quarta-feira, 30 de março de 2005
Descamisados
Símbolo máximo da paixão clubística, muito mais que o hino ou a bandeira, ela encarna, metonímea perfeita, a entidade mítica e gigantesca do time de futebol: vestir a camisa; honrar a camisa; o jogador sentiu o peso da camisa; faltou camisa para aquele time. Manto sagrado, encerra em si, além das cores e distintivo de uma nação, a galeria de conquistas, recentes e remotas, nas formas de bravos escudos de guerra ou de constelação de estrelas fulgurantes.
Veja-se o apego quase infantil do torcedor à camisa de seu clube. Uns preferem os últimos modelos, perfilando uniformizados em redor de seus heróis, ou desafiando, terras afora, o infortúnio dos que não foram chamados a fazer parte da casta escolhida. Outros, os panos surrados, sudários purificados no sangue de muitas batalhas vividas, relíquias dos espíritos dos antigos guerreiros.
Não estranhe, amigo leitor. Sei que a linguagem está meio fora de moda. É que as expressões que hoje recheiam as colunas, artigos e reportagens de nossas sessões esportivas são bem diferentes: em vez de camisa, é mais fácil deparar “lay-out”; no lugar de espírito, “marketing”; para guerreiros, preferem “profissionais”; e vamos por aí.
Na era do futebol-negócio, a paixão e a reverência às tradições parecem ter de sucumbir à lógica do capital. Daí o descaso que vimos assistindo nos últimos anos dos times de futebol no Brasil com seus uniformes, muito especialmente após a admissão da estampa das marcas publicitárias nas camisas. Certa vez puseram um amarelo-gasolina na sagrada camisa verde do Palmeiras, que depois ficou verde-clara, ganhou listras, voltou para o verde-escuro, perdeu as listras... A do Corinthians, recentemente recebeu tintas vermelhas e amarelas, sem contar o remendo com que tiveram de se apresentar em plena final de brasileiro, em virtude de uma troca de patrocínio em cima da hora ( já falam, até, em dois patrocinadores na camisa ). Já a saga de derrotas do São Paulo no último Brasileirão foi, por muitos torcedores, atribuída a uma maldição verde salpicada na tradicionalíssima camisa tricolor.
O que falar dos calções, então? Uma ridícula determinação - ao que parece, da FIFA - tornou os últimos campeonatos verdadeiros desfiles de aberrações estilísticas. O Corinthians todo de branco, parecia o Santos. O Santos, de calção preto, parecia o Corinthians, tanto que lhe meteram listras, quadriculados e até estrelas!
Daí que desse insosso e tumultuado Rio - São Paulo 99, sobrou-me a gostosa sensação de ver de volta, intactas, as belíssimas camisas de Vasco, Fluminense e Botafogo, pelo menos. Mesmo sabido que nunca por qualquer consciência cultural, mas por absoluta falta de opção. O certo é que a aquela Estrela, livre das más companhias, desfilando garbosa sua solidão reconquistada, fez-me lembrar e sonhar com um tempo em que profissionais eram, simplesmente, Manés.
(março de 1999)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Mário de Andrade
(09/10/1893 - 25/02/1945)
Completam-se hoje exatos 60 anos que o Brasil perdeu um dos espíritos que mais o compreendeu, sentiu, amou e vivenciou. O poeta, escritor, musicólogo e historiador paulista, sem dúvida um dos pilares fundamentais sobre os quais se ergueu talvez o mais precioso legado do modernismo entre nós: a brasilidade enquanto idéia, conceito, ethos.
Não tenho efetivamente como aqui tecer o retrato desse intelectual, tão poderoso em seu instrumental de crítica, análise e construção poética, quanto apaixonado pelos objetos sobre os quais se debruou. À sua sepultura, mais do que a de qualquer um, caberia o epitáfio que à minha desde há muito predestinei: "puta que pariu, morreu de amor pelo Brasil".
Em lembrança e homenagem, mas sobretudo por nós mesmos, deixo aqui uma de suas mais conhecidas e significativas peças poéticas, expressão maior de tudo o que sinto pelo meu país e que, há tempos, recito regularmente como uma oração:
O poeta come amendoim
A Carlos Drummond de Andrade
Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram na sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Ser o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido
Tenho desejos de gemer e de morrer.
Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas, amores e danas.
Brasil que eu sou porque a minha expresso muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
Completam-se hoje exatos 60 anos que o Brasil perdeu um dos espíritos que mais o compreendeu, sentiu, amou e vivenciou. O poeta, escritor, musicólogo e historiador paulista, sem dúvida um dos pilares fundamentais sobre os quais se ergueu talvez o mais precioso legado do modernismo entre nós: a brasilidade enquanto idéia, conceito, ethos.
Não tenho efetivamente como aqui tecer o retrato desse intelectual, tão poderoso em seu instrumental de crítica, análise e construção poética, quanto apaixonado pelos objetos sobre os quais se debruou. À sua sepultura, mais do que a de qualquer um, caberia o epitáfio que à minha desde há muito predestinei: "puta que pariu, morreu de amor pelo Brasil".
Em lembrança e homenagem, mas sobretudo por nós mesmos, deixo aqui uma de suas mais conhecidas e significativas peças poéticas, expressão maior de tudo o que sinto pelo meu país e que, há tempos, recito regularmente como uma oração:
O poeta come amendoim
A Carlos Drummond de Andrade
Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio imenso do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O Imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram na sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padres irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Ser o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejos do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido
Tenho desejos de gemer e de morrer.
Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas, amores e danas.
Brasil que eu sou porque a minha expresso muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005
Cinzas
Então da poesia fez-se a vida
explodida nas possibilidades reinventadas
E a Incerteza imperou no fluido
Tríduo em que tudo brota
de outra razão
E então do dado fez-se o nada
no Interstício todo prenhe de volúpias
de vir
O horror deste dia não mora no silêncio:
o coração ainda banzeia de melodias rodopiadas;
os confetes despedaçam-se aos poucos da alma
E mesmo guardada a fantasia exalará auspícios
A tristeza não cinzenta de saudade:
a Colombina ainda esparge seu perfumoso delírio
E nunca houve um tão Pierrô
Engolido pela lágrima única e própria
As náuseas quartas habitam a realidade
furiosa de certezas.
Vomitam-se reticências sobre as cinzas
de um possível que morre
Mesmo.
explodida nas possibilidades reinventadas
E a Incerteza imperou no fluido
Tríduo em que tudo brota
de outra razão
E então do dado fez-se o nada
no Interstício todo prenhe de volúpias
de vir
O horror deste dia não mora no silêncio:
o coração ainda banzeia de melodias rodopiadas;
os confetes despedaçam-se aos poucos da alma
E mesmo guardada a fantasia exalará auspícios
A tristeza não cinzenta de saudade:
a Colombina ainda esparge seu perfumoso delírio
E nunca houve um tão Pierrô
Engolido pela lágrima única e própria
As náuseas quartas habitam a realidade
furiosa de certezas.
Vomitam-se reticências sobre as cinzas
de um possível que morre
Mesmo.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005
Senhoras, senhores.
Enfim: Carnaval! São chegados os dias da suspensão de todas as reticências, de todos os senões. O Carnaval é o palco da grande dialética essencial.
O que parece festa profana é na realidade a maior celebração do perdão, o único sentimento verdadeiramente religioso. Do perdão de nossa pequenez, de nosso acovardamento diante da vida.
O que insinua irrealidade, contrariamente, é um pleno despir-se das fantasias e personagens tristes que criamos pra sobreviver no oceano da insignificância total. Nas máscaras mostramos nossa face real. Só no descompromisso pode-se viver a vida a sério.
Hoje eu não quero sofrer. Até quarta-feira!
Canta, Dircinha:
O primeiro clarim
(Klecius Caldas e Rutinaldo)
Hoje eu não quero sofrer
Hoje eu não quero chorar
Deixei a tristeza lá fora
Mandei a saudade esperar
Lá, rá, rá, rá,
Hoje eu não quero sofrer
Quem quiser que sofra em meu lugar
Quero me afogar em serpentinas
Quando ouvir o primeiro clarim tocar
Quero ver milhões de colombinas
A cantar "trá, lá, lá, lá, lá, lá"
Quero me perder de mão em mão
Quero ser ninguém na multidão...
Lá, rá, rá, rá
Enfim: Carnaval! São chegados os dias da suspensão de todas as reticências, de todos os senões. O Carnaval é o palco da grande dialética essencial.
O que parece festa profana é na realidade a maior celebração do perdão, o único sentimento verdadeiramente religioso. Do perdão de nossa pequenez, de nosso acovardamento diante da vida.
O que insinua irrealidade, contrariamente, é um pleno despir-se das fantasias e personagens tristes que criamos pra sobreviver no oceano da insignificância total. Nas máscaras mostramos nossa face real. Só no descompromisso pode-se viver a vida a sério.
Hoje eu não quero sofrer. Até quarta-feira!
Canta, Dircinha:
O primeiro clarim
(Klecius Caldas e Rutinaldo)
Hoje eu não quero sofrer
Hoje eu não quero chorar
Deixei a tristeza lá fora
Mandei a saudade esperar
Lá, rá, rá, rá,
Hoje eu não quero sofrer
Quem quiser que sofra em meu lugar
Quero me afogar em serpentinas
Quando ouvir o primeiro clarim tocar
Quero ver milhões de colombinas
A cantar "trá, lá, lá, lá, lá, lá"
Quero me perder de mão em mão
Quero ser ninguém na multidão...
Lá, rá, rá, rá
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005
Os carnavais de antigamente
Rubem Braga
Para responder, há tempos, a uma enquete de jornal, fiz um esforço para apurar as minhas primeiras lembranças carnavalescas. Vi-me a mim mesmo e a meu irmão, muito pequenos mas de calças compridas, uma faixa vermelha na cintura, com bigodes e costeletas pintados a rolha queimada... De pouco mais me lembro, mas creio que éramos nada menos que mexicanos. Também tenho uma vaga noção de que cheguei a apache, mas não estou muito seguro.
O que me encantava, e até hoje me seduz no carnaval, era a transfiguração das pessoas. As pessoas grandes, que eu via todo dia em Cachoeiro, sérias, em seus trajes vulgares, de repente viravam piratas, cowboys, esqueletos, cossacos, índios, sultões, mosqueteiros, palhaços, almirantes. De um certo ponto de vista, parece que eu "acreditava" um pouco nas fantasias, isto é, passava a associar aquelas pessoas às fantasias que tinham usado no carnaval, como se essas fantasias fossem a sua verdade secreta. O disfarce era uma revelação, eis o que eu sentia inconscientemente.
* * *
O cheiro dos lança-perfumes, os confetes, as serpentinas, a música, tudo era transfiguração. Para o adolescente tímido, as mocinhas deixavam de ser intocáveis, ao mesmo tempo que ficavam muito mais maravilhosas - ciganas, piratas de coxas nuas, odaliscas, bailarinas, pierretes.
Só no carnaval eu tinha coragem de dançar; ele a grande festa dos tímidos. Moças que passavam por mim na rua apenas murmurando um "bom dia", com um rápido olhar - que milagre! - no carnaval sorriam, cantavam para mim, olhos nos olhos, se deliciavam com o jato do meu lança-perfume, deixava que eu enchesse seus cabelos de confetes, que as prendesse eternamente com voltas de serpentina - e havia momentos de quase êxtase no tumulto das danças.
* * *
Havia uma instituição espantosa para nossa cidade pudica: era, digamos assim, o carro das mulheres. Naturalmente um grande carro aberto cheio de mulheres fantasiadas, a jogar serpentinas, empunhando bisnagas de cem gramas, pintadíssimas, alegríssimas, passeando escandalosamente no meio da gente e dos carros familiares, entre blocos de mocinhas. E todo ano havia um rapazinho que se embriagava e saía no carro das mulheres. Ia ali abraçado a duas gordas, empunhando uma garrafa de cerveja, enfrentando a censura das famílias, mostrando que já era homem, que era farrista, que era um perdido.
O moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia: rapaziadas...
(in A Traição das elegantes, Rio de Janeiro: Record, 1982 - p. 179)
Para responder, há tempos, a uma enquete de jornal, fiz um esforço para apurar as minhas primeiras lembranças carnavalescas. Vi-me a mim mesmo e a meu irmão, muito pequenos mas de calças compridas, uma faixa vermelha na cintura, com bigodes e costeletas pintados a rolha queimada... De pouco mais me lembro, mas creio que éramos nada menos que mexicanos. Também tenho uma vaga noção de que cheguei a apache, mas não estou muito seguro.
O que me encantava, e até hoje me seduz no carnaval, era a transfiguração das pessoas. As pessoas grandes, que eu via todo dia em Cachoeiro, sérias, em seus trajes vulgares, de repente viravam piratas, cowboys, esqueletos, cossacos, índios, sultões, mosqueteiros, palhaços, almirantes. De um certo ponto de vista, parece que eu "acreditava" um pouco nas fantasias, isto é, passava a associar aquelas pessoas às fantasias que tinham usado no carnaval, como se essas fantasias fossem a sua verdade secreta. O disfarce era uma revelação, eis o que eu sentia inconscientemente.
* * *
O cheiro dos lança-perfumes, os confetes, as serpentinas, a música, tudo era transfiguração. Para o adolescente tímido, as mocinhas deixavam de ser intocáveis, ao mesmo tempo que ficavam muito mais maravilhosas - ciganas, piratas de coxas nuas, odaliscas, bailarinas, pierretes.
Só no carnaval eu tinha coragem de dançar; ele a grande festa dos tímidos. Moças que passavam por mim na rua apenas murmurando um "bom dia", com um rápido olhar - que milagre! - no carnaval sorriam, cantavam para mim, olhos nos olhos, se deliciavam com o jato do meu lança-perfume, deixava que eu enchesse seus cabelos de confetes, que as prendesse eternamente com voltas de serpentina - e havia momentos de quase êxtase no tumulto das danças.
* * *
Havia uma instituição espantosa para nossa cidade pudica: era, digamos assim, o carro das mulheres. Naturalmente um grande carro aberto cheio de mulheres fantasiadas, a jogar serpentinas, empunhando bisnagas de cem gramas, pintadíssimas, alegríssimas, passeando escandalosamente no meio da gente e dos carros familiares, entre blocos de mocinhas. E todo ano havia um rapazinho que se embriagava e saía no carro das mulheres. Ia ali abraçado a duas gordas, empunhando uma garrafa de cerveja, enfrentando a censura das famílias, mostrando que já era homem, que era farrista, que era um perdido.
O moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia: rapaziadas...
(in A Traição das elegantes, Rio de Janeiro: Record, 1982 - p. 179)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2005
Ressurreição dos antigos carnavais
Lamartine Babo
Os clarins estão
Relembrando os nossos velhos carnavais
Arlequins sensuais
Amam colombinas de pompons grenás
Passsam na visão dos meus sonhos
Os pierôs tão tristonhos
A tocar bandolins entre ais
Implorando em vão
A ressureição desses carnavais
Vem, vem, vem, Colombina, sonhar
Vem, vem, que Pierrô vive a chorar
Com ansiedade
Triste Pierrô
Se transformou em saudade...
Vem, vem, vem, Arlequim, que a tua sina
É adorar a Colombina
Dos carnavais que não voltam mais
Os clarins estão
Relembrando os nossos velhos carnavais
Arlequins sensuais
Amam colombinas de pompons grenás
Passsam na visão dos meus sonhos
Os pierôs tão tristonhos
A tocar bandolins entre ais
Implorando em vão
A ressureição desses carnavais
Vem, vem, vem, Colombina, sonhar
Vem, vem, que Pierrô vive a chorar
Com ansiedade
Triste Pierrô
Se transformou em saudade...
Vem, vem, vem, Arlequim, que a tua sina
É adorar a Colombina
Dos carnavais que não voltam mais
quinta-feira, 23 de dezembro de 2004
Merry Christmas, Seu Nozinho!
Nei Lopes
- Natal bom era naquele tempo, quando a gente comia do bom e bebia do melhor ainda! Não que durante o ano a gente não bebesse nem comesse. Mas Natal era dia de juntar pé com cabeça, morrer todo mundo abraçado que nem filhote de gambá.
- Ih! Já está Seu Nozinho, de novo naquele papo careca de "meu tempo", naquele caô de bonde Irajá, lotação abaixadinho. Pô, coroa, já era! O esquema agora é outro, tio!
- Naquele tempo, aqui no morro, a gente amarrava cachorro com lingüiça mas tinha respeito. E Natal tinha pastorinha, folia de reis, castanha, rabanada. O vinho era Telefone. Mas a gente tinha dinheiro pra comprar um, dois, três garrafões, daqueles com palhinha..
- Ninguém está mais nessa, não, maluco! O lance hoje é progresso, é pra frente, é vamo que vamo! O que a moçada quer do Natal é grana do bolso da bermuda, um bom "naique" no pé, um namorado ou uma namorada pra ficar... Vaz Lobo hoje é uma cidade. E Natal é uma festa como outra qualquer: negócio de "xópin", mesmo. A diferença é que tem o especial do Roberto Carlos.
- Esse negócio de Papai Noel e árvore de Natal, veio depois, muito depois. O que tinha era presépio, com as figurinhas lá, os santos, os reis magos, os bichos... Era cada um mais bonito que o outro. E quem podia, até fazia com movimento, as figuras mexendo a cabeça. Às vezes tinha até água caindo, fazendo cascata.
- "Presépio"! Nome besta! Lembra "presepada". E Seu Nozinho quando toma uns negócios fica mesmo presepeiro. Presepeiro e cascateiro. Onde já se viu Natal sem árvore nem Papai Noel?
- E digo mais. Lá em casa, onze e meia o Velho sentava na cabeceira da mesa. Aí, é que a gente sentava também, a família toda reunida. A primeira caneca de vinho, que era o sangue de Cristo; a primeira rabanada, que era o pão; e o primeiro bolinho de bacalhau, que era o peixe, isso tudo era dele, que abria os trabalhos. Depois é que a gente caía dentro. Com educação, devagarinho, porque juntar pé com cabeça, mesmo, só depois que o Velho ia dormir. Mas antes de dormir, Ele ficava "alegre". Uma vez por ano. E aí pegava o violão e a gente começava o samba, versando no partido.
- Natal com samba ! Eu, hein!? Coisa de coroa, mesmo! Não dá nem pra pensar no Papai Noel com aquele chapeuzinho de velha-guarda. Tremenda bobeira! E família, maluco ?! Família aqui, sou eu, que sou pai, mãe, avó, tudo ao mesmo tempo...
- Quando veio aqui pra Jaqueira, o Velho quis seguir a tradição lá de Minas. Mas não deu. Lá, como ele dizia, o Natal ia do 25 de dezembro até 6 de janeiro, dia dos Santos Reis. Dia 25 era o aniversário do Menino Jesus; dia 27 se comemorava Nossa Senhora do Rosário; dia 28, São Benedito; e no dia 6 fechava com chave de ouro. Ele contava que era festa de arromba mesmo, nas casas e na rua. Com foguetório, procissão, mastros, bandeiras. E os congos e moçambiques na praça.
- Foguete, aqui a gente sabe que tem utilidade. E é o ano todo. Agora, esse papo de (como é que é?), "congo", "moçambique", parece coisa de macumba. E macumba também é um bagulho da antiga. Aqui no morro, hoje em dia, eu acho que (deixa eu ver) pelo menos uns sessenta por cento do povo é crente. Eu, mesma, recebi Jesus ano passado... Caraca ! Eu era muito doida. Agora, estou numa boa!
- É... era outro Natal!E eu vou nessa! Até mais!
- Hmmm. Seu Nozinho vem vindo pra cá. Não vai falar bobagem pra ele, viu Maicon!? Tem, que respeitar os mais velhos!
***
- Como é que foi o Natal, Marli, tudo bem?
- Foi tudo na paz, Seu Nozinho! A gente ficou aqui orando...
- E você, Maicon? Papai Noel chegou junto?
- (...)
- Que cara emburrada é essa, moleque?
- Ah, Seu Nozinho! Esse menino anda impossível. Queria porque queria um "mini-gueime" ou um "páuer-renger"..
- ???
- Eu disse que não ia dar. Depois, cismou com uma pistola. Eu fiz pé firme e ele armou o maior banzé aqui, dizendo que tinha que ganhar pelo menos um revolvinho. Aí, eu falei pra ele que Papai Noel não gosta de menino teimoso.
- Isso mesmo. Papai Noel só gosta de menino sangue bom.
- E sabe o que esse menino, que nem sabe falar direito, me respondeu, seu Nozinho?
- O quê ?
- "Quero que Papai Noel se f...!" . Vê se pode?
- Deixa isso pra lá, minha filha. O Natal já não é mesmo mais aquele!
- Natal bom era naquele tempo, quando a gente comia do bom e bebia do melhor ainda! Não que durante o ano a gente não bebesse nem comesse. Mas Natal era dia de juntar pé com cabeça, morrer todo mundo abraçado que nem filhote de gambá.
- Ih! Já está Seu Nozinho, de novo naquele papo careca de "meu tempo", naquele caô de bonde Irajá, lotação abaixadinho. Pô, coroa, já era! O esquema agora é outro, tio!
- Naquele tempo, aqui no morro, a gente amarrava cachorro com lingüiça mas tinha respeito. E Natal tinha pastorinha, folia de reis, castanha, rabanada. O vinho era Telefone. Mas a gente tinha dinheiro pra comprar um, dois, três garrafões, daqueles com palhinha..
- Ninguém está mais nessa, não, maluco! O lance hoje é progresso, é pra frente, é vamo que vamo! O que a moçada quer do Natal é grana do bolso da bermuda, um bom "naique" no pé, um namorado ou uma namorada pra ficar... Vaz Lobo hoje é uma cidade. E Natal é uma festa como outra qualquer: negócio de "xópin", mesmo. A diferença é que tem o especial do Roberto Carlos.
- Esse negócio de Papai Noel e árvore de Natal, veio depois, muito depois. O que tinha era presépio, com as figurinhas lá, os santos, os reis magos, os bichos... Era cada um mais bonito que o outro. E quem podia, até fazia com movimento, as figuras mexendo a cabeça. Às vezes tinha até água caindo, fazendo cascata.
- "Presépio"! Nome besta! Lembra "presepada". E Seu Nozinho quando toma uns negócios fica mesmo presepeiro. Presepeiro e cascateiro. Onde já se viu Natal sem árvore nem Papai Noel?
- E digo mais. Lá em casa, onze e meia o Velho sentava na cabeceira da mesa. Aí, é que a gente sentava também, a família toda reunida. A primeira caneca de vinho, que era o sangue de Cristo; a primeira rabanada, que era o pão; e o primeiro bolinho de bacalhau, que era o peixe, isso tudo era dele, que abria os trabalhos. Depois é que a gente caía dentro. Com educação, devagarinho, porque juntar pé com cabeça, mesmo, só depois que o Velho ia dormir. Mas antes de dormir, Ele ficava "alegre". Uma vez por ano. E aí pegava o violão e a gente começava o samba, versando no partido.
- Natal com samba ! Eu, hein!? Coisa de coroa, mesmo! Não dá nem pra pensar no Papai Noel com aquele chapeuzinho de velha-guarda. Tremenda bobeira! E família, maluco ?! Família aqui, sou eu, que sou pai, mãe, avó, tudo ao mesmo tempo...
- Quando veio aqui pra Jaqueira, o Velho quis seguir a tradição lá de Minas. Mas não deu. Lá, como ele dizia, o Natal ia do 25 de dezembro até 6 de janeiro, dia dos Santos Reis. Dia 25 era o aniversário do Menino Jesus; dia 27 se comemorava Nossa Senhora do Rosário; dia 28, São Benedito; e no dia 6 fechava com chave de ouro. Ele contava que era festa de arromba mesmo, nas casas e na rua. Com foguetório, procissão, mastros, bandeiras. E os congos e moçambiques na praça.
- Foguete, aqui a gente sabe que tem utilidade. E é o ano todo. Agora, esse papo de (como é que é?), "congo", "moçambique", parece coisa de macumba. E macumba também é um bagulho da antiga. Aqui no morro, hoje em dia, eu acho que (deixa eu ver) pelo menos uns sessenta por cento do povo é crente. Eu, mesma, recebi Jesus ano passado... Caraca ! Eu era muito doida. Agora, estou numa boa!
- É... era outro Natal!E eu vou nessa! Até mais!
- Hmmm. Seu Nozinho vem vindo pra cá. Não vai falar bobagem pra ele, viu Maicon!? Tem, que respeitar os mais velhos!
***
- Como é que foi o Natal, Marli, tudo bem?
- Foi tudo na paz, Seu Nozinho! A gente ficou aqui orando...
- E você, Maicon? Papai Noel chegou junto?
- (...)
- Que cara emburrada é essa, moleque?
- Ah, Seu Nozinho! Esse menino anda impossível. Queria porque queria um "mini-gueime" ou um "páuer-renger"..
- ???
- Eu disse que não ia dar. Depois, cismou com uma pistola. Eu fiz pé firme e ele armou o maior banzé aqui, dizendo que tinha que ganhar pelo menos um revolvinho. Aí, eu falei pra ele que Papai Noel não gosta de menino teimoso.
- Isso mesmo. Papai Noel só gosta de menino sangue bom.
- E sabe o que esse menino, que nem sabe falar direito, me respondeu, seu Nozinho?
- O quê ?
- "Quero que Papai Noel se f...!" . Vê se pode?
- Deixa isso pra lá, minha filha. O Natal já não é mesmo mais aquele!
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
Papai Noel de Camiseta
Ivan Lins e Celso Viáfora
Papai Noel irá chegar de camiseta
Metido num chinelo e de bermuda jeans
Tocando um agogô em vez de uma sineta
Cantando do xará o "Palpite Infeliz"
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz
Estenderá uma toalha na sarjeta
Em qualquer praça de subúrbio do país
Trará cachaça, arroz, feijão e a malagueta
Doce de leite, bala de goma e quindins
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz
E surgirão blocos mirins
Em suas camas de jornal e drag queens
Os solitários da paixão com um tamborim
Alguém trará um violão, um bandolim
E a multidão vai sambar na batida do sino
Aí no morro nascerá mais um menino
E no primeiro sol virão os bem-te-vis
Num dia de Natal a gente pode ser feliz!
Papai Noel irá chegar de camiseta
Metido num chinelo e de bermuda jeans
Tocando um agogô em vez de uma sineta
Cantando do xará o "Palpite Infeliz"
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz
Estenderá uma toalha na sarjeta
Em qualquer praça de subúrbio do país
Trará cachaça, arroz, feijão e a malagueta
Doce de leite, bala de goma e quindins
Aí será Natal, a noite vai ser mais feliz
E surgirão blocos mirins
Em suas camas de jornal e drag queens
Os solitários da paixão com um tamborim
Alguém trará um violão, um bandolim
E a multidão vai sambar na batida do sino
Aí no morro nascerá mais um menino
E no primeiro sol virão os bem-te-vis
Num dia de Natal a gente pode ser feliz!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2004
Lapa
Nestes tempos em que a Nação Brasileira clama por luz e verdade sobre as trevas de sua própria vergonha, exigindo a abertura de todos os arquivos sobre as operações "anti-subversivas" do governo militar, há que se lembrar o 16 de dezembro.
Há exatos vinte e oito anos um rio de sangue e opróbrio inundou a Lapa paulistana, onde moro. A ditadura brasileira cometeria sua última grande covardia, emboscando de maneira vergonhosa, na casa da Rua Pio XI, os dirigentes do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, assassinando os camaradas Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, sobreviventes da Guerrilha do Araguaia.
A repressão à Guerrilha foi uma das mais sangrentas e implacáveis ações estatais de combate a movimentos de sublevação, talvez somente comparáveis, em termos de rancor e violência, à derrota dos Cabanos no Pará e ao massacre de Canudos. A ação pérfida da Rua Pio XI revelou a obstinação do governo brasileiro em exterminar todos os germes e vestígios da mais significativa ação armada de resistência ao regime instaurado manu militari em 1964.
A verdade sobre o Araguaia não pode mais tardar.
Mesmo que o último guerrilheiro na selva hoje caia
Brotará eternamente do chão do Araguaia
A esperança de um povo a traçar seu destino
Viva a liberdade!
Viva o socialismo!
Vivam Ângelo Arroyo e Pedro Pomar
Heróis do povo brasileiro!
quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Os dias que vão
E me perguntas se os dias estão realmente cada vez mais belos, ou seriam só os teus olhos. Mas sou a última pessoa a quem poderias indagá-lo, porque coisas estranhas vêm-me sobrevindo e há causas objetivas para se desconfiar do juízo. E, no fundo, eu torço mesmo para que os dias estejam, na verdade, frios e nublados - como certas almas tristes - e que só eu e tu estejamos a percebê-los assim cálidos e inebriantes. Porque aí saberia que não estou só.
Porque os teus olhos são mesmo a mais linda aurora raiada em sete verões, e vereis os especialistas consultados afirmarem que, sim, os dias têm a estranha ânsia de refletir e rebrilhar acima de toda concorrência. Porque são esses os dias que me estão fazendo comer menos e dormir menos e beber mais. E um beber tão isento de mágoa e desengano, como há muito não se registra.
Porque dias assim hão de ter o condão de nos fazer trabalhar e beber e dançar e ouvir música e ir ao cinema. Ir ao cinema... Nesses dias não há lugar para a sombra. "O que é o amor? senão o meu desejo iluminado"... Porque nenhum sol pode encandear o vácuo, o espaço puro sem o que lhe reflita o brilho. Porque hoje eu sou a lua nova na carona da luz irradiada desses dias verdes.
Porque a paz roubada não será o caminho para o lamento, o destempero e a prostração. Porque o amor não é um vazio a ser preenchido, não é a ausência da metade. É a plenitude do inteiro a precipitar-se na sua negação e, assim só, engrandecer-se. "Meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo"... Eu só posso amar na afirmação de mim, na multiplicação das minhas possibilidades, na expansão do meu ser. Porque o amor que é carência, necessidade e dependência é buraco negro a tragar a luz, a transformá-la na matéria escura do nosso interior.
E assim me faço mais nu, mais externo, mais homem. E tu és a estrela escancarada se derramando. Que venha todo o calor dos teus dias e dos teus olhos sobre a minha cabeça. E que o reflexo se faça encontro, o encontro se faça desejo e o desejo se faça volúpia. Porque todas as ânsias far-se-ão vida. Porque todas as angústias hão de nos reafirmar.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2004
Epistemologia de buteco
Meus amigos, largar de beber não é o pior. O impossível, mesmo, é largar o butiquim.
Porque o buteco é o templo da nossa religião cujo fim, como nas demais, é construir uma outra vida que não a nossa. Ali residem os oráculos magistrais, as tiradas únicas, a sabedoria curta e grossa, espontânea e maliciosa do descotidiano.
O bar é o laboratório da nossa irrealidade, onde podemos enredar outras histórias, viver outros papéis. Há os fixos e pré-definidos: o dono-do-bar e o garçom (que ao contrário do que muita gente acredita, não são profissões: são funções litúrgicas), o bebum, o humorista, o poeta, o galã, a mais-gostosa. E há os rotativos, que podem ser assumidos, conforme a necessidade e ocasião, por qualquer um: o técnico de futebol, o cientista político, o psicólogo, o sacerdote, o jornalista, o crítico de cinema, o anatomista.
Urge construir-se uma adequada epistemologia do butiquim. O que se discute no bar é produto do descompromisso das relações que nele se tecem. Descompromisso com o porta-afora, em última análise. Porque não importa se o filme é bom, não importa se o escrete nacional está jogando mal ou se o Rodrigues, que estava saindo com a Claudinha, é ou não um canalha. A correspondência com qualquer dado da "realidade" do que se diz ou do que se faz dentro de um bar importa tanto para os objetivos da cerimônia que ali se celebra quanto, para o espetáculo, a dor de barriga do marceneiro que construiu o cenário.
Há outras formas de viver-se realidades alternativas, é certo. Há as brincadeiras de criança, os livros e o cinema. As primeiras, não nos são mais dadas - ao menos da forma necessária a que se produza o efeito a que aqui se alude. Os últimos terão sobre as nossas queridas espeluncas a vantagem de normalmente não legarem náuseas e dores de cabeça no dia seguinte. Em compensação, o final da trama não depende do nosso desempenho.
E haveria também – ai! - o amor. Nele outrossim transportamo-nos para um universo que não o nosso, para um entendimento outro, para ver a vida atrás de outros olhos. Mudamo-nos do conforto das nossas certezas para o néscio das profundidades alheias. E ali da mesma forma importarão bem pouco as objetividades para as quais os amigos insistirão em alertar. A desvantagem, porém, é evidente: a ressaca também é certa e o fim da história depende ainda menos de nós.
terça-feira, 7 de dezembro de 2004
O resto imortal
Paulo Leminski
Queria não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre o além sou todo dúvida. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.
Queria deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de mim, sobrevivendo a mim.
Durante muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.
Um dia, intui. Essa máquina era possível.
Tinha que ser um livro.
Tinha que ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um texto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse.
Sobretudo, um texto que sentisse como eu.
Ao partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na superfície de um planeta deserto.
Claro que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um texto é.
A impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas manhas e marés.
Um texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Ele mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.
Tudo o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos, mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.
Era óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na melhor das hipóteses.
Uma questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e dissimulação.
Evidentemente que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzí-lo em sua essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo harmonioso, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.
Não sei mais de esse texto virá. Ou se já veio.
Tudo o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.
(in Gozo fabuloso, São Paulo: Editora DBA, 2004)
Queria não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre o além sou todo dúvida. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.
Queria deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de mim, sobrevivendo a mim.
Durante muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.
Um dia, intui. Essa máquina era possível.
Tinha que ser um livro.
Tinha que ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto pensado. Eu precisava de um texto pensante. Um texto que tivesse memória, produzisse imagens, raciocinasse.
Sobretudo, um texto que sentisse como eu.
Ao partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na superfície de um planeta deserto.
Claro que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um texto é.
A impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas manhas e marés.
Um texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Ele mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.
Tudo o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos, mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.
Era óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na melhor das hipóteses.
Uma questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e dissimulação.
Evidentemente que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzí-lo em sua essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo harmonioso, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.
Não sei mais de esse texto virá. Ou se já veio.
Tudo o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.
(in Gozo fabuloso, São Paulo: Editora DBA, 2004)
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004
À procura de Paula

Dois grandes jornais de São Paulo estamparam, há algum tempo, o desespero de um jovem suíço à procura de seu amor brasileiro. Da chamada em letras garrafais, num anúncio de meia página, emprestei o título para esta crônica, logo após do quê raiava despudorada a dupla verve de seu desconsolo: vira-a apenas duas vezes e perdera o número de telefone que ela lhe deixara.
Não vos direi que a fugacidade do momento amoroso seja inversamente proporcional à paixão desencadeada. Soaria demasiado velhaco e já estou em idade em que o estoque de reputação não está para desperdícios. Mas afirmarei sim, ó leitora atenta para os deslizes sentimentais do velho cronista, que a brevidade aguça a impressão deixada na alma pelo objeto do nosso desejo: se a marca foi intensa, sua recordação sempre suscitará um frêmito lamurioso que só faz derramar mais e mais deleites sobre a imagem do amado, corrigindo-lhe pouco a pouco as imperfeições do traço, acentuando-lhe a musicalidade da voz, acetinando a lembrança do toque.
Se, ao contrário, o primeiro impacto foi pífio, o contato efêmero obstará ao tempo seu labor paciente de educador do gosto, da paciência e da tolerância. E como numa antiga fotografia de uma tia-avó que só vimos uma vez, quando criança, a imagem irá se desfazendo, devagar, em meio a uma nostalgia vaga, despejando no coração gotinhas diárias de indiferença, até que se torne candidata a encher o saco de lixo da próxima arrumação das gavetas.
Mas não fosse nada disso, meus caros, a perda do número do telefone é quem dá o inapelável toque à nossa história. Diferente do samba famoso, onde a meia e o sapato ocupam resignadamente o lugar do retrato perdido, o papelzinho desaparecido encheu-lhe o peito de uma obstinação e de uma esperança.
E essa obstinação é que o fez trabalhar durante quatro anos, numa Suíça gelada e distante, a cada dia, em metódica aglutinação dos tostões, em busca da pequena fortuna necessária para apregoar aos quatro ventos a sua paixão. A cada dia se levantava e trabalhava movido pela certeza de que não podia fazer outra coisa, senão ficaria louco. Atormentava-o especialmente, muito mais do que a possibilidade de que estivesse casada ou mesmo morta, a imagem da moça julgando-se desprezada, ante o seu silêncio. Logo ela, a encarnação de todos os seus sonhos. A necessidade de dizer-lhe, dizer ao mundo que fora vítima indefesa do capricho do acaso, impelia-o acima de tudo.
Não sei se Paula apareceu, ou se aparecerá algum dia. O peito desanuviado pelo grito liberto certamente suportará melhor a angústia de sua ausência. E para sempre lhe restará a esperança de que sua amada ouça, no sussurro da última brisa, ou na voz do derradeiro arauto, que Ele a espera.
(março de 1999)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2004
Dia do samba
Há extamente um ano, tive a honra de participar de sessão solene da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo em homenagem ao Dia Nacional do Samba (02 de dezembro), por iniciativa do Deputado Estadual Nivaldo Santana, presidente do PCdoB paulista.
Na ocasião, fui instado a lembrar os 25 anos da morte do grande compositor portelense Candeia. E o fiz nos termos que ora transcrevo:
Exmo. Sr. Presidente:
Hoje é um dia singular na história do samba. Ele já havia penetrado no Municipal, como cantou Cartola. Ele já é cantado na Universidade, como preconizou mestre Candeia. E hoje ele chega à mais importante casa da democracia no Estado de São Paulo. Hoje é Dia de Graça!
Esta solenidade enlaça três datas da maior importância para nossa cultura popular. O Dia Nacional do Samba, que se comemora amanhã. O dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro. E, o dia 16 de novembro, quando se completaram 25 anos da morte de um dos maiores baluartes da história da música popular brasileira, Antônio Candeia Filho.
Essas datas se entrelaçam de maneira indissociável. Porque falar de consciência negra é falar de Candeia. Falar de Candeia é falar de samba. Portanto, falar de samba é falar de consciência negra. E falar na sua dimensão mais profunda, não só na de consciência do direito à igualdade de tratamento e oportunidades para o povo afro-descendente, mas sobretudo na de consciência do papel fundamental, basilar, da cultura do povo negro na formação do modo genuinamente brasileiro de pensar, agir, cantar, dançar, relacionar-se, ver e entender o mundo. Falar de consciência negra, então, é falar de consciência brasileira!
Candeia foi o emblema desta consciência ao mesmo tempo histórica e profundamente engajada. O dia da consciência negra é celebrado em 20 de novembro em memória da morte do herói Zumbi dos Palmares. Mas o dia 16, dia da morte de Candeia, também é dia da consciência negra, da consciência brasileira. Quase 300 anos separam os dois eventos. Zumbi foi o símbolo vivo da resistência a um modo de organização social e a um modelo econômico que estuprou as formas ancestrais de sociabilidade do povo africano, destruindo os laços familiares e de nacionalidade em que se assentam sua cultura e religiosidade. Os quilombos constituíram uma tentativa de reestruturação, em solo brasileiro, de uma identidade violentamente arrasada quando da expatriação dos negros de África. Candeia simboliza a resistência a um modelo econômico e social que não só continua marginalizando a cultura de origem popular, mas apropria-se das formas mais genuínas de sua expressão para submetê-las à lógica viciada do poder e do dinheiro. O grande sambista soube melhor que ninguém denunciar um processo de usurpação dos espaços das escolas de samba por uma elite estranha à cultura do samba, e a imposição da ditadura do luxo, do visual, do “show” televisivo, a oprimir a verdadeira arte de dançar e cantar o samba. Não por outro motivo o espaço em que se organizou essa resistência, fundado por Candeia, recebeu o nome de Grêmio Recreativo de Arte Negra...Quilombo.
"O samba que eu criei tão divino ficou
Agora sei quem sou"
Hoje o samba se afirma, estribado em apoios importantes, como o que se configura nesta seção solene. Mas são muitos ainda os obstáculos a transpor para firmá-lo como forma e espaço privilegiado de afirmação de um modo de viver, pensar e agir diferentes daqueles imposto pelos padrões dominantes, hoje em escala globalizada. Lembrar Candeia-Zumbi é lembrar que o sonho está vivo e que temos a missão de sempre construí-lo.
"A chama não se apagou, nem se apagará
És luz de eterno fulgor, Candeia
O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer Candeia”
Na ocasião, fui instado a lembrar os 25 anos da morte do grande compositor portelense Candeia. E o fiz nos termos que ora transcrevo:
Exmo. Sr. Presidente:
Hoje é um dia singular na história do samba. Ele já havia penetrado no Municipal, como cantou Cartola. Ele já é cantado na Universidade, como preconizou mestre Candeia. E hoje ele chega à mais importante casa da democracia no Estado de São Paulo. Hoje é Dia de Graça!
Esta solenidade enlaça três datas da maior importância para nossa cultura popular. O Dia Nacional do Samba, que se comemora amanhã. O dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro. E, o dia 16 de novembro, quando se completaram 25 anos da morte de um dos maiores baluartes da história da música popular brasileira, Antônio Candeia Filho.
Essas datas se entrelaçam de maneira indissociável. Porque falar de consciência negra é falar de Candeia. Falar de Candeia é falar de samba. Portanto, falar de samba é falar de consciência negra. E falar na sua dimensão mais profunda, não só na de consciência do direito à igualdade de tratamento e oportunidades para o povo afro-descendente, mas sobretudo na de consciência do papel fundamental, basilar, da cultura do povo negro na formação do modo genuinamente brasileiro de pensar, agir, cantar, dançar, relacionar-se, ver e entender o mundo. Falar de consciência negra, então, é falar de consciência brasileira!
Candeia foi o emblema desta consciência ao mesmo tempo histórica e profundamente engajada. O dia da consciência negra é celebrado em 20 de novembro em memória da morte do herói Zumbi dos Palmares. Mas o dia 16, dia da morte de Candeia, também é dia da consciência negra, da consciência brasileira. Quase 300 anos separam os dois eventos. Zumbi foi o símbolo vivo da resistência a um modo de organização social e a um modelo econômico que estuprou as formas ancestrais de sociabilidade do povo africano, destruindo os laços familiares e de nacionalidade em que se assentam sua cultura e religiosidade. Os quilombos constituíram uma tentativa de reestruturação, em solo brasileiro, de uma identidade violentamente arrasada quando da expatriação dos negros de África. Candeia simboliza a resistência a um modelo econômico e social que não só continua marginalizando a cultura de origem popular, mas apropria-se das formas mais genuínas de sua expressão para submetê-las à lógica viciada do poder e do dinheiro. O grande sambista soube melhor que ninguém denunciar um processo de usurpação dos espaços das escolas de samba por uma elite estranha à cultura do samba, e a imposição da ditadura do luxo, do visual, do “show” televisivo, a oprimir a verdadeira arte de dançar e cantar o samba. Não por outro motivo o espaço em que se organizou essa resistência, fundado por Candeia, recebeu o nome de Grêmio Recreativo de Arte Negra...Quilombo.
"O samba que eu criei tão divino ficou
Agora sei quem sou"
Hoje o samba se afirma, estribado em apoios importantes, como o que se configura nesta seção solene. Mas são muitos ainda os obstáculos a transpor para firmá-lo como forma e espaço privilegiado de afirmação de um modo de viver, pensar e agir diferentes daqueles imposto pelos padrões dominantes, hoje em escala globalizada. Lembrar Candeia-Zumbi é lembrar que o sonho está vivo e que temos a missão de sempre construí-lo.
"A chama não se apagou, nem se apagará
És luz de eterno fulgor, Candeia
O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer Candeia”
quinta-feira, 4 de novembro de 2004
"Não tive tempo de ter medo"
Há
exatos 35 anos, aqui pertinho, na Al. Casa Branca, tombava sob as
botas do aparelho repressivo chefiado pelo nefasto delegado fleury
(assim mesmo, com letra minúscula) um grande herói do povo
brasileiro: Carlos Marighella. Em homenagem à sua memória e a seus
ideais de justiça, paz, dignidade e liberdade para o povo
brasileiro, transcrevo aqui dois poemas e um trecho de seu famoso
Chamanento
ao Povo Brasileiro,
que, se chocam pela atualidade, avivam-nos a consciência da tarefa
de lutarmos pela Nação que queremos.
O Urubu
Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.
Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.
Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça
Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Chamamento ao Povo Brasileiro
“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.
Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.
O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.
Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.
Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...”
(dezembro/1968)
O Urubu
Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.
Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.
Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça
Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
(São Paulo, Presídio Especial, 1939)
Chamamento ao Povo Brasileiro
“...
O governo desnacionalizou o país, entregando-o aos Estados Unidos, o pior inimigo do povo brasileiro; os norte-americanos são os donos das maiores extensões de terra do Brasil, têm em suas mãos uma grande parte da Amazônia e de nossas riquezas minerais, incluindo minerais atômicos.
Possuem bases de foguetes em pontos estratégicos de nosso território. Os agentes de espionagem norte-americanos da CIA, estão dentro do país como se estivessem em sua própria casa, orientando a polícia em caçadas humanas aos patriotas brasileiros, e assessorando o governo na repressão ao povo.
O acordo MEC/USAID ( acordo entre o Ministério da Educação e Cultura e a USAID norte-americana) vem sendo poso em prática pela ditadura, com o propósito de aplicar em nosso país o sistema norte-americano de ensino e de transformar nossa universidade numa instituição de capital privado, onde somente os ricos possam estudar. Enquanto isso, não há vagas e os estudantes são obrigados a enfrentar as balas da polícia militar, disputando com o sangue o direito de estudar.
Para os operários, o que existe é o arrocho salarial e o desemprego. Para os camponeses, os despejos, a ocupação ilegal de terras, os arrendamentos usurários. Para os nordestinos, a fome, a miséria e a doença.
Não existe liberdade no País. A censura é exercida para coibir a atividade intelectual.
...”
(dezembro/1968)
terça-feira, 19 de outubro de 2004
Sabino
A preguiça é minha marca de descaráter mais evidente. A vontade somente consegue mover-me rumo ao que me inclino por desejo após duríssima batalha com uma ela, atávica e renitente, que me define como um legítimo homo morgans. A preguiça reduz, por exemplo, a minha cultura cinematográfica a 10% de sua capacidade ociosa e a minha freqüência a exposições a níveis abaixo do humanamente tolerável, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Dos teatros de São Paulo, paulatinamente faz esquecer os caminhos. Balé, há décadas. Mesmo na música, que se salva como gênero de primeira necessidade, já pôs os concertos pra escanteio e contigenciou os shows aos níveis de suporte de vida.
Otto Lara Resende dizia que só não era uma besta completa graças à insônia. Meu xará Fernando Toledo agradece aos céus por gostar de ler nos butiquins... Eu tenho bem mais sono do que gostaria e nos bares normalmente me dedico a tarefas menos nobres. Se escapei da mediocridade completa, devo a meu outro xará, o Sabino.
Suas crônicas me despertaram pra valer o gosto pela leitura, juntamente com as de Drummond, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga – que posteriormente viria a ser uma das minhas maiores influências –, reunidas na coleção sugestivamente intitulada “Para Gostar de Ler”. Isso com uns dez ou onze anos. Tornei-me um devorador desses quatro autores, em verso e prosa, em livro e jornal, em crônica e romance. Do Sabino, todos os livros publicados até o fatídico Zélia, capítulo a se pular. Apaixonei-me definiticamente pela crônica, gênero algo marginalizado pelas academias, que sempre me deu a impressão de no Brasil ganhar um status literário definitivo, indiscutível e único. Talvez pela força dos nossos autores, obrigados ao ofício jornalístico diuturno num país que não reconhece e não paga seus grandes artistas. Ou talvez pela peculiaridade do espírito brasileiro, mais que qualquer outro inclinado a essa espécie de baixa-estética que brota da ironia persistente da sobrevivência. Onde mais poderíamos montar um escrete de cronistas que vai de Machado a Cony, passando por Manuel Bandeira? De Lima Barreto a Aldir, passando por Vinícius? De João do Rio a Veríssimo, passando por Antônio Maria?
A existência da opção pela literatura mais ligeira, aliada à preguiça inderrotável e à influência do Braga, fizeram de mim, à sua semelhança, um “mau leitor de romances”. Sabino escapou. O Encontro Marcado li duas vezes inteiras, uma mais ou menos aos dezessete anos, outra lá pelos vinte e sete ou vinte e oito, quando o choque inicial foi tremendamente reforçado pela década entremeada. Espero pra ler aos trinta e sete, como uma espécie de Pequeno Príncipe melancólico e tupiniquim – se me permitem a redundância - de várias gerações. O Grande Mentecapto foi o romance em que mais vezes e mais intensamente ri e chorei, pantomima caricata desse heterônimo da brasilidade que se construiu nas Gerais. E houve ainda oMenino no Espelho.
Mas a sua herança mais marcante veio-me através dos impagáveisGente e Gente II. Por ali cheguei na poesia, em Bandeira, Neruda, Murilo Mendes e Mário de Andrade. Por ali conheci Jayme Ovalle e Vinícius, Helio Pellegrino e Pedro Nava, Sergio Porto e Augusto Frederico Scmidt. E ali, mais do que tudo, me apaixonei por aquela atmosfera artística e intelectual que durante mais de três décadas reuniu no Rio de Janeiro um núcleo tão poderoso de literatos, músicos, artistas plásticos e pensadores, todos amigos, freqüentando as mesmas festas, as mesmas rodas e os mesmos bares, no Vermelinho ou na casa de Aníbal Machado. Coisa que imaginei para sempre perdida, mas que se preserva numa geração que eu tenho podido acompanhar –dádiva suprema! -, de Moacyr Luz, de Paulinho Pinheiro, Jaguar, Luiz Carlos da Vila, Aldir, Fausto Wolf, Sérgio Cabral, Hermínio Bello. E que há de se levar adiante pelos Toledos e os Goldenbergs.
Sabino também, com Rubem e com vovô, ajudou a montar o pioneiro quebra-cabeça de uma geografia carioca imaginária, idílica, com luares sobre as ondas, com faltas d’água e lotações apertadas, marias-fumaças na Central e tardes douradas de outono. Há algumas semanas, passeava eu por uma noite quente de Ipanema, pela General Osório que sempre me remeteu a ti, Fernando, por aquelas ruas “que vão de Copacabana a Ipanema”, Rubem, e passei pelo prédio do velho xará, apontado por Luise. Comentei que ele devia estar velhinho. Agora, desincumbiu-se do seu ônus de encerrar de vez essa festa brasileira, bater a porta e apagar a luz. Acabaram os mineiros, acabaram os modernos. Acabou o “Para Gostar de Ler”. Acabou o Rio de Janeiro que eu montei só no meu coração.
Cumpre-se, finalmente, naquela desolada colina de Botafogo, o epitáfio talhado em vida: “aqui jaz Fernando Sabino: nasceu homem, morreu menino”.
Mudar
Nasci na Bela Vista, coração de São Paulo. Meus pais moravam nas Perdizes, Rua Bartira, primeiro endereço para onde me transferi depois de baixar neste terreiro doido. Embora tenha morado ali apenas até os dois anos, guardo uma imagem difusa do apartamento, que a princípio sequer se poderia tratar de memória, mas que minha mãe atesta bater muito com o lugar. De concreta, mesmo, a lembrança doce de subir a escada de cacos de cerâmica vermelha, mão dada com a vovó, contando os degraus em alemão: einz, zwei, drei... Pelos dados disponíveis, acho que fui feliz. E mudei.
Para a casa espaçosa do Sumaré, na Praça Joanópolis, 96. Neste importante ponto do universo, eu pude descobrir que era gente. E que ser gente era correr atrás de passarinho, desobedecer a mãe, ralar o joelho na mureta, ter medo de escuro e de ladrão e do Borges (o vigia-andarilho-mendigo que usava uma capa até a canela, chapéu de couro e óculos escuros e estava sempre de porre), ganhar pintinho colorido, chorar quando o pintinho virasse frango, ter irmã, judiar dela, ter ciúme, se arrepender, ir pra escola, fazer amigo, gostar de menina, soltar balão, andar de triciclo, empinar pipa, assistir a Xênia nos dias de chuva, esperar o vovô chegar do serviço com o saquinho de bala de goma (ou cigarrinho de chocolate Pan - que agora proibiram... - com fósforo de marzipã), ficar desidratado (por causa das gotas de pinho Alabarda, que a Giovana – que era linda e eu me apaixonei por ela – anunciava na televisão), ir pra o hospital, trabalhar com o pai, ser palmeirense. Definitivamente, fui feliz. E mudei.
Em janeiro de 1978, de volta às Perdizes, no 1003 da Rua Monte Alegre. A vizinha PUC havia sido invadida em setembro do ano anterior. As marcas ainda se viam nas paredes externas chamuscadas das bombas, nas histórias dos vizinhos, no muro do estacionamento ao lado do nosso prédio, onde a estudantada era tangida pela reiúna. PUC que foi o meu quintal, onde aprendi a jogar bola com os moleques da rua, onde matava aula do colégio, do primeiro beijo e do primeiro porre. Que foi capela e que foi alcova. Que depois virou casa, com a casa virando sucursal do Centro Acadêmico. Foram dezenove anos irresumíveis. Felizes. Casei e mudei.
De Perdizes, que ficou chata, tumultuada e burguesa demais, para a Pompéia, da Rua Barão do Bananal, 800. A velha Pompeía das ruínas da infância, na casa da minha outra avó, mas que já começava também a ficar chata, tumultuada e burguesa como está hoje. A Pompéia foi dos domingos em casa, com os amigos, comida, samba e cerveja demais. Do presente maior que a vida me deu, chegando em casa embrulhadinha numa mantilha branca de tricô. Das comilanças a dois e das noites em claro, na rua ou cuidando de cólica de neném. Um casamento é um casamento, ora sabeis. Onde, em maior ou menor medida, se é feliz naquela bela fase de quase todos os casamentos. Eu fui demais. E mudei.
Para o meu desterro da Armando Brussolo, na Vila Romana, que acabou virando pátria. Quase não deu tempo de ser feliz nem infeliz, medo maior. Mas a gente puxa o tamborim pra nossa baqueta e povoa a sala de amigos, o quintal de sambas, a cozinha de comida do pai, o banheiro de livros, o quarto de cheiros. Pra tudo se acabar em caixas, sábado agora.
O duro não é encaixotar as centenas de livros e cd’s. É a nudez da casa – que no fundo é a sua própria - escancarada, gritando, indiscreta sob as botas impessoais dos carregadores. Juntar os cacos das felicidades e tristezas para arquivar... O que ainda é nada comparado ao depois, àquele total estranhamento que sucede o ciúme. Àquele exílio de sua própria história.
terça-feira, 21 de setembro de 2004
Rancho das namoradas
(Ary Barroso / Vinícius de Moraes)
Já vem raiando a madrugada
Acorda, que lindo!
Mesmo a tristeza está sorrindo
Entre as flores da manhã
Se abrindo nas cores do céu
O véu das nuvens que esvoaçam
Que passam pela estrela a morrer
Parece nos dizer que não existe beleza maior
Do que o amanhecer
E no entanto maior
Bem maior que a do céu
Bem maior que a do mar
Maior que toda a natureza
É a beleza que tem a mulher namorada
Seu corpo é assim como uma aurora ardente
Sua alma é uma estrela inocente
Seu corpo uma rosa fechada
Em seu seio pudores renascem das dores de antigos amores
Que vieram, mas não eram o amor que se espera, o amor primavera
São tantos seus encantos
Que para os comparar
Nem mesmo a beleza que têm as auroras do mar
Já vem raiando a madrugada
Acorda, que lindo!
Mesmo a tristeza está sorrindo
Entre as flores da manhã
Se abrindo nas cores do céu
O véu das nuvens que esvoaçam
Que passam pela estrela a morrer
Parece nos dizer que não existe beleza maior
Do que o amanhecer
E no entanto maior
Bem maior que a do céu
Bem maior que a do mar
Maior que toda a natureza
É a beleza que tem a mulher namorada
Seu corpo é assim como uma aurora ardente
Sua alma é uma estrela inocente
Seu corpo uma rosa fechada
Em seu seio pudores renascem das dores de antigos amores
Que vieram, mas não eram o amor que se espera, o amor primavera
São tantos seus encantos
Que para os comparar
Nem mesmo a beleza que têm as auroras do mar
quarta-feira, 25 de agosto de 2004
Mais que morto
Frase de um morador de rua de São Paulo (cujo nome infelizmente não consegui ainda anotar), hoje cedo na Rádio Jovem Pan, sobre as inomináveis atrocidades cometidas contra essa gente que não faz mal a ninguém e suporta sobre as costas todo o sofrimento que conseguimos produzir:
“Você acha que alguém vai me dar um emprego algum dia? Eu não tenho família, não tenho amigos, não tenho endereço, nem documento. Eu estou mais que morto. Será que ainda preciso ser assassinado?”
“Você acha que alguém vai me dar um emprego algum dia? Eu não tenho família, não tenho amigos, não tenho endereço, nem documento. Eu estou mais que morto. Será que ainda preciso ser assassinado?”
segunda-feira, 16 de agosto de 2004
A morte e a morte de Stella do Patrocínio
Ney Mesquita (*11/12/1966 +09/08/2004)
Não foi por falta de aviso. Ney Mesquita, o meu irmão preto, passou os quase dezoito anos em que eu o conhecia me dizendo que ia morrer cedo. Não sei se era intuição, vontade, ou uma espécie de sina a ser cumprida. E não é que no último dia 09, às 21h00, seu coração imenso e judiado desencumbiu-se do ônus desse fatídico auto-vaticínio?
Neyzinho foi um grande artista em todos os sentidos. Não só pela grandeza da expressão visível de sua arte, de seu talento, que podia ser percebida facilmente por quem o ouvisse cantar ou representar. Mas sobretudo pela capacidade constante de antenar-se com as angústias, dores, alegrias, celebrações e contradições de sua geração, de sua cidade, do seu povo negro. Foi, durante toda a sua carreira, e principalmente durante a sua vida, um canal permanente através do qual as nossas necessidades de expressão puderam-se canalizar, seja em formas sensíveis, seja como mais angústias, alegrias e contradições. Uma grande caixa de ressonância do talento, da beleza, da loucura de uma existência essencial e circunstancialmente inscrita num meio tão inóspito.
Cantor, sambista, ator, professor de música, artesão, pesquisador da cultura popular. Um grande baú de sambas-enredo – muitos agora definitivamente esquecidos - dos carnavais paulistanos de sempre. Conhecedor de jongos e pontos, congos e reisados. De voz e sobretudo afinação privilegiadas, formado nos guetos de samba da paulicéia (alô Pérola Negra!) e pós-graduado na universidade da noite, era no palco que fazia transbordar a exuberância de seu talento performático.
Dizia-se parente do libertário José do Patrocínio, o que nunca me foi dado verificar. Sei é que recentemente, encarnava a Stella do Patrocínio, poetiza negra que viveu grande parte de sua vida interna na colônia psiquiátrica Juliano Moreira. Ninguém mais poderia fazer de tal forma reviver a alma universal, errática, contundente e profundamente poética de Stella. Ninguém mais poderá cantar os seus versos (lindamente musicados por Lincoln Antônio) como ele. Ninguém.
Ney Mesquita não se eximiu em nenhum momento de encarar a sua árdua missão de artista e de negro. Como poucos sofreu na pele as injustiças profundas da condenação histórica a que parece eternamente submetido o povo negro em nosso país de tantas desigualdades e preconceitos. E mais uma vez transformou tudo em arte e beleza, muito embora as cicatrizes nunca tenham deixado de determinar os caminhos e descaminhos de sua vida e sua arte inquietas. Um negro verdadeiro, elo da corrente que comunica a trajetória de seus ancestrais à gestação das gerações vindouras. Ninguém me contou. Eu vi as legiões de eguns passeando pelo Teatro São Pedro, quando ele pisou seus pés negros descalços naquele palco de recitais de câmara e árias verdianas.
Por tudo isso, o meu irmão preto Ney Mesquita foi uma pessoa tão fascinante quanto perturbadora. Tão querida quanto querente. Tão indispensável quanto difícil. E vai fazer, meus senhores e minhas senhoras... uma PUTA falta.
Poucas pessoas tiveram na vida tanto carinho para comigo. Foram tantos os incentivos, os cuidados, as puxadas de orelha. Felizmente, nunca deixamos de nos dizer que nos amávamos. E hoje não consigo deixar de ouvir aquela sua voz, quando se enchia de toda pompa e circunstância pra me anunciar uma grande verdade recentemente descoberta: “sabe, Fernando...”. Ou aquela sua gargalhada de saci, pé descalço, fazendo macaquice, judiando do gato da Iara. Vai fazer falta demais nos nossos tantos fundos de quintal, a começar pelo de casa. E não serão mais tão vagabundas as minhas bebedeiras pela cidade.
Mas eu hoje posso cantar – em grande parte graças a ele. E cantarei à sua presença eterna nas nossas rodas e nos nossos corações. Até o dia em que hei de pegá-lo de novo, num redemoinho qualquer, aos pés de um taquaral como os que havia atrás da casa da minha infância, que acabou de morrer um pouco mais. E aí vou roubar sua carapuça, pra ele não poder mais me abandonar.
quinta-feira, 24 de junho de 2004
24 de junho
Foi preciso que numa noite quente
um raio de lua a iluminasse
como um spot celestial
sobre um palco de lençoizinhos coloridos
pra que me descobrisse, num repente,
arrebatado pela sua presença de estrela
Protagonista da representação mais real
da pantomima fascinante
da imortalidade
Ali, encarnada em menos de um metro de gente
um raio de lua a iluminasse
como um spot celestial
sobre um palco de lençoizinhos coloridos
pra que me descobrisse, num repente,
arrebatado pela sua presença de estrela
Protagonista da representação mais real
da pantomima fascinante
da imortalidade
Ali, encarnada em menos de um metro de gente
quarta-feira, 23 de junho de 2004
Brizola: homem que amou demais
Julio Vellozo
Brizola foi faca amolada e não esse sonhador bobo, espécie de nacionalista de folhetim, Policarpo Quaresma dos pampas, que andam pintando por aí. Quando soube da morte do Leonel - governador de dois estados, herói da legalidade, sujeito homem - fiquei comovido de verdade. E fiquei puto por ver a forma como pintaram o velho gaudério. Brizola foi homem de discursos e de ação, construiu escolas e pegou em armas, fez mais inimigos do que amigos, foi traído por muitos mas nunca traiu ninguém. Não precisava de retoques: se sua vida foi assim, que o deixassem morrer como viveu.
Homens como Brizola não conhecem meio termo, tem horror a hipocrisia e querem distância dos rapapés da formalidade. Ele não queria terminar a vida como se não tivesse inimigos, recebendo elogio choroso da Miriam Leitão. Tenho certeza de que preferiria um editorial da Globo bem feliz, comemorando a partida de mais um caudilho nacionalista e atrasado. Conhece-se o caráter de um homem pelos inimigos que tem, já dizia um sábio.
O pecado de Brizola foi amar demais, como talvez dissesse o Paulinho da Viola. Amou o Brasil de modo tão violento, tão passional, que fez política como quem defende um filho ou um irmão: com as vísceras. Quando a paixão e a razão se encontraram esteve no lugar certo, mas com o dobro da coragem dos simplesmente racionais. Quando a paixão e a razão se desencontraram esteve do lado errado, encontrou inimigos que não existiam, combateu pessoas a quem deveria se aliar. Acertou quando a vida pedia coragem, e errou onde a coragem não cabia na vida.
O Brasil deveria saber amar Brizola como ele o amou. Dos “filhos teus que não fogem a luta”, ele foi dos mais corajosos, sinceros, passionais e honestos. Ele não temeu quem adora a nossa pátria à própria morte. Estes agora querem transforma-lo em navalha sem corte. Pelo bem da história tomara que não consigam.
Brizola foi faca amolada e não esse sonhador bobo, espécie de nacionalista de folhetim, Policarpo Quaresma dos pampas, que andam pintando por aí. Quando soube da morte do Leonel - governador de dois estados, herói da legalidade, sujeito homem - fiquei comovido de verdade. E fiquei puto por ver a forma como pintaram o velho gaudério. Brizola foi homem de discursos e de ação, construiu escolas e pegou em armas, fez mais inimigos do que amigos, foi traído por muitos mas nunca traiu ninguém. Não precisava de retoques: se sua vida foi assim, que o deixassem morrer como viveu.
Homens como Brizola não conhecem meio termo, tem horror a hipocrisia e querem distância dos rapapés da formalidade. Ele não queria terminar a vida como se não tivesse inimigos, recebendo elogio choroso da Miriam Leitão. Tenho certeza de que preferiria um editorial da Globo bem feliz, comemorando a partida de mais um caudilho nacionalista e atrasado. Conhece-se o caráter de um homem pelos inimigos que tem, já dizia um sábio.
O pecado de Brizola foi amar demais, como talvez dissesse o Paulinho da Viola. Amou o Brasil de modo tão violento, tão passional, que fez política como quem defende um filho ou um irmão: com as vísceras. Quando a paixão e a razão se encontraram esteve no lugar certo, mas com o dobro da coragem dos simplesmente racionais. Quando a paixão e a razão se desencontraram esteve do lado errado, encontrou inimigos que não existiam, combateu pessoas a quem deveria se aliar. Acertou quando a vida pedia coragem, e errou onde a coragem não cabia na vida.
O Brasil deveria saber amar Brizola como ele o amou. Dos “filhos teus que não fogem a luta”, ele foi dos mais corajosos, sinceros, passionais e honestos. Ele não temeu quem adora a nossa pátria à própria morte. Estes agora querem transforma-lo em navalha sem corte. Pelo bem da história tomara que não consigam.
terça-feira, 22 de junho de 2004
Leonel de Moura Brizola
Uma parada cárdio-respiratória aparentemente motivada por infarte fez o que a ditadura militar e o mais poderoso conglomerado de comunicação de massa do planeta juntos não conseguiram: calar a voz do velho caudilho. Sem dúvida, um dos políticos brasileiros mais importantes do século XX e uma das mais populares figuras da esquerda nacional, juntamente com Prestes e Lula.
Tendo dele discordado um sem número de vezes, mais do que exaltar sua participação fundamental em tantos episódios da história republicana nos últimos 60 anos, deixo aqui a minha homenagem ao homem público que, no meu imaginário, desde as históricas eleições de 1982, sempre representou na política a sobrevivência da dimensão fundamental do sonho. Naquele pleito, impingiu a maior derrota eleitoral às forças políticas conservadoras, elegendo-se na contra-mão de todos os interesses e conspirações, apoiado pelas massas excluídas dos morros e da Baixada Fluminense. Mas vinte e um anos antes, Brizola já liderava a resistência à tentativa de golpe contra Jango requisitando a marcha sobre Porto Alegre de cavaleiros das estâncias riograndenses, com seus ponchos e bombachas, a quem armou com revólveres requisitados à uma grande fábrica gaúcha de armamentos. A atitude à primeira vista quixotesca acabou por engendrar a corrente de legalidade que garantiu a posse de Goulart e postergou por três anos o golpe que viria a instalar a ditadura militar no Brasil.
Movido pelo mesmo sonho, o velho Leonel pôde dar asas às maravilhosas insanidades de outro sonhador, o saudoso Darcy Ribeiro, e romper pela primeira vez na história brasileira com o estigma de que a educação de qualidade seria prerrogativa dos filhos das classes abastadas. Ainda sonhando com uma sociedade onde a polícia respeitasse os barracos dos morros tanto quanto os apartamentos da Zona Sul carioca, foi criminosamente acusado, com patrocínio da Vênus Platinada, de se aliar aos interesses de traficantes com finalidades eleitoreiras. Raciocínio que, docemente abraçado pelas elites para as quais pé na porta do barraco dos outros é visita, não impediria que Brizola voltasse ao Palácio Guanabara nos braços do eleitorado pobre e politizado das regiões mais oprimidas da metrópole fluminense. Com que outras armas, senão o sonho, o caudilho poderia prometer acabar com a concessão pública ao sistema Globo com uma canetada? Meu Deus, quanto eu mesmo não sonhei com isso?...
A lembrança que não posso deixar de registrar: eu, com dezenove anos, enfiado até o pescoço na campanha pesidencial de Mário Covas, assistindo ao último debate do primeiro turno das eleições. Minha mãe não entende nada quando, entrando na sala, me pega aos prantos gritando: “eu vou votar no Brizola, mãe... Eu vou votar no Brizola”! Motivo: o mais belo discurso que ouvi do maior dos oradores da política brasileira do meu tempo. Até o último de meus dias, não me sairão da mente as suas palavras: “Não votem em mim; votem em qualquer destes democratas que aqui se encontram”, em alusão às ausências do favorito Fernando Collor e do estapafúrdio Sílvio Santos. E pode ser verdade que a história não seja feita do “se”, mas também me permito imaginar, se não fossem pouco mais de 200 mil votos, o velho Leonel reduzindo a pó o “inspirado” candidato oficial no famoso debate depois torpemente editado pelo Jornal Nacional.
E é essa a imagem, pois, que transmitirei à minha filha: a do nosso bravo e incansável Dom Quixote, investindo com seu corajosos devaneios contra os moinhos de vento do poder econômico e político exercido historicamente em nosso país em detrimento do interesse dos trabalhadores e de todo o povo. Para que nós possamos levar a diante a preciosa herança que nos legou – o sonho – nestes tempos em que a rude ditadura da realidade dada parece a cada dia mais ofuscar o brilho das nossas últimas esperanças.
quarta-feira, 16 de junho de 2004
25 anos sem Dalcídio Jurandir – 1979/2004
Transcrevo a importante nota abaixo, da parte do Instituto Dalcídio Jurandir, em homenagem aos 25 anos da morte deste grande escritor brasileiro:
O Instituto Dalcídio Jurandir vem trabalhando com muita determinação a reinserção do nome e da obra do escritor marajoara no horizonte da literatura brasileira e é com grande alegria que já podemos dizer estar quase no prelo, com lançamento previsto para outubro deste ano, o romance Belém do Grão Pará, quarto volume (de 10 romances) do Ciclo do Extremo-Norte que, com o romance Linha do Parque, forma o conjunto da obra que recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, no ano de 1972. Dalcídio faleceu no dia 16 de junho de 1979, no Rio de Janeiro, cidade que escolheu para viver, desde a publicação de seu primeiro romance, Chove nos campos de Cachoeira, em 1941.
Belém do Grão Pará é o primeiro relançamento da obra do autor, previsto pela editora Fundação Casa de Rui Barbosa em coedição com a EDUFPa, editora da Universidade Federal do Pará. A FCRB abriga o acervo pessoal do escritor no Arquivo Museu de Literatura Brasileira e prepara-o para que, no menor prazo possível, ele esteja à disposição dos pesquisadores.
Com uma edição no Brasil e outra em Portugal, esse romance marca sensivelmente as letras cariocas porque conquistou, em 1960, o prêmio Paula Brito da Biblioteca do Estado da Guanabara (em sua última edição) e também o prêmio Luiza Cláudio de Souza, do Pen Club.
O trabalho de preparação textual - com inclusão de notas, introdução e glossário de termos regionais – foi realizado pelas pesquisadoras Marta de Senna e Soraia Farias Reolon Pereira, da FCRB. A programação de relançamento inclui a realização de um seminário inter-regional, que contará com a participação de professores-pesquisadores do norte e do sudeste, para discutir a obra e os temas sempre atuais que ela suscita.
A seguir, trecho do ensaio crítico Os inocentes da passagem, do professor e filósofo Benedito Nunes, sobre a obra e sobre o romance Belém do Grão Pará:
“(...)Com paisagens urbanas recorrentes – Cachoeira do Arari e Belém, o vilarejo na ilha do Marajó e a Metrópole, que se personificam na memória de Alfredo, um dos seus principais personagens, se não for a sua figura central como ligação entre os romances componentes, e que mais visceralmente próximo está do narrador, com um estilo indireto livre tendendo ao monólogo – o Ciclo do Extremo-Norte, enxerto da introspecção proustiana na árvore frondosa do realismo, afasta-se das práticas narrativas do romance dos anos 30 - como uma certa construção do meio ambiente e a tendência objetivista documental, afinadas com a herança naturalista - graças à força da auto-análise do personagem e à poetização da paisagem. De maneira precisa, esse afastamento, já marcante em Belém do Grão Pará, se tornará definitivo em Passagem dos inocentes. Este romance se volta, de novo, para Belém, que aquele primeiro abrira num largo panorama urbano, e onde Alfredo já estivera
Cumpre-nos abrir um parêntese sobre esse panorama. Quem lê Belém do Grão Pará, como o romance dos Alcântara (o casal seu Virgílio/D. Inácia e a filha Emilinha), lê a inteira cidade dos anos vinte, tal como a tinha deixado, após o início da decadência econômica, conseqüente à crise da borracha, que culminara em 1912, as reformas do Intendente (prefeito) Antônio Lemos. O drama daquela família, com a qual vivia Alfredo, drama todo exterior, de perda de status, levando a uma mudança de casa e de rua, está relacionado com aquela decadência. Mas só o curioso Alfredo, dono de mágico carocinho, vê a cidade com olhos poéticos: as ruas sombreadas de mangueiras, o Largo da Pólvora sonolento, com o Teatro da Paz, neoclássico, no meio da verdura, as casas baixas ajaneladas, de corredor ou puxadinha, os sobrados revestidos de azulejos que brilham ao sol (...)”
Assinar:
Postagens (Atom)
