terça-feira, 22 de novembro de 2005

95 anos da eclosão da Revolta da Chibata!



Salve João Cândido! Salve o Almirante Negro!


O Mestre-Sala Dos Mares

(João Bosco e Aldir Blanc)

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas,
jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos
entre cantos e chibatas
Inundando o coração
do pessoal do porão
que a exemplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas
Às mulatas
Às sereias
Glória à farofa
À cachaça
Às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
que através da nossa história
não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro!
Que tem por monumento
as pedras pisadas do cais
(mas salve)
Salve o Almirarante Negro!
que tem por monumento
as pedras pisadas do cais
(mas faz muito tempo...)

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Bíblico III

"Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, um outro te porá o cinto e te levará para onde não queres ir." (Jo 21, 18)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Samba de Eleguá

(Nei Lopes)

Samba é de Eleguá
Como a régua é de medir e de traçar
Como a trégua é o momento de parar
E a mágoa é pra calar
Samba é de Eleguá
Como a água é de beber e de lavar
Como a lígua é de comer e de falar
Como a légua é caminhar

Eleguá é viajeiro
Mensageiro de Iorubá
Como o samba é timoneiro
Do pandeiro e do ganzá
Eleguá é meu tambor
Como o samba também é
Ele á guarda do meu corpo
Meu caminho e minha fé

Caminha, meu samba, anda
Pela régua de Eleguá
Coloca a moçada louca
Pela boca de Eleguá

Axé Balogum Metá!
Odé Inlê Abatá!
Obá Xangô airá!
Ologum Edé Babá!
Iá Mi Oxum Iê Pandá!
Iá Messã Oiá!
Axé Iabá Iemanjá!
Atotô Ajé Xalungá!
Ibêji Mi Mojubá!
Odudua! Obatalá!
Mojubá Babá Ifá!
Iboru Boye Alafiá!

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Ressaca


Bem, passado o referendo deste último domingo, volto à carga somente à guisa de conclusão, até porque a partir do texto de semana passada é que pude entabular as melhores discussões sobre o assunto, nos comentários, pelo correio eletrônico, em casa, ou com meus pares da Confraria S.E.M.P.R.E.

Tive a felicidade de ouvir belíssimos argumentos favoráveis a ambas posições, pelo que julguei respeitável a decisão de alguns, pelo sim, pelo não, ou pelo branco/nulo. Não de outros, confesso que a estrondosa maioria, movidos pela anteriormente apontada onda da costumeira babaquice geral da república, que acabou por opor pacificistas ingênuos a conservadores paranóicos. Ao fim e ao cabo cravei o "sim" impulsionado decisivamente pelos argumentos de meu querido amigo, (não mais tão) jovem e (sempre e cada vez mais) brilhante advogado paulistano, Maurício Silveira.

Argumentamos, debatemos, discordamos e concordamos. O que me moveu decisivamente acabou sendo o caráter simbólico, como recado indicativo de vontade política, como utopia a ser perseguida, tendo em vista que os efeitos práticos eram controversos e que o mérito da comercialização em si não se confunde com a questão do acesso e utilização (porte) da arma de fogo. E passada a vaga algo tormentosa, convenci-me do acerto da minha particular opção. Porque, como já previa o bom Dr. Maurício, a vitória do "não", pela forma como se deu, teve um significado político-simbólico altamente negativo, perdoada a redundância. Provas incontestes, os números paulistanos sinalizaram acachapantes vitórias do "não" em bairros como Perdizes, Vila Mariana, Indianópolis, Morumbi, Moóca, todos redutos de classe média a alta, enquando o "sim" fez-se mais presente nos piores guetos de miserabilidade e violência, como Capão Redondo, Paralheiros, Grajaú, São Mateus e Piraporinha. Não consegui os dados do Rio de Janeiro, mas duvido muito que sinalizem em outra direção. Simbologia claríssima da vontade de uma população que sabe o que é a vida civil cotidiana brasileira povoada pela violência real, em oposição à da população atormentada muito mais (mas não só) por um certo pânico induzido do que pela efetividade das ameaças.

Mas sem dúvida foi o pleito mais estranho da minha vida. Acostumado a defender minhas opções com unhas e dentes, vi-me brigando com três pessoas diferentes no sábado, contestando seu pífios e ingênuos argumentos pelo "sim". Aos camaradas comunistas (que acabaram por indicar a opção correta, mas com argumentos fracos, quando não falseáveis), por exemplo, repasso a pergunta que me fez o chofer do táxi que me levou ao meu colégio de votação: "Doutor, sem arma pra comprar legalmente, como a gente vai fazer quando os cidadãos tiverem que se levantar contra a tirania do governo?". Lembrei-me do velho Brizola a distribuir armas aos estancieiros, na famosa marcha pela legalidade.

Outra prova do revés político da vitória do "não" para os progressistas é o ressurgimento da ferocidade de setores conservadores, animados com a possibilidade (bastante duvidosa, registre-se) de se ressuscitar discussões como redução da maioridade penal, adoção da pena de morte, tudo devidamente subordinado a simplórias consultas populares. O que me remete à discussão da própria legitimidade da utilização indiscriminada desses mecanismos de decisão popular direta, que reputo altamente questionável em variados casos, como no em questão, por exemplo. Mas esta é uma discussão que não estou com vontade de levar adiante neste momento.

Ficou para mim, de tudo isso, requisitado para servir à Justiça Eleitoral nesses dias de preparação e execução do processo de consulta, o sentimento de ter sido efetivamente útil, pela primeira vez em quase treze anos de serviço público, à coletividade que paga o meu salário.

Sambando no Avesso

Caio Silveira Ramos


Para Germano, malandro que em um 26 de outubro, há 50 anos, ganhou um concurso e uma carteira de trabalho anotada: "cantor e executante de instrumentos exóticos." Samba, Germano. Samba.


Cheguei de longe, com o rosto aceso da cidade, mas não era, não era aquilo. Prédio, cinza, tiro: nada que meu pesadelo desaguara, era tudo, tudo outro. Outra. Que rosto tinha que meu sonho não viu ?

Consolação, Viaduto do Chá, eu lá, trançandando, rua, rua, do disco antigo encontrei um sotaque, será ? Pois não joguei pra rede palestras, bardis, martinelis, pignataris ? Iria então comer poeira, buscar o rosto dela em vanzolinis e rubinatos. Mais fácil seria topar com um rubinato, que o outro, doutor sambado, foi mergulhar entre cobras e lagartos. Perimetrei transambando, cadê Joca, Mato Grosso ? Inês saiu, apaga o fogo Mané, que Iracema meu grande amor foi embora. Mas Rubinato, cadê ? Adormeceu, adonirou-se antes do meu pé se cravar na cidade. Por que me abandonaste, bancando o Arnesto ?

Mas perdidosseilá, foi que vi o malaco. Desconsiderei. Pois como podia, sambista paulista, chamado Germano, europas no nome, trazer um gingado ? Como é que podia, Mathias, mãe, pai lusitanos, fadista não ser ? Como é que podia, branquelo, velhaco, ecoar piraporas dos jongos fora-da-lei ?

Pois foi nele que encontrei a cidade, mesmo antes me embebedar de João Antonio, meu palavreiro vadião a me guiar pelos infernos e inferninhos das Bocas infinitas. Germano Mathias apareceu assim, de esbarrão na esquina, desmalandrado, sem bombeta, sem pisante bico-fino, sem camisa listada, sem nada. Ali, esperando o ônibus pra Parada de Taipas. E eu fui junto.

Na ginga de se equilibrar nas curvas, no requebro do passar pela roleta, lá se foi ele, de cadeira quebrada, batucando sozinho, no banco, na janela, nos canos. E eu fui junto.

E São Paulos foram se formando dele, deles, germanos, lusos, dos falares italianados, dos brancos de coração pulsando africano, negro, negro, de alma e poesia estaladas concretas na lata de graxa. De pernada de moleque xepado no lustro certeiro.

Não sou eu não, não mais, sou Germano, homem dos trinta andares, quase arranha-céu, dos mil falares sincopados se prestando a adivinhar o quanto sambar é possível e amar é quebrável. Sou Germano para gingar Padeirinho, carioca, Mangueira em férias a verderrosear as barafundas. Sou Germano para suingar Caco Velho, pai-mestre, gaúcho negro de cuicar as veias azuis dos preconceitos. Sou Germano para me enluvar Jorge Costa, alagoano, domador da sílaba que se inverte para moldar meu passo.

Roubei uns passos, uns corpos, uns gingados, sou bom ladrão, mas meu Deus, não me perdoe, que perdão não preciso. Só quis engolir todas as línguas do mundo e sair por aí falando, sambando no avesso.

E pelo descompasso de amar errado, pecarei por adormecer com a cidade, que encostada no poste, sorri: me ama.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Sim ou não, eis a questão

Protelei até quando pude meu pitaco sobre o tema mais candente do momento, até pra não dizerem que me precipito, que não tenho paciência, que o tempo político é outro, etcéteras mil. Ou na esperança de que ainda alguma alma pudesse lançar luzes honestas sobre as trevas cerradas. Porque o debate sobre o tal referendo realmente se instaura sobre uma barafunda de assustar, mesmo num país onde o furdunço é sinônimo de normalidade. Minha derradeira esperança esvaiu-se, quando, animado pela publicação de um artigo do grande Celso Antônio Bandeira de Mello, dos pouquíssimos juristas intelectualmente respeitáveis da nação, frustrei-me absolutamente pelo tom quase pueril de sua defesa do "não".

Porque, simplesmente, senhores, a coisa já começou mal a partir do momento em que se travestiu uma decisão sobre a comercialização legal de armas e munições em "plebiscito do desarmamento". Assim fácil, como se a perguntar ao eleitor se ele é a favor ou contra a proliferação das armas de fogo, num país que perde 40 mil de seus filhos todos os anos por meio dessa forma de morrer e matar. Depois, veio a campanha, que ao invés de esclarecer o equívoco da abordagem ao eleitor leigo nos assuntos legislativos, tratou de reforçar o engano, pra não dizer engodo. Então, defendo o "sim", apareceram o Chico Buarque, a Fernando Montenegro, Dom Paulo Evaristo, só faltaram o Betinho e o Chico Xavier, por razões óbvias. Aí você olha defendendo o "não" e estão o Erasmo Dias, o Afanázio Jazadi, o Coronel Ubiratan. Isso porque o Hildebrando está em cana. Instaura-se a completa banalização do debate, como se se tratasse de uma disputa entre a "turma do bem", do "paz e amor" e a turma barra pesada, do quanto pior melhor. Sinceramente, mais uma vez o grande prejuízo político para a democracia brasileira é a perda da oportunidade de um debate público sério, de nível, aproveitando a ausência de disputas eleitorais pessoais diretas.

Aí as pesquisas de intenção de voto, curiosamente, estão dando ligeira vantagem ao "não", mas em empate técnico, sendo que antes do começo da campanha os que se diziam favoráveis ao banimento das armas eram perto de 80%. Competência da campanha do "não"? Antes fosse. A confusão que por si só já não era pequena vem recebendo mãozinhas eficientes, por exemplo, da Igraja Católica, que tem espalhado por seus templos a frase, em letras bem grandes, pra quem quiser ler: "diga NÃO às armas"... Sinceramente, eu que andava bem desesperançado dos destinos da nação, depois da recente peregrinação pelo interior mineiro, a vontade é de desistir.

Confusões à parte, ocorre, na verdade, que a discussão é tão despreparada, tão fora de contexto e de senso de realidade, que os argumentos todos, de ambas as partes, não convencem ninguém. A tendência dos que somos batalhadores por uma sociedade mais fraterna e menos violenta é pela solução mais fácil, pelo "sim". Infelizmente, porém, a coisa não se processa tão simplesmente, porque não se trata de uma decisão sobre o desarmamento. A proibição do porte de arma, a política de recolhimento de armas e outras iniciativas já implementadas pelo Estatuto do Desarmamento estão corretas em tese e na prática provaram ter alguma eficácia. Fosse essa, simplesmente, a questão, e o voto seria no "sim", sem pestanejar. Mas o buraco é bem mais embaixo. Trata-se de inquirir se a uma sociedade que não quer armas é benéfico estabelecer uma proibição de comércio das mesmas e respectivas munições.

Porque é fato que a sociedade, em tese, não quer drogas, mas a proibição de comercialização não só não surte mínima eficácia, como, pelo contrário, ocasiona toda uma série de problemas ligadas ao mercado negro, ao comércio ilegal, bem conhecidos de todos nós, gerando custos sociais e financeiros estratosféricos. Foi assim com a proibição de venda de bebidas alcoólicas na Chicago dos anos 30. Então, a primeira pergunta é: a sociedade quer mesmo o banimento da droga? E quer o das armas, ou essa encenação é toda pra inglês ver, ou pra atender a outros interesses, menos confessáveis? E eu que há pelo menos dez anos defendo a legalização do comércio de drogas de toda espécie, como posso coerentemente defender a proibição do comércio de armas? Dirão uns que o mercado clandestino de armas já existe, mas é fato que elementos inéditos e importantes seriam introduzidos, como, por exemplo, o fato de se criar uma casta de poucas pessoas com a possibilidade de acesso ao comércio legal de munições, como praticantes de tiro esportivo (a Folha de S. Paulo de ontem dá conta de que cresceram em 70% em média os quadros associativos dos principais clubes de tiro...) e, principalmente, policiais, o que tenderia a acrescer um fator de incentivo à corrupção, hoje já em níveis quase incontroláveis.

O PCdoB, meu partido, editou uma resolução política elencando os motivos pelo "sim", posição oficial da legenda. Com todo o respeito e vênia, absolutamente imprestáveis todos os argumentos. Nenhum aborda diretamente a questão, nem enfrenta os problemaas reais decorrentes da possível proibição. Desalentador, eu diria. Por outro lado, a linha de defesa do "não", baseada em argumentos de um liberalismo mofado (do tipo "o estado não tem o direito de interferir no direito de defesa do cidadão de bem"), ou na escancaradamente inverossímil premissa de que os agressores passarão a enfrentar vítimas sabidamente desarmadas, também não se prestam ao convencimento. A qualquer um que adote a segunda linha e que tenha um mínimo de bom senso e amor à vida, arrisque perguntar: a partir da proibição, você encararia uma discussão de trânsito com toda tranqüilidade, confiando no seu poder de persuasão e nos seus punhos, na certeza de que seu contendor estará desarmado? Francamente...

Em verdade, a única coisa que me poderia inclinar ao "sim", que não chega a ser um argumento, um juízo categórico racional - está mais pra um urro desalentado, o que não lhe tira o valor de convencimento - é aquele que diz que se uma única vida for salva pela proibição de comercialização, já terá valido a pena. Se eu me convencer disso até domingo, voto "sim". O probleminha é que não saberemos se a vida que estará sendo salva hoje não gerará a multiplicação das mortes e das chagas sociais amanhã, e isso parece que ninguém está disposto ou tem condições de provar.

Caso contrário, nessa onda, como protesto ao rebaixamente irracional do debate e à pantomima de péssimo gosto que mais uma vez se encena, cravarei pela primeira vez depois de muitos anos, um voto em branco.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Última oração



(Edyr Proença e Emanuel Matos)

Quando eu for morrer
Vou pedir pra ser Outubro
No meio daqueles anjos
do Círio de Nazaré
Lá estarei tranqüilo
Com meu cigarro de palha
As dores todas vencidas
Nas ondas do Rio-Mar

Antes de chegar a hora
No instante de partir
Pedirei à Virgem
Asas feitas de meriti

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Eternidade II

"A carne que se transforma
em verbo sabe que morre"
Hélio Pellegrino

Quisera fazer poesia
desse instante perpetuar
o gozo em idéia
O esvair-se em permanência iludida
do poder de alçar
à palavra o que é tempo
Fazer eternidade do que é sentimento
solidão do que é entrega

Não fossem o sentimento
e a entrega
O gozo
O tempo
Negação do mesmo que esvai solidão
debruçando pelo Outro

Não fosse a palavra sentença
da possibilidade condenada
ao mesmo
Não-gozo

Não fosse a Eternidade
Palavra em poesia possível
no mesmo Tempo

terça-feira, 4 de outubro de 2005

São Francisco



Hoje é dia de São Francisco. Pra não deixar passar, pra marcar esta volta incipiente, pra alinhavar uns tantos sentimentos que têm-me ido. Mineiridades nostálgicas, belezas e chagas de outros brasis, antigos, tão atuais. Desesperanças e enfados, perplexidades e conformismos, luzes e sombras talhados em volutas intermináveis, a sangue e a ouro, pelo cinzel da impiedade capitalista que lavra o destino trágico desta Nação.

São Francisco batiza as três mais impressionantes igrejas que vi, na Cidade da Bahia, há uns dez anos, em São João del Rey, já há vinte, e ora em Ouro Preto, à custa de uns bons minutos - horas não seriam demais - e uma bela cervicalgia, olhar engolido pelo teto de Ataíde, frontões e retábulos do Aleijadinho. Seriam quatro, com mais uma que me apaixonou, pela simplicidade resgatada e pela impudica, reveladora nudez do restauro, no Arraial do Tijuco do Distrino Diamantino: uma dama de três séculos, nua e envergonhada como uma moça-menina.

São Francisco é o rio que só dói e agoniza. E eis que volto e um bispo-frade, em sua magreza obstinada, resolve juntar à morte à míngua do gigante de outrora a sua própria de pequeno e magro, de obstinado. De franciscano. E a dureza dos ouvidos oficiais se faz mais usurpadora pela ignorância dos gritos tantos. Nossos. E mais patética, de uma mesquinhez algo burra, algo bufa, preocupada com as repercussões sobre a audiência do presidente com o Papa. Enquanto o sertão forja, do âmago de seus franciscanos estigmas, mais um conselheiro a bramir nossa grotescência, soberba e surda.

São Francisco, no quase impensável século XIII, é o que largou heranças por sentimentos. E porque temos, até hoje, meu Deus - e até quando? - essa impressionante dificuldade.

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Espelho


Quero hoje prestar homenagem a uma figura maravilhosa, para mim mais do que querida, a quem eu considero francamente meu segundo pai, talvez ele mesmo não saiba disso. E para que ele e o mundo saibam, vou cravar nestas páginas a partir de hoje e nos dias que seguirem o exemplo dessa personalidade encantadora que me conquistou desde muito cedo.

Foi com ele, inexplicavelmente, que dei início à verdadeira vocação de missivista que só veio decolar depois do advento do imêiou - dado que em mim nada, nem vocação, nem qualidade e nem mesmo paixão é maior do que a preguiça. Pois aos seis, sete anos de idade escrevia cartinhas cá de Sampa àquele tio-avô carioca, cujas fuças só tinha encarado tête-à-tête uma única vez, ainda bem pequeno. E, incrivelmente para mim, ele respondia, criando laços de ternura que se consolidaram verdadeiramente muito mais tarde, quando de braços mais que abertos me recebeu e desvelou o meu Rio de Janeiro que amei desde as idéias inatas.

Cariocaço da antiga, tricolor doente e salgueirense, craque na arte do bate-papo, de uma inteligência luminosa e charme raro. Um sedutor nato, que soube durante a vida agregar à beleza física com que a natureza o presenteou um caráter escultural, de aço mesmo, incapaz da mais remota daquelas pequenas mesquinharias que todos nós escondemos nalgum cantinho da alma, é só procurar direito. De alma carnavalesca, acompanha anualmente, como um peregrino muçulmano, o desfile do Bola Preta, a meca do carnaval carioca, tendo alardeado pela vida que só deixaria de acompanhar o Cordão quando a terra por cima e a tampa do paletó de madeira impedissem (embora ano passado tenha me confidenciado seu pedido de arrego ante as proporções estratosféricas que a coisa tomou, bem diferente daquele 1989, quando me arrastou pra lá pela primeira vez ). Firme nas suas convicções, incorruptível como demonstrará a história que a partir da semana que vem passarei a transcrever, tornou-se para mim um modelo, um espelho daqueles de que falou o nosso bom João Nogueira - e que não se há de quebrar nunca, por certo. Sua lucidez impressionante e seu vigor físico não denotam as oitenta e seis primaveras que completa no dia de hoje, ainda que a saúde tenha-lhe querido impingir alguns revezes recentes. Mas não há de ser nada, meu tio velho, que vais driblando os percalços com aquela tua boa lábia suburbana do Engenho de Dentro, sim senhor, e com o teu andar meio gingado de fazer babar as moçoilas desavisadas, pra desespero da Tia Zeca - que outro dia, aliás, queixou-se a mim, meio chorosa, que esses cinqüenta anos de casamento tinham passado tão rápido...

Embora ele também possivelmente não saiba, devo muito ao meu tio-e-avô, como se auto-denominou depois que meu avô querido, seu irmão, foi cantar seresta ao lado de Orlando e Chico. Devo a opção pela faculdade de direito, porque ainda que não se tenha formado bacharel, o velho é o verdadeiro rábula da antiga: sabedoria, estilo, verve de quem sabe a quem, como e em que momento pedir. Devo minha carreira de funcionário público, para a qual sempre brilhou, juntamente com os seus irmãos, todos servidores, como exemplo maior de retidão e dedicação à coisa pública (isso é um ponto importante, para que entendam a história que passarei a contar). Devo minha devoção ao Rio, passando à prática o que aprendi com vovô na teoria desde que me entendi por gente. Devo algum jeito para tratar as moças, mas sobretudo, o seu fulgurante exemplo de chefe de família exemplar, pai amoroso e marido dedicadíssimo.

É por isso que eu mando daqui um beijo mais que especial ao meu queridíssimo tio Osias Teixeira Nunes. Do Engenho de Dentro e das Laranjeiras, sim senhor. E com vocês, a partir de segunda-feira, e principalmente pra meu irmão Eduardo, a história que envolve o velho Osias e nosso grande Nelson Rodrigues, enredados numa mesma história - verídica! - pelas mãos do cronista Armando Nogueira. Espero que titio não me processe pela violação de direitos autorais, que não sou páreo pro homem nas barras de um tribunal!

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples



Senhores, esta vida está mesmo ficando difícil.

Está certo que o "discurso" oficial da modernidade tem sentido oposto, de que as tecnologias que inventamos estão destinadas a que a vida seja cada vez mais cômoda, de modo a que teoricamente sobrasse mais tempo e disposição para a fruição das coisas efetivamente importantes, dos prazeres, da contemplação. Não vejo porque, doutra forma, teríamos que conviver com coisas tão desagradáveis como o liquidificador, a câmera digital, o caixa-automátco, o aspirador de pó, o celular, a injeçãoo eletrônica, o sistema de auto-atendimento etc. Mas a verdade é que, na prática, a teoria é outra.

Não quero aqui repetir que, no capitalismo, essas tecnologias todas são para uns poucos, e para que esses poucos possam desfrutar de suas "comodidades", as multidões de famintos continuarão a morrer à míngua dos bens mais primários e essenciais. E també não adianta somente o raciocínio um tanto óbvio segundo o qual não fazemos senão correr atrás do prório rabo, gerando constantemente novas necessidades a partir das inovações que introduzimos,
ad infinitum. O que nos complicou pra valer talvez tenha sido nossa consciência tardia sobre essa verdade simples, quando os efeitos dessa intervenção frenética e desordenada sobre o mundo (que só fez crescer exponencialmente durante os últimos 120 anos; bastando dizer que meu avô no coléio, escrevia basicamente segundo o mesmo sistema dos monges copistas da alta Idade Média) já se tinham disseminado de maneira nefasta e o ciclo vicioso e viciante do capitalismo já conduzira a compulsão tecnológica ao limite máximo da sua eficiêcia (a serviço dele prório, por certo).

Assisti ao longo da vida o padecimento dos mais velhos sucessivamente alijados das operações simples do dia-a-dia, cada vez mais subordinadas à mediação da tecnologia. Minha avó de 89 anos sempre elaborou sozinha sua declaração de imposto de renda, mas hoje precisa da minha ajuda, não porque não tenha lucidez para entender os regulamentos, deduçõees e alíquotas, mas porque não consegue preencher o formulário eletrôniico nem enviar pela Internet. Mais novo, troçqva de meu pai que não sabia programar o vídeo-cassete (nossa, que coisa antiga...) e nem esquentar o prato de feijão no microondas, mas o fato é que eu mesmo, ainda na casa dos trinta, não conseguia mais acompanhar o ritmo da história toda. Outro dia, levando minha filha a um famoso parque de diversões aqui perto de São Paulo, tive que pedir ajuda à funcionária, pois não sabia onde jogar os restos do lanche que fizemos, ante a profus? de umas seis latas de lixo de cores diferentes, com instruções sobre o que pode jogar, o que não pode...

A cada dia a ciência vai descobrindo - e, principalmente, os jornais vão divulgando - a quantidade imensa de dores de cabeça que arrumamos para nós mesmos, aliada à constatação óbvia de que os anos passam para todos nós e tudo o que ontem parecia inofensivo começa a representar terríveis perigos ameaçadores. Pegar uma prainha, por exemplo, ato inocente, simplório mesmo há uns tempos atrás, começa a parecer mais perigoso do que servir na resistência iraquiana. O sol dá câncer de pele, a areia dá micose, o mar, hepatite. Espetinho de camarão, um veneno, a caipirinha é um criadouro de monstruosidades: o limão é transgênico e dá mancha na pele, o açúcar é considerado um pó branco mais mortal que a cocaina, o gelo é de água contaminada. Só salva a cachaça, quando não tem metanol. Pra falar a verdade, nem aquela morenaça daria vontade de chegar perto, se você começasse a pensar no monte de precauções que você tem que tomar: saber se ela não se chama Asdrúbal, usar camisinha, pensar nas implicações civis da união estável etc. etc.

A evolução do conhecimento sobre os efeitos colateriais nefastos das artficialidades pouco a pouco criadas não para dominarmos o mundo, como outrora, mas para o dominarem em nosso lugar e à nossa revelia, resulta numa série infinita de pequenas preocupações a nos consumirem o ânimo permanentemente. Comer, dormir, respirar, namorar, falar, caminhar deixaram de ser atos espontâneos, naturais, para tornarem-se tarefas que demandam elevados níveis de atenção e consciência. Cada garfada que eu levo à boca tenho que calcular o número de calorias, pensar nas implicações metabóicas para a minha taxa de ácido úrico e se não estou incrementando a ingestão diária de lactose, fatal para minha rinite e comprometedora do meu desempenho vocal. Lavar as narinas a cada dois dias, por causa da poluição. Usar máscara e luva para trabalhar com os processos, por causa das bactérias que se alojam no papel. Fazer alongamento três vezes por dia. Dormir com o travesseiro alto, por causa do refluxo, mas não muito, pra não comprometer a coluna. Respiração baixa. Tomar mel, mas sem própolis, que é antibiótico e deixa os microorganismos resistentes. Pra falar, então, tem que ler a cartilha do ministério...

Talvez seja esta nossa inacreditável capacidade de fazer exatamente sempre o contrário do que nos propomos que tenha levado o Apóstolo a escrever aos romanos: "não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero". Ou o Poeta a querer tão somente, com todo ardor, "a delícia de poder sentir as coisas mais simples". E porque a simplicidade abandona seu lugar natural, espontâneo, para ser rara a ponto de precisar ser desejada, aí justamente, é que se esvai.


sábado, 28 de maio de 2005

Mais Sindô


Complemento algumas informações sobre o grande Hélio Sindô, sobre quem escrevi semana passada, haja vista que a oficialidade (é impressionante como mesmo a marginália do grande sistema tem as suas "oficialidades" particulares...) não está nem aí.

O velho violonista e compositor nasceu na cidade de Senador Pompeu, CE, no dia 07 de outubro de 1919 e morreu no último dia 09 de maio, com 85 anos, portanto.

Gravou na Contiental seu primeiro disco: "Divina Dama", samba (Henricão - Raul Marques - Buci Moreira) e "Vem ao Rio, Rita", samba (Antônio Ferreira da Silva - João Rosa - Correia Filho). Gravou ainda "O costume dela", samba (Hélio Sindô - Arlindo Pinto), "Grande Bahia", samba (Avaré - Adoniran Barbosa), "China chou", marcha (Jair Gonçalves - Hélio Sindô), "Asa negra", samba (Adoniran Barbosa), "Minha promessa", samba (Soriano - Boris), "Boogie-woogie não é samba", samba (Hélio Sindô), "Kikiricó", marcha (Arlindo pinto - Waldomiro Lobo), "Porteiro de cabaré", samba (Osvaldo França - Conde - B. França), "É de Bangu", samba (Hélio Sindô - Carlos Armando), "Marcha do tubarão", marcha (Hélio Sindô - Capitão Balduíno), "Vai dormir teu sono", samba (Heitor de Barros - Conde), "Italiana", marcha (Ciro de Sousa), "Quem é o presidente?", samba (Ciro ed Sousa), "Falso amigo", samba (Conde - Brioso), "Embrulho", samba (Djalma Mafra - Alaviade), "Medo da onda", marcha (Reinaldo dos Santos - Hélio Sindô), "Ai, se eu fosse português", samba (Hélio Sindô - Boca - Noel Victor), "Falaram tanto", samba (Hélio Sindô - Conde), "Pobre no pedir", samba (Djalma Mafra - Alvaiade), "Cabocla", samba (Arlindo Pinto - Hélio Sindô), "Sapato custa dinheiro", balanceio (Hélio Sindô - Carlos de Sousa), "Arrebenta a bexiga", samba (Mário Zan - Arlindo Pinto), "Ó Nesta", marcha (Ciro de Sousa - Polera), "Delator", samba (Hélio Sindô - Reinaldo Santos), "Vaca malhada", samba (Ciro de Sousa - Hélio Sindô), "Desapareceu", samba (Antônio Rago - Hélio Sindô), "Cachopa de branco", marcha (Jucata), "Tenho pena dela", samba (Raguinho - José Saccomani), "Triste caboclo", samba (Paraguassu), "Amor de palhaço", marcha (Orlando Monelo - Jucata), "É fingimento", samba (Júlio Nagib - Reizinho), "A volta do dobrado", dobrado (Mário Vieira - Arlindo Pinto), "Galicho ganhou", dobrado (J. E. Galvão de França - L. Ripoli Filho), "Veja você", samba (Rago - Totó), "Valete", marcha (Beduíno), "Pepita", marcha (Beduíno), "O Senhor me chamou", marcha (Hélio Sindô - Otelo Zeloni), "Flauta do Bartolo", marcha (Armando Rosas - Hélio Sindô), "Num banco de jardim", samba (Fernandes - Hélio Sindô), "Voltou o pombo correio", samba (Hélio Sindô - Ariowaldo Pires) e "Eu não posso acreditar", samba (Hélio Sindô - Domingos Romanelli).

Agradeço ao grande Roberto Lapiccirella pela preocupação constante e o carinho para com a memória do nosso grande patrimônio musical popular.

Quem tiver mais informações, peço ajuda para fazer neste canto um pequeno (e único) memorial em homenagem a esse belo personagem do nosso samba.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Sindô e Simon


Nos últimos dias, a música brasileira perdeu dois grandes personagens. Tão grandes quanto esquecidos.

Hélio Sindô (Hélio Rodrigues Sindeaux), paulistano de coração e cearense de nascimento, foi um dos grandes violonistas da noite desta cidade durante três décadas pelo menos. Intérprete, parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, compositor importante, gravado por gente do tamanho de Aracy de Almeida, conheceu seu maior sucesso com o belo samba "E Você Não Dizia Nada" (com José Sacomani e Jorge Martins), gravado magistralmente por Gilberto Alves na década de 50.

Conheci o malandro pelos butiquins das Perdizes da década de 80, apresentado pelo meu irmãozinho Jason, cujo homônimo e saudoso pai - conhecido crooner de importantes casas de dança da noite paulistana como o Avenida e o Vila Sofia – com ele trabalhara durante duas décadas. O velho Sindô, então já caminhando para os 80, ainda tinha o violão e a voz seguros e as histórias na ponta da língua afiada. Dizia-se parceiro de Ataulfo Alves no famoso samba "Pois é...", mas nunca consegui uma confirmação dessa história, nem mesmo registro da parceria por qualquer meio.

E os descaminhos tão díspares e fortuitos da vida que me levaram a figuras maravilhosas da música brasileira, bem antes de eu ser intrometido como hoje (entre os quais o grande Roberto Ribeiro e, acima de qualquer outro, sua majestade Luiz Gonzaga), levaram-me também o compositor Victor Simon. Naquelas mesas do semi-finado Bom Motivo tomei com o velho bamba várias cachaças e lições. Como também numa madrugada, telefone no viva-voz, ele derramando mágoas, histórias e preciosas informações para o incansável Roberto Lapicirella, um dos grandes responsáveis pela memória deste e de outros personagens que honrada e competentemente fizeram a história e a grandeza da música popular brasileira não estarem completamente varridas do mapa. Muito diferentemente, aliás, de certas figuras que, recém-chegadas à cena, parecem julgar-se os responsáveis pela "redescoberta" da história da música brasileira, sem a menor preocupação com se suas acusações descabidas - certo motivadas mais por ignorância do que por qualquer indício de má-fé - possam levianamente enxovalhar a memória de um artista batalhador, honrado, competente e sofrido como Victor Simon. Leiam no texto abaixo, de autoria de alguém que escreve por que conhece e conhece porque estuda, a demonstração do descabimento dessa injuriosa afirmação.

Apesar dos belos currículos, nenhum dos dois malandros recém-embarcados para aquela estação de onde nunca se volta é sequer mencionado, por exemplo, na Enciclopédia de Música Brasileira, nem tampouco no empavonado Dicionário Cravo Albin. Possivelmente por darem menos ibope - ou dinheiro - do que o Simoninha e o Max de Castro, esses devidamente agraciados com os competentes verbetes.

Ante o descaso dos grandes e a incúria dos pequenos, deixo-vos com quem sabe das coisas, trabalha sério e não gosta de aparecer. Com vocês, Victor Simon pelas mãos seguras do meu querido amigo Caio Silveira Ramos.

Victor Simon

Caio Silveira Ramos


Victor Simon por Roberto Lapicirella

Já era noite alta, o telefone tocou e a voz envelhada chegou como se abrisse a porta e sentasse no sofá: "Boa noite, aqui quem fala é o Victor Simon, quem me deu seu número foi o Osvaldinho da Cuíca. Eu queria participar do Festival de Música da TV Globo: vamos fazer um samba ?" Duvidei, não podia ser. Conhecia a fama do homem, compositor famoso das décadas de 40, 50 e 60. Que fazia ali na minha sala ? Mas era ele lá e em todo lugar. Veio mastigando a alma com as histórias passeando no Rio boêmio, nos cafés, nos cassinos, nas vozes dos cantores mortos. Saiu de lá, cambaleou pela paulicéia chuviscosa e amarga e, "e aí vamos fazer aquele samba?". Me rasgou o pensamento perdido no sereno, assustei, pedi perdão: "não posso", não saberia atropelar o tempo, indigno que eu era de pertencer ao passado. Não concordou, só aceitou meu encabulamento: "então esquece o concurso, um dia a gente faz um samba junto".

Não sei se ele chegou a participar do festival – que composição inédita é que não faltava em seus papéis – mas nosso samba nunca saiu. Se perdeu pelo telefone, morreu lá. Feito ele agora: esquecido, quase indigente, morto. Compositor genuíno, batalhador pioneiro pelos direitos autorais, amigo de Custódio Mesquita e Ismael Silva, Victor cantou pouco, mas criou muito para que outros transformassem sua alma em som. Na lista de intérpretes de suas músicas, entre tantos outros, ecoam as vozes eternas de Francisco Alves, Isaurinha Garcia, Luiz Gonzaga, Bob Nelson, Gilberto Alves, Quatro Ases e Um Coringa, Os Cariocas, Trio de Ouro, Geraldo Pereira, Blecaute, Araci de Almeida, Nelson Gonçalves, Linda Batista, Carlos Galhardo, Maurici Moura, Altemar Dutra, Titulares do Ritmo, Roberto Luna, Cauby Peixoto, Anjos do Inferno e Jamelão.

Vejo alguém ali torcendo o nariz para o Bob Nelson. É´, Victor Simon compôs várias músicas para Bob, inclusive três de seus maiores sucessos: "Minha Linda Salomé" (em parceria com Denis Brean), "O Boi Barnabé" (em parceria com o próprio Bob Nelson) e "A Valsa do Vaqueiro". Mas que ninguém se iluda, atrás da roupa de caubói americano, dos falsetes tiroleses improvisando "ourureirilus" e de algumas canções desnecessárias, o cantor Bob Nelson, cujo nome de batismo era Nelson Perez, é um grande intérprete de xote, valsa, marcha de carnaval e samba. Quem duvidar pode ouvir seu domínio rítmico e melódico nos sambas-choros "Um Samba na Suíça" (dos míticos compositores – comumente visitados por João Gilberto – Haroldo Barbosa e Janet de Almeida) e "Vaqueiro no Samba" (de Irany de Oliveira e Rosalino Senos). Inspirado provavelmente pela marcha de carnaval "Cawboy do Amor" (de Wilson Batista e Roberto Martins) lançada em dezembro de 1940 pelos "Anjos do Inferno", Bob Nelson criou seu estilo, que pode até ser criticado em vários aspectos, mas não deixa de ser, no mínimo, antropofágico. No citado "O Boi Barnabé" (que era apaixonado por uma vaca que dava "leite açucarado misturado com café" "engarrafado com tampinha e com rolha") a suposta rendição à cultura americana é subvertida pela deslavada marchinha de Victor e Bob, como se o caubói se derramasse desvairado em plena terça-feira gorda. E para completar a barafunda, só faltava mesmo Ciro Monteiro fazendo com a voz o mugido do boi apaixonado. Mas nem isso faltava. Na gravação em novembro de 1945, Ciro estava presente, atendendo pelo nome de Barnabé.

A menção a Ciro Monteiro nos faz atentar para um outro nome da lista de intérpretes das obras de Victor Simon: Geraldo Pereira. Se o Formigão cantou como poucos os sambas de Geraldo, em o "Falso Patriota" a presença de Simon subverte novamente a história, pois Pereira deixa de lado a sua arte de compor para ser simplesmente intérprete. Aliás, um grande intérprete.

Tive notícia recente de um comentário em um blog onde, por causa de "Falso Patriota", Victor Simon foi chamado injusta e injuriosamente de "comprositor" (a insinuação é de que o autor verdadeiro seria Geraldo Pereira). O comentário – que foi bravamente combatido por Fernando Szegeri em um discurso inflamado diante das mesas e violões do "Ó do Borogodó" – só pode ser fruto de confusão, desinformação ou desatenção lógica e histórica, jamais de má fé, suponho. Ora, analisando a grandiosa obra (tanto em número quanto em qualidade) de Victor Simon e a extensa lista de seus (brilhantes) intérpretes, percebe-se que ele jamais foi um falso compositor que se apropriava de músicas alheias.
No que diz respeito à composição específica, o comentário injusto não encontra qualquer respaldo em obras fundamentais sobre Geraldo Pereira, como são os casos de "Um Certo Geraldo Pereira", de Alice Duarte Silva de Campos, Dulcinéa Nunes Gomes, Francisco Duarte Silva e Nelson Matos (Nelson Sargento) – Rio de Janeiro: FUNARTE/INM/Divisão de Música Popular, 1983 e "Um Escurinho Direitinho – A Vida e Obra de Geraldo Pereira, autor de ‘Falsa Baiana’, ‘Bolinha de Papel’ e dezenas de outros sambas imortais’ ", de Luís Fernando Vieira, Luís Pimentel e Suetônio Valença – Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995. Isso sem falar no texto de contracapa de Zuza Homem de Mello para o LP que resgatou "Falso Patriota" do limbo dos 78 rpm, "Sambistas de Bossa & Sambas de Breque" (RCA – 107.0278 – 1977).

Do ponto de vista lógico e histórico a injúria não se justifica. "Comprositores" sempre houve em nossa música, mas tal prática se dava (e talvez ainda se dê) nas seguintes hipóteses mais constantes: a) ou o "comprador" buscava a parceria para ter seu nome impresso e divulgado ao lado de um compositor respeitado – não só para também conseguir fama, mas visando principalmente à gravação da música por algum intérprete renomado, o que resultaria em provável retorno financeiro, ou b) tal "usurpador", não raro um cantor já reconhecido, percebendo as potencialidades artísticas e econômicas de um determinado samba, comprava (das mais diversas formas) a parceria (ou a composição toda) para lucrar não só como intérprete, mas também pela arrecadação de direitos autorais. No caso de "Falso Patriota" – gravação de 26 de junho de 1953, no lado "A"do 78 rpm que apresenta no "B" "Cabritada Mal Sucedida", do próprio Geraldo, Wilton Wanderley e Jorge Gebara (RCA – Victor 80.1192) – a situação se inverte. Por mais que fosse um compositor respeitado (ainda que não fosse reconhecida sua genialidade àquela época), Pereira não era um intérprete famoso, embora igualmente fantástico. Geraldo Pereira teve dificuldade para gravar seus 32 registros como cantor, sendo talvez o referido disco, seu maior "sucesso" nessa área. Victor já era autor reconhecido na época da gravação de "Falso Patriota" e não tinha interesse nenhum em gravar com um cantor de pouca projeção, a não ser o prazer de ouvir seu samba na voz de um artista que ele, sensível como Geraldo, percebia ser um mestre. Talvez Pereira tenha tido mais interesse nessa gravação do que Victor, justamente porque, nessa época queria se firmar como cantor, e o reconhecimento de um compositor respeitado como Simon emprestava respeitabilidade ao seu disco. Logicamente Geraldo não precisava nada disso, como se pode constatar ouvindo, no lado "B", o brilhante samba "Cabritada Mal Sucedida" talvez um dos seus sambas mais perfeitos; mas dizer que Victor Simon não seria capaz de compor "Falso Patriota" é totalmente equivocado, e, repita-se, injusto. No samba – talvez uma resposta a eventuais críticos de sua ligação com Bob Nelson – Victor enaltece as coisas e valores brasileiros, criticando os que abdicam dos produtos nacionais em detrimento do estrangeiro. Se em "O Boi Barnabé" Simon praticava canibalismo cultural, em "Falso Patriota" ele beirava a xenofobia, talvez reflexo das idéias marxistas que desde essa época passara a defender com paixão. Não bastasse tudo isso, não se pode menosprezar a participação na autoria de David Raw, parceiro constante de Victor Simon e também um compositor de talento como atesta o samba (em parceria com Jucata) "Vida Dura", sucesso na voz de Caco Velho, recentemente regravado por Germano Mathias.

A preocupação social foi sempre uma constante na obra de Victor Simon, ainda que essa não apareça muitas vezes de forma explícita. No samba "Porteira do Brás" (em parceria com Lys Monteiro), gravado por Wilson
Roberto (acompanhado pelo regional de Benedito Lacerda e Raul de Barros no trombone, provavelmente no final da década de 40), ao tratar da derrubada de uma porteira da rede ferroviária que atrapalhava o trânsito no bairro paulistano do Brás, Victor Simon metaforicamente abre os olhos e ouvidos da cidade para os então renegados bairros pobres da zona leste, região marginalizada e esquecida pelos órgãos públicos. Se o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros tentou utilizar a música em seu benefício político (já que fôra ele que, com a construção do Viaduto do Gasômetro, derrubara uma das porteiras – embora somente em 1967 o Brás tenha se livrado definitivamente de seus "entraves"), espertamente Victor Simon inseriu com pioneirismo a "cidade excluída", mencionando bairros renegados em um samba que fez muito sucesso na época e que abriu trincheiras para que Adoniran Barbosa chegasse até as Vila Ré e Esperança. Pouco depois, Victor Simon voltou a tratar de "cidades partidas" (para usar uma expressão muito cara a Zuenir Ventura): em janeiro de 1954 foi lançada a marcha "Vagalume" (em parceria com Fernando Martins) através de duas gravações diferentes, uma de Violeta Cavalcanti e outra dos Anjos do Inferno. Estrondoso sucesso de carnaval, os versos "Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz" escondem por trás do genial espírito irônico (gozador, diria João Nogueira) do carioca (embora Victor fosse fluminense de Macaé, incorporara todo bom-humor da capital) uma crítica social violenta, que não se restringia a cidade do Rio de Janeiro, mas a todas as outras cidades brasileiras: o desprezo dos poderes públicos às necessidades da população. Por trás de monumentos, de praias aclamadas com lirismo, de uma cidade violentamente bela, existia outra, mal-administrada, tomada por problemas, feita de pessoas que moravam no asfalto e nos morros, vistas tantas vezes apenas como parte de uma paisagem exótica. Naquele momento, Simon e Fernando Martins não diziam isso com todas as letras, mas hoje a profecia de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro parece querer se cumprir e o morro ameaça descer sem que seja carnaval para receber aquilo que sempre lhe foi negado. Depois de carnavalizar o caubói americano, defender sincopadamente o produto brasileiro, abrir as portas da cidade para a zona leste e seus moradores entrarem na música brasileira incomodando a elite paulistana e denunciar risonhamente o descaso do governo com a população, Victor – não antes de alcançar sucesso com o samba "Bom Dia, Café" na voz de Roberto Luna em 1958 – resolveu se embrenhar por China, Rússia, América Latina e acabou conhecendo "Che" Guevara, declarado fã do "bolero-mambo" de Simon (vertido para várias línguas), "O Vagabundo", "Que importa saber quem sou/Nem de onde venho/Nem pra onde vou/O que eu quero são os teus lindos olhos, morena/Tão cheios de amor/O sol brilha no infinito/E aquece o mundo aflito/Que importa saber quem sou/Nem de onde venho/Nem pra onde vou/Eu só quero é o teu amor/Que me dá a vida/Que me dá calor/Tu me condenas por ser vagabundo/E meu destino é viver ao léu/Pois vagabundo é o próprio mundo/Que vai girando no azul do céu".

E o mundo vagabundo foi estraçalhando Victor Simon. O autoritarismo brasileiro das décadas de 60, 70 e início da de 80 foi pouco a pouco sufocando seus sambas, sua marchas, suas idéias de igualdade e sua vida. A crença em regimes alternativos que pudessem salvar o homem que caminhava na rua acabou se transformando apenas na crença naquele homem. E nada mais. Perto do fim, talvez continuasse compondo em nome dessa fé, mas suas músicas há tempos não ganhavam vida e muitas morreram junto com ele. Amigos como Roberto Lapiccirella e Osvaldinho da Cuíca ainda conseguiram que Victor Simon, com mais de 80 anos, se apresentasse lembrando suas histórias. E nessas horas ele se desgrudava um pouco do sufoco a que fora condenado para cantar em paz.

Não se pode negar ao artista o direito de cometer erros. Victor Simon deve ter cometido os seus e sua vida terminou de maneira quase miserável. Mas os erros não se comparam à sua obra, às suas idéias, ao seu amor pelo mundo. E ele não merecia morrer da forma que tanto lutou para que o homem não vivesse. Uma segunda-feira, 16 de maio de 2005, encontrou o boêmio, compositor e sonhador Victor Simon morto, aos 88 anos. E primeiro de agosto estará logo ali, esperando pelos 89 que nunca virão.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

A César o que é de César


Quem não é advogado dificilmente pode saber que existe na Ordem que fiscaliza e normatiza a profissão uma espécie de "comissão de desagravos", encarregada de julgar casos onde advogados no exercício de suas prerrogativas profissionais previstas em lei são desrespeitados por juízes, promotores, delegados, autoridades em geral. Se o pedido de desagravo é julgado procedente, acontece uma solenidade na qual o violador é espinafrado publicamente e a categoria, simbolicamente, presta sua solidariedade e apoio ao desacatado.

Foi exatamente essa a dimensão da cerimônia que presenciamos eu e meus bons amigos Augusto Diniz e Capitão Léo Gola, num Bar do Giba lotado e atônito. Meu bom irmão Eduardo Goldenberg, de passagem por São Paulo, foi nos encontrar para matar saudades e entornar umas. Ao chegar ao bar, seus olhos não eram os de sempre. No sorrizinho mal contido, canto de boca, residia uma satisfação íntima cujo motivo eu não podia adivinhar. Antes de me cumprimentar, foi mandando:

- Irmão, eis que o dia é chegado!

Não consegui de imediato perscrutar a profundidade da frase escatológica. Tentei, mas o homem só dizia, abraçado na pasta de trabalho como um menino à bola nova ganhada de Natal:

- Precisei viver pra ver esse dia. E você tinha que estar comigo.

Edu seguiu na bebedeira algo misterioso e mais taciturno do que de hábito. De vez em quando seus olhos rebrilhavam e deixava escapar entre muxoxos:

- Vamos vingá-lo...

- Não perdeu por esperar...

- Finalmente desentalaremos...

E por aí seguia. E o homem agarrado na tal da pasta. Uma certa hora, mais ou menos entre a quarta e quinta rodada de Buchannan's que entremeavam as Brahmas semi-congeladas, abre a pasta, tira dela um velho LP (os mais jovens podem ir ao dicionário ou ao Google, que eu não tenho saco de explicar) e se levanta em tom solene, mãos ao alto segurando o disco acima da cabeça, autêntico Carlos Alberto com sua Julles Rimet particular:

- Senhores e senhoras, paguei por isso que vocês vêem a exata medida da obra e do caráter desse pulha! Um mísero real num sebo fedorento da Boca do Lixo é o que ele vale!

Incontinenti, possuído por uma luminosidade transcendentental, fumegando pelos olhos, meu bom irmão Edu arrebenta o disco sobre a coxa, que se espatifa em estilhaços. Os presentes se levantam. Eu, a essa altura já entendendo perfeitamente o ritual, imediatamente ateio fogo à capa que flameja como uma sarsa no deserto. Garçonetes em polvorosa, o povo da cozinha saindo pra assistir a imolação. Capitão já sapateava sobre os destroços espalhados pelo chão e Augusto golpeava virulentamente a foto do encarte com uma tesoura cega, enquanto a patuléia urrava em delírio:

- Biltre! Patife! Safado!

Súbito, alguém se levantou de uma mesa do fundo, arrancou a foto do Palocci do jornal e a esmigalhou freneticamente, ao que outro gritava: "Pisa no Lula, pisa no Lula". Não tenho bem certeza, mas parece que alguém chegou a gritar: "o Severino é meu!" E foi um tal de tacar fogo em foto, pisotear aliança, arrancar uniforme, que o bar foi tomado de um espírito libertário de catarse coletiva. Edu, lágrimas de ira escorrendo pelo rosto, grunhia entre os dentes semicerrados "por você, Aldir, por você...", enquanto destroçava os últimos pedaços. E foram aplausos, apupos, uivos coletivos quando encerrávamos a cerimônia, abraçados, chorando, sensação reconfortante do dever cumprido.

A vingança, amigos, é um prato frio comido pela História. E não custa mais que um mísero real.

[para Aldir Blanc]

terça-feira, 19 de abril de 2005

Exportação Brasileira

Nilson Chaves e Joãozinho Gomes


Um índio da nossa tribo
Arriscou entrar no mato
Foi caçar alguma coisa
Pra matar a sua fome
E a companhia estrangeira
Avistando o movimento
Apagou sua memória
Lhe caçou com um tiro só

Só deram conta que o bicho
Não era onça nem lontra
Quando uma lady inglesa
Se queixou da pele estranha

Depois de muito cochicho
E muito disse me disse
Notaram que o tal casaco
Gelava o corpo da dama

Um índio da nossa tribo
Que fareja longe um ardil
Descuidou-se na caçada
Virou casaco de frio

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Sergipe


Lá pela altura dos meus dezesseis anos, já era dono de uma bagagem bem considerável no que se referia às coisas da música popular brasilieira e relativamente iniciado no ambiente boêmio-musical quando meu pai, percebendo um certo talento meu para a coisa, apresentou-me a um velho boteco do centro de São Paulo, bem ali na zona das boates, na Rua Santa Isabel. E no velho Pena D'Ouro (que todo o mundo só chamava de "Pena Dourada", nunca entendi bem por quê) quem capitaneava a função, literalmente de segunda a segunda, era um maravilhoso setecordista e cantor, amigo de papai havia bem umas duas décadas, a quem ele chamava "irmão branco".

Músico autodidata, compensava com paixão e dedicação sacerdotais o que pudesse lhe faltar da teoria ou da técnica, assim como a voz rouca, quase chorosa, curtida no sereno e na cachaça, sobrava no sentimento o que claudicasse na afinação. Figuraça conhecidíssima nos círculos da boemia musical, o velho Sergipe comandava aquele furdunço diuturnamente freqüentado por sambistas (salve Jorge Costa!), músicos, jogadores de futebol (apareciam com freqüência o velho Dorval, o Rubens Feijão e o Getúlio "Gegê da cara grande", lateral-direito do São Paulo), policiais, mulheres da noite, todos na estrita desincumbência desse ônus que pesa sobre todo aquele contaminado pelo vírus incurável da boemia. Até porque o velho França, ajudado pela D. Marlene, proprietários do local, faziam questão de garantir o "ambiente de família".

E assim o era, e não precisa dizer que fiz carreira por lá. Sergipe, impressionado com o meu domínio sobre todo aquele baú de velhas serestas empoeiradas, de onde a cada semana eu tirava uma raridade pra seu deleite, adotou aquele menino abusado e curioso como discípulo, afilhado e companheiro. "É uma criança..." derramava-se admirado, debulhando baixarias em seu surradíssimo sete cordas, enquanto eu cantava um samba da década de 30, do auge dos meus dezoito anos. Papai ausente, "tio preto" ensinou-me muito, mas muito mesmo, sobre a noite, a boemia, a música, a vida enfim, nos papos intermináveis à espera do amanhecer, pra eu voltar pras Perdizes e ele lá pro Camargo Velho. Tinha um coração maior que o mundo, o negrão, pai de uns onze filhos com umas seis ou sete mulheres diferentes. E como bebia, meu Deus... Com ele corri os butecos todos, conheci os músicos, as putas e os leões de chácara da boca-do-luxo, virei o princepezinho do Pena Dourada, protegido dos graçons e das cafetinas. Com ele comecei, de verdade, a cantar e a beber.

A inexorável decadência do centro da cidade de São Paulo foi-se consumando absolutamente na virada da década de 80 para 90, no que foi acompanhado pelo bar. Clientes minguando, a boemia mudando de endereço (pra onde exatamente, não sei até hoje...), o bom mocismo politicamente correto entrando em moda, inflamando o animus reclamandi dos vizinhos. Sintonizado visceralmente com tudo aquilo, o velho Sergipe também foi acabando. Diabético, hipertenso e com pronunciados sintomas de falência hepática, foi-se afastando progressivamente das noites no comando da função, o que acentuou a perda do charme do lugar e, conseqüentemente, do interesse dos clientes. Agüentaram aos trancos e barrancos até os idos de 1992, mais ou menos. Depois, o bar ainda virou uma espécie de lanchonete, ainda sob o comando dos mesmos donos, onde vez por outra eu ainda encontrava o velho, ou pelo menos sabia notícias dele.

Foi assim que em 1998, no meu aniversário, vi-o pela última vez. Localizei-o, convidei para uma noitada em memória dos velhos tempos e ele aceitou, mesmo bem doente, não podendo beber nem guaraná diet. Chamei também papai, que veio de Belo Horizonte, sem que nenhum dos dois soubesse da presença do outro. Foi assim que, de surpresa, reuni os "irmãos" pela última vez, regados a muita emoção, lembranças e histórias que desaguaram num porre homérico e coletivo do qual nem o meu velho preto escapou.

Depois disso a Marlene morreu, o França voltou pro Ceará conforme prometia há séculos e o bar virou um restaurante por quilo, desses medonhos que funcionam só de dia. Estive lá há uns seis meses, ninguém jamais ouviu falar de Pena Dourada. Perdi o velho Sergipe de vista até a semana passada, quando soube que o velho malandro Kazinho, de quem falou recentemente neste espaço meu irmãozinho Caio Silveira Ramos, também mora há muitos anos lá pras bandas do Camargo Velho. Foi através dele que eu soube, anteontem, que meu tio preto dormiu pra sempre há uns três anos.

Fica aqui, pois, esta saudosa e prosaica elegia boêmia em memória dessa figura humana maravilhosa, grande músico e grande coração, meu mestre nesse ofício indeclinável da noite, da música e da cachaça. Meu companheiro, meu amigo. Meu querido Tio Preto.

quarta-feira, 30 de março de 2005

Descamisados


Símbolo máximo da paixão clubística, muito mais que o hino ou a bandeira, ela encarna, metonímea perfeita, a entidade mítica e gigantesca do time de futebol: vestir a camisa; honrar a camisa; o jogador sentiu o peso da camisa; faltou camisa para aquele time. Manto sagrado, encerra em si, além das cores e distintivo de uma nação, a galeria de conquistas, recentes e remotas, nas formas de bravos escudos de guerra ou de constelação de estrelas fulgurantes.

Veja-se o apego quase infantil do torcedor à camisa de seu clube. Uns preferem os últimos modelos, perfilando uniformizados em redor de seus heróis, ou desafiando, terras afora, o infortúnio dos que não foram chamados a fazer parte da casta escolhida. Outros, os panos surrados, sudários purificados no sangue de muitas batalhas vividas, relíquias dos espíritos dos antigos guerreiros.

Não estranhe, amigo leitor. Sei que a linguagem está meio fora de moda. É que as expressões que hoje recheiam as colunas, artigos e reportagens de nossas sessões esportivas são bem diferentes: em vez de camisa, é mais fácil deparar “lay-out”; no lugar de espírito, “marketing”; para guerreiros, preferem “profissionais”; e vamos por aí.

Na era do futebol-negócio, a paixão e a reverência às tradições parecem ter de sucumbir à lógica do capital. Daí o descaso que vimos assistindo nos últimos anos dos times de futebol no Brasil com seus uniformes, muito especialmente após a admissão da estampa das marcas publicitárias nas camisas. Certa vez puseram um amarelo-gasolina na sagrada camisa verde do Palmeiras, que depois ficou verde-clara, ganhou listras, voltou para o verde-escuro, perdeu as listras... A do Corinthians, recentemente recebeu tintas vermelhas e amarelas, sem contar o remendo com que tiveram de se apresentar em plena final de brasileiro, em virtude de uma troca de patrocínio em cima da hora ( já falam, até, em dois patrocinadores na camisa ). Já a saga de derrotas do São Paulo no último Brasileirão foi, por muitos torcedores, atribuída a uma maldição verde salpicada na tradicionalíssima camisa tricolor.

O que falar dos calções, então? Uma ridícula determinação - ao que parece, da FIFA - tornou os últimos campeonatos verdadeiros desfiles de aberrações estilísticas. O Corinthians todo de branco, parecia o Santos. O Santos, de calção preto, parecia o Corinthians, tanto que lhe meteram listras, quadriculados e até estrelas!

Daí que desse insosso e tumultuado Rio - São Paulo 99, sobrou-me a gostosa sensação de ver de volta, intactas, as belíssimas camisas de Vasco, Fluminense e Botafogo, pelo menos. Mesmo sabido que nunca por qualquer consciência cultural, mas por absoluta falta de opção. O certo é que a aquela Estrela, livre das más companhias, desfilando garbosa sua solidão reconquistada, fez-me lembrar e sonhar com um tempo em que profissionais eram, simplesmente, Manés.


(março de 1999)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

Mário de Andrade

(09/10/1893 - 25/02/1945)


Completam-se hoje exatos 60 anos que o Brasil perdeu um dos espíritos que mais o compreendeu, sentiu, amou e vivenciou. O poeta, escritor, musicólogo e historiador paulista, sem dúvida um dos pilares fundamentais sobre os quais se ergueu talvez o mais precioso legado do modernismo entre nós: a brasilidade enquanto idéia, conceito, ethos.

Não tenho efetivamente como aqui tecer o retrato desse intelectual, tão poderoso em seu instrumental de crítica, análise e construção poética, quanto apaixonado pelos objetos sobre os quais se debruou. À sua sepultura, mais do que a de qualquer um, caberia o epitáfio que à minha desde há muito predestinei: "puta que pariu, morreu de amor pelo Brasil".

Em lembrança e homenagem, mas sobretudo por nós mesmos, deixo aqui uma de suas mais conhecidas e significativas peças poéticas, expressão maior de tudo o que sinto pelo meu país e que, há tempos, recito regularmente como uma oração:



O poeta come amendoim

A Carlos Drummond de Andrade


Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.

Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...

A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...

Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram na sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...

Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Ser o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...

Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido
Tenho desejos de gemer e de morrer.

Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...

Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas, amores e danas.
Brasil que eu sou porque a minha expresso muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Cinzas

Então da poesia fez-se a vida
explodida nas possibilidades reinventadas
E a Incerteza imperou no fluido
Tríduo em que tudo brota
de outra razão

E então do dado fez-se o nada
no Interstício todo prenhe de volúpias
de vir

O horror deste dia não mora no silêncio:
o coração ainda banzeia de melodias rodopiadas;
os confetes despedaçam-se aos poucos da alma
E mesmo guardada a fantasia exalará auspícios

A tristeza não cinzenta de saudade:
a Colombina ainda esparge seu perfumoso delírio
E nunca houve um tão Pierrô
Engolido pela lágrima única e própria

As náuseas quartas habitam a realidade
furiosa de certezas.
Vomitam-se reticências sobre as cinzas
de um possível que morre
Mesmo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005

Lembra-te

Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem te reverteris. (Gen 3,19)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

Senhoras, senhores.

Enfim: Carnaval! São chegados os dias da suspensão de todas as reticências, de todos os senões. O Carnaval é o palco da grande dialética essencial.

O que parece festa profana é na realidade a maior celebração do perdão, o único sentimento verdadeiramente religioso. Do perdão de nossa pequenez, de nosso acovardamento diante da vida.

O que insinua irrealidade, contrariamente, é um pleno despir-se das fantasias e personagens tristes que criamos pra sobreviver no oceano da insignificância total. Nas máscaras mostramos nossa face real. Só no descompromisso pode-se viver a vida a sério.

Hoje eu não quero sofrer. Até quarta-feira!

Canta, Dircinha:


O primeiro clarim

(Klecius Caldas e Rutinaldo)


Hoje eu não quero sofrer
Hoje eu não quero chorar
Deixei a tristeza lá fora
Mandei a saudade esperar
Lá, rá, rá, rá,
Hoje eu não quero sofrer
Quem quiser que sofra em meu lugar

Quero me afogar em serpentinas
Quando ouvir o primeiro clarim tocar
Quero ver milhões de colombinas
A cantar "trá, lá, lá, lá, lá, lá"
Quero me perder de mão em mão
Quero ser ninguém na multidão...
Lá, rá, rá, rá

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Os carnavais de antigamente

Rubem Braga


Para responder, há tempos, a uma enquete de jornal, fiz um esforço para apurar as minhas primeiras lembranças carnavalescas. Vi-me a mim mesmo e a meu irmão, muito pequenos mas de calças compridas, uma faixa vermelha na cintura, com bigodes e costeletas pintados a rolha queimada... De pouco mais me lembro, mas creio que éramos nada menos que mexicanos. Também tenho uma vaga noção de que cheguei a apache, mas não estou muito seguro.

O que me encantava, e até hoje me seduz no carnaval, era a transfiguração das pessoas. As pessoas grandes, que eu via todo dia em Cachoeiro, sérias, em seus trajes vulgares, de repente viravam piratas, cowboys, esqueletos, cossacos, índios, sultões, mosqueteiros, palhaços, almirantes. De um certo ponto de vista, parece que eu "acreditava" um pouco nas fantasias, isto é, passava a associar aquelas pessoas às fantasias que tinham usado no carnaval, como se essas fantasias fossem a sua verdade secreta. O disfarce era uma revelação, eis o que eu sentia inconscientemente.

* * *

O cheiro dos lança-perfumes, os confetes, as serpentinas, a música, tudo era transfiguração. Para o adolescente tímido, as mocinhas deixavam de ser intocáveis, ao mesmo tempo que ficavam muito mais maravilhosas - ciganas, piratas de coxas nuas, odaliscas, bailarinas, pierretes.

Só no carnaval eu tinha coragem de dançar; ele a grande festa dos tímidos. Moças que passavam por mim na rua apenas murmurando um "bom dia", com um rápido olhar - que milagre! - no carnaval sorriam, cantavam para mim, olhos nos olhos, se deliciavam com o jato do meu lança-perfume, deixava que eu enchesse seus cabelos de confetes, que as prendesse eternamente com voltas de serpentina - e havia momentos de quase êxtase no tumulto das danças.

* * *

Havia uma instituição espantosa para nossa cidade pudica: era, digamos assim, o carro das mulheres. Naturalmente um grande carro aberto cheio de mulheres fantasiadas, a jogar serpentinas, empunhando bisnagas de cem gramas, pintadíssimas, alegríssimas, passeando escandalosamente no meio da gente e dos carros familiares, entre blocos de mocinhas. E todo ano havia um rapazinho que se embriagava e saía no carro das mulheres. Ia ali abraçado a duas gordas, empunhando uma garrafa de cerveja, enfrentando a censura das famílias, mostrando que já era homem, que era farrista, que era um perdido.

O moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia: rapaziadas...


(in A Traição das elegantes, Rio de Janeiro: Record, 1982 - p. 179)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Ressurreição dos antigos carnavais

Lamartine Babo


Os clarins estão
Relembrando os nossos velhos carnavais
Arlequins sensuais
Amam colombinas de pompons grenás
Passsam na visão dos meus sonhos
Os pierôs tão tristonhos
A tocar bandolins entre ais
Implorando em vão
A ressureição desses carnavais

Vem, vem, vem, Colombina, sonhar
Vem, vem, que Pierrô vive a chorar
Com ansiedade
Triste Pierrô
Se transformou em saudade...

Vem, vem, vem, Arlequim, que a tua sina
É adorar a Colombina
Dos carnavais que não voltam mais

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

Merry Christmas, Seu Nozinho!

Nei Lopes


- Natal bom era naquele tempo, quando a gente comia do bom e bebia do melhor ainda! Não que durante o ano a gente não bebesse nem comesse. Mas Natal era dia de juntar pé com cabeça, morrer todo mundo abraçado que nem filhote de gambá.

- Ih! Já está Seu Nozinho, de novo naquele papo careca de "meu tempo", naquele caô de bonde Irajá, lotação abaixadinho. Pô, coroa, já era! O esquema agora é outro, tio!

- Naquele tempo, aqui no morro, a gente amarrava cachorro com lingüiça mas tinha respeito. E Natal tinha pastorinha, folia de reis, castanha, rabanada. O vinho era Telefone. Mas a gente tinha dinheiro pra comprar um, dois, três garrafões, daqueles com palhinha..

- Ninguém está mais nessa, não, maluco! O lance hoje é progresso, é pra frente, é vamo que vamo! O que a moçada quer do Natal é grana do bolso da bermuda, um bom "naique" no pé, um namorado ou uma namorada pra ficar... Vaz Lobo hoje é uma cidade. E Natal é uma festa como outra qualquer: negócio de "xópin", mesmo. A diferença é que tem o especial do Roberto Carlos.

- Esse negócio de Papai Noel e árvore de Natal, veio depois, muito depois. O que tinha era presépio, com as figurinhas lá, os santos, os reis magos, os bichos... Era cada um mais bonito que o outro. E quem podia, até fazia com movimento, as figuras mexendo a cabeça. Às vezes tinha até água caindo, fazendo cascata.

- "Presépio"! Nome besta! Lembra "presepada". E Seu Nozinho quando toma uns negócios fica mesmo presepeiro. Presepeiro e cascateiro. Onde já se viu Natal sem árvore nem Papai Noel?

- E digo mais. Lá em casa, onze e meia o Velho sentava na cabeceira da mesa. Aí, é que a gente sentava também, a família toda reunida. A primeira caneca de vinho, que era o sangue de Cristo; a primeira rabanada, que era o pão; e o primeiro bolinho de bacalhau, que era o peixe, isso tudo era dele, que abria os trabalhos. Depois é que a gente caía dentro. Com educação, devagarinho, porque juntar pé com cabeça, mesmo, só depois que o Velho ia dormir. Mas antes de dormir, Ele ficava "alegre". Uma vez por ano. E aí pegava o violão e a gente começava o samba, versando no partido.

- Natal com samba ! Eu, hein!? Coisa de coroa, mesmo! Não dá nem pra pensar no Papai Noel com aquele chapeuzinho de velha-guarda. Tremenda bobeira! E família, maluco ?! Família aqui, sou eu, que sou pai, mãe, avó, tudo ao mesmo tempo...

- Quando veio aqui pra Jaqueira, o Velho quis seguir a tradição lá de Minas. Mas não deu. Lá, como ele dizia, o Natal ia do 25 de dezembro até 6 de janeiro, dia dos Santos Reis. Dia 25 era o aniversário do Menino Jesus; dia 27 se comemorava Nossa Senhora do Rosário; dia 28, São Benedito; e no dia 6 fechava com chave de ouro. Ele contava que era festa de arromba mesmo, nas casas e na rua. Com foguetório, procissão, mastros, bandeiras. E os congos e moçambiques na praça.

- Foguete, aqui a gente sabe que tem utilidade. E é o ano todo. Agora, esse papo de (como é que é?), "congo", "moçambique", parece coisa de macumba. E macumba também é um bagulho da antiga. Aqui no morro, hoje em dia, eu acho que (deixa eu ver) pelo menos uns sessenta por cento do povo é crente. Eu, mesma, recebi Jesus ano passado... Caraca ! Eu era muito doida. Agora, estou numa boa!

- É... era outro Natal!E eu vou nessa! Até mais!

- Hmmm. Seu Nozinho vem vindo pra cá. Não vai falar bobagem pra ele, viu Maicon!? Tem, que respeitar os mais velhos!


***

- Como é que foi o Natal, Marli, tudo bem?

- Foi tudo na paz, Seu Nozinho! A gente ficou aqui orando...

- E você, Maicon? Papai Noel chegou junto?

- (...)

- Que cara emburrada é essa, moleque?

- Ah, Seu Nozinho! Esse menino anda impossível. Queria porque queria um "mini-gueime" ou um "páuer-renger"..

- ???

- Eu disse que não ia dar. Depois, cismou com uma pistola. Eu fiz pé firme e ele armou o maior banzé aqui, dizendo que tinha que ganhar pelo menos um revolvinho. Aí, eu falei pra ele que Papai Noel não gosta de menino teimoso.

- Isso mesmo. Papai Noel só gosta de menino sangue bom.

- E sabe o que esse menino, que nem sabe falar direito, me respondeu, seu Nozinho?

- O quê ?

- "Quero que Papai Noel se f...!" . Vê se pode?

- Deixa isso pra lá, minha filha. O Natal já não é mesmo mais aquele!


quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

Papai Noel de Camiseta

Ivan Lins e Celso Viáfora


Papai Noel irá chegar de camiseta
Metido num chinelo e de bermuda jeans
Tocando um agogô em vez de uma sineta
Cantando do xará o "Palpite Infeliz"
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz

Estenderá uma toalha na sarjeta
Em qualquer praça de subúrbio do país
Trará cachaça, arroz, feijão e a malagueta
Doce de leite, bala de goma e quindins
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz

E surgirão blocos mirins
Em suas camas de jornal e drag queens
Os solitários da paixão com um tamborim
Alguém trará um violão, um bandolim
E a multidão vai sambar na batida do sino

Aí no morro nascerá mais um menino
E no primeiro sol virão os bem-te-vis
Num dia de Natal a gente pode ser feliz!




quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Lapa


Nestes tempos em que a Nação Brasileira clama por luz e verdade sobre as trevas de sua própria vergonha, exigindo a abertura de todos os arquivos sobre as operações "anti-subversivas" do governo militar, há que se lembrar o 16 de dezembro.

Há exatos vinte e oito anos um rio de sangue e opróbrio inundou a Lapa paulistana, onde moro. A ditadura brasileira cometeria sua última grande covardia, emboscando de maneira vergonhosa, na casa da Rua Pio XI, os dirigentes do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, assassinando os camaradas Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, sobreviventes da Guerrilha do Araguaia.

A repressão à Guerrilha foi uma das mais sangrentas e implacáveis ações estatais de combate a movimentos de sublevação, talvez somente comparáveis, em termos de rancor e violência, à derrota dos Cabanos no Pará e ao massacre de Canudos. A ação pérfida da Rua Pio XI revelou a obstinação do governo brasileiro em exterminar todos os germes e vestígios da mais significativa ação armada de resistência ao regime instaurado manu militari em 1964.

A verdade sobre o Araguaia não pode mais tardar.

Mesmo que o último guerrilheiro na selva hoje caia
Brotará eternamente do chão do Araguaia
A esperança de um povo a traçar seu destino


Viva a liberdade!
Viva o socialismo!
Vivam Ângelo Arroyo e Pedro Pomar
Heróis do povo brasileiro!


quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Os dias que vão


E me perguntas se os dias estão realmente cada vez mais belos, ou seriam só os teus olhos. Mas sou a última pessoa a quem poderias indagá-lo, porque coisas estranhas vêm-me sobrevindo e há causas objetivas para se desconfiar do juízo. E, no fundo, eu torço mesmo para que os dias estejam, na verdade, frios e nublados - como certas almas tristes - e que só eu e tu estejamos a percebê-los assim cálidos e inebriantes. Porque aí saberia que não estou só.

Porque os teus olhos são mesmo a mais linda aurora raiada em sete verões, e vereis os especialistas consultados afirmarem que, sim, os dias têm a estranha ânsia de refletir e rebrilhar acima de toda concorrência. Porque são esses os dias que me estão fazendo comer menos e dormir menos e beber mais. E um beber tão isento de mágoa e desengano, como há muito não se registra.

Porque dias assim hão de ter o condão de nos fazer trabalhar e beber e dançar e ouvir música e ir ao cinema. Ir ao cinema... Nesses dias não há lugar para a sombra. "O que é o amor? senão o meu desejo iluminado"... Porque nenhum sol pode encandear o vácuo, o espaço puro sem o que lhe reflita o brilho. Porque hoje eu sou a lua nova na carona da luz irradiada desses dias verdes.

Porque a paz roubada não será o caminho para o lamento, o destempero e a prostração. Porque o amor não é um vazio a ser preenchido, não é a ausência da metade. É a plenitude do inteiro a precipitar-se na sua negação e, assim só, engrandecer-se. "Meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo"... Eu só posso amar na afirmação de mim, na multiplicação das minhas possibilidades, na expansão do meu ser. Porque o amor que é carência, necessidade e dependência é buraco negro a tragar a luz, a transformá-la na matéria escura do nosso interior.

E assim me faço mais nu, mais externo, mais homem. E tu és a estrela escancarada se derramando. Que venha todo o calor dos teus dias e dos teus olhos sobre a minha cabeça. E que o reflexo se faça encontro, o encontro se faça desejo e o desejo se faça volúpia. Porque todas as ânsias far-se-ão vida. Porque todas as angústias hão de nos reafirmar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Epistemologia de buteco


Meus amigos, largar de beber não é o pior. O impossível, mesmo, é largar o butiquim.

Porque o buteco é o templo da nossa religião cujo fim, como nas demais, é construir uma outra vida que não a nossa. Ali residem os oráculos magistrais, as tiradas únicas, a sabedoria curta e grossa, espontânea e maliciosa do descotidiano.

O bar é o laboratório da nossa irrealidade, onde podemos enredar outras histórias, viver outros papéis. Há os fixos e pré-definidos: o dono-do-bar e o garçom (que ao contrário do que muita gente acredita, não são profissões: são funções litúrgicas), o bebum, o humorista, o poeta, o galã, a mais-gostosa. E há os rotativos, que podem ser assumidos, conforme a necessidade e ocasião, por qualquer um: o técnico de futebol, o cientista político, o psicólogo, o sacerdote, o jornalista, o crítico de cinema, o anatomista.

Urge construir-se uma adequada epistemologia do butiquim. O que se discute no bar é produto do descompromisso das relações que nele se tecem. Descompromisso com o porta-afora, em última análise. Porque não importa se o filme é bom, não importa se o escrete nacional está jogando mal ou se o Rodrigues, que estava saindo com a Claudinha, é ou não um canalha. A correspondência com qualquer dado da "realidade" do que se diz ou do que se faz dentro de um bar importa tanto para os objetivos da cerimônia que ali se celebra quanto, para o espetáculo, a dor de barriga do marceneiro que construiu o cenário.

Há outras formas de viver-se realidades alternativas, é certo. Há as brincadeiras de criança, os livros e o cinema. As primeiras, não nos são mais dadas - ao menos da forma necessária a que se produza o efeito a que aqui se alude. Os últimos terão sobre as nossas queridas espeluncas a vantagem de normalmente não legarem náuseas e dores de cabeça no dia seguinte. Em compensação, o final da trama não depende do nosso desempenho.

E haveria também – ai! - o amor. Nele outrossim transportamo-nos para um universo que não o nosso, para um entendimento outro, para ver a vida atrás de outros olhos. Mudamo-nos do conforto das nossas certezas para o néscio das profundidades alheias. E ali da mesma forma importarão bem pouco as objetividades para as quais os amigos insistirão em alertar. A desvantagem, porém, é evidente: a ressaca também é certa e o fim da história depende ainda menos de nós.


terça-feira, 7 de dezembro de 2004

O resto imortal

Paulo Leminski


Queria não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre o além sou todo dúvida. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.

Queria deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de mim, sobrevivendo a mim.

Durante muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.

Um dia, intui. Essa máquina era possível.

Tinha que ser um livro.

Tinha que ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um texto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse.

Sobretudo, um texto que sentisse como eu.

Ao partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na superfície de um planeta deserto.

Claro que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um texto é.

A impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas manhas e marés.

Um texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Ele mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.

Tudo o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos, mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.

Era óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na melhor das hipóteses.

Uma questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e dissimulação.

Evidentemente que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzí-lo em sua essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo harmonioso, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.

Não sei mais de esse texto virá. Ou se já veio.

Tudo o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.


(in Gozo fabuloso, São Paulo: Editora DBA, 2004)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

À procura de Paula



Dois grandes jornais de São Paulo estamparam, há algum tempo, o desespero de um jovem suíço à procura de seu amor brasileiro. Da chamada em letras garrafais, num anúncio de meia página, emprestei o título para esta crônica, logo após do quê raiava despudorada a dupla verve de seu desconsolo: vira-a apenas duas vezes e perdera o número de telefone que ela lhe deixara.

Não vos direi que a fugacidade do momento amoroso seja inversamente proporcional à paixão desencadeada. Soaria demasiado velhaco e já estou em idade em que o estoque de reputação não está para desperdícios. Mas afirmarei sim, ó leitora atenta para os deslizes sentimentais do velho cronista, que a brevidade aguça a impressão deixada na alma pelo objeto do nosso desejo: se a marca foi intensa, sua recordação sempre suscitará um frêmito lamurioso que só faz derramar mais e mais deleites sobre a imagem do amado, corrigindo-lhe pouco a pouco as imperfeições do traço, acentuando-lhe a musicalidade da voz, acetinando a lembrança do toque.

Se, ao contrário, o primeiro impacto foi pífio, o contato efêmero obstará ao tempo seu labor paciente de educador do gosto, da paciência e da tolerância. E como numa antiga fotografia de uma tia-avó que só vimos uma vez, quando criança, a imagem irá se desfazendo, devagar, em meio a uma nostalgia vaga, despejando no coração gotinhas diárias de indiferença, até que se torne candidata a encher o saco de lixo da próxima arrumação das gavetas.

Mas não fosse nada disso, meus caros, a perda do número do telefone é quem dá o inapelável toque à nossa história. Diferente do samba famoso, onde a meia e o sapato ocupam resignadamente o lugar do retrato perdido, o papelzinho desaparecido encheu-lhe o peito de uma obstinação e de uma esperança.

E essa obstinação é que o fez trabalhar durante quatro anos, numa Suíça gelada e distante, a cada dia, em metódica aglutinação dos tostões, em busca da pequena fortuna necessária para apregoar aos quatro ventos a sua paixão. A cada dia se levantava e trabalhava movido pela certeza de que não podia fazer outra coisa, senão ficaria louco. Atormentava-o especialmente, muito mais do que a possibilidade de que estivesse casada ou mesmo morta, a imagem da moça julgando-se desprezada, ante o seu silêncio. Logo ela, a encarnação de todos os seus sonhos. A necessidade de dizer-lhe, dizer ao mundo que fora vítima indefesa do capricho do acaso, impelia-o acima de tudo.

Não sei se Paula apareceu, ou se aparecerá algum dia. O peito desanuviado pelo grito liberto certamente suportará melhor a angústia de sua ausência. E para sempre lhe restará a esperança de que sua amada ouça, no sussurro da última brisa, ou na voz do derradeiro arauto, que Ele a espera.

(março de 1999)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Dia do samba

Há extamente um ano, tive a honra de participar de sessão solene da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo em homenagem ao Dia Nacional do Samba (02 de dezembro), por iniciativa do Deputado Estadual Nivaldo Santana, presidente do PCdoB paulista.

Na ocasião, fui instado a lembrar os 25 anos da morte do grande compositor portelense Candeia. E o fiz nos termos que ora transcrevo:


Exmo. Sr. Presidente:

Hoje é um dia singular na história do samba. Ele já havia penetrado no Municipal, como cantou Cartola. Ele já é cantado na Universidade, como preconizou mestre Candeia. E hoje ele chega à mais importante casa da democracia no Estado de São Paulo. Hoje é Dia de Graça!

Esta solenidade enlaça três datas da maior importância para nossa cultura popular. O Dia Nacional do Samba, que se comemora amanhã. O dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro. E, o dia 16 de novembro, quando se completaram 25 anos da morte de um dos maiores baluartes da história da música popular brasileira, Antônio Candeia Filho.

Essas datas se entrelaçam de maneira indissociável. Porque falar de consciência negra é falar de Candeia. Falar de Candeia é falar de samba. Portanto, falar de samba é falar de consciência negra. E falar na sua dimensão mais profunda, não só na de consciência do direito à igualdade de tratamento e oportunidades para o povo afro-descendente, mas sobretudo na de consciência do papel fundamental, basilar, da cultura do povo negro na formação do modo genuinamente brasileiro de pensar, agir, cantar, dançar, relacionar-se, ver e entender o mundo. Falar de consciência negra, então, é falar de consciência brasileira!

Candeia foi o emblema desta consciência ao mesmo tempo histórica e profundamente engajada. O dia da consciência negra é celebrado em 20 de novembro em memória da morte do herói Zumbi dos Palmares. Mas o dia 16, dia da morte de Candeia, também é dia da consciência negra, da consciência brasileira. Quase 300 anos separam os dois eventos. Zumbi foi o símbolo vivo da resistência a um modo de organização social e a um modelo econômico que estuprou as formas ancestrais de sociabilidade do povo africano, destruindo os laços familiares e de nacionalidade em que se assentam sua cultura e religiosidade. Os quilombos constituíram uma tentativa de reestruturação, em solo brasileiro, de uma identidade violentamente arrasada quando da expatriação dos negros de África. Candeia simboliza a resistência a um modelo econômico e social que não só continua marginalizando a cultura de origem popular, mas apropria-se das formas mais genuínas de sua expressão para submetê-las à lógica viciada do poder e do dinheiro. O grande sambista soube melhor que ninguém denunciar um processo de usurpação dos espaços das escolas de samba por uma elite estranha à cultura do samba, e a imposição da ditadura do luxo, do visual, do “show” televisivo, a oprimir a verdadeira arte de dançar e cantar o samba. Não por outro motivo o espaço em que se organizou essa resistência, fundado por Candeia, recebeu o nome de Grêmio Recreativo de Arte Negra...Quilombo.

"O samba que eu criei tão divino ficou
Agora sei quem sou"

Hoje o samba se afirma, estribado em apoios importantes, como o que se configura nesta seção solene. Mas são muitos ainda os obstáculos a transpor para firmá-lo como forma e espaço privilegiado de afirmação de um modo de viver, pensar e agir diferentes daqueles imposto pelos padrões dominantes, hoje em escala globalizada. Lembrar Candeia-Zumbi é lembrar que o sonho está vivo e que temos a missão de sempre construí-lo.

"A chama não se apagou, nem se apagará
És luz de eterno fulgor, Candeia
O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer Candeia

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

"Não tive tempo de ter medo"





















Há exatos 35 anos, aqui pertinho, na Al. Casa Branca, tombava sob as botas do aparelho repressivo chefiado pelo nefasto delegado fleury (assim mesmo, com letra minúscula) um grande herói do povo brasileiro: Carlos Marighella. Em homenagem à sua memória e a seus ideais de justiça, paz, dignidade e liberdade para o povo brasileiro, transcrevo aqui dois poemas e um trecho de seu famoso Chamanento ao Povo Brasileiro, que, se chocam pela atualidade, avivam-nos a consciência da tarefa de lutarmos pela Nação que queremos.

O Urubu


Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.

Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.

Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça

Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça

(São Paulo, Presídio Especial, 1939)


Rondó da Liberdade


É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

(São Paulo, Presídio Especial, 1939)

Chamamento ao Povo Brasileiro


“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.

Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.

O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.

Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.

Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...”

(dezembro/1968) 

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Sabino



A preguiça é minha marca de descaráter mais evidente. A vontade somente consegue mover-me rumo ao que me inclino por desejo após duríssima batalha com uma ela, atávica e renitente, que me define como um legítimo homo morgans. A preguiça reduz, por exemplo, a minha cultura cinematográfica a 10% de sua capacidade ociosa e a minha freqüência a exposições a níveis abaixo do humanamente tolerável, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Dos teatros de São Paulo, paulatinamente faz esquecer os caminhos. Balé, há décadas. Mesmo na música, que se salva como gênero de primeira necessidade, já pôs os concertos pra escanteio e contigenciou os shows aos níveis de suporte de vida.

Otto Lara Resende dizia que só não era uma besta completa graças à insônia. Meu xará Fernando Toledo agradece aos céus por gostar de ler nos butiquins... Eu tenho bem mais sono do que gostaria e nos bares normalmente me dedico a tarefas menos nobres. Se escapei da mediocridade completa, devo a meu outro xará, o Sabino.

Suas crônicas me despertaram pra valer o gosto pela leitura, juntamente com as de Drummond, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga – que posteriormente viria a ser uma das minhas maiores influências –, reunidas na coleção sugestivamente intitulada “Para Gostar de Ler”. Isso com uns dez ou onze anos. Tornei-me um devorador desses quatro autores, em verso e prosa, em livro e jornal, em crônica e romance. Do Sabino, todos os livros publicados até o fatídico Zélia, capítulo a se pular. Apaixonei-me definiticamente pela crônica, gênero algo marginalizado pelas academias, que sempre me deu a impressão de no Brasil ganhar um status literário definitivo, indiscutível e único. Talvez pela força dos nossos autores, obrigados ao ofício jornalístico diuturno num país que não reconhece e não paga seus grandes artistas. Ou talvez pela peculiaridade do espírito brasileiro, mais que qualquer outro inclinado a essa espécie de baixa-estética que brota da ironia persistente da sobrevivência. Onde mais poderíamos montar um escrete de cronistas que vai de Machado a Cony, passando por Manuel Bandeira? De Lima Barreto a Aldir, passando por Vinícius? De João do Rio a Veríssimo, passando por Antônio Maria?

A existência da opção pela literatura mais ligeira, aliada à preguiça inderrotável e à influência do Braga, fizeram de mim, à sua semelhança, um “mau leitor de romances”. Sabino escapou. O Encontro Marcado li duas vezes inteiras, uma mais ou menos aos dezessete anos, outra lá pelos vinte e sete ou vinte e oito, quando o choque inicial foi tremendamente reforçado pela década entremeada. Espero pra ler aos trinta e sete, como uma espécie de Pequeno Príncipe melancólico e tupiniquim – se me permitem a redundância - de várias gerações. O Grande Mentecapto foi o romance em que mais vezes e mais intensamente ri e chorei, pantomima caricata desse heterônimo da brasilidade que se construiu nas Gerais. E houve ainda oMenino no Espelho.

Mas a sua herança mais marcante veio-me através dos impagáveisGente e Gente II. Por ali cheguei na poesia, em Bandeira, Neruda, Murilo Mendes e Mário de Andrade. Por ali conheci Jayme Ovalle e Vinícius, Helio Pellegrino e Pedro Nava, Sergio Porto e Augusto Frederico Scmidt. E ali, mais do que tudo, me apaixonei por aquela atmosfera artística e intelectual que durante mais de três décadas reuniu no Rio de Janeiro um núcleo tão poderoso de literatos, músicos, artistas plásticos e pensadores, todos amigos, freqüentando as mesmas festas, as mesmas rodas e os mesmos bares, no Vermelinho ou na casa de Aníbal Machado. Coisa que imaginei para sempre perdida, mas que se preserva numa geração que eu tenho podido acompanhar –dádiva suprema! -, de Moacyr Luz, de Paulinho Pinheiro, Jaguar, Luiz Carlos da Vila, Aldir, Fausto Wolf, Sérgio Cabral, Hermínio Bello. E que há de se levar adiante pelos Toledos e os Goldenbergs.

Sabino também, com Rubem e com vovô, ajudou a montar o pioneiro quebra-cabeça de uma geografia carioca imaginária, idílica, com luares sobre as ondas, com faltas d’água e lotações apertadas, marias-fumaças na Central e tardes douradas de outono. Há algumas semanas, passeava eu por uma noite quente de Ipanema, pela General Osório que sempre me remeteu a ti, Fernando, por aquelas ruas “que vão de Copacabana a Ipanema”, Rubem, e passei pelo prédio do velho xará, apontado por Luise. Comentei que ele devia estar velhinho. Agora, desincumbiu-se do seu ônus de encerrar de vez essa festa brasileira, bater a porta e apagar a luz. Acabaram os mineiros, acabaram os modernos. Acabou o “Para Gostar de Ler”. Acabou o Rio de Janeiro que eu montei só no meu coração.

Cumpre-se, finalmente, naquela desolada colina de Botafogo, o epitáfio talhado em vida: “aqui jaz Fernando Sabino: nasceu homem, morreu menino”.