ele pouco quis ouvir, teia de aranha safada, rebenta diante do corpo masculino e duro deste homem que agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina.

Na sua mala que fica o fardo da mulher que tem o coração e os olhos maiores do que as pernas, a alma despudorada que quer a pequena delícia das possibilidades, e as mãos infantis que não sabem desenhar mas que adivinham o contorno do mundo. Nos bolsos do homem todos os espaços vazios, os caminhos abertos, o tempo que o convida e o espera, generoso, para ser reconstruído e mudado em movimento e cor, as linhas fugidias desembaraçadas de quem não tem nada a perder, e a solidão espreitando como um velho no canto da sala, que um dia sem mais nem menos aparece pra jantar e senta na cabeceira da mesa, depois toma a cama, o banheiro e o quintal. E guardado no altar dos dias deles vividos um por um, a vontade compartilhada e secreta, os nomes, os lugares e as alegrias que só eles conhecerão, a memória do corpo intransferível, a urgência que jamais poderá ser roubada.

No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul e ela estaria pronta, sanguínea e delicada, com seu amor tecido em doação numa mão e seu silêncio na outra, os dentes aparecendo tímidos atrás do sorriso atrapalhado, molhado do choro que cai bonito dos olhos, e sem espanto, ela entregaria a flor sobrevivente e desmanchada nascida do tormento doce do seu coração vulcânico.


Ele agora partiria simples e reto

Ele agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina. Seu corpo firme rasgaria o ar no seu caminhar assertivo e atravessaria a porta, a rua e o mundo inteiro como um punhal atravessa a pele no golpe desferido, liso, úmido e fácil, porque sabe que não é a força mas sim o jeito que penetra a faca até o fim, não é o quanto a mão aperta a empunhadura mas o tanto que o braço empurra o peso do corpo pra dentro da carne, num movimento que nasce na cintura e encerra do outro lado no vazio que começa onde termina a pele das costas.

Os olhos de menino e o gesto inquieto deles nascido anunciariam a partida. No gesto, as mãos fazedoras das linhas aonde mora o infinito, mãos que redesenhavam o corpo dedicado da mulher pequena e delimitavam seus contornos, reconstruindo de novo sua pele no ar, e definiam a largura e a altura, moldavam a cintura, as ancas, a nuca, os seios, as pernas, a boca, o sexo, que se tornavam então subita, deseperada e urgentemente seus. O mesmo gesto que dava forma ao vazio das palavras inexistentes era a voz sem corpo da sua alma sem pouso. A alma sem pouso do homem assim partiria porque era da sua natureza, porque não havia casa, ele presumia, que lhe fosse continente, e sobretudo porque o tempo o empurrava incansavelmente, o chamava, e esperava.

E haveria a mulher com seu vestido tão azul, linda como uma tarde vermelha, com os olhos tão grandes e tão doídos, tão feminina, tão insuportavelmente feminil. E teria vontade de ter de novo aquele corpo, morder as carnes macias, e ouvir a voz e afogar a cara nos cabelos, e ficar ali dentro no quente das suas coxas, no silêncio dos seus braços, no fervor das suas preces.

Ele agora partiria simples e reto como uma lâmina e atravessaria a porta e a rua como uma flecha, seus bolsos iriam vazios e seu coração iria fingindo um desprendimento que sua alma queria tanto acreditar, e o medo estaria atrás da sua orelha direita todo o tempo, mas o pânico da eternidade vestido de coragem cavalheiresca seria ainda maior do lado esquerdo, e a roda giraria então para frente, a menos que ele percebesse que bastava uma única palavra para acalmar o cavalo selvagem em seu peito de menino, uma única palavra apenas para libertar o choro de tantas infâncias.

Ele não ouviria a palavra, ele não diria nada. Seu corpo-monolito partiria com medo e coragem, não sem antes recolher embaraçado a flor ofertada, e apesar da dúvida monstruosa que inesperadamente se apossaria do seu coração masculino, ele seguiria seco e branco, levando consigo a beleza e a alegria das coisas sem importância, a certeza dos dias deles vividos um por um, e emaranhado nos seus braços livres levaria os ventos suspendidos e a água transbordada com que comporia em movimento e cor o novo sentido do mundo.

(janeiro de 2005)


Juliana Amaral é cantora, escritora e gestora de políticas públicas, pelo que sei até o momento. Nome que se guarda, quando se conhece.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Forró de Mané Vito

Luiz Gonzaga e Zé Dantas


Seu delegado
Digo a Vossa Senhoria
Eu sou fio d’uma famia
Qui num gosta de fuá
Mas trasantonte
No forró de Mané Vito
Tive que fazê bonito
A razão vô lhe explicá:
Bitola no ganzá
Preá no reco-reco
Na sanfona Zé Marreco
Se danaro pra tocá
Daqui pr’ali, pra’lá
Dançava cum Rosinha
Quando Zeca de Si'Aninha
Me proíbe de dançá.

Seu delegado
Sem increnca eu num brigo
Se ninguém buli comigo
Num sô home pra brigá.
Mas nessa festa,
Seu doutô, perdi a carma
Tive que pegá nas arma
Pois num gosto de apanhá
Pra Zeca se assombrá
Mandei pará o fole
Mas o cabra não é mole
Quis partir pra me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Botei tudo pro terreiro
Fiz o samba se acabá

[pro Zé Sérgio]

quarta-feira, 12 de julho de 2006

De brasileiros e jornalistas

ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio V


"Na minha infância, havia primeiro o Correio da Manhã, um jornalaço. E havia A Noite, que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. A Noite era um jornal amado. O sujeito comprava A Noite disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: 'Morreu cantando' . O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.

A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.

O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental.

O brasileiro é um tipo gozadíssimo. O diabo é que o brasileiro não pode se esforçar muito porque, senão, cai na chanchada trágica. O brasileiro é um sujeito que gosta de fazer farra, é um desses que, em pleno velório, põe a mão na viúva. E a viúva é também um caso sério porque este negócio de viúva vocacional é um fato. Há realmente um repertório sensacional de casos. O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro. Houve um tempo em que nem o Departamento de Pesquisa do "Jornal do Brasil" sabia quem era o brasileiro.Mas se um sujeito se apresentava como brasileiro, as pessoas de bem respondiam: 'Não te conheço!'. E muitos duvidavam que o Pão de Açúcar ou o poente do Leblon fossem brasileiros.

O remédio para isso? Nunca. Para isso não há remédio. Veja que o Brasil ganhou três vezes o campeonato mundial. Se ganhou três vezes, e se o brasileiro não fosse o otário que é, estava tudo salvo, tudo salvo. Ganhou três vezes no futebol, feito como esse ninguém teve e não se conhece isso. O brasileiro tem virtudes. É bom fazer uma ressalva nesses defeitos que digo. Diz o nosso João Saldanha : 'O Brasil fez seu jogo,jogo brasileiro'. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um.

Diga-se de passagem que eu considero o brasileiro o maior sujeito do mundo. O europeu já está esgotado. O europeu tem na casa dele pires de mil anos. Escadas de mil anos. Tudo é velho pra burro. [...] Como se não bastasse a padronização de caras, corpos, costumes, usos, idéias, valores, há também a estandardização da paisagem. Tudo prodigiosamente igual. É trágica a falta de imaginação da paisagem no país desenvolvido. O desenvolvimento é burro, ao passo que o subdesenvolvimento pode tentar um livre, desesperado, exclusivo projeto de vida."

(Nelson Rodrigues*)

* texto remontado a partir de trechos pinçados da entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto - clique para ler a íntegra)

terça-feira, 11 de julho de 2006

Da morte da simplicidade

ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio IV


"Foi tudo sem alarde, sem escândalo. Foi tudo brasileiro. E dou decisão: essa pompa, essa empáfia dessa merda aí não tem nada de Brasil."

(Aldir Blanc)

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Da morte da liberdade

ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio III


"A constatação de Marx acerca do trabalho na fábrica, segundo o qual 'o próprio indivíduo é dividido, transformado em engrenagem automática de um trabalho fragmentado' e, desse modo, 'atrofiado até se tornar uma anomalia', verifica-se aqui de modo tão mais evidente quanto mais elevados, avançados e 'intelectuais' forem os resultados exigidos por essa divisão do trabalho. A separação da força de trabalho e da personalidade do operário, sua metamorfose numa coisa, num objeto que o operário vende num mercado, repete-se igualmente aqui. Porém, com a diferença de que nem toda a faculdade mental é suprimida pela mecanização; apenas uma faculdade ou um complexo de faculdades destaca-se do conjunto da personalidade e se coloca em oposição a ela, tornando-se uma coisa, uma mercadoria. Ainda que os meios de seleção social de tais faculdades e seu valor de troca material e "moral" sejam fundamentalmente diferentes daqueles da força de trabalho (não se deve esquecer, aliás, a grande série de elos intermediários, de transições insensíveis), o fenômeno fundamental permanece o mesmo. O gênero específico de 'probidade' e objetividade burocráticas, a submissão necessária e total do burocrata individual a um sistema de relações entre coisas, a idéia de que são precisamente sua 'honra' e seu 'senso de responsabilidade' que exigem dele semelhante submissão, tudo isso mostra que a divisão do trabalho penetrou na 'ética' - tal como, no taylorismo, penetrou no 'psíquico'. Isso não é, todavia, um abrandamento, mas, ao contrário, um reforço da estrutura reificada da consciência como categoria fundamental para toda a sociedade. [...] E o 'virtuose' especialista, o vendedor de suas faculdades espirituais objetivadas e coisificadas, não somente se torna um espectador do devir social [...], mas também assume uma atitude contemplativa em relação ao funcionamento de suas próprias faculdades objetivadas e coisificadas. Essa estrutura mostra-se em seus traços mais grotescos no jornalismo, em que justamente a própria subjetividade, o saber, o temperamento, a faculdade de expressão tornam-se um mecanismo abstrato, independente tanto da personalidade do 'proprietário' como da essência material e concreta dos objetos em questão, e que é colocado em movimento segundo leis próprias. A 'ausência de convicção' dos jornalistas, a prostituição de suas experiências e convicções só podem ser compreendidas como ponto culminante da reificação capitalista." (sem sublinhado no original)

(Georg Lukács*)

*in História e consciência de classe, São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 220-222

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Da morte da crítica

ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio II


"Na expressão desses hábitos [sociais] de pensar, a tensão entre aparência e realidae, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e limitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem. A locução é privada das mediações que são as etapas do processo de cognição e avaliação cognitiva. Os conceitos que compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes, estão perdendo sua representação lingüística autêntica. Sem tais mediações, a linguagem tende a expressar e a promover a identificação imediata da razão e do fato, da verdade e da verdade estabelecida, da essência e da existência.

Essas identificações, que aparecem como uma particularidade do operacionalismo, reaparecem como características da locução no comportamento social. Aqui, a funcionalização da linguagem ajuda a repelir os elementos não-conformistas da estrutura e do movimento da palavra. O vocabulário e a sintaxe são igualmente afetados. A sociedade expressa as suas exigências diretamente no material lingüístico, mas não sem oposição; a linguagem popular ataca com humor rancoroso e desafiador a locução oficial e semi-oficial. A gíria e a linguagem familiar raramente se mostraram tão criadoras. É como se o homem comum (ou seu porta-voz anônimo) reafirmasse sua natureza em sua palavra, contra os poderes existentes, como se a rejeição e a revolta, subjugadas na esfera política, explodissem no vocabulário que dá às coisas seus verdadeiros nomes [...]

Contudo, os laboratórios da defesa, os gabinetes dos diretores, os Governos e as máquinas, os controladores de ponto e os gerentes, os técnicos em eficiência funcional, os salões de beleza dos políticos (que garantem aos líderes a maquilagem apropriadas) falam uma linguagem diferente e, portanto, parece ser deles a última palavra. É a palavra que ordena e organiza, que induz as pessoas a fazerem coisas, comprar e aceitar. É transmitida num estilo que é criação lingüística autêntica; uma sintaxe na qual a estrutura da sentença é abreviada e condensada, de modo que não é deixada tensão alguma, "espaço" algum entre as partes da sentença. Essa forma lingüística milita contra o desenvolvimento do significado. [...]

... [A] funcionalização da linguagem expressa uma condensação de significado que tem uma conotação política. [...]

Nos pontos nodais da locução pública aparecem proposições analíticas auto-validantes que funcionam como fórmulas mágico-rituais. Marteladas e remasteladas na mente do receptor, produzem o efeito de incluí-la no círculo de condições prescritas pela fórmula."

(Herbert Marcuse*)

* in A Ideologia da Sociedade Industrial, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp. 93-95)

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Rio de Lágrimas

Tião Carreiro, Lourival dos Santos e Piraci


O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora

Lá no bairro onde eu moro
Só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos
Já formou água corrente
Pertinho da minha casa
Já formou um lagoa
Com lágrimas dos meus olhos
Por causa de uma pessoa

O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora

Eu quero apanhar uma rosa
Minha mão já não alcança
Eu choro desesperado
Igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore
Pela dor de uma saudade
Eu quero ver quem não chora
Quando ama de verdade

[pro Edu]

Da morte da objetividade

ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio


"Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto."

(Jean Baudrillard)

terça-feira, 4 de julho de 2006

Apito final

Apesar de ter prometido parar de brigar depois do texto que escrevi, em boa hora, antes da eliminação da seleção brasileira, na prática não foi o que se deu. Porque a ignorância da classezinha pseudo-elitista que olha para o futebol a cada quatro anos, o "patriotismo" dos grandes brasileiros que gastaram R$ 30 mil para assistir a Copa in loco e depois queimaram publicamente a bandeira do Brasil, e o corporativismo de alguns que sabem tão bem denunciar a falta de empenho de jogadores de futebol, mas tem uma atroz dificuldade em reconhecer a venalidade e a incompetência emblemáticas da grande maioria de seus colegas de classe, infelizmente me tocaram os brios e tive que mandar uma meia-dúzia para as putas que lhes pariram. Assim mesmo, no plural.

Então, fecho aqui a minha orelhada em tema tão difícil de haver consenso e objetividade. Teorias há muitas para explicar a derrota; ouvi umas duas ou três bem interessantes - como a do meu cumpadre Julio Vellozo, que se quiser pode ocupar esse humilde espaço para se manifestar - e um sem número das mesmas bobagens de costume, empunhadas pelos cretinos fundamentais que dominam redações e microfones pelo país afora. Mas o fato é que, para usar uma frase que inventei hoje de manhã, futebol é bola na rede. OS DOIS TIMES entram em campo e quem conseguir colocar a "esférica" entre os três paus maior número de vezes ganha a partida. Só que nós, brasileiros, temos uma dificuldade absurda e absoluta de admitirmos a possibilidade de que alguém jogue melhor, que seja mais eficiente e ganhe a partida. Sempre tem de haver "forças ocultas", racha no elenco, problemas de relacionamento, convulsões, crises, bolhas, armações políticas, resultados forjados, o escambau, para justificar o fato simples e óbvio que no esporte às vezes se ganha e às vezes se perde.

A minha visão sobre a Copa e a seleção dei a conhecer semana passada e só quero redizer a mesma coisa por um outro lado, depois que o cenário inverteu-se por razões notórias. Reafirmo: não faltou vontade à seleção brasileira. Individualmente, se pegarmos um por um, fica fácil de ver. Peço um exercício: leiam estes nomes pausadamente e quem viu o jogo (porque muita gente faz carnaval, paquera, enche a cara, mas o jogo mesmo não vê) lembre de suas feições individuais, correndo em campo: Dida, Cafu (jogou talvez pior partida de toda a sua vida, superado física e tecnicamente em campo; mas correu 90 minutos incansavelmente e foi digno, assim como na chegada no Brasil, dando a cara a bater com a tranqüilidade de quem deu o melhor de si, mesmo que esse melhor seja menos do que se esperasse), Lúcio, Juan; Emerson, Gilberto Silva, o grande Zé Roberto (o segundo melhor da seleção, calando, inclusive, a minha boca); Adriano, Kaká, Ronaldo. Não vai entender nunca nada do que se passou quem continuar achando que esses seres humanos (são humanos, sim, a despeito de ganharem um milhão de dólares por mês, coisa difícil de se entender, ou só a Xuxa e o Faustão é que são humanos?) entram em campo como se estivessem cumprindo uma formalidade burocrática, pagando uma conta de luz na fila do banco. Eles tremem, sim, sentem cagaço, sim, nervoso, ansiedade, gana, medo, alegria, saudade, o escambau. E jogam, dentro das limitações objetivas a que já me referi.

Então vocês perguntarão: mas o que aconteceu, afinal? Porque a despeito do que possa parecer não sou um débil mental completo e sei que jogamos muito mal no sábado, muito mais mal do que seria previsível ou aceitável. E sei também que o time não chegou a empolgar no restante da competição. Três fatores, em minha opinião: 1) A falta de carisma, já ventilada na semana passada, que em outras palavras pode também ser lida como a falta de lideranças capazes de superar o histórico e objetivo distanciamento entre o escrete e a nação brasileira. 2) A falta de fibra, de aguerrimento, de sangue nos olhos. Isso é muito diferente de falta de vontade. Mas não é do time, não. É do brasileiro, em geral, que talvez tenha que gastar toda a sua força de luta e dedicação pra ganhar a vida suada no dia-a-dia e não sobre muito para a política, a competição esportiva etc. Essa tão propalada falta de gana é proverbial e histórica na história político-social do Brasil e também na história de seu futebol, tirando as exceções confirmatórias de sempre. Não temos a garra argentina, a sanha uruguaia. E o que, talvez, tenha feito Pelé tão maior do que todos os outros, além de suas magistrais qualidades técnicas, tenha sido o que batizou um zagueiro adversário "seu olhar de fera acuada". 3) (decorrente do funesto somatório das duas primeiras) A falta de superação das individualidades em prol de um projeto coletivo, de um espírito de equipe, voltado obstinadamente para um único objetivo, qual seja a vitória. Uma coisa é vontade de vencer e consciência de que deve-se dar o melhor de si. Isso não faltou, repito pela enésima vez. Mas falta o que faça colocar essa vontade como projeto a ser coletivamente desenvolvido, para ser coletivamente colhido o louro do sucesso. De colocar essa vontade e esse desígnio coletivo acima de qualquer outra vontade, outro desígnio, outra vaidade ou qualquer idiossincrasia.

Repito o que desde o começo desta Copa não deixa de ser a razão primordial para eu estar metendo o bedelho nessa seara tão espinhosa: quem mais atrapalha o Brasil são os brasileiros. Melhor dizendo, meia-dúzia de "brasileiros" de meia-tijela que, EXATAMENTE COMO OS JOGADORES QUE TANTO CRITICAM, não são capazes de colocar a sua torcida por uma vitória coletiva, NACIONAL, acima de suas vaidades e de seus interesses particulares. Isso vale para os jornalistas que precisam sobreviver do tradicional "eu não avisei?"; isso vale pra essa malta de mequetrefes novos-ricos que vai à Alemanha não torcer pelo Brasil, mas vai para poder dizer pros amigos "da balada" que esteve lá "dando força" e testemunhando pessoalmente o hexa; vale para os vários maus brasileiros de plantão que apreciam tanto o estigma da derrota, para poderem justificar, por exemplo, por que não pagam impostos, por que metem a mão no dinheiro público, ou por que, simplesmente, tratam tão somente de cuidar de suas vidinhas e podem danar-se para o destino da coletividade; podem eleger seus candidatos safados para servir de despachantes de seus interesses particulares.. "Por quê, afinal, tenho que pagar imposto e me importar com o destino público, se esse povo não merece?" "Por que tenho que me preocupar com os pobres, se esses não tem caráter mesmo, como bem demonstram os ex-pobres que a elite permitiu ascendessem ao círculo dos eleitos, contanto que dessem suas pernas a quebrar e seu sangue a derramar nos gramados em honra da nação?" E por aí vai

Quero fazer uma declaração e pedir ajuda (dos meus advogados Edu Goldenberg e Marcão Gramegna, no caso): declaro para todos os fins e a quem interessar possa, que se alguém queimar uma bandeira do Brasil do meu lado por causa da derrota de sábado, da eliminação da Copa ou qualquer coisa que o valha, matarei essa pessoa com as minhas próprias mãos. E transcrevo, para ilustrar, ao fim e ao cabo, da Folha de S. Paulo de hoje : "Tão derrotados quanto a brasileira, a seleção argentina chegou anteontem a Buenos Aires. Mas houve festa para os que voltavam.[...] Com bumbos e faixas de agradecimento à campanha da equipe ('Deixaram tudo em campo. Bancamos vocês até a morte'), pediram a[o técnico] Pekelman que fique. [...] A recepção calorosa foi animada pela tônica da imprensa: 'Morremos de pé'." (destaque meu, sim senhores. Enquanto isso, os "patriotas" brasileiros que foram "receber" os jogadores no aeroporto de São Paulo, ofenderam e enxovalharam a honra do Capitão do Penta, esse lutador digno, esse símbolo do futebol brasileiro, o homem que mais defendeu o Brasil em copas. O homem que quando estava no degrau mais alto do mais alto pódio tratou de exaltar o bairro humilde, pobre e esquecido onde nasceu.

A vocês, hermanos, meus respeitos. Na bola e na vida. Um dia chegaremos lá.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Brigas nunca mais


Olha, tenho me segurado até hoje. Mas para bom estabelecimento da verdade (a verdade da minha opinião, entendam bem; que, aliás, pode mudar daqui a meia hora...), para evitar as brigas nos dias de jogo e os desentendimentos matrimoniais; para que eu possa parar de manifestar meus desvairios no varejo, pelos blogues alheios a fora, e possa trabalhar e deixar os colegas de seção trabalharem; escreverei aqui e agora um único texto sobre a Seleção Brasileira desta Copa de 2006.

Sim, meus amigos, porque as brigas têm-se multiplicado e tenho sido um defensor implacável deste time. Mesmo com os riscos de, em caso de acontecer algo que permito-me não nomear, por superstição extremada, os dedos em riste voltarem-se contra mim e os "não avisei?" massacrarem-me por anos a fio. Porque torcer, enfim, é isso. É abraçar uma causa, contra tudo e todos, tomar partido num dos lados da batalha. E a batalha envolvida numa competição de futebol é muito mais que um triunfo ou fracasso esportivo. Mexe intima e diretamente no âmago da alma brasileira, naquilo que ela talvez tenha de mais frágil: no brio, no orgulho, no amor próprio, no sentimento efetivamente Nacional, aquilo que meu brilhante amigo Felipe Maia mostrou não existir, por exemplo, num país como a Espanha.

Então, tentarei ser objetivo. Em primeiro, Copa do Mundo não é o casados e solteiros dominical do Clube Alvi-Verde da Vila Romana. É uma competição magistral, dificílima, pela tradição, pelos holofotes, por tudo o que fez sua mística desde 1930 e ainda por todo o mais que envolve o mundo do futebol presentemente. A prova disso é que em dezessete edições, com dezenas de países disputantes, temos somente sete campeões. Há os aspectos técnicos, atléticos, propriamente esportivos, mas há os políticos, os históricos, os simbólicos, culturais de muitos espectros.

Segundo. Para o Brasil, tende a ser sempre mais difícil. É o maior dos campeões, indiscutivelmente. É o país de Pelé, pra começar. Depois, é o de Leônidas, de Zizinho, de Garrincha, de Rivelino, de Zico, de Romário, de Ronaldo e de Ronaldinho, pra não ir muito longe. Há sempre uma expectativa internacional e interna enormes, uma cobrança muito grande daí decorrente. Bem, até agora sem novidade.

Terceiro. Há, presentemente, essa transformação de tudo em show business, glamour, badalação etc., que envolve tudo e todos que têm vida pública de alguma maneira, e não seria diferente para os jogadores de futebol. Há o dinheiro milionário que ganham, há o fato de jogarem muito longe dos torcedores nacionais, tornando-os tão desconhecidos, tão distantes como Brad Pitt ou Bento XVI. Eu que moro em São Paulo, vi o Zico no campo dezenas de vezes, muito menos que meu pai viu Pelé. Mas minha filha não vai ver o Robinho nem o Ronaldinho Gaúcho. Isso tudo tende a criar uma distância da Seleção com o povo. Nada disso é culpa do Ronaldo, do Roberto Carlos, do Dida ou dos outros todos (talvez com duas ou três exceções) que são pessoas nascidas nas classes mais pobres da população e que ascenderam pelo talento, pela arte de bem jogar. A culpa é do sistema.

Quarto. Esse distanciamento só pode ser quebrado com uma figura altamente carismática que, por cima do quadro objetivamente adverso, consiga reeditar subjetivamente uma identificação da nação com o escrete. Tivemos isso em 2002 com Luís Felipe Scolari. Não temos agora. Não temos jogadores carismáticos, pelo contrário, no máximo um ou outro chega a ser simpático, como Cafu e Ronaldinho. Parreira é o anti-carismático por definição e Zagallo está velho demais pra pesar na balança. Então, aquela sensação de faltar alguma coisa, de faltar garra, empolgação, amor pela camisa, ou qualquer coisa que o valha é uma soma dos fatores objetivos que apontei acima com essa falta generalizada de carisma.

Quinto. Porque, na minha opinião, não tem faltado garra e nem vontade de ganhar. Olhe no rosto do Ronaldo e veja se falta dedicação. Ou do Ronaldinho, visivelmente insatisfeito com suas atuações, mas em nenhum momento fugindo do jogo ou se escondendo ou negando fogo. Não vi uma pipocada até agora. Não vi um deboche. Sinceramente, de todo meu coração, vejo garotos de 20 ou 30 anos, que tem tudo na vida, muito dinheiro, as mulheres mais belas, badalação, segurança (moram na Europa, não na Barra da Tijuca), prestígio etc. etc. Que tem como ÚNICA motivação de jogar, de dar suas pernas valiosas a quebrar, a mística das Copas e da camisa amarela, o simbolismo, o peso histórico. Isso para pessoas que, repito, não tiveram acesso privilegiado a uma formação cultural mais completa. Eles estão lá, entram em campo, jogam, suam, enfrentam as críticas, as vaias, o jornalista dizendo que estão comendo as mulheres deles, os zagueiros maldosos, as entradas cavalares. E têm ganhado todas até aqui.

Sexto. O time pode jogar melhor? Pode, claro. Mas de quem é a culpa por não o estarem fazendo até agora? É do técnico? É deles? Difícil dizer. Não há possibilidade de treinar, a competição é curta. TODAS as seleções são formadas na última hora e acabam prevalecendo mais os talentos individuais mesmo. Um time como a Argentina tem a seu favor o fato de, se não me engano, onze dos 23 convocados jogarem juntos desde as seleções de base, em 1995. Talvez isso explique um futebol mais "associado", pra usar um termo fora de moda. Há problemas de posicionamento no time brasileiro. Na defesa, clássico, tem sido superado com atuações individualmente brilhantes de Juan (o melhor da Copa, para mim, até agora) e Lúcio e com Emerson encontrando um meio mais eficaz de fazer as coberturas. Mas ainda dá sustos, mesmo assim, e não permite que os laterais possam jogar o que sabem e o que podem colaborar na frente, notadamente Roberto Carlos. Na frente, o que todos pediam insitentemente era a entrada de Juninho no meio pra liberar Ronaldinho pra jogar mais à frente. No último jogo (Gana) aconteceu isso, Juninho jogou mal e Ronaldinho não avançou. É certo que as coisas funcionaram melhor contra o Japão, mas acima de comparações técnicas de adversários, ali não havia a responsabilidade de um mata-mata. O que pode fazer o Parreira, meu Deus, senão experimentar, trocar, avaliar no decorrer da competição e dos jogos? Qual a conclusão? É que, objetivamente, a despeito dos posicionamentos problemáticos da defesa, temos tomado poucos gols e jogado bem, inclusive o gelado e eficientíssimo Dida. E no ataque, temos feito os gols e ganho as partidas, apesar de sabermos que poderíamos ser mais eficientes. E que ainda não conseguimos jogar um jogo pra valer com a formação que se mostrou mais eficiente até aqui, com Zé Roberto e Emerson mantidos no meio, sim senhor, e Robinho na frente ao lado do bravo, eficiente, competente e goleador Ronaldo.

Sétimo. O Brasil foi a única seleção que sobrou nas oitavas. Ao contrário do que alguns dizem, não tomou sufoco, não senhores. Recuou demasiadamente após o primeiro gol, o que provocou desespero num Parreira consciente e determinado a tirar o time da retranca em que se colocou naturalmente. Meus amigos, ganhamos por 3 x 0! Perigo, mesmo, lembro de um chute de Gana e a cabeçada que o Dida tirou por milagre, no reflexo, com o pé. Então, matematicamente, pode ter havido um domínio territorial maior de Gana em metade do primeiro tempo e em uns 15 minutos do segundo, não mais que isso.

Oitavo. O que quereis mais, detratores do futebol brasileiro? O Brasil ganhou no tempo normal TODAS as quatro partidas até aqui, igualado apenas pela anfitriã Alemanha e pela brava seleção portuguesa. Quereis goleadas? As tivestes, duas. Quereis golaços? Tivemos dois do Ronaldo, pelo menos, e um do Kaká, contra a Croácia. Quereis lançamentos magistrais? Kaká os tem dado. Ou não? Insisto: OU NÃO? Quereis garra? Tem havido, ainda que acho que pode haver ainda mais. Quereis que Ronaldinho jogue tudo o que sabe? Também quero. O QUE MAIS? Tem havido alguma dessas coisas nos outros? Sinceramente, não sei que futebol é esse que quereis. É de outra época, por certo, mas QUAL? Hoje, a competição é essa, o perfil internacional é esse, o futebol é esse. E em três últimas copas, ganhamos duas e um vice. E na atual já estamos entre os oito.O que é dar show, jogar bonito? É o que fez a seleção de 70? Então, digo para vocês, e quem me conhece sabe que é verdade, que já assisi os jogos COMPLETOS da Copa de 70 dez ou quinze vezes cada um. Enganam-se os assistidores do vídeo Caras de Todas as Copas que o time do Brasil jogava genialmente por 90 minutos a fio. Pelé errava passes, sim senhores. O posicionamento na frente do Tostão demorou a se acertar, sim senhores. A defesa era uma peneira, sim senhores, e se o time atual levasse um daqueles gols contra o Peru, por exemplo, o técnico seria crucificado em praça pública. Mas o time tinha jogadas geniais e os talentos individuais e a força física excepcional (o preparador era o Parreira, só pra lembrar...) prevaleceram sim. Deram espetáculo porque ganharam todos os jogos, porque fizeram belos gols, porque souberam superar as dificuldades de posicionamento, as limitações técnicas de algumas posições e as improvisações que tiveram que ser feitas. Ou quereis a Copa de 82? Quando o empate nos classificava e mesmo assim o time inteirinho estava lá na frente, quando um belíssimo passe de trivela do Sr. Cerezo cruzando nossa intermediária, certamente para debochar da cintura-dura dos italianos, foi encontrar um Paolo Rossi prontinho pra sacramentar o que os detratores do futebol e do povo brasileiro teimam em determinar seja a sina do Brasil: a derrota.

Mas não desta vez. O povo brasileiro vai pras ruas comemorar o HEXA. Ou chorará a derrota - que faz parte, afinal! -, enquanto os leitorezinhos da Folha de S. Paulo ou d'O Globo vão fazer as suas devidas interpretações sócio-psicológicas, entre um e outro scotch. Sou hoje um afastado do futebol, pode-se dizer, e aqui não é o lugar para discutir as razões. Mas houve época, talvez um seis ou sete anos a fio, que assistia os TREINOS do Palmeiras. TODOS OS SANTOS DOS PUTOS DIAS. Talvez por ter sido boleiro a vida inteira e grosso, e brigador, e aguerrido; talvez por ter sofrido demais pelo meu time e vibrado demais nas vitórias; talvez por ter pegado sol, chuva e tomado borrachada da polícia montada; talvez por isso tudo, futebol para mim seja batalha, seja épico, seja transcendente; talvez por ter visto demais a beleza de zicos e maradonas jogando, ao vivo, ou pelés e ademires-da-guia, pelo vídeo; talvez por ter visto demais a feiura técnica e a paixão desmedida dos Desafios ao Galo, torneio varzeano famoso dos anos 70/80. Talvez por tudo isso. Ou talvez por verdadeiramente desconhecidas razões, eu seja acima de tudo um TORCEDOR BRASILEIRO. Que sofre nas derrotas e comemora as vitórias. Só. Que se apega ao que vê, com o coração, mas cuidadosamente. Sóbrio. E que deixa as teorias para depois.

Chega de briga. Quem discordar, que argumente.


terça-feira, 13 de junho de 2006



Isso é lá com Santo Antônio

Lamartine Babo


Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
São João disse que não
São João disse que não
Isso é lá com Santo Antônio!

Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
Matrimônio, matrimônio...
Isto é lá com Santo Antônio!

Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado

Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
Matrimônio, matrimônio...
Isso é lá com Santo Antônio!

São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Disse o velho num sorriso:
- Minha gente, eu sou chaveiro
Minha gente, eu sou chaveiro
Nunca fui casamenteiro!

São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Matrimônio, matrimônio...
Isso é lá com Santo Antônio!
Em dia de estréia, homenagem singela ao grande Maugeri Sobrinho, com quem tive a honra e o prazer de muitas vezes dividir a mesa no falecido (melhor seria "morto-vivo") bar Bom Motivo. Compositor de grande talento, passou necessidade, morreu pobre, sem receber um níquel pela marchinha arqui-popular que compôs em comemoração ao primeiro título mundial do Brasil, em 1958, em parceria com Wagner Maugeri, Lauro Müller e Victor Dagô. Lembrei-me particularmente dele com saudade, tristeza e indignação, ao ver sua composição conspurcada num comercial ordinário de uma conhecida cadeia internacional de lanchonetes. Valeria bem a pena, aliás, investigar se algum centavo foi pago pelos direitos autorais e quem os teria recebido.


A taça do mundo é nossa

Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô


A taça do mundo é nossa!
Com brasileiro não há quem possa!
Eeeeêta esquadrão de ouro
É bom no samba
É bom no couro

O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé!

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Copa de qual mundo?

Chega uma hora que não dá mesmo para fugir do assunto. Não que evite ou não goste, pelo contrário: outros os tempos, e noventa dias antes a pauta ordinária do bar do Tião estaria travada por especulações, expectativas e indignações, que afinal de contas palpite todo mundo pode e quer dar, na arena livre e um tanto surreal que é o butiquim. É que a pseudo-civilização-do-oba-oba-total parece transformar tudo em excesso e náusea. Mas vá lá!

Li outro dia que o pior cego é aquele que quer ver; em compensação, aprendi também que contra fatos há – e como há! – argumentos. Só não vê quem não quer, e argumente quem discordar, que o futebol não é mais o que era nas nossas vidas – nem vem, que as acusações de avanço etário pronunciado não são suficientes para contrariar a implacável observação. Mudamos nós, ou mudou a Copa? Provavelmente ambos, mas acima de qualquer coisa, mudou o mundo.

Porque hoje, meus amigos, nem que queiramos muito, poderemos levar a termo como d’antanho uma discussão minimamente verossímil sobre se a presença do Roque Júnior seria preferível à do Cris. Ou se acertaram (nem digo mais "se o Parreira acertou", envidente o anacronismo da personificação) em levar um garoto como o Fred. É claro que o envolvimento pessoal que tende a diminuir ao longo da vida ajuda a não ter, pessoalmente, a menor idéia de onde joga ou jogou um dia, no Brasil, o rapaz, quanto mais condições de opinar sobre as qualidades de seu futebol. Mas sustentar uma posição taxativa, dizer que vê demais o Gilberto Silva jogar e ele está em muito melhor fase que o Cleverson, ninguém vai me dizer, sem provar bem provado, que pode mais do que acompanhar todos os artigos que mundialmente se escreve sobre Nietzsche. Porque para isso, senhores, há que se acompanhar semanalmente, não o campeonato brasileiro e os regionais de maior destaque, como no meu tempo de garoto; nem, como há uns quinze anos, o certame espanhol e o italiano. Hoje em dia, pra escalar uma seleção brasileira com propriedade, com conhecimento de causa, nem que o caboclo assine o pacote super master special gold vip power plus platinum sport da tv a cabo, pra ver o campeonato inglês, o alemão, francês, português, holandês, russo, grego, turco, japonês, a UEFA...

A Copa do Mundo, em termos esportivos, era o momento de se confrontarem as diferentes escolas de futebol, de se testar o verdadeiro valor de um craque fora do contexto de seus cotidianos conterrâneos adversários. Como se pode falar em escola de futebol quando um jogador argentino joga num time ucraniano, treinado por um técnico holandês? Entre os craques das mais variadas nacionalidades, o confronto é, por excelência, o seu cotidiano; na Copa parece só haver uma nova repartição das equipes, como na pelada de rua, quando um time acabou ficando, na hora de escolher, muito mais forte que os outros. A seleção brasileira é de antemão a campeã, muito menos em função de ter conquistado o último mundial, do que por serem os seus jogadores, isoladamente, peças fundamentais no sucesso particular de seus clubes do momento. E assim continuará sendo, ganhe ou não o Brasil a Copa, enquanto brilharem em seus times o Kaká, o Ronaldinho, o Adriano. A mais badalada competição esportiva mundial mantém, no limiar do século XXI, um modelo baseado na divisão nacional que nem bem no século passado foi pacífico, está em processo franco de perda de importância relativa em muitos domínios e que, particularmente no futebol, já desapareceu por completo. Prova disso são os príncipes etíopes de rancho envergando a nobre camisa da seleção... nipônica!

Futebol é muito mais que um confronto esportivo, ora dirá com sabedoria meu amigo poeta Edson Coelho de Oliveira. O último lampejo épico, observaria a doce Ju Amaral, em meio a uma história cada vez mais fragmentada, a uma vida crescentemente descontínua, das quais estamos sempre e cada vez mais alienados. Talvez por isso, minha casa já esteja enfeitada de bandeirinhas auri-verdes, já tenha chamado os amigos pra ver o jogo e mudado o horário no trabalho. Talvez seja mesmo a hora de ressuscitar os afogados sentimentos, de vestirmos as antigas fantasias amarelas e gritarmos o grito único que, a despeito de poder não fazer mais sentido, seja o único capaz de ainda carregar nossa esperança: BRASIL!!!

Flores para Fiori


A sabedoria do velho Tio Osias desde há muito me chama a atenção: sempre morre um sambista venerável às vésperas do carnaval. Sem arriscar explicações místicas ou psicológicas, limito-me discretamente a verificar ano a ano a inapelável recorrência da misteriosa lei, que tristemente parece ter agora resolvido estender seus domínios ao mundo do futebol.

Morreu nesta madrugada, véspera da abertura de mais uma Copa do Mundo, o grande locutor-poeta Fiori Gigliotti, glória do rádio esportivo paulistano e brasileiro, voz e estilo inconfundíveis a portar por tantos mundiais (desde 62, se não me engano) as esperanças, alegrias e decepções desta nação tão apaixonada pelo rolar da bola sobre a grama. Fiori foi, ao lado de Joseval Peixoto – corrijam-me, se for o caso, os mais velhos (embora não haja mais velhos lendo estas coisas, à exceção do Dinda, que é carioca) – uma espécie de ponte entre a geração primeva de Pedro Luís e Geraldo José de Almeida e as estrelas surgidas a partir da década de 70 como Osmar Santos e José Silvério. Atuou por muitas emissoras, tendo alcançado seu apogeu na Rádio Bandeirantes, onde consagrou para todo o sempre o bordão que ainda ouço ressoar e que, ironicamente, transmutou-se em seu perfeito epitáfio: “o teeeeeeeeeempo passa...”

O tempo passa.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Maçã tatuada

Moacyr Luz e Aldir Blanc


Numa esquina de Copa ficava parada
alvejada pelas setas do vício
e o início tinha sido divino:
um amante latino...
Sua boca vermelha, a maçã tatuada
sobre o ombro (a sombra de veludo)
a pele onde um homem que é nada
pensa que é capaz de tudo

Entre o ouro e a miçanga ofegava a audácia
entre a joalheria e a farmácia
entre ser a nova estrela da Banda
e uma filha de Umbanda...
Toda vez que as pestanas castanhas batiam
o olhar trocava mil slides
Na praia, na lambada,
com a amiga que já faleceu de Aids...

E na bolsa quando ia ao toalete
a gilete, o sempre-livre
e o chiclete importado
o velho exemplar do despertar de algum mago...
O apelido que não posso esquecer:
a Jezebel da Duvivier
Saiu assassinada na manchete
entre a greve e os motins urbanos...
Chamava-se Moema, era morena,
e tinha apenas treze anos

[no "Dia Internacional da Prostituta"]

quinta-feira, 1 de junho de 2006

A Barca aporta no Rio de Janeiro


Depois de pedidos insistentes do meu amigo Paulo Eduardo Neves durante uns bons anos, finalmente o meu querido Rio de Janeiro poderá pela primeira vez testemunhar ao vivo o tão importante quanto festejado trabalho do grupo paulistano A Barca, que lançará terça e quarta-feiras próximas, 06 e 07 de junho, no Teatro Rival BR o esplendoroso álbum quádruplo (isso mesmo: são 3 Cd’s e um DVD!) fruto da última viagem da trupe pelo interior brasileiro, em projeto patrocinado pela Petrobrás.

Inspirado pelo trabalho teórico e prático do grande pensador do Brasil que foi Mário de Andrade, o material que deu origem à caixa Trilha, Toada e Trupé é composto de 300 horas de áudio/vídeo e mais de 6000 fotos, a partir de uma peregrinação por mais de 10.000 km em nove estados brasileiros, do Pará a São Paulo, entre dezembro de 2004 a fevereiro de 2005. Foram trinta comunidades visitadas, entre aldeias ribeirinhas, terreiros, quilombos, periferias de cidades, sempre colhendo material, registrando, ministrando oficinas, fazendo apresentações, interagindo, com grande repercussão por todo o Brasil.

O que ali se vê e que se pode ouvir do que foi colhido é a aparentemente inesgotável e profunda beleza das formas expressivas que misturam sonoridades, coreografias, dramaticidades que levam ao mais aguçado limite a dialética entre simplicidade e sofisticação. Universos sonoro-visuais inacreditavelmente ainda possíveis, formas que se perpetuaram e resistem contra e a despeito de toda desconstrutividade do nosso mundo que a tudo devora e planifica, na alma dos artistas e das comunidades que os gestam, maravilhosamente colhidos, tratados e recriados pelos competentíssimos músicos d’A Barca. O que só faz evidenciar mais e mais as possibilidades de riqueza estética e expressiva espalhadas pelo chão brasileiro que, devo acreditar, devem se constituir na semente certa e boa de todas as nossas demais possibilidades.

No meio do lodaçal em que chafurda o Brasil oficial de garotinhos podres, moluscos ineptos e alquiminstas da barbárie, a encomendação de almas das Cantadeiras do Souza de Jequitibá (MG), o tambor de crioula de taboca da Casa Fanti-Ashanti do Maranhão (que fará participação especial no espetáculo do Rival BR!) a dignidade e a fibra de Mestre Verdelinho (AL) são a experiência possível e real, viva e verdadeira, de um povo que não só pode, mas a despeito de tudo, DÁ certo. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!

Mais informações podem ser obtidas na matéria que o crítico Tárik de Souza escreveu para o Caderno B do Jornal do Brasil (edição eltrônica integral, não há liame direto: selecionar a data na coluna da direita, depois clicar para o Caderno B e ir "folheando") de 31 de maio último, ou no sítio virtual do grupo A Barca.

quarta-feira, 31 de maio de 2006




Como não tenho palavras para exprimir à altura a grandeza e a importância do inigualável gênio, peço licença ao meu amigo Luís Filipe de Lima, de cuja autoridade indiscutível me socorro, para reproduzir abaixo texto de sua autoria em homenagem a essa incomparável figura da música brasileira. Tristíssimamente, ao ler troquem "hoje é aniversário" por "hoje não está mais entre nós". Mas o "VIVA DINO!" ressoará para sempre.







Pai de todos

Luís Filipe de Lima


Hoje é aniversário do grande mestre do violão de sete cordas: Horondino José da Silva, o Dino. Ele completa 87 anos bem vividos e, de quebra, 70 anos de carreira. Foi o homem que mais desenvolveu e divulgou a arte do sete cordas brasileiro, surgido no início do século passado. Dino, que começou a tocar violão profissionalmente em 1935, passou para o sete cordas bons anos depois, em 1953, e desde então garantiu ao instrumento, antes cultivado por poucos músicos e quase limitado à condição de curiosidade, lugar definitivo na história da música brasileira. Graças a ele, o violão de sete - e não o violão de seis, o contrabaixo, o trombone ou outro instrumento qualquer - é hoje o baixo cantante por excelência das formações instrumentais associadas ao samba e ao choro.

Na esteira de seu talento vieram gerações de discípulos informais, entre os quais é possível lembrar de Raphael Rabello, Luiz Otávio Braga, os irmãos Valdir e Valter Silva, Darly Louzada, Chia, Cloves, Pedrinho Bastos, Rubens, Paulão Sete Cordas, Jorge Simas, Carlinhos Sete Cordas, Sombrinha, Maurício Carrilho, Josimar Carneiro, André Bellieny, Wander Fontana, Marcello Gonçalves, Lucas Porto, Nando Duarte e Tiago Prata, para ficarmos só no Rio de Janeiro. E Rogerinho Caetano, claro, goiano criado em Brasília que se mudou ano passado para cá e que, com pouco mais de vinte anos, é uma das grandes revelações do instrumento. Pois não há sete-cordas que não tenha se emocionado ao escutar Dino, que não tenha ouvido algumas de suas centenas e centenas de gravações para ficar "tirando os baixos", imitando suas inflexões, sua pegada, seu vocabulário de frases. Que sete-cordas não terá ouvido, de cabo a rabo, os indispensáveis "Vibrações" (RCA-Camden, 1969), com Jacob do Bandolim e o Época de Ouro, e "Cartola" (Marcus Pereira, 1974)?

Muitos tiveram aulas com Dino durante os mais de trinta anos em que lecionou na Casa Oliveira, na rua da Carioca, e no Bandolim de Ouro, na Marechal Floriano. Curiosamente, ele preferia ensinar a iniciantes e quase não dava aula de violão de sete, só de seis. Cheguei a estudar violão de seis com Dino, durante poucos meses, quando já era profissional do sete. Guardo desse tempo as melhores lembranças e histórias que merecem uma penca de posts por aqui. Uma vez eu disse a ele que, se o Brasil fosse sério, criava-se uma lei obrigando todo sete-cordas a depositar 10% de seus cachês na conta do mestre, a título de royalties. Não seria exagero. Dino sobrevive hoje com uma minguadíssima pensão e com a ajuda do filho único Dininho, também músico, grande figura, há anos baixista de Paulinho da Viola. Já aposentado por falta de condições de saúde (não faz mais shows, não grava, não dá mais aulas), o mestre leva uma vida digna em seu apartamento de Vila Isabel, porém igual à da grande multidão de idosos de classe média que precisam se privar de muita coisa para conseguir pagar plano de saúde e remédios. Se não fosse o amparo da família, sua situação seria certamente crítica. Mais uma injustiça contra mais um grande brasileiro.

Mas deixemos as inconformidades de lado, pelo menos por hoje. É dia de dar um abraço no velho. É dia de festejar seus oitenta e sete anos de vida e setenta de música – e que música! É dia de espalhar por aí que Dino 7 Cordas não é um qualquer, que Dino é gênio da raça, é craque da pelota, é o músico acompanhador que mais teve destaque como solista em toda a história da música brasileira, que Dino é assassino profissional, atirador de elite, equilíbrio supremo entre virtuosismo e concisão, pressão e suingue, inventividade e rigor, Dino é umbandista, sim senhor, e se fosse do candomblé bem podia ser devoto de Orumilá, divindade iorubá que é a dona da sabedoria, da adivinhação e das respostas (não é a resposta matéria-prima do sete cordas?), Dino é nossa memória, testemunha dos melhores e piores tempos que os profissionais da música já viveram no Brasil da indústria cultural, Dino é totem e fundador de uma nobilíssima estirpe, Dino é pai de todos os corações que vibram junto com a sétima corda.

Viva Horondino José da Silva! Viva Dino 7 Cordas!


Luís Filipe de Lima, é um dos melhores setecordistas do país, compositor e arranjador competentíssimo; produtor sensível, ousado e incansável; intelectual reflexivo e pesquisador seríssimo das coisas da cultura popular brasileira


sexta-feira, 26 de maio de 2006

Paranatinga

Paulo André e Ruy Barata


Antes que matem os rios
e as matas por onde andei
antes que cubram de lixo
o lixo da nossa lei
Deixa que cante contigo
debruçado em peito amigo
as coisas que tanto amei...
As coisas que tanto amei!

Antes que matem a lembrança
dos muitos chãos que pisei
antes que o fogo devore
o meu cajado de rei
deixa que eu cante afinal
na minha língua gera
as coisas que tanto amei...
As coisas que tanto amei!

Araguary, Anapu, Anauerá
Canaticu, Maruim, Bararoá
Tajupará, Tauari, Tupinambá
Surubiu, Surubim, Surucuá
Jambuaçu, Jacamim, Jacarandá
Marimari, Maicuru, Marariá
Xarapucu, Caeté, Curimatá
Anajibu, Cunhantã, Pracajurá...

As coisas que tanto amei!
As coisas que tanto amei!

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Bolinho de feijão

Paulo Mendes Campos


Uma vez, ao sair de um labirinto burocrático, psiquicamente entorpecido, reparei que eram onze horas de manhã limpa e amena. Suspirei para a mulher que estava ao meu lado: Que pena!

Que pena, sim, pois é bem ridículo renascer às onze horas de manhã limpa e amena, e não existir um só antro na cidade, no qual uma alma leve possa comer um bolinho de feijão! É uma das contradições da civilização! Intolerável que uma cidade devore oceanos de peixes, rebanhos de bifes, enxurradas de cereais e hortaliças, sem poder ofertar ao consumidor um pratinho de bolinhos de feijão. Fazenda minhas as palavras sombrias de um russo, no banho de luz da Praça Marechal Âncora, ameacei a humanidade: Mundo louco, feliz em tua loucura, o teu despertar será terrível!


Mas a mulher que andava ao meu lado era gringa, e perguntou-me: What is a bolinho de feijão?

Well... um bolinho de feijão! Um bolinho de feijão é feito de feijão-fradinho. Parece com acarajé, mas não é bem acarajé. Um bolinho de feijão é uma coisa que você come muito na infância, e mais ainda na adolescência, quando descobre a cerveja, e depois fica a procurar, em vão, por todos os cantos do mundo. Um bolinho de feijão, às vezes é a joie de vivre, para mim ele é le temp retrouvé, e era o que a Gioconda queria quando sorriu. Um bolinho de feijão é quase o que os germanos chamam de Gesamtkunstwerk, uma perfeita e orgânica obra de arte. Um bolinho de feijão é o maná (o quente) que este céu agora nos promete, mas não encontraremos jamais.

Mudando de rota (em Leblonema não há bolinho de feijão), cruzamos a praça, caímos à esquerda em General Justo, e comprei duas passagens no Aeroporto Santos Dummont.

Em Belo Horizonte – expliquei em voz baixa para a minha alienada – ainda há bolinhos de feijão. Não tanto quanto no meu tempo, é claro, pois a era dos enlatados corrompeu as paciências culinárias. Mas há! Sei de um bar n Rua da Bahia – o Ignacio’s - que, neste mesmo instante, está a frigir bolinhos de feijão da melhor qualidade. Daqui a uma hora e de vôo e vinte e cinco minutos de táxi, eu te apresentarei, mulher, ao bolinho de feijão.

Dei bom-dia ao bom proprietário e escolhi o melhor lugar. Expliquei a boa técnica para a companheira: a gente não deve ir chegando e pedindo logo um prato de bolinhos de feijão. Não. Deve tomar um ar de quem não quer nada, mas de quem pode subitamente ter uma idéia fabulosa. Como se os bolinhos nem existissem, pedir o melhor uísque escocês, para apanhar a boa boca. Ir bebendo com tranqüilidade, falando de coisas sem importância, para distrair a idéia. Depois, no momento de pedir o segundo uísque...

Foi o que fizemos. Falamos sobre as guerras da Ásia e outras trivialidades, bebericando devagar, com aquele gosto das esperanças certas. Acendi um cigarrinho e chamei o garçom:

- O senhor agora, por favor, vai trazer mais dois uísques e um pratinho com aqueles bolinhos de feijão

- O doutor vai desculpar, mas o bolinho de feijão está em falta.

Como Franz Kafka, não entendi mais nada. Passar duas horas numa repartição pública, descobrir de repente na luz da manhã que Deus existe, o avião existe, o bolinho de feijão existe... E o bolinho de feijão estava em falta! Meu primeiro ódio foi lingüístico, contra aquela expressão idiota: nada do que a gente quer devia estar em falta. Em seguida, com a fleuma dos arruinados, perguntei ao rapaz:

- Por que que o bolinho de feijão está em falta?

- Porque a cozinheira, que sabia fazer bolinho de feijão, partiu de faca na mão pra cima dum garçom, de faca na mão; o patrão mandou ela embora.

- Mas, meu amigo, não faz sentido: se a cozinheira, que sabe fazer bolinho de feijão, partiu de faca na mão pra cima do garçom, que não sabe fazer bolinho de feijão, quem devia ir embora é o garçom.

- Mas acontece, doutor, que a cozinheira não tinha razão.

- Meu caro, o bolinho de feijão tem razões que a própria razão desconhece... A prova disso é esta: acabamos de chegar do Rio de Janeiro para comer bolinho de feijão. Não é só isso: esta senhora nasceu na Europa para conhecer um dia o bolinho de feijão de Minas Gerais... Vê se quebra o galho, meu chapa.


O Inácio veio falar comigo e repeti para ele minha estupefação, no caso da cozinheira, e minha indeclinável urgência em comer alguns bolinhos de feijão. O homem comoveu-se, mandou um menino percorrer os botequins da capital. Aguardamos em silêncio.

Meia hora depois, três bolinhos de feijão, murchos e frios como as graças fanadas na véspera, eram colocados na mesa. Ela comeu um; eu comi outro; dividimos o último irmãmente. E voltamos para o Leblon.

(in Os bares morrem numa quarta-feira, São Paulo: Ática, 1980, pp. 118-120)

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Chuva

Edson Coelho de Oliveira


Diz-se que as coisas - sem consciência - só existem em nós, que lhes atribuímos existências e metáforas; não assim com a chuva, nossa mãe.

Quando quero amar Belém, digo chuva, e a cidade me reconhece de longe, e amo Belém nas ruas, sob as mangueiras cacheadas, amo Belém na Cidade Velha, onde o Tempo mora em casarões, amo Belém nas ruas do Reduto e do Telégrafo, onde o cinza dos crepúsculos polvilha nossa alma e gera uma melancolia alegre, amo Belém na Pedreira e na Matinha, onde as meninas desfilam na volta da academia e, à noite, os adolescentes se reúnem, aos montes, encostados nos canais - essa Belém que só encontro quando chove, e o asfalto reflete não a luz, mas a luminosidade, como se o Sol não se importasse com tanto brilho, ou a Lua se dissolvera numa tela delicadíssima que nos envolve secretamente, tal um jardim sem cigarras.

Em quase todo o mundo, a relação dos povos com a chuva é escassa, como se ela nem existisse ou pudesse e mesmo devesse ser evitada; na Amazônia, a chuva é cotidiana, íntima, inevitável, 'de casa'. Por isso, quando quero amar Belém, digo chuva, e na Feira da 25 a tapioquinha recende como se o cheiro viesse do chão, e no Ver-o-Peso os barcos antigos parecem pintados diretamente na paisagem, e sob a chuva a Praça da República é a mais extensa tela da cidade, e em algumas ruas de Batista Campos faz sempre sol mesmo sob um aguaceiro, e no Entroncamento Niemeyer mora numa nuvem e há dois anos não sai de casa, e na Cidade Nova todas as pessoas parecem combinar para sair ao mesmo tempo, tão logo passe a chuva do início da noite, e no Guajará o asfalto estranha a ausência de prédios, e no Curuçambá as estradas sinuosas dão à cidade um colar de árvores, e no Benguí piscinas de água natural recebem ameixas e meninos.

É também certo que, quando quero amar a chuva, digo Belém, e se for em São Paulo a garoa torna-se cálida, e se for no Rio, o mar entranha-se pelas paredes das ruas e odora no chope, se for em Ouro Preto, dezenas de poetas se reúnem em silêncio nas ladeiras de pedra com telhado, se for em Brasília, o tráfego flui como o rio de aço de Drummond, se for na Chapada dos Guimarães, as rochas jorram águas límpidas sobre plantas e cristais, se for em Marituba, três ruas pedirão para morar noutro lugar, se for em Benfica, os sítios tomarão um banho de mil anos, se for em Mosqueiro, a água trocará duas palavras com a água e eu amanhecerei no Ariramba ou no Marahu.

Sim, quando quero amar a chuva, digo Belém, nem que fique preso sob uma marquise, nem que o trânsito me retenha, nem que o meu amor espere ao celular, nem que eu chegue atrasado ao Mangueirão, nem que os bares já tenham fechado (à meia-noite), nem que os amigos liguem de madrugada para gozar a extinção do meu time, nem que a Perebebuí esteja só buraco, e ali perto o Bosque é lindo como um grande pedaço da minha infância que não envelhece, e na Primeiro de Dezembro (não a João Paulo II, recente-renomeada) amanheci tantas vezes que conheci duas estrelas de seu céu: pois nem agora que a Primeiro de Dezembro foi proibida de ver a madrugada desisto de dizer Belém, digo Belém e amo essa chuva de todas as horas, de todas as ruas, com suas imagens clássicas, suas calçadas tomadas, a curva parabólica que os carros fazem em frente ao São José Liberto (ex-presídio), estas sensações de Belém tão à flor do corpo que ando, de um jeito ou de outro, feliz da vida com tanto temporal bendito temporal sobre nossas cabeças.

Porque Belém e a chuva, a chuva e Belém, são a mesma coisa.


Edson Coelho de Oliveira é jornalista, poeta e escritor paraense, necessariamente em todas as ordens.

Fonte: O Liberal, 07/05/2006