Vejam lá, vocês, como hoje a gente não cessa de deparar, nas mais prosaicas situações, os paroxismos dessa gangrena que vai carcomendo a vida contemporânea. Bem, talvez seja um começo exagerado para o que me proponho tratar, mas gostei de como ficou a frase, e a gente tem sempre que de alguma forma recomeçar do que restou de uma paixão.
O fato é que estava eu há alguns minutos no Ponto Azul, aqui na esquina, saboreando um bifão à milaneza daqueles pingando óleo (só pra fazer gênero, Isaac querido) e tomando a minha meiota geladíssima (que eu só bebo lá, na verdade, por causa dela: detesto longuenéqui, latinha não se presta pra beber sentado e uma inteira costuma comprometer a seqüência da tarde) e estava a tv irremediavelmente ligada passando um comercial da coleção “Folha” da cozinha internacional.
Pausa, no melhor estilo goldenbergueano, para uma triste constatação. As pessoas, antigamente (leia-se, quando eu era moço), ainda costumavam ir ao bar pra prosear. Ia-se ao butiquim muito mais pra jogar conversa fora do que propriamente pra beber; só por isso, aliás, tinha sentido, por exemplo, tomar café fraco, requentado, com mais horas de vôo que piloto de Electra: um bom papo paga, de longe, qualquer gastrite. Mas hoje não há um estabelecimento sequer sob este céu onde o azul é mais azul e uma cruz de estrelas aponta o sul, da mais vagabunda birosca aos empertigadíssimos e abjetos drinking centers, que não tenha nele ligada uma maldita caixinha de fazer doido, e isso graças à invenção da maldita parabólica por Luís Grande e Barbeirinho do Jacarezinho. Essa invasão foi particularmente triste nos rincões do meu Brasil varonil, onde os homens se juntavam no bar, ao fim do dia de trabalho, ou no aguardo da madrugada para o mar, pra falar da vida, das mulheres, das histórias de assombração, do peixe que estava dando. Mas hoje, em 99% das espeluncas onde se entra, vêem-se seres passivos e atônitos, mudas criaturas de braços cruzados, massacradas pelo monturo que os sufoca e que dia a dia só faz aumentar. Se você puxa prosa, nem te ligo e ainda é capaz de fazerem cara feia. E sem conversa, meus amigos, adeus assombração, adeus aquele jeito tal de armar a rede, adeus receita do remédio pra curar o moleque que ficou tossindo em casa.
Mas não era nada disso que eu queria falar hoje. Eu queria era falar da propaganda estulta que sugere que você, mesmo sendo um néscio de pai e mão sobre quem tenha sido Clóvis ou São Luís, o piedoso, ainda que ignorando solenemente a existência de Robespièrre, Napoleão Bonaparte e Zinedine Zidane, a aquisição do exemplar “França” da laureada coleção o tornará incontinenti um grand chef capaz de preparar escargots divinos, ou um cocq au vin de fazer a Brigitte Bardot lhe cair de quatro (não é emocionante a minha erudição em culinária francesa?). Não é de admirar, meus caros, que a coleção em questão seja patrocinada por um dos jornalões que mais se esmera na promoção dessa mentalidadezinha que quer nos fazer crer que tudo é possível, desde que se tenha a “técnica”. Tudo está ao alcance do homem globalizado, mente aberta, leitor da Folha, com acesso à Internet, porque afinal essa coisinha bairrista é coisa dos órfãos do muro. Vocês cariocas, Edu, não estão sozinhos.
E tudo isso me veio à cabeça porque uma prima recém adquirida (a despeito do regime matrimonial de comunhão parcial, alguma incorporação sempre é possível), que anda a “morare” em Portugal, estava em casa por esses dias querendo me convencer que eu posso perfeitamente preparar um arroz de calamares à moda do Porto que ela aprendeu e executa com propalada competência. Mas eu sinceramente não acho possível. A comida seja talvez uma das mais inquebrantáveis formas de expressão de uma cultura. Quando nada mais resiste, cantos, histórias, técnicas de trabalho, os hábitos alimentares ainda perseveram enraizados nas zonas mais profundas da alma humana. Há que se ter vivência pra se preparar um prato. Como é que se pode fazer, meu Deus, um acarajé, sem ter se embriagado do cheiro das ladeiras crocantes do velho centro de Salvador? Sem ter chorado de saudade com um samba do Caymmi, ou sem ter dançado um ponto de Exu? Como se pode preparar uma feijoada sem ter sentido, quando criança, no rosto um carinho de mão negra calejada de trabalho e exalando tempero? Quem consegue fazer um tacacá, se nunca se espremeu embaixo de uma lona de barraca, misturados os cheiros da chuva, do tucupi, do camarão e do suor escorrendo pela testa? Como eu posso fazer um doce de mamão, sem saber de cor um poema de Cora Coralina, sem tê-la visto mexer o seu enorme tacho de cobre no fogão de lenha, na velha casa junto à ponte?
Ainda que tanto sangue portucalense nos corra nas veias, nem toda minha coleção do Eça, nem todo o Pessoa me farão suficientemente luso para que o meu arroz não cheire a simulacro! Adeus, calamares! Nem todos os meus discos do Pepino di Capri me ensinarão a fazer um macarrãozinho decente. Por isso, não me venham com essa de que os melhores sushimen de São Paulo são todos cearenses. No restaurante que eu freqüento, Shimizu San mal consegue dizer “boa noite” em português. Os nordestinos têm no geral notória competência para a culinária, valendo-se, entre outras coisas, de sua espetacularmente diversa experiência de olfato e paladar, numa terra de milhares de diferentes frutas, peixes, temperos. Mas é rigorosamente impossível a um não-japonês fazer um peixe como o do pequeno Sushi Guen. Cearenses, pernambucanos e paraibanos são, sim, insuperáveis pizzaiolos. Mas isso é só a confirmação da regra. Porque, aqui moídos, viram todos genuínos paulistanos. E pizza – pelo menos como a conheço - é a mais paulistana de todas as comidas.
Nunca consegui cozinhar com receita; sempre a intuição me guiou. Se fui mediano na juventude, então, a vida, o sofrimento, as lembranças têm acentuado os sabores que hoje consigo burilar. Perguntando há muitos anos a uma velha iabassê – tão bobo...- aprendi que a gente só sabe que o refogado está no ponto quando começa ter vontade de chorar. Por isso não consigo fazer doce: porque simplesmente não consigo me emocionar. E só sei fazer dignamente: baião-de-dois, rabada, dobradinha, peixada (ou moqueca), feijão, mocotó, ossobuco, língua, camarão com abóbora e carne assada. Posso no limite da honestidade arriscar um pato no tucupi, ou um sarapatel. Passando disso, é enganação. Mesmo que de enganação se possa, ainda, sobreviver.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
Perambelemdo
Derny Thiago
Te procurei na Pariquis
Por onde eu passei não fui feliz
Te viram num bar na Pirajá –
ou Perebebuhy...?
Depois passei no Umarizal
Fui com tanta fé, mas me dei mal
Eu estava mesmo é na pior
Lá na Itororó
Aí lembrei que já te vi nas ruas de Icoaraci
Aguardando sinal na frente do Iguatemi
Dobrei a Humaitá, depois varei pela Timbó
Estou me sentindo tão só...
Imaginei você nas noites quentes lá da Marambaia
Ou curtindo o mar - que pena, Belém não tem praia!
Subi na contra-mão Mundurucus e Caripunas
Fui me perder no Jurunas!
Te procurei por todo o Cais
Na Tupinambás você não pára,
Menina, na Guanabara, no Maguari
Fiquei louco por ti
Com esta canção de estimação de autoria do grande Derny Thiago, excepcional compositor, magistral ser humano, meu irmão para sempre, aqui rebatizada e adaptada provisoriamente à sua revelia (se você não gostar eu mudo...), o Só dói inaugura o quarto ano da série com uma homenagem imensamente saudosa à Minha Morena, Santa Maria de Belém do Grão Pará, esta jovem senhora a completar 391 anos de fogosa existência, e a todos os queridos amigos que ela pôs em meu caminho, pelos quais choro e canto todos os dias derramadas saudades.
Te procurei na Pariquis
Por onde eu passei não fui feliz
Te viram num bar na Pirajá –
ou Perebebuhy...?
Depois passei no Umarizal
Fui com tanta fé, mas me dei mal
Eu estava mesmo é na pior
Lá na Itororó
Aí lembrei que já te vi nas ruas de Icoaraci
Aguardando sinal na frente do Iguatemi
Dobrei a Humaitá, depois varei pela Timbó
Estou me sentindo tão só...
Imaginei você nas noites quentes lá da Marambaia
Ou curtindo o mar - que pena, Belém não tem praia!
Subi na contra-mão Mundurucus e Caripunas
Fui me perder no Jurunas!
Te procurei por todo o Cais
Na Tupinambás você não pára,
Menina, na Guanabara, no Maguari
Fiquei louco por ti
Com esta canção de estimação de autoria do grande Derny Thiago, excepcional compositor, magistral ser humano, meu irmão para sempre, aqui rebatizada e adaptada provisoriamente à sua revelia (se você não gostar eu mudo...), o Só dói inaugura o quarto ano da série com uma homenagem imensamente saudosa à Minha Morena, Santa Maria de Belém do Grão Pará, esta jovem senhora a completar 391 anos de fogosa existência, e a todos os queridos amigos que ela pôs em meu caminho, pelos quais choro e canto todos os dias derramadas saudades.
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Ano Novo
Chico Buarque de Hollanda
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
No tempo dos quintais
Sivuca e Paulinho Tapajós
Era uma vez um tempo de pardais
De verde nos quintais
Faz muito tempo atrás
Quando ainda havia fadas...
No bonde havia um anjo pra guiar
Outro pra dar lugar
Pra quem chegar sentar
De duvidar, de admirar...
Havia frutos num pomar qualquer
De se tirar do pé
No tempo em que os casais
Podiam mais namorar
Nos lampiões de gás
Sem os ladrões atrás
Tempo em que o medo se chamou jamais!
Veio um marquês de uma terra já perdida
E era uma vez se fez dono da vida
Mandou buscar cem dúzias de avenidas
Pra expulsar de vez as margaridas
Por não ter filhos (talvez por nem gostar...)
Ou talvez por mania de mandar!
Só sei que enquanto houver os corações
Nem mesmo mil ladrões
Podem roubar canções
E deixa estar que há de voltar
O tempo dos pardais
De verde nos quintais
Tempo em que o medo se chamou jamais...
Em tributo ao maestro paraibano Severino Dias
de Oliveira, o imortal Sivuca, perda irreparável
para a música brasileira
Era uma vez um tempo de pardais
De verde nos quintais
Faz muito tempo atrás
Quando ainda havia fadas...
No bonde havia um anjo pra guiar
Outro pra dar lugar
Pra quem chegar sentar
De duvidar, de admirar...
Havia frutos num pomar qualquer
De se tirar do pé
No tempo em que os casais
Podiam mais namorar
Nos lampiões de gás
Sem os ladrões atrás
Tempo em que o medo se chamou jamais!
Veio um marquês de uma terra já perdida
E era uma vez se fez dono da vida
Mandou buscar cem dúzias de avenidas
Pra expulsar de vez as margaridas
Por não ter filhos (talvez por nem gostar...)
Ou talvez por mania de mandar!
Só sei que enquanto houver os corações
Nem mesmo mil ladrões
Podem roubar canções
E deixa estar que há de voltar
O tempo dos pardais
De verde nos quintais
Tempo em que o medo se chamou jamais...
Em tributo ao maestro paraibano Severino Dias
de Oliveira, o imortal Sivuca, perda irreparável
para a música brasileira
sábado, 16 de dezembro de 2006
O pomar e o arroio *
Quem pôde ver a centelha
Luzir em outro dezembro
Esperança em fatiota vermelha
Teimosa ainda a brilhar
Sobre a lapa onde bruxuleava
A chama de Arroyo e Pomar?
Qual solo poderá recusar
Em resistências pudendas
Enfim se deixar fecundar
De dor tornada em apoio
Se transbordou para sempre
Um tão frutuoso arroio?
Qual fome não se sacia
Dos frutos que persistem
A despeito da vil covardia
Obstinadamente em brotar
Sob a sombra benfazeja
De um tão torrentoso pomar?
Da seiva tenaz do Araguaia
Quem poderia contar
Que tão desprezível laia
Gerasse o inominável joio
Entre o trigo mais bem cevado
Pra trair Pomar e Arroyo?
Qual infâmia deterá o Rio
Imenso de pororocas caudalosas
As margens opressoras a fio
Dia e noite a solapar
Amazonas de leito inundado
Do sangue de Arroyo e Pomar?
*Em honra aos heróis do povo brasileiro
Ângelo Arroyo e Pedro Pomar
nos 30 anos da Chacina da Lapa
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
Desencontro marcado
Por onde andará o que de mim
me despedi?
O que será daquele que disse sim
quando eu disse não?
Nosso impossível reencontro:
Julgamento definitivo
Sentença imediata
de aniquilação
O desencontro marcado
É o que de tudo nos salva
o que não foi
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
Voltando o troco - Parte final
Dr. Sebastião ia chegando com o carrão importado, vidros “filmados”, e já no que contornou a rotatória viu a muvuca na porta do condomínio, o mais moderno daquelas bandas de Deltaville XIV:
-Vai lá, Djalma, ver que perereco é esse, que eu tou atrasado pra teleconferência.
O negrão Djalma voltou branco. A confusão era imensa, uma montanha de gente querendo entrar, a segurança segurando, a coisa já estava no nível do bate-boca e os ânimos se esquentando.
- Dotô, o negócio tá feio. Tá lá aquele homem da Tv, o Celio Burroumano, ele tá aprontando o maior banzé. Eu não queria dizer, não, mas eles querem falar é com o Sinhô...
-Tá maluco, Djalma? O que é que esses caras vão querer comigo? Sou um empresário de respeito, ora...
- Sei não, dotô, mas achava melhor a gente voltar só mais tarde.
- Que qué isso, ô Djalma? Não vou entrar na minha casa, agora? Sem chance, meu camarada. Pode pôr a geringonça pra acelerar.
O resignado Djalma fez o que o patrão mandou. E até que eles entraram sem maiores problemas, que o vidro preto não deixava ver dentro nem se tivesse pegando fogo. Mas foi pisar dentro de casa que o Dr. Sebastião não teve mesmo mais sossego. Ligava síndico, ligava vizinho, ligava repórter. Até aquele vereador que lhe havia quebrado o galho no episódio de uns terreninhos invadidos ali na área da sua jurisdição telefonou pra pedir que ele atendesse o tal apresentador. “Afinal, o senhor sabe, o homem agora é o deputado mais votado. E do meu partido! O senhor entende que a gente tem alguns compromissos...” Não teve jeito. Ficou acertado que seria permitida a sua entrada acompanhado de dois clientes queixosos do tratamento que vinham obtendo da Bica D'Água Seguros. E o câmera, naturalmente. Só pra dialogar, ninguém ali queria confusão, que afinal de contas é conversando que a gente se entende. E assim foi feito, ao vivo, diante de milhares e milhares de espectadores ferrados na audiência.
- Seu Jonahtan, qual a reclamação que o senhor tem a dirigir contra a empresa dirigida aí pelo Seu Sebatião?
- Olha, Seu Céllio, o senhor sabe como funciona esse negócio, num sabe? Tem que ser na base da confiança. Ou então não dá. Igual médico, padre, garçom de butiquim...
- Mas, afinal, Seu Jonahtan, o telespectador quer saber o que está havendo na realidade.
- Olha, no início, mil maravilhas. A gente pagava a mensalidade e adeus preocupações, cervejinha no butiquim até meia-noite, portão sem cadeado, carro parado de janela aberta. O cachorro morreu de velhinho e eu nem quis outro, que as meninas já tão grandes e o senhor sabe o que é chegar em casa meia-noite com umas três além da faixa de contenção e dar com aqueles olhos pidões clamando por uma voltinha pra aliviar as necessidades? Até a patroa andava mais relaxada, ficava no carteado na casa da vizinha, nem aparecia mais no Vira Três pra me resgatar. Até o dia em que a minha sogra foi roubada na esquina de casa. Preencheu no site o formulário de reclamação. Três vezes. No telefone, após meia hora, disque dois, disque nove, disque quatro, desistiu. Quis fazer a reclamação pessoalmente, mas em nenhum lugar descobria o endereço da sede da empresa.
- Seu Jonahtan, o senhor estava em dia com o pagamento das suas mensalidades?
- Mais que em dia, seu Célio, a gente pagava até adiantado, que isso aí pra gente era mais sagrado que qualquer coisa. Tenho três filhas moças, Deus o livre! Só uma vez a gente ficou uns mesinhos no atraso, naquele ano que eu perdi o emprego, mais foi a coisa normalizar que a gente não deixou de honrar uma mensalidadezinha. Ando até com o boleto pago na carteira, que é pra qualquer eventualidade.
- O senhor tem alguma coisa a dizer S. Sebastião?
- Olha, eu não posso acompanhar pessoalmente tudo o que se passa no atendimento aos nossos clientes, mas tenho certeza que o problema aí do cidadão deve estar relacionado a uma sobrecarga dos nossos operadores, que pode ser resolvida muito facilmente. Eu pessoalmente vou encaminhar o caso dele.
- Mas e quanto à sogra assaltada?
- Olha, seu deputado, tenho certeza absoluta que deve estar havendo algum engano. Na nossa área a cobertura é total, não existem pontos cegos. Não tem roubo na nossa jurisdição. Mas, assim mesmo, como o caso é especial, pelo trabalho todo que o amizade aí teve com o caso, eu mesmo já ordenarei o ressarcimento imediato de todos os prejuízos declarados e vou verificar o que aconteceu no dia do incidente.
- Está bem pro Senhor?
- Se é assim igual ao que ele tá falando...
- Estando bom para as duas partes, Célio Burroumano pro Jornal Regional.
Mas, contrariamente ao que na hora imaginara, tudo o que não ficou foi bom pro lado do nosso segurador popular. Aquele caso morreu ali mesmo. Sebastião apurou que a desgraçada da velha foi roubada mesmo uma rua pra baixo da linha delimitadora da área de cobertura, que é que ele podia fazer? Mas pra evitar essa gritaria na porta de casa, essa algazarra que o infeliz do apresentador fazia, achou melhor não discutir e pagar o preço da tranqüilidade. Mas qual o quê... Dali pra frente foi um tal de reclamação no rádio, na tevê, o tal do Burroumano marcando em cima que até o vereador se aborreceu (que afinal, devia satisfação também aos seus clientes...), carta pro jornal. Uma delas começava assim: “Eu e minha esposa, cidadãos de bem e pagadores dos nossos impostos, estamos indignados com o tratamento dado pela seguradora Bica D'Água...” Um reclamava do site, o outro, do telefone. Até ação na justiça teve pra obrigar o Tião a se responsabilizar pelos sinistros que não estavam no contrato, cliente seqüestrado fora da jurisdição, vê se pode? As “otoridades” assustadas com a intranqüilidade que começava a se instaurar, baixaram pro malandro uma resolução dizendo que seqüestro relâmpago na área tinha que estar na cobertura. Mas seqüestro normal, dentro e fora, só pra quem tivesse o plano antigo. E a mensalidade? Tinha que ver direito esses reajustes...
A situação do Bica D'Água, malandro perigoso daquele pedaço da antiga vila operária, hoje playground dos especuladores imobiliários, dali pra frente foi só ladeira abaixo: as normatizações todas, os sinistros falsos, o percentual no negócio que ele teve de ceder pro vereador, o outro pro apresentador-deputado. Até concorrência começou a pintar, e ele já não dava conta de zelar pela fidelidade de todos os seus comandados, assediados pelas promessas da abertura de mercado, vejam só. A margem de lucro despencou, uma parte dos clientes se bandiou. Desfez-se das propriedades, voltou pra área pra cuidar de perto dos negócios, ressuscitando o velho três-oito pra comandar pessoalmente umas operações de integralização do capital desvalorizado. Mas ali já não era mais nem sombra da poderosa organização que um dia vendeu o sonho de uma cidade sem violência.
E assim foi que foi que foi. E foi. Até que um dia ninguém mais ouviu falar dele. E até – mais – quando morreu seu Joaquim e os filhos resolveram reformar o Vira Três e transformar numa moderna lanchonete, forrada de uma lajota bem bonita, com letreiro de neon: Help's...
Final borgeano: quando muitos anos depois ainda perguntavam à D. Francisca se era verdade que aquele mendigo da praça, que virava todo dia três maria-moles, se ele tinha mesmo sido um poderoso empresário da contravenção oficial, o olho da velhíssima saloia brilhava de um sorriso assim - como direi? - meio úmido.
-Vai lá, Djalma, ver que perereco é esse, que eu tou atrasado pra teleconferência.
O negrão Djalma voltou branco. A confusão era imensa, uma montanha de gente querendo entrar, a segurança segurando, a coisa já estava no nível do bate-boca e os ânimos se esquentando.
- Dotô, o negócio tá feio. Tá lá aquele homem da Tv, o Celio Burroumano, ele tá aprontando o maior banzé. Eu não queria dizer, não, mas eles querem falar é com o Sinhô...
-Tá maluco, Djalma? O que é que esses caras vão querer comigo? Sou um empresário de respeito, ora...
- Sei não, dotô, mas achava melhor a gente voltar só mais tarde.
- Que qué isso, ô Djalma? Não vou entrar na minha casa, agora? Sem chance, meu camarada. Pode pôr a geringonça pra acelerar.
O resignado Djalma fez o que o patrão mandou. E até que eles entraram sem maiores problemas, que o vidro preto não deixava ver dentro nem se tivesse pegando fogo. Mas foi pisar dentro de casa que o Dr. Sebastião não teve mesmo mais sossego. Ligava síndico, ligava vizinho, ligava repórter. Até aquele vereador que lhe havia quebrado o galho no episódio de uns terreninhos invadidos ali na área da sua jurisdição telefonou pra pedir que ele atendesse o tal apresentador. “Afinal, o senhor sabe, o homem agora é o deputado mais votado. E do meu partido! O senhor entende que a gente tem alguns compromissos...” Não teve jeito. Ficou acertado que seria permitida a sua entrada acompanhado de dois clientes queixosos do tratamento que vinham obtendo da Bica D'Água Seguros. E o câmera, naturalmente. Só pra dialogar, ninguém ali queria confusão, que afinal de contas é conversando que a gente se entende. E assim foi feito, ao vivo, diante de milhares e milhares de espectadores ferrados na audiência.
- Seu Jonahtan, qual a reclamação que o senhor tem a dirigir contra a empresa dirigida aí pelo Seu Sebatião?
- Olha, Seu Céllio, o senhor sabe como funciona esse negócio, num sabe? Tem que ser na base da confiança. Ou então não dá. Igual médico, padre, garçom de butiquim...
- Mas, afinal, Seu Jonahtan, o telespectador quer saber o que está havendo na realidade.
- Olha, no início, mil maravilhas. A gente pagava a mensalidade e adeus preocupações, cervejinha no butiquim até meia-noite, portão sem cadeado, carro parado de janela aberta. O cachorro morreu de velhinho e eu nem quis outro, que as meninas já tão grandes e o senhor sabe o que é chegar em casa meia-noite com umas três além da faixa de contenção e dar com aqueles olhos pidões clamando por uma voltinha pra aliviar as necessidades? Até a patroa andava mais relaxada, ficava no carteado na casa da vizinha, nem aparecia mais no Vira Três pra me resgatar. Até o dia em que a minha sogra foi roubada na esquina de casa. Preencheu no site o formulário de reclamação. Três vezes. No telefone, após meia hora, disque dois, disque nove, disque quatro, desistiu. Quis fazer a reclamação pessoalmente, mas em nenhum lugar descobria o endereço da sede da empresa.
- Seu Jonahtan, o senhor estava em dia com o pagamento das suas mensalidades?
- Mais que em dia, seu Célio, a gente pagava até adiantado, que isso aí pra gente era mais sagrado que qualquer coisa. Tenho três filhas moças, Deus o livre! Só uma vez a gente ficou uns mesinhos no atraso, naquele ano que eu perdi o emprego, mais foi a coisa normalizar que a gente não deixou de honrar uma mensalidadezinha. Ando até com o boleto pago na carteira, que é pra qualquer eventualidade.
- O senhor tem alguma coisa a dizer S. Sebastião?
- Olha, eu não posso acompanhar pessoalmente tudo o que se passa no atendimento aos nossos clientes, mas tenho certeza que o problema aí do cidadão deve estar relacionado a uma sobrecarga dos nossos operadores, que pode ser resolvida muito facilmente. Eu pessoalmente vou encaminhar o caso dele.
- Mas e quanto à sogra assaltada?
- Olha, seu deputado, tenho certeza absoluta que deve estar havendo algum engano. Na nossa área a cobertura é total, não existem pontos cegos. Não tem roubo na nossa jurisdição. Mas, assim mesmo, como o caso é especial, pelo trabalho todo que o amizade aí teve com o caso, eu mesmo já ordenarei o ressarcimento imediato de todos os prejuízos declarados e vou verificar o que aconteceu no dia do incidente.
- Está bem pro Senhor?
- Se é assim igual ao que ele tá falando...
- Estando bom para as duas partes, Célio Burroumano pro Jornal Regional.
Mas, contrariamente ao que na hora imaginara, tudo o que não ficou foi bom pro lado do nosso segurador popular. Aquele caso morreu ali mesmo. Sebastião apurou que a desgraçada da velha foi roubada mesmo uma rua pra baixo da linha delimitadora da área de cobertura, que é que ele podia fazer? Mas pra evitar essa gritaria na porta de casa, essa algazarra que o infeliz do apresentador fazia, achou melhor não discutir e pagar o preço da tranqüilidade. Mas qual o quê... Dali pra frente foi um tal de reclamação no rádio, na tevê, o tal do Burroumano marcando em cima que até o vereador se aborreceu (que afinal, devia satisfação também aos seus clientes...), carta pro jornal. Uma delas começava assim: “Eu e minha esposa, cidadãos de bem e pagadores dos nossos impostos, estamos indignados com o tratamento dado pela seguradora Bica D'Água...” Um reclamava do site, o outro, do telefone. Até ação na justiça teve pra obrigar o Tião a se responsabilizar pelos sinistros que não estavam no contrato, cliente seqüestrado fora da jurisdição, vê se pode? As “otoridades” assustadas com a intranqüilidade que começava a se instaurar, baixaram pro malandro uma resolução dizendo que seqüestro relâmpago na área tinha que estar na cobertura. Mas seqüestro normal, dentro e fora, só pra quem tivesse o plano antigo. E a mensalidade? Tinha que ver direito esses reajustes...
A situação do Bica D'Água, malandro perigoso daquele pedaço da antiga vila operária, hoje playground dos especuladores imobiliários, dali pra frente foi só ladeira abaixo: as normatizações todas, os sinistros falsos, o percentual no negócio que ele teve de ceder pro vereador, o outro pro apresentador-deputado. Até concorrência começou a pintar, e ele já não dava conta de zelar pela fidelidade de todos os seus comandados, assediados pelas promessas da abertura de mercado, vejam só. A margem de lucro despencou, uma parte dos clientes se bandiou. Desfez-se das propriedades, voltou pra área pra cuidar de perto dos negócios, ressuscitando o velho três-oito pra comandar pessoalmente umas operações de integralização do capital desvalorizado. Mas ali já não era mais nem sombra da poderosa organização que um dia vendeu o sonho de uma cidade sem violência.
E assim foi que foi que foi. E foi. Até que um dia ninguém mais ouviu falar dele. E até – mais – quando morreu seu Joaquim e os filhos resolveram reformar o Vira Três e transformar numa moderna lanchonete, forrada de uma lajota bem bonita, com letreiro de neon: Help's...
Final borgeano: quando muitos anos depois ainda perguntavam à D. Francisca se era verdade que aquele mendigo da praça, que virava todo dia três maria-moles, se ele tinha mesmo sido um poderoso empresário da contravenção oficial, o olho da velhíssima saloia brilhava de um sorriso assim - como direi? - meio úmido.
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Voltando o troco - Parte II
Sebastião Oliveira é um próspero empresário do ramo de seguros. Começou pequenino, o único cliente por muito tempo foi o Seu Joaquim do Vira Três, butiquinzinho na rua sem saída que acaba atrás da escadaria que desce da avenida. Uns dizem que o nome vem dum pinguço conhecido bem antigamente no bairro que, contam, chegava de manhãzinha, virava três maria-moles e voltava pra dormir na praça até o fim do dia, na hora da segunda “refeição”. Outros dizem que é por causa da localização: passa o escadão, vira a esquerda, depois de novo e de novo. Seu Joaquim não gostava de nenhuma das versões e sua grande tristeza é que ninguém se referisse ao seu estabelecimento pelo nome de batismo: Bar e Lanches Nossa Senhora da Ajuda, com direito a nicho e oratório. Um ou outro ainda arriscava em casa, pra mulher, tentando dourar a pílula indigesta: “vou comprar cigarro no Ajuda”.
A dobradinha das terças era de primeira! E não é que a espelunca ficava abarrotada? Dona Francisca caprichava no bucho com feijão branco, muito paio, lingüiça, batata “inglesa”, azeitona preta, ovo cozido, asinha de frango, servida com arroza à grega, sim senhor. E foi bem numa terça, bem na hora do corre-corre, que o Tião Bica d'Água entrou espavorido, trepado num 38 rodado, pra tentar arrumar unzinho pra segurar as despesas urgentes. Não que fosse a primeira nem a segunda vez. Mas naquele dia Seu Joaquim veio com uma conversa mole que, na hora, ferveu a idéia do malandro, mas acabou sendo o início de uma nova vida, menos arriscada, menos aflita, mas muito mais cheia de responabilidades. Afinal, o que parecia 171 do português maluco, acabou por se tornar um pioneiro empreendimento logo popularizado entre a clientela dos mais variados setores da sociedade local.
Naquele tempo, personal era a palavra de ordem na área! O Oswaldão, professor de ginástica do Grupo, virou trainer; a dona Maricotinha, costureira, stylist. E a coisa ia de vento em popa pra quem não se deixasse ficar pra trás, porque, afinal de contas, o bairro se modernizava, aquelas casas velhas todas, com aquele monte de tábuas no teto e no assoalho, dando lugar aos modernos apartamentos de vidro e concreto. Cada prédio, uma beleza! Park of Princess, Spazzio della Fontana, Silver Gardens... Quem diria, aquela vila cheia de galpão de fábrica!? A idéia do português foi comprada pelo Tião, que em pouco tempo botou a coisa pra funcionar. E como funcionava! De início, teve trabalho, precisou usar de toda sua reputação na área, botar respeito, fazer correr uns manguinhas-de-fora; só teve de usar “convencimento” pra valer com o João Corre-Cotia, mas o moleque, coitado, tão doido, se não caísse de bala, caía de bagulho. Ou na mão de fornecedor, que já andava mais enrolado que linha de pipa em lata de óleo. Depois, foi uma belezura só! Seu Joaquim satisfeito, não precisava mais passar incerteza, até podia fechar o bar mais tarde, as receitas aumentaram. Os comerciantes em volta gostaram da coisa e engrossaram a carteira de clientes. Aí já tava bem mais fácil pro ex-malandro, era raro aparecer um “sinistro” pra resolver. Quando os moradores começaram a querer aderir, Sebastião colocou duas meninas de sua estrita confiança pra vender os planos de porta em porta, que a freguesia merecia um conforto, sacomé?
A coisa no bairro andava que nem rolimã em ladeira asfaltada. Moradores satisfeitos, o comércio local faturando mais, Sebastião enchendo as burras. Virou padrinho do Águia da Baixada, agremiação semi-secular que passou a ter campinho gramado, uniforme de jogo e de treino, condução para as competições importantes, e andou até faturando o campeonato da liga barbante. As “otoridades” satisfeitas aplaudiam as iniciativas do empresário e, claro, tinham garantida uma pequena participação nos frutos da prosperidade coletiva.
Terceirização, economia aberta, personal pra cá e pra lá. A sociedade nacional respirava ares de modernidade, o que é que poderia dar errado? O mercado responderia à falta de saúde, educação, previdência social, segurança... Planos de cobertura, seguros, tudo na base do contrato, ali ó, sem aquele monte de funcionário público folgado pra atrapalhar, carimbo azul, carimbo vermelho, três vias, passa no guichê cinco. Nada disso! Tudo pela Internet, cartão magnético, disque dois para informações financeiras, quatro para novos serviços... O Dr. Sebastião não podia ficar pra trás. As empresas do grupo foram pioneiras na automatização completa. Ele foi morar num condomínio fechado numa cidade vizinha, a 15 minutos da Marginal. Do seu escritório virtual comandava a parada toda.
Mas a casa do malandro começou a cair no dia em que aquele apresentador-deputado veio bater à sua porta.
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
Voltando o troco - Parte I
"Eu lhe dei vinte mil réis pra pagar três e trezentos
Você tem que me voltar dezessete e setecentos"
(Dezessete e setecentos,
calango de Luiz Gonzaga e Miguel Lima)
- Aê, todo mundo quietinho aí que eu só quero a grana, rapidinho!
- Peraí...
- Peraí, o quê, mano??? Abre logo essa porra!
- Quero falar contigo...
- Falar o quê, Portuga, tá me estranhando?
- Não, tou te conhecendo, é por isso...
- Ô, galego, quer que eu te arrebente a fuça? Tá ligado que eu não sou de lero-lero, vamo logo!
- É que eu fui assaltado semana passada...
- Que que eu tenho com isso, mané? Semana passada não fui eu, só tou querendo a minha!
- Exatamente! Não quero mais outro, só quero ser assaltado por você!
- Como é que é, loco?
- Exclusividade! Quero que você seja meu personal assaltante...
- Qual que é, Seu Joaquim, tá querendo atrasar o meu lado? É a décima vez, tu nunca foi de me embassar? Vou acabar fazendo uma merda aqui...
- Um plano de assalto... Pago a mensalidade, você vem aqui, recebe direitinho, não precisa de revólver, incomodar a clientela, correr risco, os homens vivem por aí...
- Hã?
- E eu também não preciso ficar encarando canhão na minha cara... Aliás, tu poderias baixar esse troço e vir aqui pra trás pra gente conversar direito.
- Haannn.... E onde entra a minha parte, o Mané? Tá achando que eu sou otário?
- Você só vai prestar o seu serviço normalmente. Em vez de me assaltar toda semana, passa aqui no fim do mês e leva a tua parte. Só preciso da exclusividade.
- Cumé que é, truta?
- Seguinte: tu não podes deixar ninguém mais me assaltar. Dá aí teu jeito, a tua parte tá garantida, mas eu não estou em condições de bancar mais de um plano por mês.
- Êeeta, Portuga, até que não era má idéia...
- Se você preferir, em vez de vir aqui, pode deixar aí o boleto.
Você tem que me voltar dezessete e setecentos"
(Dezessete e setecentos,
calango de Luiz Gonzaga e Miguel Lima)
- Aê, todo mundo quietinho aí que eu só quero a grana, rapidinho!
- Peraí...
- Peraí, o quê, mano??? Abre logo essa porra!
- Quero falar contigo...
- Falar o quê, Portuga, tá me estranhando?
- Não, tou te conhecendo, é por isso...
- Ô, galego, quer que eu te arrebente a fuça? Tá ligado que eu não sou de lero-lero, vamo logo!
- É que eu fui assaltado semana passada...
- Que que eu tenho com isso, mané? Semana passada não fui eu, só tou querendo a minha!
- Exatamente! Não quero mais outro, só quero ser assaltado por você!
- Como é que é, loco?
- Exclusividade! Quero que você seja meu personal assaltante...
- Qual que é, Seu Joaquim, tá querendo atrasar o meu lado? É a décima vez, tu nunca foi de me embassar? Vou acabar fazendo uma merda aqui...
- Um plano de assalto... Pago a mensalidade, você vem aqui, recebe direitinho, não precisa de revólver, incomodar a clientela, correr risco, os homens vivem por aí...
- Hã?
- E eu também não preciso ficar encarando canhão na minha cara... Aliás, tu poderias baixar esse troço e vir aqui pra trás pra gente conversar direito.
- Haannn.... E onde entra a minha parte, o Mané? Tá achando que eu sou otário?
- Você só vai prestar o seu serviço normalmente. Em vez de me assaltar toda semana, passa aqui no fim do mês e leva a tua parte. Só preciso da exclusividade.
- Cumé que é, truta?
- Seguinte: tu não podes deixar ninguém mais me assaltar. Dá aí teu jeito, a tua parte tá garantida, mas eu não estou em condições de bancar mais de um plano por mês.
- Êeeta, Portuga, até que não era má idéia...
- Se você preferir, em vez de vir aqui, pode deixar aí o boleto.
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Morte de Zumbi
Luís da Câmara Cascudo
Na Serra da Barriga, em sua encosta oriental, viveram, sessenta e sete anos, os negros livres dos Palmares.
Tinham fugido de várias fazendas, engenhos, cidades e vilas, reunindo-se, agrupando-se derredor de chefes, fundando uma administração, um estado autônomo, defendido pelos guerreiros que eram, nas horas de paz, plantadores de roça e criadores de gado.
Elegiam vitaliciamente, um Zumbi, o Senhor da força militar e da lei tradicional.
Não havia ricos, nem pobres, nem furtos, nem injustiças. Três cercas de madeira rodeavam, numa tríplice paliçada, o casario de milhares e milhares de homens.
Ao princípio, para viver, desciam os negros armados assaltando, depredando, carregando o butiu para as atalaias de sua fortaleza de pedra inacessível.
Depois o governo nasceu e com ele a ordem; a produção regular simplificou comunicações pacíficas, em vendas e compras nos lugarejos vizinhos. Constituiu-se a família e nasceram os cidadãos palmarinos.
As plantações ficavam nos intervalos das cercas, vigiadas pelas guardas de duzentos homens, de lanças reluzentes, longas espadas e algumas armas de fogo.
No pátio central, como numa aringa africana, residia o Zumbi, o Rei naquela república negra, o primeiro governo livre em todas as terras americanas.
Ali o Zumbi distribuía justiça, exercitava as tropas, recebia festas e acompanhava o culto, religião expontânea, aculturação de catolicismo com os rituais do continente negro.
Vinte vezes, durante a existência, foram atacados, com sorte diversa, mas os Palmares resistiam, espalhando-se, divulgando-se, atraindo a esperança de todos os escravos chibateados nos eitos de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.
A república palmarina desorganizava o ritmo do trabalho escravo em toda a região. Dia a dia fugiam novos cativos, futuros soldados do Zumbi, com seu manto, sua espada e sua lança real.
Por fim, depois de investidas numerosas, em 1693, sete mil homens veteranos, comandados por grandes chefes de guerra, marcharam sobre Palmares.
Debalde o Zumbi levou suas forças ao combate, repelindo e vencendo. O inimigo recompunha-se, recebendo viveres e munições, quando os negros, sitiados, se alimentavam de furor e de vingança.
Numa manhã, todo exército atacou ao mesmo tempo, por todas as faces. As paliçadas foram cedendo, abatidas a machado, molhando-se o chão com o sangue desesperado dos negros guerreiros.
Os paulistas de Domingos Jorge Velho; Bernardo Vieira de Melo com as tropas de Olinda; Sebastião Dias com os homens de reforço - foram avançando e pagando caro cada polegada qua a espada conquistava.
Gritando e morrendo, os vencedores subiam sempre, despedaçando as resistências, derramando-se como rios impetuosos, entre as casinhas de palha, incendiando, prendendo, trucidando.
Quando a derradeira cerca se espatifou, o Zumbi correu até o ponto mais alto da serra, de onde o panorama do reino saqueado era completo e vivo. Daí, com seus companheiros, olhou o final da batalha.
Paulistas e olindenses iniciavam a caçada humana, revirando as palhoças, vencendo os últimos obstinados.
Do cimo da serra, o Zumbi brandiu a lança espelhante, e saltou para o abismo.
Seus generais o acompanharam, numa fidelidade ao Rei e ao Reino vencido.
Em alguns pontos da serra ainda estão visíveis as pedras negras das fortificações.
E vive ainda a lembrança do último Zumbi, o rei dos Palmares, o guerreiro que viveu na morte seu direito de liberdade e de heroísmo...
( in Lendas Brasileiras, Ed. Cattleya Alba, 1945. Reproduzida ilustração de Martha Pawlowna Schidrowitz constante na edição original)
sexta-feira, 17 de novembro de 2006
Jongo do Irmão Café
(Wilson Moreira e Nei Lopes)
Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!
Meu passado é africano
Teu passado também é.
Nossa cor é tão escura
Quanto chão de massapé.
Amargando igual mistura
De cachaça com fernet
Desde o tempo que ainda havia
Cadeirinha e landolé
Fomos nós que demos duro
Pro país ficar de pé!
Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!
Você, quente, queima a língua
Queima o corpo e queima o pé
Adoçado, tem delícias
De chamego e cafuné
Requentado, cria caso,
Faz zoeira e faz banzé
E também é de mesinha
De gurufa e candomblé
É por essas semelhanças
Que eu te chamo "Irmão Café"
Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!
Meu passado é africano
Teu passado também é.
Nossa cor é tão escura
Quanto chão de massapé.
Amargando igual mistura
De cachaça com fernet
Desde o tempo que ainda havia
Cadeirinha e landolé
Fomos nós que demos duro
Pro país ficar de pé!
Auê, meu irmão café!
Auê, meu irmão café!
Mesmo usdos, moídos, pilados,
vendidos, trocados, estamos de pé:
Olha nós aí, meu irmão café!
Você, quente, queima a língua
Queima o corpo e queima o pé
Adoçado, tem delícias
De chamego e cafuné
Requentado, cria caso,
Faz zoeira e faz banzé
E também é de mesinha
De gurufa e candomblé
É por essas semelhanças
Que eu te chamo "Irmão Café"
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Haja consciência
Pela primeira vez, neste ano, o novel feriado dedicado ao Dia da Consciência Negra vai ser observado pra valer nesta triste Cidade de São Paulo (a lei é de 2004, já vigorava nos dois anos passados, mas a data então caiu sábado e domingo), como já o é há muitos anos no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras. Mas, como não poderia deixar de ser, nós temos que dar ao episódio a coloração acinzentada que nos é peculiar, a nossa nota tradicional de mesquinhez e pouca identificação com os temas sensíveis para o Brasil.
O que se vê pela cidade é, em primeiro lugar, a crassa ignorância a respeito do feriado. Não me espantarei se os mais desligados aparecerem segunda-feira de paletó e gravata aqui em frente à repartição e demorarem aquela eternidade dos parvos para perceber o que estará acontecendo. Logo em seguida, a incredulidade dos que são informados: "Será mesmo?" Que poderia muito bem ser traduzido, em melhor português brasileiro paulistano: "será possível que alguma autoridade séria desse país decretaria feriado só por causa de um punhado desses crioulos?". À desconfiança segue-se a desaprovação: "Um absurdo! Isso lá é motivo pra feriado? Já trabalham tão pouco! Por isso que este país não vai pra frente!".
Maestro Kiko do Cavaco, o maior sorriso negro do samba brasileiro, ligou-me dia desses, logo de manhãzinha, indignado. Queria saber o número da lei, a data do Diário Oficial, artigo e alínea, que o patrão estava achando que isso tudo era até bacana, mas todo mundo na firma tinha que ir trabalhar, sim senhor, ora essa... A coisa é tão séria, que num país onde judeu dá presente de Natal, que beata da Igreja adora carnaval (pra fazer retiro espiritual, é claro) e que católicos, muçulmanos, umbandistas e budistas, gregos e troianos adoram curtir uma praiazinha prolongada na Sexta-feira Santa, tem gente doidinha pra trabalhar. Só pra não dar o braço a torcer. Afinal, "se a moda pega", como me disse uma indignada e zeloza senhora, "vamos ter o dia da consciência italaina, da consciência japonesa, árabe..."
Só pra se ver como o buraco ainda é muito mais embaixo. Faz tempo que o Velho avisa... Muita água ainda há de rolar até que venha a nossa Grande Noite. A luta está ainda só no começo. E como estamos carecas de saber que nosso direito de exaltar Zumbi não é colher de chá pra matar uma féria, mas conquistado a sangue e lágrimas, como são de resto todos os que hoje nos reconhecem e os que hão de ter de reconhecer, nós vamos fazer a nossa festa. No Ó do Borogodó vai ter samba de bumbo, jongo, congo, partido-alto, comida de santo, política e a benção de Mãe Sandra de Xangô. E logo de tarde, que é pra todo mundo ouvir. Vamos cantar pros Orixás e pros Ancestrais, comer baião-de-dois no dendê com camarão, beber e brincar a valer. Vamos falar de direitos e de política, vamos aprender e ver filme sobre Exu. Que nós temos mesmo é que nos fortalecer. Porque passada a festa, ou nem mesmo isso, a briga é grande e é feia. Mas nós estaremos mais fortes e mais juntos, sim, passada essa próxima segunda-feira, 20 de novembro, dia de Zumbi, saravá! Cada vez mais fortes, sim, até que a Grande Noite venha.
O que se vê pela cidade é, em primeiro lugar, a crassa ignorância a respeito do feriado. Não me espantarei se os mais desligados aparecerem segunda-feira de paletó e gravata aqui em frente à repartição e demorarem aquela eternidade dos parvos para perceber o que estará acontecendo. Logo em seguida, a incredulidade dos que são informados: "Será mesmo?" Que poderia muito bem ser traduzido, em melhor português brasileiro paulistano: "será possível que alguma autoridade séria desse país decretaria feriado só por causa de um punhado desses crioulos?". À desconfiança segue-se a desaprovação: "Um absurdo! Isso lá é motivo pra feriado? Já trabalham tão pouco! Por isso que este país não vai pra frente!".
Maestro Kiko do Cavaco, o maior sorriso negro do samba brasileiro, ligou-me dia desses, logo de manhãzinha, indignado. Queria saber o número da lei, a data do Diário Oficial, artigo e alínea, que o patrão estava achando que isso tudo era até bacana, mas todo mundo na firma tinha que ir trabalhar, sim senhor, ora essa... A coisa é tão séria, que num país onde judeu dá presente de Natal, que beata da Igreja adora carnaval (pra fazer retiro espiritual, é claro) e que católicos, muçulmanos, umbandistas e budistas, gregos e troianos adoram curtir uma praiazinha prolongada na Sexta-feira Santa, tem gente doidinha pra trabalhar. Só pra não dar o braço a torcer. Afinal, "se a moda pega", como me disse uma indignada e zeloza senhora, "vamos ter o dia da consciência italaina, da consciência japonesa, árabe..."
Só pra se ver como o buraco ainda é muito mais embaixo. Faz tempo que o Velho avisa... Muita água ainda há de rolar até que venha a nossa Grande Noite. A luta está ainda só no começo. E como estamos carecas de saber que nosso direito de exaltar Zumbi não é colher de chá pra matar uma féria, mas conquistado a sangue e lágrimas, como são de resto todos os que hoje nos reconhecem e os que hão de ter de reconhecer, nós vamos fazer a nossa festa. No Ó do Borogodó vai ter samba de bumbo, jongo, congo, partido-alto, comida de santo, política e a benção de Mãe Sandra de Xangô. E logo de tarde, que é pra todo mundo ouvir. Vamos cantar pros Orixás e pros Ancestrais, comer baião-de-dois no dendê com camarão, beber e brincar a valer. Vamos falar de direitos e de política, vamos aprender e ver filme sobre Exu. Que nós temos mesmo é que nos fortalecer. Porque passada a festa, ou nem mesmo isso, a briga é grande e é feia. Mas nós estaremos mais fortes e mais juntos, sim, passada essa próxima segunda-feira, 20 de novembro, dia de Zumbi, saravá! Cada vez mais fortes, sim, até que a Grande Noite venha.
quarta-feira, 4 de outubro de 2006
São Francisco
Enquanto consome-se o Agonizante
na soberba indelével dos suicidas
pulsa-lhe a artéria convulsa,
semovente esperança de improvável socorro
Sorte
O Rasgo infecto e purulento
escoa lágrimas, salivas e suores
escândalo vivo e berrante
na gangrena provocada, concedida: gozada
Corte
E o menor Pássaro se faz arauto
em comunhão de míngua a
sorver-lhe os pruridos de estigmas
de paixão tenaz, coragem de entrega
Forte
Visionários sonhos de redenção
sebastianas velas e preces
fome e encanto, Deus e o Diabo
incendendo ânimos julgados dormidos
Norte
Depara a razão inusitada resistência
autônoma chama de vida avessa
aos ímpetos seus mutiladores
semente desesperada do contestado porvir
Morte
(outubro/2005)
quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Samba de Dois-Dois
Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro
Esse samba é de dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, é de Dois-Dois
De dois, esse samba é de dois
Pra puxar carroça grande
É melhor um par de bois
Se juntar mulher com homem
Vai sair mais um depois
Mas quem vai com sede ao pote
Às vezes vem logo dois
É um berço pra dois filhos
Camisola de filó
É o dobro de trabalho
Desses pais eu tenho dó
Mas quando se tem gêmeos
Acho que é melhor
Que na roda da vida
Nenhum deles brinca só
Festa dos Ibejês
Dia dos Erês
Vem Dadá e Ogum
Doú chega com Neném
Tem beiju, quindim
Acaçá, mel e xerém
Caruru, xinxim
Tem pipoca, abará e aberém
Quando eles vêm, eles vêm assim
É de Dois-Dois
Crispiano vem com Crispim
É de Dois- Dois
Onde vai um vai o seu irmão
É de dois em dois
Se vem Doum, também vem Romão
É de dois em dois
Dia de Cosme e Damião
É dia de louvar Dois-Dois!
terça-feira, 26 de setembro de 2006
Testamento-libelo de partideiro
"Pra minha mulher deixo amor, sentimento
Na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo um bom exemplo
Na paz do Senhor
Deixo como herança força de vontade
Na paz do Senhor
Quem semeia amor deixa sempre saudade
Na paz do Senhor
Pros meus amigos deixo meu pandeiro
Na paz do Senhor
Honrei meus pais e amei meus irmãos
Na paz do Senhor
Aos fariseus não deixarei dinheiro
Na paz do Senhor
É... mas pros falsos amigos deixo o meu perdão
Na paz do Senhor"
(Candeia)
Ainda que demos sorte, e as sabedorias todas índias tão várias e africanas tantas puderam temperar e amalgamar esse olhar brasileiro tão privilegiado, tão mais capacitado ao entendimento dessa bagunça toda que os bichinhos de duas pernas andam perpetrando pelo mundo. Mas, apartado do povo brasileiro e mesmo, na maioria das vezes, de costas pra ele, a pequena minoria “esclarecida” segue se arvorando em dona da razão e do entendimento, em senhora dos conceitos e dos destinos. Se essa pequena casta, porém, não representa o modo de ser do brasileiro, antes tendo historicamente feito tudo para que esta singularidade não se afirmasse, não existisse, ela sempre tratou de se encastelar nos jornais e universidades, nos cargos públicos e nas “sociedades organizadas”, agindo, pensando e falando – como se pudesse! - em nome do povo brasileiro. É por isso que, via de regra, nos livros bem vendantes, seminários badalados, reuniões intermináveis, artigos de jornal não vamos encontrar o Brasil; no máximo, essa burleta grotesca urdida pelos usurpadores.
Desta minoria tristemente fazemos parte, e por mais que nos queiramos livrar, por mais que ansiemos uma vida simples e natural, pesa sobre nós a herança de soberba e prepotência que tudo quer dominar. Somos filhos de um sujeito que se definiu pensante e transcendental, independentemente de qualquer experiência concreta do mundo. De um espírito que se pretendeu absoluto, encarnação da razão e sentido da história, senhor da idéia e da existência. Carregamos em nós essa pretensão usurpadora essencial, de ser o que não somos; não de querer mais, o que seria em tese legítimo, mas sobretudo de achar que pode o mais.
O século é da grandiloqüência, das grandes causas, das decisões fundamentais (ou fundamentantes, ou fundamentalistas, como queiram). Estou sinceramente farto de carregar sobre os ombros, sozinho, o destino da humanidade. É certo que o materialismo histórico padeceu da mesma doença, do mesmo sentido totalizante, filho do século que é. Mas a dialética nos ensinou a História como experiência essencialmente coletiva, a razão como uma construção necessariamente de muitos, de todos. Toda pretensão individual é irracional e, portanto, anti-histórica! Qualquer conceito que se abriga no sujeito renuncia ao conhecimento e decreta a ditadura farsante das positividades.
A vida é difícil, tenho que me preocupar com o aquecimento global, com a camada de ozônio, com as animosidades entre judeus e árabes, com os delírios do Sr. Bush. Tudo depende de mim, a chuva ácida, a fome em Burkina-Faso, o desempenho do ataque do Palmeiras, a reforma do Judiciário, o reajuste salarial da minha categoria, de todas as categorias. Depende de mim? Depende de mim uma ova! Quer dizer, depende mas não depende. Como animal pensante e social, está afeito à minha seara de responsabilidades ter consciência do que se passa no mundo, tentar entendê-lo minimamente, cuidar dos que estão no meu entorno, agir segundo esse entendimento e esse cuidado. Não muito mais que isso.
Temos urgentemente que renunciar à pretensão de decidirmos os destinos do mundo. É imperioso reconhecermos que nossas idéias particulares sobre todas as coisas são, isoladas, prejudiciais ao funcionamento da humanidade. E elas só não estarão isoladas se conviverem, necessariamente com suas negações, pois só assim caminha a experiência humana do mundo. É por isso que todo aquele que permanece atrás do seu lap top, ditando opiniões e regras, policiando comportamentos e cobrando a adequação aos seus decretos distorcidos constrói a sua pequena ditadura particular, mãe e mantenedora de todas as formas de opressão. E é bem fácil conhecer, de longe, os pequenos ditadores. Seu discursinho conformador da realidade normalmente começa pela defesa intransigente da democracia, vale dizer, da possibilidade de cada ditaturazinha individual sobre a conformação do mundo se fazer respeitar na sua mediocridade essencial.
Sempre construí minha vida publicamente: escrevendo, debatendo, fazendo música, fazendo política, combatendo meus pequenos combates. Militando. Meus erros e acertos são conhecidos dos que se acercam de mim. Foi pública minha adolescência católica, no debate intelectual intenso e na dedicação pastoral irrestrita. Sabida minha participação na fundação do PSDB, minha proximidade participativa e atuante junto ao PT, a militância estudantil e na organização da minha categoria profissional. Os que me conhecem sabem como pus abaixo todo meu arsenal de idéias sobre a vida lendo Hume e Kant, sabem do meu marxismo arraigado, minha paixão pela teoria crítica, de tudo o que sobrevive em mim de católico, de tudo quanto busco e tento aprender no tesouro de sabedoria que campeia pelo Brasil, América Latina, África. Sabem da minha opção de engajamento filiado ao Partido Comunista, bem como todas as minhas críticas e discordâncias, que até hoje implicaram em debate e nunca dissidência. Tudo me podem imputar, menos dissimulação. Por que me cobram, então? “Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que me perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito.” (Jo 18, 20-21).
Abaixo, pois, os desvarios megalomaníacos. Quem vota no Lula não é arauto da bandalheira e nem detrator da ética na condução dos negócios públicos. O que opta pelo Alckmin não é baluarte do moralismo udenista que ele pode representar e muito menos o eleitor da Heloísa Helena é um sebastianista messiânico inimigo da liberdade sexual das mulheres. Da mesma forma que os eleitores do Cristóvão não são os salvadores do mundo, “vinde a mim as criancinhas”. São pessoas, são forças políticas, são organizações, todas absolutamente inseridas e determinadas historicamente por uma infinidade de circunscriçõess. O eleitor faz uma opção, que é política, que é histórica, que é circunstancial. Não faz um juramento de fé, não imola sua alma, não faz votos perpétuos nem promessas de fidelidade “até que a morte os separe”. Faz escolhas circunstanciadas. Os mesmos que hoje se escandalizam com a corrupção desnudada são os que ajudaram, satisfeitos, a carregar a bandeira da “honestidade” como proposta política, como traço de distinção “dos corretos”. Os mesmos de sempre, prontíssimos tanto para alardear de suas janelas a impudicícia das filhas dos vizinhos, quanto para expulsar de casa a sua própria, carregadora que se fizer do estigma do “outro”, do impuro.
Este texto, que propositadamente pode ter feições de testamento intelectual, é muito mais um salve ao bom debate das idéias e um libelo contra as pretensões totalitárias desses democratazinhos de merda, cagadores de pseudo-conceitos e regrinhas de pensamento bem comportadas. Estou farto dos covardes e enrustidos, idumentária favorita dos opressores. Sou apenas um indivíduo. Um cidadão que pensa o seu mundo com uma lógica que não é só sua, que canta os seus sentimentos com um canto que não é seu, é de muitos, é de um povo. Que cuida de sua família, ganha o seu dinheiro, cumpre razoavelmente seus deveres, tem os seus inúmeros erros e defeitos e procura combater os seus combates.
Que sabe que está lutando e que quem luta tem que estar pronto para tombar. O combatente que não tem sentimento da própria morte é um louco ou um farsante.
sexta-feira, 22 de setembro de 2006
Noite
Olho para o céu de noite aberta e sem lua. Afasto-me da varanda onde a luz da arandela teimava em me contrair as pupilas ansiosas das estrelas todas. Desde menino, a mesma angústia. Mas não será, mesmo, pela toda vida esse o desassossego? Um querer, assim, que nunca não se farta?
O Velho tanto nos prevenira, mas quem somos nós a dar ouvidos a esses tantos avisos e cuidados? Quem houvera de ter paciência para aqueles sentidos ocultos, para aquelas tramas todas urdidas a despeito e contra as evidências? Tudo sabíamos, tudo podíamos, nossos corpos e olhos e mentes, era só sair por aí devorando a vida, os saberes, os mistérios. Quais segredos nos freariam a sanha toda? Tola... Quanto sofrimento não seria poupado se tivéssemos, pelo menos, aprendido a olhar.
As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.
Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.
Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.
Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.
O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.
Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.
[para Nei Lopes]
O Velho tanto nos prevenira, mas quem somos nós a dar ouvidos a esses tantos avisos e cuidados? Quem houvera de ter paciência para aqueles sentidos ocultos, para aquelas tramas todas urdidas a despeito e contra as evidências? Tudo sabíamos, tudo podíamos, nossos corpos e olhos e mentes, era só sair por aí devorando a vida, os saberes, os mistérios. Quais segredos nos freariam a sanha toda? Tola... Quanto sofrimento não seria poupado se tivéssemos, pelo menos, aprendido a olhar.
As estrelas muitas outras agora apareceram. O Cruzeiro, as Três Marias, Orion apresentam-se na sua pujança de luzeiros-guias deste lado debaixo do Equador. Ao longe ouço já os tambores em repiques tantos quantos os infinitos pontos de luz que continuam pipocando, mais e melhor descontraio olhos e ouvidos. Evocação de noites outras. Não parece razoável serem outros os batuques se são mesmas as estrelas... Dizem-me que não estão mais ali, que aqueles ecos mortos são tão só uma visita fugaz do passado há muito esvaído. Tempo é igual ao espaço sobre a velocidade, tão evidente. Bem nos dizia o Velho, enquanto houver olhos para ver e ouvidos para ouvir, é em nós que o passado cintila e ressoa, vivo. Muito vivo.
Noite... Que tudo confunde e iguala nas suas sombras; que tanto consolou as injúrias sofridas sob a claridade violenta que tudo distinguia, separava, ordenava. Que tanto assustou os senhores temerosos da vingança da mão negra justificadora, virtuosa. Os senhores temeram a noite e temeram seus baticuns e seus luzeiros exclusivos dos seus sabedores. E os senhores nos quiseram arrancar a noite, pois os sons estacados de sua voz se fizeram insuportáveis aos ouvidos preparados para assimilar e perpetuar a ordem. Os ouvidos que puderam não ouvir o choro e o ranger de dentes não puderam com o batuques das noites quentes prenunciadoras da Grande Noite Negra de todos os atabaques e todas as estrelas.
Por tudo nos quiseram tirar a Noite; trancaram-nos nos cubículos, arrancaram-nos os couros e madeiras, quiseram impedir que os Nossos nos viessem socorrer. Porque os batuques são os mesmos, como as estrelas, e cintilam e ressoam enquanto tivermos olhos e ouvidos. E o passado que vive em nós faria viver os Nossos, com o Raio e a Espada, com o Vento e a Peste a varrer a injustiça da terra dos homens. Entre nós Eles viveriam e nos arrebatariam da claridade que nos tentou massacrar.
Proibidos, trancados, arrancados, vivemos. E vivemos porque viveu em nós, a cada dia, debaixo da claridade mais usurpadora, a nossa Pequena Noite Íntima. Dentro de cada peito negro ela viveu, e ela era toda ela, em cada um, a Grande Noite. Porque na Pequena Noite cada tambor continuou sempre a bater e cada estrela sempre a brilhar, a despeito de toda humilhação, toda violência, toda injustiça, toda... Claridade.
O Velho ensinou. Mesmo que não tenhamos dado ouvidos, agora podemos saber o quanto das noites todas, das Pequenas e da Grande, continuam a nos querer roubar. Os mesmos de sempre. Mesmo que nos tenham feito professar que as luzes que vemos são estrelas mortas e os batuques choram os que não voltarão, hoje podemos saber que é a mesma Noite que nos continuam a querer roubar. Que a sua voz ainda lhes é insuportável e que não querem que vivam os Nossos. Mas nós continuaremos resistindo, continuaremos gritando nossas Pequenas Noites por entre as claridades das horas todas. Até que a Grande Noite venha.
Os tambores já acordaram as estrelas todas, e o céu é agora uma plenitude na qual meus olhos apredidos podem se deixar. Todos os que tombaram estão lá. Estão vivos e brilham e sua voz se faz ouvir na Noite.
[para Nei Lopes]
terça-feira, 12 de setembro de 2006
Vil
Fico às vezes embasbacado ao ver que todo o pretenso avanço institucional brasileiro ainda não foi capaz de banir da vida pública certas posturas e personagens que não têm o menor pudor de encarnar publicamente os mais abjetos conceitos e sentimentos contra os quais gastamos boa parte de nossas vidas combatendo.
Uma destas grotescas figuras, albergado seguidamente por cada uma das emissoras de televisão aberta do país e agora aspirante a um cargo eletivo, é useira e vezeira em declarações desastrosas e ofensivas à dignidade da população brasileira que é, em instância final, a titular do serviço público de telecomunicações que o emprega. Trata-se do senhor que atende pelo nome Clodovil Hernandes, costureiro afamado e dublê de apresentador de televisão, atividade na qual destaca-se por colecionar uma sucessão que parece interminável de ratas, maledissências e pseudo-polêmicas de variadas ordens.
Anteontem, figurando em matéria publicada pela Folha de S. Paulo, justamente sobre os supostos candidatos "extravagantes e divertidos", no dizer da manchete, o indigitado senhor declara, ao ser perguntado sobre “qual a vantagem de ser político”: “Nenhuma. Ainda mais porque eu nasci aqui e não na Alemanha, onde tudo é melhor, a começar pela raça. Nós viemos de índios bobos, antropófagos, você não pode pretender que as coisas sejam iguais.” (o destaque, que chega a ser desnecessário, é meu)
Há pouco mais de dois anos, o mesmo senhor Clodovil, à época cumprindo a função de apresentador do programa televisivo “A Casa é Sua”, veiculado pela emissora Rede TV, no programa do dia 17 de março de 2004, referindo-se ao suposto fato de o conhecido e não menos desastrado cantor Agnaldo Timóteo ter sido impedido por fiscais da Prefeitura Municipal de São Paulo de vender seus discos como ambulante nas ruas do centro de São Paulo, proferiu o seguinte comentário, textualmente: “[Agnaldo Timóteo] tem que vender discos na rua (...) Ele vai fazer o quê? Ele vai fazer o que todo crioulo faz no Brasil? Vai virar ladrão, bandido ou o quê?” (grifos nossos) (fonte: FolhaOnline, 18/03/2004).
Este espaço e seus leitores não reclamam a escansão dos conceitos compreendidos na infamatória assertiva, que será levada a efeito nas instâncias adequadas, como já na época. Só peço, para o mal menor das instituições democráticas, entre as quais, o Congresso Nacional, do qual aspira fazer parte o “extravagante” senhor, que divulguem.
Uma destas grotescas figuras, albergado seguidamente por cada uma das emissoras de televisão aberta do país e agora aspirante a um cargo eletivo, é useira e vezeira em declarações desastrosas e ofensivas à dignidade da população brasileira que é, em instância final, a titular do serviço público de telecomunicações que o emprega. Trata-se do senhor que atende pelo nome Clodovil Hernandes, costureiro afamado e dublê de apresentador de televisão, atividade na qual destaca-se por colecionar uma sucessão que parece interminável de ratas, maledissências e pseudo-polêmicas de variadas ordens.
Anteontem, figurando em matéria publicada pela Folha de S. Paulo, justamente sobre os supostos candidatos "extravagantes e divertidos", no dizer da manchete, o indigitado senhor declara, ao ser perguntado sobre “qual a vantagem de ser político”: “Nenhuma. Ainda mais porque eu nasci aqui e não na Alemanha, onde tudo é melhor, a começar pela raça. Nós viemos de índios bobos, antropófagos, você não pode pretender que as coisas sejam iguais.” (o destaque, que chega a ser desnecessário, é meu)
Há pouco mais de dois anos, o mesmo senhor Clodovil, à época cumprindo a função de apresentador do programa televisivo “A Casa é Sua”, veiculado pela emissora Rede TV, no programa do dia 17 de março de 2004, referindo-se ao suposto fato de o conhecido e não menos desastrado cantor Agnaldo Timóteo ter sido impedido por fiscais da Prefeitura Municipal de São Paulo de vender seus discos como ambulante nas ruas do centro de São Paulo, proferiu o seguinte comentário, textualmente: “[Agnaldo Timóteo] tem que vender discos na rua (...) Ele vai fazer o quê? Ele vai fazer o que todo crioulo faz no Brasil? Vai virar ladrão, bandido ou o quê?” (grifos nossos) (fonte: FolhaOnline, 18/03/2004).
Este espaço e seus leitores não reclamam a escansão dos conceitos compreendidos na infamatória assertiva, que será levada a efeito nas instâncias adequadas, como já na época. Só peço, para o mal menor das instituições democráticas, entre as quais, o Congresso Nacional, do qual aspira fazer parte o “extravagante” senhor, que divulguem.
sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Cortejo
Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro
No paxorô de Oxalufã
Vou me amparar, Obá
Obatalá!
Me vesti de branco
Me enfeitei de fitas
Com pano-da-Costa
Fiz meu abadá
Pus no meu turbante
Uma pedro roxa
Pendurei a guia
Com meu patuá
Botei água-de-cheiro
E antes de sair pra rua
Fui pedir a benção
Ao meu Orixá
Vim de Nazaré das Farinhas
Só pra desfilar
No afoxé dos Filhos de Gandhi
Tocando o seu ijexá
Vou seguir o cortejo
Pela beira do mar
Até o pé da igreja
De pai Oxalá
No paxorô de Oxalufã
Vou me amparar, Obá
Obatalá!
quinta-feira, 31 de agosto de 2006
Descartando Descartes
"Creio na virtude do confuso. O papel do etnólogo é trasnformar as idéias claras e distintas em idéias confusas, obscuras."
(Roger Bastide)
(Roger Bastide)
terça-feira, 22 de agosto de 2006
Bahia de Todas as Esperanças
Cem por cento dos leitores pedem a volta destas mal traçadas. Não sabem é que continuo impregnado de Bahia até os ossos, e então mister não se precipitar, meu rei. Até o final do ano, três velocidades: devagar, quase parando e parado.
Quase dez anos passados, o Brasil nestes tempos tão atacado, tão solapados seus fundamentos pelos predadores de sempre, ora travestidos de mudernos e competentes governantes entreguistas do patrimônio público e da soberania nacional, devidamente comissionados, ora de baluartes do multiculturalismo tudo-é-válido-ningúem-é-de-ninguém, ora de pentecostais donos e senhores pretensos de toda a verdade e todos os caminhos (que Exu nos venha vingar!). Temia eu tivesse a terra de Todos os Santos sucumbido à frouxeza dos nossos alicerces balangantes. Mas qual o quê!
Adalgisa, que encontrei nas imediações sagradas do Opô Afonjá, de emanações de resistências jamais vincendas, mandou dizer que a Bahia tá viva ainda lá. Rio Vermelho, dez da noite, a negra mercando ainda parece um lamento que se agarra de unhas, dentes e contas ao que ainda vive e pulsa pelos becos e ladeiras. Ladeiras do Pelourinho que já não tem aquele verniz de ocasião que a Malvadeza mandou caiar - a do Carmo anda em pandarecos lamentável falta de projeto e proposta para o mais representativo acervo arquitetônico civil colonial: ficou só na perfumaria, infelizmente. Mas acima de tudo, os negros e negras esculturais seguem desfilando sua altivez e sua soberania impressionantes, senhores das ruas e dos mistérios, donos dos sons, dos passos e dos remédios nesta Cidade da Bahia.
Que continua a mais democrática, a mais miscigenada de todas as capitais brasileiras. Não só na promiscuidade tão maravilhosa de genes, credos e etnias, volúpias sempre incontidas, mas na não separação das moradias, bairros todos abrigando a variedade das classes e das culturas. Igrejas vizinhas de terreiros, prédios modernos junto às casinhas de alvenaria sem reboco, pretas de acarajés e abarás em frente ao restaurante japonês de linhas futuristas. Essa, a Bahia. A pichação de rua ostenta o arco-e-flecha de Oxóssi apontados para a igreja-franquia em frente, ladeados pelos dizeres: "não à intolerância, respeito à diversidade".
É tema para nós sempre recorrente o processo de apropriação da cultura popular pela lógica capitalista, que busca transformar tudo o que é liberdade e resistência em perpetuação dos processos de acumulação e de opressão. Dei-me conta nesta estada na cidade de Todos os Santos e Todas as Raças, que lá se operou, talvez como em nenhum outro lugar uma apropriação invertida. Impossibilitada de suprimir o âmago da própria opressão, a magnífica cultura do povo baiano transformou em seu, em único, muitas manifestações que seriam exclusivas dos dominantes. Pois é esse povo que faz da magnífica Igreja da Conceição da Praia templo de Iemanjá, do santuário Senhor Bonfim casa de seu Oxalá negro, encenando ali, mais do que um ritual de fé, uma demonstração de quem manda efetivamente nas ruas e encruzilhadas da Cidade Santa da Bahia, ignorando apelos e proibições eclesiásticas. E é nas suas ruas que esse povo canta, dança, come e reza.
Meu credo, sabeis, é que no fazer singular, nas especificidades dos modos de ser e estar no mundo é que se descortina o reino da liberdade, da autodeterminação, que presentemente se traveste em resistência, mas um dia há de ser afirmação. O grande Jorge Amado anteviu ainda nos anos 30 que a liberdade que vem da revolução dos meios produtivos, da quebra das estruturas capitalistas, convive já com essa liberdade anterior e essencial que se coloca aquém e além das estruturas econômicas de mediação social. Em seu Jubiabá, o grande romancista exalta reiteradamente a liberdade dos vagabundos, dos valentes, mendigos e desordeiros, juntamente com a sabedoria conselheira e curativa do centenário pai-de-santo, a prefigurar os domínios da atividade humana que podem ser mediados por outras categorias não-alienadas, ainda que o exercício dessa liberdade acabe finalmente por exigir a transformação das estruturas de poder, o que se dá pela luta operária. A Bahia nos ensina, pois, de qualquer forma, que nenhuma liberdade jamais existirá, se não formos sujeitos construtores do nosso próprio destino.
Vai o baiano, assim, resistindo, afirmando-se senhor de seus caminhos: nas tardes vagabundas de segunda-feira, na Ribeira; na arte afiada de Hansen Bahia, abaianadora de tudo o que se pode imaginar; nas quase-barrocas fotografias reveladoras-ocultadoras do babalaô Verger. No policial do Batalhão de Proteção ao Turista aboletado em prontidão defronte a uma viela suspeitíssima, a informar solicitamente aos interessados em saber o que encerrava aquele beco instigante e tortuoso: "aglomerado de bares ilegais, pontos de venda de drogas e objetos roubados, senhor; altamente recomendável não entrar".
Quase dez anos passados, o Brasil nestes tempos tão atacado, tão solapados seus fundamentos pelos predadores de sempre, ora travestidos de mudernos e competentes governantes entreguistas do patrimônio público e da soberania nacional, devidamente comissionados, ora de baluartes do multiculturalismo tudo-é-válido-ningúem-é-de-ninguém, ora de pentecostais donos e senhores pretensos de toda a verdade e todos os caminhos (que Exu nos venha vingar!). Temia eu tivesse a terra de Todos os Santos sucumbido à frouxeza dos nossos alicerces balangantes. Mas qual o quê!
Adalgisa, que encontrei nas imediações sagradas do Opô Afonjá, de emanações de resistências jamais vincendas, mandou dizer que a Bahia tá viva ainda lá. Rio Vermelho, dez da noite, a negra mercando ainda parece um lamento que se agarra de unhas, dentes e contas ao que ainda vive e pulsa pelos becos e ladeiras. Ladeiras do Pelourinho que já não tem aquele verniz de ocasião que a Malvadeza mandou caiar - a do Carmo anda em pandarecos lamentável falta de projeto e proposta para o mais representativo acervo arquitetônico civil colonial: ficou só na perfumaria, infelizmente. Mas acima de tudo, os negros e negras esculturais seguem desfilando sua altivez e sua soberania impressionantes, senhores das ruas e dos mistérios, donos dos sons, dos passos e dos remédios nesta Cidade da Bahia.
Que continua a mais democrática, a mais miscigenada de todas as capitais brasileiras. Não só na promiscuidade tão maravilhosa de genes, credos e etnias, volúpias sempre incontidas, mas na não separação das moradias, bairros todos abrigando a variedade das classes e das culturas. Igrejas vizinhas de terreiros, prédios modernos junto às casinhas de alvenaria sem reboco, pretas de acarajés e abarás em frente ao restaurante japonês de linhas futuristas. Essa, a Bahia. A pichação de rua ostenta o arco-e-flecha de Oxóssi apontados para a igreja-franquia em frente, ladeados pelos dizeres: "não à intolerância, respeito à diversidade".
É tema para nós sempre recorrente o processo de apropriação da cultura popular pela lógica capitalista, que busca transformar tudo o que é liberdade e resistência em perpetuação dos processos de acumulação e de opressão. Dei-me conta nesta estada na cidade de Todos os Santos e Todas as Raças, que lá se operou, talvez como em nenhum outro lugar uma apropriação invertida. Impossibilitada de suprimir o âmago da própria opressão, a magnífica cultura do povo baiano transformou em seu, em único, muitas manifestações que seriam exclusivas dos dominantes. Pois é esse povo que faz da magnífica Igreja da Conceição da Praia templo de Iemanjá, do santuário Senhor Bonfim casa de seu Oxalá negro, encenando ali, mais do que um ritual de fé, uma demonstração de quem manda efetivamente nas ruas e encruzilhadas da Cidade Santa da Bahia, ignorando apelos e proibições eclesiásticas. E é nas suas ruas que esse povo canta, dança, come e reza.
Meu credo, sabeis, é que no fazer singular, nas especificidades dos modos de ser e estar no mundo é que se descortina o reino da liberdade, da autodeterminação, que presentemente se traveste em resistência, mas um dia há de ser afirmação. O grande Jorge Amado anteviu ainda nos anos 30 que a liberdade que vem da revolução dos meios produtivos, da quebra das estruturas capitalistas, convive já com essa liberdade anterior e essencial que se coloca aquém e além das estruturas econômicas de mediação social. Em seu Jubiabá, o grande romancista exalta reiteradamente a liberdade dos vagabundos, dos valentes, mendigos e desordeiros, juntamente com a sabedoria conselheira e curativa do centenário pai-de-santo, a prefigurar os domínios da atividade humana que podem ser mediados por outras categorias não-alienadas, ainda que o exercício dessa liberdade acabe finalmente por exigir a transformação das estruturas de poder, o que se dá pela luta operária. A Bahia nos ensina, pois, de qualquer forma, que nenhuma liberdade jamais existirá, se não formos sujeitos construtores do nosso próprio destino.
Vai o baiano, assim, resistindo, afirmando-se senhor de seus caminhos: nas tardes vagabundas de segunda-feira, na Ribeira; na arte afiada de Hansen Bahia, abaianadora de tudo o que se pode imaginar; nas quase-barrocas fotografias reveladoras-ocultadoras do babalaô Verger. No policial do Batalhão de Proteção ao Turista aboletado em prontidão defronte a uma viela suspeitíssima, a informar solicitamente aos interessados em saber o que encerrava aquele beco instigante e tortuoso: "aglomerado de bares ilegais, pontos de venda de drogas e objetos roubados, senhor; altamente recomendável não entrar".
Cultura de todos os dias
Hoje é dia 22 de agosto, dia de reunir os amigos, contar histórias velhas, botar novidades em dia, como fazemos nós, velhos diretores do outrora querido Centro Acadêmico 22 de Agosto, religiosamente há mais de quinze anos. Dia também que alguém resolveu designar como o dia nacional do folclore. Abro há pouco, por acaso, a página inicial do portal UOL e logo de cara deparo a pérola: "Hoje é dia: celebre tudo o que caracteriza a cultura brasileira". Não poderia haver, com certeza, retrato mais fiel e mais preocupante dos sombrios tempos atravessados por essa nação chamada Brasil.
Fez-se razoavelmente disseminada a distinção o que se convencionou chamar "folclore" e o que se denomina "cultura popular". Não que seja de rigor, mas é útil para o que aqui queremos apresentar. Grosso modo, "folclore" é museu, ou seja, uma tentativa de se preservar um acervo a que se atribui importância histórica e de que, de outra forma, estaria fadado à degeneração. De importância inegável, é certo que se destina à preservação das coisas que já não está encampadas no dia-a-dia, por isso mesmo ameaçadas de extinção caso não se promova uma intervenção direcionada. Essa disposição consciente de preservação tem, portanto, pressupostos subjetivos e objetivos que determinam francamente a dimensão do "corte" que se vai operar na realidade representada, de modo que a referência seja sempre parcial, indireta e, de certo ponto de vista, dirigida.
"Cultura", de outra parte, é algo vivo, que exprime um jeito particular de ser e estar no mundo e de agir sobre ele. No falar, no cantar, nas histórias, na preparação dos alimentos, nos modos de morar, vestir e trabalhar, na sabedoria conselheira ou curativa, em todos os aspectos do fazer humano em que se pode revelar um determinado modo que se pode mais ou menos delinear como peculiar a um determinado grupamento humano. Esses modos de ser e fazer ao mesmo tempo determinam, por um lado, as categorias através das quais os indivíduos interagem com o mundo ao seu redor e, por outro, representam o produto coletivizado dessas interações. O campo da cultura, assim, é onde se opera magistralmente a interação dialética entre indivíduo e coletividade, de um lado, e entre passado, precisamente enquanto conjunto das realizações humanas conquistadas coletivamente, e presente, entendido como arena privilegiada aberta às novas contribuições, constantemente reinterpretada e recriada. A complexidade e a historicidade arraigadas são, pois, marcas profundas e fundamentais. Não há lugar, aqui (a não ser para as interpretações científicas, mas aí estaremos num outro plano do fazer cultural, ou "metacultural"), para as univocidades, para os cortes representativos, para as imobilizações de qualquer ordem, para as ações orientadas a finalidades a priori determinadas, sob pena de negação dessa dinâmica e dessa dialética essencial.
Percebemos, assim, a impropriedade essencial da recomendação de um dos maiores grupos da comunicação privada no país: "celebre tudo o que caracteriza a cultura brasileira". Leia-se, em outras palavras: hoje é dia de lembrar do jeito brasileiro de fazer as coisas, se der um tempinho entre uma passada no xópim, uma lanche no maquidônaldi e um filme da bloquimbuster. No momento em que eu tenho que parar o fluxo do meu dia-a-dia para pensar nas coisas que representam o Brasil, é porque essas coisas já morreram para mim há muito tempo, porque esse "brasil" só faz sentido como uma reminiscência distante que se urge preservar pelo valor histórico, quiçá sentimental. Se comer uma feijoada, ouvir um samba, ir ao futebol ou entrar num butiquim para tomar uma cerveja transformarem-se num ato de grande solenidade em homenagem ao modo brasileiro de comer, beber, cantar, então é porque eles já estarão mortos, farão parte de um passado que só tem sentido para mim como remissão historicista.
Não quero dizer com isto, absolutamente, que não sejam necessárias ações para se preservar o espaço privilegiado da manifestação da cultura popular. Muito pelo contrário, pois estamos num cenário de guerra onde as forças da padronização, do pensamento único, do estabelecimento de padrões de sociabilidade externamente em relação aos indivíduos singularmente considerados, quotidianamente envidam esforços e ações para varrer todos os vestígios de possibilidade de exercício de um fazer singular, criativo, que não aceita a pré-determinação dos modos de vida tão caros à planificação capitalista e que se constituem, é fácil perceber, no domínio por excelência da liberdade. Nessa batalha, os domínios da cultura constituídos de estruturas simbólicas delicadas são presas fáceis para a sanha predadora da univocidade anti-cultural a serviço da lógica da acumulação do capital. As intervenções para equilibrar a batalha, então, são por demais necessárias. Apenas, há que se ter sempre presente a preocupação de não imobilizar a dinâmica complexa dos processos culturais sob pretexto de preservá-los, o que equivaleria a embalsamar o fazer cultural vivo nos folclóricos museus de cera.
Fez-se razoavelmente disseminada a distinção o que se convencionou chamar "folclore" e o que se denomina "cultura popular". Não que seja de rigor, mas é útil para o que aqui queremos apresentar. Grosso modo, "folclore" é museu, ou seja, uma tentativa de se preservar um acervo a que se atribui importância histórica e de que, de outra forma, estaria fadado à degeneração. De importância inegável, é certo que se destina à preservação das coisas que já não está encampadas no dia-a-dia, por isso mesmo ameaçadas de extinção caso não se promova uma intervenção direcionada. Essa disposição consciente de preservação tem, portanto, pressupostos subjetivos e objetivos que determinam francamente a dimensão do "corte" que se vai operar na realidade representada, de modo que a referência seja sempre parcial, indireta e, de certo ponto de vista, dirigida.
"Cultura", de outra parte, é algo vivo, que exprime um jeito particular de ser e estar no mundo e de agir sobre ele. No falar, no cantar, nas histórias, na preparação dos alimentos, nos modos de morar, vestir e trabalhar, na sabedoria conselheira ou curativa, em todos os aspectos do fazer humano em que se pode revelar um determinado modo que se pode mais ou menos delinear como peculiar a um determinado grupamento humano. Esses modos de ser e fazer ao mesmo tempo determinam, por um lado, as categorias através das quais os indivíduos interagem com o mundo ao seu redor e, por outro, representam o produto coletivizado dessas interações. O campo da cultura, assim, é onde se opera magistralmente a interação dialética entre indivíduo e coletividade, de um lado, e entre passado, precisamente enquanto conjunto das realizações humanas conquistadas coletivamente, e presente, entendido como arena privilegiada aberta às novas contribuições, constantemente reinterpretada e recriada. A complexidade e a historicidade arraigadas são, pois, marcas profundas e fundamentais. Não há lugar, aqui (a não ser para as interpretações científicas, mas aí estaremos num outro plano do fazer cultural, ou "metacultural"), para as univocidades, para os cortes representativos, para as imobilizações de qualquer ordem, para as ações orientadas a finalidades a priori determinadas, sob pena de negação dessa dinâmica e dessa dialética essencial.
Percebemos, assim, a impropriedade essencial da recomendação de um dos maiores grupos da comunicação privada no país: "celebre tudo o que caracteriza a cultura brasileira". Leia-se, em outras palavras: hoje é dia de lembrar do jeito brasileiro de fazer as coisas, se der um tempinho entre uma passada no xópim, uma lanche no maquidônaldi e um filme da bloquimbuster. No momento em que eu tenho que parar o fluxo do meu dia-a-dia para pensar nas coisas que representam o Brasil, é porque essas coisas já morreram para mim há muito tempo, porque esse "brasil" só faz sentido como uma reminiscência distante que se urge preservar pelo valor histórico, quiçá sentimental. Se comer uma feijoada, ouvir um samba, ir ao futebol ou entrar num butiquim para tomar uma cerveja transformarem-se num ato de grande solenidade em homenagem ao modo brasileiro de comer, beber, cantar, então é porque eles já estarão mortos, farão parte de um passado que só tem sentido para mim como remissão historicista.
Não quero dizer com isto, absolutamente, que não sejam necessárias ações para se preservar o espaço privilegiado da manifestação da cultura popular. Muito pelo contrário, pois estamos num cenário de guerra onde as forças da padronização, do pensamento único, do estabelecimento de padrões de sociabilidade externamente em relação aos indivíduos singularmente considerados, quotidianamente envidam esforços e ações para varrer todos os vestígios de possibilidade de exercício de um fazer singular, criativo, que não aceita a pré-determinação dos modos de vida tão caros à planificação capitalista e que se constituem, é fácil perceber, no domínio por excelência da liberdade. Nessa batalha, os domínios da cultura constituídos de estruturas simbólicas delicadas são presas fáceis para a sanha predadora da univocidade anti-cultural a serviço da lógica da acumulação do capital. As intervenções para equilibrar a batalha, então, são por demais necessárias. Apenas, há que se ter sempre presente a preocupação de não imobilizar a dinâmica complexa dos processos culturais sob pretexto de preservá-los, o que equivaleria a embalsamar o fazer cultural vivo nos folclóricos museus de cera.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
Canto de amor à Bahia
Jorge Amado

Se gostas do teu marido,
na minha frente não passes...
canta o marinheiro no cais, próximo ao Mercado, em cuja calçada, como lâminas de aço, brilham os peixes ao sol. Ah! Se amas a tua cidade, se tua cidade é o Rio, Paris, Londres, ou Leningrado, Veneza de canais ou Praga de velhas torres, Pequim ou Viena, não deves passar por essa cidade da Bahia, porque um novo amor encherá teu coração. Esplêndida cidade, noiva do mar, enhora do mistério e da beleza. Nesse mar habita Yemanjá, a dos cinco nomes, e o misterioso chamado dos atabaques ressoa nas noites dos casarões sob a lua, das igrejas de ouro, das ladeiras grávidas de passado. O mistério e a beleza da cidade te envolverão, darás teu coração para jamais; jamais poderás esquecer a Bahia, o óleo de sua beleza densa te banhou, sua mágica realidade te perturbou para sempre.
No alto da montanha, na Praça Castro Alves, o poeta vigilante no monumento estende a mão libertária e aponta o mar embaixo, de um traiçoeiro azul subitamente verde, onde as velas dos saveiros se abrem ao vento numa aventura renovada cada manhã. Plantado em meio às águas, o negro forte antigo dorme um sono centenário; há muito se incorporou à paisagem, é paisagem ele mesmo e não praça de guerra. Todas as ladeiras descem para o mar de manhã cedo, mas à noite todas elas se dirigem aos candomblés, atendendo ao insistente bater dos atabaques, aos cantos nagôs saudando os santos. Mas a manhã é a hora do mar no pequeno cais do Mercado iluminado de mangas, abacaxis, abios, cajás, cajaranas, cajus, verdes melancias e das estrelas de sangue das pitangas; no cais da Feira de Água dos Meninos, onde saveiros depositam bilhas, moringas, pratos desenhados e cavalgadas de barro, bois mansos e cavalos azuis, tudo construído pelas mãos ingênuas e sábias de anônimos artesãos: na praia de Itapuão, de onde partem as jangadas de Caymmi, com Pedro Ferreira e Bento para enfrenatar “lá fora os pés-de-vento”. A manhã é a hora do mar quando os búzios dos saviros despertam Janaína cansada da noite na macumba, das dansas rituais, e ela sai de sua morada no Dique e se espalha sobre o mar, dona das águas.
E uma beleza antiga, sólida e envolvente a dessa cidade. Não nasceu de repente, foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. No Largo do Pelourinho eles eram castigados, e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. Almas penadas habitam os casarões e ficam vagando pelas escadas sujas. Nos sombrios corredores ouvem-se os ais de dor dos negros injustiçados. Libertam-se pela noite de mistérios e sobem pelas ladeiras clamando vingança. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas, os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios, Ladeira do Tabuão, Rua do Cabeça, Largo das Sete Portas, Mirante dos Aflitos, que escorre das igrejas dos santos negros, esculpidos em madeira e ferro, Xangô, Oxóssi, Ogum, Exu amedrontador, a bravia Iansã e o tétrico Omolu, que comanda a varíola. Dessa arte anônima dos santeiros negros nasceu a moderna escultura baiana, Mário Cravo, Agnalso Mirabeau. Em meio à promiscuidade da mais completa pobreza, num velho casarão, surge, inesperada, a riqueza de antigos azulejos, os poucos que ainda não foram levados pelos ricos de outras terras. Como uma figura antiga, a baiana de perfeito colo desabrochado nas rendas da bata, sentada em frente ao tabuleiro de acarajé e abará, de moqueca de aratu, de cocada e beijus. Ela é como a rainha da cidade, essa pobre negra que ganha duramente a vida. De majestosa beleza, de fala mansa e coração de bondade, riso aberto e claro, suas mão criam cada dia a arte do vatapá e do caruru, do efó e do xinxim de galinha. O bordado dos papéis que cobrem os tabuleiros recorda o papel cortado da Polônia ou da China na pureza do desenho.
O homem é imaginoso e cordial nessa terra de pimenta e brisa do mar, de mariscos e água de coco. Ele sabe as palavras sonoras e por vezes difíceis, sua fala é larga, sua voz cantante. Terra do sangue misturado, mestiça com todos os coloridos do moreno, todas as nuanças entre o branco e o negro. Negras como rainhas de tribos desaparecidas, mulatas de cintura de vespa e onduloso andar, brancas desfalecendo ao falar, nasceram todas de Moema, a que de amor morreu no mar quando a cidade apenas começara. Os pintores vêm de longe para descobrí-las, para recriar as paisagens, as casas e ruas que o homem construiu. Vêm o pintor Pancetti para a praia, a jangada e o mar; o alemão Hansen para o Bar São Miguel, de tímidas rameiras inocentes; outro alemão, Udo, para os arredores do Mercado, Rescala para as igrejas e o casario, e Carybé para a cidade inteira, para nunca mais sair. Viraram baianos, todos eles e para todo o sempre. E por mais longe que estejam, levam consigo o mistério e a beleza da Bahia.
Nem tuo é poesia apenas, e o drama explode nas ruas em enxames de crianças famintas, na multiplicação dos mendigos, na fome em terra tão rica. Nem tudo é grande tampouco, e certos homens, aventureiros vindos de todas as partes, tentam reduzir essa beleza negra e pesada, densa como óleo e profunda de mistério a proporções turísticas, e tudo fica pequeno e triste quando tocado por tais mãos. Existe uma permanente e criminosa tentativa de deformar a beleza da Bahia, sua dramática beleza centenária.
À noite o mistério aumenta. Das encruzilhadas escuras chega o eco da orquestra dos atabaques, agogõs, chocalhos, cabaças, chamando os filhos e filhas-de-santo para a festa da macumba. No céu de estrelas a lua amarela se derrama sobre o mar. Os santos descem nos terreiros, vindos das florestas da África. Os homens vão pedir saúde, dinheiro, longa vida e sobretudo amor, fidelidade de inconstantes corações. O sangue dos galos e dos bodes se derrama sobre Exu, para que ele não venha perturbar a festa dos homens. Nos cantos de rua, feitiços são colocados, afastemos nossos passos desses perigos. Na noite do mar sobe a canção do marinheiro:
Se gostas do teu marido
por que vens na minha frente
tuas ancas rebolar...?
Junto aos tabuleiros das baianas se acomodam os fregueses mais habituais para saborear mingau de puba, de milho e tapioca, sarapatel, bolo de aipim, o que há de mais gostoso para comer. Dorme a cidade baixa, menos o cais; movimenta-se a cidade alta. A música domina os homens, o ritmo negro dos batuques vem de recantos perdidos e atravessa as ruas e avenidas, acompanha os ônibus e automóveis, bate no sabgue de cada habitante. À noite o mistério aumenta e a beleza da Bahia se cobre de luar.
Essa é a minha cidade e em todas as muitas cidades que andei, eu a revi num detalhe de beleza. Nenhuma assim, tão densa e oleosa. Nenhma assim, para viver. Nela quero morrer, quando chegar o dia. Para sentir a brisa que vem do mar, ouvir à noite os atabaques e as canções dos marinheiros. A Cidade da Bahia, plantada sobre a montanha, penetrada de mar.
(in Bahia de todos os Santos: guia de ruas e mistérios, Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 61-65. Ilustração de Carlos Bastos)

Se gostas do teu marido,
na minha frente não passes...
canta o marinheiro no cais, próximo ao Mercado, em cuja calçada, como lâminas de aço, brilham os peixes ao sol. Ah! Se amas a tua cidade, se tua cidade é o Rio, Paris, Londres, ou Leningrado, Veneza de canais ou Praga de velhas torres, Pequim ou Viena, não deves passar por essa cidade da Bahia, porque um novo amor encherá teu coração. Esplêndida cidade, noiva do mar, enhora do mistério e da beleza. Nesse mar habita Yemanjá, a dos cinco nomes, e o misterioso chamado dos atabaques ressoa nas noites dos casarões sob a lua, das igrejas de ouro, das ladeiras grávidas de passado. O mistério e a beleza da cidade te envolverão, darás teu coração para jamais; jamais poderás esquecer a Bahia, o óleo de sua beleza densa te banhou, sua mágica realidade te perturbou para sempre.
No alto da montanha, na Praça Castro Alves, o poeta vigilante no monumento estende a mão libertária e aponta o mar embaixo, de um traiçoeiro azul subitamente verde, onde as velas dos saveiros se abrem ao vento numa aventura renovada cada manhã. Plantado em meio às águas, o negro forte antigo dorme um sono centenário; há muito se incorporou à paisagem, é paisagem ele mesmo e não praça de guerra. Todas as ladeiras descem para o mar de manhã cedo, mas à noite todas elas se dirigem aos candomblés, atendendo ao insistente bater dos atabaques, aos cantos nagôs saudando os santos. Mas a manhã é a hora do mar no pequeno cais do Mercado iluminado de mangas, abacaxis, abios, cajás, cajaranas, cajus, verdes melancias e das estrelas de sangue das pitangas; no cais da Feira de Água dos Meninos, onde saveiros depositam bilhas, moringas, pratos desenhados e cavalgadas de barro, bois mansos e cavalos azuis, tudo construído pelas mãos ingênuas e sábias de anônimos artesãos: na praia de Itapuão, de onde partem as jangadas de Caymmi, com Pedro Ferreira e Bento para enfrenatar “lá fora os pés-de-vento”. A manhã é a hora do mar quando os búzios dos saviros despertam Janaína cansada da noite na macumba, das dansas rituais, e ela sai de sua morada no Dique e se espalha sobre o mar, dona das águas.
E uma beleza antiga, sólida e envolvente a dessa cidade. Não nasceu de repente, foi construída lentamente e está amassada no sangue dos escravos. No Largo do Pelourinho eles eram castigados, e das janelas dos sobradões imensos as frágeis iaiás espiavam os corpos nus cortados à chibata. Almas penadas habitam os casarões e ficam vagando pelas escadas sujas. Nos sombrios corredores ouvem-se os ais de dor dos negros injustiçados. Libertam-se pela noite de mistérios e sobem pelas ladeiras clamando vingança. É uma beleza que escorre como óleo do casario e das pedras negras de certas ruas, os nomes como poemas: Rua dos Quinze Mistérios, Ladeira do Tabuão, Rua do Cabeça, Largo das Sete Portas, Mirante dos Aflitos, que escorre das igrejas dos santos negros, esculpidos em madeira e ferro, Xangô, Oxóssi, Ogum, Exu amedrontador, a bravia Iansã e o tétrico Omolu, que comanda a varíola. Dessa arte anônima dos santeiros negros nasceu a moderna escultura baiana, Mário Cravo, Agnalso Mirabeau. Em meio à promiscuidade da mais completa pobreza, num velho casarão, surge, inesperada, a riqueza de antigos azulejos, os poucos que ainda não foram levados pelos ricos de outras terras. Como uma figura antiga, a baiana de perfeito colo desabrochado nas rendas da bata, sentada em frente ao tabuleiro de acarajé e abará, de moqueca de aratu, de cocada e beijus. Ela é como a rainha da cidade, essa pobre negra que ganha duramente a vida. De majestosa beleza, de fala mansa e coração de bondade, riso aberto e claro, suas mão criam cada dia a arte do vatapá e do caruru, do efó e do xinxim de galinha. O bordado dos papéis que cobrem os tabuleiros recorda o papel cortado da Polônia ou da China na pureza do desenho.
O homem é imaginoso e cordial nessa terra de pimenta e brisa do mar, de mariscos e água de coco. Ele sabe as palavras sonoras e por vezes difíceis, sua fala é larga, sua voz cantante. Terra do sangue misturado, mestiça com todos os coloridos do moreno, todas as nuanças entre o branco e o negro. Negras como rainhas de tribos desaparecidas, mulatas de cintura de vespa e onduloso andar, brancas desfalecendo ao falar, nasceram todas de Moema, a que de amor morreu no mar quando a cidade apenas começara. Os pintores vêm de longe para descobrí-las, para recriar as paisagens, as casas e ruas que o homem construiu. Vêm o pintor Pancetti para a praia, a jangada e o mar; o alemão Hansen para o Bar São Miguel, de tímidas rameiras inocentes; outro alemão, Udo, para os arredores do Mercado, Rescala para as igrejas e o casario, e Carybé para a cidade inteira, para nunca mais sair. Viraram baianos, todos eles e para todo o sempre. E por mais longe que estejam, levam consigo o mistério e a beleza da Bahia.
Nem tuo é poesia apenas, e o drama explode nas ruas em enxames de crianças famintas, na multiplicação dos mendigos, na fome em terra tão rica. Nem tudo é grande tampouco, e certos homens, aventureiros vindos de todas as partes, tentam reduzir essa beleza negra e pesada, densa como óleo e profunda de mistério a proporções turísticas, e tudo fica pequeno e triste quando tocado por tais mãos. Existe uma permanente e criminosa tentativa de deformar a beleza da Bahia, sua dramática beleza centenária.
À noite o mistério aumenta. Das encruzilhadas escuras chega o eco da orquestra dos atabaques, agogõs, chocalhos, cabaças, chamando os filhos e filhas-de-santo para a festa da macumba. No céu de estrelas a lua amarela se derrama sobre o mar. Os santos descem nos terreiros, vindos das florestas da África. Os homens vão pedir saúde, dinheiro, longa vida e sobretudo amor, fidelidade de inconstantes corações. O sangue dos galos e dos bodes se derrama sobre Exu, para que ele não venha perturbar a festa dos homens. Nos cantos de rua, feitiços são colocados, afastemos nossos passos desses perigos. Na noite do mar sobe a canção do marinheiro:
Se gostas do teu marido
por que vens na minha frente
tuas ancas rebolar...?
Junto aos tabuleiros das baianas se acomodam os fregueses mais habituais para saborear mingau de puba, de milho e tapioca, sarapatel, bolo de aipim, o que há de mais gostoso para comer. Dorme a cidade baixa, menos o cais; movimenta-se a cidade alta. A música domina os homens, o ritmo negro dos batuques vem de recantos perdidos e atravessa as ruas e avenidas, acompanha os ônibus e automóveis, bate no sabgue de cada habitante. À noite o mistério aumenta e a beleza da Bahia se cobre de luar.
Essa é a minha cidade e em todas as muitas cidades que andei, eu a revi num detalhe de beleza. Nenhuma assim, tão densa e oleosa. Nenhma assim, para viver. Nela quero morrer, quando chegar o dia. Para sentir a brisa que vem do mar, ouvir à noite os atabaques e as canções dos marinheiros. A Cidade da Bahia, plantada sobre a montanha, penetrada de mar.
(in Bahia de todos os Santos: guia de ruas e mistérios, Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 61-65. Ilustração de Carlos Bastos)
terça-feira, 18 de julho de 2006
Ela vestiria seu vestido tão azul
Juliana Amaral
No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul, que caindo solto sobre seu corpo pequeno desenharia os seios pontudos e as carnes ainda redondas. Traria nos olhos castanhos, grandes e assustados, o peso das encarnações todas, molhados de uma saudade antecipada. Dentro do peito agora azul haveria o coração vermelho que sabe, sempre soube, dos monstros atrás das portas e dos fantasmas sob os tapetes. No coração grande tantas prateleiras ocupadas, bagagem pesada a dela, carrega no peito seu o amor de outras tantas carnaturas, as palavras, os filhos, os homens, os sons e os ventos todos, as águas sem fim.
Sabia que chegaria o dia anunciado, a partida premeditada desde o primeiro dia, nada prenderia aqueles olhos, aquelas mãos, nem o enredo das suas palavras, nem seu corpo habilidoso e fácil, nem seus olhos tristes, nem o riso solto. Talvez a voz pudesse, vento que sai da garganta em busca do porto seguro dos ouvidos continentes, e que suspendendo o mundo longe do chão carrega seu umbigo feminino pra dentro da casa dos homens e lá fica, como uma lembrança boa, como um desejo sujo. Mas a sua voz que ele pouco quis ouvir, teia de aranha safada, rebenta diante do corpo masculino e duro deste homem que agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina.
Na sua mala que fica o fardo da mulher que tem o coração e os olhos maiores do que as pernas, a alma despudorada que quer a pequena delícia das possibilidades, e as mãos infantis que não sabem desenhar mas que adivinham o contorno do mundo. Nos bolsos do homem todos os espaços vazios, os caminhos abertos, o tempo que o convida e o espera, generoso, para ser reconstruído e mudado em movimento e cor, as linhas fugidias desembaraçadas de quem não tem nada a perder, e a solidão espreitando como um velho no canto da sala, que um dia sem mais nem menos aparece pra jantar e senta na cabeceira da mesa, depois toma a cama, o banheiro e o quintal. E guardado no altar dos dias deles vividos um por um, a vontade compartilhada e secreta, os nomes, os lugares e as alegrias que só eles conhecerão, a memória do corpo intransferível, a urgência que jamais poderá ser roubada.
No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul e ela estaria pronta, sanguínea e delicada, com seu amor tecido em doação numa mão e seu silêncio na outra, os dentes aparecendo tímidos atrás do sorriso atrapalhado, molhado do choro que cai bonito dos olhos, e sem espanto, ela entregaria a flor sobrevivente e desmanchada nascida do tormento doce do seu coração vulcânico.
Ele agora partiria simples e reto
Ele agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina. Seu corpo firme rasgaria o ar no seu caminhar assertivo e atravessaria a porta, a rua e o mundo inteiro como um punhal atravessa a pele no golpe desferido, liso, úmido e fácil, porque sabe que não é a força mas sim o jeito que penetra a faca até o fim, não é o quanto a mão aperta a empunhadura mas o tanto que o braço empurra o peso do corpo pra dentro da carne, num movimento que nasce na cintura e encerra do outro lado no vazio que começa onde termina a pele das costas.
Os olhos de menino e o gesto inquieto deles nascido anunciariam a partida. No gesto, as mãos fazedoras das linhas aonde mora o infinito, mãos que redesenhavam o corpo dedicado da mulher pequena e delimitavam seus contornos, reconstruindo de novo sua pele no ar, e definiam a largura e a altura, moldavam a cintura, as ancas, a nuca, os seios, as pernas, a boca, o sexo, que se tornavam então subita, deseperada e urgentemente seus. O mesmo gesto que dava forma ao vazio das palavras inexistentes era a voz sem corpo da sua alma sem pouso. A alma sem pouso do homem assim partiria porque era da sua natureza, porque não havia casa, ele presumia, que lhe fosse continente, e sobretudo porque o tempo o empurrava incansavelmente, o chamava, e esperava.
E haveria a mulher com seu vestido tão azul, linda como uma tarde vermelha, com os olhos tão grandes e tão doídos, tão feminina, tão insuportavelmente feminil. E teria vontade de ter de novo aquele corpo, morder as carnes macias, e ouvir a voz e afogar a cara nos cabelos, e ficar ali dentro no quente das suas coxas, no silêncio dos seus braços, no fervor das suas preces.
Ele agora partiria simples e reto como uma lâmina e atravessaria a porta e a rua como uma flecha, seus bolsos iriam vazios e seu coração iria fingindo um desprendimento que sua alma queria tanto acreditar, e o medo estaria atrás da sua orelha direita todo o tempo, mas o pânico da eternidade vestido de coragem cavalheiresca seria ainda maior do lado esquerdo, e a roda giraria então para frente, a menos que ele percebesse que bastava uma única palavra para acalmar o cavalo selvagem em seu peito de menino, uma única palavra apenas para libertar o choro de tantas infâncias.
Ele não ouviria a palavra, ele não diria nada. Seu corpo-monolito partiria com medo e coragem, não sem antes recolher embaraçado a flor ofertada, e apesar da dúvida monstruosa que inesperadamente se apossaria do seu coração masculino, ele seguiria seco e branco, levando consigo a beleza e a alegria das coisas sem importância, a certeza dos dias deles vividos um por um, e emaranhado nos seus braços livres levaria os ventos suspendidos e a água transbordada com que comporia em movimento e cor o novo sentido do mundo.
(janeiro de 2005)
Juliana Amaral é cantora, escritora e gestora de políticas públicas, pelo que sei até o momento. Nome que se guarda, quando se conhece.
No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul, que caindo solto sobre seu corpo pequeno desenharia os seios pontudos e as carnes ainda redondas. Traria nos olhos castanhos, grandes e assustados, o peso das encarnações todas, molhados de uma saudade antecipada. Dentro do peito agora azul haveria o coração vermelho que sabe, sempre soube, dos monstros atrás das portas e dos fantasmas sob os tapetes. No coração grande tantas prateleiras ocupadas, bagagem pesada a dela, carrega no peito seu o amor de outras tantas carnaturas, as palavras, os filhos, os homens, os sons e os ventos todos, as águas sem fim.
Sabia que chegaria o dia anunciado, a partida premeditada desde o primeiro dia, nada prenderia aqueles olhos, aquelas mãos, nem o enredo das suas palavras, nem seu corpo habilidoso e fácil, nem seus olhos tristes, nem o riso solto. Talvez a voz pudesse, vento que sai da garganta em busca do porto seguro dos ouvidos continentes, e que suspendendo o mundo longe do chão carrega seu umbigo feminino pra dentro da casa dos homens e lá fica, como uma lembrança boa, como um desejo sujo. Mas a sua voz que ele pouco quis ouvir, teia de aranha safada, rebenta diante do corpo masculino e duro deste homem que agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina.
Na sua mala que fica o fardo da mulher que tem o coração e os olhos maiores do que as pernas, a alma despudorada que quer a pequena delícia das possibilidades, e as mãos infantis que não sabem desenhar mas que adivinham o contorno do mundo. Nos bolsos do homem todos os espaços vazios, os caminhos abertos, o tempo que o convida e o espera, generoso, para ser reconstruído e mudado em movimento e cor, as linhas fugidias desembaraçadas de quem não tem nada a perder, e a solidão espreitando como um velho no canto da sala, que um dia sem mais nem menos aparece pra jantar e senta na cabeceira da mesa, depois toma a cama, o banheiro e o quintal. E guardado no altar dos dias deles vividos um por um, a vontade compartilhada e secreta, os nomes, os lugares e as alegrias que só eles conhecerão, a memória do corpo intransferível, a urgência que jamais poderá ser roubada.
No dia da sua partida ela vestiria seu vestido tão azul e ela estaria pronta, sanguínea e delicada, com seu amor tecido em doação numa mão e seu silêncio na outra, os dentes aparecendo tímidos atrás do sorriso atrapalhado, molhado do choro que cai bonito dos olhos, e sem espanto, ela entregaria a flor sobrevivente e desmanchada nascida do tormento doce do seu coração vulcânico.
Ele agora partiria simples e reto
Ele agora partiria simples e reto como uma flecha, como uma espada, ou antes como uma lâmina. Seu corpo firme rasgaria o ar no seu caminhar assertivo e atravessaria a porta, a rua e o mundo inteiro como um punhal atravessa a pele no golpe desferido, liso, úmido e fácil, porque sabe que não é a força mas sim o jeito que penetra a faca até o fim, não é o quanto a mão aperta a empunhadura mas o tanto que o braço empurra o peso do corpo pra dentro da carne, num movimento que nasce na cintura e encerra do outro lado no vazio que começa onde termina a pele das costas.
Os olhos de menino e o gesto inquieto deles nascido anunciariam a partida. No gesto, as mãos fazedoras das linhas aonde mora o infinito, mãos que redesenhavam o corpo dedicado da mulher pequena e delimitavam seus contornos, reconstruindo de novo sua pele no ar, e definiam a largura e a altura, moldavam a cintura, as ancas, a nuca, os seios, as pernas, a boca, o sexo, que se tornavam então subita, deseperada e urgentemente seus. O mesmo gesto que dava forma ao vazio das palavras inexistentes era a voz sem corpo da sua alma sem pouso. A alma sem pouso do homem assim partiria porque era da sua natureza, porque não havia casa, ele presumia, que lhe fosse continente, e sobretudo porque o tempo o empurrava incansavelmente, o chamava, e esperava.
E haveria a mulher com seu vestido tão azul, linda como uma tarde vermelha, com os olhos tão grandes e tão doídos, tão feminina, tão insuportavelmente feminil. E teria vontade de ter de novo aquele corpo, morder as carnes macias, e ouvir a voz e afogar a cara nos cabelos, e ficar ali dentro no quente das suas coxas, no silêncio dos seus braços, no fervor das suas preces.
Ele agora partiria simples e reto como uma lâmina e atravessaria a porta e a rua como uma flecha, seus bolsos iriam vazios e seu coração iria fingindo um desprendimento que sua alma queria tanto acreditar, e o medo estaria atrás da sua orelha direita todo o tempo, mas o pânico da eternidade vestido de coragem cavalheiresca seria ainda maior do lado esquerdo, e a roda giraria então para frente, a menos que ele percebesse que bastava uma única palavra para acalmar o cavalo selvagem em seu peito de menino, uma única palavra apenas para libertar o choro de tantas infâncias.
Ele não ouviria a palavra, ele não diria nada. Seu corpo-monolito partiria com medo e coragem, não sem antes recolher embaraçado a flor ofertada, e apesar da dúvida monstruosa que inesperadamente se apossaria do seu coração masculino, ele seguiria seco e branco, levando consigo a beleza e a alegria das coisas sem importância, a certeza dos dias deles vividos um por um, e emaranhado nos seus braços livres levaria os ventos suspendidos e a água transbordada com que comporia em movimento e cor o novo sentido do mundo.
(janeiro de 2005)
Juliana Amaral é cantora, escritora e gestora de políticas públicas, pelo que sei até o momento. Nome que se guarda, quando se conhece.
segunda-feira, 17 de julho de 2006
Forró de Mané Vito
Luiz Gonzaga e Zé Dantas
Seu delegado
Digo a Vossa Senhoria
Eu sou fio d’uma famia
Qui num gosta de fuá
Mas trasantonte
No forró de Mané Vito
Tive que fazê bonito
A razão vô lhe explicá:
Bitola no ganzá
Preá no reco-reco
Na sanfona Zé Marreco
Se danaro pra tocá
Daqui pr’ali, pra’lá
Dançava cum Rosinha
Quando Zeca de Si'Aninha
Me proíbe de dançá.
Seu delegado
Sem increnca eu num brigo
Se ninguém buli comigo
Num sô home pra brigá.
Mas nessa festa,
Seu doutô, perdi a carma
Tive que pegá nas arma
Pois num gosto de apanhá
Pra Zeca se assombrá
Mandei pará o fole
Mas o cabra não é mole
Quis partir pra me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Botei tudo pro terreiro
Fiz o samba se acabá
[pro Zé Sérgio]
Seu delegado
Digo a Vossa Senhoria
Eu sou fio d’uma famia
Qui num gosta de fuá
Mas trasantonte
No forró de Mané Vito
Tive que fazê bonito
A razão vô lhe explicá:
Bitola no ganzá
Preá no reco-reco
Na sanfona Zé Marreco
Se danaro pra tocá
Daqui pr’ali, pra’lá
Dançava cum Rosinha
Quando Zeca de Si'Aninha
Me proíbe de dançá.
Seu delegado
Sem increnca eu num brigo
Se ninguém buli comigo
Num sô home pra brigá.
Mas nessa festa,
Seu doutô, perdi a carma
Tive que pegá nas arma
Pois num gosto de apanhá
Pra Zeca se assombrá
Mandei pará o fole
Mas o cabra não é mole
Quis partir pra me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Botei tudo pro terreiro
Fiz o samba se acabá
[pro Zé Sérgio]
quarta-feira, 12 de julho de 2006
De brasileiros e jornalistas
ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio V
"Na minha infância, havia primeiro o Correio da Manhã, um jornalaço. E havia A Noite, que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. A Noite era um jornal amado. O sujeito comprava A Noite disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: 'Morreu cantando' . O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.
A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.
O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental.
O brasileiro é um tipo gozadíssimo. O diabo é que o brasileiro não pode se esforçar muito porque, senão, cai na chanchada trágica. O brasileiro é um sujeito que gosta de fazer farra, é um desses que, em pleno velório, põe a mão na viúva. E a viúva é também um caso sério porque este negócio de viúva vocacional é um fato. Há realmente um repertório sensacional de casos. O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro. Houve um tempo em que nem o Departamento de Pesquisa do "Jornal do Brasil" sabia quem era o brasileiro.Mas se um sujeito se apresentava como brasileiro, as pessoas de bem respondiam: 'Não te conheço!'. E muitos duvidavam que o Pão de Açúcar ou o poente do Leblon fossem brasileiros.
O remédio para isso? Nunca. Para isso não há remédio. Veja que o Brasil ganhou três vezes o campeonato mundial. Se ganhou três vezes, e se o brasileiro não fosse o otário que é, estava tudo salvo, tudo salvo. Ganhou três vezes no futebol, feito como esse ninguém teve e não se conhece isso. O brasileiro tem virtudes. É bom fazer uma ressalva nesses defeitos que digo. Diz o nosso João Saldanha : 'O Brasil fez seu jogo,jogo brasileiro'. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um.
Diga-se de passagem que eu considero o brasileiro o maior sujeito do mundo. O europeu já está esgotado. O europeu tem na casa dele pires de mil anos. Escadas de mil anos. Tudo é velho pra burro. [...] Como se não bastasse a padronização de caras, corpos, costumes, usos, idéias, valores, há também a estandardização da paisagem. Tudo prodigiosamente igual. É trágica a falta de imaginação da paisagem no país desenvolvido. O desenvolvimento é burro, ao passo que o subdesenvolvimento pode tentar um livre, desesperado, exclusivo projeto de vida."
(Nelson Rodrigues*)
* texto remontado a partir de trechos pinçados da entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto - clique para ler a íntegra)
"Na minha infância, havia primeiro o Correio da Manhã, um jornalaço. E havia A Noite, que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. A Noite era um jornal amado. O sujeito comprava A Noite disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: 'Morreu cantando' . O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.
A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.
O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental.
O brasileiro é um tipo gozadíssimo. O diabo é que o brasileiro não pode se esforçar muito porque, senão, cai na chanchada trágica. O brasileiro é um sujeito que gosta de fazer farra, é um desses que, em pleno velório, põe a mão na viúva. E a viúva é também um caso sério porque este negócio de viúva vocacional é um fato. Há realmente um repertório sensacional de casos. O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro. Houve um tempo em que nem o Departamento de Pesquisa do "Jornal do Brasil" sabia quem era o brasileiro.Mas se um sujeito se apresentava como brasileiro, as pessoas de bem respondiam: 'Não te conheço!'. E muitos duvidavam que o Pão de Açúcar ou o poente do Leblon fossem brasileiros.
O remédio para isso? Nunca. Para isso não há remédio. Veja que o Brasil ganhou três vezes o campeonato mundial. Se ganhou três vezes, e se o brasileiro não fosse o otário que é, estava tudo salvo, tudo salvo. Ganhou três vezes no futebol, feito como esse ninguém teve e não se conhece isso. O brasileiro tem virtudes. É bom fazer uma ressalva nesses defeitos que digo. Diz o nosso João Saldanha : 'O Brasil fez seu jogo,jogo brasileiro'. Vocês entendem ? Não há mistério. O brasileiro é assim. Quando um de nós se esquece da própria identidade, ganha de qualquer um.
Diga-se de passagem que eu considero o brasileiro o maior sujeito do mundo. O europeu já está esgotado. O europeu tem na casa dele pires de mil anos. Escadas de mil anos. Tudo é velho pra burro. [...] Como se não bastasse a padronização de caras, corpos, costumes, usos, idéias, valores, há também a estandardização da paisagem. Tudo prodigiosamente igual. É trágica a falta de imaginação da paisagem no país desenvolvido. O desenvolvimento é burro, ao passo que o subdesenvolvimento pode tentar um livre, desesperado, exclusivo projeto de vida."
(Nelson Rodrigues*)
* texto remontado a partir de trechos pinçados da entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto - clique para ler a íntegra)
terça-feira, 11 de julho de 2006
Da morte da simplicidade
ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio IV
"Foi tudo sem alarde, sem escândalo. Foi tudo brasileiro. E dou decisão: essa pompa, essa empáfia dessa merda aí não tem nada de Brasil."
(Aldir Blanc)
"Foi tudo sem alarde, sem escândalo. Foi tudo brasileiro. E dou decisão: essa pompa, essa empáfia dessa merda aí não tem nada de Brasil."
(Aldir Blanc)
segunda-feira, 10 de julho de 2006
Da morte da liberdade
ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio III
"A constatação de Marx acerca do trabalho na fábrica, segundo o qual 'o próprio indivíduo é dividido, transformado em engrenagem automática de um trabalho fragmentado' e, desse modo, 'atrofiado até se tornar uma anomalia', verifica-se aqui de modo tão mais evidente quanto mais elevados, avançados e 'intelectuais' forem os resultados exigidos por essa divisão do trabalho. A separação da força de trabalho e da personalidade do operário, sua metamorfose numa coisa, num objeto que o operário vende num mercado, repete-se igualmente aqui. Porém, com a diferença de que nem toda a faculdade mental é suprimida pela mecanização; apenas uma faculdade ou um complexo de faculdades destaca-se do conjunto da personalidade e se coloca em oposição a ela, tornando-se uma coisa, uma mercadoria. Ainda que os meios de seleção social de tais faculdades e seu valor de troca material e "moral" sejam fundamentalmente diferentes daqueles da força de trabalho (não se deve esquecer, aliás, a grande série de elos intermediários, de transições insensíveis), o fenômeno fundamental permanece o mesmo. O gênero específico de 'probidade' e objetividade burocráticas, a submissão necessária e total do burocrata individual a um sistema de relações entre coisas, a idéia de que são precisamente sua 'honra' e seu 'senso de responsabilidade' que exigem dele semelhante submissão, tudo isso mostra que a divisão do trabalho penetrou na 'ética' - tal como, no taylorismo, penetrou no 'psíquico'. Isso não é, todavia, um abrandamento, mas, ao contrário, um reforço da estrutura reificada da consciência como categoria fundamental para toda a sociedade. [...] E o 'virtuose' especialista, o vendedor de suas faculdades espirituais objetivadas e coisificadas, não somente se torna um espectador do devir social [...], mas também assume uma atitude contemplativa em relação ao funcionamento de suas próprias faculdades objetivadas e coisificadas. Essa estrutura mostra-se em seus traços mais grotescos no jornalismo, em que justamente a própria subjetividade, o saber, o temperamento, a faculdade de expressão tornam-se um mecanismo abstrato, independente tanto da personalidade do 'proprietário' como da essência material e concreta dos objetos em questão, e que é colocado em movimento segundo leis próprias. A 'ausência de convicção' dos jornalistas, a prostituição de suas experiências e convicções só podem ser compreendidas como ponto culminante da reificação capitalista." (sem sublinhado no original)
(Georg Lukács*)
*in História e consciência de classe, São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 220-222
"A constatação de Marx acerca do trabalho na fábrica, segundo o qual 'o próprio indivíduo é dividido, transformado em engrenagem automática de um trabalho fragmentado' e, desse modo, 'atrofiado até se tornar uma anomalia', verifica-se aqui de modo tão mais evidente quanto mais elevados, avançados e 'intelectuais' forem os resultados exigidos por essa divisão do trabalho. A separação da força de trabalho e da personalidade do operário, sua metamorfose numa coisa, num objeto que o operário vende num mercado, repete-se igualmente aqui. Porém, com a diferença de que nem toda a faculdade mental é suprimida pela mecanização; apenas uma faculdade ou um complexo de faculdades destaca-se do conjunto da personalidade e se coloca em oposição a ela, tornando-se uma coisa, uma mercadoria. Ainda que os meios de seleção social de tais faculdades e seu valor de troca material e "moral" sejam fundamentalmente diferentes daqueles da força de trabalho (não se deve esquecer, aliás, a grande série de elos intermediários, de transições insensíveis), o fenômeno fundamental permanece o mesmo. O gênero específico de 'probidade' e objetividade burocráticas, a submissão necessária e total do burocrata individual a um sistema de relações entre coisas, a idéia de que são precisamente sua 'honra' e seu 'senso de responsabilidade' que exigem dele semelhante submissão, tudo isso mostra que a divisão do trabalho penetrou na 'ética' - tal como, no taylorismo, penetrou no 'psíquico'. Isso não é, todavia, um abrandamento, mas, ao contrário, um reforço da estrutura reificada da consciência como categoria fundamental para toda a sociedade. [...] E o 'virtuose' especialista, o vendedor de suas faculdades espirituais objetivadas e coisificadas, não somente se torna um espectador do devir social [...], mas também assume uma atitude contemplativa em relação ao funcionamento de suas próprias faculdades objetivadas e coisificadas. Essa estrutura mostra-se em seus traços mais grotescos no jornalismo, em que justamente a própria subjetividade, o saber, o temperamento, a faculdade de expressão tornam-se um mecanismo abstrato, independente tanto da personalidade do 'proprietário' como da essência material e concreta dos objetos em questão, e que é colocado em movimento segundo leis próprias. A 'ausência de convicção' dos jornalistas, a prostituição de suas experiências e convicções só podem ser compreendidas como ponto culminante da reificação capitalista." (sem sublinhado no original)
(Georg Lukács*)
*in História e consciência de classe, São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 220-222
sexta-feira, 7 de julho de 2006
Da morte da crítica
ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio II
"Na expressão desses hábitos [sociais] de pensar, a tensão entre aparência e realidae, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e limitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem. A locução é privada das mediações que são as etapas do processo de cognição e avaliação cognitiva. Os conceitos que compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes, estão perdendo sua representação lingüística autêntica. Sem tais mediações, a linguagem tende a expressar e a promover a identificação imediata da razão e do fato, da verdade e da verdade estabelecida, da essência e da existência.
Essas identificações, que aparecem como uma particularidade do operacionalismo, reaparecem como características da locução no comportamento social. Aqui, a funcionalização da linguagem ajuda a repelir os elementos não-conformistas da estrutura e do movimento da palavra. O vocabulário e a sintaxe são igualmente afetados. A sociedade expressa as suas exigências diretamente no material lingüístico, mas não sem oposição; a linguagem popular ataca com humor rancoroso e desafiador a locução oficial e semi-oficial. A gíria e a linguagem familiar raramente se mostraram tão criadoras. É como se o homem comum (ou seu porta-voz anônimo) reafirmasse sua natureza em sua palavra, contra os poderes existentes, como se a rejeição e a revolta, subjugadas na esfera política, explodissem no vocabulário que dá às coisas seus verdadeiros nomes [...]
Contudo, os laboratórios da defesa, os gabinetes dos diretores, os Governos e as máquinas, os controladores de ponto e os gerentes, os técnicos em eficiência funcional, os salões de beleza dos políticos (que garantem aos líderes a maquilagem apropriadas) falam uma linguagem diferente e, portanto, parece ser deles a última palavra. É a palavra que ordena e organiza, que induz as pessoas a fazerem coisas, comprar e aceitar. É transmitida num estilo que é criação lingüística autêntica; uma sintaxe na qual a estrutura da sentença é abreviada e condensada, de modo que não é deixada tensão alguma, "espaço" algum entre as partes da sentença. Essa forma lingüística milita contra o desenvolvimento do significado. [...]
... [A] funcionalização da linguagem expressa uma condensação de significado que tem uma conotação política. [...]
Nos pontos nodais da locução pública aparecem proposições analíticas auto-validantes que funcionam como fórmulas mágico-rituais. Marteladas e remasteladas na mente do receptor, produzem o efeito de incluí-la no círculo de condições prescritas pela fórmula."
(Herbert Marcuse*)
* in A Ideologia da Sociedade Industrial, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp. 93-95)
"Na expressão desses hábitos [sociais] de pensar, a tensão entre aparência e realidae, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e limitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem. A locução é privada das mediações que são as etapas do processo de cognição e avaliação cognitiva. Os conceitos que compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes, estão perdendo sua representação lingüística autêntica. Sem tais mediações, a linguagem tende a expressar e a promover a identificação imediata da razão e do fato, da verdade e da verdade estabelecida, da essência e da existência.
Essas identificações, que aparecem como uma particularidade do operacionalismo, reaparecem como características da locução no comportamento social. Aqui, a funcionalização da linguagem ajuda a repelir os elementos não-conformistas da estrutura e do movimento da palavra. O vocabulário e a sintaxe são igualmente afetados. A sociedade expressa as suas exigências diretamente no material lingüístico, mas não sem oposição; a linguagem popular ataca com humor rancoroso e desafiador a locução oficial e semi-oficial. A gíria e a linguagem familiar raramente se mostraram tão criadoras. É como se o homem comum (ou seu porta-voz anônimo) reafirmasse sua natureza em sua palavra, contra os poderes existentes, como se a rejeição e a revolta, subjugadas na esfera política, explodissem no vocabulário que dá às coisas seus verdadeiros nomes [...]
Contudo, os laboratórios da defesa, os gabinetes dos diretores, os Governos e as máquinas, os controladores de ponto e os gerentes, os técnicos em eficiência funcional, os salões de beleza dos políticos (que garantem aos líderes a maquilagem apropriadas) falam uma linguagem diferente e, portanto, parece ser deles a última palavra. É a palavra que ordena e organiza, que induz as pessoas a fazerem coisas, comprar e aceitar. É transmitida num estilo que é criação lingüística autêntica; uma sintaxe na qual a estrutura da sentença é abreviada e condensada, de modo que não é deixada tensão alguma, "espaço" algum entre as partes da sentença. Essa forma lingüística milita contra o desenvolvimento do significado. [...]
... [A] funcionalização da linguagem expressa uma condensação de significado que tem uma conotação política. [...]
Nos pontos nodais da locução pública aparecem proposições analíticas auto-validantes que funcionam como fórmulas mágico-rituais. Marteladas e remasteladas na mente do receptor, produzem o efeito de incluí-la no círculo de condições prescritas pela fórmula."
(Herbert Marcuse*)
* in A Ideologia da Sociedade Industrial, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp. 93-95)
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Rio de Lágrimas
Tião Carreiro, Lourival dos Santos e Piraci
O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro
Só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos
Já formou água corrente
Pertinho da minha casa
Já formou um lagoa
Com lágrimas dos meus olhos
Por causa de uma pessoa
O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Eu quero apanhar uma rosa
Minha mão já não alcança
Eu choro desesperado
Igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore
Pela dor de uma saudade
Eu quero ver quem não chora
Quando ama de verdade
[pro Edu]
O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro
Só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos
Já formou água corrente
Pertinho da minha casa
Já formou um lagoa
Com lágrimas dos meus olhos
Por causa de uma pessoa
O Rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Eu quero apanhar uma rosa
Minha mão já não alcança
Eu choro desesperado
Igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore
Pela dor de uma saudade
Eu quero ver quem não chora
Quando ama de verdade
[pro Edu]
Da morte da objetividade
ou Entendendo os amigos do Zé Sérgio
"Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto."
(Jean Baudrillard)
"Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto."
(Jean Baudrillard)
terça-feira, 4 de julho de 2006
Apito final
Apesar de ter prometido parar de brigar depois do texto que escrevi, em boa hora, antes da eliminação da seleção brasileira, na prática não foi o que se deu. Porque a ignorância da classezinha pseudo-elitista que olha para o futebol a cada quatro anos, o "patriotismo" dos grandes brasileiros que gastaram R$ 30 mil para assistir a Copa in loco e depois queimaram publicamente a bandeira do Brasil, e o corporativismo de alguns que sabem tão bem denunciar a falta de empenho de jogadores de futebol, mas tem uma atroz dificuldade em reconhecer a venalidade e a incompetência emblemáticas da grande maioria de seus colegas de classe, infelizmente me tocaram os brios e tive que mandar uma meia-dúzia para as putas que lhes pariram. Assim mesmo, no plural.
Então, fecho aqui a minha orelhada em tema tão difícil de haver consenso e objetividade. Teorias há muitas para explicar a derrota; ouvi umas duas ou três bem interessantes - como a do meu cumpadre Julio Vellozo, que se quiser pode ocupar esse humilde espaço para se manifestar - e um sem número das mesmas bobagens de costume, empunhadas pelos cretinos fundamentais que dominam redações e microfones pelo país afora. Mas o fato é que, para usar uma frase que inventei hoje de manhã, futebol é bola na rede. OS DOIS TIMES entram em campo e quem conseguir colocar a "esférica" entre os três paus maior número de vezes ganha a partida. Só que nós, brasileiros, temos uma dificuldade absurda e absoluta de admitirmos a possibilidade de que alguém jogue melhor, que seja mais eficiente e ganhe a partida. Sempre tem de haver "forças ocultas", racha no elenco, problemas de relacionamento, convulsões, crises, bolhas, armações políticas, resultados forjados, o escambau, para justificar o fato simples e óbvio que no esporte às vezes se ganha e às vezes se perde.
A minha visão sobre a Copa e a seleção dei a conhecer semana passada e só quero redizer a mesma coisa por um outro lado, depois que o cenário inverteu-se por razões notórias. Reafirmo: não faltou vontade à seleção brasileira. Individualmente, se pegarmos um por um, fica fácil de ver. Peço um exercício: leiam estes nomes pausadamente e quem viu o jogo (porque muita gente faz carnaval, paquera, enche a cara, mas o jogo mesmo não vê) lembre de suas feições individuais, correndo em campo: Dida, Cafu (jogou talvez pior partida de toda a sua vida, superado física e tecnicamente em campo; mas correu 90 minutos incansavelmente e foi digno, assim como na chegada no Brasil, dando a cara a bater com a tranqüilidade de quem deu o melhor de si, mesmo que esse melhor seja menos do que se esperasse), Lúcio, Juan; Emerson, Gilberto Silva, o grande Zé Roberto (o segundo melhor da seleção, calando, inclusive, a minha boca); Adriano, Kaká, Ronaldo. Não vai entender nunca nada do que se passou quem continuar achando que esses seres humanos (são humanos, sim, a despeito de ganharem um milhão de dólares por mês, coisa difícil de se entender, ou só a Xuxa e o Faustão é que são humanos?) entram em campo como se estivessem cumprindo uma formalidade burocrática, pagando uma conta de luz na fila do banco. Eles tremem, sim, sentem cagaço, sim, nervoso, ansiedade, gana, medo, alegria, saudade, o escambau. E jogam, dentro das limitações objetivas a que já me referi.
Então vocês perguntarão: mas o que aconteceu, afinal? Porque a despeito do que possa parecer não sou um débil mental completo e sei que jogamos muito mal no sábado, muito mais mal do que seria previsível ou aceitável. E sei também que o time não chegou a empolgar no restante da competição. Três fatores, em minha opinião: 1) A falta de carisma, já ventilada na semana passada, que em outras palavras pode também ser lida como a falta de lideranças capazes de superar o histórico e objetivo distanciamento entre o escrete e a nação brasileira. 2) A falta de fibra, de aguerrimento, de sangue nos olhos. Isso é muito diferente de falta de vontade. Mas não é do time, não. É do brasileiro, em geral, que talvez tenha que gastar toda a sua força de luta e dedicação pra ganhar a vida suada no dia-a-dia e não sobre muito para a política, a competição esportiva etc. Essa tão propalada falta de gana é proverbial e histórica na história político-social do Brasil e também na história de seu futebol, tirando as exceções confirmatórias de sempre. Não temos a garra argentina, a sanha uruguaia. E o que, talvez, tenha feito Pelé tão maior do que todos os outros, além de suas magistrais qualidades técnicas, tenha sido o que batizou um zagueiro adversário "seu olhar de fera acuada". 3) (decorrente do funesto somatório das duas primeiras) A falta de superação das individualidades em prol de um projeto coletivo, de um espírito de equipe, voltado obstinadamente para um único objetivo, qual seja a vitória. Uma coisa é vontade de vencer e consciência de que deve-se dar o melhor de si. Isso não faltou, repito pela enésima vez. Mas falta o que faça colocar essa vontade como projeto a ser coletivamente desenvolvido, para ser coletivamente colhido o louro do sucesso. De colocar essa vontade e esse desígnio coletivo acima de qualquer outra vontade, outro desígnio, outra vaidade ou qualquer idiossincrasia.
Repito o que desde o começo desta Copa não deixa de ser a razão primordial para eu estar metendo o bedelho nessa seara tão espinhosa: quem mais atrapalha o Brasil são os brasileiros. Melhor dizendo, meia-dúzia de "brasileiros" de meia-tijela que, EXATAMENTE COMO OS JOGADORES QUE TANTO CRITICAM, não são capazes de colocar a sua torcida por uma vitória coletiva, NACIONAL, acima de suas vaidades e de seus interesses particulares. Isso vale para os jornalistas que precisam sobreviver do tradicional "eu não avisei?"; isso vale pra essa malta de mequetrefes novos-ricos que vai à Alemanha não torcer pelo Brasil, mas vai para poder dizer pros amigos "da balada" que esteve lá "dando força" e testemunhando pessoalmente o hexa; vale para os vários maus brasileiros de plantão que apreciam tanto o estigma da derrota, para poderem justificar, por exemplo, por que não pagam impostos, por que metem a mão no dinheiro público, ou por que, simplesmente, tratam tão somente de cuidar de suas vidinhas e podem danar-se para o destino da coletividade; podem eleger seus candidatos safados para servir de despachantes de seus interesses particulares.. "Por quê, afinal, tenho que pagar imposto e me importar com o destino público, se esse povo não merece?" "Por que tenho que me preocupar com os pobres, se esses não tem caráter mesmo, como bem demonstram os ex-pobres que a elite permitiu ascendessem ao círculo dos eleitos, contanto que dessem suas pernas a quebrar e seu sangue a derramar nos gramados em honra da nação?" E por aí vai
Quero fazer uma declaração e pedir ajuda (dos meus advogados Edu Goldenberg e Marcão Gramegna, no caso): declaro para todos os fins e a quem interessar possa, que se alguém queimar uma bandeira do Brasil do meu lado por causa da derrota de sábado, da eliminação da Copa ou qualquer coisa que o valha, matarei essa pessoa com as minhas próprias mãos. E transcrevo, para ilustrar, ao fim e ao cabo, da Folha de S. Paulo de hoje : "Tão derrotados quanto a brasileira, a seleção argentina chegou anteontem a Buenos Aires. Mas houve festa para os que voltavam.[...] Com bumbos e faixas de agradecimento à campanha da equipe ('Deixaram tudo em campo. Bancamos vocês até a morte'), pediram a[o técnico] Pekelman que fique. [...] A recepção calorosa foi animada pela tônica da imprensa: 'Morremos de pé'." (destaque meu, sim senhores. Enquanto isso, os "patriotas" brasileiros que foram "receber" os jogadores no aeroporto de São Paulo, ofenderam e enxovalharam a honra do Capitão do Penta, esse lutador digno, esse símbolo do futebol brasileiro, o homem que mais defendeu o Brasil em copas. O homem que quando estava no degrau mais alto do mais alto pódio tratou de exaltar o bairro humilde, pobre e esquecido onde nasceu.
A vocês, hermanos, meus respeitos. Na bola e na vida. Um dia chegaremos lá.
Então, fecho aqui a minha orelhada em tema tão difícil de haver consenso e objetividade. Teorias há muitas para explicar a derrota; ouvi umas duas ou três bem interessantes - como a do meu cumpadre Julio Vellozo, que se quiser pode ocupar esse humilde espaço para se manifestar - e um sem número das mesmas bobagens de costume, empunhadas pelos cretinos fundamentais que dominam redações e microfones pelo país afora. Mas o fato é que, para usar uma frase que inventei hoje de manhã, futebol é bola na rede. OS DOIS TIMES entram em campo e quem conseguir colocar a "esférica" entre os três paus maior número de vezes ganha a partida. Só que nós, brasileiros, temos uma dificuldade absurda e absoluta de admitirmos a possibilidade de que alguém jogue melhor, que seja mais eficiente e ganhe a partida. Sempre tem de haver "forças ocultas", racha no elenco, problemas de relacionamento, convulsões, crises, bolhas, armações políticas, resultados forjados, o escambau, para justificar o fato simples e óbvio que no esporte às vezes se ganha e às vezes se perde.
A minha visão sobre a Copa e a seleção dei a conhecer semana passada e só quero redizer a mesma coisa por um outro lado, depois que o cenário inverteu-se por razões notórias. Reafirmo: não faltou vontade à seleção brasileira. Individualmente, se pegarmos um por um, fica fácil de ver. Peço um exercício: leiam estes nomes pausadamente e quem viu o jogo (porque muita gente faz carnaval, paquera, enche a cara, mas o jogo mesmo não vê) lembre de suas feições individuais, correndo em campo: Dida, Cafu (jogou talvez pior partida de toda a sua vida, superado física e tecnicamente em campo; mas correu 90 minutos incansavelmente e foi digno, assim como na chegada no Brasil, dando a cara a bater com a tranqüilidade de quem deu o melhor de si, mesmo que esse melhor seja menos do que se esperasse), Lúcio, Juan; Emerson, Gilberto Silva, o grande Zé Roberto (o segundo melhor da seleção, calando, inclusive, a minha boca); Adriano, Kaká, Ronaldo. Não vai entender nunca nada do que se passou quem continuar achando que esses seres humanos (são humanos, sim, a despeito de ganharem um milhão de dólares por mês, coisa difícil de se entender, ou só a Xuxa e o Faustão é que são humanos?) entram em campo como se estivessem cumprindo uma formalidade burocrática, pagando uma conta de luz na fila do banco. Eles tremem, sim, sentem cagaço, sim, nervoso, ansiedade, gana, medo, alegria, saudade, o escambau. E jogam, dentro das limitações objetivas a que já me referi.
Então vocês perguntarão: mas o que aconteceu, afinal? Porque a despeito do que possa parecer não sou um débil mental completo e sei que jogamos muito mal no sábado, muito mais mal do que seria previsível ou aceitável. E sei também que o time não chegou a empolgar no restante da competição. Três fatores, em minha opinião: 1) A falta de carisma, já ventilada na semana passada, que em outras palavras pode também ser lida como a falta de lideranças capazes de superar o histórico e objetivo distanciamento entre o escrete e a nação brasileira. 2) A falta de fibra, de aguerrimento, de sangue nos olhos. Isso é muito diferente de falta de vontade. Mas não é do time, não. É do brasileiro, em geral, que talvez tenha que gastar toda a sua força de luta e dedicação pra ganhar a vida suada no dia-a-dia e não sobre muito para a política, a competição esportiva etc. Essa tão propalada falta de gana é proverbial e histórica na história político-social do Brasil e também na história de seu futebol, tirando as exceções confirmatórias de sempre. Não temos a garra argentina, a sanha uruguaia. E o que, talvez, tenha feito Pelé tão maior do que todos os outros, além de suas magistrais qualidades técnicas, tenha sido o que batizou um zagueiro adversário "seu olhar de fera acuada". 3) (decorrente do funesto somatório das duas primeiras) A falta de superação das individualidades em prol de um projeto coletivo, de um espírito de equipe, voltado obstinadamente para um único objetivo, qual seja a vitória. Uma coisa é vontade de vencer e consciência de que deve-se dar o melhor de si. Isso não faltou, repito pela enésima vez. Mas falta o que faça colocar essa vontade como projeto a ser coletivamente desenvolvido, para ser coletivamente colhido o louro do sucesso. De colocar essa vontade e esse desígnio coletivo acima de qualquer outra vontade, outro desígnio, outra vaidade ou qualquer idiossincrasia.
Repito o que desde o começo desta Copa não deixa de ser a razão primordial para eu estar metendo o bedelho nessa seara tão espinhosa: quem mais atrapalha o Brasil são os brasileiros. Melhor dizendo, meia-dúzia de "brasileiros" de meia-tijela que, EXATAMENTE COMO OS JOGADORES QUE TANTO CRITICAM, não são capazes de colocar a sua torcida por uma vitória coletiva, NACIONAL, acima de suas vaidades e de seus interesses particulares. Isso vale para os jornalistas que precisam sobreviver do tradicional "eu não avisei?"; isso vale pra essa malta de mequetrefes novos-ricos que vai à Alemanha não torcer pelo Brasil, mas vai para poder dizer pros amigos "da balada" que esteve lá "dando força" e testemunhando pessoalmente o hexa; vale para os vários maus brasileiros de plantão que apreciam tanto o estigma da derrota, para poderem justificar, por exemplo, por que não pagam impostos, por que metem a mão no dinheiro público, ou por que, simplesmente, tratam tão somente de cuidar de suas vidinhas e podem danar-se para o destino da coletividade; podem eleger seus candidatos safados para servir de despachantes de seus interesses particulares.. "Por quê, afinal, tenho que pagar imposto e me importar com o destino público, se esse povo não merece?" "Por que tenho que me preocupar com os pobres, se esses não tem caráter mesmo, como bem demonstram os ex-pobres que a elite permitiu ascendessem ao círculo dos eleitos, contanto que dessem suas pernas a quebrar e seu sangue a derramar nos gramados em honra da nação?" E por aí vai
Quero fazer uma declaração e pedir ajuda (dos meus advogados Edu Goldenberg e Marcão Gramegna, no caso): declaro para todos os fins e a quem interessar possa, que se alguém queimar uma bandeira do Brasil do meu lado por causa da derrota de sábado, da eliminação da Copa ou qualquer coisa que o valha, matarei essa pessoa com as minhas próprias mãos. E transcrevo, para ilustrar, ao fim e ao cabo, da Folha de S. Paulo de hoje : "Tão derrotados quanto a brasileira, a seleção argentina chegou anteontem a Buenos Aires. Mas houve festa para os que voltavam.[...] Com bumbos e faixas de agradecimento à campanha da equipe ('Deixaram tudo em campo. Bancamos vocês até a morte'), pediram a[o técnico] Pekelman que fique. [...] A recepção calorosa foi animada pela tônica da imprensa: 'Morremos de pé'." (destaque meu, sim senhores. Enquanto isso, os "patriotas" brasileiros que foram "receber" os jogadores no aeroporto de São Paulo, ofenderam e enxovalharam a honra do Capitão do Penta, esse lutador digno, esse símbolo do futebol brasileiro, o homem que mais defendeu o Brasil em copas. O homem que quando estava no degrau mais alto do mais alto pódio tratou de exaltar o bairro humilde, pobre e esquecido onde nasceu.
A vocês, hermanos, meus respeitos. Na bola e na vida. Um dia chegaremos lá.
Assinar:
Postagens (Atom)
